Glenda Doremus
– “a República do Sacramento” em “um estudo interpretativo”. – Parte II.
Ao trazer mais estes arrazoares para apreciação de quantos
acederem a este espaço de leitura virtual, uma vez mais se intenta apontar
algumas dentre as muitas possibilidades de se apreender e, quiçá, se
compreender a realidade cotidiana através da literatura e a partir dela, se construir
um tratado que permita o aprofundamento da compreensão do fazer histórico, por
meio de leituras de mundo que apontem para os desafios de elaborar estudos que
desague na produção historiográfica.,
Em conformidade com o dito nos garatujares anteriores ao que
os diletos leitores ora têm diante de si, a jovem norte-americana Glenda
Doremus desenvolvera um trabalho dissertativo e, o submetera ao secretário da
embaixada da República do Sacramento em Washington, antes mesmo de o submeter à
banca examinadora composta por docentes da instituição acadêmica onde se fazia
graduar. Dele, talvez, ela esperasse receber o incentivo que precisava para firmar-se
de estar caminhando na exatidão das suas proposições. Em “O Senhor Embaixador”,
publicado em 1965, Veríssimo entrega ao seu leitor, uma personagem tíbia, que
pouco ou nada confiava naquilo que houvera produzido a partir dos seus estudos
de história latino-americana, além de ter uma personalidade psicologicamente cambaleante
e plena de traumas, em boa parte das vezes, suscitados pelo ressentimento herdado
de uma memória coletiva em que se cultivava o ódio e se alimentava o medo àqueles
que eram diferentes, que se apresentavam como marca indelével de parte daqueles
cidadãos oriundos da região conflagrada pela guerra civil americana, já terminada
há quase cem anos (1861-1865), na qual o Sul Confederado perdera o seu desejo separatista
do lado setentrional, mas, principalmente, por ter sido despojada da sua característica
econômica principal, que era a utilização do trabalho escravo como forma de
produzir e acumular riquezas.
O aludido ressentimento, é sutilmente apresentado por
Veríssimo, quando coloca em evidência as palavras que escrevera o pai da moça, nas
quais demonstra o seu descontentamento por ela preferir permanecer em
Washington, mesmo nas férias de verão ou ainda, nas festas natalinas, em
detrimento da sua Georgia, mais precisamente na cidade de Atlanta, onde ele e a
consorte esperavam a visita e a estadia da filha. Na carta que foi rapidamente citada
em postagens anteriores, o pai de Glenda Doremus apresenta as queixas por sua insistência
em permanecer na capital do País:
“Querida filha: Por que não
voltas para casa? Sei que Washington deve estar linda agora com as cerejeiras
floridas, mas aqui em Atlanta os pessegueiros estão também em plena floração. [...].
Como eu, tua mãe ficou triste porque não nos visitaste nas tuas últimas férias
de verão e porque nos comunicas agora que talvez não possas estar conosco nas
de Natal. Por que odeias tanto o Sul? No fim de contas, em Washington há mais
negros que brancos. [...]”.
Perceba o leitor que, neste
último feixe de palavras ditas pelo pai da rapariga, sutilmente, Veríssimo
aponta a razão do ódio pela derrota do intento separatista e o ressentimento
por perderem o direito à utilização de mão de obra escrava, que por sua vez,
alimenta a aversão e o medo ao negro, simultaneamente, quando diz que “[...], em
Washington há mais negros que brancos.”. E segue a carta, onde ele acaba por
revelar o segredo da garota, pelo que se exasperava e se fazia sentir impura e
suja, por acreditar ter sido violentada por um homem negro, quando contava
treze anos. Diz ele:
“[...]. Tu te queixas em
tuas cartas de que não tens amigos aí e de que não te sentes feliz. Por que é
então que te obstinas em viver nessa cidade que tu mesma achas monótona e
desinteressante? Vem para casa, baby. Acho que não deves permitir que tua vida
seja estragada por coisas que aconteceram há tantos anos e das quais não
tiveste a menor culpa. [...].”.
Por não ser a pretensão
deste escrevinhar entrar em pormenores a cerca do que fora dito na missiva dirigida
à Senhorita Glenda Doremus, volte-se, portanto, ao aguardado encontro entre os
dois moços, quando o secretário da embaixada da República do Sacramento em
Washington, falaria à mestranda em História da América Latina, atendendo a um
seu pedido de apreciação daquilo que escrevera e que lhe encaminhara para que
lesse.
Depois de muito hesitar se
aceitaria o convite que lhe fora dirigido por Pablo Ortega para que
comparecesse à festa que o novo embaixador da República do Sacramento
ofereceria no suntuoso prédio daquela representação diplomática, em alusão ao
seu credenciamento junto ao governo de Washington, enfim, a jovem decidiu por
vencer à sua insegurança pessoal e acadêmica, no que respeita à razoabilidade e
à plausibilidade histórica do tratado que escrevera. Conforme fora apontado
pelo secretário da embaixada, em mensagem manuscrita no verso do convite
oficial, na ocasião, eles falariam sobre o que ela escrevera, como resultado
dos seus estudos realizados sobre aquele pequeno país situado em algum ponto do
caribe.
Depois de a ter
recepcionado no recinto diplomático onde se daria a conversa e, depois de ter
provocado a jovem, fazendo com que ela, muito à contragosto, cumprimentasse o embaixador do Haiti, Pablo
Ortega, tendo concluído estar diante de uma pessoa “racista” – eles se conheceram há
pouco; ele, por certo, embora desconfiasse, talvez não soubesse das inclinações
dos sulistas à discriminação racial; ou procurara submetê-la àquele teste, precisamente
por conhecer aquela tendência –, conduziu
a rapariga até um espaço reservado, distante do burburinho da festa e, após lhe
ter ouvido o protesto por a ter forçado
a apertar a mão de um preto, enfim, iniciara a tecer as suas considerações
sobre o que ela lhe encaminhara, com o pedido de apreciação.
