domingo, 8 de novembro de 2020

O Voto é "antes de tudo" um direito

 

O voto é antes de tudo, um direito do cidadão – uma responsabilidade de cada eleitor.

 

 

O Brasil construiu a ideia de voto “obrigatório”, talvez por ter uma democracia com raízes pouco profundas, com o fito de evitar que os mais politizados – ou aqueles que resolvessem trocar o seu voto por quinquilharias -, escolhessem por aqueles que não julgassem importante comparecer aos locais de votação, para exercer ali o seu direito de cidadão. Isto equivale a dizer que, se você não escolher, outros escolherão por você e, o seu direito a corrigir uma “escolha” que não fez ou não quis fazer, só poderá voltar a ser exercido quatro anos depois.

 

Alagoinhas tem um histórico eleitoral muito complexo, na medida em que se observa a trajetória das eleições nos últimos quarenta anos. Em 1982, mesmo com o apoio do PCdoB dado ao candidato João Paulilo, Judélio Carmo foi eleito para governar a cidade por seis anos. Sua intervenção no processo urbanístico da cidade ainda se faz perceber, na medida em que estruturou a urbe alagoinhense para receber diversos equipamentos que ainda hoje conformam a paisagem urbanística do município.

Em 1996, como muitos dos leitores devem lembrar, a cidade elegeu o pior gestor que esteve à frente do município, considerando-se o período mencionado. Ao concluir o mandato, além de nada ter sido feito de duradouro, a cidade estava mergulhada no lixo, administrativamente afundada em dívidas, inclusive com os seus trabalhadores há vários meses sem os seus salários e, os demais setores vitais, inteiramente combalidos.

A eleição de 2008, repetida em 2012, apenas para refrescar a memória dos mais velhos e informar aos mais jovens, marcou o retrocesso no cuidado com a coisa pública. Os dois mandatos foram permeados por má administração e pouco transparente gestão dos recursos públicos, implicando em um trabalho pouco voltado para o benefício da população como um todo, ocasionando obras megalomaníacas e grandiloquentes, que só beneficiariam aquele espectro dos munícipes que sempre desfrutaram do melhor quinhão do conforto propiciado pela sua posição econômica e social e, do bem-estar da localização de suas moradias.

Portanto, é preciso salientar que o voto, embora seja um direito do cidadão é, sobretudo, um exercício que deve ser calcado na responsabilidade. O voto em branco não pode ser entendido como uma decisão sábia; tão pouco o voto anulado, significa um ato inteligente. Ambas as ações apontam para uma fuga daqueles que não querem assumir posições claras, no que tange às suas escolhas. Com tais atitudes, estão abrindo mão do direito à escolha, e, por via de consequência, recusando o direito ao “jus esperniandi”.

Por estas e ainda muitas outras razões, crê-se que as eleições para prefeitos e vereadores deveriam ser tratadas com muito mais atenção do que as demais. Elas são o instrumento de que os eleitores dispõem para dar à sua cidade a oportunidade de ajudar no processo de transformação e de desenvolvimento do seu local de moradia, onde moureja no dia a dia, no intento de construir uma urbe limpa, saneada, com boas escolas e com atendimento básico à saúde.

É assim que os eleitores ganham a cada quatro anos a chance de escolher o seu prefeito. Para aproveitar bem a oportunidade que é dada ao cidadão de fazer uma escolha que traga segurança aos munícipes de que se fará bom uso dela, cada eleitor deve aproveitar o ensejo para fazer as suas escolhas baseadas em sua consciência cidadã. as propostas dos candidatos devem ser colocadas de forma clara, e o eleitor deve:

- Julgar racionalmente aquilo que lhe é apresentado;

- Observar a postura do candidato propositor, considerando a seriedade com que se dirige em busca do voto;

- Avaliar, criteriosamente o discurso tanto do candidato que se dirige ao eleitor propondo intervenções urbanas, quanto a viabilidade delas;

- Questionar as propostas, considerando de modo equilibrado a sua capacidade de gerenciar os recursos financeiros de que disporá;

- Usar o seu voto para fazer a sua escolha, não como moeda de troca;

- Impedir que sejam eleitos candidatos que nada proponham de plausível – que aliás é o que faz a grande maioria deles -;

- Meditar friamente diante do que lhe for apresentado, para enfim, tomar a decisão.

Portanto, em 15 de novembro de 2020, é preciso sepultar de uma vez a carreira política daquele que esteve à frente da gestão municipal por oito anos. Ele deveria ser rejeitado nas urnas, não só pela péssima gestão da coisa pública quando governou com os seus amigos e para os seus amigos, como também pela sanha de querer voltar ao paço municipal, sabe-se lá porque e para quê!

 

Jorge Damasceno – 08 de novembro de 2020.

Alagoinhas em vésperas de eleições - 1988

 

Alagoinhas em Vésperas de eleições – 1988 – Nova Carta, velhos jogadores.

 

Na terceira de quatro crônicas em que o seu autor se propõe a fazer algumas incursões acerca de momentos “pré-eleitorais” em Alagoinhas, se procurará promover um rápido rememorar do ano em que o então prefeito Judélio de Souza Carmo(1945-2009) completaria o segundo mandato que lhe fora conferido pelo escrutínio realizado em 1982, que tivera a duração de seis anos e que fora iniciado exatamente dez anos após o tão conturbado primeiro exercício como alcaide, transcorrido entre 1973-1976. Naquele segundo governo, ele implementou algumas intervenções no processo urbanístico da urbe alagoinhense que ainda hoje podem ser percebidas, na medida em que estruturou a cidade para receber diversos equipamentos que ainda hoje conformam a paisagem urbanística do município.

O ano de 1988 chega para ser vivido sob a expectativa da conclusão dos trabalhos da assembleia Nacional Constituinte, que apresenta como parte dos longos debates havidos em todo o seu transcurso, a revogação da Censura – que prevaleceu por toda a vigência do Regime Militar sobre as artes e diversas atividades culturais e intelectuais -, da Tortura – ostensivamente praticada contra presos políticos e/ou suspeitos de “subversão” da “ordem e dos costumes” -, bem como o reestabelecimento da “liberdade” de imprensa, de expressão e de criação. Nas olimpíadas e no automobilismo, Aurélio Miguel e Ayrton Senna ganham medalha de ouro e se torna campeão mundial, respectivamente. É também naquele ano que a siderúrgica de Volta Redonda é invadida pelo exército brasileiro, com o objetivo de desalojar operários em greve, cujo resultado foi de 3 operários mortos e nove gravemente feridos. E no último dia de dezembro, um barco de turismo naufraga na Baía de Guanabara, deixando cinquenta e cinco mortos.

Naquele mesmo ano de 1988, ainda como desdobramento dos trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte, a chamada “Constituição Cidadã” foi promulgada em 05 de outubro, fazendo com que as instituições do País passassem a ser regidas por aquele novo diploma legal, que nortearia as ações públicas perpetradas no âmbito do Estado de direito. Era uma nova “carta magna” que se destinava a reestruturar o ordenamento jurídico do País, esgarçado pelo regime de exceção que se impôs sobre o Brasil por vinte e um anos, indo um pouco mais além, já que a “Nova República” fora conduzida até então, sob a égide da Carta de 1967/69.

No entanto, a despeito da promulgação da “nova” Carta Magna, o jogo eleitoral de 1988 já estava em andamento e, os times alinhados em torno dos velhos jogadores que os formavam. Marcadas para o dia 15 de novembro de 1988, aquelas eleições transcorreriam pouco mais de quarenta dias após a promulgação do novo texto constitucional.

Assim, o embate pela sucessão de Judélio seria travado por velhos jogadores da cena política alagoinhense, alguns deles travestidos de novos contendores – ao menos, os principais dentre eles -, apresentando-se aos eleitores, como propositores de novos rumos para a cidade que pretendiam governar a partir de 1989.

O próprio então prefeito apresentara um candidato à sua sucessão, que, no entanto, fazia a sua campanha eleitoral, apresentando-se como “diferente” daquele que o apoiava.

Embora houvesse outros postulantes ao Paço municipal – para citar alguns exemplos, teve o candidato pelo PT, Péricles Magalhães, Antônio Carneiro, pelo PFL e a candidata Maria Risélia, cujo partido este autor não se lembra -, a refrega eleitoral foi travada, efetivamente, pelo bancário José Francisco dos Reis, pelo PSB, paradoxalmente apoiado pelo então ocupante da principal cadeira do executivo municipal.  O paradoxo está no fato de “Chico Reis”, como era conhecido na cidade, ter sido o algoz de Judélio Carmo, durante o seu primeiro mandato. Na condição de vereador pela Arena, ele requerera e obtivera o impeachment do cargo de prefeito, – o que trouxera grandes transtornos para Judélio se fazer reinvestir no cargo e concluir o mandato que lhe fora conferido nas urnas.

O outro contendor no embate eleitoral daquele ano, era o comerciante João Paulilo – que contara com o igualmente paradoxal apoio do PCdoB. Tal apoio foi articulado pela cúpula diretiva do “partidão”, formada por comunistas “históricos” como Antônio Fernando (Aranha”, Gavazza, além de Pedro Marcelino, que iniciava o seu ciclo como dirigente partidário.

