domingo, 1 de novembro de 2026

NACOS DE LITERATURA – ALGUMAS DIGRESSÕES – XVI.

 

Pablo Ortega Y Murat: entre a pressão familiar pela permanência e a pressão da consciência pela ruptura – I.

 

Em mais um feixe de digressões em torno da obra “O Senhor Embaixador” de Érico Veríssimo (1905-1975), publicada em 1965, portanto, pouco mais de um ano após a instauração da Ditadura Militar no Brasil, este escrevedor volta a convidar às pessoas que ora percorrem estas linhas, à atentar para mais uma porção de observações e reflexões, desta feita, tomando como referência para tanto, o personagem Pablo Ortega, secretário da representação diplomática da República do Sacramento, a quem caberia a tarefa de acompanhar o chefe da diplomacia em suas ações e atuações junto aos diversos departamentos e/ou instituições do governo norte-americano, no que tange à defesa dos interesses daquele pequeno país situado em algum canto do caribe ao qual servia e, como se não bastasse, foi a ele a quem coubera por escolha pessoal de Gabriel Heliodoro Alvarado, acompanhar o novo embaixador em sua entrega de credenciais ao presidente norte-americano. O que para uma parte dos que gravitavam no entorno do governo sacramentenho seria um privilégio servir aos interesses econômicos de seu país através da diplomacia, ainda que para tanto não fosse talhado, conforme se dizia a respeito de Gabriel Heliodoro que, ainda há pouco, entregara as suas credenciais junto à Casa Branca. No entanto, de acordo com o desenrolar da trama traçada por Veríssimo, não era assim que pensava Ortega y Murat. Para ele, além de ser um trabalho penoso, aquele de representar um governo corrupto e sanguinário, como ele dissera sem rodeios à Glenda  Doremus, na conversa que tivera com aquela georgiana na biblioteca da embaixada, um peso ainda maior, era ter como Embaixador aquele homem rude, a quem detestava, que apenas estaria ali pelo desígnio e vontade de Juventino Carrera, que o enviara para servir de seu porta-voz em Washington e, principalmente, para destravar um avultado empréstimo junto ao Departamento de Estado, que poderia lhe dar bons e duradouros frutos, dentre eles, a permanência à frente dos destinos do seu País, ainda que fosse por meio de alguma medida de exceção. Por precisar desempenhar o papel que lhe era imposto pelo dever inerente ao posto que ocupava, Pablo Ortega convivia com constantes dores de cabeça, o que o obrigava a lançar mão de aspirinas e, por vezes, buscar outras maneiras de mitigar aquela pressão que lhe corroía o ser.

Assim, conforme já se afirmou em postagens anteriores – e aqui se faz necessário reforçar –,nesta obra ainda pouco explorada, sobretudo, pelos historiadores em suas elaborações teóricas sobre o modo como a história pode ser apreendida e/ou compreendida por meio da produção literária, Veríssimo emprega uma maneira de fazer saber ao mundo, como se dava o processo de construir e manter ditaduras, sobretudo, à sombra de um imaginado perigo comunista, explorado como um fantasma sempre presente no imaginário das pessoas que estiveram à frente de grande parte dos movimentos instauradores de todas as ditaduras vigentes no continente, entre as décadas de 1950 e 1980 - inclusive a brasileira, saliente-se –, por vezes, sob a instância dos setores econômicos e sociais, tidos por conservadores dos valores religiosos, da “moral” e dos “bons” costumes que o fantasma do comunismo ameaçava, que bem poderia se aproximar dos meios empregados por outros literatos, fazendo uso de construções cenográficas, psicológicas e sociológicas de personagens que, somente nas entrelinhas, poderiam ser  percebidos como sendo aqueles que estariam atuando na vida real de quaisquer rincões da América Latina. Conforme assevera Carlos Appel em seu prefácio à edição aqui utilizada,

“[...]. Conhecemos a história da República do Sacramento através do relato que Pablo Ortega faz a Glenda Doremus durante uma festa na Embaixada. É uma história comum e semelhante à das demais repúblicas ao sul dos Estados Unidos. Todas exibem as mesmas convulsões e falsas ideologias, [...]”.

Retome-se, pois, a conversa de Ortega com a senhorita Doremus, que se desenrolara enquanto corria o banquete oferecido pelo novo Embaixador sacramentenho, quando o secretário da embaixada explica à sua interlocutora, o quanto ela estava equivocada, ao tomar como verdadeiras e utilizar como fundamento de sua dissertação de mestrado, informações obtidas de “fontes” oficiais da ditadura liderada por Juventino Carrera. Depois de discorrer longa e criticamente sobre a dissertação que a mestranda deixara na chancelaria pedindo que ele lesse o que produzira, Ortega apontou diversos vícios e de condução da pesquisa e equívocos resultantes do modo como aceitara o corpus documental que lhe fora dado pela gente da embaixada e pela leitura acrítica que fizera, tendo embarcado nas diversas armadilhas que aquele material lhe fizera cair, cometendo por extensão, erros interpretativos, aceitando até mesmo lendas que, segundo Ortega, se assemelhavam àquela contada para explicar o surgimento de Roma. A mestranda caíra no lugar comum de considerar o governo que fora defenestrado pelo movimento que conduzira aquele que o considerara como uma “ditadura”, evidentemente, não se reconhecendo na mesma condição; ela aceitou sem maiores questionamentos, a narrativa proposta pelo regime que ora estava em vigência, como sendo o anterior um covil de corruptos e salteadores do erário do povo sacramentenho, enquanto que o que então se encontrava empoleirado à frente do País, se apresentava como justo em suas ações políticas e reto, no que respeitava ao trato com o povo.

Assim, de modo enfático e demonstrando não só conhecer a história do seu País, mas, apresentando àquela mestranda uma leitura histórica baseada em uma percepção crítica das fontes e, no uso de um corpus documental diversificado, Pablo Ortega arremata as suas impressões a cerca do trabalho da jovem estudante de história, ao assegurar que” [...]. Chegamos agora à parte de sua dissertação que considero fundamentalmente errada: aquela em que você afirma que o Governo Revolucionário foi justo e clemente para com os vencidos. Pura fantasia! [...]”. E o primeiro secretário da embaixada caribenha prossegue a sua análise:

 

“[...]. O Sacramento viveu pelo menos uma semana de terror, apesar de todos os protestos do Arcebispo Primaz. Criaram-se os famosos” tribunais revolucionários”, começaram os julgamentos sumários dos membros do Governo deposto e os fuzilamentos. Pelo menos durante três dias e três noites, Carrera permitiu que elementos do povo, embriagados de vitória e de rum, saqueassem a cidade, incendiassem as casas de alguns dos membros do Governo de Chamorro, violassem suas mulheres e filhas e linchassem o Chefe de Polícia, expondo depois seu corpo mutilado em praça pública... [...]”.

 

Prossegue o diplomata sacramentenho, procurando apontar qual a hipótese com a qual a mestranda trabalhara no desenvolvimento do seu tratado dissertativo, ao afirmar que:

“[...]. Se bem entendi seu trabalho, o que você pretende provar é que, governado por um ditador despótico e branco como Chamorro ou por um mestiço como Carrera, que você imagina um democrata, um país como o Sacramento dificilmente ou nunca poderá atingir sua maturidade política e uma ordem social e econômica próspera e estável pela simples razão de que seu povo é formado em sua maioria de elementos mestiços... Certo? [...]”.

Ao concordar com a assertiva proposta por Ortega, aquela mestranda recebe dele o contraponto àquele equívoco axiomático de sua proposição. Diz ele que a premissa está errada. Diante do que ouvira até ali, Glenda questiona o fato de estar ele servindo àquele governo corrupto e sanguinário, quando diz não compreender “[...]. Como é que um” liberal” como você, que sabe todas as podridões de seu Governo, está aqui em Washington a servir esse Governo? [...]”. Ao que Pablo Ortega responde “[...]. Decerto porque estou podre também. [...]. Com aquela resposta que Veríssimo coloca nos lábios do seu personagem, certamente, ele está apontando o mal-estar que Ortega y Murat vive a cerca do papel que precisa desempenhar enquanto membro do corpo diplomático do seu País e, aquilo que a sua consciência propõe, quando se encontra “sozinho a cismar”.

