domingo, 26 de abril de 2026

FRAGMENTOS DE MEMÓRIA PEDAÇOS DE HISTÓRIA - PARTE IX. JOSÉ MÁRIO NA GRADUAÇÃO – 9.

 

JOSÉ MÁRIO NA GRADUAÇÃO – 9.

 

Em mais um feixe de fragmentos do caminhar de José Mário pelas sendas da graduação, este escrevedor volta a evocar profundas camadas de memória já situada em um passado marcado pelo acumular de sedimentos, mas, conforme preconiza Henry Rousso, “ne passe pas”. Este não passar “do passado”, não implica em um não passar do tempo; mas antes, a despeito do “passar” do tempo. Ao ser evocado a partir da memória, assim como do contato com pessoas e acontecimentos – e sobretudo, com os seus desdobramentos –, o “passado que não passa”, se faz representar naquilo que é lembrado, a partir de quem lembra. Um passado que “não passa” está presente nas pessoas que o viveram e, sobretudo, naquelas que escolhem estabelecer relações entre aquele passado e o presente, embora sujeito a ressignificações, ele não é apagado de todo, nem esquecido. Quando evocado, aquele passado está ali, malgrado as muitas camadas que o tempo acumulou sobre ele. Conforme assevera Tzvetan Todorov – entre outros autores que se debruçaram sobre a tarefa de compreender a memória –, o lembrar não é um relembrar as coisas conforme elas se sucederam; não é sentir a dor com a mesma intensidade do momento em que foi vivida; mas, o lembrar é trazer à superfície, alguma situação ou circunstância vivida em um momento ou lugar dado e, em um tempo do caminhar do indivíduo que se dispõe a lembrar, visto que “[...] a memória é uma faculdade individual”,  conforme postula Maurice Halbwach (1877-1945), já quase ao final do seu tratado sobre a “memória Coletiva” (2006, p. 119).

Algumas páginas antes, ele já assegura que

 

“[...], se a memória coletiva tira sua força e sua duração  por ter como base um conjunto de pessoas, são os indivíduos que se  lembram, enquanto integrantes do grupo. Desta massa de lembranças comuns, umas apoiadas nas outras, não são as mesmas que aparecerão com maior intensidade a cada um deles. De bom grado,  diríamos que cada memória individual é um ponto de vista sobre a  memória coletiva, que este ponto de vista muda segundo o lugar  que ali ocupo e que esse mesmo lugar muda segundo as relações  que mantenho com outros ambientes. [...].” (HALBOACH, 2006, p. 69).

 

Portanto, é com estes elementos teóricos tomados na devida conta, que se vem construindo os arrazoados que tem chegado ao crivo de argutos leitores que visitam este espaço. Neles, se vem discorrendo sobre as dificuldades que José Mário encontrara durante grande parte do seu intento em se licenciarem História, no que respeita ao seu acesso aos materiais propedêuticos de que tinha necessidade, a fim de fazer as leituras e a partir delas, acompanhar com alguma regularidade, as aulas. Algumas tentativas foram feitas para minimizar a defasagem que se tornava cada vez mais um obstáculo de difícil transposição, uma vez que, sem as leituras, era ainda mais difícil a compreensão e/ou a apreensão do que era ensinado pelos professores.

Diante do fracasso das iniciativas encetadas  para resolver o problema que, com o passar do tempo, acabava por se agravar, José Mário se sentia impotente diante daquele hiato que se interpunha entre ele e a instituição de ensino à qual estava vinculado, na medida em que aquela, quase lavara as mãos, alegando ter feito o que podia para resolver o imbróglio. Ele, por sua vez, passara a lançar mão da única ferramenta que lhe restava e, que poderia usar sem que lhe acarretasse custo: o chamado “modus esperneandi”, que consistia em comentar com alguns colegas que lhe fossem mais próximos, fazendo-lhes saber que havia grandes dificuldades para acompanhar o curso, em razão da instituição não empreender esforços para lhe prover de condições mínimas para tanto. Entre aqueles colegas, havia um que exercia o jornalismo em periódicos locais, o que resultou em reportagens de sua lavra, denunciando o descaso ou, quando menos, o pouco empenho da cúpula diretiva da FFPA, no sentido de prover àquele aluno reclamante, de algumas condições materiais efetivas e eficientes que lhe permitissem prosseguir no intento de integralizar a licenciatura em História. Aquele mesmo colega, conseguiu escrever uma reportagem a tal respeito, em um periódico que circulava na capital do Estado, talvez, acreditando que alguma autoridade com foro sobre a FFPA, ao ler aquela matéria, se “sensibilizasse” e, dependendo do seu interesse pelo caso, procurasse fazer com que alguma coisa viesse a ser feita, na prática.

Mas, nem é preciso dizer aos caros leitores, que aqueles esforços do repórter e as reclamações do estudante, em nada resultaram, no que respeita a alguma movimentação concreta das autoridades relacionadas ao setor, para que aquele discente pudesse dar curso ao seu intento. Diante da inércia das ditas autoridades, alguns colegas tomaram a iniciativa que, por fim, acabou por ter um papel importantíssimo na concretização do caminhar de José Mário, rumo à conclusão daquilo que fora iniciado com a aprovação no vestibular de 1986. Alguns dentre eles, resolveram que contratariam uma colega, estudante do curso de Estudos Sociais – que estava precisando de grana para se manter e, que José Mário sequer conhecia –, pagar-lhe-ia um salário e, ela faria as leituras, em um regime de trabalho de 20 horas semanais – regime aliás, que José Mário, sequer sabia como calcular –, tais tratativas correram em segredo, uma vez que, só depois de negociadas, decididas e acertadas com a “contratada”, foi então comunicado ao estudante que seria beneficiado pela iniciativa. Ele, entre surpreso e acanhado, recebera o gesto como quem é comunicado de enforcamento próximo. Mas, depois de ter vivido todo o processo, ele entendeu que aquele procedimento levado à cabo por aqueles que se deram ao trabalho de o fazer, acabou resolvendo assim, coletivamente e, sem participação dos agentes diretivos daquela instituição de ensino, aquele problema, modalidade que fora mantida e bancada por um variado grupo de colegas e, inclusive com participação de alguns professores, até o momento da sua colação de grau, em 1991.