Tendo recebido apoio de uma parcela significativa da sociedade alagoinhense; contando com o não menos expressivo prestígio relacionado à sua atuação como funcionário do banco do Brasil, concomitante com a sua participação no rádio esportivo local, Chico Reis fez-se eleger com uma grande margem de votos.

No entanto, sua eleição também deve ser creditada ao trabalho desenvolvido por Judélio, não só emprestando-lhe apoio como candidato à sua sucessão, mas, principalmente, com o seu desempenho à frente do governo municipal, durante todo o mandato. Este escrevente não tem memória de nenhum outro prefeito, que tenha governado a cidade nos últimos 50 anos, que tenha conseguido fazer o sucessor, direta ou mesmo indiretamente.

 

Jorge Damasceno – 08 de novembro de 2020.

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

Há quinze anos, em um dia como o de hoje - 06 de novembro de 2005.

 

Em meio a aspereza da vida de lavadeira, ela ainda encontrava pedaços de versos para cantar! - republicação

 

José Jorge Andrade Damasceno

professordamasceno@gmail.com

historiadorbaiano@gmail.com

 

 

Este texto foi escrito originalmente em 2012, em um dia de junho que se levantou um voluptuoso rio de saudades, que envolveu completamente este que ora escreve estas linhas. Ele será republicado em sua íntegra, acrescido dos links para as músicas comentadas e de um “Post scriptum”, com um pequeno comentário do seu autor.

 

 

Era um dia já distante, no segundo mês da Primavera de 1935. Lá para as bandas de Piritiba, ou mesmo de Andaraí, região de Jacobina, nascia Armanda, ou Amanda, como gostava de ser chamada e, nome que parece ter adotado para si. A primeira das três filhas de Vicente com Epifania, trazendo consigo esperanças. Esperanças que talvez seus pais nutrissem. Talvez não fossem grandes, grandiosas..., mas, esperanças. Ou quem sabe, para aquele lavrador, não seria um desgosto por ser uma filha e não um filho?

Cresce a menina e, ainda na infância, se lhe vai a mãe e, se lhe impõe uma madrasta. A nova mulher do seu pai, certamente não lhe tivera o amor que lhe teria sua finada mamãe. Corre o tempo; crescem as três, em meio a travessuras, brincadeiras, peraltices folguedos infantis;mas também em meio a intrigas, brigas; surras; queixas... Sem letras, sem cultura; só a cultura da luta pela sobrevivência, já se apresentava diante delas, visto não terem o apoio materno, o agrado paterno; nem mesmo a possibilidade de educarem-se para a vida.

Ah Amanda... Aos dezoito se desencaminha; como ela dizia dera o “passo errado”. Ganhara uma brutal reprimenda, o olho da rua e a separação de suas duas irmãs, como conseqüência da decisão de se dar a alguém que não fosse aquele que lhe faria esposa!

E daí para frente, só sofrer; só tentar quantas soluções e alternativas lhe aparecessem, muito poucas, para aquela que sequer sabia “garatujar” seu nome! Não se sabe como, chegara em Salvador, onde fora doméstica; do mesmo modo não sabido, acabara em Alagoinhas, onde se envolvera com homens que vieram a ser pais dos três filhos que vingaram!

E para os abrigar, alimentar, vestir, calçar, instruir? A única profissão que se lhe apresentou desempenhar foi a de “lavadeira de ganho”, que apenas requeria a força dos jovens braços e o cuidado com as peças que lhes fossem confiadas para lavar, passar, engomar e entregar, de casa em casa, a cada uma de suas ”patroas”.

Tinha vinte e cinco anos completos, quando lhe nasceu o terceiro dos cinco filhos que tivera. Quase dois anos depois, aquele se tornara o que lhe demandaria mais preocupações, desvelos e esforços, pois ficara cego e, seria mais um encargo que viria sobre ela, pois, tão cedo, não poderia ajudar-lhe na faina pelo pão, pelo abrigo e demais necessidades que a sobrevivência imporia a ela.

Vencida mais aquela desdita em sua vida, dona Amanda se tornava hábil em desempenhar as atividades braçais que se lhe apresentara como forma de bastar a si e aos seus: tinha já sua freguesia; empunhava o ferro de brasas, com esmero e competência, propiciando-lhe demanda por seu serviço.

E nas mornas tardes de quinta e sexta-feira, quando passava as roupas lavadas entre a segunda e a quarta, embatia-se no trabalho de passar e engomar, tarde a fora, noite a dentro, entre soprares de ferro, reposição de carvões e brasas... Quase sempre em pé, sentando-se só para as parcas e rápidas refeições, dividida entre os afazeres do ganho e o cuidado com os filhos, ia dona Amanda, de semana em semana, de mês em mês, de anos em anos, enfrentando sua lida, quem sabe, esperando que algum dia, pudesse vir a ver algo melhor na vida.

Mas, a ela não faltou a melodia; os versos do cancioneiro, talvez aquelas músicas ouvidas quando ainda menina-moça, em meio às angústias de órfã de mãe.

E, a despeito das exigências que a vida e o trabalho que lhe esgotava as forças físicas, em seus lábios desfilavam pedaços de versos, ou mesmo trechos inteiros, que eram cantados em voz que exprimia sofrimento e, quem sabe, esperança de melhor sorte.

Boleros que exprimiam tristezas, desilusões e desventuras de amores, talvez exprimissem mesmo o seu viver de mulher que nunca tivera “sorte” no amar. Na memória de quem escreve estas linhas, a lembrança viva de sua voz cantando uma música que parecia ser ela própria a autora, cheia de dor e dolência, talvez pelas marcas das feridas que já marcavam aquela alma ainda tão moça, mas já esmagada pelo peso do viver quase errante, de quem fora lançada ao mundo, ainda tão precocemente, obrigada que fora a enfrentar a vida, sem o preparo para entender as suas armadilhas e, preencher as suas exigências:

“Vem o cigana bonita,

 ler o meu destino,

 que mistérios tem;

“Tu com estes olhos de quem vê o amor da gente;

 põe nas minhas mãos, o teu olhar ardente;

 E, procura desvendar o meu segredo;

a dor, cigana, do meu amor;

“Mas, nunca digas oh Zíngara,

que ilusão me espera

qual o meu futuro!”

Só aquela por quem vou vivendo assim à toa;

 tu dirás se a sorte será má ou boa;

Para que ela venha consolar-me um dia;

 a dor, cigana, do meu amor

https://youtu.be/v8JAsBiBGWs

Se lhe fosse perguntado, ela pouco ou nada saberia sobre os intérpretes e compositores das melodias que cantarolava; ainda menos conhecia as circunstâncias e contextos nos quais foram escritas aquelas letras, que encontravam em seu espírito não alcançado pelos laivos de cultura e letramento, terreno fértil no qual espalhavam suas significações. Nunca tivera lido nada sobre quaisquer movimentos culturais, artísticos, visto seu total analfabetismo. Seu primeiro contato com livros, só acontece quando contava mais ou menos trinta e cinco anos, por meio do “Movimento Brasileiro de Alfabetização”, o (MOBRAL).

Como que se embalasse pelas lembranças e estas a ajudasse a encarar sua faina com um pouco mais de resignação, diante dos percalços que se lhe oferecia a vida difícil de uma trabalhadora braçal, entoava esta de Lupicínio Rodrigues (1914-1974), que talvez ela conhecesse pela imortal interpretação de Linda Batista (1919-1988):

https://youtu.be/7xi9hi1NnBA

“Eu gostei tanto,

Tanto quando me contaram;

Que te encontraram chorando e bebendo na mesa de um bar.

É que quando os amigos do peito pormim,

Perguntaram;

Um soluço cortou sua voz e não lhe deixou falar;

“Mas eu gostei tanto, tanto quando me contaram,

Que tive mesmo,

De fazer um esforço

Pra ninguém notar.

“O remorso talvez seja a causa do seu desespero;

Você deve estar bem consciente do que praticou;

Em me fazer passar essa vergonha, como um o companheiro

E a vergonha, é a herança maior, que meu pai me deixou;

“Mas enquanto houver voz em meu peito eu não quero mais nada,

Só vingança, vingança, vingança, aos santos clamar”

E você há de rolar como as pedras,

Que rolam na estrada;

Sem ter nunca, um cantinho de seu,

Pra poder descansar”.

 

Talvez nos dias em que alguma saudade lhe explodisse no peito, cantarolava este bolero de Waldick Soriano (1933-2008), típico cantor de amores frustrados:

https://youtu.be/eK3D2jLHNVw

“Hoje que a noite está calma, e que a minha alma esperava por ti...

Apareceste afinal, torturando este ser que te adora

Volta, fique comigo só mais uma noite;

Quero viver junto a ti,

 volta meu amor,

fique comigo,

 não me desprezes,

a noite é nossa

e o meu amor pertence a ti;

Hoje eu quero paz, quero ternura, em nossas vidas; quero viver por toda vida, pensando em ti.

