domingo, 9 de agosto de 2026

NACOS DE LITERATURA – ALGUMAS DIGRESSÕES – IV.

 

“[...] subtraída em tenebrosas transações”. (Chico Buarque).

 

Conforme tem percebido o arguto leitor destes garatujares, ao desenvolver algumas observações relacionadas aos processos formativos de José Mário, assim como, ao apresentar algumas das dissonâncias entre a sua inserção na vida adulta e a sua capacidade de abstração, que, em tese, o permitiria elaborar construtos que lhe permitissem perceber o mundo à sua volta, separando-o, adequadamente dos mundos propostos pelo conjunto de construtos literários que passaram sob os seus dedos ágeis e ávidos por percorrer as suas páginas em cada vez maior número, tem sido considerado o pressuposto de que, do mesmo modo como o seu processo formativo foi marcado por diversos hiatos de tempo entre as suas etapas, contradições, avanços e retrações em sua consecução, também o modo como se desenvolveu a sua capacidade de leitura do mundo à sua volta, não ocorreu dentro de um compasso uniforme e contínuo. Pelo que já foi exposto até aqui, infere-se que José Mário não compreendia as coisas no mesmo ritmo e tempo que o faziam os seus coetâneos e, por conta da diferença de idade entre ele e os seus colegas de série, mormente nos instantes em que entrara nas etapas finais do seu processo de escolarização, época em que era o mais velho das turmas em que fora matriculado, muitas vezes ele fora superado por colegas mais jovens, no que respeita a compreender e, por conseguinte, formar juízo, sobre o momento histórico, sociológico, político e cultural em que todos eles viviam, aqui e alhures.

Neste sentido, é ainda preciso salientar que, para que se tenha um pouco mais de elementos para compreender o que se vem conjecturando nas digressões aqui apresentadas, aquele processo de formação escolar aludido acima, que marcara o caminhar de José Mário, no que tange à sua preparação para se fazer inserir na vida como um todo e, na vida laboral em particular, além de ter sido marcado pelos hiatos já apontados, também era parco daqueles elementos que lhe permitissem, não só apreender e compreender os ensinos propedêuticos – de per si, já bastante paupérrimos e vagos – que lhe viessem a servir de base para as fases posteriores da jornada escolar. Mas, no seu caminhar escolar -e mesmo acadêmico –, ainda menos, ele fora dotado de instrumental que o capacitassem a pensar criticamente o que lia nos compêndios – escolares ou literários – para que pudesse elaborar de si mesmo, os juízos necessários à reflexão e a formatação de um viver diário em consonância com o ser social que insistiam em lhe categorizar como tal. Tendo ele um temperamento bastante resistente às aglomerações e, tendo um perfil econômico e social que lhe fazia pensar não caber em tal ou qual ambiente, mas, ao contrário, se querendo proteger de situações vexatórias e de iminente constrangimento, preferia se resguardar de socializações nas quais não se sentisse partícipe. Assim, isolado das “trocas simbólicas” que lhe disseram indispensáveis para a formação de um “ser social”, acabara por não incluir aquilo que depois viera a saber ser o “pensamento do outro” no seu repertório crítico-reflexivo.

Retomando a sua leitura de “o Senhor Embaixador”, talvez se possa afirmar, cerca de cinquenta anos depois, que a ausência de um contato social com grupos que já possuíam um repertório crítico-reflexivo mais desenvolvido e maduro, poderia ter contribuído para que se lhe não tivesse chamado a atenção, para os diversos discursos contidos naquela obra que lera com tanta intensidade. Veríssimo não os colocara ali, apenas para encher as páginas do volume que José Mário estava a percorrer com os seus dedos. Eles se encontravam ali, com o fito de apontar não somente as contradições humanas – que, aliás, José Mário sequer compreendera em sua inteireza, apesar de vivê-las cotidianamente – mas, sim, visando demonstrar como a corrupção já se entranhava nos Estados Nacionais, como traças enfestam bibliotecas, ainda que só possam ser identificadas, quando o pó do seu estrago, já se encontra acumulado nas estantes ou nos cantos mais recônditos do edifício que a abriga.