 

Alagoinhas – 26 de abril de 2026 – Outono brasileiro – Quarenta anos depois da catástrofe nuclear de Chernobyl.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 19 de abril de 2026

FRAGMENTOS DE MEMÓRIA PEDAÇOS DE HISTÓRIA - PARTE VIII.

 

JOSÉ MÁRIO NA GRADUAÇÃO – 8.

 

Os caros leitores destes garatujares eletrônicos, terão diante de si, mais um “fragmento de memória” deste escrevedor, como resultado de mais um mergulhar nas inúmeras camadas de sedimentos de um passado cada vez mais distante e com uma profundidade que exige algum esforço para alcançar tais fragmentos e trazê-los à memória. Este exercício feito no presente, implica em escolhas do que lembrar; assim como do que falar e do que manter no silêncio que, conforme se tem manifestado nos arrazoares anteriores, é fruto de uma seleção por parte de quem lembra, o que acaba por apontar para uma elaboração discursiva que visa dar a conhecer “pedaços” de uma história dada. Os “pedaços de História” que tem José Mário como protagonista, sobretudo, naqueles instantes em que o seu caminhar pela rota da formação profissional aparece como elemento central destes arrazoares, assinala o esforço rememorativo que se precisa realizar, no sentido de trazer à público alguns dos desdobramentos de um caminhar sinuoso, acidentado e pleno de imprecisões no que respeita ao “passo seguinte” a ser dado.

Quando Ecléa Bose (1936-2017) dá início ao quarto e último capítulo do seu tratado sobre o relembrar dos “velhos”, procura refazer alguns dos percursos pelas sendas por meio das quais se dirigira aos seus “lugares de Memória” que foram erguidos ao longo do tempo de sua infância, aquelas veredas pelas quais, ao menos nos primeiros anos escolares, ela fora levada pelas mãos do seu avô: para a escola, para passeios, para lugares onde ela pudesse viver a ludicidade dos verdes anos do seu caminhar. Naquele rememorar de caminhos há muito palmilhados, ela sente o fluir das memórias infantis que guardara de trajetos diversas vezes feitos, dos meios de transporte em pleno processo de “modernização”, de espaços frequentados com regularidade ou visitados apenas esporadicamente, de muros com seus formatos e cores, assim como  a sua simbologia da demarcação de limites de propriedade, bem como de interdições; aquela memória remonta também a árvores – que, certamente, à altura de suas evocações, já nem mais estavam nos mesmos lugares onde foram vistas e apreciadas, inclusive frutos delas advindos –, até mesmo vozes e rostos se lhe assomaram ao espírito, fazendo com que ela pudesse rememorar o feitio da pavimentação das ruas que passara em já pretéritos tempos escolares. Citando Halbwach (1877-1945), a autora de “Memória e Sociedade: lembranças de velhos”, assevera que


“[...] A lembrança é uma imagem construída pelos materiais que estão, agora, à nossa disposição,  no conjunto de representações que povoam nossa consciência atual.  Por mais nítida que nos pareça a lembrança de um fato antigo, ela não é  a mesma imagem que experimentamos na infância, porque nós não  somos os mesmos de então e porque nossa percepção alterou-se e, com  ela, nossas idéias, nossos juízos de realidade e de valor. O simples fato  de lembrar o passado, no presente, exclui a identidade entre as imagens de um e de outro, e propõe a sua diferença em termos de ponto  de vista.” (BOSI, 1994, p. 55).

 

Talvez, aqui se possa especular que, fora por meio da convivência, quiçá, diária com aquele  senhor já prenhe de memórias, que ela possa ter começado a desenvolver interesse pelas conversas dos já "maduros e, conforme preconizava aquela sociedade que se desenvolvera em consonância com uma pretensa “modernização” capitaneada pelo acelerar do desenvolvimento de um capitalismo tardio e periférico, já eram passíveis de reclusão ao um asilo – hoje, eufemisticamente denominado “Casa de repouso” –, ou, quando menos, encaminhados para o sótão da casa e, principalmente, da vida daqueles outros, mais novos e ainda na plenitude da produtividade. Portanto, retomando o caminhar naqueles espaços pelos quais os seus pés infantis e/ou juvenis passaram no curso de uma parte dos seus andares em trajetos habituais, parte deles, feito na companhia do seu avô, Bosi constrói uma proposição teórica sobre a qual repousa a compreensão do que é e como funciona a memória, fundamentada em premissas estruturadas a partir do pensamento de Halbwach, cujo elemento fulcral se estrutura na ideia de que, o passado não se apresenta do mesmo modo como foi vivido por quem dele se lembra ou é “assaltado” em seus lembrares, por algum dos seus fragmentos. Diz ela que:

 

“Não basta um esforço abstrato para recriar impressões passadas,  nem palavras exprimem o sentimento de diminuição que acompanha  a impossibilidade. Perdeu-se o tônus vital que permitia aquelas sensações, aquela captação do mundo. Quando passamos na mesma calçada, junto ao mesmo muro, o ruído da chuva nas folhas nos desperta  alguma coisa. Mas, a sensação pálida de agora é uma reminiscência da  alegria de outrora. Esta sombra tem algo parecido com a alegria, tem  o seu contorno: é uma evocação”. (BOSI, 1994, p. 84).

 

Assim, é com  tal proposição em mente, que o corpo de leitores destes escreveres devem acompanhar as tentativas de resolver as dificuldades de José Mário em aceder aos textos e às obras que precisava para se apropriar do que lhe era ensinado nas diversas disciplinas que se dispusera a cursar. No tratado anterior, se disse que uma das primeiras soluções que se intentou encontrar para o problema, teria sido a disponibilização de uma funcionária – analfabeta funcional (à época pouco se utilizava este termo) – para lhe servir de ledora. Também se disse, pela razão uma vez mais exposta entre os travessões, que a solução se mostrou um desastre e, que outras alternativas precisaram ser buscadas. Entre elas, uma funcionária recém-contratada fora lhe colocada à disposição. Aquela sim, sabia ler; possuía uma capacidade – ali já rara – de fazer a leitura em voz alta, respeitando a pontuação do texto. O problema desta solução, já foi com o setor administrativo no qual ela era lotada. A chefia do dito setor, achava um excesso e, embora não dissesse nestes termos – mas o seu pensar e as suas atitudes posteriores assim o exprimiam –, acreditava tratar-se de um desperdício, permitir que aquela funcionária ficasse inteiramente a disposição para a leitura do material de que José Mário precisava, ao tempo em que reivindicara que apenas uma parte da carga horária da funcionária fosse disponibilizada para aquele fim.