 

E dona Amanda, sempre de posse de seu ferro de brasas, pouco depois substituído pelo elétrico, mais prático e, que dispensava os assopros e usos de abanos para voltar a esquentar satisfatoriamente, ainda arriscava um samba, como este de Benedito Lacerda (1903-1958) e David Nasser (1917-1980), imortalizado na clássica voz de Nelson Gonçalves (1919-1998):

https://youtu.be/41gdJzBDPrA

“Vestida de azul e branco,

  Trazendo um sorriso franco

Num rostinho encantador;

Rapidamente conquista meu coração sem amor;

Eu que trazia fechado,

Dentro do peito guardado

Meu coração sofredor;

Estou Bastante inclinado

A entregá-lo ao cuidado,

Daquele brotinho em flor

“Mas a Normalista linda, não pode casar ainda, só depois de se formar;

Eu estou apaixonado, o pai da moça é zangado, o remédio é esperar”.

 

Era a partir daquelas músicas que lhe saltavam as lembranças, que ela contava aos filhos, algumas passagens de sua vida; momentos de sua infância cheia de desditas familiares,que explodiam em sua memória, trazendo à tona, as recordações do lugar onde nascera e vivera, toda infância e pequena parte da juventude, se não esplendorosa, ao menos ao lado dos que eram seus.

Desde que expulsa de casa, nunca mais teve com quem contar em quem se ancorar, onde se abrigar, a não ser patrões, estranhos; amores momentâneos e ilusórios...

Era tudo isto evocado do fundo do seu silêncio, a partir daquelas músicas que, em meio as asperezas da vida de lavadeira de ganho, ela podia cantarolar, em um misto de alegria, nostalgia e melancolia, ao cair da tarde das quintas ou sextas-feiras.

Mas, pouco antes de completar trinta e nove anos, naquele junho de 1974, em uma noite fria de inverno, a morte do seu primogênito, ainda moço, aquele que a ajudava no arrimo familiar, fê-la calar de vez sua voz para o canto, dando lugar ao pranto,que nunca mais pôde enxugar.

 

Post scriptum:

 

Há já quinze anos, aquela voz foi calada para sempre. Aos seis dias de novembro de 2005, não mais falou, não mais cantou, não mais mourejou aquela mulher que mal completara setenta de existência, ingressou na eternidade, separando-se deste que hora escreve estas linhas prenhes de saudade. Era ela a razão de tanto esforço que este escrevedor fizera para alcançar os títulos de mestre e doutor, embora para a sua compreensão fosse algo difícil, mas enxia aquela criatura de orgulho pelo seu filho que, não obstante tenha lhe causado tanta aflição, pudera promover ‘lhe a tranquilidade de morrer, sabendo que aquele filho “disoficiente visual” não ficaria à mercê da irmã mais velha e/ou à mercê da caridade pública, o que daria no mesmo!

Durante todo aquele ano de 2005, parte dele passado cursando o doutorado em Niterói, este filho de dona Amanda ouvira  uma belíssima música cristã, genuína, que acabou sendo a sua música de consolo, enquanto chorava a saudade, sofria a dor da separação definitiva e lamentava a perda daquela que fora a única mulher que a ele amou e que por ele foi amada: a sua mãe. Parecia que o seu espírito estava sendo preparado para suportar o que se avizinhava. Uma rádio de Curitiba, escutada através da internet, executava aquele belíssimo hino, em várias ocasiões durante o dia; e, a vontade de chorar ao ouvi-lo, parecia indicar estar próxima alguma coisas que traria grande tristeza àquele ouvinte virtual da BBNRádio.

O então nonagenário cantor evangélico, Feliciano Amaral (1920-2019), com sua magistral interpretação e inconfundível voz, interpretava “Não há melhor Amigo”, que soava como um bálsamo colocado sobre o coração que sangrava. Ainda hoje, ao ouvir aquela maviosa melodia, parece estar vivendo aqueles dias de pranto e tristeza.

 

- Não há melhor amigo,

- Do que Cristo meu Senhor,

-Nos transes que passei

- Foi o meu consolador;

- Tranquilo e paciente

- Muitas dores enfrentei

- Mas, ele me ajudou

- E a dor passou.

- Na hora do sofrer,

- É que a gente vê o amigo;

- E no meu padecer,

- Jesus caminhou comigo!

-Riquezas, ambições

- Do mundo nada me seduz:

- Enquanto meu amigo for Jesus,

- Enquanto meu amigo for Jesus.

https://youtu.be/01JTi8VxM5I

 

José Jorge andrade Damasceno – 06 de novembro de 2020.

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

UM ESCREVEDOR FALA DE MEMÓRIA MUSICAL - V.

 

Um Escrevedor Fala de Memória Musical – V - O que tocava no rádio – 1972.

 

Esta é já a quinta incursão na memória musical daquele que escreve estas linhas. O ano de 1972 era o ano em que completaria 12 anos; naquele ano ele fora reprovado sem ter sido avaliado; também fora naquele ano que tivera o primeiro contato com a fé protestante, ao ser levado para ouvir uma “conferência evangelística”, realizada na antiga Primeira Igreja Batista de Alagoinhas, então presidida pelo pastor Jamim Nascimento. Tal conferência fora proferida pelo pastor Edivaldo Santiago – salvo engano da grafia do seu nome -, em data que não é possível precisar, sabendo-se apenas tratar-se de período escolar. Daquele ano brotam da memória deste garatujador, inúmeras reminiscências, algumas delas confusas e desconexas. Mas há algumas que são impressionantemente claras, consistindo em cheiros, paladares e, claro: sons.

O Brasil vivia o seu oitavo ano de “Regime Militar” e discutia com o mundo ocidental, questões relacionadas ao uso do “Espaço Marítimo”, não só para a pesca, como também para a prospecção de petróleo. Fincava pé no que chamava direito às “200 milhas” das “águas territoriais”, que se limitava às “100 milhas”. Com o “ame-o ou deixe-o” do governo Médici, também o ufanismo de uma parte da elite brasileira, resultou em campanhas nos jornais e revistas de grande circulação nacional – devidamente chancelada pela “censura federal” -, encetada no sentido de obter êxito no pleito às tais “100 milhas marítimas” adicionais. Como grande parte da população permanecia analfabeta, o rádio e a música seriam convocadas para entrar naquela querela, que, saliente-se, nada ou pouco traria de benefício à população como um todo, pois, ao que parece, tratava de disputa levada a termo, com base em interesses militares.

Para tanto, Eliana Pittman interpretou uma música com o título bem sugestivo de “Das 200 para lá”, rebatizada de “Este Mar é Meu”. Em um ano eleitoral em que o “regime dos generais” intentava manter sob seu máximo controle o espectro político nacional, aquela campanha serviria – acreditavam – para levantar o “patriotismo” dos eleitores que, como consequência, elegeriam os candidatos preferidos pelo generalato, às prefeituras e às câmaras municipais.

 

https://youtu.be/45J4efcUUe

 

Aquele também era um tempo em que a teledramaturgia começava a moldar o modo de agir e de pensar de grande parte dos brasileiros que, antes tivera o rádio como formador de uma certa “opinião pública”, sobretudo, aquela que possuía pouca ou nenhuma escolaridade. Desde então, passava a contar com a televisão e com a sua programação, para o processo de construção da maneira de perceber e conceber o mundo, daquilo que se conheceria como “brasileiro médio”. A influência da televisão naquele processo de criação de um outro conjunto de elementos formadores de uma dada “opinião pública”, se dera tanto através do seu jornalismo enviesado, quanto através da produção e exibição de dramaturgias romanescas, marcadamente no tocante ao gosto musical que passava a ser determinado a partir das músicas tocadas nas novelas, majoritariamente, as músicas ligadas aos personagens mais “amados” pelos telespectadores. Estas, por sua vez, em grande medida, eram compostas e interpretadas por artistas e/ou grupos musicais internacionais.

O grande sucesso da televisão brasileira de 1972, que acabava de ganhar a sua versão “a cores”, fora “Selva de Pedra”, escrita pela dramaturga Janete Clair, que, no seu bojo, ao menos duas músicas de sua trilha internacional, estiveram entre as cem mais tocadas naquele ano. Aqui, o link para elas.

 

https://youtu.be/2TKCJjGwTac

 

https://youtu.be/4KSLfhx_10M

 

Enquanto o mundo de então se encantava com o poema interpretado por John Lennon, que apontava para o desejo de um mundo de utopias e anseios de paz e harmonia entre os terráqueos – https://youtu.be/5MV_x5Y3zzk - , a televisão brasileira continuava o seu processo de despolitização do povo, negando-lhes informações importantes do seu cotidiano marcado pelas torturas e desaparições  daqueles que ousaram não se submeter à sanguinolência dos que mandavam e desmandavam no país, deixando de municiar a população de elementos que a fizessem pensar no voto que depositariam nas urnas em 15 de novembro, como sendo instrumento de transformação da história, e não com maneira de reforçar  a letargia social e política em que estava mergulhada a sociedade civil, regida por um “anticomunismo” estéril e histérico que levara o o regime a endurecer-se ainda mais contra estudantes, professores, advogados, alguns jornalistas, como bem demonstraria mais tarde o assassinato de Vladimir Herzog (1937-1975).