 

Alagoinhas – 01 de novembro de 2026 – primavera brasileira.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 25 de outubro de 2026

NACOS DE LITERATURA – ALGUMAS DIGRESSÕES – XV.

 

O Jornalista Bill Godkin: A História Imediata da República do Sacramento – Parte V.

 

De volta a este espaço para mais algumas digressões deste garatujador que, ainda alicerçadas em “O Senhor Embaixador”, publicada em 1965, conforme já se salientou, continua a tratar de uma das obras menos conhecidas ou comentadas do escritor gaúcho Érico Veríssimo (1905-1975) mas que, segundo entende quem escreve estas linhas, poderia muito bem ser arrolada entre as obras publicadas no mesmo período por García Márquez (1927-1914), Vargas Llosa (1936-2025), para citar apenas estes, que, conforme se pôde ler por ocasião da concessão do prêmio Nobel de Literatura a García Márquez, teria sido acertado em uma troca de cartas entre alguns literatos Latino-Americanos, que cada um deles escreveria uma obra que retratasse o “ditador” de plantão no seu País, dando a ele uma caracterização que ensejasse ser entendida pelos que viessem a tomar contato com aquele coquetel de obras, como sendo alguém descolado no tempo e no espaço, o que permitiria associar à figura de  quaisquer um dos ditadores, bem como à quaisquer ditaduras das muitas que marcaram a História da América Latina, além de ser uma maneira de driblar as censuras impostas pelos títeres de plantão em todo o continente, que, aliás, saliente-se, costumavam ser implacáveis.

Portanto, é no bojo desta produção literária que se pode encontrar obras como “O Outono do Patriarca” e “Cem anos de solidão” de García Márquez; “A Cidade e os Cachorros” e “A Festa do Bode” de Vargas Llosa; “Eu, O Supremo” de Augusto Roa Bastos (1917-2005), ”O Senhor Presidente”, de Miguel Ángel Asturias (1899-1974), entre outros, a este corolário de grande valor literário, conforme se vem defendendo aqui, poderia perfeitamente acrescentar “O Senhor Embaixador”, obra que vem dando material para a construção dos arrazoados que se vem trazendo ao arguto leitor que frequenta este espaço.

É assim que, por meio destas e de outras produções literárias que visam trazer à lume algumas representações da sociedade humana e, que apresentam ao leitor um cotidiano vivencial no qual o próprio leitor está inserido, embora conduzidas de modo ficcional,  e que, em grande medida, indica o viver de grupos sociais e em circunstâncias em que a sobrevivência é a pedra de toque de grande parte dos personagens envolvidos nas tramas magistralmente tecidas pelos seus autores, igualmente, elas podem servir ao pesquisador social em geral e ao Historiador em particular, como objetos para uma melhor compreensão do vivido e/ou como fontes a partir das quais possam ser postas e analisadas questões e produzidas hipóteses produzidas para um estudo dado.

Desta forma, a obra ora em análise, pelo seu estilo e considerando as características mais relevantes de alguns dos personagens que a compõem, permite ao examinador atento da trama desenvolvida por Veríssimo, perceber as diversas histórias que perpassam o continente, mormente, no período de tempo que vai do ano de 1947 – quando emerge o anticomunismo que até ali se mantinha latente entre os norte-americanos, sobretudo, entre os seus militares, diplomatas, administradores e financistas – e 1976, quando eclode na Argentina uma ditadura que viria a se somar à brasileira de 1964 e  à chilena de 1973, cujo fio condutor em comum era precisamente o “anticomunismo” norte-americano, largamente difundido por todo o continente, através dos meios de comunicação e de entretenimento, grandemente alargados em sua difusão, mormente por meio do cinema e da televisão.

Mas, volte-se ao diálogo entre Bill Godkin e Orlando Gonzaga, que já se aproximava do seu termo, quando o último passa a se referir àquele que talvez fosse de fato o motivo de terem os dois amigos se encontrado naquele espaço para beber e conversar. Depois de perguntar ao amigo se quereria beber mais um “Campari” ou mesmo uma “Cicuta” e Godkin recusar ambas, e este último confessar ao brasileiro que estaria até se sentindo bem, ao poder recordar todas aquelas facetas da sua caminhada de periodista, Orlando Gonzaga, como uma forma de levar a conversa ao seu ápice, considera que, dado ao prestígio de Godkin junto à empresa em que era repórter, voltara a estar com o ditador sacramentenho outras vezes, ao que o jornalista responde positivamente, afirmando que “Muitas. Sempre que havia algum barulho no Sacramento, a Amalpress me despachava para Cerro Hermoso. [...]”. Ao que o brasileiro apresenta como uma assertiva interrogativa: “Você deve então conhecer pessoalmente esse embaixador que o Generalíssimo mandou agora para cá, não? [...]”. Ao que Godkin responde sem titubeio: “Don Gabriel Heliodoro Alvarado? Claro que conheço. A primeira vez que o vi, ele estava ao lado de Juventino Carrera, na Sierra de la Calavera. Era um de seus mais jovens e valorosos companheiros. Teria no máximo vinte e um anos... [...]”. E, atendendo à curiosidade do seu interlocutor, que queria saber que “tipo de homem” seria o Embaixador da República do Sacramento que, dali há algumas horas daquele abril de 1959, entregaria as suas credenciais ao presidente Eisenhower, Godkin assim o descreve:

“Fisicamente? Um metro e noventa de altura, mais ou menos... Uma face acobreada cujos traços lembram um pouco certas esculturas maias. Olhos vivos, escuros, dotados duma perigosa força hipnótica. De todos os homens que conheci na cordilheira ao lado de Carrera, a fisionomia que mais fundo me ficou gravada na memória foi a desse Gabriel Heliodoro. O sobrenome que usa é adotado, mas assenta-lhe bem... [...]”.

 

O diplomata brasileiro, depois de abrir sobre a mesa o jornal que tinha ao lado, comenta que:

 

“[...]. O News traz hoje uma notícia com retrato sobre a sua ”escultura maia”. Veja este clichê... O salafrário tem mesmo uma cara atraente. A nota biográfica diz que ele nasceu em 1903... de sorte que deve ter hoje cinquenta e seis anos. Este retrato deve ser antigo, pois representa um homem de quarenta e cinco ou quarenta e oito anos, no máximo. [...]”.

 

Depois de examinar o jornal que o amigo apresentara e, atento à observação que o seu interlocutor fizera a respeito de uma possível manipulação da imagem ali impressa – observe-se que se trata de um jornal publicado ainda nos anos 50; observe-se também que o diplomata brasileiro indica uma nota de desconfiança que apontaria uma discrepância entre a idade que lhe foi apresentada na “nota biográfica” e a fotografia estampada no periódico em exame; o pesquisador da História que tem o jornal como uma de suas fontes, deveria ter a sua atenção e foco em questões como a que fora colocada por Orlando Gonzaga. Por sua vez, Godkin examina a imagem em questão e sentencia convicto: “[...]. Não. A fotografia é recente. Esses índios não mostram a idade na cara. [...]”.