É evidente que José Mário  se levantou contra aquela proposta do chefe do setor em que a funcionária se encontrava lotada, chegando a provocar uma reunião entre eles e o então diretor da Faculdade de Formação de Professores de Alagoinhas, ocorrida sob forte tensão na sala da direção. O diretor, pusilânime, por todo o tempo, procurou administrar a querela, em favor do seu funcionário chefe de setor, o que irritou profundamente José Mário, que ficaria privado de uma pessoa que, finalmente àquela altura, sabia ler. Tendo vencido a queda de braço com o dito chefe – o que depois se mostrou uma “Vitória de Pirro” –, precisou enfrentar a resistência do indigitado, na medida em que, por várias vezes, o dito cujo se recusara a liberar a funcionária que, ficava como que, sendo jogada entre o mar e o rochedo.

Desta maneira, a postura do excelentíssimo chefe do setor e a pusilanimidade do então diretor, dava bem a medida da incompreensão que aqueles cidadãos possuíam da impossibilidade – ou dificuldade, para dizer o mínimo – que possuía aquele aluno em aceder ao material por meio do qual ele deveria apreender os conteúdos das disciplinas que cursava. Para eles, duas ou três horas de uma carga horária de seis horas semanais e, ainda assim, alguns dias por semana, seriam mais que suficientes para que o material fosse lido. E, pasme-se, chegaram a questionar, se haveria tanta coisa assim para ser lida, que não o pudesse se fazer, em apenas alguns espaços curtos de tempo.  . E, como seria de se esperar, José Mário não se conformava com aquela atitude de incompreensão por parte daqueles gestores, sobretudo, quando imaginava que um deles era professor, o que o fazia pensar que conhecesse a dinâmica de um curso de ensino superior, no que respeita ao volume e a quantidade de leituras, para não dizer, do nível de densidade dos temas a serem estudados e apreendidos.

 

Alagoinhas, 19 de abril de 2026 – outono brasileiro

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 12 de abril de 2026

FRAGMENTOS DE MEMÓRIA, PEDAÇOS DE HISTÓRIA - PARTE VII.

 

JOSÉ MÁRIO NA GRADUAÇÃO – 7.

 

 

Em mais um mergulho em espaços de memória já pretéritos, se pretende trazer mais um lote de fragmentos extraídos de camadas de memória para com eles, se tentar trazer mais alguns pedaços de história. Já são muitas as camadas de sedimentos acumulados e, que escavados por quem lembra, reúne alguns rememorares extraídos de um tempo que já vai remontando algumas décadas, buscando refletir a partir do passado que se apresenta no presente de quem garatuja estes arrazoares. Conforme já é cediço e se vem reforçando ao longo destes rememorares, a memória trazida a público, além de sofrer a ressignificação imposta pelo tempo e elo acúmulo de sedimentos que se vão depositando a partir de interações com outros elementos do viver em sociedade, também se apresenta como uma escolha de quem lembra, tendo o presente como elemento norteador daquilo que é lembrado.

Portanto, é Nesta perspectiva da rememoração de um passado trazido à público por meio das reflexões sobre mais alguns elementos constitutivos da memória daquele que traceja estas linhas, que aqui se procurará evocar mais alguns rememorares do processo formativo em que José Mário esteve inserido, quando se procurava licenciar em História pela Faculdade de Formação de Professores de Alagoinhas, ainda situada na esquina da Ruy Barbosa com a Elvira Dórea, entre a residência das Farani e o Centro Traumatológico e Ortopédico (CETRO). Portanto, dentro dos seus muros, muros que, aliás, permanecem os mesmos e com as mesmas construções que foram feitas para atender a necessidade de alocação de espaços de aula, cada pessoa que por lá passou em sua caminhada rumo à formação acadêmica, pode, em geral, evocar inúmeras memórias naquele “lugar de memória” por excelência. Embora já há muito tempo não mais funcione naquele prédio a aludida faculdade, grande parte de tantos quantos por ali passaram, certamente – a despeito de diversas alterações em sua configuração interna –, poderá evocar lembrares que, aparentemente – e só aparentemente – estariam esquecidos. Naquele prédio, muitos sorriram ao verem concluídos os seus caminhares; muitos choraram, ao terem o seu caminhar retardado por reprovações, trancamentos e outras razões as mais diversas; outros tantos se recrearam em alegres confabulações e trocas simbólicas e, até mesmo afetivas; ali, foram feitas muitas leituras prazerosas bem como outras tantas dolorosas, sobretudo, no que concerne à compreensão de conceitos, teorias e concepções, tudo aquilo que se apresentava como tarefas, muitas vezes penosas para aqueles que não possuíam bases outras em que fossem fincados os fundamentos filosóficos e/ou metodológicos que lhe permitissem a apreensão e a compreensão do que se lhe cobrava ao longo do curso, como era o seu caso específico, conforme já se discorreu em tratados anteriores.

Não obstante o transcorrer de uma longa greve de professores, de acordo com o que se leu no arrazoado precedente, José Mário que já houvera decidido retomar o curso e, dentro dos prazos regulamentares já houvera feito a sua matrícula, a despeito do movimento paredista dos seus docentes, se manteve em contato com os antigos e com os novos colegas – claro, alguns deles; aqueles dos quais se aproximara, tanto no início do curso, quanto no momento de retomada da matrícula, quando conhecera alguns dos que formariam a nova turma –, sempre buscando manter-se informado de quando se daria a retomada do caminhar, uma vez que os meios de comunicação mais importantes naquele momento, silenciavam a respeito do movimento dos professores, talvez e, aqui vai uma especulação, pelo fato da Uneb não ser uma instituição  com visibilidade social, uma vez que era uma Universidade Estadual, que mantinha cursos que não possuíam apelo econômico nem prestígio político, muito menos, importância social. Em outras palavras, era uma Universidade recente, que mantinha cursos de e para pobres, razão pela qual a elite social e econômica do Estado, não exercia qualquer tipo de pressão, quer sobre o Governo, quer sobre a instituição. Isto implicava em que ao rádio e/ou à Televisão, pouco importava se haveria um acordo entre as partes que resultasse na resolução do impasse, ou se o movimento se encaminharia para o enfraquecimento pelo cansaço que, aliás, parece ter sido o que acabou por acontecer.

