“[...] subtraída em tenebrosas transações”. (Chico Buarque).
Conforme tem percebido o arguto leitor destes garatujares,
ao desenvolver algumas observações relacionadas aos processos formativos de
José Mário, assim como, ao apresentar algumas das dissonâncias entre a sua
inserção na vida adulta e a sua capacidade de abstração, que, em tese, o
permitiria elaborar construtos que lhe permitissem perceber o mundo à sua
volta, separando-o, adequadamente dos mundos propostos pelo conjunto de
construtos literários que passaram sob os seus dedos ágeis e ávidos por
percorrer as suas páginas em cada vez maior número, tem sido considerado o pressuposto
de que, do mesmo modo como o seu processo formativo foi marcado por diversos hiatos
de tempo entre as suas etapas, contradições, avanços e retrações em sua consecução,
também o modo como se desenvolveu a sua capacidade de leitura do mundo à sua
volta, não ocorreu dentro de um compasso uniforme e contínuo. Pelo que já foi
exposto até aqui, infere-se que José Mário não compreendia as coisas no mesmo
ritmo e tempo que o faziam os seus coetâneos e, por conta da diferença de idade
entre ele e os seus colegas de série, mormente nos instantes em que entrara nas
etapas finais do seu processo de escolarização, época em que era o mais velho
das turmas em que fora matriculado, muitas vezes ele fora superado por colegas
mais jovens, no que respeita a compreender e, por conseguinte, formar juízo,
sobre o momento histórico, sociológico, político e cultural em que todos eles viviam,
aqui e alhures.
Neste sentido, é ainda preciso salientar que, para que se
tenha um pouco mais de elementos para compreender o que se vem conjecturando
nas digressões aqui apresentadas, aquele processo de formação escolar aludido acima,
que marcara o caminhar de José Mário, no que tange à sua preparação para se
fazer inserir na vida como um todo e, na vida laboral em particular, além de
ter sido marcado pelos hiatos já apontados, também era parco daqueles elementos
que lhe permitissem, não só apreender e compreender os ensinos propedêuticos –
de per si, já bastante paupérrimos e vagos – que lhe viessem a servir de base
para as fases posteriores da jornada escolar. Mas, no seu caminhar escolar -e
mesmo acadêmico –, ainda menos, ele fora dotado de instrumental que o
capacitassem a pensar criticamente o que lia nos compêndios – escolares ou
literários – para que pudesse elaborar de si mesmo, os juízos necessários à
reflexão e a formatação de um viver diário em consonância com o ser social que insistiam
em lhe categorizar como tal. Tendo ele um temperamento bastante resistente às
aglomerações e, tendo um perfil econômico e social que lhe fazia pensar não
caber em tal ou qual ambiente, mas, ao contrário, se querendo proteger de
situações vexatórias e de iminente constrangimento, preferia se resguardar de
socializações nas quais não se sentisse partícipe. Assim, isolado das “trocas
simbólicas” que lhe disseram indispensáveis para a formação de um “ser social”,
acabara por não incluir aquilo que depois viera a saber ser o “pensamento do
outro” no seu repertório crítico-reflexivo.
Retomando a sua leitura de “o Senhor Embaixador”, talvez se
possa afirmar, cerca de cinquenta anos depois, que a ausência de um contato
social com grupos que já possuíam um repertório crítico-reflexivo mais
desenvolvido e maduro, poderia ter contribuído para que se lhe não tivesse chamado
a atenção, para os diversos discursos contidos naquela obra que lera com tanta intensidade.
Veríssimo não os colocara ali, apenas para encher as páginas do volume que José
Mário estava a percorrer com os seus dedos. Eles se encontravam ali, com o fito
de apontar não somente as contradições humanas – que, aliás, José Mário sequer
compreendera em sua inteireza, apesar de vivê-las cotidianamente – mas, sim, visando demonstrar como a corrupção já se entranhava nos
Estados Nacionais, como traças enfestam bibliotecas, ainda que só possam ser
identificadas, quando o pó do seu estrago, já se encontra acumulado nas
estantes ou nos cantos mais recônditos do edifício que a abriga.
Durante toda a obra, este alerta ao leitor aparece em pelo
menos três momentos, que, uma vez mais se saliente, aquele leitor mal entrado
na puberdade e, ainda enredado na sétima ou oitava série, ainda não houvera atentado
adequadamente, embora não houvesse se furtado a fazer aquela leitura integralmente.
