FRAGMENTOS DE MEMÓRIA PEDAÇOS DE HISTÓRIA - PARTE XX.
Enfim, graduado – Os concursos – IV.
Os caros leitores destes rememorares que já se fazem bem longos,
saliente-se, encontrarão neste último fragmento de memórias, algumas frações de
histórias vividas por José Mário enquanto procurava se afirmar como pessoa,
como homem e, sobretudo, enquanto profissional minimamente capaz de desenvolver
satisfatoriamente o labor para o qual se fizera preparar ao longo de pelo menos
uma década, alguns elementos que consubstanciaram o desfecho de uma parte do
processo desencadeado logo em seguida à conclusão da graduação, por meio do
qual era forjado o docente em que fora erigido, uma vez aprovado e empossado no
cargo de professor auxiliar, depois de embater-se em busca de aprovação em
alguns concursos, de acordo com o que está posto no último parágrafo do
arrazoado anterior. Aqui, por fim, se procurará apresentar de relance, alguns
dos momentos mais cruciais daquele caminhar de quem já houvera ingressado na
terceira década de vida, avançado mais cinco anos sobre ela e, nada de
concreto, nada de assegurado, nada de palpável se lhe afigurava, em todos os
sentidos do viver humano, malgrado os seus esforços em reverter o espectro de
fracasso que lhe rondara o viver, por todos aqueles verões já por ele passados.
Conforme já é cediço de quem acompanha estes garatujares, em
todas as fases anteriores do caminhar de José Mário, o tropeço e o embaraço eram
já lugar comum, quando ele se lançava em alguma empreitada, sobretudo, aquela
que implicasse na busca de espaço no campo da atividade laboral. A cada
fracasso experimentado em suas tentativas de alcançar a obtenção de meios de
subsistência, eram acumuladas camadas de cansaço, sensação de impotência e, imensas
dúvidas sobre a tal “capacidade” que se lhe atribuíam, visto que, sempre saía dos
certames com mais um fracassar quase que já desenhado. Por vezes, ele andara a
ermo pela cidade, horas e horas a fio, como que buscando encontrar explicações,
motivos; como que buscando racionalizar os porquês e, os encontrando, de que forma os resolver,
para ter ânimo e, encarara mais um, mais um, mais um...
Assim é que se passaram os anos de 1993, 1994, 1995 e 1996,
quando enfim, ingressara simultaneamente no mestrado na Universidade Federal da
Bahia e na docência na Universidade do Estado da Bahia; assim é que precisou
caminhar, cair e procurar levantar de cada uma das quedas que levara em todo
aquele tempo. No primeiro semestre de 1994, por exemplo, duas delas. A primeira,
previsível, visto que nunca se houvera submetido a um certame naquele formato
em que se fazia uma prova por cerca de seis horas; depois, se sorteava um tema
e se apresentava uma aula no formato 50 minutos, acreditando que o tema
precisaria ser esgotado em um tempo tão exíguo, não compreendendo, portanto,
que o que estava a se julgar, era exatamente a capacidade de síntese, que
aliás, ele nunca a tivera nem a teria, quando o candidato demonstraria não só o
conhecimento do tema abordado, bem como e principalmente, que não seria
possível dar conta de sua largueza, de sua complexidade e de sua profundidade,
em apenas uma única aula de 50 minutos. Este conhecimento, esta consciência,
José Mário só adquiriu com os tomos levados. Naquela primeira tentativa, ele
concorrera com um colega muito melhor preparado e, ele sabia disto. No entanto,
acreditara que ao menos se faria classificar para esperar segunda ou terceira
chance, se eventualmente houvesse.
E, dias depois, tendo sabido ter saído o resultado, como
sempre o fizera, procurara saber qual teria sido o seu, não diretamente; mas,
tentando saber de modo transversal. Informado, soubera da aprovação daquele
colega que sabia ser o mais e melhor preparado; indagara então, sobre os demais
classificados, se houve... Sim, houve; mas, não ele. Entre surpreso e
frustrado, saíra dali e se refugiara na sala onde desde o ano anterior lia e
estudara. Ali, desabara em um choro compulsivo que custou conter; atravessara a
Avenida Juracy Magalhães em busca daquele espaço de trabalho que, naquele dia
fora o seu refúgio, sem conseguir fazer parar o rio que lhe inundava a cara
triste e abatida... Ficara naquela sala, talvez duas ou três horas, procurando
recompor-se, para que, ao voltar para a sua casa, a sua mãe não o visse tão desfalecido de ânimo
– pelo menos, ele assim pensara. Já se disse que não foi surpresa a reprovação.