De tal modo, ele teve que proceder para que pudesse se manter informado sobre o andamento do movimento docente, para não ter a desdita de ser surpreendido pelo reinício das aulas, sem que estivesse devidamente informado de que tal se deu ou que se daria em ocasião tal ou qual. De tais interações, ele obteve do pessoal que atuava nos setores burocráticos da FFPA, com os quais entabulara alguma relação, algumas valiosas informações que ajudaram em um processo de reconfiguração do elenco de disciplinas que viria a cursar, imediatamente após a retomada do semestre. Conforme já se disse, aquele que transcorreria entre março e julho de 1987, acabou por ser cancelado por conta do alongamento da greve – foi até junho ou julho –, o que possibilitou a realização de reajustes no que respeita às matérias a cursar, no semestre que iria recomeçar em agosto daquele ano. Já de posse de uma parte do material que houvera sido entregue às “copistas voluntárias” quase um ano antes, José Mário arriscou inserir mais algumas disciplinas em suas matrículas semestrais. Tratava-se daquelas que eram comuns aos cursos de licenciatura, que poderiam ser acompanhadas em outros turnos, em outros cursos que não o de História. Foi, por exemplo, o caso das Psicologias e as demais que compunha o pacote das pedagógicas, que ele cursou nas turmas de Biologia e de Letras, o que, já no fim da caminhada, lhe valeu uma certa “recuperação” do tempo perdido com as reprovações e o trancamento efetivado no segundo semestre.

Entretanto, ao ser retomado o semestre, nada havia mudado no cenário que provocara toda aquela avalanche que levara José Mário a tomar decisões extremas, ao ponto de cogitar abandonar tudo e voltar para o ponto zero, conforme já se discorreu em publicações postadas neste mesmo espaço há algumas semanas. A instituição, não obstante a simpatia do seu diretor, que conhecia José Mário desde antes de se encontrarem naquele mesmo espaço, pouco contribuíra para minimizar as dificuldades de acesso aos livros e textos propostos pelas diversas disciplinas para com eles implementar o acúmulo do saber acadêmico naquele aluno; algumas tentativas foram feitas, tais como a disponibilização de funcionários para realização de leituras....; mas evidentemente não funcionaria, uma vez que, os que estariam disponíveis, mal conheciam as letras e, pior, mal as juntava para formar palavras, frases, orações, parágrafos. Sem falar que, a pessoa colocada à disposição, muitas vezes não queria desempenhar aquela tarefa; outras vezes, era aquele funcionário que nenhum dos setores queria e, como havia um aluno que precisava, quem sabe, né? Ou seja: o tal funcionário estava sendo obrigado a fazer uma caridade remunerada  – emprestando os seus olhos (quase inúteis), para quem não os possuía. É claro que aquilo jamais funcionaria; nem se quer falar do volume de leitura que além de ser grande, pelo número de disciplinas em que estava matriculado o dito aluno, a criatura não fazia ideia de como ler aquilo – notas de rodapé ...; informação adicional de “aspas”, “parêntesis”... nomes de autores; indicação de citação...; isto é: tudo aquilo que pudesse contribuir para a compreensão de quem ouvia a leitura ou as leituras...; eram textos acadêmicos, que exigia a compreensão do que ali estava sendo proposto; compreensão e apreensão. Nem precisa dizer que, em geral, não se dava nem uma coisa e nem outra.;

 

Alagoinhas – 12 de abril de 2026 – outono brasileiro

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com


domingo, 5 de abril de 2026

FRAGMENTOS DE MEMÓRIA, PEDAÇOS DE HISTÓRIA - PARTE VI.

 

 

JOSÉ MÁRIO NA GRADUAÇÃO – 6.

 

Em um prosear que já se tem estendido há algumas semanas, este escrevedor vem se valendo de fragmentos de memórias já bem recônditas para tentar reconstruir alguns pedaços de História do caminhar de José Mário pela graduação. A partir de tais fragmentos, se tem procurado refletir sobre um momento histórico dado, ligado a um tempo e a um conjunto dado de circunstâncias delimitadas ao seu espaço de percurso, aquela Alagoinhas que ainda não houvera ultrapassado os dez mil aparelhos telefônicos instalados; que ainda talvez não  contasse com mais de vinte mil automóveis circulando pelas suas ruas, ainda majoritariamente calçadas com paralelepípedos, tanto em suas ruas centrais, quanto nas periféricas, que eventualmente fossem pavimentadas; aquela Alagoinhas que contava com cerca de oito ou quiçá uma dezena de linhas de transporte coletivo, disponíveis  para atender a uma demanda formada majoritariamente por comerciários e estudantes de escolas públicas e privadas da segunda até a sexta feira, sendo o sábado até por volta das duas da tarde, utilizadas pelos munícipes em geral, na ida e, sobretudo no retorno da feitura da feira semanal, que, aliás, ainda estava instalada no centro da cidade. É neste sentido que em tais fragmentos de memória espacial, este garatujador tem bem claro o existir de espaços urbanos ainda pouco desenvolvidos no que tange à ocupação comercial e/ou residencial, como por exemplo, vastas áreas entre a rua Marechal Deodoro e a 21 de abril; entre a rua Liz Viana e a Coronel Filadepho Neves; entre a rua Dantas Bião e a região da “Igreja inacabada” – que começava a ser ocupada esparsamente pelos conjuntos “INOCOP” –, entre outras.

Era, portanto, a conformação da Alagoinhas encontrada pelo nascer do ano de 1987, conformação, aliás, que demorou cerca de dez anos para apresentar uma alteração significativa, visto que, naquele ano, estava em execução um projeto ousado de intervenção urbana, levado a efeito pela administração Municipal, que só passa a fazer sentir os seus efeitos por parte da população em geral, cinco ou dez anos mais tarde. Era, portanto, como se ia dizendo, o cenário espacial em que José Mário se movia em caminhadas entre os buracos produzidos para a implantação do sistema de esgotamento proposto pelo projeto “CURA”, apelidado carinhosamente pela oposição como “projeto Fura” e os demais buracos produzidos pela erosão da pavimentação em função de chuvas e da falta de manutenção por parte do poder público, como parte do seu esforço para chegar até o prédio onde funcionava a FFPA, para ali assistir as aulas, entrar em contato com os demais colegas e, principalmente, tentar se inserir no mecanismo de funcionamento daquela instituição de ensino. A partir daquele ano, saliente-se, todo o seu tempo era vivido naquele espaço, exceto as refeições – por não dispor de recursos para o fazer ali, no seu sistema de cantina – e o repouso noturno, que, via de regra, se dava por volta das onze, onze e meia da noite, quando então retornava para o seu local de residência.

