Um Domingo Atípico – Comida boa e Mesa farta
Em mais u conjunto de fragmentos de memória, neste arrazoado
dominical se tentará trazer a quem acompanha este espaço, um pedacinho de
história. Tais fragmentos, conforme já é cediço, resulta de escavações nas
diversas camadas de memória já imersa no tempo e, de escolhas feitas por quem lembra,
que, por sua vez, seleciona não só o que lembra, como também, pode escolher
silenciar, esquecer ou, conforme é agora o caso, tornar públicas os seus
lembrares.
Em outros escritos publicados há já algum tempo, se discorreu
sobre a época em que José Mário fora confinado no Instituto de Cegos da Bahia,
localizado em uma das muitas ladeiras de
Salvador, aquela que desce rumo ao São José de Baixo, em frente a mais duas:
uma que dá acesso ao Santo Antônio Além do Carmo e uma outra que dá acesso à
feira de São Joaquim, a conhecida “Ladeira de Água de Meninos”. Foi ali que ele
passara todo o ano letivo de 1975 e uma grande parte do ano letivo de 1976,
voltando para o seu espaço de moradia em Alagoinhas, somente por ocasião das
férias de meio e de fim de ano. Ali, ele ficara confinado às quatro paredes
daquele prédio de seis andares, saindo apenas para a frequência às aulas na
escola regular em que todos eram matriculados. Entre tantas, se poderia citar o
Carneiro Ribeiro – à época funcionando no prédio do Navarro de Brito, no Curuzu
– e o Instituto de Educação Isaías Alves (ICEIA), situado no Barbalho. Para
tanto, todos eram transportados até
elas, em um veículo Kombi, de propriedade do internato, dirigida pelo anedótico
“Seu Brás”, motorista da instituição há já um bom par de anos, ficando ali
praticamente todos os seus dias de vida.
Para José Mário, dono de um apetite voraz e, vivendo o
momento do chamado “Estirão”, que é o instante em que o garoto apresenta um
crescimento mais rápido e perceptível, gerando uma necessidade e/ou um desejo
de ingestão de alimentos mais exacerbada; sem falar que o dito se encontra em
plena puberdade, apresentando alguns comportamentos que lhe rouba energias em
boa monta; e, no caso específico dos residentes em prédios como o do Instituto,
precisava fazer esforços contínuos e cotidianos para percorrer os inúmeros degraus
de longa escadaria, com o fito de chegar nos andares onde desenvolveriam as
suas atividades, a oferta de alimentos, embora fracionada por todo o dia, não
era suficiente para lhe mitigar a fome que, se não era marcada pela falta do que
comer, o era pela insuficiência de sua ingestão. Como resultado perceptível de
tal disparidade, se poderia informar que, ao chegar naquele estabelecimento em
março de 1975, os uniformes que para ele foram confeccionados, ficaram bem
apertados, dificultando a tarefa de os vestir; em junho do mesmo ano de 1975,
aquela indumentária que ficara apertada no seu corpo, teria folgado tanto, que
ele conseguia colocar um rádio Nissei de seis faixas dentro da bermuda, sem quaisquer
dificuldades e, ainda, com alguma folga.
Lá no Instituto de Cegos, no seu setor de refeitório, o
regramento da oferta de alimentos era bem rígido e “militarmente” controlado.
Embora alguns dos internos já servissem o seu próprio prato – e, José Mário era
um dentre eles –, havia um quantitativo previamente estabelecido, que cada um
poderia colocar para si. Eram duas conchas de feijão; uma colher das grandes,
de arroz; uma fatia de bife (ou se fosse ensopado, uma colher) e, farinha, esta
sim, não tinha limites. Aquele que eventualmente quebrasse o limite, colocando
um item ou uma colher a mais – e, José Mário o fizera algumas vezes –, deixaria
um dos colegas de mesa sem ter o que colocar em seu prato, resultando em
desequilíbrio do almoço do outro.
Entretanto, ao que parecia, todos acabavam por se sentir em
um grande dilema: se ele não o fizesse, o outro o faria e, quem ficaria sem
algum dos itens seria ele, que aliás, chegou a acontecer consigo, ao menos uma
vez. Naquela circunstância, o ingênuo acreditara que as regras eram respeitadas
e sob elas se agia. Na primeira vez que ele fora deslocado para uma mesa em que
os ocupantes possuíam a prerrogativa de se servir, enquanto José Mário cumpria uma
delas, que era a que obrigava a cortar o bife primeiro, para depois colocar os
demais itens, o bestão acabou por ficar sem arroz. Diante do que, ele nunca
mais cumpriu, nem procurou cumprir regra alguma daquele refeitório.
No entanto, em algumas pouquíssimas ocasiões, as coisas foram
tornadas um pouco diferentes, ainda que só excepcionalmente. Os limites de
vezes que se podia comer: caíam; a quantidade e a qualidade do alimento
disposto às mesas, dera saltos bem perceptíveis ao cheiro e ao paladar; sucos,
refrigerantes, doces e guloseimas em geral, se fizeram presentes naquelas mesas
tão frugais, de sopa rala, um mingau que nunca se conseguia identificar qual
era o seu feitio e de dois pães grandes que
eram divididos em fatias, pelos seus seis ocupantes. Em um domingo, um dia
daqueles que se não esperava quase nenhuma excepcionalidade; domingo marcado
pela obrigação de ouvir missa na Capela; depois dela, se dirigir ao andar
térreo, onde se circulava por toda a sua extensão, a espera da hora da merenda
das dez e, principalmente, do almoço que, conforme já se salientou, embora
fosse servido na ocasião aprazada, não era suficiente para mitigar os estômagos
de mais de sessenta jovens, adolescentes e crianças, era aguardado com grande
ansiedade; era capaz de chegar uma da tarde, mas, meio dia, este teimava em não
chegar...
Mas, naquele domingo, ah, que domingo!, talvez tenha sido
único, naqueles quase dois anos de confinamento e fome crônica; um daqueles
domingos, portanto, ao tocar do sino que chamava toda aquela gente famélica e
ansiosa para comer e, comer o que estivesse posto nas mesas, subiram todos para
o refeitório querido e tão desejado; aos saltos; até mesmo pulando os degraus,
fazendo um dos últimos esforços que a reserva de energias permitia... e,
aqueles olfatos turbinados pelo desejo de comer... logo farejaram alguns
cheiros diferentes, convidativos, alertadores de novidades: às mesas, antes
frugais e com quase sempre os mesmos itens, naquele dia estavam fartas; se
diria, fartíssimas e, não só de quantidades que permitiriam comer quantas vezes
se quisesse e se pudesse; mas, aquela comida não só era abundante, como era
maravilhosamente gostosa, apetitosa...
Mas, poucas outras vezes surpresas tão marcantes para o olfato
e principalmente para o paladar, tiveram lugar ali, naquele confinamento que,
reputavam por educativo... José Mário sempre o entendera que aquele lugar era
sim, um lugar de instrução e, quiçá, de correção... Para ele, aquilo ali, nunca
fora um lugar para educar; quando muito, para adestrar.
Alagoinhas – 28 de fevereiro de 2026 – verão brasileiro
Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com