Mas, o rádio ainda era a maior força da comunicação no Brasil daqueles “anos de chumbo”. Por ele era levado aos brasileiros a “música”, o “esporte” e a “notícia”, conforme bordão brandido por muitos anos pela rádio Globo do Rio de Janeiro. Não obstante a televisão interferir de modo cada vez mais profundamente no gosto estético e artístico das pessoas, o rádio AM tinha a versatilidade e a maior capacidade de penetração nos estratos sociais mais diversos da população, sem falar no fato de que poderia ser ouvido em espaços urbanos e rurais mais longínquos do território nacional. Portanto, é no rádio que a música “esperanças Perdidas”, interpretada pelos “originais do Samba”, chega a um público ouvinte politicamente inserido no contexto construído pelos versos de sua composição.

 

https://youtu.be/pG2BXpFAqbI

 

Mesmo a composição de Vinícius de Morais e interpretada por ele e Toquinho, cheia de suubliminaridades e de conteúdo fortemente marcado pela genialidade do seu autor, conseguira chegar aos rincões mais remotos do Brasil, pela força do rádio.

 

https://youtu.be/gUsgVqu8XfQ

 

E o que dizer da letra excepcionalmente construída de forma a fazer brotar uma poesia erudita, da lavra de Antônio Carlos Jobim, magistralmente interpretada por Elis Regina “Águas de março”? Pois é: o rádio levou aos ouvidos de indistintos ouvintes pelo chão do Brasil a fora.

 

https://youtu.be/WEuDVcXnElc

 

Em um disco bastante executado nos rádios de grande parte dos brasileiros, Roberto Carlos, deixando a “jovem guarda” cada vez no passado, interpretando uma bela composição de Antônio Marcos – que mais tarde também a interpretara -, pergunta:

 

https://youtu.be/jH2xaxibpmM

 

E por fim, naquele mesmo ano de 1972, já quase no seu término, este escrevedor e o seu irmão mais velho, “In Memoriam” (1954-1974), caindo a tarde e principiando a noite, ouviam a rádio Globo do Rio de Janeiro, que executava as músicas mais pedidas durante a programação da emissora. Aquelas audições eram aguardadas com ansiedade pelos dois irmãos, visto que as músicas ali tocadas muito aguçavam o gosto melódico de ambos. Duas delas marcaram indelevelmente a memória deste escrevedor, pois naquele ano Antônio Carlos completara dezoito anos e, cumprira o seu dever e exercera o seu direito de votar. As músicas nunca saíram da lembrança deste que vos escreve, uma vez que ainda hoje são executadas nas rádios e, ao ser ouvida, ainda desperta as mesmas lembranças e as muitas saudades daquele ano. Não se imaginava que menos de um ano e meio depois, não o tinha mais como companhia para ouvir as “mais pedidas”, que tanto marcaram a programação do rádio, por mais alguns anos.

 

https://youtu.be/YnbcTCBB_M4

 

https://youtu.be/tykNOKKsZAc

 

Professor Jorge Damasceno – 28 de outubro de 2020.

 

 

domingo, 25 de outubro de 2020

Especial para o Alagoinhas Hoje - I.

 

Alagoinhas em vésperas de Eleições – 1972: a “Zebra”.

 

Professor Jorge Damasceno – Especial para o Alagoinhas Hoje.

 

Estava-se no oitavo ano de vigência do Regime Militar instaurado na madrugada do primeiro dia de abril de 1964. Salvo algumas prisões, cassações de mandatos, fechamento do Congresso, alguma “censura” à cultura e às artes, imposição de alguns Atos Institucionais, interdição de eleições diretas para presidentes, governadores e prefeitos das capitais – bem como de algumas cidades classificadas como de “segurança Nacional” -, o verniz de democracia se mantinha quase sem arranhões.

Logo após às comemorações do sesquicentenário da Independência” em 07 de setembro, se realizaria o pleito para as prefeituras e as câmaras municipais, com a disputa se dando entre os dois únicos partidos políticos autorizados pelo “Regime dos Generais”.

Com a realização das convenções partidárias, ficara definida dupla de candidatos ao Paço Municipal. José Libório, pela ARENA e Judélio Carmo, pelo MDB, travariam a luta pela preferência dos 25 mil cidadãos “aptos a votar” no escrutínio que se daria em 15 de novembro. A partir de então, eram organizados os comitês dos candidatos e, neles as pessoas se articulavam no sentido de organizar as campanhas; os eleitores se acotovelavam para deles receber brindes, material eleitoral para distribuição; inúmeros outros se apresentavam com os mais diversos pleitos, que iam desde o pagamento de contas, aviamentos de diversas ordens – como receitas, construções e/ou reformas de suas casas -, dentre outros numerosos pedidos de ajuda financeira. O atendimento ou não a tais subvenções, teriam a retribuição na cabine de votação.

Entre o princípio do inverno e meados da primavera, os dois grupos políticos se movimentaram pelos principais logradouros da quase adormecida Alagoinhas de 1972, montando e desmontando os palanques em que realizariam os comícios, verdadeiros teatros por onde desfilavam pequenos atores e atrizes, mostrando os seus talentos ao cantar, declamar, improvisar motes favoráveis ao seu candidato ou, desfavoráveis ao candidato adversário. Naqueles palcos itinerantes armados cada dia em um bairro populoso da cidade, eram as plataformas a partir das quais eram emanados os discursos dos candidatos, antecedidos pelas manifestações de apoio e apreço  ao candidato que, após discursar, como ápice do comício, era levado nos braços dos seus correligionários, como se fora a procissão do seu ”Santo” de devoção.

Mas, naquele ano em especial, a disputa se travaria entre um candidato que representava a tradição político-eleitoral da cidade, contando com o apoio das velhas estruturas de mando encrustada na cidade há já alguns pares de anos e, uma liderança que surgia do desejo de construir um novo espaço político-administrativo para o município, sem contudo, contar com o apoio dos velhos líderes locais, já consumidos pela implacável passagem do tempo e, sobretudo, pelas mudanças que o cenário nacional indicava estar em curso.

Cabe chamar a atenção do paciente leitor, para o nome e o significado do partido que dava sustentação da candidatura abraçada pela velha elite política local. Apesar de conter em sua sigla a expressão “Renovadora”, representava na verdade a persistência das velhas práticas eleitorais, com o fito de manter as coisas como sempre foram trabalhando para que continuassem como eram.

No entanto, a candidatura de um jovem ex-vereador na legislatura 1967-1971, abrigada no “Movimento Democrático Brasileiro (MDB)”, se colocava como propositora de uma mudança de rumos da política na urbe alagoinhense, apresentando uma zebra como símbolo de sua campanha, tal era a dificuldade que antevia em obter êxito na refrega pelo sufrágio de 15 de novembro. Aquele símbolo era bem conhecido das pessoas em geral, uma vez que se referia a um resultado não esperad            o e pouco marcado na “loteria esportiva”, jogo praticado por uma parcela considerável dos brasileiros. Ainda mais, quando se tratava de uma campanha eleitoral, polarizada entre um “arenista” sustentado pelas elites políticas tradicionais da cidade – além de apoiado por autoridades governamentais do País e do Estado –                         e um “emedebista” que, ao contrário, não possuía apoio das lideranças políticas locais, além de estar em rota de colisão com os interesses das autoridades municipais, estaduais e nacionais.

Portanto, em Alagoinhas, foi em uma atmosfera de forte tensão, ansiedade e sangue, que se dera a disputa pela preferência dos 18 mil eleitores que, deixariam as suas casas em direção às suas seções eleitorais, em uma quarta-feira – feriado nacional -, onde votariam no pleito de 15 de novembro de 1972.

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

UM ESCREVEDOR FALA DE MEMÓRIA MUSICAL - IV.

 

Um escrevedor fala de Memória Musical -IV – 1989: do agreste baiano ao sul fluminense.

 

Em mais uma investida no campo da memória musical, o recuo será até o ano de 1989, marcado por diversos eventos políticos e sociais pelo mundo inteiro, sobretudo o maior deles no campo da política brasileira: finalmente a população recuperava o direito de eleger o seu presidente, direito que lhe fora tomado pela força de um golpe, o de 1964. A imprensa, a escola e, afinal de contas, toda a “sociedade civil”, respirara aquela eleição presidencial. Foi também naquele ano que o mundo ocidental viu quase estupefato, o desencadear de uma “revolução” silenciosa, que levou a “queda do muro de Berlim”, como símbolo que fora dos regimes totalitários, que fracassara no seu intento de propiciar alternativas ao capitalismo selvagem que se impunha com toda a força – da persuasão ou das armas -, sobre a maior parte dos habitantes do mundo. Como um efeito cascata, caíra, uma a uma das chamadas “Repúblicas democráticas socialistas”” implantadas no leste europeu após 1945, culminando com o esfacelamento da maior e mais antiga dentre elas – em 1991 -, a “União das Repúblicas Socialistas Soviéticas”. Talvez, em outro arrazoado, este tema seja mais largamente abordado. O que aqui interessa é contextualizar o episódio que se quer comentar.