Além de não ter qualquer domínio de sala de aula; além de ter sido sorteado um
ponto sobre o qual possuía pouquíssima bibliografia e pequeníssimo trânsito;
além do fato de ter como concorrente um colega extremamente bem-preparado,
entendera que ainda muito faltava para obter um acúmulo propedêutico, associado
a uma capacidade analítica, para alcançar aprovação naquele tipo de exame. Mas,
embora soubesse não estar em condições plenas de enfrentamento, quisera acreditar
que pudesse se classificar, ao menos para ganhar forças para os combates
posteriores. No entanto, a desclassificação foi como um balde de água gélida jogada
sobre o seu corpo que, embora acostumado com as intempéries, sentira e muito, o
seu impacto.
Destarte, uns dois meses após o relatado fracasso, veio o
segundo. Aprofundando as leituras; procurando recobrar o ânimo e as forças;
relutando contra o espírito abatido, movido muito mais pela necessidade imposta
pela busca de provimento da vida, se lançou em mais um concurso para professor,
daquela feita, fora da cidade. Embora não muito distante, aquela empreitada
implicava em um maior esforço físico, visto que era preciso transportar uma enorme
carga de material transcrito para a sua leitura/consulta, além das duas máquinas que necessitaria utilizar, tudo
isto em transporte coletivo. Por meio de uma colega de longos anos, conseguira
uma residência em que pousaria pelo tempo necessário para a realização do exame
e, lá, procurara elaborar o plano de aula, de acordo com o tema sorteado. E
assim foi. Malgrado toda hospitalidade dos donos da aludida residência, a
necessidade de concluir o plano de aula e a impossibilidade de um descanso que refizesse
um pouco os desgastes inerentes a tal tipo de empreitada, o desempeno na aula
pública foi simplesmente pífio. Bem mais tarde, José Mário acabaria por saber
que, na prova escrita, feita no dia anterior, ele alcançara nota nove e, não
fora a aula pública tão ruim, se teria feito aprovar.
Tendo chegado em casa, de volta a sua Alagoinhas, depois de
ter dormido por toda a tarde e entrado pela primeira parte da noite, ao
levantar para jantar, teve como que um filme que lhe passara pelo cérebro todos
os aspectos da aula que deveria ter abordado – que inserira no plano de aula,
diga-se de passagem – e, que não abordara; também as respostas que deveriam ter
sido dadas às indagações da banca. Tudo isto se lhe afigurou, como se tivesse sido gravado
em uma fita e, ali, enquanto jantava, um rebobinamento reverso, lhe pudesse
trazer de volta o que ele não conseguiu efetivar no momento propício.
Resultado: sequer classificado. Ah, o mais grave e frustrante: era ele
candidato único. Isto é: perdeu para si mesmo. Derrota aliás, que voltou a se
dar mais uma vez, sendo que o outro candidato já era professor substituto e,
conseguira não só não se fazer aprovar, como ficar abaixo do desempenho de José
Mário que, por sua vez, não conseguira alcançar a média 07 exigida para obter a
aprovação.
Aliás, sobre isto, caberia um comentário. Mais tarde, ele ficaria sabendo que a sua média final fora 6.97
e, que se dera um acalorado debate sobre aproximar ou não para 07.00, para que
se desse a aprovação. Para tanto, era preciso que houvesse consenso na banca
examinadora, para que tal aproximação fosse possível. Segundo o que soubera, um
dos membros da banca, para sustentar o seu voto contrário a que se aproximasse
a média do indigitado, chegou a argumentar que seria grande a responsabilidade que
assumiriam – leia-se risco – ao aproximar aquela média, visto ser o candidato
quem era. No entanto, qual não foi a surpresa de José Mário, ao se achar
professor onde fora posteriormente aprovado, quando fora orientado pela
secretaria acadêmica, que médias entre 6.96 e 6.99, automaticamente seriam
aproximadas para 07.00. Mas, a nota do candidato a professor auxiliar, embora
estivesse naquele patamar, não poderia ser aproximada, por representar um
grande risco. Ah, senhor escrevente, deixe de ser implicante; é apenas uma
dentre as muitas contradições que forjam e conformam o mundo acadêmico.
Alagoinhas – 12 de julho de 2026 – inverno brasileiro
Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com