domingo, 27 de setembro de 2026

NACOS DE LITERATURA – ALGUMAS DIGRESSÕES – XI.

 

O Jornalista Bill Godkin: A História Imediata da República do Sacramento – Parte I.

 

Tendo já sido publicado em dez outras ocasiões algumas reflexões que apontam para construção de um processo de apreensão do fazer histórico latino americano, este escrevedor volta a submeter alguns arrazoares à consideração dos argutos visitantes deste espaço virtual de leituras, ainda uma vez mais, procurando lhes chamar a atenção para um postulado que se vem defendendo desde o início desta série, que é a possibilidade de se perceber, apreender e compreender o desenvolvimento da história da sociedade, tomando como referência a produção literária como fonte para a pesquisa  histórica. Conforme apontara em uma conversa com um frequente leitor destes garatujares, ao decidir escrever esta série que intitulara “Nacos de Literatura”, não era pretensão deste escrevente começar por uma obra publicada no Século XX, mas sim, tomar alguma daquelas mais clássicas publicadas no Século XIX,  ainda fasciculares e em forma de folhetins, que saíram em diversos periódicos, por meio das quais circularam as ideias e os pensares de então. Tanto é assim que, antes de começar a escrever os “Nacos de Literatura” que ora se  lê neste blog, foi refeita a leitura de “O Alienista”, conto da lavra do genial Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908), um brilhante tratado que mistura sarcasmo, ironia e uma certa dose de antecipação de comportamento social marcado pela exacerbação de um psicologismo, marcadamente vivenciado nos tempos hodiernos. Porém, este garatujador acabou por fazer um percurso por um outro tipo de literatura, que já aparece e circula de modo diferente da que circulara no XIX, isto é: já aparecia em livros prontos, no formato brochura, que circulavam de acordo com a capacidade de publicizar e distribuir que a editora possuísse.

No entanto, foi outra releitura que acabou por definir o desenvolvimento da série que ora se encontra diante de quantos agora navegam neste espaço virtual. Sem que esteja muito claro em seu imaginar a razão precisa que levara este escrevedor a retomar a leitura de “O Senhor Embaixador”, obra da lavra de Érico Veríssimo (1905-1975) e publicada em 1965, portanto, em plena vigência da Ditadura Militar, iniciada pelo Golpe de 1964, desfechado contra o governo de João Goulart (1919-1976), que houvera assumido o governo deixado em 1961 por Jânio Quadros (1917-1992) e, com o franco, explícito e indisfarçado apoio de vastos setores da sociedade civil, além do apoio e das instâncias de diversos setores leigos da Igreja Católica e, em alguns casos, até mesmo do seu alto clero. O certo mesmo é que, conforme já há algumas semanas se tem feito, ao avançar pelas suas páginas e personagens, todas elas bem descritas e caracterizadas psicológica e socialmente, tem se percebido as muitas “faces da história” que podem ser encontradas em sua composição. Assim é que, a partir deste arrazoar, se procurará apontar outros elementos históricos da imaginada “República do Sacramento” – que, reafirme-se, não é apenas um imaginar do seu autor, mas sim, um perceber geral de uma América como um todo e, da América Latina em particular, que, em meio a censura e ao arbítrio, Veríssimo procura denunciar –, desta vez, tomando o jornalista da Amalpress como uma espécie de narrador privilegiado daquela história que acontecia sob a fumaça do seu inseparável cachimbo.

Antes mesmo de adentrar ao tema proposto, cabe ressaltar de passagem que, nas primeiras leituras feitas por José Mário da obra acima mencionada, sequer ele dera alguma atenção ao personagem Bill Godkin que já contava trinta e cinco anos de atuação jornalística, descrito por Veríssimo como sendo um periodista experiente e, de acordo com o episódio de abertura da produção literária em exame, já estava em fim de carreira, sendo homenageado pelos seus colegas mais novos de profissão e de empresa. Para José Mário, era apenas mais um a compor o leque de personagens que, para ele, tratava-se de um elemento que se não aparecesse na trama, tal sequer seria percebido. Ele não tinha ideia de se tratar de uma técnica de narrativa largamente utilizada pelos literatos, sobretudo, por aqueles que construíram as suas novelas no bojo de uma literatura que começava a levar aos seus leitores o conhecimento do mundo real em que ambos estavam inseridos; uma espécie de fio condutor daquela história; de um historiador que vivenciava, experienciava e, por fim, registrava, aquilo que mais tarde veio saber se tratar daquilo que teóricos e metodólogos  classificaram como sendo a “História” imediata, aquela produzida pelos jornalistas e, publicada em periódicos e agências de notícias. Por certo, ele nada entendera do discurso pronunciado pelo homenageado, quando instado a falar para aquelas cerca de vinte pessoas que estavam consigo à mesa e, que além de receber deles alguns presentes, também ouviu palavras elogiosas a si, proferidas por um jovem moço, a quem os demais encarregaram que falasse pelos que ali se encontravam confraternizando com o quase sexagenário colega.. Daí, se pode depreender que nada ele conseguira compreender da fala de Bill Godkin, visto que, conforme já se disse outras vezes, além dos poucos livros que pudera ler, o seu conhecimento e leitura de mundo estava restrito ao seu entorno de moradia e, quando muito, aos espaços de frequência escolar.

Desta forma, este tratado deve retomar alguns aspectos do discurso proferido pelo velho jornalista, a fim de poder prosseguir nas considerações e análises a que se propõe desenvolver, em sintonia com o título proposto para este arrazoado. Assim, depois de agradecer ao orador pelas palavras a ele dirigidas, Bill Godkin principia a sua abordagem acerca do que ali ouvira, dizendo que:

 

“[...]. ” Quando eu tinha a idade desse moço, orgulhava-me de possuir a qualidade essencial do repórter: a de só noticiar fatos. Hoje, na adolescência da velhice ([...]), começo a ter dúvidas... [...]: ”isso a que chamamos fato não será uma espécie de iceberg, quero dizer, uma coisa cuja parte visível corresponde apenas a um décimo de seu todo? Porque a parte invisível do fato está submersa nas águas dum torvo oceano de interesses políticos e econômicos, egoísmos e apetites nacionais e individuais, isso para não falar nos outros motivos e mistérios da natureza humana, mais profundos que os do mar”. [...].”.

 

Aqui uma interrupção do discurso proferido em resposta àquele que fora feito em sua homenagem, para ressaltar a constatação de se tratar de uma aula de jornalismo que Veríssimo coloca nos lábios daquele personagem que José Mário entendera como dispensável, indicando, conforme já se aludiu há pouco, o seu desconhecimento do papel social que desempenhava a produção literária. Não sabia o rapaz em 1977, que um personagem não era uma mera criação de uma cabeça brilhante e de um sujeito dotado de uma criatividade desprovida de perspicácia e de necessidade de comunicar, denunciar, convidar à reflexão; não era uma mera ferramenta de entretenimento nem mesmo, uma demonstração de erudição e grande aprofundamento cultural. Até poderia ser tudo isto; mas, não só. Era, sim, parte do processo criativo que pretendia dar a conhecer um certo “adoecer social”, mediante entrelaçamentos de episódios e personagens que representem os elementos sociais por meio dos quais o autor quer ressaltar e, por meio deles, demonstrar com alguma precisão, a sua percepção de mundo, para assim, fazer conhecer  as suas peculiaridades a tantos quantos a sua obra possa alcançar, Isto fica bem patente, quando se segue lendo o discurso que veríssimo empresta à Bil Godkin, dirigindo-se àqueles que o iriam substituir na tarefa de repórter da qual estava prestes a se aposentar. Diz ele:

 

“[...]. ” Ao desintegrarem o átomo, os cientistas de nosso século desintegraram também a semântica e até a ética. Quem é que sabe hoje com certeza o sentido de palavras que usamos com tão leviana frequência como liberdade, paz, direito e justiça? Quanto ao Palavrão, verdade... que bicho é esse? Quantas verdades existem no mundo de nossos dias? Conheço tantas... A da Casa Branca. A do Kremlin. A do Vaticano. A da Wall Street. A da Broadway. A da United States Steel Corporation. A da AFL. Sim, e convém não esquecer a da Madison Avenue, talvez a mais fantástica de todas.” [...]”.