Não sem razão, que nos rememorares deste escrevedor, há um “lugar de memória” em cada corredor, em cada sala, enfim, em cada canto de espaço daquele prédio no qual se encontram feixes de cinco anos ou mais de frequência e contato tátil e auditivo com aquele ambiente, cheio de alunos, professores e funcionários em suas movimentações e com os seus ruídos; ou vazio, estando apenas ele e os objetos que o compunham, sem ruídos e sem rumores de falas ou passos, para estudos solitários, para derramares de lágrimas de angústia por perceber o célere passar do tempo e a sua quase estagnação no transcurso do curso; para o vivenciar de sofrimentos indescritíveis em consonância com esforços hercúleos para compreender conceitos e princípios teóricos básicos, sem os quais jamais conseguiria dar os passos adiante, no sentido de compreender aquela História que se dispunha a apreender.

Mas enfim, março e o provável retomar do curso por parte de José Mário; todos os demais estudantes, inclusive, os aprovados para o ingresso naquele ano, estariam prontos para o “começar”. Estavam todos ansiosos pelo primeiro contato com os novos professores. No caso específico de José Mário, seria uma retomada de algumas disciplinas abandonadas no primeiro semestre, tais quais Sociologia, Introdução à História, Filosofia e, metodologia do Estudo e da Pesquisa, com isto, pretendendo recompor o elenco de disciplinas deixadas para trás. Para além da ansiedade de todos, corria nos bastidores/corredores da FFPA, a notícia de que haveria uma equipe de professores, inclusive oriundos da UFBA, atraídos que foram pelos bons salários que passariam a ser pagos a partir daquele ano, estipulados pelo governo que saíra derrotado do sufrágio havido há poucos meses. No entanto, todos acabaram frustrados em suas expectativas, visto que, fruto de uma queda de braços entre o novo governo que saíra eleito das urnas de 1986 e os representantes dos professores, resultara na deflagração de uma greve que, impedira o início das aulas, perdurando até praticamente o mês de julho, acarretando a perda total daquele primeiro semestre letivo de 1987, que sequer fora iniciado. O novo governo defendia que não conseguiria pagar aqueles salários majorados no apagar das luzes da administração anterior. Por sua vez, os professores se levantaram em favor da manutenção dos novos valores, acabando por produzir um impasse institucional, resolvido parcialmente com o prevalecer do entendimento da nova administração, resultando no fim da greve e retomada das atividades apenas em agosto, com um toque especial e folclórico de um dos novos contratados oriundo da UFBA que, ficara apenas por um semestre, se retirando do corpo docente da FFPA, sob a justificativa de que só ali estivera, atraído que fora pelo excelente salário oferecido. Não havendo mais o dito salário, o que quereria ele mais ali? E assim falou, assim ele fez. Diferentemente daquele professor, os demais se mantiveram no corpo docente da FFPA, embora insatisfeitos com os salários. Para José Mário, acabou se dando uma virada de página, uma vez que pôde se matricular em outras disciplinas em turnos diferentes, feito que o ajudaria a tirar um pouco do grande atraso na integralização do seu curso.

 

Alagoinhas – 05 de abril de 2026 – outono brasileiro

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com

quarta-feira, 1 de abril de 2026

FRAGMENTOS DE MEMÓRIA, PEDAÇOS DE HISTÓRIA - PARTE V

 

JOSÉ MÁRIO NA GRADUAÇÃO – 5.

 

Ao retomar mais um feixe de fragmentos extraídos de camadas de memória já bem profundas no tempo e distantes no que respeita ao ambiente em que foi demarcada no viver de José Mário em seus primeiros anos de graduando em História, eis que alguns outros pedaços de sedimentos podem ser recolhidos em forma rememorares que, ainda que frágeis e fugidios, se pode realizar um esforço para se conseguir compreender algumas das vicissitudes que envolveram a sua formação acadêmica e “preparação” professoral.

José Mário chegara ao final de 1986 com o gosto amargo da frustração, visto ter ficado claro que nem fora bem sucedido no esforço para cursar os primeiros dois semestres de sua Licenciatura; nem tivera qualquer resultado, no que tange a outros esforços envidados no sentido de deixar aquilo tudo para trás e, assumir que fora de fato talhado para o serviço braçal, desqualificado e, como tal, sujeito aos humores de empregadores que abrissem – ou não – as portas dos seus estabelecimentos para empregar sujeitos para os quais pagariam o salário mínimo e, de quebra, tais atitudes seriam transformados em gestos caritativos e ações de boas obras, marcados por alto-aplausos entre os seus iguais, com isto, marcando o aprofundamento da hipocrisia social que, por sua vez, em geral, se consolida como a cumieira do filantropismo que permeia os esforços das elites com o fito de estarem bem com as suas próprias “consciências” ou, mais precisamente, com as suas conveniências.

Não se perca de vista que a sociedade brasileira tem a mentira (faz de conta) e o aparentar ser o que não se é, como fundamento da sua falsa religiosidade. Por meio dela as elites exercem domínio sobre aqueles outros setores subalternizados da sociedade, embora, se saiba que tal religiosidade não passa de uma máscara para encobrir o verdadeiro rosto do fariseu. Mas, há que se fazer caridade, qualquer tipo de caridade; há que se fazer “boas obras”, qualquer tipo de “boas obras”, para que sejam vistas pelos homens e, que por meio delas, quem as tenha feito, seja reconhecido como alguém de grande benemerência! Com isto, ser “fariseu”, ser “saduceu”, ser sacerdote ou ateu, é mero detalhe da sinfonia tocada pela orquestra de quem se engana; de quem se deixa enganar; de quem quer ser enganado por si mesmo, ou pelos outros.

Portanto, diante de um ano inteiramente malogrado; ano em que salvo a aprovação no vestibular, nada mais andou favoravelmente para ele, José Mário viu-se na contingência de lançar dos seus ombros aquele peso, antes que se tornasse mais difícil a carga que teria de levar às costas ou, teimosamente, procurar erguer-se das sucessivas quedas sofridas, untar as feridas e, ainda com passos mais trôpegos e medidos, retomar o caminho que se lhe apresentava para percorrer.

