Enfim, graduado – Introdução
(Segue).
Em mais um feixe de arrazoares,
desenvolvidos a partir de rememorares elaborados a partir de mergulhares em
camadas espessas e profundas de sedimentos depositados nos cantos e recantos de
memória em que o “passado” se recusa a passar, este garatujador procurará
discorrer sobre o caminhar de José Mário, no seu intento de ocupar um lugar de
trabalho no espaço escolar, que, conforme já se apontou em tratados anteriores,
é um meio excludente por natureza, tanto no que tange à sociedade que o
forjara, quanto no que se relaciona à atividade ali levada à termo. Não
obstante já se haver passado mais de trinta anos entre o que José Mário vivera
em seu afã de ocupar o lugar de atuação para o qual, ao menos teoricamente, ele
fora preparado e as reflexões aqui propostas, este escrevente arrisca afirmar
que, aquelas situações e/ou mesmo aquelas circunstâncias, ainda estão sendo
vivenciadas por tantos quantos se candidatem a atuar como professor,
independentemente de qual escola seja procurada para tal, sendo ele um sujeito
a quem falte o brilho dos olhos ou, como se diz jocosamente, aqueles que tenham
os “faróis queimados”. Para estes nunca há vagas; e, quando as há, elas nunca
lhes são destinadas, pois, conforme justificam os seus donos, elevará a despesa
do contratante, que, ainda conforme procuram explicar, precisarão contratar
outro profissional para o “ajudar”. Nem mesmo confrontados com os diplomas legais
que tornaram obrigatória a destinação de
um percentual de vagas para os desprovidos de algum dos sentidos, elas são
camufladas em outras destinações, nunca, porém, para a sala de aulas, mesmo
que, digam retoricamente, acreditam ser o candidato capaz, competente... E, se faz
necessário salientar, de passagem, que o descompasso entre o que dizem as leis
e o que se faz na prática, não se restringe à educação privada. O modo de
pensar é o mesmo, tanto ali, quanto alhures. O setor público da educação não
tem um padrão de ação muito diferente do setor privado. Afinal, a educação, em
quaisquer níveis ou setores, é tocada por pessoas que tem um modo de pensar
acerca das pessoas cegas, ou mesmo, aquelas outras a quem falta algum dos
sentidos, ressalvadas as necessárias exceções – que apenas confirmam a premissa
–, como pessoas que trarão dificuldades ao funcionamento da sua escola ou,
daquela que dirige ou coordena.
No tratado escrito e postado anteriormente, se disse que
duas situações vividas por José Mário seriam trazidas à lume, com o fito de
demonstrar aos leitores aquilo que se vem postulando há algumas páginas e, que
de tanto afirmar, talvez se esteja fazendo repetitivo: o espaço escolar em
particular e a educação como um todo são permeados pela exclusão, visto que os
seus elementos de padronização – social, econômica, cultural, religiosa – são pensados e estruturados de modo a deixar
de lado tudo aquilo que não se encaixe em sua forma de funcionamento e, todos
aqueles que não o possam acompanhar em sua plenitude, excluindo os diferentes e
marginalizando os divergentes. A primeira das aludidas situações foi relatada
no arrazoado anterior, quando José Mário se dirigiu a uma escola em que havia
uma vaga para ocupação imediata mas, ao se apresentar para a ocupar, mesmo
tendo se certificado de que ainda não o fora, ouviu a mentira deslavada dos
proprietários, que afirmaram não mais existir a dita vaga, embora, tenham falaciosamente
dito que o candidato teria qualidade/capacidade para a assumir.
A segunda situação poderia ser apresentada em duas
circunstâncias, visto que elas se dão separadas por um intervalo de tempo não
muito grande entre si. Em 1992, ao que parece, houve um grande incremento do
número de instituições privadas de ensino de primeiro e segundo graus em Salvador.
Junto com o crescimento exponencial do número daquele tipo de estabelecimentos
escolares privados, deu-se uma abrupta majoração dos preços de suas
mensalidades e, conforme se noticiava à época, um aumento abusivo dos itens que
compunham o pacote obrigatório do material que era compulsoriamente entregue no
ato da matrícula ou, na melhor das hipóteses, nos primeiros dias após o início
das aulas. Tudo isto, levou a uma grita geral daqueles soteropolitanos endinheirados
que queriam manter o status de ter os seus filhos em escola particular e, não os
queria enviar para – ou manter - na escola pública que, via de regra, era o espaço pouco a pouco ocupado pelos
filhos do trabalhador, que alcançava o direito de estudar.
Saliente-se que, até bem pouco tempo antes daquele momento
de explosão do número de escolas privadas, o cidadão de classe média da capital
baiana, mantivera os seus filhos na educação pública que, sobretudo no período
da ditadura militar brasileira, começava
a perder força e interesse de governadores e prefeitos – e talvez
por isto – o setor perdera qualidade e
tivesse paulatinamente decaído muito em sua credibilidade, sobretudo, à medida
mesma em que o seu público passara a ser formado majoritariamente pelos filhos
da periferia, tanto econômica, quanto social soteropolitana. As instituições
privadas se apresentavam como alternativa àqueles que não queriam os seus
filhos respirando os mesmos ares e, recebendo as mesmas instruções que eram
dadas àqueles que deveriam ser adestrados para o trabalho e, além disto, tais
instituições, procuravam se apresentar como confiáveis, no que respeita ao
cumprimento de um calendário extenso e regular, também oferecendo um maior
número de possibilidades temáticas e propedêuticas, que diferenciaria aqueles
que ali fossem matriculados, inclusive, focando suas ações no acesso aos
melhores e mais cobiçados cursos de nível superior.