 

E aquele orador que parecia pouco afeito à homenagem que acabara de receber, arremata devastador, para José Mário que ainda estava na infância da compreensão do mundo à sua volta, quando possuía a certeza das coisas que ouvia no rádio e, que se pudesse, leria nos jornais que circulavam naqueles idos da década de 1970 – até mesmo mais adiante, quando acidentalmente, acabou por descobrir aquilo que por meio de Bill Godkin, Veríssimo já lhe dissera, mas ele, ah, ele sequer ouvira, nem mesmo quando Raul Seixas cantava o seu “cowboy fora da Lei”, em frase lapidar “eu não preciso ler jornais; mentir sozinho, eu sou capaz” –, ao afirmar peremptoriamente que:

 

“[...]. ”O jovem orador disse que sou um símbolo... Mas símbolo de quê? Talvez dum tipo de jornalismo em processo de liquidação. Pertenço a uma era em que os correspondentes escreviam sobre os acontecimentos. Vocês os modernos querem competir com Deus Nosso Senhor. Não só procuram dar hoje as notícias de amanhã como também se avocam o direito de, na falta de notícias, criarem acontecimentos para depois escreverem sobre eles!” [...]”.

 

Assim, diante do discurso acima transcrito em suas partes mais essenciais e, conforme Veríssimo, feito de improviso e sem qualquer vontade do jornalista em o proferir, talvez se possa inferir que o arguto autor de “O Senhor Embaixador” estaria antecipando em sessenta anos aquilo que faz o jornalismo hodierno, amplificado mediante os meios modernos de difusão? Escrevesse ele hoje o seu tratado literário, expressaria um postulado muito diferente daquele que fora construído para formar o discurso de um periodista de longa prática jornalística em vias de conclusão?

 

Alagoinhas – 27 de setembro de 2026 – primavera brasileira

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com – www.historias-e-memorias.blogspot.com 

domingo, 20 de setembro de 2026

NACOS DE LITERATURA – ALGUMAS DIGRESSÕES – X.

 

Glenda Doremus – “a República do Sacramento” em “um estudo interpretativo”. – Parte II.

 

Ao trazer mais estes arrazoares para apreciação de quantos acederem a este espaço de leitura virtual, uma vez mais se intenta apontar algumas dentre as muitas possibilidades de se apreender e, quiçá, se compreender a realidade cotidiana através da literatura e a partir dela, se construir um tratado que permita o aprofundamento da compreensão do fazer histórico, por meio de leituras de mundo que apontem para os desafios de elaborar estudos que desague na produção historiográfica.,

Em conformidade com o dito nos garatujares anteriores ao que os diletos leitores ora têm diante de si, a jovem norte-americana Glenda Doremus desenvolvera um trabalho dissertativo e, o submetera ao secretário da embaixada da República do Sacramento em Washington, antes mesmo de o submeter à banca examinadora composta por docentes da instituição acadêmica onde se fazia graduar. Dele, talvez, ela esperasse receber o incentivo que precisava para firmar-se de estar caminhando na exatidão das suas proposições. Em “O Senhor Embaixador”, publicado em 1965, Veríssimo entrega ao seu leitor, uma personagem tíbia, que pouco ou nada confiava naquilo que houvera produzido a partir dos seus estudos de história latino-americana, além de ter uma personalidade psicologicamente cambaleante e plena de traumas, em boa parte das vezes, suscitados pelo ressentimento herdado de uma memória coletiva em que se cultivava o ódio e se alimentava o medo àqueles que eram diferentes, que se apresentavam como marca indelével de parte daqueles cidadãos oriundos da região conflagrada pela guerra civil americana, já terminada há quase cem anos (1861-1865), na qual o Sul Confederado perdera o seu desejo separatista do lado setentrional, mas, principalmente, por ter sido despojada da sua característica econômica principal, que era a utilização do trabalho escravo como forma de produzir e acumular riquezas.

O aludido ressentimento, é sutilmente apresentado por Veríssimo, quando coloca em evidência as palavras que escrevera o pai da moça, nas quais demonstra o seu descontentamento por ela preferir permanecer em Washington, mesmo nas férias de verão ou ainda, nas festas natalinas, em detrimento da sua Georgia, mais precisamente na cidade de Atlanta, onde ele e a consorte esperavam a visita e a estadia da filha. Na carta que foi rapidamente citada em postagens anteriores, o pai de Glenda Doremus apresenta as queixas por sua insistência em permanecer na capital do País:

 

“Querida filha: Por que não voltas para casa? Sei que Washington deve estar linda agora com as cerejeiras floridas, mas aqui em Atlanta os pessegueiros estão também em plena floração. [...]. Como eu, tua mãe ficou triste porque não nos visitaste nas tuas últimas férias de verão e porque nos comunicas agora que talvez não possas estar conosco nas de Natal. Por que odeias tanto o Sul? No fim de contas, em Washington há mais negros que brancos. [...]”.

Perceba o leitor que, neste último feixe de palavras ditas pelo pai da rapariga, sutilmente, Veríssimo aponta a razão do ódio pela derrota do intento separatista e o ressentimento por perderem o direito à utilização de mão de obra escrava, que por sua vez, alimenta a aversão e o medo ao negro, simultaneamente, quando diz que “[...], em Washington há mais negros que brancos.”. E segue a carta, onde ele acaba por revelar o segredo da garota, pelo que se exasperava e se fazia sentir impura e suja, por acreditar ter sido violentada por um homem negro, quando contava treze anos. Diz ele:

 

“[...]. Tu te queixas em tuas cartas de que não tens amigos aí e de que não te sentes feliz. Por que é então que te obstinas em viver nessa cidade que tu mesma achas monótona e desinteressante? Vem para casa, baby. Acho que não deves permitir que tua vida seja estragada por coisas que aconteceram há tantos anos e das quais não tiveste a menor culpa. [...].”.

 

Por não ser a pretensão deste escrevinhar entrar em pormenores a cerca do que fora dito na missiva dirigida à Senhorita Glenda Doremus, volte-se, portanto, ao aguardado encontro entre os dois moços, quando o secretário da embaixada da República do Sacramento em Washington, falaria à mestranda em História da América Latina, atendendo a um seu pedido de apreciação daquilo que escrevera e que lhe encaminhara para que lesse.

Depois de muito hesitar se aceitaria o convite que lhe fora dirigido por Pablo Ortega para que comparecesse à festa que o novo embaixador da República do Sacramento ofereceria no suntuoso prédio daquela representação diplomática, em alusão ao seu credenciamento junto ao governo de Washington, enfim, a jovem decidiu por vencer à sua insegurança pessoal e acadêmica, no que respeita à razoabilidade e à plausibilidade histórica do tratado que escrevera. Conforme fora apontado pelo secretário da embaixada, em mensagem manuscrita no verso do convite oficial, na ocasião, eles falariam sobre o que ela escrevera, como resultado dos seus estudos realizados sobre aquele pequeno país situado em algum ponto do caribe.

Depois de a ter recepcionado no recinto diplomático onde se daria a conversa e, depois de ter provocado a jovem, fazendo com que ela, muito à contragosto,  cumprimentasse o embaixador do Haiti, Pablo Ortega, tendo concluído estar diante de uma  pessoa “racista” – eles se conheceram há pouco; ele, por certo, embora desconfiasse, talvez não soubesse das inclinações dos sulistas à discriminação racial; ou procurara submetê-la àquele teste, precisamente por conhecer aquela tendência  –, conduziu a rapariga até um espaço reservado, distante do burburinho da festa e, após lhe ter ouvido o protesto por  a ter forçado a apertar a mão de um preto, enfim, iniciara a tecer as suas considerações sobre o que ela lhe encaminhara, com o pedido de apreciação.

Assim, Ortega começa a falar a respeito do texto escrito por Doremus, de modo bastante áspero e, conforme a observação do próprio Veríssimo, inexplicavelmente agressivo, ao dizer que “Sua dissertação não revela o menor senso de perspectiva histórica e está cheia de inverdades”. Diante da estupefação da moça e do seu protesto ao que ouvira, Veríssimo oferece ao leitor o seguinte diálogo, que precisará ser transcrito aqui, para que se possa compreender a afirmação que Ortega fizera, ao principiar a sua impressão sobre a produção em apreço.

“[...]. — Inverdades? Como? Por quê? 

“— Para principiar, você usou fontes de informação contaminadas.

“— Mas os dados que usei me foram fornecidos em grande parte pela sua própria embaixada!

