domingo, 26 de outubro de 2025

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte IV.

 

A transição – IV.

 

Não obstante os arrazoados aqui postados se enquadrarem naquilo que se poderia denominar de “História do presente”, bem como a sua substância elementar estar situada na memória, o “Tempo presente” é o seu eixo monumental, indicando que as camadas que foram levantadas pelo indivíduo que lembra, o foram de modo aa atender ao estímulo produzido pelo pertencimento à sociedade que fornece o instrumental indispensável para que tais lembranças possam ser ativadas, permitindo ao ser que lembra, dispô-los de tal forma que seja possível reconstituir aquele passado no qual estavam mergulhadas situações, circunstâncias, sensações e movimentos que marcaram o seu transitar no cotidiano vivido em um tempo já há muito mergulhado na profundeza daquela história que se quer rememorar, ao menos, alguma faceta que dela emerge do esquecimento e/ou do silenciamento. “A memória introduz o passado no presente sem modificá-lo, mas  necessariamente atualizando-o; é preciso considerar atentamente que o  passado é por via de regra plural, um pulsar da descontinuidade. [...].” (SEIXAS, 2001, p. 50). Mobilizar  camadas do passado já cobertas por outras muitas que foram acumuladas ao longo do tempo e trazê-las para a superfície, implica em um exercício de estimulação daquelas lembranças que farão o construto de um rememorar expresso no falar e/ou no escrever. Conforme preconiza Bosi em sua “Memória e sociedade: lembranças de Velhos”: “Por muito que deva à memória coletiva, é o indivíduo que recorda. Ele é o memorizador e das camadas do passado a que tem acesso  pode reter objetos que são, para ele, e só para ele, significativos dentro  de um tesouro comum” (BOSI, 1994, p. 411).

É neste sentido que se pretende desenvolver mais este arrazoado que tem José Mário, uma vez mais como protagonista, quando se dispõe a percorrer o caminho que o poderá conduzir à Faculdade de Formação de Professores de Alagoinhas, para ali, desenvolver o processo que, concluído, fará dele um professor de História. Nele, se inscreve a sua busca por melhorar as suas condições de competitividade, na medida em que procurará meios e pessoas que o possam ajudar a percorrer mais esta etapa. Imbuído deste propósito, ele começa a imaginar por quais áreas  precisaria enfrentar as fragilidades formativas, no intento de abarcar ao menos os aspectos delas seria preciso atacar de imediato.

Portanto, vencidas as primeiras etapas daquela caminhada, era preciso seguir, indo  mais além, entendendo-se com aqueles professores que pudessem contribuir com ele, agora em um capo mais prático, visto que a sua defasagem era muito grande em todas as áreas do saber, mormente, naquelas em que envolviam as “Ciências duras”: matemática, química, física, biologia, visto serem os seus desempenhos bem fracos nelas e que, precisaria pontuar minimamente, para compensar naquelas outras em que ele tivera um aproveitamento melhor e, cujo peso – que ele sequer entendia o que seria aquilo – era maior, no momento da avaliação correspondente à área escolhida.

Não obstante José Mário conhecer alguns professores de boa qualidade e de boa índole que trabalhavam com as ciências exatas, ele não possuía relações de amizade com qualquer deles; ou, aquele poucos que se disporiam a emprestar-lhe tempo e suporte naquele campo, estavam impedidos de o fazer, dado aos seus afazeres profissionais e pessoais – além da distância entre os seus lugares de morada, bem como a falta de meios que propiciasse o deslocamento -, o que obstaculizavam o atendimento daquele aluno em sua necessidade objetiva de reduzir o fosso entre o que ele aprendera no transcurso regular do seu processo escolar e, aquilo que precisaria aprender e apreender, visando a feitura das provas vestibulares.

Quanto ao campo das ciências humanas, ele se propôs a realizar estudos/leituras solo, aproveitando uma razoável publicação de livros em Braille que abarcava minimamente a produção do conhecimento pertinente àquela área. História, geografia e afins, era possível de obter em Braille, mediante solicitação à Fundação para o Livro do Cego no Brasil. Para realizar aquele tipo de estudo, José Mário se obrigava a uma disciplina e a uma rotina, de modo a se manter constante no objetivo que se propôs a alcançar.

Entretanto, ele não se sentiu seguro em levar a cabo um estudo solo da língua portuguesa, da sua gramática e da sua literatura. Para aquela tarefa, ele pode contar com o préstimo valiosíssimo da sua professora no Estadual em algumas das suas fases de escolarização. Era a professora Edna Garcia Batista (1945-2017), que não só se prontificou a partilhar com José Mário os seus vastos e sólidos conhecimentos da matéria, como o recebera em sua casa para lhe proporcionar aquelas lições que foram tão úteis, não só para o vestibular, como também para a vida pessoal e acadêmica futura. Munido de uma gramática que possuía transcrita em Braille, nos dias aprazados e nas longas tardes quentes de dezembro de 1985 e de janeiro do ano seguinte, ele comparecia para as aulas da mestre que, evidentemente não estava limitada a uma única gramática como ele, mas apresentava os conteúdos com a leveza de quem dominava o idioma e a literatura que largamente o fazia compreender. Nem é preciso dizer que aquelas aulas foram de grande valia para aquele estudante frágil em seu acúmulo propedêutico, na medida em que possibilitou o seu bom desempenho nas provas relacionadas ao conteúdo cobrado nas questões de língua e literatura, quanto nas construção do texto redacional correspondente àquele certame.

Assim, entre bons goles de café e excelente pão fresco oriundo das mãos do senhor Lourival, seu marido, as aulas fluíam agradáveis, malgrado o calor quase sufocante que se procurava minimizar com ventiladores tão quentes quanto o ambiente. Seria interessante notar que não assoma à lembrança deste garatujador, a ocorrência daquelas chuvas quase devastadoras, comuns na Alagoinhas daquela época do ano. O que indica não ter havido qualquer intercorrência que exigisse a suspensão daquelas agradáveis tardes de excelente companhia e de grande aprendizagem.

 

Alagoinhas – 26 de outubro de 2025 – primavera brasileira.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 19 de outubro de 2025

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte III.

A transição – III.

 

Evocando a professora Ecléa Bosi (1936-2017),é possível asseverar que a memória trazida aqui para estes escritos está fincada naquilo que ela entende como sendo “[...], a lembrança pura”, pois ela aparece “[...] quando se atualiza na  imagem-lembrança” e, portanto, “[...], traz à tona da consciência um momento único, singular,. _não repetido, _irreversível, da vida. Daí, também, o caráter não  mecânico, mas evocativo, do seu aparecimento por via da memória. [...]. “[...]. A imagem-lembrança tem data certa:  refere-se a uma situação definida, individualizada, [...]”. (BOSI, 1994, p. 49). Este posicionamento de Bosi está fundamentado em Halbwachs (1877-1945), que em sua “Memória Coletiva” considera que “Para confirmar ou recordar uma lembrança, não são necessários testemunhos no sentido literal da palavra, ou seja, indivíduos presentes sob uma forma material e sensível.”. Algumas linhas abaixo ele reforça a proposição, indicando que “[...]. Uma ou muitas pessoas juntando suas lembranças conseguem descrever com muita exatidão fatos ou objetos que vimos ao mesmo tempo em que elas, e conseguem até reconstituir toda a seqüência de nossos atos e nossas palavras em circunstâncias definidas, sem que nos lembremos de nada de tudo isso. [...].” (HALBWACHS, 2006, P. 31). No entanto, ao trazer o passado para o presente, mediante a evocação daquelas lembranças que ainda se podem evocar, ainda que fragmentadas e, em parte reconstruídas por quem lembra, é possível elaborar um rememorar consistente de eventos e circunstâncias vividos naquele passado evocado, a partir de elementos do presente em que o texto é escrito.