E a conversa entre os dois amigos é concluída com algumas observações que fazem um para o outro e, uma dentre elas, dizia respeito à tarefa primeva do novo Embaixador da República do Sacramento, que era a de “[...], preparar o  espírito de Tio Sam para lhe arrancar mais um empréstimo substancial...”, para com ele realizar obras com as quais “El Libertador” pretendia não só se fazer grande junto ao seu povo, bem como, se não deixar esquecer pela posteridade, uma vez que, além de demonstrar o seu apego ao poder, procuraria, por outro lado, fazer crer que a sua maior preocupação seria o “desenvolvimento” do País, como aliás, proclamavam todos os ditadores e/ou os regimes ditatoriais que grassavam na América Latina, sob o argumento tão frágil quanto falacioso, de defender o continente em geral e o seu País em particular, do “terrível” regime comunista, que, uma vez implantado, solaparia a “democracia liberal que tanto os favorecia”, lhes devoraria as propriedades, as mulheres, as crianças, as crenças, os valores e tradições “seculares” mas, principalmente, lhes tiraria o direito à livre exploração da força de  trabalho que tanto lhes avultava os haveres. Era com este medo propagandeado em todo o continente e por todos os meios ao seu alcance, que as ditaduras eram implantadas e os seus líderes operacionalizavam a sua manutenção, tanto entre os seus próprios povos, quanto à comunidade internacional – aliás, era neste sentido que se fundamentava a carta de Juventino Carrera, endereçada ao seu embaixador em Washington, conforme se comentou há algumas postagens. Aquele imaginado e imaginário medo de uma pretensa “sovietização” do continente, era espalhado Como um rastilho de pólvora, através do qual, os norte-americanos em conluio com os seus aliados em toda a América Latina, exploravam em favor das suas elites e daqueles que os cercavam e acompanhavam em seus intentos e delírios. 

 

Alagoinhas – 25 de outubro de 2026 – primavera brasileira.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 18 de outubro de 2026

NACOS DE LITERATURA – ALGUMAS DIGRESSÕES – XIV.


 

O Jornalista Bill Godkin: A História Imediata da República do Sacramento – Parte IV.

 

Este escrevedor está uma vez mais neste espaço virtual, para trazer à consideração de seletos leitores que visitam estes garatujares semanais, algumas observações desenvolvidas a partir de  passagens extraídas de “O Senhor Embaixador”, de autoria de Érico Veríssimo (1905-1975), com o intuito de continuar discorrendo sobre a farta contribuição que a literatura traz para quem estuda a sociedade humana no tempo, na medida em que, tanto a pode utilizar como fonte para a pesquisa, quanto à pode tomar como seu objeto de preocupações, com vistas a compreender a história e o seu cotidiano. Igualmente, ao considerar o percurso histórico e a possibilidade de o inquiridor encontrar na produção literária que tenha diante de si, os traços a partir dos quais ele venha a desenvolver um estudo estruturado sobre indícios que o tratado literário possa apontar para àquele que o queira tomar como uma de suas ferramentas por meio das quais, venha não só a apreender, bem como a compreender um elemento histórico em um tempo e em um espaço dado. É verdade que esta não é uma obra das mais conhecidas do literato gaúcho; talvez, uma das menos comentadas, tendo em vista o farto material por ele produzido. Mas, ela até mesmo poderia ter sido inserida entre aquelas que foram classificadas como “realismo mágico”, visto que, embora o autor a tenha ambientado em uma República situada em algum ponto do Caribe, o desenvolvimento de sua trama, bem poderia ser compreendido como tendo sido em qualquer dos Estados Latino-Americanos, aqui, ali ou alhures.

Conforme se leu no arrazoado anterior, Bill Godkin dá os seus primeiros passos como repórter em uma empresa jornalística que possuía algum prestígio junto ao corpo diplomático da República do Sacramento, por meio do qual obteve autorização para realizar a sua primeira entrevista, a partir da qual viria a escrever alguns artigos que acabariam por circular na imprensa norte-americana e, o consagraria como correspondente internacional da agência de notícias onde era lotado. Aos pouco mais de 24 anos, aquele jornalista principiante se aventura em um país latino-americano conflagrado e em risco de um levante militar que pretendia encerrar uma “ditadura” que, embora bem relacionada com as principais multinacionais de banana e açúcar, fendera o país em pelo menos duas facções, uma das quais interessara ao jornalista se avistar com o seu principal articulador. Continuando a sua conversa com o diplomata brasileiro Orlando Gonzaga, aquele jornalista ainda acrescenta algumas facetas da sua busca de repórter, no sentido de alcançar o objetivo que o levara ao palco dos acontecimentos que se dariam dali há alguns dias após o seu retorno a Washington. Diz ele ao seu interlocutor, depois de alguns goles e baforadas no seu “inseparável cachimbo”:

“[...]. Você não pode calcular o trabalho que tive para encontrar um nativo que me servisse de guia até o esconderijo de Carrera... [...]. As autoridades temiam que eu fosse levar alguma mensagem aos rebeldes. Os camponeses suspeitavam que eu era um agente secreto da ditadura encarregado de assassinar Carrera. Finalmente veio em meu socorro o Padre Catalino, o jovem pároco de Soledad del Mar, flor da raça humana. [...]. o padre me arranjou secretamente um vaqueano de sua confiança que me prometeu levar até à primeira sentinela de Carrera. [...].”.

 

Ao que parece, considerando-se os meios disponíveis ao crepuscular o primeiro quartel do século XX, Godkin precisara de alguém que o fizesse chegar em segurança ao local onde Carrera se encontrava acantonado com os seus companheiros de guerrilha e, conforme observou Gonzaga, com o risco de levar bala de ambos os lados em confronto, tendo uma câmera fotográfica como único equipamento capaz de realizar algum registro artificial de sua perigosa jornada. Em resposta à observação feita pelo seu amigo diplomata, Veríssimo coloca nos lábios do jornalista, quando contrapõe o que aquele dissera sobre o perigo que correra, com uma pergunta, acompanhada de sua imediata resposta, talvez, aquilo que fosse o seu  modo de ler o mundo, ao se dispor em chamar a atenção do seu leitor, para aquilo que se passava não só naquela América que ele retratava, mas, principalmente, para aquilo que estava se passando naquele Brasil que se debatia entre o apoiar a ditadura que se instalara há pouco mais de um ano e, aqueles que começavam a perceber o perigo que os aguardava e, sobretudo, para os primeiros efeitos do endurecimento do “regime”, por meio dos Atos Institucionais: “[...]. Não será essa a eterna posição do liberal? Um homem entre dois fogos... [...]”.

Como resposta à indagação do seu interlocutor sobre a sua volta da “montanha”, em relação às autoridades do governo então sob a pressão dos rebeldes, o repórter dissera que não só fora “interrogado”, como “cheirado, apalpado” e, que preparara uma reportagem que sabia agradaria às autoridades informando serem “[...] os revolucionários como um bando de aventureiros indisciplinados, mal armados e municiados, com o moral baixíssimo e em vésperas dum colapso total [...].”.

No entanto, Godkin faz saber ao seu interlocutor, que não seria aquela a reportagem que faria circular nos jornais, logo que voltasse à capital norte-americana, levando consigo intacto, o rolo de filmes com as fotografias que obtivera, com as quais ilustraria o material que de fato faria publicar, cuja base estaria guardada em sua memória, fartamente alimentada pelos diálogos que tivera com o chefe dos revoltosos – saliente-se que, naquele primeiro quarto de Século, o gravador de voz, ainda nem era cogitado.

E, prosseguindo em sua narrativa que empreendera no intuito de responder ao diplomata brasileiro como fora parar na Amalgamapred Press, Godkin assegura que:

 

De volta a Washington escrevi uma série de artigos ilustrados favoráveis aos revolucionários e contrários à ditadura de Chamorro. — E esses artigos, divulgados pelo mundo, naturalmente ajudaram a causa dos rebeldes. [...]. Em 1926, Juventino Carrera derrubou o ditador e foi eleito Presidente da República. Convidou-me oficialmente para a cerimônia de sua posse e me concedeu uma entrevista exclusiva, como me havia prometido ”lá em cima” ... [...].”.