“— É exatamente por isso que eu os declaro impuros, falsos. 

“— Você está bêbedo. 

“— Pode ser, mas isso não torna menos verdadeiro o que acabo de lhe dizer... [...]”.

Diante da quase paralisia mental da jovem, Ortega lhe assegura que:

 

“— Claro, há na sua tese coisas indiscutíveis — [...]. — O Sacramento é realmente uma ilha, fica no Mar das Caraíbas, foi descoberto em 1525 por um dos capitães do conquistador espanhol Francisco Fernando de Córdoba, um certo Leandro García Escala, que fundou Puerto Esmeralda na costa noroeste da ilha e mais tarde Cerro Hermoso, no platô central. Mas a história do puma fulvo que montava guarda à boca duma mina de prata e só devorava os espanhóis, ao passo que poupava os nativos, cujas mãos lambia, não é mais verdadeira do que a da loba que amamentou Rômulo e Remo. [...]”.  

 

Uma vez mais, diante do exposto pelo seu interlocutor, a rapariga evoca o fato de ter lido sobre o tema, em livro emprestado por um outro membro daquela mesma embaixada, procurando assim, validar a fonte que utilizara, construída sobre um mito, conforme lhe garante Ortega. É precisamente no que respeita ao seu excesso de confiança nas fontes que repousa toda a crítica desenvolvida por Pablo Ortega, às proposições  históricas apresentadas pela jovem historiadora da América Latina, que se deixara envolver pelas suas fontes, sem submetê-las às necessárias críticas, que acabou por engolfar a sua pesquisa e a perturbar a elaboração das suas hipóteses, de tal modo que acabou por cometer erros de avaliação e, por conseguinte, aceitar como verazes, os historiares dali extraídos.

É nesta perspectiva que, em dado momento, ela se queixa de não ter encontrado nos jornais que pesquisara do Sacramento, a informação que Pablo lhe dera durante a exposição que desenvolvia sobre a História do seu País, dando conta que o governo sacramentenho solicitara ao governo norte-americano, que lhe enviasse corpos de fuzileiros para combater um certo Juan Balsa, tido como um bandoleiro que precisava ser contido, uma vez que o exército local não possuía capacidade de combate para tanto. A senhorita Doremus, em defesa do seu desconhecimento da informação que acabava de receber, retruca o seu interlocutor, afirmando “— Não encontrei em nenhum dos jornais de Cerro Hermoso ou Puerto Esmeralda qualquer referência ao fato de o Governo sacramentenho ter pedido a intervenção dos nossos fuzileiros especificamente para perseguir e capturar Juan Balsa e seus companheiros”. 

Em resposta, Ortega lhe dera uma lição de como o pesquisador não deve proceder, ao examinar as fontes que estão ao seu dispor, sem que delas desconfie, por todo o tempo em que as esteja examinando, buscando sempre estabelecer confrontos que lhes assegure não estar se deixando enganar por elas. E postula o secretário da embaixada da República do Sacramento:

 

“— Claro que não. Uma notícia como essa poderia perturbar o mundo de Don Antonio María e da sua gentil ”corte” e por outro lado equivaleria a uma constrangedora confissão pública de impotência da parte do Exército Nacional. Noticiou-se apenas que o Governo de Chamorro havia dado permissão a um batalhão de soldados da amiga República norte-americana para fazer manobras de desembarque num certo ponto do território nacional”.

 

Mesmo que aquela mestranda em História da América Latina tivesse visto nos jornais que pesquisara – e ela apresenta um grupo deles, situados em ao menos duas das principais cidades daquele país caribenho, inclusive, os da sua capital – alguma notícia, do modo como fora descrita por Ortega, ela sequer desconfiara das fontes e, cravara, conforme a sua interpelação ao interlocutor, que não houvera intervenção norte americana, nas ações de combate à guerrilha de Juan Balsa. Ou seja, o pesquisador que se embate na tarefa de desenvolver alguma investigação histórica, não pode se deixar levar de roldão pelas suas fontes, sob pena de ter um trabalho historiográfico fragilizado e desancado por leitores argutos e/ou examinadores atentos aos caminhos percorridos pelo processo de execução da pesquisa histórica.

 

Alagoinhas – 20 de setembro de 2026 –último domingo de inverno brasileiro.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com – www.historias-e-memorias.blogspot.com 

domingo, 13 de setembro de 2026

NACOS DE LITERATURA – ALGUMAS DIGRESSÕES – IX.

 

Glenda Doremus – “a República do Sacramento” em “um estudo interpretativo”. – Parte I.

 

Ao ler o título do arrazoado que ora tem diante de si, o arguto leitor já se deve ter dado conta que este escrevedor pretende continuar discorrendo sobre algumas passagens do livro “O Senhor Embaixador”, publicado em 1965, escrito pelo gaúcho Érico Veríssimo (1905-1975), que tem por finalidade estabelecer algumas relações entre a literatura e a História. Tal relação se estabelece por meio da compreensão que a literatura oferece ao historiador a oportunidade de apreender uma realidade dada, através das inserções em paisagens que podem ser encontradas em espaços sociais e geográficos onde se desenrola o enredo, personalidades, hábitos e idiossincrasias inerentes aos diversos personagens envolvidos nas tramas tecidas pelo autor, bem como, é possível depreender alguns dos elementos econômicos e sociais presentes no tempo em que o construto textual se insere.

Com tais considerações esboçadas, já se salientou aqui que a construção literária ora em exame, se dá no espaço territorial norte-americano, na cidade que foi estabelecida como a sua capital; no tempo que medeia entre a primavera e o outono de 1959, tendo a Revolução cubana como pano de fundo, visto que, conforme o leitor vai se aprofundando no exame da obra, acaba por ser evocada como um azorrague que poderá açoitar a América Latina com os seus efeitos “nefastos”, portanto, servindo de justificativa para o descortinar de intervenções no curso das democracias, para que não sejam multiplicadas as Cubas por todo o continente.

Antes de continuar a discorrer sobre o exposto, não se pode deixar de observar que, José Mário, aquele leitor voraz que há pelo menos cinquenta anos tivera a aludida obra sob os seus dedos, não o pudera compreender sob a perspectiva acima levantada, visto que, conforme já se disse, ele não possuía outras leituras que o pudessem ajudar na compreensão daquilo que fora proposto por Veríssimo, quando anuncia aos seus leitores que o pai da estudante da “Georgetown University”, considerava com uma grande dose de desprezo, a opção que ela fizera por estudar aquela “[...] tolice de História da América  Latina.[...]”. Fácil é depreender que José Mário sequer atinava para a existência de uma “América Latina” e, mais: ele nem mesmo entendia haver uma outra América, que não a do Norte, aquela mesma que era propagandeada pelos meios de comunicação a que ele tinha acesso; aquela que era retratada pelas transmissões radiofônicas que lhe chegavam através das ondas curtas de seus receptores de rádio – financiadas pelo governo de Washington, no auge da “Guerra Fria” e, que então não lhe era dado conhecer –, “A Voz da América”, cuja programação era produzida e direcionada tanto para o Brasil e os demais países de fala hispânica, quanto para o continente africano, visando levar os “bons” augúrios da República, do progresso econômico industrial e, principalmente, o democrático modo de ser Norte-americano, em detrimento de uma propaganda “socialista” soviética, que aliás, todos teriam o dever de temer e combater.

Para ilustrar o que acima foi postulado, Veríssimo apresenta ao leitor, por meio de uma confissão feita por Don Dionísio ao seu filho Pablo Ortega, quando lhe segreda a razão pela qual apoiava o governo sanguinário e corrupto de Juventino Carrera. Inicialmente, Veríssimo entrega ao leitor, o desabafo daquele homem, ao seu filho que, por sua insistência e chantagem materna, ocupava um lugar de secretário da embaixada do Sacramento em paris, ao lhe assegurar que:

“[...]. –” Será preciso que eu te diga que quando sou obrigado a me aproximar do Generalíssimo, fico vermelho de vergonha e sinto ganas de tapar o nariz? Espero que não me julgues tão ingênuo ou desonesto a ponto de apoiar politicamente esse homem porque o considero um Presidente ideal. [...].”. E o interlocutor de Pablo Ortega prossegue:

 

“[...]. “Fica sabendo duma coisa, meu filho: se eu o tolero é porque no momento ele é o menor de dois males. Desgraçadamente, a alternativa para a situação que temos agora no Sacramento seria o comunismo, e isso significaria o fim de todos os valores espirituais que prezamos, enfim, um regime ateu que expulsaria do país nossos sacerdotes, queimaria nossos templos, tirando-nos o direito de adorar Deus à nossa maneira e de criar nossos filhos e netos como bons cristãos e não como robôs sem alma a serviço dum Estado totalitário”. [...].