Assim, Ortega começa a
falar a respeito do texto escrito por Doremus, de modo bastante áspero e,
conforme a observação do próprio Veríssimo, inexplicavelmente agressivo, ao
dizer que “Sua dissertação não revela
o menor senso de perspectiva histórica e está cheia de inverdades”. Diante
da estupefação da moça e do seu protesto ao que ouvira, Veríssimo oferece ao
leitor o seguinte diálogo, que precisará ser transcrito aqui, para que se possa
compreender a afirmação que Ortega fizera, ao principiar a sua impressão sobre
a produção em apreço.
“[...]. — Inverdades? Como? Por quê?
“— Para principiar, você usou fontes de
informação contaminadas.
“— Mas os dados que usei me foram fornecidos
em grande parte pela sua própria embaixada!
“— É exatamente por isso que eu os declaro
impuros, falsos.
“— Você está bêbedo.
“— Pode ser, mas isso não torna menos
verdadeiro o que acabo de lhe dizer... [...]”.
Diante da quase paralisia mental da jovem,
Ortega lhe assegura que:
“— Claro, há na sua tese coisas indiscutíveis
— [...]. — O Sacramento é realmente uma ilha, fica no Mar das Caraíbas, foi
descoberto em 1525 por um dos capitães do conquistador espanhol Francisco
Fernando de Córdoba, um certo Leandro García Escala, que fundou Puerto
Esmeralda na costa noroeste da ilha e mais tarde Cerro Hermoso, no platô
central. Mas a história do puma fulvo que montava guarda à boca duma mina de
prata e só devorava os espanhóis, ao passo que poupava os nativos, cujas mãos
lambia, não é mais verdadeira do que a da loba que amamentou Rômulo e Remo. [...]”.
Uma vez mais, diante do exposto pelo seu
interlocutor, a rapariga evoca o fato de ter lido sobre o tema, em livro
emprestado por um outro membro daquela mesma embaixada, procurando assim,
validar a fonte que utilizara, construída sobre um mito, conforme lhe garante Ortega.
É precisamente no que respeita ao seu excesso de confiança nas fontes que
repousa toda a crítica desenvolvida por Pablo Ortega, às proposições históricas apresentadas pela jovem
historiadora da América Latina, que se deixara envolver pelas suas fontes, sem
submetê-las às necessárias críticas, que acabou por engolfar a sua pesquisa e a
perturbar a elaboração das suas hipóteses, de tal modo que acabou por cometer
erros de avaliação e, por conseguinte, aceitar como verazes, os historiares dali
extraídos.
É nesta perspectiva que, em dado momento, ela
se queixa de não ter encontrado nos jornais que pesquisara do Sacramento, a
informação que Pablo lhe dera durante a exposição que desenvolvia sobre a
História do seu País, dando conta que o governo sacramentenho solicitara ao
governo norte-americano, que lhe enviasse corpos de fuzileiros para combater um
certo Juan Balsa, tido como um bandoleiro que precisava ser contido, uma vez
que o exército local não possuía capacidade de combate para tanto. A senhorita
Doremus, em defesa do seu desconhecimento da informação que acabava de receber,
retruca o seu interlocutor, afirmando “— Não encontrei em nenhum dos jornais de
Cerro Hermoso ou Puerto Esmeralda qualquer referência ao fato de o Governo
sacramentenho ter pedido a intervenção dos nossos fuzileiros especificamente
para perseguir e capturar Juan Balsa e seus companheiros”.
Em resposta, Ortega lhe dera uma lição de como
o pesquisador não deve proceder, ao examinar as fontes que estão ao seu dispor,
sem que delas desconfie, por todo o tempo em que as esteja examinando,
buscando sempre estabelecer confrontos que lhes assegure não estar se deixando enganar
por elas. E postula o secretário da embaixada da República do Sacramento:
“— Claro que não. Uma notícia como essa
poderia perturbar o mundo de Don Antonio María e da sua gentil ”corte” e por
outro lado equivaleria a uma constrangedora confissão pública de impotência da
parte do Exército Nacional. Noticiou-se apenas que o Governo de Chamorro havia
dado permissão a um batalhão de soldados da amiga República norte-americana
para fazer manobras de desembarque num certo ponto do território nacional”.
Mesmo que aquela mestranda em História da
América Latina tivesse visto nos jornais que pesquisara – e ela apresenta um
grupo deles, situados em ao menos duas das principais cidades daquele país
caribenho, inclusive, os da sua capital – alguma notícia, do modo como fora
descrita por Ortega, ela sequer desconfiara das fontes e, cravara, conforme a
sua interpelação ao interlocutor, que não houvera intervenção norte americana, nas
ações de combate à guerrilha de Juan Balsa. Ou seja, o pesquisador que se
embate na tarefa de desenvolver alguma investigação histórica, não pode se
deixar levar de roldão pelas suas fontes, sob pena de ter um trabalho
historiográfico fragilizado e desancado por leitores argutos e/ou examinadores atentos
aos caminhos percorridos pelo processo de execução da pesquisa histórica.
Alagoinhas – 20 de setembro de 2026 –último
domingo de inverno brasileiro.
Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com – www.historias-e-memorias.blogspot.com