É nesta perspectiva que se pretende continuar a discorrer sobre o processo de transição entre o então segundo grau e a busca de José Mário por ingressar no ensino superior, que se vem abordando há já um par de textos postados neste espaço virtual de leitura e reflexão. Neles, se procurou apresentar algumas das estreitas margens do seu viver que o limitava em suas tomadas de decisão a tal respeito. Também ali, se procurou demonstrar que, embora ele tivesse consciência dos limites que social e economicamente a vida lhe impunha, recebera de alguns dos seus poucos amigos a oferta de apoio, no sentido de lhe propiciar alguns meios para fazer face a elas, em caso de partir para o enfrentamento das condições postas, com vistas a fazer o percurso até o curso de licenciatura em História, que, uma vez integralizado, acabaria por o tornar professor.

Chegara outubro e com ele o espraiar dos ares primaveris. O farfalhar das folhas ao ventos, o chilrear dos muitos pássaros nas árvores já frutificando, os aromas da aurora enchendo os pulmões de frescor indizível, dava ao viajor os sinais de que o raiar do dia se fazia já em pleno desabrochar, convidando os operários, as que laboravam nos rios e os estudantes do matutino para que se levantassem e rumassem para os seus espaços de labutas diárias. Como não poderia deixar de ser, José Mário, acordado por volta das cinco da manhã de um daqueles dias de outubro de 1985, se dirigia para o “Estadual”, fazendo o trajeto da sua casa até o estabelecimento de ensino, caminhando pela rua 2 de julho, por vezes, recebia carona na carroceria de uma chevrolet C10, pertencente a um pai que levava as filhas para o mesmo local, seguindo pela Severino Vieira, atravessando a rua Luiz Vianna Filho e a rua Juracy Magalhães, para mais à frente virar a esquerda na rua 21 de abril, alcançando por fim o então debutante “Estadual”. Tendo ali chegado, ao descer do veículo, agradecia a gentileza do seu proprietário e ingressava no Centro Integrado Luiz Navarro de Brito, para participar das aulas e, após o seu término, dali sair para se dirigir até o prédio onde funcionava a Faculdade de Formação de Professores de Alagoinhas, espaço que algumas vezes visitara no intuito de fazer uso da biblioteca mas, que daquela vez, ali chegara para fazer a sua inscrição no vestibular, candidatando-se ao curso de Licenciatura Plena em História.

Tendo ali chegado e, se dirigido ao local onde se processavam os trabalhos de inscrição para o dito certame, José Mário teve que ser encaminhado para uma conversa com o professor José Sales– já seu conhecido por conta da sua efêmera passagem pela Primeira Igreja Batista de Alagoinhas –, professor da instituição, que presidia a comissão encarregada daquela tarefa, sem que, no entanto,  ele atinasse a razão ou a necessidade daquela entrevista, uma vez que, ao se apresentar como candidato, já levara a documentação exigida para tanto e, o recurso monetário com o qual ele pagaria a taxa referente ao seu pleito. Mal poderia imaginar que, aquela seria uma sinalização de que, em caso de aprovação, ele enfrentaria inúmeras turbulências durante o processo formativo para o qual pretendia percorrer.

José Mário saiu da tal entrevista com a sensação de que aquele lugar não seria para ele, nem para pessoas outras que causassem algum mal-estar na condução de processo de aprendizagem, provocando uma espécie de “quebra de paradigma”, no que respeita ao modo de funcionamento da engrenagem há tempos consolidada. Talvez, o “mal-estar”, não tenha sido provocado necessariamente pela sua condição econômica, tampouco pela sua origem social. Mas sim, a sua condição de cegueira, acabara pôr os assustar, por assim dizer, uma vez que, imaginavam – embora nunca tenham dito –, não estariam prontos para o receber enquanto aluno. Afinal, a escola, independentemente do nível de ensino em que esteja inserida, é um espaço de exclusão de tantos quantos não vejam, não ouçam/falem, não tenham o pleno desfrute dos movimentos ou, não tenham um ritmo cognitivo compatível com o que se considera “normal” ao ser humano. Como já é cediço – ou deveria sê-lo –, tanto na sua compleição orgânica, quanto no seu modo de funcionamento, a escola não foi feita para estes tipos acima apontados – basta prestar a devida atenção aos elementos constitutivos inerentes à escola: professora escrevendo no quadro para alunos copiarem em cadernos; ou falando para alunos ouvirem; leituras passivas e/ou ativas; respostas pedidas e recebidas em um tempo breve; aferições de aprendizagem alinhadas a determinados padrões de raciocínio e compreensão do ensinado, tudo isto em um ritmo estipulado. Ao contrário: ela foi feita para quem goza do funcionamento “normal” e pleno de todos os sentidos, para aqueles que não possuem restrições de mobilidade e, para quem pensa, raciocina e racionaliza, dentro de uma “caixa” inscrita no campo da “normalidade”. Logo, aquele candidato a aluno já chega causando preocupações àqueles que eram os responsáveis por solicitar ao órgão elaborador das provas e do material a ser utilizado no processo de execução do certame seletivo, visto não terem a menor ideia de como proceder. Aliás, fora está a motivação alegada para a tal conversa em separado com a comissão, o que lhe causara espécie, uma vez que, em sua cabeça não passava a ideia de que aqueles professores, alocados no ensino superior, trouxesse aquele vácuo de conhecimento do modo como deveria conduzir atividade docência, independentemente do aluno naquele que ingressasse naquele nível de formação.

Enfim, ultrapassado este primeiro obstáculo – ainda que à época não tenha sido percebido como tal –, a candidatura foi devidamente registrada e, José Mário, a partir daquela data, haveria que empreender esforços para alcançar uma preparação, ainda que mínima e precária, que não viesse a frustrar, não só a sua própria expectativa mas, também, a daquelas pessoas que depositaram crédito em sua capacidade de luta e de esforço para encarar mais aquele desafio. Era, portanto, o tempo de procurar encontrar pessoas que lhe pudessem auxiliar na redução de danos, quais sejam: ao falta dos rudimentos mais elementares que deveriam ter sido estabelecidos no transcurso do Segundo Grau e, que, para ele, estava bem aquém daquilo que ele precisava para obter o desempenho, ao menos suficiente para se fazer aprovar naquela empreitada em que ele já chegava com uma grande defasagem em relação a uma boa parte dos candidatos.

 

Alagoinhas, 19 de outubro  de 2025 – primavera brasileira.

José Jorge Andrade Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 12 de outubro de 2025

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte II.

A transição – II.