 

Abrindo-se aqui uns pequenos parêntesis para uma rápida consideração sobre uma parte do discurso entabulado por Don Dionísio, não estavam tais palavras sempre presentes nos jornais, nos rádios e nas televisões brasileiras, sobretudo, entre os anos de 1954 e 1964? Não foram aqueles os discursos que feitos com veemência e tom inflamado, movimentaram as elites brasileiras e por meio deles, não instaram as forças armadas e civis outros que detinham algum poder, no sentido de dar um golpe visando interromper o curso institucional da República no País, sob o pretexto de “combater” um comunismo exatamente caracterizado como o fora pelo ancião sacramentenha? Não teria sido esta a semente do anticomunismo que até o presente tem dado os seus frutos, renomeados para “antipetismo”?

 

Mas, retome-se a confissão que Don Dionísio Murat, segredava ao ouvido do seu filho. E, ao que parece, naquela parte do enunciado, ele coloca a razão precípua das suas preocupações. Conforme Veríssimo apresenta ao seu leitor, o confidente, de si para consigo e, alimentado pelo modo de pensar que apresentara no início do seu arrazoar, temia ser expropriado da sua condição de grande proprietário de latifúndios, o que seria para ele um desastre ainda maior do que aquele indicado nas suas primeiras palavras. Siga-se, portanto, o seu falar que, saliente-se, não era o de um indivíduo isolado, mas, sim, o falar de uma elite social, açoitada pelo medo difundido pelos artífices de uma massiva propaganda que visava, em última análise, respaldar as inúmeras intervenções perpetradas em toda a América Latina pela “democracia” estadunidense. Diz ele que “[...]. ”Seríamos também despojados das terras que nossos antepassados, desde o século XVII, regaram com seu suor, suas lágrimas e seu sangue”. [...].”.

Portanto, a senhorita Glenda Doremus confia o seu texto dissertativo sobre a História da República do Sacramento, para ser examinado e comentado precisamente por Pablo Ortega Y Murat, de quem espera receber uma devolutiva sobre aquilo que pesquisara, estudara e escrevera. Embora não se tratasse de um acadêmico investido de credenciais que o colocasse em condições institucionais para julgar o trabalho da rapariga, mas sim, se tratasse de alguém que vivera o processo histórico por ela investigado, a sua apreciação sobre o que leu naquelas páginas, acabaria por solapar a já frágil confiança daquela estudante, sobre aquilo que produzira e que pretendia levar à banca examinadora, ao findar aquele ano letivo. No entanto, como já vão avançadas estas considerações, nos próximos arrazoares se procurará discorrer sobre o encontro entre eles para que pudessem falar sobre o texto em apreço. Por ora, basta apontar que a sua história da América Latina, que teria como ponto de partida a República do Sacramento, àquela altura do final da década de 1950, já destoava dos paradigmas teóricos e metodológicos sobre os quais a pesquisa e o fazer histórico desenvolviam as suas análises e as suas reflexões.

 

Alagoinhas – 13 de setembro de 2026 – inverno brasileiro

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com – www.historias-e-memorias.blogspot.com 

domingo, 6 de setembro de 2026

NACOS DE LITERATURA – ALGUMAS DIGRESSÕES – VIII.

NACOS DE LITERATURA – ALGUMAS DIGRESSÕES – VIII.

 

Vivanco, entre Passional e “Subversivo”: uma bala encravada na escada forja o “bom” pretexto para o golpe. – Parte IV.

 

Há algumas semanas, este autodenominado cronista tem procurado apontar para algumas possibilidades de se apreender e compreender a história através de leitura e exame de obras literárias e, em alguns casos bem específicos, tomar uma obra ou um conjunto delas, como fonte para a pesquisa histórica. Intentando argumentar o postulado tão rapidamente alinhavado, ele cogita percorrer algumas delas, ainda que resumidamente, tomando em conta as dificuldades enfrentadas por José Mário para se desprender dos textos e se imiscuir nos contextos, tanto no que se refere ao livro que tinha em mãos, quanto no que se refere ao tempo histórico e ao espaço social em que fora forjado o enredo desenvolvido pelo escritor que, no caso ora em exame, é o gaúcho Érico Veríssimo (1905-1975). Considerando a escassez de ferramentas com as quais melhor pudesse alcançar os propósitos do literato ao tecer a sua trama, José Mário acabava por concentrar a sua atenção em algumas árvores, sobretudo, aquelas mais frondosas ou frutíferas, sem conseguir perceber a floresta como um todo, com o seu complexo cipoal de possibilidades, a sua diversidade de movimentos propiciados pela rica fauna a ela relacionada.

Conforme já o arguto leitor tem notado, este escrevedor está há quatro domingos estagnado no ponto em que Veríssimo demonstra aos leitores de “O Senhor Embaixador”, as inquietações de Juventino Carrera em relação à sua permanência à frente da República do Sacramento e, portanto, os seus intentos de produzir um cenário que justificasse a ruptura institucional que entendia precisava perpetrar por meio de um golpe de Estado, que abrisse as portas para uma terceira reeleição, com o fito de “salvar” o seu País de uma “oligarquia” formada por proprietários rurais que queriam vê-lo pelas costas. Mas, de acordo com o que escrevera o Presidente da República do Sacramento para o seu Embaixador em Washington, o seu desejado golpe de Estado precisava ser justificável perante a comunidade internacional em geral e, à democracia Norte-Americana, em particular. E, tanto ali, quanto alhures, a justificativa estava em “assustar” os Estados Unidos, indicando que o golpe era necessário para conter uma horda de comunistas que estaria pronta para promover a sovietização da América Latina. Em pleno curso da chamada “Guerra Fria”, o Presidente sacramentenho e o seu Embaixador, ainda de acordo com o escrito do primeiro e com as falas do segundo ao adido militar, estavam certos de que o governo norte-americano, a Organização dos Estados Americanos, a Organização das Nações Unidas e, por fim, o mundo quase todo entenderiam o grande esforço que aquele País faria para deter o comunismo, confinando-o a Ilha onde Fidel Castro fizera a  Revolução que derrubou Fulgêncio Batista, há menos de um ano, do momento em que Carrera escrevera para o seu diplomata.

Note-se de passagem, que aquela justificativa se tornara a pedra de toque de todos os golpes de Estado levados à cabo em toda a América Latina, principalmente, entre as décadas de 1960 e 1970 e, as ditaduras civis-militares deles resultantes. Parlamentares, jornalistas, juristas, entidades civis e empresariais em toda a América de fala latina, clamavam aos militares que contivessem o comunismo que ameaçava a “Democracia”, mas, sobretudo, diziam ameaçar a religião, a propriedade privada, em suma, o capitalismo e a hegemonia norte-americana. E José Mário, nada compreendia de tudo aquilo; estava ele apenas percorrendo aquelas páginas, sem atinar para a gravidade do tema que Veríssimo se dispunha a abordar, sem, contudo, poder dizer exatamente o que pretendia, sob pena de censura, tortura... Como já se apontou, faltava àquele leitor, o conhecimento histórico do momento em que o enredo foi tramado; faltava a ele os elementos externos ao texto que lhe propiciassem um entendimento completo daquilo que estava grafado naquelas mais de quatrocentas páginas.

Mas, volte-se ao edifício onde se encontrava instalada a embaixada da República do Sacramento. Afinal, Gabriel Heliodoro precisava encontrar “um bom pretexto” para que o seu compadre pudesse promover o golpe de Estado que tanto queria, para poder se impor como presidente da república por mais um período, pelo menos, de acordo com o que confessara, aquele necessário a “completar” o que começou. Ali, em um dos seus aposentos, o Embaixador se encontrava em uma atividade extra diplomática, tendo recebido para jantar e depois, para atividades de alcova, uma “loura” americana com quem, por um curto espaço de tempo, se envolvera em relação extraconjugal. Aquele envolvimento acabou por permitir a Gabriel Heliodoro a oportunidade para atender ao anseio de Juventino Carrera, ainda que indiretamente. Explique-se.