Mas, Gonzaga, provavelmente já satisfeito com a resposta à pergunta feita ao amigo, reconduz o diálogo para o tempo presente, visto que, antes do recuo há cerca de vinte e quatro anos, eles tratavam do futuro credenciamento do novo Embaixador sacramentenho,  a propósito da observação feita por Godkin, com relação a falta de Pablo Ortega, que lhes faria companhia àquela mesa e, lamentara a sorte do amigo secretário da embaixada daquele país centro americano, que teria de lidar com um diplomata que não era afeito ao ofício, o que daria muito trabalho àqueles que o eram de carreira – o que aliás, igualmente, não era o caso de Pablo Ortega. É então que o diplomata brasileiro traz à consideração do seu interlocutor, aquilo que pensava sobre o sujeito que há mais de duas décadas se encontrava à frente da República do Sacramento, dizendo “[...]. Mas... voltando a Juventino Carrera, que peste nos saiu esse herói da Sierra de la Calavera! [...]”. E o jornalista retrucou com uma sentença um tanto cética, afirmando que ele “[...]. Seguiu a regra geral latino-americana. Derrubou o tirano e acabou tornando-se também um tirano. [...]”. E prossegue o jornalista, munido das informações que o seu interlocutor não possuía, malgrado pertencer ao corpo diplomático de carreira:

“[...]. Sabe qual foi a primeira coisa que fez depois que se aboletou no Palácio do Governo? Assinou um decreto, promovendo-se a si mesmo a generalíssimo, à feição de Trujillo, de quem se tornou mais tarde amigo, compadre e aliado. E como desejasse também um título, como o do ditador dominicano, não faltou um escriba que propusesse ao povo o de El Libertador, que pegou logo. [...]”.

A propósito de Leonidas Trujillo, mencionado pelo jornalista ao responder à provocação do seu interlocutor, no momento em que dizia aquelas palavras, “El chivo” dominicano já estava “aboletado” no governo de seu País, há quase trinta anos e, prestes a ser assassinado, o que se daria dali há um ano e meio, aproximadamente, cuja trama foi magistralmente desenvolvida por Mário Vargas Llosa, em sua novela “La Fiesta del Chivo”, que saiu no Brasil no início dos anos 2000, sob o pouco compreensível título de “A Festa do Bode” – uma tradução literal do original em espanhol, que talvez não expresse bem o seu espírito –, obra que, aliás, em breve se pretende discorrer por aqui.

 

Alagoinhas – 18 de outubro de 2026 – primavera brasileira.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com – visite: www.historias-e-memorias.blogspot.com 

domingo, 11 de outubro de 2026

NACOS DE LITERATURA – ALGUMAS DIGRESSÕES – XIII.

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O Jornalista Bill Godkin: A História Imediata da República do Sacramento – Parte III.

 

Conforme já é cediço dos argutos e assíduos leitores deste espaço, há já algumas semanas este garatujador vem discorrendo sobre a obra de Érico Veríssimo (1905-1975), “O Senhor Embaixador”, publicada em 1965, quando prosperava célere o golpe civil-militar perpetrado no Brasil em 1964, que, saliente-se de passagem, contava com ampla aprovação da sociedade brasileira – inclusive, com diversas manifestações de apoio e aplauso por todo o país. E, estribado em tal aprovação, o grupo que assumiu a hegemonia do golpe militar, amplamente instado pela sociedade civil, a partir de quase toda imprensa jornalística, radiofônica e televisiva, apertava o garrote nos pescoços de quantos ousassem se opor àquele arbítrio, calando assim, toda e qualquer voz que se levantasse para denunciar aquela truculência institucional, não importando o instrumento que viesse a ser usado para fazer aquelas denúncias. É neste sentido que Veríssimo lança mão da literatura com o fito de propiciar o conhecimento do que estava se passando no País onde ele acabara de publicar a sua obra, tomando o cuidado de recriar os espaços e os personagens envolvidos na sua trama, para não ser atropelado pela censura instaurada como instrumento de silenciamento da história que marcava aquele “tempo infeliz da nossa História”, evitando vir ao conhecimento público aquelas “tenebrosas transações”, conforme aponta Chico Buarque de Holanda em música gravada alguns anos depois.

E, cabe uma vez mais salientar que, como o ponto de partida destes garatujares fora a pouca ou nenhuma compreensão alcançada por José Mário, ao tomar contato com aquela obra, quando era ainda ginasiano, parece inevitável apontar para o fato de que ele não percebera a crítica feita pelo autor, através de um diplomata brasileiro, ao apontar o fato de que a cidade em que se encontrava todo o corpo administrativo e diplomático, embora capital da maior democracia da América, sequer gozava do direito ao voto. Eis aqui a passagem que aquele leitor não se apercebeu da importância que possuía para o intento do seu autor: “[...], Washington, a capital do tédio e da impotência, é um conglomerado de funcionários públicos e diplomatas (alguns de sexo duvidoso) e de velhos aposentados. E depois, [...], este enclave apertado entre Maryland e a Virgínia não tem sequer o direito de voto”. [...]”. Não seria uma alusão ao Brasil que tirara de sua capital, Brasília, o direito de eleger os seus governadores? José Mário nem de longe cogitava a este respeito, em 1976.

Portanto, ao publicar a obra em causa, o seu autor faz uma análise geral da América Latina em seu surto ditatorial, sob o manto de um anticomunismo muito mais imaginário do que real, sobretudo, ao tomar como fantasma a assombrar as elites econômicas nacionais e internacionais – como internacionais entenda-se norte-americanas –, personificado no êxito do movimento revolucionário encabeçado por Fidel Castro em Cuba que, no tempo de sua deflagração, não se inscrevia como sendo uma Revolução Socialista e, Muito menos, comunista. E, diga-se de passagem, o tempo histórico no qual Veríssimo inscreve os acontecimentos relativos à República do Sacramento, o tal “comunismo” da Revolução Cubana, ainda não ia além das preocupações daquele que então ocupava a Casa Branca e dos receios dos financistas cujos haveres ainda se encontravam nos empreendimentos em solo cubano.

Assim, após ter feito um preâmbulo a respeito da obra em que se insere a proposta deste arrazoado, volte-se a ela. Depois de abrir alguns parêntesis para uma rápida passada pelo discurso proferido por Godkin em resposta aos seus homenageadores que queriam mais do que um simples “obrigado rapazes”, se faz necessário considerar uma parte da trajetória profissional daquele jornalista norte-americano e o seu interesse pela República do Sacramento que, saliente-se, foi onde ele se firmou como repórter político, ao ser recebido por Juventino Carrera, ainda na condição de chefe das forças que pretendiam derrubar o governo de Antonio María Chamorro, o que acabou acontecendo pouco tempo após a entrevista concedida àquele jovem jornalista estadunidense, interessado em noticiar os desdobramentos de uma campanha militar que, no fim de contas, estaria prestando um serviço ao governo norte-americano, ao se colocar como uma barreira ao “comunismo” que rondava o continente, conforme pensavam os “revolucionários” do Sacramento.

Segundo o já quase sexagenário jornalista conta ao diplomata brasileiro Orlando Gonzaga – já rapidamente analisado em arrazoares anteriores –, tudo começa com a escrita de uma dissertação, conforme o seu próprio entendimento, “[...], sob o título pretensioso de Radiografia das ditaduras latino-americanas. [...]”, título que era bem sugestivo para a época que o seu autor pretendia analisar, embora nunca houvesse posto os pés na região de suas preocupações acadêmicas, exceto por meio de um punhado de livros que devorara na biblioteca do estabelecimento de ensino que o forjara. E Godkin continua a sua narrativa informando a Gonzaga que:

“[...] Não me lembro como nem porque um dos diretores da Amalgamated Press leu a minha dissertação, achou que eu tinha qualidades de repórter e me ofereceu um emprego na sua agência. Aceitei, fui mandado para uma dessas republiquetas da América Central onde se esperava barulho nas vésperas duma eleição presidencial... Passei um mês duríssimo naquele inferno tropical. [...]”.

 

Depois de salientar que daquele teste “duríssimo” ele, embora poupado das enfermidades tropicais, sentiu uma espécie de frustração, uma vez que acabou por não ocorrer nem a revolução temida, nem a eleição esperada, Godkin prossegue dizendo ao seu interlocutor pouco atento que:

 

“[...]. Minha grande oportunidade surgiu em fins de 1925. Na República do Sacramento, onde Don Antonio María Chamorro exercia sua ditadura havia quase vinte e cinco anos, um jovem tenente, Juventino Carrera, revoltou um batalhão do Exército, no quartel da cidade de Los Plátanos, e refugiou-se com seus soldados na Sierra de la Calavera, de onde começou uma luta implacável de guerrilhas contra os federales. [...]”.