 

Retomando a escrita iniciada há alguns dias, quando se discorreu sobre o primeiro momento em que se iniciava uma transição marcada pelos lapsos de ideias que se afiguravam no cérebro do protagonista destes garatujares, em que se cogitava um novo caminhar que partiria da conclusão do ensino médio para se fazer ingressar no ensino superior, aqui se procurará dar continuidade ao arrazoado que deu início à série que o paciente leitor ora tem diante de si, na qual o seu autor se disporá a discorrer sobre o tempo em que José Mário passava a conjecturar sobre qual seria a maneira por meio da qual se prepararia  para o processo seletivo, a partir do qual se imiscuiria no processo de formação superior, que o faria preparado para se tornar professor – ao menos, era este o propósito de um curso de licenciatura -, fornecendo a ele – bem como aos demais discentes –,  as ferramentas para a inserção no labor escolar. Era um “tempo” de decisões que repercutiriam por toda a sua vida, ensejando aquilo que para José Mário seria uma “virada de chave” – como se diz – para o caminhar sinuoso que vinha se delineando, o que o obrigaria procurar fazer daquele decidir, um momento definitivo de afirmação, tanto enquanto cidadão do mundo, como enquanto alguém que buscava se preparar para construir e desenvolver uma vida profissional.

Em conformidade com o postulado de Jacques Le Goff, (1924-2014), ao desenvolver verbete para a enciclopédia Einaudi, publicado no Brasil em  forma de livro pela editora da Unicamp, no qual assevera que “A memória, como propriedade de conservar certas informações, remete-nos em primeiro lugar a um conjunto de funções psíquicas, graças às quais o homem pode atualizar impressões ou informações passadas, ou que ele representa como passadas” (LE GOFF, 1996, p. 423), é que este escrevente procurará levantar algumas camadas já bastante espessas acumuladas há um bom já passar de tempos, intentando trazer alguns fragmentos de lembranças com os quais possa revisitar aquele passado que aqui se pretende evocar.

No arrazoado anterior, José Mário foi deixado ao sabor dos seus pensamentos, quando cogitava sobre o que fazer após concluir aquele excessivamente longo ciclo formativo, quando as ideias e as hipóteses bailavam em seu cérebro, assim como a maneira como tal ou qual possibilidade se encaminharia. O terceiro ano do segundo grau se desenrolava sem grandes tropeços ou percalços e o seu desfecho acabara por se dar em conformidade com o que seria recomendável, noves fora um pequeno susto causado por uma greve professoral deflagrada quase no fim do ano letivo, cuja consequência para o alunado foi a postergação da colação de grau por alguns dias e, consequente adiamento da entrega dos certificados comprobatórios da conclusão de curso. Fora este pequeno incidente de ordem institucional, nada mais houve que viesse a obstar aquele fim de processo.

Mas, fora deste transcorrer de caminhada escolar formal, havia que se encetar gestões no sentido de dar largas aos novos pensamentos que lhe brotaram com o intuito de viabilizar a preparação para as outras etapas do seu processo formativo. Neste sentido, convinha encontrar as pessoas e os meios para que ele pudesse fazer frente ao novo caminhar.

Portanto, era preciso considerar que, àquela altura do seu caminhar processual,  a José Mário faltava tudo: as bases elementares para o enfrentamento de um vestibular, em condições mínimas de aprovação – rudimentos matemáticos, de física, de química, de biologia, conhecimentos em diversas outras áreas que, ao concluir o segundo grau, ele já deveria possuir, entre outras deficiências formativas –; de sorte que a sua investida não fosse vã e frustrante, uma vez que, como se já salientou, a sua idade já se fazia avançar, no sentido de iniciar e concluir mais uma etapa de preparação para o mercado de trabalho – os dispositivos legais em vigor naquele instante de sua vida, indicavam que a realização de concurso público só seria possível até os trinta anos completos –, o que insidia em mais pressão sobre aquele rapaz que em breve, entraria no início do seu segundo quartel de existência. Também, a ele faltavam os recursos financeiros que lhe permitissem ingressar em algum curso pré-vestibular; que lhe permitisse uma eventual contratação de professor para uma ou duas matérias específicas; recursos tiflológicos que lhe permitissem  aceder às matérias por meio do sistema Braille, no sentido de lhe propiciar uma maior e melhor apreensão dos conteúdos propedêuticos necessários à obtenção de êxito naquela empreitada – sem falar que não possuía nem mesmo a grana para a inscrição no dito cujo. Mas, ele também não dispunha de um espaço adequado para a realização de leituras/estudos dos livros e matérias propostas, o que dificultava um pouquinho mais a sua preparação. Era, pois, um tempo de escassez de quase tudo; até mesmo dos meios para a sua manutenção cotidiana, o que obrigava a reduzir ao factível as possíveis ambições; o que limitava até mesmo os sonhares, na medida em que, apesar de sonhar não haver custo, ele estava sujeito à possibilidade de se fazer frente ao custo de sua realização. Talvez, seja preciso lembrar ao arguto leitor que, tudo isto atuava como elemento limitador e, mesmo, inibidor para qualquer intento de ser isto, fazer aquilo..., enfim, se fazer “homem”, conforme entendia a sua genitora: ter com que se manter.

Conforme o leitor pode perceber, aquele pretenso vestibulando estava fadado ao fracasso ou à desistência, devido à falta das condições normais de pressão e temperatura, no tempo em que estava inserido o seu caminhar terráqueo. Mas, ao que parece, a palavra “desistência” não era de emprego comum para aquele sujeito teimoso, nem o verbo “desistir” era facilmente conjugado por ele, embora esta parte da gramática ele dominasse bem. Acredita-se que precisaria mesmo conjugar o verbo “insistir”, pois, outra conjugação, saliente-se, não seria do seu feitio, visto ser aquele conjugar uma necessidade presente e constante no seu trilhar da vida formativa. Assim pensando, estava ele assim fazendo. enquanto o ano de 1985 corria célere, ele entabulava conversas com os seus poucos amigos, que logo se dispuseram a caminhar com ele aquela jornada. Um deles, garantira-lhe o recurso necessário para a feitura da inscrição e outra, dedicara-lhe tempo e paciência para que ele pudesse dirimir dúvidas e aprender o que desconhecia sobre a língua portuguesa e a literatura, campo em que, embora fosse excelente e profuso leitor –de acordo com o que já se arrazoou em escritos pretéritos –, carecia de conhecimentos teóricos que lhe fizessem compreender os elementos formadores e norteadores do fazer literário: escolas, formatos, modos de composição, entre outras características que, certamente, seriam cobradas em forma de questões e, que ele, não saberia responder adequada e corretamente. De sorte que, enquanto se empenhava em concluir o segundo grau, paralelamente, ele se esforçava por obter uma preparação, ainda que mínima, para se submeter à seleção que, sendo aprovado, o levaria  ingressar em um curso de grau superior.

Para concluir estes garatujares, cabe salientar que algum vento também lhe soprara a favor, na medida em que a oferta dos cursos a serem disputados naquele próximo exame, trouxera uma boníssima novidade. No arrazoado anterior, foi comentado que o curso que lhe era possível postular em sua cidade, o que não demandaria custos extraorçamentários para o seu acompanhamento, era o de Licenciatura Curta em Estudos Sociais, o que lhe provocara alguma resistência em se candidatar, visto ser aquele, um curso inventado/imposto pela Ditadura Militar que se impusera ao País, mediante golpe perpetrado em abril de 1964 e, que para ele, soava como incongruente, na medida em que o seu objetivo era impedir que a História, a Filosofia e a Sociologia – pretensamente embutidas  naquela matéria draconiana –, viesse a criar um espírito crítico nos estudantes – ou amortecer a criticidade naquele que eventualmente já a possuísse. No entanto, começara a correr entre os concluintes do segundo grau e, claro, chegara até ele, o boato que, na verdade, aquele curso de Estudos sociais, em forma de licenciatura curta – com uma duração de dois anos e meio, provocando a necessidade de uma complementação, o que só se daria em Feira de Santana –, seria substituído pelo curso de História, com duração plena. Imediatamente, José Mário correu para se certificar da novidade e, tendo sido informado da procedência da informação, mais ainda se interessou por se preparar para enfrentar aquele certame, por meio do qual, buscaria fazer parte daquela que seria a primeira turma de História que se formaria com o preenchimento das quarenta vagas que foram disponibilizadas para aqueles que se habilitassem a concorrer a uma delas.