No entanto, em um deslocamento até Xiquexique para uma atividade religiosa, já disposto a esquecer aquele ano que logo terminaria, acabou por não sair da sua cabeça aqueles cogitares. O seu temperamento que tinha por princípio nunca recuar, não admitia aquele jogar de toalhas que se lhe perpassava pelo espírito. Durante toda a estada naquela cidade, assim como por todo o deslocamento para chegar e para sair dela, aqueles pensamentos se embatiam dentro de si, indicando que a decisão a ser tomada não seria fácil mas, que teria de sê-lo e, o foi. Por conta do seu temperamento, ele não aceitava simplesmente deixar para trás, todo um esforço pessoal, assim como esforços envidados por outras pessoas, no sentido de simplesmente justificar-se com um “não deu”, paciência. E de mais a mais, logo, logo, ele entraria em mais um ano do seu existir, sem qualquer definição do que seria, do  que faria para sobreviver, de qual modo ele se afirmaria como um homem ao mesmo tempo apto para o exercício do seu próprio subsistir e, como aquele que queria conduzir o seu próprio devir; bem como não concluindo, não obtendo uma formação que lhe habilitasse para o exercício de um ofício, como se afirmaria enquanto pessoa independente que muito queria ser.

Destarte, foi envolvido nestes embates internos entabulados de si para consigo, Que José Mário foi encontrado pelo ano de 1987, já se encontrando de volta em Alagoinhas. No intervalo entre a viagem do ano anterior e o carnaval daquele novo ano, ele fizera algumas tentativas tão infrutuosas quanto àquelas feitas logo após o trancamento de matrícula, no sentido de se desvencilhar de vez da empreitada até ali malograda, com vistas a encontrar alguma solução para aquele impasse quanto ao “que fazer?” de sua caminhada.

Não havendo outro caminho que não aquele que fora interrompido no meio do segundo semestre; não tendo alcançado qualquer resultado em suas buscas para um outro recomeço em outro tipo de processo formativo, ele acabou por ceder à sua própria pressão e, em fevereiro de 1987, lá estava José Mário, juntamente com a turma que fora aprovada para ingresso naquele ano, no posto de saúde localizado no Jardim Petrolar, para ali fazer os exames de Abreugrafia e, de posse do seu resultado, juntar a outros documentos para retomar a matrícula deixada no meio do segundo semestre do ano anterior.

 

Alagoinhas – 01 de abril de 2026 – outono brasileiro

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 22 de março de 2026

FRAGMENTOS DE MEMÓRIA, PEDAÇOS DE HISTÓRIA - PARTE IV

 

JOSÉ MÁRIO NA GRADUAÇÃO – 4.

 

O qualificado corpo de leitores destes arrazoares construídos a partir de elementos constantes na memória do seu escrevinhador, tem diante de si para a sua reflexão, mais um rememorar de um caminhar acadêmico vivenciado por José Mário enquanto cursava a licenciatura “plena” em História na Faculdade de Formação de Professores de Alagoinhas, considerando os percalços e as vicissitudes daqueles percursos acidentados e cheios de curvas sinuosas e íngremes, muitas vezes mal ou nada sinalizadas, o que representara grande perigo, nem de  longe suspeitado pelo incauto e despreparado viajor. Incauto, porque não dispunha de meios para aferir o que se lhe aguardava ao final de cada trecho da estrada, razão pela qual não se acautelara, em momento algum – por vezes, em razão de puro e simples desconhecimento; outras vezes, por sua natural ingenuidade, a partir da qual acreditara sempre que as coisas se ajustariam, de alguma maneira – no sentido de não se lançar para o próximo passo, sem antes estudar o tipo de terreno no qual precisaria palmilhar. Despreparado, porque não dispunha de quaisquer ferramentais de apoio, fossem eles tiflológicos, bibliográficos ou emocionais que lhe permitissem apoiar os pés ou afirmar os braços em estruturas que lhe propiciassem resistir aos solavancos que lhe sobreviriam ao longo de todo o tempo que se faria o trajeto. Assim, noves fora alguns poucos amigos e colegas que vez por outra lhe davam algum apoio – ao menos, conforme lhe dissera alguns anos depois o seu orientador de mestrado “o apoio moral” –, em todo o seu caminhar acadêmico – inclusive, quando da sua carreira docente –, ele sempre fora um viajor solitário que buscava forças dentro do seu alforje pessoal, sempre com pouquíssimo estoque delas.

Portanto, conforme se leu nos garatujares anteriores, para José Mário, o segundo semestre letivo se lhe apresentara ineludivelmente mais complicado, no que respeitava ao acesso ao material correspondente às leituras inerentes à cada disciplina que precisaria cursar, uma vez que, além do volume de tais leituras lhe parecerem ainda mais alentado, havia também o déficit acumulado do semestre anterior que lhe obrigara a abandonar quatro das seis disciplinas em que estivera matriculado, resultando em reprovação por falta. O seu espírito, como que se inquietava e, como que dele  cobrava sabe-se lá o que, na medida em que, de si para consigo, ele entendia que fracassara, é certo, mas, não por inércia de sua parte. No entanto, o seu interior pouco se consolava com aquela assertiva dissuasória, com a qual procurava responder ao redarguir do seu temperamento que cobrava, insistentemente uma ação mais efetiva, no sentido de fazer valer uma das suas características que, para bem ou para mal, sempre lhe marcara os passos: nunca parar; recuar, dependendo das circunstâncias e, se fosse para avançar com mais força e determinação; voltar atrás, deixar de seguir: nunca... Aquilo lhe moera os  ânimos, logo ao se confrontar com as dissonâncias que se apresentavam no que tange à interação entre os professores e a turma e, depois, havendo tempo, a clássica e incômoda pergunta: e com você, o que ou como faço? E, muitas vezes, a pergunta era feita ao aluno invisível à percepção daquele professor acostumado a interagir com aqueles que estavam no seu mesmo patamar de percepção visual, já quase ao final do seu performar professoral, crendo mesmo que houvera desempenhado bem a interpretação que fizera do seu saber e do seu conhecer da matéria, para depois, bem depois,  se lhe aperceber a presença de um aluno que pouco ou nada absorvera da exuberância do seu desempenho e, então, assim provocado no ponto para o qual jamais cogitara ser necessário estar preparado, defendeu-se com perguntas – retóricas, saliente-se de passagem – que, ao invés de ser ele mesmo quem respondesse, esperara que tal resposta viesse daquele a quem ele deveria ter na conta de sua didática, de sua metodologia do ensino da História, um aluno que não era o padrão considerado pelos teóricos e, ainda menos, pelas teorias com as quais páginas e páginas dos assim chamados “conhecimentos pedagógicos” foram impressas, ensinadas nos diversos seguimentos do ensino, mundo a fora e, que certamente, aqueles professores conheciam – ou deveriam conhecer -; escreveram trabalhos e forçaram os seus professores a ler o que escreveram em suas avaliações.