Ao chegar em Washington para o credenciamento junto ao governo Norte-Americano, o diplomata já tinha por amante a mulher de um de seus auxiliares que, ao que parece, não só sabia, como consentia, embora reclamasse sem êxito o seu quinhão em um dos vértices do triângulo. No entanto, ao ver o embaixador trocar, ainda que temporariamente o “posto” de amante antes ocupado pela consorte do Cônsul, para o entregar à “loura Americana”, ficou indignado com o infame e, intentou vingar-se do patife. Tendo pendulado entre matar-se para causar remorso à esposa ou ferir de morte o Embaixador, depois de muitos e confusos cogitares, Pancho Vivanco, enfim, decidiu-se pela segunda opção: mataria o desgraçado que infelicitava a sua pobre Rosália. No momento da consumação do crime, desejara apenas inutilizar aquela virilidade incontida, tendo procurado atirar uma bala em cada testículo e, partira para a concretização do intento, saindo de entre árvores onde se ocultara. Ao fazê-lo, perdera a pontaria: nem o matara, nem lhe extinguira a virilidade, pois, fora morto por um guarda noturno que rondava o quarteirão e já o tinha sob vigilância, pois ali estivera por um longo tempo, à espera da saída do embaixador que embarcaria a amante de volta para o seu lugar de residência.

Passados alguns poucos instantes do malogrado intento do Cônsul da República do Sacramento Francisco Vivanco, tendo se certificado de que não fora ferido, pois a bala mal lhe raspara o roupão que vestia e, ao examinar o local em que se dera a tentativa de crime passional, percebera que a bala ficara encravada na escada do patamar de entrada da embaixada e, logo compreendeu que, não poderia haver outra oportunidade mais favorável: transformaria aquilo em um atentado subversivo, perpetrado por um comunista infiltrado no corpo diplomático do País. Depois de tentar sem sucesso fazer o adido militar pensar no que poderia significar aquele corpo estendido à frente dos dois, Gabriel Heliodoro fê-lo saber de uma vez naquilo que já maquinara, enquanto o mandara chamar. Transcreva-se abaixo o diálogo entre os dois encarregados dos assuntos da República do Sacramento junto ao governo de Washington, conforme Veríssimo magistralmente apresenta aos seus leitores. Diz o texto:

 

“[...]. Aí está a oportunidade que esperávamos. Vivanco fazia parte duma conspiração esquerdista. O meu assassínio seria o sinal para começarem os atos de terrorismo e sabotagem no Sacramento, compreendes? — E as provas? — As provas, meu velho, nós, tu e eu, vamos fabricar agora. Telefona para um de teus tenentes que saiba escrever à máquina... ah! e que seja da mais absoluta confiança. [...]. [...]: — Prepararemos documentos que provem a ligação de Francisco Vivanco com os revolucionários. É preciso não esquecer que a polícia americana deve encontrar no bolso deste sujeito uma carta em que alguém comunica a alguém (inventa nomes, é a tua especialidade) que o Doutor Gris deixou os Estados Unidos secretamente, por vontade própria, e já está com os exilados sacramentenhos em Cuba. Precisamos duma lista grande de nomes de pessoas do Sacramento” implicadas” no movimento, para que nossa polícia possa começar as prisões... [...]”.

 

E Gabriel Heliodoro arremata triunfal:

 

 “[...]. Tu então não vês que vamos oferecer numa bandeja de ouro o pretexto que meu compadre Juventino está esperando para justificar aos olhos do mundo um novo Movimiento de Salvación Nacional? [...]. Gabriel Heliodoro acocorou-se ao pé do corpo de Vivanco e vasculhou-lhe os bolsos. Tirou deles um lenço úmido e sujo, uma nota de dólar enrolada como um cigarro e uma caixa de lápis de cor. Ergueu os olhos para o cúmplice e sorriu. — Acho que estas provas não são suficientes...  Tornou a pôr-se de pé. — Depois que tivermos todos os documentos prontos, meteremos a carta a respeito de Gris no bolso do defunto e guardaremos os outros” papéis comprometedores” na gaveta da mesa dele, na chancelaria. [...].”.

Conforme se pôde depreender, o “bom pretexto” para o golpe se lhe apresentara no gesto de um homem que preferia ver a sua mulher feliz no leito do amante, mesmo sendo ele rejeitado em suas tentativas de a levar para o leito marital, a vê-la de olhos inchados de tanto chorar por ter sido preterida, que habilmente Gabriel Heliodoro transformara em uma ação de “esquerdistas” para sabotar o seu País e nele implantar o comunismo. E os forjares de provas contra os opositores dos regimes ditatoriais que se foram instalando por toda a América Latina, teriam sido muito diferentes no Brasil, no Chile, na Bolívia, na Colômbia, na Argentina, entre outros espaços onde as perseguições, as torturas, os desaparecimentos e as mortes grassaram livremente? E, o que dizer dos impeachments perpetrados mais recentemente, bem como dos viciados processos que viriam a ser instaurados, sob o largo cobertor do “combate” à corrupção?

 

Alagoinhas – 06 de setembro de 2026 – inverno brasileiro.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com – www.historias-e-memorias.blogspot.com 

domingo, 30 de agosto de 2026

NACOS DE LITERATURA – ALGUMAS DIGRESSÕES – VII.

 

Vivanco, entre Passional e “Subversivo”: uma bala encravada na escada forja o “bom” pretexto para o golpe. – Parte III.

 

Os diletos e sagazes leitores destes tracejares virtuais, conforme  acompanham pacientemente o desenrolar da série iniciada há algumas semanas, durante a qual, este escrevedor intenta construir uma proposição que aponta para a possibilidade de se conhecer um dado momento histórico, a partir da leitura de obras literárias, principalmente, aquelas inscritas no âmbito do “realismo mágico” – mas, não só  nele – terão hoje diante de si, mais um esforço por meio do qual, se pretende reforçar o pressuposto aludido acima, que, saliente-se, não é novo, sobretudo, para um bom número de historiadores experientes e pesquisadores de boa cepa. No entanto, para este garatujador, aquela foi uma descoberta um tanto tardia, na medida em que, as suas circunstâncias de pesquisador cujo tema, quase não encontrara interlocutores, o que o compelira a buscar entender alguns dentre os muitos movimentos produzidos na sociedade em geral e, sobretudo, no seu lugar de ação e pertencimento, através de leituras que o pudessem conduzir a melhor compreender o mundo que, ora o inseria, ora o impelia para fora das suas margens.

Assim, diante da necessidade de prosseguir caminhando nas sendas da pesquisa, bem como, ao procurar desenvolver mais a contento o seu mister professoral, este garatujador buscou introduzir algumas obras literárias no escopo dos seus cursos de História da América e, passou a procurar conhecer autores que lhe pudessem auxiliar no desenvolvimento de suas pesquisas relacionadas com a História da cidade. Para tanto, ele provoca os seus argutos leitores, grande parte deles, muito bem situados neste campo do bem interpretar aquilo que lê, para que, ao buscar nas leituras feitas por José Mário, pouco afeito à tarefa interpretativa, possam inferir o quão difícil é, sobretudo, considerando-se as circunstâncias a ele inerentes, ler, interpretar e compreender um texto, independentemente do tempo e do lugar onde fora escrito e, por fim, elaborar uma compreensão razoável, daquilo que esteve sob a sua apreciação.

É neste sentido que se retoma a leitura da obra de Érico Veríssimo (1905-1975), O Senhor Embaixador, publicado em 1965, lida por José Mário em pelo menos três oportunidades, tendo sido a primeira delas Há cerca de 50 anos, em um trecho que já se vem analisando há duas semanas. Na última edição destes garatujares, a digressão foi interrompida no instante em que o “Senhor Embaixador” da República do Sacramento, concluía a leitura da missiva que recebera do seu “compadre” presidente – ou seria “presidente” compadre? –, quando era por ele instado a “desencavar aquele empréstimo” com que contava para realizar obras monumentais que o eternizassem junto ao seu povo e, que a ninguém mais desse conta daquela mensagem, se não ao seu adido militar, recomendando-lhe, além de absoluto segredo, que queimasse aquele papel – que, certamente, ele sabia que o poderia incriminar –, dizendo ter horror a papéis “que tivessem coisas escritas”, como diria mais tarde um presidente que sonhara ser o grande ditador do século XXI, em um outro país da América Latina e, que não era fictício, imaginado por aquele brilhante escritor, mas, caricaturado magistralmente por outros.