Ainda ao principiar daquele ano, Alagoinhas e demais cidades do seu porte, dera posse a novos prefeitos e vereadores, eleitos no ano anterior. Naquele mesmo tempo, Sullivan e Massadas garantia sucesso de suas composições, através de uma diversidade de intérpretes, ritmos e estilos musicais, que tocavam nos milhares de emissoras de rádio – AM e FM – espalhadas por todo o Brasil.

Em meio ao seu processo de formação acadêmica, este autor ainda encontrava um tempo para o rádio e a música, que para ele, funcionava como um repositório das forças que precisava para seguir a sua jornada. Entre as muitas músicas por ele ouvidas, se encontra a de Agnetha Faltskog & Ola Hakansson – The Way You Are -, que, embora em língua inglesa, era muito agradável de se ouvir, mormente pelo conjunto melódico apresentado naquela gravação. O link abaixo é da versão de 1985.

https://youtu.be/wjkQpqFQfN0

Devido às suas condições físicas, econômicas e, por certo, pelas suas características psicossociais, este escrevente experimentou grandes dificuldades no que tange à “arte da conquista”, quando se tratava de quebrar as resistências, ou despertar o interesse das jovens senhoritas, com o fito de ter uma dentre elas como sua namorada. Para tentar driblar algumas daquelas dificuldades, sempre precisou fazer uso de instrumentos que o permitissem ao menos, chegar até a pretendida e, expor a sua perspectiva relacional.

Para tanto, o instrumento mais eficiente que ele tivera à mão e fez uso com algum êxito, foi a sua inseparável máquina de escrever portátil – Olivetti Letera 32. Nela eram datilografados os trabalhos escolares, as atividades avaliativas e seletivas. Também nela eram escritas as cartas. Em tempos em que os Correios gozavam de ampla confiança dos seus usuários, o escrevedor de cartas aguardava com grande ansiedade, a chegada das cartas por ele enviadas até as suas destinatárias e, claro, a volta delas em forma de respostas. O inconveniente estava no fato de que, uma vez vencidas as resistências da jovem cortejada, o namoro, em grande parte, continuava do mesmo modo como foi iniciado: sujeito aos vais-e-vens dos carteiros. Mas, o que fazer, se do modo convencional ele não fora exitoso em qualquer de suas desajeitadas tentativas?

Pois então, só restava procurar ampliar o leque de circulação das missivas, apelando para que lhe escrevessem, partindo para seções de correspondências, comuns em diversos periódicos. É preciso salientar de passagem, que aquelas primeiras jovens contactadas por meio das correspondências, de algum modo, já eram suas conhecidas, com quem já houvera entabulado algum diálogo presencial, sem ter conseguido avançar ao ponto de uma exposição dos motivos que o levara a principiar o papo.

Portanto, a partir do momento em que enviou cartas à seção de “leitores” da revista “Jovem Cristão”, editada pela Casa Publicadora das Assembléias de Deus (CPAD), as respostas passariam a vir-lhe ao encontro, mediante a intermediação da revista, que, por sua vez, apresentava à futura correspondente, apenas a pessoa descrita por ela mesma, sem maiores detalhes imagéticos.

Assim, como resultado do envio de uma carta para a referida seção, no primeiro trimestre do ano de 1989, uma avalanche de correspondências chegou ao endereço deste garatujador, procedente de todas as partes do Brasil, por onde circulou a já mencionada revista, cuja capilaridade era bastante complexa, na medida em que podia chegar às mãos de senhoritas assembleianas residentes nos mais distantes pontos cardiais do território, bastando haver ali uma Igreja Assembleia de Deus e, nela, alguém que soubesse e gostasse de ler o periódico editado para o público jovem da denominação, mas, não exclusivamente, é claro. Sistemática e atenciosamente, foram lidas todas as cartas recebidas e, todas elas foram respondidas. Na medida que as conversas se desenrolavam, as afinidades se aproximavam ou distanciavam, promovendo a continuação ou não das conversas; o aprofundamento ou não das trocas missivísticas. Por fim, chegando ao ponto de haver uma redução na circulação das cartas, até ao ponto de se tornar uma correspondência mais assídua, mais amiudada e, mais especial.

Desta maneira, se chegou a uma dentre as correspondentes, que se fez eleger como aquela a quem se dedicaria mais tempo e atenção. Talvez, na mesma medida, a missivista passara a dispensar mais atenção e cuidado no escrever, no decorar, no perfumar as cartas que enviava, de tal modo que passava a ser esperada com mais ansiedade e maior expectativa, a sua resposta, à carta que lhe fora dirigida. Neste vai-e-vem de cartas, fez-se comum o interesse relacional, em um trocar de falas e impressões, abrindo pouco a pouco a possibilidade de um encontro presencial entre aqueles dois jovens, ainda desconhecidos um do outro do ponto de vista pessoal mas, que já se sentiam ligados por meio dos escritos entre eles trocados.

Chega dezembro de 1989 e, com ele, a concretização de um plano arquitetado durante todo o transcurso dos meses a partir dos quais a correspondência tomou outros rumos, que não mais a mera consolidação de uma amizade. Era, pois, o momento de tornar real uma troca de afetos, não mais intermediados pelos Correios, mas, sim, mediante o deslocamento até o Estado do Rio de Janeiro, onde residia a correspondente. Da capital fluminense até a cidade de Resende, localizada no sul do Estado, mais de cem quilômetros ainda precisavam ser percorridos. Tendo lá chegado quase ao fim da noite, ele se acomodou em um hotel, que mais parecia casa de uma antiga elite, talvez de uns 50 anos antes, considerando-se os tempos de prosperidade da região, aos tempos do que se poderia denominar “ciclo do aço”.

Era o último dia do ano, manhã fresca de domingo, sob uma temperatura amena naquele quarto de hotel quase rústico, este escrevente acordara cedo, ainda perguntando a si mesmo, se de fato ali estava, na realidade ou, se não era uma fantasia engendrada pelo seu cérebro. Mas, pensava em contraponto, os ônibus em que viajara até ali, seria também uma invenção fantasiosa do cérebro? Certamente não, dizia, de si para consigo.

Levantara-se e, ao respirar o ar daquela cidade, se enchera de coragem e saíra com o fito de se dirigir ao bairro de Santo Amaro, onde se localizava a igreja frequentada pela jovem e seus pais e irmãos. Ao descer do ônibus e percorrer o trecho que faltava para alcançar o templo da assembleia de Deus, uma música tocava nas casas do seu entorno. Impressionava a este garatujador, o fato de lhe parecer ouvir aquela música pela primeira vez, quando na verdade, o que pode ter ocorrido, é ele ter prestado atenção nela, pela primeira vez, dado ao inusitado do momento que ora vivia: encontrar alguém, com quem ainda não o tivera visto, como de fato ele era, apesar de já lhe ter visto em fotografias.

Naquele dia 31, bem como durante toda a sua estada naquela cidade, a música de Gloria Stefan chegava aos ouvidos daquele forasteiro; parecia que era deliberado. Quer fosse em receptores de rádio que houvesse por perto, quer por outros meios sobre os quais ele não possuía qualquer controle, a música tocava, tocava, tocava...

https://youtu.be/J1x1WGtePSE

 

Professor Jorge Damasceno – 22 de outubro de 2020.

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Histórias e Memórias de Alagoinhas, pelos escritos de Maria Feijó - XXII

 

Histórias e Memórias de Alagoinhas, pelos escritos de Maria Feijó – XXII – Tempo e espaço – algumas breves considerações.

 

Neste ponto da análise de “Pelos Caminhos da Vida de Uma Professora Primária”, obra publicada há quarenta e dois anos pela literata alagoinhense Maria Feijó de Souza Neves (1918-2001), é preciso analisar um aspecto daquela construção literária, dentre outros que já foram esquadrinhados por aqui ou em outros lugares. Faz-se necessário atentar para o estabelecimento da relação “tempo” e “espaço”, que pode ser apreendida em todo o transcorrer de uma leitura atenta e profunda da obra em exame.

Assim é que, ao desenvolver a sua escrita, Feijó se utiliza de elementos do presente para ressignificar o passado que pretende trazer ao conhecimento do seu leitor. O tempo presente é o tempo em que ela se insere, com suas nuances, suas ideias, suas expectativas e suas perspectivas, indicando que ela, em grande medida, sofre as influências dos elementos culturais dos quais está impregnado o seu modo de pensar. A partir dele, usando as técnicas de que dispõe naquele momento para criar, revisita um passado que viveu, mas que, como já se disse, não tem como o trazer para o presente, do mesmo modo como foi por ela vivido. De sorte que, para o seu trabalho de “rememorar” aquele passado, precisará lançar mão de fragmentos daquele passado que pretende reconstruir.