 

E Godkin diz ao seu interlocutor que teria sido dele a iniciativa de se enfronhar pelo Caribe distante e pouco importante, principalmente, para o governo e, consequentemente, para a imprensa norte-americana. Siga-se pois o seu relato:

 

“[...]. Um dia resolvi entrevistar pessoalmente o Tenente Carrera na sua toca ou, melhor, no seu ninho de águia. Meu chefe achou a ideia um tanto esdrúxula. Sacramento era um país sem importância. Todos consideravam perdida a causa do jovem revolucionário. Don Antonio María Chamorro estava solidamente estabelecido no poder. O povo sacramentenho vivia aterrorizado. Os camponeses que ajudavam os revolucionários eram sumariamente passados pelas armas. Além de tudo, El Chacal del Caribe (era assim que os inimigos chamavam ao ditador) contava com o apoio moral de Don Herminio Ormazabal, Arcebispo Primaz do Sacramento. [...], o Governo de Chamorro parecia firme como os Andes. Mas a verdade é que ninguém conseguiu me tirar a ideia da cabeça. Eu simpatizava com a causa dos rebeldes. [...]”.

 

Tendo agido em conformidade com os trâmites burocráticos e diplomáticos de praxe e, a despeito da grande má vontade das autoridades investidas no país, tanto as locais quanto as diplomáticas, Godkin prossegue dizendo que:

 

“[...]. Para resumir a história, obtive um salvo-conduto, jurei perante as autoridades sacramentenhas que não aproveitaria a oportunidade para prestar qualquer serviço aos revolucionários e prometi submeter à censura ditatorial a minha entrevista com Carrera, antes de publicá-la. [...]”.

 

Conforme se pode depreender a partir da narrativa que Veríssimo propõe ao leitor por meio de Willians Godkin, o jornalista que se tornará central na condução da sua novela, o caráter militar do grupo comandado por Carrera que o periodista noviço se dispõe a entrevistar, não obstante os perigos da empreitada, tanto advindos dos guerrilheiros, quanto das autoridades constituídas, dá bem a medida do intento do autor gaúcho, no sentido de que ele pretende apontar para uma história que não é de fato aquela vivida na República do Sacramento mas, sim, aquela mesma que era vivida no tempo em que escrevera e que depois publicara aquela obra. O País que aparece sub-repticiamente na trama escrita por Veríssimo, é um Estado marcado pelas ditaduras; pelos movimentos de militares que requerem para si a prerrogativa de conduzir os seus destinos e, principalmente, os seus negócios; eivado de civis que se apresentam como “Salvadores”, embora não digam claramente o que e a quem querem salvar; trata-se de um país cuja elite não se importa com o bem-estar público mas, sim, com o seu próprio bem-estar e, claro, o bem-estar daqueles que com ela formam fileiras. E, cabe aqui salientar, muitos daqueles que insistem em formar fileiras com uma elite egoísta e excludente, sequer terão algum dia a possibilidade de se fazer pertencer à elite que apoiam, acreditando que por ela será absorvido e, por via de consequência, nela acolhido. Nem percebem, ou não querem perceber que se estão deixando enganar ou se enganando a si mesmos.

 

Alagoinhas – 11 de outubro de 2026 – primavera brasileira.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com – visite o blog: www.historias-e-memorias.blogspot.com 

domingo, 4 de outubro de 2026

NACOS DE LITERATURA – ALGUMAS DIGRESSÕES – XII.

 

 

O Jornalista Bill Godkin: A História Imediata da República do Sacramento – Parte II.

 

Antes de prosseguir com a “História Imediata” construída a partir das observações do jornalista que Veríssimo evoca para o ajudar a desenrolar a trama urdida em O Senhor Embaixador, quiçá, procurando denunciar ao mundo não só as ditaduras que pululavam por toda a América Latina no período de sua publicação, bem como o papel desempenhado pelos Estados Unidos da América, não apenas na consecução delas, mas, sobretudo, na sustentação daqueles regimes “de exceção”, ainda que tais regimes prevalecessem ao custo de vidas humanas, ou da sangria dos cofres públicos, em geral, já combalidos pela rapina perpetrada pelos líderes de tais regimes, bem como, da gente que gravitava em seu entorno, volte-se ainda um pouco ao discurso proferido por Bill Godkin, por ocasião do almoço que lhe fora oferecido pelos colegas de redação. Ao falar sobre a profissão que já desempenhava há um bom número de anos, ele acabou por fazer um balanço a um só tempo retrospectivo daquilo que entendia ser um jornalista, bem como, ousara desenvolver uma espécie de análise de conjuntura, que lhe permitiu fazer alguma projeção de futuro – que no tempo em que se garatuja estes palavrares se apresenta com toda a crueza e rudeza -, apontando para um jornalismo menos comprometido com a “verdade dos fatos” – conforme as suas próprias palavras –, bem como, para o surgimento de jornalistas dispostos a trabalhar com o objetivo de ver triunfar um jornalismo marcado pelo abuso de práticas interessadas muito mais em prevalecer o que pensava o jornal a respeito de um evento dado, em detrimento de o noticiar, deixando ao leitor a tarefa de elaborar o seu próprio juízo sobre aquilo que viesse a ler.

 É assim que, ao iniciar o discurso de agradecimento aos colegas que ora lhe prestavam uma homenagem por conta de sua aposentadoria já estar quase às portas, Godkin diz se orgulhar de possuir no início da carreira, a qualidade inerente ao “ser repórter”, ou seja, a de somente “noticiar os fatos”, ele acabara por desenvolver uma pequena e, ao mesmo tempo, uma profunda digressão acerca do que viria a ser “o fato”. Diz ele:

“[...]: isso a que chamamos fato não será uma espécie de iceberg, quero dizer, uma coisa cuja parte visível corresponde apenas a um décimo de seu todo? Porque a parte invisível do fato está submersa nas águas dum torvo oceano de interesses políticos e econômicos, egoísmos e apetites nacionais e individuais, isso para não falar nos outros motivos e mistérios da natureza humana, mais profundos que os do mar”. [...].”.

 

A pena de Veríssimo não deixa escapar nenhum detalhe que julgara importante na construção discursiva do jornalista que criara e apresentara ao seu leitor, já contando trinta e cinco anos de carreira e, deu-lhe uma penca de elementos para com eles, caracterizar o que viria a tentar definir o que viria a ser “um fato”. E, talvez, ele não dispusesse de uma figura mais eloquente para tal, que não a ilustração dos icebergs, notadamente, o que lhe é mais conhecido, que é a existência de um imenso bloco de gelo imerso em profundidade marítima de difícil cálculo imediato, resultando, por isto mesmo, em um perigo para o navegante que só o pode divisar, naquilo que se lhe aparece pouco acima da lâmina d’água. Trazer esta figura para a ideia de “fato” a ser noticiado é, por si só, uma jogada de mestre feita pelo literato, que acaba por apontar a existência de uma gama de possibilidades que o jornalista dispõe para tratar “o fato”, quase sempre, optando por desenvolver o seu juízo de valor, a partir daquela parte que lhe é dado ver, isto é, aquilo que jaz na superfície do profundo oceano, já explicado pelo jornalista homenageado.

Assim sendo, caso um historiador venha a ter como fonte para a sua pesquisa e, passar a examinar “o fato” trazido ao exame de um leitor de um periódico que costuma ter nas mãos e, a partir dele tomar decisões e/ou formar opinião sobre o que leu, aquele pesquisador vai precisar tentar identificar, para não vir a incorrer em erro de compreensão, o que não está dito – por omissão e/ou por desconhecimento e ainda, por deliberação superior – naquilo que foi noticiado pelo periódico em questão. Quando, ainda em seu discurso, Godkin questiona sobre a “verdade... que bicho é esse”, ele estaria considerando como tal, a existência de várias “verdades”, para as quais o leitor comum sequer teria atentado. “[...]. Quantas verdades existem no mundo de nossos dias? [...]”. Assim, o orador lista algumas delas: “[...]. A da Casa Branca. A do Kremlin. A do Vaticano. A da Wall Street. A da  Broadway. A da United States Steel Corporation. A da AFL. Sim, e convém não esquecer a da Madison Avenue, talvez a mais fantástica de todas.” [...].”. O orador prossegue em sua crítica ao que chamava “[... [tantas verdades nos nossos dias”, afirmando que “[...]. Pertenço a uma era em que os correspondentes escreviam sobre os acontecimentos. Vocês os modernos querem competir com Deus Nosso Senhor. Não só procuram dar hoje as notícias de amanhã como também se avocam o direito de, na falta de notícias criarem acontecimentos para depois escreverem sobre eles!”  [...]”.