Assim, ao acabar de ler a “carta confidencial” a ele dirigida por Juventino Carrera, Veríssimo informa que “A carta deixou Gabriel Heliodoro excitado. Havia muito suspeitava daquela ”revolução branca” comandada por Ignacio Allende, Ministro do Interior, com a finalidade de evitar a reeleição de Carrera e impor-lhe um candidato das chamadas ”elites sacramentenhas”. E o Department of State e o arcebispo estavam no jogo. [...].”.

Cumprindo rigorosamente o que lhe fora instruído pelo seu presidente, o “Senhor Embaixador” chama o adido militar ao seu gabinete para dar-lhe conhecimento da mensagem por ele recebida e, diante da lentidão do militar ao ler a carta, da resposta que parecera pouco convincente ao Embaixador, este, depois de lançar algumas perguntas para as quais já possuía as respostas, arremata do modo como Veríssimo destaca:

 

“[...]. A solução verdadeira seria um golpe de Estado. Palavra, tenho vontade de tomar o avião amanhã para Cerro Hermoso e ir sacudir aquele Ministério, aquele Congresso, chamar aquela gente à razão. Mas tu sabes, não posso abandonar essas negociações do empréstimo... Já tenho audiência marcada no Departamento de Estado, embora agora eu desconfie que esses gringos vão nos cozinhar em água fria... [...].”.

Mas, o Adido Militar também possuía um papel confidencial”, “confidencialíssimo” para compartilhar com o Embaixador, que, ao receber, logo passou a ler e aqui, será integralmente transcrito, para que o leitor tenha a dimensão do modo como os golpes eram urdidos – e, certamente, ainda o são –, quer nos governos ditatoriais já estabelecidos, quer nos meios que pretendam que seja derrubado um governo democraticamente constituído. Assim se lê no documento, ora em mãos do Embaixador:

“Temos razões para acreditar que o Dr. Leonardo Gris é o centro, aí em Washington, duma conspiração que visa a invasão da nossa ilha e o levante de tropas federais bem como de camponeses em todo o território nacional. É imprescindível e urgente descobrir não só os planos desse movimento subversivo como também o nome das pessoas com quem os revolucionários contam aqui no Sacramento para atos de sabotagem e terrorismo e para pegar em armas ao primeiro sinal. A melhor maneira de conseguir o que queremos é entrar no apartamento de Gris e revistar todos os seus papéis. Já que isso não se pode fazer dentro da lei, que se faça fora dela. Recomendamos o máximo cuidado na operação para evitar complicações com as autoridades americanas.”. 

Conforme se pode notar, o governo da República do Sacramento buscava encontrar aquele “bom pretexto” para o golpe, não só junto ao seu representante legal na capital norte-americana, bem  como, procurava acionar o seu adido militar, com o fito de neutralizar um dos seus mais ferrenhos opositores, então, exilado e, em franca produção de artigos em jornais, atividades conferencistas nas Universidades Norte-Americanas, denunciando os desmandos e as arbitrariedades perpetradas no seu País de origem. Mas, faz-se necessário salientar, ainda uma vez mais, que José Mário não conseguia interpretar assim, toda aquela movimentação dos personagens da trama a ele apresentada por Érico Veríssimo, visto não ter ele quaisquer conhecimentos outros do processo histórico, o que lhe dificultava a compreensão do que lia, para além de uma ficção caricatural, cujas tramas foram inteligentemente enredadas pelo seu autor.

Mas, no que pensava o Embaixador, no que respeitava a encontrar um “bom pretexto” para o golpe, conforme lhe fora dito pelo seu compadre Carrera? Ele, pelo menos em tese, não concordara com a proposta obtida pelo adido militar da República do Sacramento, pois, conforme se leu na missiva presidencial que lera antes, Leonardo Gris, houvera sido citado como “[...] o teu amigo [...]”. Então: o que fazer para alcançar encontrar o tão desejado “bom pretexto” para o golpe, a ser perpetrado antes das eleições, nas quais, Juventino Carrera não mais poderia concorrer? Como já vão longas as linhas destes arrazoares dominicais, será preciso aguardar mais um pouco, para que tais perguntas possam ser desenvolvidas na próxima postagem.

 

Alagoinhas – 30 de agosto de 2026 – inverno brasileiro.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com  - www.historias-e-e-memorias.blogspot.com 

domingo, 23 de agosto de 2026

NACOS DE LITERATURA – ALGUMAS DIGRESSÕES – VI.

 

Vivanco, entre Passional e “Subversivo”: uma bala encravada na escada forja o “bom” pretexto para o golpe. – Parte II.

 

Em mais uma empreitada no campo da História, percebida a partir da literatura, chega-se ao venerando e paciente leitor deste espaço virtual, para discorrer mais um pouco sobre “O Senhor Embaixador”, livro que José Mário tivera nas mãos por pelo menos três vezes entre 1975 e os anos que se seguiram, quando tivera curso o seu processo de escolarização. Ele, no entanto, não conseguira compreender a proposta do autor daquilo que mais tarde se poderia denominar de “Romance Histórico”, pelas razões já esboçadas nos garatujares anteriores, acrescendo-se ainda, talvez, a sua dificuldade de abstração, inerente, saliente-se, ao seu processo geral de formação propedêutica, desprovido de disciplinas chave para desenvolver o cogitar crítico do mundo ao seu redor. Disto, crê-se, resultou em um baixo nível de capacidade reflexiva, visto não ter ele interlocuções com leitores mais avançados em termos de acesso à outras obras que lhes pudessem esclarecer as dúvidas de interpretação que se lhe assomavam ao espírito. Não tendo com quem dialogar acerca do que lia, do modo como lia e, principalmente, da possibilidade de haver outros modos de compreender o que lia, acabava por ficar com entendimento superficial das obras que lhe caíam nas mãos, portanto, impedindo o avançar da interpretação, para além do pensar ali exposto.

Desta maneira, José Mário, por esta e outras razões, não associava o conjunto de textos que acabara de ler, com a mensagem que nele se pretendia passar. Além disto, como já se indicou no escrevinhar anterior, o seu total desconhecimento da História, não só do Brasil e da Bahia em que vivia os seus anos formativos, como também da América Latina em que grassavam as ditaduras, as rupturas institucionais, os governos civis e militares que não tinham as suas populações na devida conta, mas, ao contrário, os interesses pessoais e das elites a que pertenciam e/ou representavam; os conglomerados econômicos nacionais e, sobretudo, os internacionais, eram considerados em seus desígnios e, de acordo com o que ditavam para controlar o poder político, a ordem social, o sistema econômico vigente, que, de um modo geral, submetia os “de baixo”, à exploração que alimentava o insaciável modo de produção capitalista, ferozmente defendido por aqueles regimes, por aquelas ditaduras, enfim, por aqueles que se alimentavam da fome e da miséria de grande parte dos habitantes das plagas latino-americanas.

Conforme se apontou nos arrazoares apresentados na postagem anterior, ao desenvolver algumas digressões em torno do tratado literário entabulado pelo escritor gaúcho Érico Veríssimo (1905-1975) publicado em 1965, em que tece uma trama na qual pretendera dar a conhecer aos seus leitores, alguns enredos que, aqui, ali e alhures, se faziam entrelaçar no viver cotidiano da quase totalidade dos Estados Latino-americanos, sobretudo, entre as décadas de 1950 e 1980, em carta dirigida ao seu embaixador nos Estados Unidos da América, Juventino Carrera confabula com o seu “compadre” sobre a sua necessidade de encontrar um “bom” pretexto para “[...] fechar o Congresso e decretar Estado de Sítio, [...]”, que abriria a brecha constitucional que precisava para se fazer reeleger à presidência pela terceira vez, sem contrariar o governo de Washington, nem os demais Estados membros da Organização dos Estados Americanos. Observe-se, de passagem, que ao “generalíssimo”, pouco se lhe dava contrariar aqueles que por ele eram governados, dentro dos seus limites territoriais.  Mas, ainda que de modo retórico e protocolar, dizia se importar com a opinião mundial, sobretudo a de Washington, de quem ansiava pelos vultosos dólares que pretendia lhe fossem emprestados, que permitiriam construir a sua “Transacramentenha”, que se lhe serviria como um monumento para celebrar a grandeza da sua administração. Isto posto, retome-se um pouco mais do corolário de queixas do compadre presidente, ao compadre embaixador.