Assim, ao introduzir o trabalho narrativo que será desenvolvido por Marta, Feijó aponta para a ideia de tempo, na medida em que indica para Maria Clara que aquela exposição não será rápida. Aquele rememorar se fará em torno de algumas gerações de professoras, desde aquelas que atuaram na formação de Maria Luiza Peixoto, passando por aquelas outras que por ela mesma viessem a se formar, alcançando a própria Maria Clara, recém-inserida no jornalhar diário de professora. Não é sem razão a advertência de Marta à sua interlocutora: “É longa, mas não dá para ter sono, não, porque movimentada e cheia de variedade de cenários, apesar de ter sido quase toda ela passada no Interior[...]”. (FEIJÓ, 1978, p. 23).

Em todo o transcurso da narrativa, Feijó está envolta em “tempos” que se interpõem. Um tempo, está representado pelo “presente”, isto é, no momento mesmo em que ela escreve o seu texto, cria os seus personagens e elabora a trama no qual os movimentará. Aquele presente, talvez possa ser situado entre os anos de 1976 e 1977. Neles se pode encontrar alguns elementos constitutivos do pensamento cultural, filosófico e literário, que podem ter levado Maria Feijó a escrever o que escreveu e como escreveu.

O outro tempo que envolve Feijó, no sentido de construir os seus “rememorares”, é o “tempo passado”, que ela pretende “reconstruir”, sem que o possa fazer, conforme já se observou em outros arrazoados, na medida em que, por mais que tenha havido um grande esforço de sua parte, o “passado” como de fato ele foi vivido e até mesmo testemunhado, não poderia ser trazido integralmente para o presente. Os fragmentos daquele “passado” “recuperados” pela memória, já estão contaminados pelo “presente” e ressignificados por quem os torna públicos, quer em forma de um trabalho historiográfico, quer em forma de uma narrativa literária – como é o caso ora em exame.

Mas há um outro elemento que, em concomitância com o “tempo histórico”, de igual modo age sobre o processo criativo de Maria Feijó. Está se falando do “espaço”, aqui entendido como sendo o “[...] lugar que se estabelece na materialidade física, como campo que é gerado através das relações sociais, ou como realidade que se vê estabelecida imaginariamente em resposta aos dois fatores anteriores”. (BARROS, 2005, P. 96). Observe-se o que diz a narradora, continuando o seu introito, para convencer à sua interlocutora. Fala de “paisagens” que estão à vista das duas; mas fala também de “interior”, conceito um tanto abstrato para a jovem citadina. Marta prossegue:

“[...]. Olhando o mar, o céu, e o sol, lindos como estão, com certeza você me escutará a-ten-ci-o-sa-mente... Se for preciso — e bem provável é — iremos até nossa casa, o que só me dará prazer. Há muito isto não acontece. O dia é grande. Se necessários, teremos novos dias pela frente uma semana talvez. Suas férias aí estão e poderei compartilhá-las com você. Será mesmo interessante, porquanto emolduraremos esta história, de céu, e mar, e sol, e festa de luz, diariamente, em deliciosos banhos, para alegrar um pouco o panorama rústico do Interior onde ela, como disse, quase toda, aconteceu e, continua, talvez... indefinidamente, nas sucessivas gerações, acontecendo...” (FEIJÓ, 1978, p. 23).

 

Portanto, é de “espaço” que Marta está falando, ao reportar-se, tanto ao “lugar” onde entabulam a conversa e, caso precise, poderão continuar a fazê-lo, quanto ao “lugar” a respeito do qual falará, ao levar a bom termo a sua narrativa. Conforme assevera José D’Assunção Barros,

“As ações e transformações que afetam aquela vida humana que pode ser historicamente considerada dão-se em um espaço que muitas vezes é um espaço geográfico ou político, e que, sobretudo, sempre e necessariamente constituir-se-á em espaço social. Mas com a expansão dos domínios históricos que começou a se verificar no último século, este Espaço também pode ser perfeitamente um “espaço imaginário” (o espaço da imaginação, da iconografia, da literatura), e adivinha-se que em um momento que não deve estar muito distante os historiadores estarão também estudando o “espaço virtual”, produzido através da comunicação virtual ou da tecnologia artificial. [...]”. (BARROS, 2005, p. 95-96).

Ainda recorre-se a Barros, no sentido de compreender que “[...], a noção de espacialidade foi se alargando com o desenvolvimento da historiografia do século XX: do espaço físico ao espaço social, político e imaginário, e daí até a noção do espaço como “campo de forças” que pode inclusive reger a compreensão das práticas discursivas. [...]”. (BARROS, 2006, p. 464).

 

Ao iniciar a descrição da sua “amiga”, Marta faz uma rápida descrição dos “espaços” onde ela nascera, crescera, se desenvolvera e se tornara o agente ativo do seu narrar. Diz ela:

Perdida lá no interior da Bahia, na Cidade de Alagoinhas em meio às laranjeiras em flor e aos cajueiros frondosos de seu sítio querido, havia uma garota raquítica, pequenina, ”um pingo de gente”, que nem se sabia se chegaria mesmo a crescer, chamada Maria Luísa Peixoto de Moura. Luisinha na intimidade. Todos desprezavam o Maria. Era conhecida, familiarmente, por” Luisinha” e, fora do lar, desde a escola primária,” Peixoto”. Não se sabe por que isto, mas assim a tratavam. E pegou. [...]”. (FEIJÓ, 1978, p. 23).

Como se pôde perceber, uma diversidade de espaços aparece na descrição feita por Marta, conforme apontado por Barros na citação que fora transcrita antes. Os espaços físicos, sociais, políticos e culturais já estão delineados por ela, se configurando como sendo a “paisagem” que está construindo, no sentido de dotar o leitor de um vasto conjunto de elementos, com o fito de permitir ao leitor uma compreensão mais alargada da mensagem que pretende transmitir, ao desenvolver a tessitura da trama sócio-histórica que envolve o ser professora primária.

 

Professor Jorge Damasceno – 21 de outubro de 2020.

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Um Escrevedor Fala de Memória Musical - III

 

Um escrevedor fala de memória musical – III – Ainda 1969: um ano prenhe de histórias, memórias e músicas

 

Esta já é a terceira incursão que este escrevedor faz ao interior de sua memória musical, procurando revolver camadas de lembranças que se encontram em vários momentos vividos de seus já quase sexagésimo ano de existência. Grande parte daquelas camadas são levantadas por meio da audição de músicas que, ao lhe penetrar o âmago das reminiscências, traz outras memórias a elas relacionadas.

Para começar, pode se dizer que aquele ano de 1969, fora prenhe de histórias de conflitos bélicos por territórios e supremacia ideológica/tecnológica – corriam pelo mundo os efeitos da “Guerra Fria” impulsionada pela “corrida armamentista” e os horrores da Guerra do Vietnam” -, de  disputas por hegemonias políticas e sociais, bem como, marcado por lutas e confrontos existenciais – ainda se respiravam os ares das jornadas de maio de 1968 e se difundiam os paradigmas da “contracultura”. No Brasil, ele é marcado pelo endurecimento do regime instalado em 1964, com a criação de uma legislação de arbítrio, que levara aos porões dos “DOPS” e prisões das Forças Armadas, um grande número de artistas, diversos intelectuais e todos aqueles de quem se suspeitasse.

1969 também é pleno de memórias e narrativas daqueles que o viveram intensamente, quer como opositores do regime, quer como quem nele se engajou para dele receber as benesses – a grande imprensa brasileira é um exemplo deste último grupo. O interessado em tais memórias, pode encontrar uma profusão delas nos relatórios das várias Comissões da Verdade que funcionaram durante o governo de Dilma Rousseff; também há uma profusão de memórias (auto) biográficas de agentes públicos – civis ou militares – e de cidadãos comuns. Este vastíssimo material tem sido estudado em diversas universidades brasileiras e em grandes espaços de pesquisa no exterior; mas, se sabe que ainda há muito por fazer, por examinar, por escrever.

É naquele ano que Richard Nixon e Emílio Garrastazu Médici tomam posse na presidência dos seus respectivos países; no Brasil, em meio aos efeitos do regime militar instalado cinco anos antes, se dá o sequestro do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, logo trocado pela liberdade de presos políticos, até então, mantidos pelo regime dos generais. Aquele ato de grande risco, foi perpetrado como parte das ações de grupos que se opunham ao domínio do Estado ditatorial brasileiro, instaurado pelos militares; é também naquele ano que o ativista Carlos Marighela é emboscado e morto pelos comandados do delegado Fleury; ainda em 1969, o mundo assistia The Beatles realizarem o último show e lançarem o último disco; é também naquele ano que morre o segundo dos generais presidentes do Brasil.

Como se pode observar, trata-se de um ano bastante movimentado nos vários campos do viver humano, tanto no Brasil quanto fora dele.  Alguns exemplos: naquele ano, prossegue a profusão de “Atos Institucionais – os “AI”, entre eles o que instituiu a nova composição do “STF”, reduzindo de dezesseis para onze, o número de cadeiras a serem ocupadas naquele corpo jurídico; o Congresso Nacional é reaberto, depois de ter sido fechado pelos efeitos do AI5, em 13 de dezembro do ano anterior; é promulgada a Emenda Constitucional Número  1“, que praticamente reescreve a Constituição promulgada pelo governo do generalato em 1967, dentre outros fatos que movimentaram a política, a economia, a sociedade e a cultura  brasileira, no ano em que a TV Globo exibe pela primeira vez o seu “Jornal Nacional”, do nascimento da Embraer e no ano dos primeiros resultados de experimentos que levaram a criação da Internet.