Cabe salientar de passagem que, ao que parece, não seria nenhum exagero, trazer para pouco mais de sessenta anos depois da publicação daquele discurso, os arrazoares nele encontrados e aqui, rapidamente considerados. Neste sentido e, para reforçar o que se vem postulando neste escrevinhar, se poderia trazer de volta um elemento inserido em páginas anteriores, quando se evocou um trecho de uma música interpretada por Raul  Seixas (1946-1987), na qual ele afirma que “[...] eu não preciso ler jornais [...], indicando a previsibilidade deles e, reforçando algumas das características que Godkin apontara como uma tendência já nos seus dias, Seixas arremata com uma frase lapidar, demonstrando aquela sua irreverência peculiar, ao dizer que “[...], mentir sozinho eu sou capaz, [...]”. Érico Veríssimo (1905-1975) já apontava para esta possibilidade, quando coloca na fala do próprio Godkin em conversa com a sua secretária, quando expõe uma dúvida que nem de longe passaria pelos poucos cogitares de José Mário, caso tivesse tido acesso a jornais, coisa que tanto desejara. Depois de ter saído do local onde lhe fora oferecido o já aludido almoço, em consonância com tudo que já houvera dito há menos de uma hora àqueles seus colegas que o homenageara, o jornalista comenta acerca da primavera na capital estadunidense, dizendo que “[...] — São as cerejeiras do Potomac na primeira semana de abril! Se os jornais não mentem, elas devem estar hoje completamente cobertas de flores. [...].”.

Mas, perguntaria o arguto leitor, não estaria aí uma contradição entre o que até agora fora arrazoado e a possibilidade do pesquisador em História tomar o jornal como fonte para as suas investigações? Crê-se que não, uma vez que o historiador que busca desenvolver pesquisas tendo o jornal como seu escopo documental, a partir do qual elaborará a sua compreensão de um fato ou de um tempo histórico dados, precisará fazer perguntas ás suas fontes, evitando a armadilha de acreditar que elas falariam por si; que elas não estariam sujeitas a falseamentos, entendendo que tal ou qual fato ali noticiado, está cercado de subjetividades e de interesses os mais diversos, o que obrigará a emergir um pouco mais naquele oceano apontado por Godkin, tentando buscar aquilo que por ventura esteja afastado de uma apreensão superficial que esteja oculta à percepção do que estaria escamoteado, sendo necessário atentar para os vestígios podem levar a desarticular uma rede de mentiras e, na melhor das hipóteses, um conjunto de invenções publicadas para desviar o leitor daquilo que de fato deveria importar.

 

Alagoinhas – 04 de outubro de 2026 – primavera brasileira.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com – visite o blog: www.historias-e-memorias.blogspot.com 

domingo, 27 de setembro de 2026

NACOS DE LITERATURA – ALGUMAS DIGRESSÕES – XI.

 

O Jornalista Bill Godkin: A História Imediata da República do Sacramento – Parte I.

 

Tendo já sido publicado em dez outras ocasiões algumas reflexões que apontam para construção de um processo de apreensão do fazer histórico latino americano, este escrevedor volta a submeter alguns arrazoares à consideração dos argutos visitantes deste espaço virtual de leituras, ainda uma vez mais, procurando lhes chamar a atenção para um postulado que se vem defendendo desde o início desta série, que é a possibilidade de se perceber, apreender e compreender o desenvolvimento da história da sociedade, tomando como referência a produção literária como fonte para a pesquisa  histórica. Conforme apontara em uma conversa com um frequente leitor destes garatujares, ao decidir escrever esta série que intitulara “Nacos de Literatura”, não era pretensão deste escrevente começar por uma obra publicada no Século XX, mas sim, tomar alguma daquelas mais clássicas publicadas no Século XIX,  ainda fasciculares e em forma de folhetins, que saíram em diversos periódicos, por meio das quais circularam as ideias e os pensares de então. Tanto é assim que, antes de começar a escrever os “Nacos de Literatura” que ora se  lê neste blog, foi refeita a leitura de “O Alienista”, conto da lavra do genial Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908), um brilhante tratado que mistura sarcasmo, ironia e uma certa dose de antecipação de comportamento social marcado pela exacerbação de um psicologismo, marcadamente vivenciado nos tempos hodiernos. Porém, este garatujador acabou por fazer um percurso por um outro tipo de literatura, que já aparece e circula de modo diferente da que circulara no XIX, isto é: já aparecia em livros prontos, no formato brochura, que circulavam de acordo com a capacidade de publicizar e distribuir que a editora possuísse.

No entanto, foi outra releitura que acabou por definir o desenvolvimento da série que ora se encontra diante de quantos agora navegam neste espaço virtual. Sem que esteja muito claro em seu imaginar a razão precisa que levara este escrevedor a retomar a leitura de “O Senhor Embaixador”, obra da lavra de Érico Veríssimo (1905-1975) e publicada em 1965, portanto, em plena vigência da Ditadura Militar, iniciada pelo Golpe de 1964, desfechado contra o governo de João Goulart (1919-1976), que houvera assumido o governo deixado em 1961 por Jânio Quadros (1917-1992) e, com o franco, explícito e indisfarçado apoio de vastos setores da sociedade civil, além do apoio e das instâncias de diversos setores leigos da Igreja Católica e, em alguns casos, até mesmo do seu alto clero. O certo mesmo é que, conforme já há algumas semanas se tem feito, ao avançar pelas suas páginas e personagens, todas elas bem descritas e caracterizadas psicológica e socialmente, tem se percebido as muitas “faces da história” que podem ser encontradas em sua composição. Assim é que, a partir deste arrazoar, se procurará apontar outros elementos históricos da imaginada “República do Sacramento” – que, reafirme-se, não é apenas um imaginar do seu autor, mas sim, um perceber geral de uma América como um todo e, da América Latina em particular, que, em meio a censura e ao arbítrio, Veríssimo procura denunciar –, desta vez, tomando o jornalista da Amalpress como uma espécie de narrador privilegiado daquela história que acontecia sob a fumaça do seu inseparável cachimbo.

Antes mesmo de adentrar ao tema proposto, cabe ressaltar de passagem que, nas primeiras leituras feitas por José Mário da obra acima mencionada, sequer ele dera alguma atenção ao personagem Bill Godkin que já contava trinta e cinco anos de atuação jornalística, descrito por Veríssimo como sendo um periodista experiente e, de acordo com o episódio de abertura da produção literária em exame, já estava em fim de carreira, sendo homenageado pelos seus colegas mais novos de profissão e de empresa. Para José Mário, era apenas mais um a compor o leque de personagens que, para ele, tratava-se de um elemento que se não aparecesse na trama, tal sequer seria percebido. Ele não tinha ideia de se tratar de uma técnica de narrativa largamente utilizada pelos literatos, sobretudo, por aqueles que construíram as suas novelas no bojo de uma literatura que começava a levar aos seus leitores o conhecimento do mundo real em que ambos estavam inseridos; uma espécie de fio condutor daquela história; de um historiador que vivenciava, experienciava e, por fim, registrava, aquilo que mais tarde veio saber se tratar daquilo que teóricos e metodólogos  classificaram como sendo a “História” imediata, aquela produzida pelos jornalistas e, publicada em periódicos e agências de notícias. Por certo, ele nada entendera do discurso pronunciado pelo homenageado, quando instado a falar para aquelas cerca de vinte pessoas que estavam consigo à mesa e, que além de receber deles alguns presentes, também ouviu palavras elogiosas a si, proferidas por um jovem moço, a quem os demais encarregaram que falasse pelos que ali se encontravam confraternizando com o quase sexagenário colega.. Daí, se pode depreender que nada ele conseguira compreender da fala de Bill Godkin, visto que, conforme já se disse outras vezes, além dos poucos livros que pudera ler, o seu conhecimento e leitura de mundo estava restrito ao seu entorno de moradia e, quando muito, aos espaços de frequência escolar.