Continuando a leitura da carta recebida do presidente da República do Sacramento, Gabriel Heliodoro prossegue a percorrer aquela missiva presidencial, talvez, sorvendo cada palavra ali contida e, quiçá, maquinando em seu cérebro afeito às operações de força, qual resposta lhe daria, logo que terminasse de a examinar. Informa o missivista que, no dia anterior à escrita daquela carta, houvera almoçado com o embaixador Norte-Americano e com o Arcebispo local. Em seguida, diz do que tratara e o que pensara dos seus resultados.

“[...]. Sondei o gringo, que tem ar e riso de bobo, mas é matreiro, e cheguei à conclusão que ele também quer me ver pelas costas. Perguntei a Don Pánfilo, sem mais rodeios, qual era a sua opinião sobre a emenda. O homem fez um discurso muito bonito, com aquela habilidade e aquela elegância que conheces, mas desconversou. [...].”.

 

E, com a naturalidade inerente aos ditadores latino-americanos de anteontem, de ontem e de sempre, Juventino Carrera sentencia:

“[...]. Assim sendo, compadre, o remédio é esperar que os agitadores botem a cabeça de fora para agirmos. Se não botarem, antes de novembro, seremos obrigados a inventar um novo plano subversivo e assustar mais uma vez com o fantasma do comunismo tanto o Departamento de Estado como essa classe que teu” amigo” Gris, esse crápula apátrida, chama de “oligarquia rural”. O diabo é que qualquer comoção político-social nesta hora poderá prejudicar esse negócio do empréstimo. [...].”.

E prossegue elogioso ao seu fiel escudeiro, transformado em diplomata:

“[...]. Às vezes me arrependo de ter-te mandado para a nossa embaixada em Washington. És dos poucos homens de cuja lealdade e amizade não duvido nem nunca duvidei. Mas vai ficando por aí, por enquanto, e trata de desencavar esse empréstimo, que é vital para nossa terra. Quanto ao mais, vamos deixar o barco correr. [...].”.

Depois de enfatizar o seu sonho de grandeza em relação à posteridade, arremata pedindo que o seu embaixador envie com a maior brevidade a sua opinião sobre tudo aquilo e, dizendo confiar na sua “boa estrela”, assegura que “[...]. Antes de novembro, encontraremos um bom pretexto para o golpe. [...].”

No entanto, antes de seguir adiante no propósito de examinar os desdobramentos da busca pelo “bom pretexto para o golpe”, faz-se necessário observar algumas elaborações encontradas na mensagem dirigida pelo presidente da República do Sacramento, ao seu compadre e leal embaixador em Washington. E, por conseguinte, aquelas considerações acabaram saltando para as páginas da aludida obra, saídas que foram dos pensares de quantos foram marcados pelo “macartismo”, ideário que marcou a História política do continente, a partir de 1947, irradiando-se de Washington para praticamente, todo o mundo ocidental. Embora à época que José Mário fizera passar sob os seus dedos as mais de quatrocentas páginas de O Senhor Embaixador, ele não houvesse tido a compreensão histórica do enredo magistralmente construído por Veríssimo, pensando se tratar de uma ficção literária inocente e vaga, ali, conforme o arguto leitor destas linhas já percebeu, a obra está eivada de expressões e construções frasais que circulavam abundantemente nos círculos diplomáticos, militares, governamentais e financeiros de toda a América, mormente, aquela situada entre o Canadá e o México. De acordo com os agora abundantes estudos e pesquisas dedicados à compreensão dos inúmeros golpes de Estado, perpetrados sobretudo, nos Países da América Central e da América do Sul, direta ou indiretamente patrocinados e/ou apoiados pelos governos norte-americanos, no bojo da “Guerra Fria”, elaborações como “Subversivos”, “agitadores de esquerda”, ensejaram ações militares ou não, forjadas e levadas à cabo sob a égide daquilo que Juventino Carrera pretendia habilmente fazer tremer, tanto o Departamento de Estado quanto as elites dominantes no seu País e fora dele: “o fantasma do comunismo”. Impressiona, sobretudo, àquele leitor mais atento, o fato daquele presidente que se queria eternizar à frente do seu País, admitir que, o tal “comunismo” que tanto temiam os governos da América, nada mais era do que um “fantasma”, cuja circulação não se limitava às elites sociais e econômicas; ele também circulava entre aqueles desprovidos de quaisquer bens materiais. Aquele “fantasma” fazia grassar um anticomunismo – que, saliente-se, persiste ainda agora, quando estas linhas estão sendo escritas –, incutindo em toda a população, mesmo naquela parcela que nada tem de seu, muitas vezes, nem o básico para sobreviver, o medo de lhe ser tirado, mesmo aquilo que não possui. Imagine-se, a ideia estapafúrdia de se cobrar mais impostos daqueles que formam uma elite endinheirada, que possuem bens sempre avaliados na casa dos milhões... Que absurdo, gritam aqueles que mal dispõe de uma renda pouco superior ao salário recebido pela maioria dos viventes... Cobrar IPVA de iates, helicóptero, avião executivo... Inaceitável! vocifera o proprietário de um Fiat 147, de 1980, ou de um fusca 1300, saído da fábrica em 1976.

 

Alagoinhas – 23 de agosto de 2026 – inverno brasileiro.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com – www.historias-e-memorias.blogspot.com 

domingo, 16 de agosto de 2026

NACOS DE LITERATURA – ALGUMAS DIGRESSÕES – V.

 

Vivanco, entre Passional e “Subversivo”: uma bala encravada na escada forja o bom pretexto para o golpe. – Parte I.

 

Em mais uma incursão nas leituras que José Mário fizera de algumas obras literárias no curso do seu processo formativo escolar e acadêmico, os arrazoares que ora o arguto leitor tem diante de si, pretende aprofundar um pouco mais, o seu transitar pela obra “O Senhor Embaixador”, publicada em 1965 – portanto, logo nos primeiros movimentos restritivos e repressivos da Ditadura Militar, perpetrada no Brasil em abril do ano anterior –, saída da lavra do gaúcho Érico Veríssimo (1905-1975). Já consagrado por uma ampla produção literária, reconhecido como um talentoso construtor de personagens e cenários, em “O Senhor Embaixador”, ele desenvolve uma trama por meio da qual faz emergir uma América Latina caracterizada por ditaduras, revoluções e golpes; trapaças, patifarias e corrupções, que estava longe de realmente existir, nos conhecimentos escolares daquele jovem que o lia entre 1975 e 1976, pouco mais de dez anos após a publicação daquele material que lhe passara sob os dedos. Àquela altura, o conhecimento da História, fora reduzido aos “Estudos Sociais”, o que, além daqueles professores não terem formação propedêutica para o ensino daquela disciplina esdrúxula – algum tempo depois, se inventou o curso para a sua legitimação –, grande parte deles era  comprometida com o regime militar e/ou coagida por ele, limitando-se a fazer repetir os “ensinos” contidos no material didático uniformemente distribuídos nas escolas brasileiras, independentemente da sua localização regional, sem quaisquer análises e/ou reflexões, que permitisse aos alunos levantar algum tipo de questionamento. Afinal, tudo estava bem; o País crescia e ia “pra frente”; caminhava sob o bordão “levante a cabeça, pra frente é que se anda”, vociferado dia após dia pelo rádio e pelas pessoas que aderiram ou foram coagidos a tal. Logo, José Mário não poderia imaginar que aquela América Latina desenhada por Veríssimo, em alguma hipótese, fosse verossímil.

