domingo, 7 de junho de 2026

FRAGMENTOS DE MEMÓRIA PEDAÇOS DE HISTÓRIA - PARTE XV.


Enfim, graduado – Introdução (Segue).

 

Em mais um feixe de arrazoares, desenvolvidos a partir de rememorares elaborados a partir de mergulhares em camadas espessas e profundas de sedimentos depositados nos cantos e recantos de memória em que o “passado” se recusa a passar, este garatujador procurará discorrer sobre o caminhar de José Mário, no seu intento de ocupar um lugar de trabalho no espaço escolar, que, conforme já se apontou em tratados anteriores, é um meio excludente por natureza, tanto no que tange à sociedade que o forjara, quanto no que se relaciona à atividade ali levada à termo. Não obstante já se haver passado mais de trinta anos entre o que José Mário vivera em seu afã de ocupar o lugar de atuação para o qual, ao menos teoricamente, ele fora preparado e as reflexões aqui propostas, este escrevente arrisca afirmar que, aquelas situações e/ou mesmo aquelas circunstâncias, ainda estão sendo vivenciadas por tantos quantos se candidatem a atuar como professor, independentemente de qual escola seja procurada para tal, sendo ele um sujeito a quem falte o brilho dos olhos ou, como se diz jocosamente, aqueles que tenham os “faróis queimados”. Para estes nunca há vagas; e, quando as há, elas nunca lhes são destinadas, pois, conforme justificam os seus donos, elevará a despesa do contratante, que, ainda conforme procuram explicar, precisarão contratar outro profissional para o “ajudar”. Nem mesmo confrontados com os diplomas legais que tornaram  obrigatória a destinação de um percentual de vagas para os desprovidos de algum dos sentidos, elas são camufladas em outras destinações, nunca, porém, para a sala de aulas, mesmo que, digam retoricamente, acreditam ser o candidato capaz, competente... E, se faz necessário salientar, de passagem, que o descompasso entre o que dizem as leis e o que se faz na prática, não se restringe à educação privada. O modo de pensar é o mesmo, tanto ali, quanto alhures. O setor público da educação não tem um padrão de ação muito diferente do setor privado. Afinal, a educação, em quaisquer níveis ou setores, é tocada por pessoas que tem um modo de pensar acerca das pessoas cegas, ou mesmo, aquelas outras a quem falta algum dos sentidos, ressalvadas as necessárias exceções – que apenas confirmam a premissa –, como pessoas que trarão dificuldades ao funcionamento da sua escola ou, daquela que dirige ou coordena.

No tratado escrito e postado anteriormente, se disse que duas situações vividas por José Mário seriam trazidas à lume, com o fito de demonstrar aos leitores aquilo que se vem postulando há algumas páginas e, que de tanto afirmar, talvez se esteja fazendo repetitivo: o espaço escolar em particular e a educação como um todo são permeados pela exclusão, visto que os seus elementos de padronização – social, econômica, cultural, religiosa  – são pensados e estruturados de modo a deixar de lado tudo aquilo que não se encaixe em sua forma de funcionamento e, todos aqueles que não o possam acompanhar em sua plenitude, excluindo os diferentes e marginalizando os divergentes. A primeira das aludidas situações foi relatada no arrazoado anterior, quando José Mário se dirigiu a uma escola em que havia uma vaga para ocupação imediata mas, ao se apresentar para a ocupar, mesmo tendo se certificado de que ainda não o fora, ouviu a mentira deslavada dos proprietários, que afirmaram não mais existir a dita vaga, embora, tenham falaciosamente dito que o candidato teria qualidade/capacidade para a assumir.

A segunda situação poderia ser apresentada em duas circunstâncias, visto que elas se dão separadas por um intervalo de tempo não muito grande entre si. Em 1992, ao que parece, houve um grande incremento do número de instituições privadas de ensino de primeiro e segundo graus em Salvador. Junto com o crescimento exponencial do número daquele tipo de estabelecimentos escolares privados, deu-se uma abrupta majoração dos preços de suas mensalidades e, conforme se noticiava à época, um aumento abusivo dos itens que compunham o pacote obrigatório do material que era compulsoriamente entregue no ato da matrícula ou, na melhor das hipóteses, nos primeiros dias após o início das aulas. Tudo isto, levou a uma grita geral daqueles soteropolitanos endinheirados que queriam manter o status de ter os seus filhos em escola particular e, não os queria enviar para – ou manter - na escola pública que, via de regra,  era o espaço pouco a pouco ocupado pelos filhos do trabalhador, que alcançava o direito de estudar.

Saliente-se que, até bem pouco tempo antes daquele momento de explosão do número de escolas privadas, o cidadão de classe média da capital baiana, mantivera os seus filhos na educação pública que, sobretudo no período da ditadura militar brasileira,  começava a perder força   e interesse de governadores e prefeitos – e talvez por isto –  o setor perdera qualidade e tivesse paulatinamente decaído muito em sua credibilidade, sobretudo, à medida mesma em que o seu público passara a ser formado majoritariamente pelos filhos da periferia, tanto econômica, quanto social soteropolitana. As instituições privadas se apresentavam como alternativa àqueles que não queriam os seus filhos respirando os mesmos ares e, recebendo as mesmas instruções que eram dadas àqueles que deveriam ser adestrados para o trabalho e, além disto, tais instituições, procuravam se apresentar como confiáveis, no que respeita ao cumprimento de um calendário extenso e regular, também oferecendo um maior número de possibilidades temáticas e propedêuticas, que diferenciaria aqueles que ali fossem matriculados, inclusive, focando suas ações no acesso aos melhores e mais cobiçados cursos de nível superior.