O primeiro deles se apresenta em uma carta endereçada à jovem Glenda Doremus,
quando o seu pai a interpela a respeito de suas indecisões sobre o que de fato,
ela queria estudar. Em dada altura da missiva, aquele homem rico do sul dos
Estados Unidos, pergunta à sua destinatária, qual a utilidade de se estudar
esta “tolice de América Latina”. Tal pergunta deveria ter acionado em José
Mário algum alerta, visto se tratar de uma pergunta feita a partir de uma
percepção prática de um indivíduo que não concebia estudos universitários que
não fossem para um fim efetivo, por exemplo, na melhoria da produtividade que,
por extensão de sentido, resultaria em melhores ou maiores ganhos monetários.
Mas, ele nem ao menos se assustou com a indignação do pai da moça, visto que
não possuía as conexões históricas que ligariam por exemplo, o sul escravista
do período que antecedera à guerra de Secessão (1861-1865), que anexara aquela região ao
mundo capitalista que imperava naquele País que resultara da vitória do "Norte", sobre o "sul". Isto ele não aprendera nas suas passagens pela sétima série do primeiro
grau.
O segundo momento em que Veríssimo chama a atenção dos seus leitores
para o mundo real que ultrapassava as páginas que ora eram lidas, inclusive por
José Mário, se dá quando o secretário da embaixada brasileira em Washington,
Orlando Gonzaga, manifesta a sua preocupação com as negociações em curso no
Brasil – aquele Brasil de Juscelino e do "desenvolvimentismo" –, envolvendo a importação de uma vultosa
quantidade de feijão, que achava absurda e desnecessária. “[...]. Era o fim do mundo. A compra ia ser efetuada por
intermédio duma firma americana a respeito da qual a Embaixada Brasileira,
graças a gestões dele próprio, Gonzaga, havia obtido de bancos de Nova York as
piores referências. Era preciso transmitir com a maior urgência essas
informações à Secretaria de Estado, a fim de evitar que a transação se
consumasse. [...].”, o diplomata brasileiro a quem Veríssimo dera voz, entendia
que, além de perigosa, por se tratar de uma negociação a partir de empresa que não
gozava de confiança, nem mesmo dos norte-americanos, a transação era
desnecessária, visto não haver efetiva necessidade de que aquela compra fosse
efetuada. E, uma vez mais, o rapaz que lia aquelas linhas na longínqua Alagoinhas,
nem se dera conta de que aquilo se tratava de fato – ou ao menos, poderia se
tratar -, preferindo o confortável entendimento de estar a ler uma ficção
urdida a partir do talento do seu autor.
Mas, indiferente ao entendimento simplista
e raso do seu leitor, Veríssimo vai mais longe em sua denúncia, quando, ainda ao
falar por meio do seu personagem, ele afirma que:” [...]. Gonzaga ia transmitir a informação apenas para varrer a
testada, a fim de que a embaixada não
fosse, no futuro, acusada de negligência ou de cumplicidade. Mas não tinha
muita esperança de que aquelas informações bancárias fossem levadas na devida
consideração. Começava a farejar
patifaria no negócio do feijão. Às vezes tinha a impressão de que, no Brasil,
quase todas as figuras responsáveis pelo Governo haviam perdido a dignidade. As
chamadas elites haviam falhado por comissão ou omissão. Salvava-se pouquíssima gente. Era um
descalabro... [...].”. É claro que aquele leitor desprovido
de instrumental histórico para perceber a gravidade do que estava sendo
apontado por Veríssimo, até sabia o que era “patifaria”; “omissão”; “negligência”;
“cumplicidade”. Mas, o que seriam as tais “elites”? Quem as formariam ou quem a
ela pertenceria? Ah, isto ele não sabia, sequer possuía qualquer ideia, a mais fugidia que fosse.
Assim, caminhara ele para
a conclusão de sua leitura e, zaz!: eis que aparece o diplomata brasileiro, a
quem veríssimo empresta um discurso indignado, pois, como ele imaginara, os dirigentes
brasileiros não deram ouvidos aos seus alertas e, efetivara a “tenebrosa”
transação, que, no dizer de Chico Buarque de Holanda, lhe subtraíra recursos que
poderiam ter sido investidos no provimento de necessidades imperiosas para o torrão
““pátrio”. Depois da secretária norte-americana da embaixada da República do
Sacramento demonstrar a sua indignação com a sentença impingida ao seu antigo
chefe, foi a vez de Veríssimo entregar a Gonzaga a oportunidade de também se
indignar, mas, com outra coisa. Ao responder a indagação da secretária ora
responsável pela embaixada sacramentenha, se as coisas também lhe não iam bem,
Gonzaga lhe retruca que não e, Veríssimo assegura ao leitor que “[...]. Apesar de
todas as informações que sua embaixada mandara ao Governo Brasileiro sobre a
firma à qual uma das autarquias nacionais ia comprar uma grande partida de
feijão, a transação se verificara-se depois (os jornais noticiavam o
escândalo) que o feijão estava podre! [...].”.