Desta forma, este tratado deve retomar alguns aspectos do discurso proferido pelo velho jornalista, a fim de poder prosseguir nas considerações e análises a que se propõe desenvolver, em sintonia com o título proposto para este arrazoado. Assim, depois de agradecer ao orador pelas palavras a ele dirigidas, Bill Godkin principia a sua abordagem acerca do que ali ouvira, dizendo que:

 

“[...]. ” Quando eu tinha a idade desse moço, orgulhava-me de possuir a qualidade essencial do repórter: a de só noticiar fatos. Hoje, na adolescência da velhice ([...]), começo a ter dúvidas... [...]: ”isso a que chamamos fato não será uma espécie de iceberg, quero dizer, uma coisa cuja parte visível corresponde apenas a um décimo de seu todo? Porque a parte invisível do fato está submersa nas águas dum torvo oceano de interesses políticos e econômicos, egoísmos e apetites nacionais e individuais, isso para não falar nos outros motivos e mistérios da natureza humana, mais profundos que os do mar”. [...].”.

 

Aqui uma interrupção do discurso proferido em resposta àquele que fora feito em sua homenagem, para ressaltar a constatação de se tratar de uma aula de jornalismo que Veríssimo coloca nos lábios daquele personagem que José Mário entendera como dispensável, indicando, conforme já se aludiu há pouco, o seu desconhecimento do papel social que desempenhava a produção literária. Não sabia o rapaz em 1977, que um personagem não era uma mera criação de uma cabeça brilhante e de um sujeito dotado de uma criatividade desprovida de perspicácia e de necessidade de comunicar, denunciar, convidar à reflexão; não era uma mera ferramenta de entretenimento nem mesmo, uma demonstração de erudição e grande aprofundamento cultural. Até poderia ser tudo isto; mas, não só. Era, sim, parte do processo criativo que pretendia dar a conhecer um certo “adoecer social”, mediante entrelaçamentos de episódios e personagens que representem os elementos sociais por meio dos quais o autor quer ressaltar e, por meio deles, demonstrar com alguma precisão, a sua percepção de mundo, para assim, fazer conhecer  as suas peculiaridades a tantos quantos a sua obra possa alcançar, Isto fica bem patente, quando se segue lendo o discurso que veríssimo empresta à Bil Godkin, dirigindo-se àqueles que o iriam substituir na tarefa de repórter da qual estava prestes a se aposentar. Diz ele:

 

“[...]. ” Ao desintegrarem o átomo, os cientistas de nosso século desintegraram também a semântica e até a ética. Quem é que sabe hoje com certeza o sentido de palavras que usamos com tão leviana frequência como liberdade, paz, direito e justiça? Quanto ao Palavrão, verdade... que bicho é esse? Quantas verdades existem no mundo de nossos dias? Conheço tantas... A da Casa Branca. A do Kremlin. A do Vaticano. A da Wall Street. A da Broadway. A da United States Steel Corporation. A da AFL. Sim, e convém não esquecer a da Madison Avenue, talvez a mais fantástica de todas.” [...]”.

 

E aquele orador que parecia pouco afeito à homenagem que acabara de receber, arremata devastador, para José Mário que ainda estava na infância da compreensão do mundo à sua volta, quando possuía a certeza das coisas que ouvia no rádio e, que se pudesse, leria nos jornais que circulavam naqueles idos da década de 1970 – até mesmo mais adiante, quando acidentalmente, acabou por descobrir aquilo que por meio de Bill Godkin, Veríssimo já lhe dissera, mas ele, ah, ele sequer ouvira, nem mesmo quando Raul Seixas cantava o seu “cowboy fora da Lei”, em frase lapidar “eu não preciso ler jornais; mentir sozinho, eu sou capaz” –, ao afirmar peremptoriamente que:

 

“[...]. ”O jovem orador disse que sou um símbolo... Mas símbolo de quê? Talvez dum tipo de jornalismo em processo de liquidação. Pertenço a uma era em que os correspondentes escreviam sobre os acontecimentos. Vocês os modernos querem competir com Deus Nosso Senhor. Não só procuram dar hoje as notícias de amanhã como também se avocam o direito de, na falta de notícias, criarem acontecimentos para depois escreverem sobre eles!” [...]”.

 

Assim, diante do discurso acima transcrito em suas partes mais essenciais e, conforme Veríssimo, feito de improviso e sem qualquer vontade do jornalista em o proferir, talvez se possa inferir que o arguto autor de “O Senhor Embaixador” estaria antecipando em sessenta anos aquilo que faz o jornalismo hodierno, amplificado mediante os meios modernos de difusão? Escrevesse ele hoje o seu tratado literário, expressaria um postulado muito diferente daquele que fora construído para formar o discurso de um periodista de longa prática jornalística em vias de conclusão?

 

Alagoinhas – 27 de setembro de 2026 – primavera brasileira

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com – www.historias-e-memorias.blogspot.com 

domingo, 20 de setembro de 2026

NACOS DE LITERATURA – ALGUMAS DIGRESSÕES – X.

 

Glenda Doremus – “a República do Sacramento” em “um estudo interpretativo”. – Parte II.

 

Ao trazer mais estes arrazoares para apreciação de quantos acederem a este espaço de leitura virtual, uma vez mais se intenta apontar algumas dentre as muitas possibilidades de se apreender e, quiçá, se compreender a realidade cotidiana através da literatura e a partir dela, se construir um tratado que permita o aprofundamento da compreensão do fazer histórico, por meio de leituras de mundo que apontem para os desafios de elaborar estudos que desague na produção historiográfica.,

Em conformidade com o dito nos garatujares anteriores ao que os diletos leitores ora têm diante de si, a jovem norte-americana Glenda Doremus desenvolvera um trabalho dissertativo e, o submetera ao secretário da embaixada da República do Sacramento em Washington, antes mesmo de o submeter à banca examinadora composta por docentes da instituição acadêmica onde se fazia graduar. Dele, talvez, ela esperasse receber o incentivo que precisava para firmar-se de estar caminhando na exatidão das suas proposições. Em “O Senhor Embaixador”, publicado em 1965, Veríssimo entrega ao seu leitor, uma personagem tíbia, que pouco ou nada confiava naquilo que houvera produzido a partir dos seus estudos de história latino-americana, além de ter uma personalidade psicologicamente cambaleante e plena de traumas, em boa parte das vezes, suscitados pelo ressentimento herdado de uma memória coletiva em que se cultivava o ódio e se alimentava o medo àqueles que eram diferentes, que se apresentavam como marca indelével de parte daqueles cidadãos oriundos da região conflagrada pela guerra civil americana, já terminada há quase cem anos (1861-1865), na qual o Sul Confederado perdera o seu desejo separatista do lado setentrional, mas, principalmente, por ter sido despojada da sua característica econômica principal, que era a utilização do trabalho escravo como forma de produzir e acumular riquezas.

O aludido ressentimento, é sutilmente apresentado por Veríssimo, quando coloca em evidência as palavras que escrevera o pai da moça, nas quais demonstra o seu descontentamento por ela preferir permanecer em Washington, mesmo nas férias de verão ou ainda, nas festas natalinas, em detrimento da sua Georgia, mais precisamente na cidade de Atlanta, onde ele e a consorte esperavam a visita e a estadia da filha. Na carta que foi rapidamente citada em postagens anteriores, o pai de Glenda Doremus apresenta as queixas por sua insistência em permanecer na capital do País:

 

“Querida filha: Por que não voltas para casa? Sei que Washington deve estar linda agora com as cerejeiras floridas, mas aqui em Atlanta os pessegueiros estão também em plena floração. [...]. Como eu, tua mãe ficou triste porque não nos visitaste nas tuas últimas férias de verão e porque nos comunicas agora que talvez não possas estar conosco nas de Natal. Por que odeias tanto o Sul? No fim de contas, em Washington há mais negros que brancos. [...]”.