Foi assim que José Mário vivera todo o restante daquele ano de 1986 que, depois da euforia produzida pela aprovação e ingresso no curso de História, se envolveu em um sem-número de incertezas e, com uma sensação de prejuízo irreparável, após a difícil decisão de trancamento do curso, na medida em que tivera que desembarcar do “trem”, sendo necessário esperar que outro viesse para prosseguir a viagem. Os meses que se seguiram à efetivação do processo de interrupção do trajeto ainda na “segunda estação”, acabaram por consolidar uma certeza que ele insistia em não querer ter: o mundo era sim, talhado para os mais fortes e completos em sua funcionalidade física, no sentido de que aqueles cujos cinco elementos sensoriais estivessem em sua plenitude, fatalmente seria exitoso – exceto, no caso de quem de fato quisesse, por decisão sua e, quase sempre, só sua, resolvesse não querer prosseguir –, na medida em que, apenas a vontade de querer continuar, não era suficiente para poder fazê-lo. Ou seja: não bastava a vontade de seguir, nem mesmo a “força” do espírito em se por a caminhar. Instrumentos e ferramentas diversas se faziam necessários para levar adiante quaisquer processos intentados construir e/ou desenvolver e, tais ferramentas e quais instrumentos, José Mário não possuía. Por exemplo, o recurso financeiro, ao menos em tese, minimizaria o seu déficit no campo do material bibliográfico a ser utilizado durante o cursar das disciplinas. No entanto, além de não os possuir, também há um outro elemento que não poderia deixar de ser tomado na devida conta. A exposição professoral se dava mediante projeções, escritas em quadro, gesticulações..., o que efetivamente acabava por alijar o aluno cujo sentido da visão não poderia abarcar aquele conjunto de movimentos e instrumentos que, apesar de se dizer que eram “ferramentas auxiliares”, na prática, eram os principais elementos de interação professor/turma. Nem é preciso apontar o tamanho do prejuízo daquele outro  e único aluno, que não poderia ser considerado em tal tipo de interação.

Mas, o excelente leitor poderia objetar que já haveria um grupo de pessoas dispostas a “emprestar” os seus olhos e tempo àquele tipo de aluno, com o fito de tornar o acesso ao material a ser empregado pelos professores, pelo menos, aqueles registrados em livros e/ou capítulos de livros, o que, indubitavelmente, ajudaria a reduzir a distância abissal interposta entre os elos da cadeia formativa. E, quem disse que José Mário não procurou lançar mão deste tipo de apoio? Sim, caro leitor. Ele procurou o que à época se denominava “Grupo de Copistas Voluntárias”, sediado em Salvador, para que elas lhes transcrevessem o material que ele precisaria para tentar desempenhar razoavelmente os seus estudos. No entanto, a primeira objeção feita por uma delas, referiu-se ao tamanho e à quantidade do material demandado por ele. Afinal, ele era só mais um dentre aqueles que precisavam do serviço, que, salientou bem a caridosa criatura que recebera a solicitação:

- “somos voluntárias”; “faremos na medida do possível”; “Quando for possível”...

Ou seja: se der, quando der... Observe-se que, a necessidade do demandante é deixada de lado, o tempo da academia, sequer é considerado – este escrevedor já se posicionou em um texto mais longo sobre o tema do “voluntarismo”, do “Filantropismo” (DAMASCENO, José Jorge Andrade. A cuia e a bengala : histórias, memórias e trajetórias de pessoas cegas  em Salvador, em busca de inserção econômica e autodeterminação social  (1963-1993). Salvador: Edufba  2022). Só para se ter uma ideia da seriedade que fora aquele demandar de material a ser transcrito em Braille, os textos que José Mário levou para as egrégias senhoras daquele “Grupo de Copistas” nos meados de agosto de 1986, para fazer face às disciplinas que cursaria até dezembro daquele mesmo ano, apenas em abril do ano seguinte, é que ele começou a receber de volta, o que, nem é preciso dizer, já estava o semestre devidamente trancado, por falta de “cara-de-pau” do aluno, para pedir “paciência” aos seus professores. Afinal, havia que se realizar as avaliações; havia que se concluir o semestre e, seguir adiante, rumo aos próximos.

 

Alagoinhas – 22 de março de 2026 – outono brasileiro

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 15 de março de 2026

FRAGMENTOS DE MEMÓRIA, PEDAÇOS DE HISTÓRIA - PARTE III

JOSÉ MÁRIO NA GRADUAÇÃO – 3.

 

O arrazoado que ora se inicia, tal qual os demais já desenvolvidos, tem como principal lastro, a memória daquele que o  escreve. Memória que, conforme já é cediço, tem no presente os elementos do passado que pretende evocar. Assim sendo, ao recorrer às camadas de lembranças já há muito recobertas pelo passar do tempo e pelo acúmulo de outros lembrares, o seu evocar, muitas vezes requer algum esforço para organizar os fragmentos extraídos de escavações realizadas em camadas espessas e já sedimentadas de um passado que insiste em não passar. Embora os rememorares não se prestem a trazer à lume as coisas como de fato se deram, ao menos, por conta dos acúmulos de tantos eventos posteriores e, sobretudo, com a percepção do que e o conhecimento – ou o efetivo vivenciar – daquilo que se veio a viver posteriormente, eles remetem ao passado, mediado pelo presente, com a possibilidade de serem rememorares eivados de reflexões que ajudem a consolidar como sendo uma memória que veio sendo construída até ao ponto de ser transmitida para tantos quantos delas venham a ter conhecimento.