E, José Mário continuava a sua leitura superficial, sem ao menos atentar para o
que se passava de fato, enquanto os dois diplomatas sorviam as suas bebidas. É então
o momento em que Veríssimo introduz o terceiro dos discursos aqui aludidos,
aproveitando o desfecho do caso que suscitara aquela obra, para inserir o
Brasil real no contexto de uma República do Sacramento fictícia, mas que
serviria aos prováveis propósitos do autor, o de criticar a sua própria República,
ora igualmente submetida a uma ditadura. E, para demonstrar ao seu leitor a
medida da indignação do diplomata brasileiro, empresta-lhe o discurso em forma
de desabafo:
“[...]. — Feijão podre! Um
símbolo de nosso regime, da podridão de nossos governantes e políticos. O Brasil, [...], é um país saqueado. De fora
para dentro. De dentro para fora. De
cima para baixo... Ninguém nunca é responsabilizado por coisa alguma. Ninguém vai para a cadeia. [...]”.
Depois, Veríssimo enfatiza
o desconforto – seu e de quantos discordavam da teoria do “Homem Cordial”, de
Sergio Buarque de Holanda (1902-1982), em “Raízes do Brasil – 1936” – do seu
personagem, formulando diversas objeções sobre a “cordialidade” do brasileiro,
inclusive, mencionando o seu próprio pai, Senador da República e, partícipe de
várias ações cordiais pouco convencionais e, que, ao fim e ao cabo, favorecera
até mesmo aos seus próprios cavalos de raça, quando desfrutavam de leite em pó, teórica
e oficialmente destinado à crianças famélicas
e desnutridas de regiões pobres de uma imensidão territorial denominada Brasil.
Transcreva-se aqui, à guisa
de conclusão, o último trecho do discurso que Veríssimo insere no falar daquele
diplomata, no qual aparece a maneira como pensara e se expressara enquanto
bebericavam no outono da capital norte-americana. Observe-se que, a “simpatia”
a que alude Orlando Gonzaga, talvez, queira significar a “cordialidade” acima
apontada, em uma espécie de desvio que Veríssimo promove para, quiçá, evitar
ferir alguma suscetibilidade.
“[...]. Somos tão
simpáticos que nos acostumamos à miséria
em que vivem mais de dois terços da população
total do país... uma miséria abjeta, que, no nosso Nordeste, é igual ou
pior que a asiática... E, como somos
simpáticos e caridosos e, às vezes, vamos aos
domingos à missa, durante a qual sorrimos e acenamos de longe para
Deus (que deve ser um sujeito
simpático), de vez em quando damos esmolas aos
mendigos, vagamente convencidos de que assim estamos contribuindo
para resolver o problema social... [...].”.
Enfim, para compreender as
comparações feitas às situações reportadas por Orlando Gonzaga e, para compreender
as inferências que Veríssimo procurava fazer, no intuito de conduzir o seu
leitor à reflexões que lhe permitissem chegar à mensagem que ele queria
transmitir por meio do seu texto ficcional, seria preciso dispor de informações
extratextuais e de um pensamento crítico aguçado, ferramentas e instrumentos importantes para chegar a um tal
entendimento, que, José Mário não dispunha, embora possuísse algumas obras de
teoria literária, que nunca lera e, quando procurara o fazer, nunca as
compreendera o suficiente, no sentido de perceber a produção literária como uma
ferramenta para compreender o mundo por meio das tramas que ali eram propostas.
E hoje, no momento mesmo em que estas linhas estão sendo escritas, haveria
ainda leitores como o José Mário de cinquenta anos atrás? E “a pátria mãe tão distraída”,
ainda estaria sendo “subtraída” por “tenebrosas transações”?
Alagoinhas – 09 de agosto
de 2026 – inverno brasileiro.
Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com – www.historias-e-memorias.blogspot.com