 

Alagoinhas – 12 de outubro de 2025 – primavera brasileira

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com

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domingo, 5 de outubro de 2025

O TEMPO DA GRADUAÇÃO – 1986-1991 – Parte I.

A transição – I.

 

Conforme já depreende o leitor destes garatujares, aqui se inicia mais uma série de postagens, cujos fundamentos estão assentados nos rememorares de quem as escreve e publica neste espaço. Nela se pretende retomar algumas observações já feitas ao longo do tempo em que se escreve neste blog, procurando aprofundar algumas incursões na memória aqui já feitas, talvez de maneira aligeirada, intentando encontrar explicações ou respostas, ainda que inconclusivas, para algumas questões, igualmente já levantadas, que possam vir a surgir no transcurso da construção da referida série. Estando envolvido com leituras de pressupostos teóricos que tem como objetivo a compreensão do tempo histórico e da sua importância para a compreensão da História, este escrevedor acaba por refletir no seu “tempo histórico”, vivido pessoal e coletivamente, buscando reforçar o trabalho que tem desenvolvido nos últimos quinze anos de sua vida acadêmica, tomando a “memória” como ponto de inflexão para a construção de fontes históricas com as quais possa desenvolver as pesquisas que tenham o propósito de elaborar estudos sobre a “cidade” nos diversos âmbitos do cotidiano que constitui o seu farfalhar social.

A propósito da perspectiva do tempo no “fazer histórico, já nas páginas introdutórias de sua obra “O Tempo dos Historiadores” (2013), José d’Assunção Barros, assevera que “[...]. Situar todas as coisas no tempo — enxergá-las sob a perspectiva de que cada uma delas interage e ajuda a constituir um contexto, unindo-se a uma vasta rede de outras coisas que também se inscrevem no tempo — é típico da História. Os historiadores estão presos ao tempo, literalmente. [...]. O que é visceral mesmo, em cada historiador, é a ideia de que tudo se inscreve no tempo, de que tudo se transforma — e de que devemos refletir de modo problematizado sobre cada uma destas transformações, deixando que incida sobre elas uma análise que será a nossa e que, de resto, também se inscreve no tempo” (BARROS, 2013, p. 17-18). 

Ainda conforme preconiza Barros, “[...] Quando se diz que ”a História é o estudo dos homens no tempo”, rompe-se com a ideia de que a História deve examinar apenas e necessariamente o passado. O que ela estuda, na verdade, são as ações e transformações humanas (ou permanências) que se desenvolvem ou se estabelecem em um determinado período de tempo, mais longo ou mais curto” (BARROS, 2013, p. 18).

E mais adiante, Barros fornece a ferramenta conceitual a partir da qual o perquiridor da história vai construir as suas reflexões acerca da sociedade humana na qual concentra as suas atenções, propugnando que “[...]. O tempo dos historiadores refere-se essencialmente à existência dos homens. O que de fato interessa a um historiador é a passagem do homem sobre a Terra, o que inclui tudo aquilo que, tocado pelo homem, transformou-se, e também aquilo que, vindo de fora, transformou a vida humana” (BARROS, 2013, p. 20). 

Portanto, é nesta perspectiva que se pretende discorrer sobre o caminhar de José Mário nas sendas do seu processo formativo acadêmico, abordando algumas dentre tantas passagens do seu trilhar aquelas paragens desconhecidas e, porque não dizer, de possibilidade de o fazer, pouco prováveis a ele, que em grande medida, não estava devidamente provido das ferramentas adequadas, nem dos recursos necessários, muito menos dos pressupostos teóricos fundamentais para empreender aquela jornada. Como já sabe o leitor deste espaço, José Mário fizera um primeiro grau bastante irregular, com diversas interrupções e outras tantas soluções de continuidade; um segundo grau – hoje denominado “Ensino Médio”, cuja diferença não se resume à sua nomenclatura –, embora feito com alguma regularidade no que tange ao correr das séries, não obtivera um bom acúmulo de saberes que o habilitasse a maiores intentos e mais altas pretensões propedêuticas, visto tê-lo concluído em uma versão técnica, o que lhe não permitia lidar com ensinos aprofundados de matérias que lhe indicariam, ao menos, já haver tomado contato de um elenco de conteúdos com os quais precisaria lidar, no momento de se lançar em seleções vestibulares, caso viesse a pretender se imiscuir no caminho da formação universitária.

Ao se iniciar o ano letivo de 1985, José Mário, sequer cogitava a mais intangível possibilidade de se lançar empreitadas que viessem a resultar no ingresso em um curso superior. Primeiro, estava posta a interrogação sobre as suas condições objetivas em se fazer aprovar em um vestibular, dado ao grau de dificuldade e ao nível de exigência posta por aquele tipo de certame, representado pela obrigatoriedade de ler  - ou ter lido – um conjunto de autores e obras literárias, por exemplo. Embora, como já se disse aqui, ele tenha percorrido um bom número de títulos, grande parte daqueles que apareciam nas listas propostas pelas principais universidades do País que lhe chegara ao conhecimento, jamais lhe passara pelas pontas dos dedos. Outrossim, como já é cediço, a grande defasagem entre aquilo que lhe fora proporcionado no campo das ciências exatas – não deixando de salientar, aquilo que ele não conseguira absorver/aprender – e aquilo que era cobrado naquele tipo de demanda para ingressar no ensino superior, impactaria ineludivelmente, no seu desempenho diante dos problemas relativos àquela área do conhecimento, não obstante, algumas das provas serem compostas de questões objetivas. Embora ele nem mesmo tivesse cogitado inserir-se naquele tipo de embate, o fato de não dispor daquelas condições objetivas não deixava de ser por ele consideradas. E, caso viesse a pensar em se envolver em tal, sob aquelas condições adversas, ele não possuía ilusões. Aquelas que, quiçá um dia houvesse possuído, morreram no embate com a realidade vivida até ali, nas proximidades de completar o primeiro quarto de Século, indicando que o tempo já passava e a percepção daquela passagem, já se apresentava com a aparência de maior velocidade.

Segundo, se porventura viesse a passar em algum daqueles certames, viria uma outra dificuldade a se enfrentar, que, ele sabia, não havia como resolver, ao menos, nas condições as quais ele e a sua provedora estavam sujeitos. A moradia e a alimentação fora das quatro paredes do seu residir, era, por assim dizer, um obstáculo intransponível, visto não possuir nenhum lugar onde pudesse morar, fosse em Salvador ou em Feira de Santana, bem como não possuir parentes, aderentes ou mesmo amigos que o pudesse socorrer em tais circunstâncias; nem haver recursos financeiros que permitissem uma locação – de casa, de apartamento ou de vaga de pensão. Isto implicava em acrescentar mais um obstáculo a uma eventual caminhada no processo de formação acadêmica, na medida em que, sem morar e sem se alimentar, não havia como cursar. Saliente-se de passagem que, nem estava posto o item deslocamento no conjunto de necessidades de um estudante que não possuía residência em Salvador ou em Feira de Santana – para falar em cidades próximas daquela onde se localizava a sua moradia –, uma vez que, consuetudinariamente, ele contava com a gratuidade nos transportes públicos. Mesmo aquela gratuidade, estava sujeita à interpretação de condutores, despachantes e, principalmente,, da maneira como os proprietários das empresas concessionárias de transportes a compreendiam, visto não haver “leis escritas” que a regulassem, implicando em travamentos de tais deslocamentos, sobretudo, no âmbito intermunicipal.