É preciso salientar de passagem, que grande parte daquilo que foi exposto até aqui, no momento mesmo do seu desenrolar, não é parte da memória vivida por este escrevedor, evidentemente. As informações foram colhidas no transcurso do seu viver e fazem parte do rememorar coletivo, que é reforçado e solidificado pela escola, pelos livros, pelos filmes, pelos documentários, pelos arquivos – públicos ou privados -, pelas narrativas daqueles que vivenciaram os eventos incrustrados na construção coletiva da memória. Tal memória vai ganhando corpo com o passar do tempo e vai se incorporando à construção mental do indivíduo que se insere no processo histórico social. No dizer de Maurice Halbwach (1877-1945):

“[...]. Ao crescer, especialmente quando se torna adulta, a criança participa de modo mais distinto e mais refletido com relação à vida e ao pensamento desses grupos de que fazia parte, no início quase sem perceber. Como isso não modificaria a idéia que ela tem de seu passado? Como as novas noções que ela adquire, noções sobre fatos, reflexões e idéias, não reagiriam sobre suas lembranças? Já repetimos muitas vezes: em medida muito grande, a lembrança é uma reconstrução do passado com a ajuda de dados tomados de empréstimo ao presente e preparados por outras reconstruções feitas em épocas anteriores e de onde a imagem de outrora já saiu bastante alterada. Claro, se pela memória somos remetidos ao contato direto com alguma de nossas antigas impressões, por definição a lembrança se distinguiria dessas  idéias mais ou menos precisas que a nossa reflexão, auxiliada por  narrativas, testemunhos e confidências dos outros, nos permite fazer de como teria sido o nosso passado. Não obstante, ainda que seja possível evocar de maneira tão direta algumas lembranças, é impossível distinguir os casos em que assim procedemos e aqueles em que imaginamos o que teria acontecido. Assim, podemos chamar de lembranças muitas representações que, pelo menos parcialmente, se baseiam em testemunhos e deduções — mas então, a parte do social, digamos, do histórico na memória que temos de nosso próprio passado, é bem maior do que podemos imaginar. Isso, porque desde a infância, no contato com os adultos, adquirimos muitos meios de encontrar e reconhecer muitas lembranças que, sem isso, teríamos esquecido rapidamente, em sua totalidade ou em parte”. (HALBWACH, 2006, p. 91).

 

Dentro desta perspectiva, grande parte das melodias que foram lançadas ou bastante tocadas em 1969, só chegaram a este escrevedor algum tempo depois, construindo um outro feixe de lembranças que se ligam àquele tempo em que foram ouvidas. Isto é: nem sempre estão relacionadas ao momento do seu surgimento para o público em geral, mas sim, ao instante em que chegou pela primeira vez aos seus ouvidos, em tempos e circunstâncias diferentes.

Outrossim, um abundante número de narrativas sobre aquele ano, traz ao leitor uma memória coletiva bastante expressiva, no que tange ao mundo da produção musical. 1969 está em curso e, nele, algumas músicas e lembranças se destacam e se misturam. Naquele ano houve uma grande quantidade de lançamentos de “long. plays” que acabaram se tornando clássicos do universo discográfico brasileiro, para ficar só no campo nacional. Foi o caso, por exemplo,, da explosão de músicas como “Aquele Abraço”, de Gilberto Gil, “País Tropical”, Wilson Simonal, “Estrada de Santos”, Roberto Carlos, “Irene”, música que Caetano Veloso compôs na prisão por subversão, entre tantas outras, além do lançamento do primeiro disco de Antônio Marcos,  LP no qual foi gravada a música comentada no arrazoado anterior, mas que não foi a mais tocada dentre as suas doze faixas. Podem ser destacadas mais duas músicas daquele álbum, cujo título é “Antônio Marcos”: “Você pediu e eu já vou daqui”, canção que abre o disco;

https://youtu.be/bbsNPb-A1Po

e a música “Sou Eu”.

https://youtu.be/GcwfZdrTedE

A primeira delas, sempre foi tocada ao longo dos anos, também é facilmente encontrável nas produções que intitulam “20 melhores” do artista tal; a segunda, há muito já não era ouvida por quem escreve estas páginas, por ser pouco tocada nos programas de “flash Back”. Ao preparar o arrazoado anterior, o disco completo foi ouvido e, aos seus primeiros acordes, logo foi reconhecida, como tendo sido ouvida na época mesma de sua execução, talvez, na rádio Emissora de Alagoinhas – da qual já se falou em exposições pretéritas.

Já vão longas as páginas destes rememorares e, é preciso falar que a música que se quer trazer à apreciação dos leitores, como já deve ter ficado claro, é do ano de 1969 e, a sua audição traz a este escrevedor, impressões olfativas, sensitivas, táteis e até auditivas  de um tempo em que toda esta área de sua residência e entornos, era um quase quadrado de uns trezentos metros a partir da estrada de ferro e uns mais ou menos duzentos e cinquenta metros, na direção do rio Aramari, cujos loteamentos eram oriundos de fazendas de plantação de fumo e mandioca, imensos coqueirais e laranjais, de ocupação ainda rarefeita.

É nítido o rememorar de espaços ainda sem casas, com vasta vegetação rasteira, algumas árvores frondosas e, sobretudo, aquelas partes dos novos loteamentos que são demarcadas com meio-fio, que serviam de estrada em momentos de alagamento, o que era bastante comum nos invernos vividos naqueles idos de 1969 e, que perdurou por bastante tempo, até que nos anos dois mil, o local  viesse a ser urbanizado.

Talvez fosse no rádio do caminhão do senhor Heupídio, residente em um daqueles novos loteamentos estabelecidos na antiga fazenda de Álvaro Dantas, ou mesmo na casa do senhor Teobaldo e de dona Janda, também residentes no local, que este escrevinhador ouvia os belíssimos acordes de um dos maiores êxitos de Erasmo Carlos, que, diga-se de passagem,  aquela música foi o seu divisor de águas, conforme entrevista do artista, concedida anos depois à imprensa.

Quem conhece esta história, sabe que a melodia em questão é: “Sentado à Beira do Caminho”, na inconfundível voz daquele que sempre assinou diversos sucessos de Roberto Carlos, mas que não conseguia emplacar o seu próprio.  

https://youtu.be/Q7jeJfIh7Mw

 

Professor Jorge Damasceno – 14 de outubro de 2020.

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Histórias e Memórias de Alagoinhas, pelos escritos de Maria Feijó - XXI

 

Histórias e memórias de Alagoinhas, pelos escritos de Maria Feijó – XXI –A literata prepara o monólogo de Marta.

 

Há largos e já bons sete anos, se tem procurado refletir sobre as Histórias e as Memórias de Alagoinhas, a partir da leitura dos escritos de Maria Feijó, sobretudo, aqueles produzidos em prosa – Alecrim do Tabuleiro (1972); Pelos Caminhos da Vida de uma Professora Primária (1978); Pensionato Paraíso das Moças & Outros Ensaios (1988) -, visto que a sua obra é bem mais vasta e composta majoritariamente de poesias. Era outubro de 2013, quando esta série começou a ser publicada no jornal eletrônico “Alagoinhas Hoje”, em um espaço chamado “Histórias e Memórias”, que foi gentilmente reservado para este escrevedor, pelo seu editor, um amigo de largas décadas, o licenciado em história e jornalista, feito nas redações de diversos jornais alagoinhenses e soteropolitanos, Maurílio Fontes.

Até maio de 2015, foram publicados  dezesseis arrazoados naquele periódico, tendo os quatro primeiros deles, já sido revistos e publicados como um dos capítulos do livro “Alagoinhas: histórias e historiografia”, organizado pela professora Eliana Batista; alguns outros tiveram partes inseridas em artigo publicado na revista eletrônica “Veredas da História”, além de outros daqueles textos, que ganharam forma de artigos e se encontram ainda inéditos. Depois de alguns anos, tem sido retomada aquela análise, com a publicação do arrazoado de número 16, revisto e ampliado, que ensejou o desenvolvimento dos escritos trazidos ao público leitor deste blog.

Como se tem salientado desde então, “Pelos Caminhos da Vida de uma Professora Primária”, é uma obra a partir da qual se pode fazer várias leituras, pode se ter várias compreensões no que tange ao conjunto de sua composição e, a partir dela construir uma gama variadíssima de interpretações, evidentemente, dependendo do ponto de observação escolhido por quem se disponha a esquadrinhá-la e examiná-la.

Assim é que, ao escrever no arrazoado publicado na já mencionada obra organizada por Batista em 2015, postulou-se a assertiva de que “[...], em toda sua obra, pode-se perceber a prevalência  dos ”elementos constitutivos da memória”, mediante os quais, Feijó  tece as suas narrativas, apontando ao pesquisador, inúmeras pistas, a  partir das quais deverá desenvolver suas investigações, no sentido de  escrever sobre a história por ela contada, de modo a confrontar as memórias construídas sobre um tempo, um lugar, um fato ou um sujeito  dado”. (DAMASCENO, 2015, p. 127).