Considerando-se o cenário brevemente descrito, depois de uma agressiva campanha contra os preços elevados das mensalidades e do excesso de itens que deveriam acompanhar o ingresso do estudante no setor privado de ensino, chegando-se mesmo a usar uma música de Gilberto Gil, “Nos Barracos da Cidade”,  como mote da campanha em programas de rádio como o “Balanço Geral”, veiculado na rádio Sociedade da Bahia, cujo trecho mais forte e mais tocado dizia “[...]. Mas a usura desta gente, já virou um aleijão [...]. Ôôô, ôô, gente estúpida, ... gente hipócrita [...]”, o que dava uma boa noção da agressividade da campanha contra as instituições privadas, sobretudo, contra os preços por elas praticados. Tal campanha foi encetada na imprensa soteropolitana com grande repercussão nos meios empresariais do ramo da educação, o que fez com que os proprietários das escolas se  reunissem em grupos patronais, com o fito de defender as suas posições e firmar os seus empreendimentos naquele mercado que lhes parecia – e era – promissor e, se lançaram ferozmente na defesa daquilo que acreditavam ser de direito: a irredutibilidade dos seus lucros.

Desta forma, no mesmo rádio em que José Mário ouvira o desenvolvimento e a repercussão da campanha Aberta contra o que era então denominado abuso dos preços cobrados pelas instituições privadas de ensino, ele também ouvira falar do surgimento de uma cooperativa educacional que, na prática, diziam os seus idealizadores, faria frente àquele abuso e, proporcionaria preços “justos”, pela entrega de uma educação de “qualidade” para os filhos de quem aderisse àquela ideia. Ao mesmo tempo, em contraposição às instituições alvos da campanha da imprensa, tanto em relação aos preços cobrados, quanto ao soldo pago aos seus profissionais, aquela cooperativa se apresentava como quem pagaria o salário justo aos profissionais por ela contratados. José Mário, no seu modo ingênuo e crédulo de perceber as coisas; em meio às suas dificuldades de desconfiar das pretensas “boas intenções”; em meio à sua ainda baixa capacidade crítica, sobretudo, relacionada ao mundo forjado por e para aqueles que se apresentavam como os paladinos da correção e da retidão,, pensara estar ali a grande chance de iniciar a sua carreira docente, não obstante a dificuldade primeva para aquela empreitada, o fato de não morar em Salvador. Conforme sempre se dera com ele em circunstâncias parecidas, José Mário estava disposto a enfrentar aquele obstáculo, acreditando que, depois de alguns meses de recebimento de salários no espaço de trabalho, levantaria aquele obstáculo e se proveria de algum lugar de residência, até que se pudesse firmar na carreira que pretendia principiar.

Assim pensando, ergueu-se em uma madrugada de fins de fevereiro ou inícios de março daquele ano de 1992, a fim de se dirigir até o bairro da Federação, para ali, se apresentar como postulante a uma das vagas para ensinar História na tal cooperativa. Depois de ter enfrentado as dificuldades inerentes aos usuários de transportes coletivos, lá chegara e, tendo entrado no estabelecimento, deu-se conta de que fora inserido na fila de pais que ali se fizera para efetivar a matrícula de seus filhos – note-se que o fato de ser uma pessoa cega, não era impeditivo para se fazer cliente. Chegada que fora a sua vez de ser atendido, esclarecera à pessoa que atendia em uma espécie de triagem que, ali se encontrava para se candidatar a uma vaga de professor e não, como um pretendente a vaga de estudante para seu filho, que aliás, nem ainda possuía, nem mesmo em projeto, embora, já o desejasse. Desfeito o mal-entendido, fora encaminhado para o setor onde deveria receber uma ficha para ser preenchida na categoria de pretendente a professor e, no ato de devolvê-la, anexar um “Curriculum Vitae”. Para começar é preciso que se diga que, , sequer ele teria condições técnicas de preencher aquela ficha, uma vez que teria a necessidade de alguém que, ao menos, a lesse para que pudesse responder/preencher adequadamente; o “Curriculum Vitae”, embora ainda muitíssimo magro, ali estava consigo; mas, não o poderia anexar à ficha vazia. Então, o que fazer em tais circunstâncias? Restava voltar para Alagoinhas; ali, conseguir alguém que lesse e o ajudasse a preencher a tal ficha e, a ela, anexar o dito curriculum; depois, voltar ao prédio da dita cooperativa e entregar o material solicitado. Tudo isto feito, o resultado foi uma espera de chamada para entrevista que nunca se efetivou.

Isto se deu, concluiu mais tarde José Mário, apenas pelo fato de ser ele cego, embora tivesse no seu curriculum Vitae os mesmos elementos que a maioria dos postulantes da mesma vaga a que ele se apresentara como quem pretendia ocupar uma dentre elas e, que, certamente, tiveram êxito em suas pretensões, diferentemente dele que, só não possuía a visão, o que fora fundamental para não ter a sua candidatura considerada, sequer para a entrevista. Como já vão longas as linhas dedicadas a uma das circunstâncias que aqui se pretendia rememorar, ficará para o próximo arrazoado a consideração da segunda dentre elas, que, embora tenha alguns dos seus fundamentos basilares parecidos com os que aqui foram destacados, apresentam algumas especificidades que talvez, valha a pena trazer ao juízo do arguto e paciente leitor destas linhas.

 

Alagoinhas – 07 de junho de 2026 – ainda outono brasileiro.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com