É assim que, ainda que não tomando esses elementos de modo organizado como aqui se resumiu, para José Mário, aquele seria apenas o ano da conclusão do Segundo Grau e, de alguma forma, já seria um ganho, se assim se desse. A única possibilidade de um pretender aceder ao ensino superior que por vezes se lhe assomava ao espírito, em alguns lampejos logo apagados pelo seu recorrer à sua realidade objetiva, era a Faculdade de Formação de Professores de Alagoinhas, espaço que já visitava há um par de anos, no sentido de se valer do acervo de sua biblioteca, para elaboração de trabalhos escolares. Mas, o curso que ali era oferecido, que mais lhe instigava era o de licenciatura curta em Estudos Sociais, que lhe soava como um inacreditável tom de incongruência, visto que, aquele era um dos cursos inventados e impostos pela ditadura civil-militar, implantada pelo golpe perpetrado contra a democracia em 1964, com o objetivo de reduzir a reflexão e anular o pensamento crítico propiciados pelos cursos de História, Sociologia e Filosofia, incoerentemente embutidos nos tais “Estudos Sociais”. Além disto, para que fosse possível aquilo que se denominava “plenificação” do curso iniciado na FFPA, como era conhecida aquela instituição, seria necessária uma complementação em Feira de Santana, que colocaria em pauta, aquelas dificuldades já acima elencadas.

E, desta maneira, como não poderia deixar de ser, caso José Mário se quisesse aventurar numa nova caminhada por meio da qual viesse a se inserir no corpo discente formado por aqueles que ingressassem na FFPA, ainda que no curso estapafúrdio de “Estudos Sociais”, haveria que se preparar para fazer face às exigências inerentes àquele tipo de seleção. No entanto, conforme já se acentuou há algumas linhas, o seu objetivo primevo era, inarredavelmente, encerrar aquele ciclo escolar, o que se daria com um considerável atraso, em relação ao que se esperava de um aluno em condições normais de tempo e de temperatura: concluir o segundo grau entre os dezessete  e os dezoito anos. Naquele ano da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1985, aquele concluinte completaria 25 anos, redundando em uma defasagem de aproximadamente oito anos, o que equivaleria, mais ou menos, ao tempo de ingressar, cursar e concluir um curso de graduação, entrar em um programa de Pós-graduação para cursar e concluir o Mestrado e, ingressar em um programa de Pós-Graduação, nele cursando a metade do tempo necessário para defender a tese de doutorado.

 

Alagoinhas – 05 de outubro de 2025 – primavera brasileira

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com

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domingo, 28 de setembro de 2025

28 de setembro de 1975 – mais um domingo de um viver em internato

   O cheiro de cuscuz  na vizinhança

 

Em mais um arrazoado que se traz a quem visite este espaço virtual, procura-se apresentar mais um feixe de memórias há muito depositado sob camadas acumuladas pelo passar do tempo, cujo objetivo é extrair dele os silenciamentos impostos pelas muitas condições inerentes às escolhas do que lembrar e do que esquecer que, em última instância, nada mais é do que um silenciar. UM tal silenciar acaba por parecer um esquecer; na verdade, ao lembrar de algum momento vivido, nem sempre é possível verbalizar aquela lembrança, aquele momento que emergiu à superfície da memória, depois de ter atravessado algumas camadas que o encobriam e, que pareciam lhe obstar os movimentos que lhe permitissem assomar ao momento em que se dá a lembrança. O tempo, ao passar no seu passo irrefreável, deixa para trás os vestígios daquilo que foi vivido, em grande parte dele, só registrado na memória que se apresenta no presente de quem lembra, para que aquilo de que se lembra, seja iluminado  em alguns dos seus aspectos, permitindo acesso aos elementos constitutivos daquele lembrar, que por sua vez, sofre ressignificações no presente em que se lembra.

Assim, é neste sentido, que aqui se pretende trazer à lume e ao crivo de tantos quantos leiam estes rememorares, mais um daqueles momentos vividos por José Mário, entre os anos de 1975  e 1976, passados em confinamento nas dependências de um instituto para cegos. Localizado no bairro do Barbalho, na cidade de Salvador, aquele estabelecimento era apresentado ao público em geral e aos familiares dos que dele viessem a fazer uso em particular, como sendo um espaço onde as pessoas cegas ali alojadas teriam, além da formação propedêutica inerente à construção do saber necessário para a interação com o mundo comum dos demais elementos constitutivos da sociedade, também receberiam a orientação para a vida social, escolar e, claro, confessional. Através dos meios de comunicação que lhes abriam os espaços para divulgação e esclarecimentos da sua razão de ser, os seus dirigentes procuravam incutir no espírito daqueles que dele se aproximavam, a ideia de que era um local onde os internos estavam recebendo o treinamento para conseguirem inserção social, primeiro junto à escola e outros centros de obtenção dos saberes; depois, no mundo laboral, de onde buscariam obter o sustento e a subsistência. Talvez, se precise afirmar, de passagem, que tal construção argumentativa era falaciosa, na medida em que aquela propaganda, em grande parte das vezes e dos casos, não conseguia passar do caráter publicitário, servindo muito mais para o consolo dos familiares que precisariam deixar os seus cegos aos cuidados do tal estabelecimento, bem como para convencer ao público em geral, da necessidade de apoio financeiro para que o dito pudesse fazer frente às circunstâncias inerentes às suas condições de provimento de alojamento, de alimentação, de vestuário, de higiene dos internos, bem como das atividades de orientação que apontaram como sendo o propósito de sua existência, assim como de suas investidas em busca de recursos públicos e privados, para conseguirem levar a bom termo os serviços prestados.

Embora o tempo que aqui tenha sido evocado esteja situado no fim do mês de setembro de 1975, já em plena vigência da primavera há muito esperada, o que se pretende relatar nestes garatujares, poderia ter se dado em qualquer dos meses ou estações que marcaram o tempo que José Mário vivenciara o cotidiano daquele internato. Lá, onde tudo era marcado pelo ritmo imposto pelos sons dos sinos ou das sirenes, que indicavam os horários rígidos do silêncio do dormitório, do acordar para o banho matinal, da corrida ensandecida para a primeira refeição do dia e, os demais movimentos para as aulas internas, bem como para as demais atividades relacionadas ao funcionamento do internato eram, meticulosamente, marcada pelos sinais sonoros daqueles dois instrumentos, tão odiados quanto esperados pela maioria dos que ali viviam confinados. Portanto, como o arguto leitor pode depreender, nada se fazia ali, fora daqueles horários previstos e, assim, as refeições, por exemplos, obedeciam a estritos horários bem balizados, sem quaisquer possibilidades de modificações, sob quaisquer pretextos ou desejos, quer dos internos, quer dos funcionários que ali atuavam.