Ao que parece, Feijó procura construir aquilo que se chamaria de “romance histórico”, entendido como sendo uma obra literária estruturada em pesquisa realizada em fontes históricas como periódicos, obras de referência – no caso em exame, em sua própria memória, considerando-se os limites já apontados – e, lançando mão da imaginação para suprir a falta de “elementos históricos comprováveis”. Seria interessante fazer-se um estudo acerca daquilo que foi lido por Maria Feijó, talvez com base na composição de sua biblioteca. Vale ressaltar que, por ter sido bibliotecária por várias décadas, ela poderia ter tido acesso a uma vasta gama de obras e autores e, deles ter extraído a seiva que permitiu fazer a planta crescer, se desenvolver, florescer  e brotar em forma de uma tão alentada prosa, como é “Pelos Caminhos da Vida de uma Professora Primária”.

Enfim, não se pode perder de vista que está se tratando com uma obra de alguém que era classificado como “intelectual”, pois integrava academias literárias e nelas, tivera ocupado cadeiras de alguma relevância. Naqueles espaços, ela bem poderia ter apreendido muitos dos paradigmas que norteavam a construção literária, fazendo uso deles na composição da obra ora em exame.

Mas, dê-se-lhe a palavra, para que ela finalmente permita a Marta protagonizar o monólogo por meio do qual conduzirá o percurso que a levará até Luísa Peixoto. Quando Maria Clara objetara as palavras de conforto ditas por Marta, argumentando que, para além dos minguados salários de professora, havia a necessidade de levar para casa uma parte do seu trabalho e, questionar se, em tais e quais condições “dava para se manter otimista”, Clara talvez apontasse para um excesso daquilo que se convencionou denominar “síndrome de Poliana”.

Pode ser que Feijó tenha incutido tal comportamento em Marta, talvez, com o objetivo de prover as condições narrativas que Marta precisaria ter, a fim de mais profundamente fincar os seus pés na “história” que lhe deu a contar.

Ao lançar lhe de chofre a pergunta, a jovem professora acabou por paralisar a amiga, como que dizendo que não haveria mais o que falar, diante da situação de desalento em que se encontrava com a profissão escolhida e tão ardentemente desejada por ela, mas, escolha não recebida de bom grado pelos seus familiares.

Assim, Feijó ainda no seu posto de comando da narração, escreve:

 

Marta silencia um pouco. Nada responde. Tem pena da ingenuidade de Clarinha. Olha-a com ternura, respira fundo e pensa descobrir um jeito para amenizar aquele desânimo. Tão nova, tão cheia de vida e de ideal e, paradoxalmente, tão decepcionada, desanimada, aflita dessa maneira e não com muita razão. Reerguer aquele ânimo, precocemente abatido, pensa, mas... como? Como fazê-lo?” (FEIJÓ, 1978, p. 21-22).

Aqui, a literata alagoinhense indica aos seus leitores, qual o meio de que se vai servir para dar fluência ao seu rememorar. Diz ela acerca de Marta, ainda quase paralisada pelo efeito que lhe causara a “decepção”, o “desânimo”, para ela, ainda precoce e a “aflição” que a atribuía a ingenuidade e/ou a pouca idade de “Clarinha”:

“Transporta-se para outras plagas muito conhecidas suas onde outras jovens iguaizinhas a ela, Clarinha, em tempos remotos, e nestes ainda, tinham (e têm), no magistério, vida bastante diferente, e quanto! Pensa... Pensa durante segundos. Vindo do passado, um estalo descobre-lhe o roteiro, esclarecendo o nome do remédio para a cura ou, ao menos, paliativo para o” grande mal.” (FEIJÓ, 1978, p. 22).

Neste ponto, cabe uma observação do leitor. Parece que Feijó tem alguma dificuldade de sair de cena, na medida em que ela conduz os personagens, de modo a deixá-los sob o seu controle – talvez, isto não seja uma dificuldade, mas, sim, uma técnica literária. Seja como for, a proposta de criar uma personagem para conduzir a narrativa monologamente é dela própria. Logo, por que tanta dificuldade em deixar que a própria narradora seja aquela que conduzirá o processo narrativo? Isto pode levar o leitor a inferir que, de fato, Feijó não quer e não pode deixar a personagem conduzir sozinha o seu narrar, exatamente porque é ela mesma, Feijó, a narradora.

Feijó devolve a palavra para Marta, que se dirige a sua interlocutora:

“Escute, Clarinha, não é a título de consolo que lhe vou dizer uma coisa, porque você não precisa. E sim é para você mesma, inteligente, otimista e cheia de ideal como sempre foi procurar buscar no âmago do seu eu, as reservas nele guardadas, utilizá-las quando necessário e... tirar suas próprias conclusões. Certo?” (FEIJÓ, 1978, p. 22).

Aqui, ela retoma o fio condutor da narrativa, talvez, só para reforçar a observação feita acima, para fazer uma descrição que, bem poderia ter deixado a própria Marta fazer. Diz ela que Maria Clara, diante da proposta da amiga, ficara “Parada, limitando-se a balançar, afirmativamente, a cabeça, Clarinha dispõe-se a ouvi-la”. E prossegue com sua descrição, desta vez de Marta, que, começa a assenhorear-se da situação. Diz Feijó:

 

“Marta, sutilmente, fica a matutar, matutar, antes de dar início àquela” talvez miraculosa” — sim, vamos dizer assim — cura, buscando palavras para sua conversa. Com bastante calma, inicia-a” (FEIJÓ, 1978, p. 22).

Ao iniciar a sua fala, Marta procura levar até a jovem amiga, as credenciais que poderão dar um aspecto de força e veracidade ao que passará a narrar, dali há algumas linhas. Diz ela:

“— Você sabe, perfeitamente, que não sou daqui. Sou baiana, vindo para esta Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, há alguns anos e... Professora Primária formada por uma Escola Normal do interior do Estado da Bahia. E o sou com muito orgulho, porque, uma base bem alicerçada foi o que lá obtive para tudo quanto tenho tentado na vida e, por mais incrível que possa parecer, às vezes, até penso haver chegado, primeiramente, às minhas mãos, o diploma de uma Faculdade, antes mesmo de tê-la cursado. Muito bem! Lá deixei muitas amigas — oh! e como são boas e sinceras! —, colegas de turma a quem visito, amiúde, pois todo ano vou — e Deus me livre não o fazer sempre! — à Bahia.” (FEIJÓ, 1978, p. 22).

Segue ela, agora apresentando a pessoa de quem pretende contar a saga, esperando com isto, que a sua interlocutora se refaça do desânimo e da decepção. Talvez esteja embutida aquela ideia que diria: “há quem sofra mais do que eu”, logo: “eu não tenho razão para reclamar, para parar, para desanimar”. Para este escrevente, tratar-se-ia de uma “ideologia” do otimismo, que, entende-se, tanto mal faz àqueles que a adotam. E, assim diz Marta:

“E é a história de uma delas, daquela que é mais minha amiga que lhe vou contar, simbolizando a de todas as Professoras Primárias do interior do Estado da Bahia, cujas vidas são iguais ou. talvez, piores do que a dela. Frisando que, tal desenrolar de fatos no concernente à vida de Professora propriamente dita com efetivo exercício, deve ser transportado para umas duas décadas e meia, mais ou menos, distantes. (Que é isso, minha amiga? Não se espante tanto assim, não, com esse olhar surpreso!... Quase nada difere das que hoje ainda lá integram o próprio magistério, vivendo a sua idade, no mesmo Interior. Os problemas, se não são iguais, são muito parecidos, apesar da era das comunicações e dos jatos.) Minha verdadeira opinião sobre essa moça, abstenho-me de dizer-lha. Sou suspeita para tanto pela amizade que nos une. Apenas, contar-lhe-ei o seu drama, idêntico em todas as vidas de suas colegas (poucas nuances diferentes) e você, por você mesma vai constatá-la!” (FEIJÓ, 1978, p. 22).

 

Feijó, outra vez interfere na narrativa para informar ao leitor que “Clarinha só faz olhar a amiga com olhar descrente e sorriso, idem. Enquanto Marta continua”.

E, com esta passagem, fica patente a ideia de um monólogo, o que parece não preocupar a autora, pois não faz qualquer reparo ou pedido de desculpas aos leitores. E é Marta quem propõe: “— ... faça o favor de me ouvir quietinha, caladinha, aqui no refúgio de nossa barraca, só opinando quando eu terminar”.

 

Como se pode perceber, a trajetória da professora primária que Marta se proporá a descrever, seria uma espécie de percurso comum a todas as pessoas que exerceram e/ou exercem o magistério, sobretudo, o primário. Dar a conhecer a vida deste tipo de profissional, talvez pensasse Maria Feijó, seria uma forma de chamar a atenção da sociedade, para o modo como estes profissionais são por ela tratados, como paga, talvez, do seu trabalho de formação, inclusive, daqueles que deles não gostam e desdenham.

 

Professor Jorge Damasceno – 12 de outubro de 2020.