Considerando-se o cenário brevemente descrito, depois de uma
agressiva campanha contra os preços elevados das mensalidades e do excesso de
itens que deveriam acompanhar o ingresso do estudante no setor privado de
ensino, chegando-se mesmo a usar uma música de Gilberto Gil, “Nos Barracos da
Cidade”, como mote da campanha em
programas de rádio como o “Balanço Geral”, veiculado na rádio Sociedade da
Bahia, cujo trecho mais forte e mais tocado dizia “[...]. Mas a usura desta
gente, já virou um aleijão [...]. Ôôô, ôô, gente estúpida, ... gente hipócrita
[...]”, o que dava uma boa noção da agressividade da campanha contra as
instituições privadas, sobretudo, contra os preços por elas praticados. Tal
campanha foi encetada na imprensa soteropolitana com grande repercussão nos
meios empresariais do ramo da educação, o que fez com que os proprietários das
escolas se reunissem em grupos patronais,
com o fito de defender as suas posições e firmar os seus empreendimentos
naquele mercado que lhes parecia – e era – promissor e, se lançaram ferozmente
na defesa daquilo que acreditavam ser de direito: a irredutibilidade dos seus
lucros.
Desta forma, no mesmo rádio em que José Mário ouvira o
desenvolvimento e a repercussão da campanha Aberta contra o que era então
denominado abuso dos preços cobrados pelas instituições privadas de ensino, ele
também ouvira falar do surgimento de uma cooperativa educacional que, na
prática, diziam os seus idealizadores, faria frente àquele abuso e,
proporcionaria preços “justos”, pela entrega de uma educação de “qualidade”
para os filhos de quem aderisse àquela ideia. Ao mesmo tempo, em contraposição
às instituições alvos da campanha da imprensa, tanto em relação aos preços
cobrados, quanto ao soldo pago aos seus profissionais, aquela cooperativa se
apresentava como quem pagaria o salário justo aos profissionais por ela contratados.
José Mário, no seu modo ingênuo e crédulo de perceber as coisas; em meio às
suas dificuldades de desconfiar das pretensas “boas intenções”; em meio à sua
ainda baixa capacidade crítica, sobretudo, relacionada ao mundo forjado por e
para aqueles que se apresentavam como os paladinos da correção e da retidão,,
pensara estar ali a grande chance de iniciar a sua carreira docente, não
obstante a dificuldade primeva para aquela empreitada, o fato de não morar em
Salvador. Conforme sempre se dera com ele em circunstâncias parecidas, José Mário
estava disposto a enfrentar aquele obstáculo, acreditando que, depois de alguns
meses de recebimento de salários no espaço de trabalho, levantaria aquele
obstáculo e se proveria de algum lugar de residência, até que se pudesse firmar
na carreira que pretendia principiar.
Assim pensando, ergueu-se em uma madrugada de fins de
fevereiro ou inícios de março daquele ano de 1992, a fim de se dirigir até o
bairro da Federação, para ali, se apresentar como postulante a uma das vagas
para ensinar História na tal cooperativa. Depois de ter enfrentado as
dificuldades inerentes aos usuários de transportes coletivos, lá chegara e,
tendo entrado no estabelecimento, deu-se conta de que fora inserido na fila de
pais que ali se fizera para efetivar a matrícula de seus filhos – note-se que o
fato de ser uma pessoa cega, não era impeditivo para se fazer cliente. Chegada
que fora a sua vez de ser atendido, esclarecera à pessoa que atendia em uma espécie
de triagem que, ali se encontrava para se candidatar a uma vaga de professor e
não, como um pretendente a vaga de estudante para seu filho, que aliás, nem ainda
possuía, nem mesmo em projeto, embora, já o desejasse. Desfeito o mal-entendido,
fora encaminhado para o setor onde deveria receber uma ficha para ser
preenchida na categoria de pretendente a professor e, no ato de devolvê-la,
anexar um “Curriculum Vitae”. Para começar é preciso que se diga que, , sequer
ele teria condições técnicas de preencher aquela ficha, uma vez que teria a
necessidade de alguém que, ao menos, a lesse para que pudesse
responder/preencher adequadamente; o “Curriculum Vitae”, embora ainda
muitíssimo magro, ali estava consigo; mas, não o poderia anexar à ficha vazia.
Então, o que fazer em tais circunstâncias? Restava voltar para Alagoinhas; ali,
conseguir alguém que lesse e o ajudasse a preencher a tal ficha e, a ela,
anexar o dito curriculum; depois, voltar ao prédio da dita cooperativa e
entregar o material solicitado. Tudo isto feito, o resultado foi uma espera de
chamada para entrevista que nunca se efetivou.
Isto se deu, concluiu mais tarde José Mário, apenas pelo
fato de ser ele cego, embora tivesse no seu curriculum Vitae os mesmos
elementos que a maioria dos postulantes da mesma vaga a que ele se apresentara
como quem pretendia ocupar uma dentre elas e, que, certamente, tiveram êxito em
suas pretensões, diferentemente dele que, só não possuía a visão, o que fora
fundamental para não ter a sua candidatura considerada, sequer para a
entrevista. Como já vão longas as linhas dedicadas a uma das circunstâncias que
aqui se pretendia rememorar, ficará para o próximo arrazoado a consideração da
segunda dentre elas, que, embora tenha alguns dos seus fundamentos basilares
parecidos com os que aqui foram destacados, apresentam algumas especificidades
que talvez, valha a pena trazer ao juízo do arguto e paciente leitor destas
linhas.
Alagoinhas – 07 de junho de 2026 – ainda outono brasileiro.
Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com