Glenda Doremus – “a República do Sacramento” em “um estudo
interpretativo”. – Parte I.
Ao ler o título do arrazoado que ora tem diante de si, o
arguto leitor já se deve ter dado conta que este escrevedor pretende continuar
discorrendo sobre algumas passagens do livro “O Senhor Embaixador”, publicado
em 1965, escrito pelo gaúcho Érico Veríssimo (1905-1975), que tem por
finalidade estabelecer algumas relações entre a literatura e a História. Tal
relação se estabelece por meio da compreensão que a literatura oferece ao
historiador a oportunidade de apreender uma realidade dada, através das
inserções em paisagens que podem ser encontradas em espaços sociais e
geográficos onde se desenrola o enredo, personalidades, hábitos e idiossincrasias
inerentes aos diversos personagens envolvidos nas tramas tecidas pelo autor,
bem como, é possível depreender alguns dos elementos econômicos e sociais
presentes no tempo em que o construto textual se insere.
Com tais considerações esboçadas, já se salientou aqui que a
construção literária ora em exame, se dá no espaço territorial norte-americano,
na cidade que foi estabelecida como a sua capital; no tempo que medeia entre a
primavera e o outono de 1959, tendo a Revolução cubana como pano de fundo,
visto que, conforme o leitor vai se aprofundando no exame da obra, acaba por
ser evocada como um azorrague que poderá açoitar a América Latina com os seus
efeitos “nefastos”, portanto, servindo de justificativa para o descortinar de intervenções
no curso das democracias, para que não sejam multiplicadas as Cubas por todo o
continente.
Antes de continuar a discorrer sobre o exposto, não se pode
deixar de observar que, José Mário, aquele leitor voraz que há pelo menos cinquenta
anos tivera a aludida obra sob os seus dedos, não o pudera compreender sob a perspectiva
acima levantada, visto que, conforme já se disse, ele não possuía outras leituras
que o pudessem ajudar na compreensão daquilo que fora proposto por Veríssimo,
quando anuncia aos seus leitores que o pai da estudante da “Georgetown University”, considerava com uma grande
dose de desprezo, a opção que ela fizera por estudar aquela “[...] tolice de História da América Latina.[...]”. Fácil é depreender que José
Mário sequer atinava para a existência de uma “América Latina” e, mais: ele nem
mesmo entendia haver uma outra América, que não a do Norte, aquela mesma que era
propagandeada pelos meios de comunicação a que ele tinha acesso; aquela que era
retratada pelas transmissões radiofônicas que lhe chegavam através das ondas
curtas de seus receptores de rádio – financiadas pelo governo de Washington, no
auge da “Guerra Fria” e, que então não lhe era dado conhecer –, “A Voz da
América”, cuja programação era produzida e direcionada tanto para o Brasil e os
demais países de fala hispânica, quanto para o continente africano, visando
levar os “bons” augúrios da República, do progresso econômico industrial e,
principalmente, o democrático modo de ser Norte-americano, em detrimento de uma
propaganda “socialista” soviética, que aliás, todos teriam o dever de temer e
combater.
Para ilustrar o que acima
foi postulado, Veríssimo apresenta ao leitor, por meio de uma confissão feita
por Don Dionísio ao seu filho Pablo Ortega, quando lhe segreda a razão pela
qual apoiava o governo sanguinário e corrupto de Juventino Carrera.
Inicialmente, Veríssimo entrega ao leitor, o desabafo daquele homem, ao seu
filho que, por sua insistência e chantagem materna, ocupava um lugar de
secretário da embaixada do Sacramento em paris, ao lhe assegurar que:
“[...]. –” Será preciso que eu te diga que quando sou obrigado a me
aproximar do Generalíssimo, fico vermelho de vergonha e sinto ganas de tapar o
nariz? Espero que não me julgues tão ingênuo ou desonesto a ponto de apoiar
politicamente esse homem porque o considero um Presidente ideal. [...].”. E o
interlocutor de Pablo Ortega prossegue:
“[...]. “Fica sabendo duma coisa, meu filho: se
eu o tolero é porque no momento ele é o menor de dois males. Desgraçadamente, a
alternativa para a situação que temos agora no Sacramento seria o comunismo, e
isso significaria o fim de todos os valores espirituais que prezamos, enfim, um
regime ateu que expulsaria do país nossos sacerdotes, queimaria nossos templos,
tirando-nos o direito de adorar Deus à nossa maneira e de criar nossos filhos e
netos como bons cristãos e não como robôs sem alma a serviço dum Estado
totalitário”. [...].
Abrindo-se aqui uns pequenos parêntesis para uma rápida
consideração sobre uma parte do discurso entabulado por Don Dionísio, não
estavam tais palavras sempre presentes nos jornais, nos rádios e nas televisões
brasileiras, sobretudo, entre os anos de 1954 e 1964? Não foram aqueles os discursos
que feitos com veemência e tom inflamado, movimentaram as elites brasileiras e
por meio deles, não instaram as forças armadas e civis outros que detinham
algum poder, no sentido de dar um golpe visando interromper o curso institucional
da República no País, sob o pretexto de “combater” um comunismo exatamente
caracterizado como o fora pelo ancião sacramentenha? Não teria sido esta a
semente do anticomunismo que até o presente tem dado os seus frutos, renomeados
para “antipetismo”?
Mas, retome-se a confissão que Don Dionísio Murat, segredava
ao ouvido do seu filho. E, ao que parece, naquela parte do enunciado, ele
coloca a razão precípua das suas preocupações. Conforme Veríssimo apresenta ao
seu leitor, o confidente, de si para consigo e, alimentado pelo modo de pensar
que apresentara no início do seu arrazoar, temia ser expropriado da sua
condição de grande proprietário de latifúndios, o que seria para ele um
desastre ainda maior do que aquele indicado nas suas primeiras palavras. Siga-se,
portanto, o seu falar que, saliente-se, não era o de um indivíduo isolado, mas,
sim, o falar de uma elite social, açoitada pelo medo difundido pelos artífices
de uma massiva propaganda que visava, em última análise, respaldar as inúmeras intervenções
perpetradas em toda a América Latina pela “democracia” estadunidense. Diz ele
que “[...]. ”Seríamos também despojados das terras que
nossos antepassados, desde o século XVII, regaram com seu suor, suas lágrimas e
seu sangue”. [...].”.
Portanto, a senhorita Glenda Doremus confia o seu texto
dissertativo sobre a História da República do Sacramento, para ser examinado e
comentado precisamente por Pablo Ortega Y Murat, de quem espera receber uma
devolutiva sobre aquilo que pesquisara, estudara e escrevera. Embora não se
tratasse de um acadêmico investido de credenciais que o colocasse em condições
institucionais para julgar o trabalho da rapariga, mas sim, se tratasse de
alguém que vivera o processo histórico por ela investigado, a sua apreciação
sobre o que leu naquelas páginas, acabaria por solapar a já frágil confiança
daquela estudante, sobre aquilo que produzira e que pretendia levar à banca
examinadora, ao findar aquele ano letivo. No entanto, como já vão avançadas
estas considerações, nos próximos arrazoares se procurará discorrer sobre o
encontro entre eles para que pudessem falar sobre o texto em apreço. Por ora,
basta apontar que a sua história da América Latina, que teria como ponto de
partida a República do Sacramento, àquela altura do final da década de 1950, já
destoava dos paradigmas teóricos e metodológicos sobre os quais a pesquisa e o
fazer histórico desenvolviam as suas análises e as suas reflexões.
Alagoinhas – 13 de setembro de 2026 – inverno brasileiro
Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com – www.historias-e-memorias.blogspot.com