Mas, a rigidez dos movimentos e da operacionalização do sistema de internato imposto por àquele estabelecimento para cegos, não se restringia ao ritmo dos sons que demarcavam os horários em que tais ou quais atividades deveriam ser realizadas. Indo além dos ritmos dos movimentos e dos comportamentos, era igualmente, o que se daria a comer, para aquela gente de origem, hábitos e culturas alimentares variadas, também mantinha uma rigidez quase draconiana, na medida em que, em geral, não se tomava em conta nem mesmo as necessidades nutricionais – se diria hoje em dia –, na definição daquilo que se iria servir, das quantidades adequadas às idades dos internos; nem mesmo, se cogitava atender a alguma necessidade nutricional mais específica de alguns dentre eles.

Neste sentido, grassava a fome entre os internos daquele estabelecimento de abrigo para cegos, não no sentido de faltar o que comer; mas, no sentido de se comer mal; tanto do ponto de vista qualitativo, quanto – e principalmente – do ponto de vista quantitativo. Vez por outra, quase sempre sem razão aparente – especulava-se  que eram os momentos de visitas da chamada “diretoria externa” – algumas iguarias pouco usuais – galinhas, refrigerantes, leite, queijo, chocolates e doces ausentes do dia a dia, além de outras delícias que o paladar sentia a falta – surgiam nas mesas, em qualquer das refeições, para alegria dos comezinhos, que se refestelavam em mesa farta e sem restrições de quantidade nem de tempo de permanência no local das refeições. Mas, saliente-se que aqueles eram momentos raros, pouco comuns, tais quais passagens de cometas pela terra.

Outrossim,, cabe ressaltar de passagem que, malgrado os dirigentes se dizerem Católicos, Apostólicos Romanos e, obrigarem, por conseguinte, a que todos os internos assim o fossem, frequentando as missas, comungando, rezando todas as tardes e, sobretudo, no chamado mês de Maria, durante um dos mais evocados períodos do “ano litúrgico”, a “semana Santa”, a alimentação permanecia a mesma, sem o peixe nem os seus acompanhamentos “obrigatórios” para a ocasião, demarcando naquele espírito ainda um tanto em formação, uma das primeiras impressões do que mais tarde veio a saber se tratar da “hipocrisia”, que demandava dos outros, aquilo que os próprios demandantes não cumpriam. José Mário, embora não católico por convicção, estranhou o fato de que, nas duas daquelas ocasiões que lá estivera, uma das refeições servidas na semana que deveria ter sido santa, foi uma feijoada meio atrapalhada, que aliás, ele a devorara com toda a gula que o momento lhe permitiu. Alguns dos internos se impuseram jejum, tal o nível de convicção que os movia; outros, resignados e premidos pela fome de um estômago mal alimentado nas refeições anteriores, acabaram por sucumbir à exigência da carne que clamava por sustento.

E, enfim, muitas vezes, enquanto circulava no sexto andar e, ali aguardava o toque do sino chamando para o café, ele sentira, além do cheiro da Chadler que a brisa do mar ali próximo levava até as suas apuradas narinas, também um convidativo cheiro de cuscuz que vinha da vizinhança, apertando-lhe a saudade de casa e, impondo-lhe a tristeza, pela certeza de que não encontraria aquela iguaria na mesa diante da qual, se assentaria dali há alguns poucos minutos. Aliás, esta é uma das lembranças mais vivas que volta e meia se lhe assoma ao espírito, em recordações de um tempo em que o cuscuz do vizinho não só lembrava a casa da sua mãe, bem como lhe trazia o desejo de o encontrar naquela mesa onde dali há pouco tomaria o café e, sem aquele cuscuz, cujo cheiro lhe chegara, sem contudo, estar ali servido, como gostaria de encontrar.

Portanto, era sim fome: a fome de não comer o que desejava, pois, aquele cuscuz o levaria ao seu comer em casa; embora envolta em dificuldades para a obtenção dos víveres, aquela sua casa, naquele momento distante, por vezes se podia não só sentir o cheiro, mas sim, se comia um cuscuz de “Flor de Milho”, que àquelas horas das manhãs lhe fazia tanta falta.

 

Alagoinhas – 28 de setembro de 2025 – Primavera brasileira.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com

 

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domingo, 21 de setembro de 2025

21 de setembro de 1975 - Missa e Roupa Limpa

 

Domingo de Missa no repositório de cegos da Bahia

 

Excelentes e pacientes leitores que emprestam um pouco do seu tempo precioso para ler estes garatujares, tens hoje mais um deles em vossas telas. Em mais um mergulho nas profundezas silenciosas da memória, este escrevedor procurará trazer mais uns feixes de lembranças da passagem de José Mário pelo Instituto de Cegos Da Bahia, intentando desenvolver algumas reflexões sobre mais algumas facetas daquele seu processo de formação escolar e de pretenso amadurecimento para o convívio social. Conforme já se disse em arrazoados anteriores, ele ali estava “preso” ou, para usar um termo caro à civilidade, estava  “privado de sua liberdade”, não por uma escolha sua nem por um sentimento masoquista; mas, fora fruto de uma decisão pragmática, fundamentada em expectativas que, mais tarde, ao fim de todo o processo, se demonstraram inalcançadas, decisões, enfim, cujo lastro era a necessidade de se apropriar de instrumentos que o pudesse preparar para o mercado de trabalho e, claro, o pudesse dotar de ferramentas que lhe permitisse alcançar autonomia no campo da mobilidade. Aquele pragmatismo, portanto, fizera com que ele deixasse para trás o aprendizado que já desenvolvia, no que tange à apreensão dos espaços relacionados às suas necessidades de interação na cidade onde nascera – utilização de transporte que o levasse ao centro, por exemplo –; o conhecimento das ruas e direções que precisaria seguir, com o fito de chegar aos lugares em que precisasse estar; também deixara o convívio com a sua mãe e demais familiares, impactando fortemente sobre a realidade encontrada ao chegar no espaço em que seria confinado, dele só saindo para as atividades escolares e, para os períodos de férias, quando, aliás, voltava a se reencontrar com os ares alagoinhenses que, para ele, se assemelhavam aos ventos da liberdade de sair e de voltar para casa, quando quisesse, pudesse e apetecesse o fazer.

Embora as experiências vividas no Instituto de Cegos da Bahia já estejam encobertas por um grande números de camadas acumuladas ao longo do tempo, aquele que remonta a elas, ainda consegue extrair fragmentos que o ajudam a reconstruir, ao menos em partes, alguns dos elementos que acabaram por constituir a sua “memória”, não se perdendo de vista que, aqueles fragmentos que aqui ou ali ressurgem e se reconfiguram, emergem da escolha de quem lembra e, lembrando, traz à tona as reminiscências e quebra os silêncios que se estabeleceram, a despeito  de não terem sido de todo esquecidas. Isto posto, ressalta-se que, o fragmento que aqui se pretende trazer para conhecimento e reflexão de quem venha a ler estes rememorares, remonta ao ano da Graça de 1975, portanto, há cinquenta anos, quando o rapaz que os protagonizara, ainda não houvera completado a primeira década e meia do seu existir. Ainda assim, malgrado o já largo passar de tempos que se estabeleceram entre o momento vivido e o rememorado, os vestígios daqueles dias ainda se encontram vivos, como tendo sido gravado em pedra, a pedra do tempo já pretérito.