A exposição anterior foi concluída com a formulação de um postulado construído sobre o lastro das dificuldades enfrentadas por José Mário, no que tange tanto ao seu desempenho acadêmico propriamente dito, quanto à obtenção dos meios através dos quais ele tomaria contato com os processos de leitura e posterior reflexão em torno dos textos e/ou obras que lhe possibilitariam acompanhar as aulas, submeter-se às avaliações e, por fim, ter aferido, adequadamente, o nível de aprendizagem que conseguira – ou não – alcançar, ao final dos semestres, resultando em aprovação ou reprovação, em cada uma das disciplinas cursadas. Tal postulado inferia que aquele aluno não dispunha de meios para resolver aquele conjunto de dificuldades de per si, a menos que houvesse ação efetiva da instituição, com o fito de propiciar algumas condições que permitisse – ao menos em parte – mitigar aqueles pontos de gargalo que entravava, para não dizer impedia, o curso normal do caminhar  daquele discente, no sentido de lhe permitir as condições mínimas de acesso ao material bibliográfico proposto por cada um dos professores responsáveis pela ministração das disciplinas que José Mário viesse a cursar.

A referida proposição sempre esteve muito claramente estruturada nos cismares de José Mário, embora, de modo igualmente claro, também ele sempre estivera resistente à presença de alguém que, conforme pensava, pudesse vir a limitar, de alguma forma ou por algum meio, o atendimento às suas necessidades, sem nem mesmo considerar que, ainda que de forma mínima, já seria um pequeno ganho, diante do fosso que se interpunha entre ele e as suas reais condições e, por conseguinte, as suas necessidades de acesso ao amplo conjunto de leituras que precisaria fazer para obter algum acúmulo que lhe permitisse uma aproximação aos seus demais colegas, no que respeita ao rendimento acadêmico de que precisava para continuar a sonhar em se tornar um licenciado em História.

Mas, infelizmente, a resistência e a desconfiança na participação institucional no seu processo formativo, não tardou em se apresentar conforme ele já houvera como que vaticinado. O primeiro efeito de sua suspeita, materializada na falta daquele apoio institucional e, que ao final do primeiro semestre, demonstrara o efeito de sua falta, se evidenciou no resultado obtido por ele, naquele e no semestre seguinte. Ao perceber que não conseguiria dar conta das seis disciplinas que iniciara por conta da obrigatoriedade de obter um conceito mínimo de 07, para alcançar a aprovação em cada uma delas, muito a contragosto, acabou por abandonar quatro delas, portanto, sendo reprovado por falta; seguindo em duas, tendo de fazer prova final para não perder o prerrequisito, o que implicaria em mais desorganização para os semestres seguintes – sendo aprovado – e, obtendo aprovação em Língua Portuguesa, talvez ainda lastreado nas aulas que o preparara para a realização do vestibular, como que, salvara uma parte do primeiro semestre, que, em alguns momentos ele dera por perdido.

O segundo efeito da inexistência de ações institucionais efetivas que visassem minimizar a grande distância que se interpunha entre aquele aluno e a ampla gama de leituras que não conseguiria realizar, se fez sentir já no início do segundo semestre, quando se matriculou nas disciplinas que pôde, sobretudo, aquela que era prerrequisito – História Medieval 1 –, ele logo se apercebera que o problema vivenciado no primeiro semestre se apresentaria ainda mais complexo, visto que, até o momento em que o professor da referida disciplina marcou a primeira prova e, que ela seria feita mediante consulta, ele caiu em si e pergunto, de si para consigo:

- Consultar o que? Como, se não dispunha de um único texto, nem copiado na reglete e, se tal consulta se daria nos diversos textos indicados, apresentados e explicados pelo professor?

Tendo entabulado conversas com colegas e professores mais próximos, com o fito de encontrar alguma maneira de sair daquele impasse e, evidentemente, sem encontrar saída que não passasse pela participação da instituição; depois de algumas ideias trocadas com o então diretor da Faculdade de Formação de Professores, o professor Jamim Nascimento e Silva – in memoriam – (um senhor alto, de fala pausada e com voz envolvente, que acabaria por ser classificado por José Mário como sendo “mais locutor de FM, do que diretor de uma instituição de ensino”), conversas quase sempre estéreis; depois de algumas reflexões feitas de si para consigo, José Mário acabou por tomar uma decisão extrema, sobretudo para ele, cujo temperamento não admitia recuos ou desistências, que consistiu em abandonar a aventura acadêmica que, para ele, já era dada como fracassada e, tentar partir para a cidade de São Paulo, na tentativa de voltar ao mercado de trabalho, para o qual precisaria se readequar, pois, naquele momento, a alternativa mais viável para os cegos, era a atividade de “câmara escura”. E assim ele o fizera, tendo mesmo ido para São Paulo e, quase se inserira em uma vaga em um laboratório de fotografia – para o que, segundo o colega que lhe dissera haver a tal vaga, ele seria treinado – cujo horário de atuação seria das 22 às cinco da manhã, o que lhe daria um ganho extra em relação ao salário, o adicional noturno. Tal só não se efetivou, pelo fato de ter havido um recadastramento eleitoral nacional e, o baiano ainda não havia recebido o seu novo título de eleitor, sem o qual, não poderia se apresentar como candidato à vaga de trabalho.

Entretanto, José Mário não dera este passo arriscado, sem ouvir a ponderação do professor Jamim que, lhe propusera que não abandonasse simplesmente o curso mas, que, usasse a prerrogativa que lhe conferia o uso do instrumento que evitaria a perda definitiva da vaga obtida por meio do vestibular: o trancamento da matrícula, que se daria por até dois anos, tempo em que ele, se quisesse, poderia retomar o curso. E, diante de mais um fracasso na tentativa de voltar ao mercado de trabalho, como trabalhador não especializado – que aliás, não muito tempo depois, as tais vagas para atuar em câmara escura, se reduziram drasticamente –, no ano seguinte, José Mário acaba por retomar a sua matrícula e, recomeçar o primeiro semestre na turma que entrou logo em seguida àquela que ele fizera parte inicialmente. A partir de então, o debate que envolveu aquele estudante e as suas dificuldades em tomar contato com as leituras propostas pelos professores, acaba por ganhar novos contornos, uma vez que, entre ele e o caminhar acadêmico, estava a instituição e, o seu papel no destravar as estradas pelas quais ele precisaria passar, para enfim, chegar ao fim que deve perseguir todo aquele que inicia uma jornada: a sua conclusão.

 

Alagoinhas – 15 de março de 2026 – verão brasileiro.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com