Conforme já é cediço de quantos acompanham estes garatujares, José Mário fizera a primeira leitura daquela obra, quando contava pouco mais de quinze anos; quando ainda se encontrava cursando os primeiros anos daquilo que então se denominava primeiro grau; quando ainda não havia adquirido o instrumental crítico necessário e suficiente para compreender plena e adequadamente as linhas e, principalmente, as entrelinhas que foram ali delineadas por Veríssimo, visto que ele pretendia, diferentemente do que pensava aquele seu leitor voraz – não divertir ou entreter aqueles que se dispusessem a ler as suas mais de quatrocentas páginas. Mas, ao contrário, o que Veríssimo pretendia, salvo um juízo mais abalizado, era dar a conhecer uma realidade que os meios de comunicação de maior alcance não queriam e/ou os seus proprietários/controladores, não se interessavam em apresentar ao “venerável” público, quer fosse formado por leitores de revistas e jornais, ouvintes de rádio ou telespectadores, estes últimos, ainda em processo de formação e de consolidação, pois, as emissoras de televisão brasileiras, ainda engatinhavam, no instante em que se desenvolvem os fatos históricos romanceados na aludida obra literária. Malgrado o esforço envidado por aqueles que se aboletaram nas esferas de poder mediante a execução de golpes cívico militares e o estabelecimento de censuras que procuravam, sobretudo, controlar a produção artística, cultural e/ou literária, um bom número de autores e produtores, em diversos setores da cultura e das artes, inclusive, a arte de escrever, inundaram as livrarias e as estantes de toda a América Latina, denunciando os muitos desmandos, tanto os  dos seus ditadores, quanto os daqueles que se apresentavam como democratas; tanto os que se queriam plenipotenciários, quanto daqueles que se apresentavam como “patrulhas” de uma América Latina que queriam sob a sua “guarda”, a fim de pretensamente protegê-la de uma imaginada/indesejada aproximação ao comunismo soviético. Tal acabou vindo a acontecer, quando Cuba, algum tempo depois da revolução que defenestrou Fulgêncio Batista e caterva, logrou se aproximar da tão temida URSS socialista, o que resultou em um maior patrulhamento e uma verdadeira paranoia dos norte-americanos – conforme se deu no início do século XIX, quando os proprietários de toda a América, diante da possibilidade de uma ruptura com a metrópole europeia que os governava, temiam o Haiti, recém liberto da França. Mas, isto é papo para um outro momento. Por ora, volte-se ao caso da “República do Sacramento”, de onde ainda se poderá tirar algumas lições para o que interessa na construção desta série.

Tendo sido credenciado junto ao governo Norte-Americano, o novo embaixador da República do Sacramento, logo passou a trabalhar junto ao departamento de Estado, visando corresponder a razão pela qual fora enviado como representante do seu País. O “presidente” Juventino Carrera precisava obter um volume de recursos que lhe permitisse construir obras de infraestrutura que demarcasse a sua passagem pela condução do País e, melhor ainda, lhe permitisse pleitear mais um mandato, embora, uma Constituição por ele mesmo construída, vedasse tal intento. Assim, a “Transacramentenha” precisava ser levada à bom termo, antes que novembro chegasse e, com ele, aquelas eleições das quais o Generalíssimo Juventino Carrera não poderia se apresentar mais uma vez na condição de candidato.

Portanto, foi para obter o empréstimo junto aos financistas de Nova Yorque que permitisse a construção de uma estrada que, além de ligar as diversas regiões do País, desse ao seu presidente o cacife de que precisava para implementar a sua pretensão de continuar à frente do seu Estado, é que Gabriel Heliodoro, o seu compadre fiel, ali estava na elevada condição de embaixador, embora não fosse talhado para tal, conforme entendiam diplomatas de carreira que com ele tivera contato e, mesmo alguns de seus auxiliares, assim avaliavam, considerando embaixadores anteriores que por ali passaram. Seja como for, Veríssimo apresenta ao seu leitor, uma carta escrita pelo presidente Carrera, dirigida ao seu representante legal em Washington, a quem trata por “meu querido compadre” e, em tom ao mesmo tempo coloquial e confidencial: “[...], A situação aqui não anda boa. Como sabes, conforme determina a Constituição, temos de fazer eleições presidenciais em novembro deste ano. Pensei que estava preparado para entregar o Governo ao meu sucessor legal e retirar-me definitivamente para a minha granja de Los Plátanos, pois ando meio doente e muito cansado. [...]”. Afirma o missivista que “[...]. Infelizmente minha missão não está ainda cumprida, quero deixar pelo menos começadas as grandes obras da estrada transacramentenha, e terminados muitos outros empreendimentos que já iniciei. [...].”.

Aquele leitor que nada conhecia da história da América Latina, não pudera perceber que aquele palavrar do Generalíssimo sacramentenho, era o palavrar de grande parte daqueles que exerciam governos ditatoriais, como mais tarde veio a saber ser o caso de Leonidas Trujillo – aliás, nome que diversas vezes   aparece na trama de Veríssimo -, todas as vezes que o seu mandato se aproxima do fim legal e/ou se sente ameaçado, de alguma forma, pela oposição calada ou exilada. A tal respeito, observe-se o que diz Juventino Carrera ao seu fiel escudeiro. Na missiva aludida acima, ele diz não achar “[...] que nosso país esteja preparado para resistir às comoções dum pleito presidencial”. E, acrescenta um ditado popular, de origem hispânica e, provavelmente espalhado pela América Latina, quando diz que “o Diabo sabe muito mais por ser velho do que por ser diabo. E explica ao interlocutor, o motivo de ter usado aquele “dizem que”, asseverando que: “[...]. Pois este teu compadre, raposa velha, anda farejando algo no ar. Sinto uma certa inquietação não só na Universidade, entre professores e estudantes, como também nas ruas e até nas camadas mais altas da nossa sociedade.”  E, cada vez mais queixoso e desapontado, segue o missivista ao seu embaixador:

“[...]. Reuni anteontem o Ministério para indagar em que pé se encontrava a sugestão que fiz há tempos de encaminhar ao Congresso um projeto de emenda à Constituição que permita a minha segunda reeleição. Tinham-me garantido que a emenda seria aprovada até princípios de março último, o mais tardar. Estamos quase em maio e até agora, nada! O Ministro do Interior me disse que, na sua opinião, e na da maioria de seus companheiros de ministério, a discussão dessa emenda seria uma coisa perigosa, pois iria acirrar os ânimos e oferecer às esquerdas um pretexto para começar a agitação. Perdi as estribeiras e gritei um par de desaforos ao Allende, que ficou vermelho, baixou a cabeça, mas não disse palavra. Quando lhe perguntei, por pura ironia, se os ilustres ministros já tinham escolhido um candidato à minha sucessão, respondeu que sim. Imagina tu quem! O Doutor Ramón Tejera, Presidente do Supremo Tribunal! O Allende entrou numa lenga-lenga, disse que se trata dum cidadão culto e íntegro, figura respeitável de magistrado, homem apartidário, capaz de conquistar a confiança da maioria do eleitorado. Perdi de novo a paciência e berrei:” O Doutor Tejera pode ser, mas é candidato a um asilo de velhos! Tem quase oitenta anos. Vocês estão doidos!”. Ninguém reagiu. O que eles querem é um presidente-títere que esses fazendeiros, banqueiros e industriais possam manejar a seu bel-prazer. Sabem que comigo não podem fazer isso. Agora vejo que tinhas razão quando me dizias que estou cercado de gente desleal. [...]”.

Já se encaminhando para o final da mensagem, Juventino Carrera, em tom reflexivo, faz ao seu interlocutor uma pergunta retórica, pois, para ela, ele já possui uma resposta. Diz ele:

“[...]. Que providências tomar, então, para evitar que este país caia nas mãos dos comunistas ou dessa plutocracia sacramentenha que no fundo nunca me aceitou, nunca se conformou de ser governada por um homem de origem humilde como eu? O remédio, me parece, é um novo golpe de Estado. Conferenciei ontem sigilosamente com o Ministro da Guerra, que pensa como eu e me garante o apoio total e incondicional do Exército. Temos de agir antes de novembro, mas precisamos, como bem sabes, dum bom pretexto para fechar o Congresso e decretar o estado de sítio. [...]”.

 

Como já vai um tanto longa esta digressão, será preciso interrompê-la aqui, para retomar na próxima postagem, quando se pretende avançar em seu desenvolvimento. Porém, antes de concluir, não se poderá deixar de salientar que José Mário, embora lesse tudo aquilo com grande interesse, pouco sabia a respeito do que tratavam os dois compadres com tanta desenvoltura. Faltava-lhe o conhecimento da História, conhecimento que, aliás, já circulava timidamente em alguns meios acadêmicos, onde estudantes e artistas já conseguiam compreender bem o que se passava ao seu redor, a despeito da censura e do arbítrio, o que não se dava nos círculos escolares, ao menos, aqueles seus conhecidos, que, considere-se, não eram muitos e ainda menos, amplos.

 

Alagoinhas – 16 de agosto de 2026 – inverno brasileiro.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com – www.historias-e-memorias.blogspot.com