É assim que, aquele domingo, 21 de setembro de 1975, que se dizia iniciar-se a “estação das flores”, a tão decantada e esperada primavera, amanhecera como os demais dias vividos naquele repositório de cegos, todos obrigatoriamente acordados às seis da manhã, como nos demais dias da semana, despertados pelo barulho rouco e amaldiçoado de uma sirene executada por um dos funcionários encarregados daquela tarefa, dando início à execução da mesma rotina cotidiana: banhavam-se, vestiam-se de roupa limpa e adequada ao dia de domingo, subia-se para o sexto andar, ali, aguardando o toque da sineta para o café, sempre frugal e insuficiente para mitigar a fome daqueles adolescentes que, na sua quase totalidade, gastavam energias em atividades noturnas... Enquanto se aguardava aquele tão ansiado soar do sino vindo do refeitório, se aspirava o cheiro da “Chadler Industrial da Bahia S.A”, situada ali por perto, fabricante de um chocolate que, embora desejado, se sabia que tão cedo ou mesmo nunca se chegaria a comer; apesar dos muros altos, se podia receber os primeiros raios do sol primaveril; a brisa ainda fresca da manhã que ainda se espreguiçava em bocejos da aurora há pouco apresentada ao viajor, fazendo  com que aqueles que ali se encontrava procurassem encher os pulmões com os aromas embrulhados no frescor que o amanhecer exalava.

Depois de vaguear naquele espaço de recreação por alguns quase intermináveis quarenta minutos, ouviam quase todos o som que vinha do refeitório, lançando-se à escada, como gado impulsionado pelo resto da manada, querendo todos, há um só tempo, alcançar o ponto de onde julgavam escutar o chamado; as escadas não conseguiam obstaculizar a desabalada carreira empreendida pelos mais afoitos e, como não poderia deixar de ser, pelos mais comedidos ou tímidos, se é que a fome conseguia estabelecer distinção entre uns e outros. Caso não caísse alguém pelo caminho, enfim, chegavam todos às suas mesas, antes de se assentarem, todos maquinalmente rezavam uma reza incompreensível e repetida mecanicamente, quase todos temendo uma punição – para uns era a Divina; para outros tantos era a de Josefina -, em caso de serem flagrados sem cumprir o ritual que, necessariamente, deveria preceder a satisfação – parcial, como já se disse – daquela necessidade vital; uma vez assentados, todos devoravam ávidos o que lhes era dado como repasto – um café preto e fraco, quase morno, servido em canecos esmaltados, por vezes um terço de uma banana da terra, por outras um mingau que se não se distinguia plenamente de que era feito, um terço  de uma bisnaga de  pão –; ao mais um soar de sinos, todos se deviam levantar; uma vez mais, mecanicamente rezar e, já em passos mais lentos, todos deveriam retornar ao ponto do prédio de onde se deslocaram até onde então se encontravam. Cabe salientar de passagem, para fins de esclarecimento, que o ritual brevemente acima descrito, era aplicável a todos os dias, semanas, meses ou anos que fossem vividos naquele ambiente de quase quartel ou convento, de acordo com a equipe diretiva de plantão, onde incontáveis cegos foram depositados e arquivados  - e alguns esquecidos – por grande parte de suas vidas.

Tendo a manada retornado ao sexto andar, ali vagueava por mais um tempo que quase não passava, até ser chamada, uma vez mais, mediante o toque de um sino que, desta vez, a convocava para a capela, onde deveria, obrigatoriamente, fosse católico ou crente – ou nem uma coisa e nem outra – para ali ouvir missa dominical, com padre, sacristão, confissão e comunhão, de acordo com o prescrito no dogma religioso adotado pela instituição e imposto aos seus internos. Mesmo aqueles que já possuíam a permissão de sair para passeios, teriam que permanecer no local de realização da missa, até que, uma vez terminada, pudesse se dirigir para onde quisessem.

Uma vez ouvido o som que os chamava à audição do rito religioso dominical – faz-se necessário aditar o fato de que durante a semana, também havia tal obrigação que era cumprida no final das tardes –, os internos deveriam passar pelo vestiário, a fim de se fazer a conferência de sua indumentária, no que dizia respeito à limpeza e a adequação ao acesso à capela. A funcionária, constatando eventual sujeira ou algum outro desalinho na roupa de alguém dentre eles, providenciaria  ajustar o tal desalinho, para que o interno naquele repositório de cegos, se dirigisse à missa, vestido com a roupa limpa, podendo assim assistir o ofício religioso, executado por um prelado externo àquele espaço onde desempenharia a sua tarefa sacerdotal, em conformidade com o que era esperado da instituição que os abrigava.

 

Alagoinhas – 21 de setembro de 2025 – ainda inverno brasileiro

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 14 de setembro de 2025

As Linhas e as Entrelinhas – XV

 

– Obras e autores parte XII.

 

Recorrendo-se ainda uma vez aos escavares de camadas espessas da memória, considerando um tempo marcado por aquele passado que ainda é percebido no presente, com mais estes garatujares que o paciente leitor tem diante de si, chega-se ao termo destes arrazoares que já vem longos e, quiçá, levantando mais algumas camadas de memórias acumuladas no curso do tempo vivido, se pretende desenvolver mais algumas formulações envolvendo o processo formativo do protagonista até aqui envolvido nestes escritos, considerando o seu ingresso no ensino superior, depois de muitas idas e vindas experimentadas desde que ele começara a palmilhar a estrada dos pós vinte anos, momento em que consegue concluir o que então se denominava “primeiro grau” e, seguia para concluir o também então chamado de “segundo grau”, assomando, por fim, o patamar do ensino superior, se fazendo aprovar para o curso de História, em sua primeira turma, iniciada em 1986, na Faculdade de Formação de Professores de Alagoinhas.

Conforme postula Paul Ricöeur (1913-2005), ao se recorrer à “memória” em busca de encontrar os vestígios daquilo que ficou no passado e que se quer trazer ao presente, “[...], uma busca específica de verdade está implicada na visão da ”coisa” passada, do que anteriormente visto, ouvido, experimentado, aprendido. Essa busca de verdade especifica a memória como grandeza cognitiva. Mais precisamente, é no momento do reconhecimento, em que culmina o esforço da recordação, que essa busca de verdade se declara enquanto tal. [...], sentimos e sabemos que alguma coisa se passou, que alguma coisa teve lugar, a qual nos implicou como agentes, como pacientes, como testemunhas. [...]. Falaremos, doravante, da verdade-fidelidade da lembrança para dizer essa busca, essa reivindicação, esse clarim, que constitui a dimensão epistêmico-veritativa do orthos logos da memória. [...]” (RICÖEUR, 2007, p. 70).

Já se falou bastante das dificuldades enfrentadas por José Mário em compreender as diversas obras que se lhe passaram sob os dedos, na medida em que tal leitura ele só conseguia fazer no que dizia respeito à superfície delas ou, como também já se falou, a sua dificuldade era mediada tanto pela falta de elementos conceituais e contextuais relacionadas aos temas abordados, bem como era presidida pela sua compreensão estreita do que viria a ser uma construção literária. Naquele já distante e tórrido verão de 1985/1986, ele procurara se preparar para os exames vestibulares, estudando língua, redação e literatura com a sua professora Edna Garcia, amiga e incentivadora que sempre o apoiara, desde quando o tivera como aluno alguns anos antes, quando cursara a oitava série. Com ela ele voltara a ler obras da literatura brasileira, sobretudo, aquelas que estavam relacionadas para o certame que se realizaria no final de janeiro e, com a sua ajuda, passara a tentar compreender os tratados desenvolvidos por aqueles escritores, a partir de elementos estruturados na diversidade das escolas e gêneros literários estabelecidos em cânones a partir dos quais se deveria entender aquilo que se propunha a obra de cada autor.