Perceba o leitor que, neste último feixe de palavras ditas pelo pai da rapariga, sutilmente, Veríssimo aponta a razão do ódio pela derrota do intento separatista e o ressentimento por perderem o direito à utilização de mão de obra escrava, que por sua vez, alimenta a aversão e o medo ao negro, simultaneamente, quando diz que “[...], em Washington há mais negros que brancos.”. E segue a carta, onde ele acaba por revelar o segredo da garota, pelo que se exasperava e se fazia sentir impura e suja, por acreditar ter sido violentada por um homem negro, quando contava treze anos. Diz ele:

 

“[...]. Tu te queixas em tuas cartas de que não tens amigos aí e de que não te sentes feliz. Por que é então que te obstinas em viver nessa cidade que tu mesma achas monótona e desinteressante? Vem para casa, baby. Acho que não deves permitir que tua vida seja estragada por coisas que aconteceram há tantos anos e das quais não tiveste a menor culpa. [...].”.

 

Por não ser a pretensão deste escrevinhar entrar em pormenores a cerca do que fora dito na missiva dirigida à Senhorita Glenda Doremus, volte-se, portanto, ao aguardado encontro entre os dois moços, quando o secretário da embaixada da República do Sacramento em Washington, falaria à mestranda em História da América Latina, atendendo a um seu pedido de apreciação daquilo que escrevera e que lhe encaminhara para que lesse.

Depois de muito hesitar se aceitaria o convite que lhe fora dirigido por Pablo Ortega para que comparecesse à festa que o novo embaixador da República do Sacramento ofereceria no suntuoso prédio daquela representação diplomática, em alusão ao seu credenciamento junto ao governo de Washington, enfim, a jovem decidiu por vencer à sua insegurança pessoal e acadêmica, no que respeita à razoabilidade e à plausibilidade histórica do tratado que escrevera. Conforme fora apontado pelo secretário da embaixada, em mensagem manuscrita no verso do convite oficial, na ocasião, eles falariam sobre o que ela escrevera, como resultado dos seus estudos realizados sobre aquele pequeno país situado em algum ponto do caribe.

Depois de a ter recepcionado no recinto diplomático onde se daria a conversa e, depois de ter provocado a jovem, fazendo com que ela, muito à contragosto,  cumprimentasse o embaixador do Haiti, Pablo Ortega, tendo concluído estar diante de uma  pessoa “racista” – eles se conheceram há pouco; ele, por certo, embora desconfiasse, talvez não soubesse das inclinações dos sulistas à discriminação racial; ou procurara submetê-la àquele teste, precisamente por conhecer aquela tendência  –, conduziu a rapariga até um espaço reservado, distante do burburinho da festa e, após lhe ter ouvido o protesto por  a ter forçado a apertar a mão de um preto, enfim, iniciara a tecer as suas considerações sobre o que ela lhe encaminhara, com o pedido de apreciação.

Assim, Ortega começa a falar a respeito do texto escrito por Doremus, de modo bastante áspero e, conforme a observação do próprio Veríssimo, inexplicavelmente agressivo, ao dizer que “Sua dissertação não revela o menor senso de perspectiva histórica e está cheia de inverdades”. Diante da estupefação da moça e do seu protesto ao que ouvira, Veríssimo oferece ao leitor o seguinte diálogo, que precisará ser transcrito aqui, para que se possa compreender a afirmação que Ortega fizera, ao principiar a sua impressão sobre a produção em apreço.

“[...]. — Inverdades? Como? Por quê? 

“— Para principiar, você usou fontes de informação contaminadas.

“— Mas os dados que usei me foram fornecidos em grande parte pela sua própria embaixada!

“— É exatamente por isso que eu os declaro impuros, falsos. 

“— Você está bêbedo. 

“— Pode ser, mas isso não torna menos verdadeiro o que acabo de lhe dizer... [...]”.

Diante da quase paralisia mental da jovem, Ortega lhe assegura que:

 

“— Claro, há na sua tese coisas indiscutíveis — [...]. — O Sacramento é realmente uma ilha, fica no Mar das Caraíbas, foi descoberto em 1525 por um dos capitães do conquistador espanhol Francisco Fernando de Córdoba, um certo Leandro García Escala, que fundou Puerto Esmeralda na costa noroeste da ilha e mais tarde Cerro Hermoso, no platô central. Mas a história do puma fulvo que montava guarda à boca duma mina de prata e só devorava os espanhóis, ao passo que poupava os nativos, cujas mãos lambia, não é mais verdadeira do que a da loba que amamentou Rômulo e Remo. [...]”.  

 

Uma vez mais, diante do exposto pelo seu interlocutor, a rapariga evoca o fato de ter lido sobre o tema, em livro emprestado por um outro membro daquela mesma embaixada, procurando assim, validar a fonte que utilizara, construída sobre um mito, conforme lhe garante Ortega. É precisamente no que respeita ao seu excesso de confiança nas fontes que repousa toda a crítica desenvolvida por Pablo Ortega, às proposições  históricas apresentadas pela jovem historiadora da América Latina, que se deixara envolver pelas suas fontes, sem submetê-las às necessárias críticas, que acabou por engolfar a sua pesquisa e a perturbar a elaboração das suas hipóteses, de tal modo que acabou por cometer erros de avaliação e, por conseguinte, aceitar como verazes, os historiares dali extraídos.

É nesta perspectiva que, em dado momento, ela se queixa de não ter encontrado nos jornais que pesquisara do Sacramento, a informação que Pablo lhe dera durante a exposição que desenvolvia sobre a História do seu País, dando conta que o governo sacramentenho solicitara ao governo norte-americano, que lhe enviasse corpos de fuzileiros para combater um certo Juan Balsa, tido como um bandoleiro que precisava ser contido, uma vez que o exército local não possuía capacidade de combate para tanto. A senhorita Doremus, em defesa do seu desconhecimento da informação que acabava de receber, retruca o seu interlocutor, afirmando “— Não encontrei em nenhum dos jornais de Cerro Hermoso ou Puerto Esmeralda qualquer referência ao fato de o Governo sacramentenho ter pedido a intervenção dos nossos fuzileiros especificamente para perseguir e capturar Juan Balsa e seus companheiros”. 

Em resposta, Ortega lhe dera uma lição de como o pesquisador não deve proceder, ao examinar as fontes que estão ao seu dispor, sem que delas desconfie, por todo o tempo em que as esteja examinando, buscando sempre estabelecer confrontos que lhes assegure não estar se deixando enganar por elas. E postula o secretário da embaixada da República do Sacramento:

 

“— Claro que não. Uma notícia como essa poderia perturbar o mundo de Don Antonio María e da sua gentil ”corte” e por outro lado equivaleria a uma constrangedora confissão pública de impotência da parte do Exército Nacional. Noticiou-se apenas que o Governo de Chamorro havia dado permissão a um batalhão de soldados da amiga República norte-americana para fazer manobras de desembarque num certo ponto do território nacional”.

 

Mesmo que aquela mestranda em História da América Latina tivesse visto nos jornais que pesquisara – e ela apresenta um grupo deles, situados em ao menos duas das principais cidades daquele país caribenho, inclusive, os da sua capital – alguma notícia, do modo como fora descrita por Ortega, ela sequer desconfiara das fontes e, cravara, conforme a sua interpelação ao interlocutor, que não houvera intervenção norte americana, nas ações de combate à guerrilha de Juan Balsa. Ou seja, o pesquisador que se embate na tarefa de desenvolver alguma investigação histórica, não pode se deixar levar de roldão pelas suas fontes, sob pena de ter um trabalho historiográfico fragilizado e desancado por leitores argutos e/ou examinadores atentos aos caminhos percorridos pelo processo de execução da pesquisa histórica.

 

Alagoinhas – 20 de setembro de 2026 –último domingo de inverno brasileiro.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com – www.historias-e-memorias.blogspot.com