Tendo sido aprovado no aludido certame, sido matriculado e dado início à frequência às aulas a partir de março de 1986, tomara contato com professores e matérias novas, ritmos e processos avaliativos que lhe deixaram aturdido e, ao mesmo tempo, impressionado com o fato de seus outros colegas encararem com a maior naturalidade, aquele ritmo quase frenético de se acompanhar as aulas. Ele nunca esquecera o elenco de matérias em que se matriculara, bem como dos professores que as desenvolveram. Na segunda feira, tivera “História Antiga”, com a professora Alba Mello, entre as dezoito e trinta e as vinte e uma horas; seguida por “ Introdução à Filosofia”, com o professor José Sales; na terça-feira, tivera “Introdução à História!, com a professora Zalvira Vilasboas, seguida da professora Emília –  e ele não lembra ou nunca soube o seu sobrenome – com “Sociologia; na quarta, retornava a professora Alba Melo com a sua “História Antiga” e era seguida de uma matéria que soara muitíssimo estranho aos ouvidos de José Mário – Metodologia do estudo e da pesquisa –, embora o nome da professora ministrante – Iraci Gama Santa Luzia – lhe fosse familiar, apesar de não a conhecer. Seria por meio daquela disciplina que ele viria a ouvir, pela primeira vez, a expressão “entrelinhas”, tratando-se de leitura e compreensão de texto; na quinta e na sexta feira, se complementava o elenco de matérias iniciadas na segunda, na terça e na quarta feira, entrando como novidade a disciplina de “Língua Portuguesa”, sob a responsabilidade da professora Lígia Freire, que a complementava no sábado pela manhã.

É preciso salientar de passagem que, a expressão “entrelinhas”, ouvida durante todo o transcorrer da matéria magistralmente conduzida pela professora Iraci – embora, à época, José Mário não houvesse considerado assim –, acabara por deixar aquele estudante ainda mais confuso, visto que, acreditava que se tratasse de haver alguma outra “linha” que se requeria um esforço extra para ser percebida, entre as linhas escritas, gravadas nas páginas que percorria. O que o deixava ainda mais confuso é que, em Braille, modo como ele exercitava a leitura e a escrita, não havia como inserir uma outra linha, entre as linhas  que ele apreendia por meio do tato, ensejando, por vezes uma pergunta recôndita – seria possível, na escrita em tinta, se inserir uma “linha” entre as que estavam fixadas no papel, que o leitor seria concitado a perceber com alguma arguta habilidade especial? –, isto é: para ele, as tais “entrelinhas” eram linhas extras sutilmente inseridas nos textos e não, como depois veio a saber, um exercício realizado pelo leitor, a partir de outras leituras e da apreensão dos contextos sociais, políticos, filosóficos, entre outros, bem como se referia à compreensão das subliminaridades que acabaram por levar a construção do texto sob o exercício da leitura e da análise feita pelos que viessem a tomar contato com o que fora produzido por autores tais, inscritos em escolas e/ou gêneros literários quais.

Assim, no transcurso do tempo que precisara empregar para o desenvolvimento e a conclusão da sua Licenciatura Plena em História, ele acabara por travar contato com uma aluna do curso de Licenciatura em Letras, com habilitação em francês, que era alguns semestres mais adiantada do que ele, quando acabaram sendo alunos comuns da professora Estela Rodrigues, em uma matéria que para José Mário fora “eletiva” e, para aquela sua colega era obrigatória. Tratava-se da disciplina “Metodologia do estudo e da pesquisa II”, ofertada pelo curso de Letras, que ele integralizara na sua carga horária e, que ampliara um pouco mais a sua compreensão dos elementos constitutivos do fazer e do apreender o conhecimento. Ali, a professora Estela Rodrigues, muito abordou sobre um tema que lhe era caro, falando de uma “Pseudoconcreticidade”, implicando em uma provocação aos seus alunos, insistindo que sem a dúvida e sem o questionamento, não se poderia compreender nem mesmo a produção textual mais simples. Tendo os seus ensinamentos como base epistemológica para o desenvolvimento de um trabalho que demonstrasse um pouco do que fora apreendido naquelas aulas, a professora em questão, dividiu a turma em duplas, para que fosse desenvolvido um trabalho de leitura de uma obra de livre escolha e, por fim, fosse apresentado u texto monográfico que demonstrasse uma espécie de “nova” compreensão daquilo que fora lido.

Neste sentido, formando dupla com a discente do curso de letras com quem passara a formar uma parceria que ultrapassou aqueles tempos estudantis, José Mário e Milfa Valério – hoje professora aposentada, que atuara no campus II, DEDCII Alagoinhas que, durante o seu exercício docente, viera a ser professora daquele seu colega e que fora sua incentivadora no estudo da língua francesa que ela tão bem domina –, se propuseram a ler e a discorrer sobre a obra de Aluísio de Azevedo (1857-1913), “o Mulato”, publicada em 1881, tratado que, segundo as convenções literárias, marcara o início do romance “naturalista” no Brasil. Ali, eles tomaram contato com um enredo cujo desenrolar se deu fora da capital da Corte Imperial – o que para ele, em particular, não deixara de ser observado, considerando as obras até ali percorridas pelos seus dedos – e, cujo desenlace acabara por despertar nos leitores/analistas, uma desconfiança que acabaram por tomar como hipótese de trabalho. Para eles, o “cônego” não só fora o assassino de “Raimundo”, como também era o seu pai biológico, indicando não só uma quebra do “celibato” que lhe era imposto pela instituição que representava, bem como, fora fruto de uma relação com uma senhora que poderia vir a ser mãe da mesma senhorita por  quem o rapaz se afeiçoara e de quem teria alcançado recíproca, o que arriscaria se dar um incesto, que só com a morte do rapaz se poderia evitar. Tendo chegado a aquele entendimento mediante sutilezas deixadas pelo autor, consideraram propor como título do arrazoado que escreveram para submeter a avaliação da professora Estela, “O Falso Moralismo em O Mulato”.

Tendo sido exitosos não só na proposição do entendimento que tiveram da obra, bem como no construir os elementos argumentativos a partir dos quais sustentaram as premissas por eles levantadas, receberam os elogios da professora/avaliadora, que apontara a  precisão dos postulados que eles apresentaram ao longo do arrazoado, em suas cerca de trinta páginas, bem escritas e bem fundamentadas.

Para José Mário – aquele aluno já quase ao final do seu curso de licenciatura em História e, há pouco entrado nos trinta –, a abordagem de um romance sustentada na identificação do seu pertencimento a uma escola/gênero literário dados, representou uma profunda e completa virada no seu modo de compreender o texto literário, uma vez que, as conclusões que extraíra juntamente com a sua parceira de trabalho, foram obtidas a partir de reflexões de elementos que não se encontravam diretamente estabelecidos no texto de per si; mas, principalmente, foram estruturadas em elementos subliminares ao texto, além de terem sido percebidos nas “entrelinhas” apresentadas no transcurso da leitura daquelas “linhas” que estavam postas pelo autor do arrazoado, mas que, se fazia necessário um observar mais atento de quem as viesse a ler.

 

Professor Jorge Damasceno – 14 de setembro de 2025 – inverno brasileiro – Alagoinhas Ba/Br.

 

- historiadorbaiano@gmail.com