Durante toda a obra, este alerta ao leitor aparece em pelo menos três momentos, que, uma vez mais se saliente, aquele leitor mal entrado na puberdade e, ainda enredado na sétima ou oitava série, ainda não houvera atentado adequadamente, embora não houvesse se furtado a fazer aquela leitura integralmente. O primeiro deles se apresenta em uma carta endereçada à jovem Glenda Doremus, quando o seu pai a interpela a respeito de suas indecisões sobre o que de fato, ela queria estudar. Em dada altura da missiva, aquele homem rico do sul dos Estados Unidos, pergunta à sua destinatária, qual a utilidade de se estudar esta “tolice de América Latina”. Tal pergunta deveria ter acionado em José Mário algum alerta, visto se tratar de uma pergunta feita a partir de uma percepção prática de um indivíduo que não concebia estudos universitários que não fossem para um fim efetivo, por exemplo, na melhoria da produtividade que, por extensão de sentido, resultaria em melhores ou maiores ganhos monetários. Mas, ele nem ao menos se assustou com a indignação do pai da moça, visto que não possuía as conexões históricas que ligariam por exemplo, o sul escravista do período que antecedera à guerra de Secessão (1861-1865), que anexara aquela região ao mundo capitalista que imperava naquele País que resultara da vitória do "Norte", sobre o "sul". Isto ele não aprendera nas suas passagens pela sétima série do primeiro grau.

O segundo momento em que Veríssimo chama a atenção dos seus leitores para o mundo real que ultrapassava as páginas que ora eram lidas, inclusive por José Mário, se dá quando o secretário da embaixada brasileira em Washington, Orlando Gonzaga, manifesta a sua preocupação com as negociações em curso no Brasil – aquele Brasil de Juscelino e do "desenvolvimentismo" –, envolvendo a importação de uma vultosa quantidade de feijão, que achava absurda e desnecessária. “[...]. Era o fim do mundo. A compra ia ser efetuada por intermédio duma firma americana a respeito da qual a Embaixada Brasileira, graças a gestões dele próprio, Gonzaga, havia obtido de bancos de Nova York as piores referências. Era preciso transmitir com a maior urgência essas informações à Secretaria de Estado, a fim de evitar que a transação se consumasse. [...].”, o diplomata brasileiro a quem Veríssimo dera voz, entendia que, além de perigosa, por se tratar de uma negociação a partir de empresa que não gozava de confiança, nem mesmo dos norte-americanos, a transação era desnecessária, visto não haver efetiva necessidade de que aquela compra fosse efetuada. E, uma vez mais, o rapaz que lia aquelas linhas na longínqua Alagoinhas, nem se dera conta de que aquilo se tratava de fato – ou ao menos, poderia se tratar -, preferindo o confortável entendimento de estar a ler uma ficção urdida a partir do talento do seu autor.

Mas, indiferente ao entendimento simplista e raso do seu leitor, Veríssimo vai mais longe em sua denúncia, quando, ainda ao falar por meio do seu personagem, ele afirma que:” [...]. Gonzaga ia transmitir a informação apenas para varrer a testada, a fim de  que a embaixada não fosse, no futuro, acusada de negligência ou de cumplicidade. Mas não tinha muita esperança de que aquelas informações bancárias fossem levadas na devida consideração. Começava a farejar  patifaria no negócio do feijão. Às vezes tinha a impressão de que, no Brasil, quase todas as figuras responsáveis pelo Governo haviam perdido a dignidade. As chamadas elites haviam falhado por comissão ou omissão.  Salvava-se pouquíssima gente. Era um descalabro...   [...].”. É claro que aquele leitor desprovido de instrumental histórico para perceber a gravidade do que estava sendo apontado por Veríssimo, até sabia o que era “patifaria”; “omissão”; “negligência”; “cumplicidade”. Mas, o que seriam as tais “elites”? Quem as formariam ou quem a ela pertenceria? Ah, isto ele não sabia, sequer possuía qualquer ideia, a mais fugidia que fosse.

Assim, caminhara ele para a conclusão de sua leitura e, zaz!: eis que aparece o diplomata brasileiro, a quem veríssimo empresta um discurso indignado, pois, como ele imaginara, os dirigentes brasileiros não deram ouvidos aos seus alertas e, efetivara a “tenebrosa” transação, que, no dizer de Chico Buarque de Holanda, lhe subtraíra recursos que poderiam ter sido investidos no provimento de necessidades imperiosas para o torrão ““pátrio”. Depois da secretária norte-americana da embaixada da República do Sacramento demonstrar a sua indignação com a sentença impingida ao seu antigo chefe, foi a vez de Veríssimo entregar a Gonzaga a oportunidade de também se indignar, mas, com outra coisa. Ao responder a indagação da secretária ora responsável pela embaixada sacramentenha, se as coisas também lhe não iam bem, Gonzaga lhe retruca que não e, Veríssimo assegura ao leitor que “[...]. Apesar de todas as informações que sua embaixada mandara ao Governo Brasileiro sobre a firma à qual uma das autarquias nacionais ia comprar uma grande partida de feijão, a transação se       verificara-se depois (os jornais noticiavam o escândalo) que o feijão estava podre!  [...].”. E, José Mário continuava a sua leitura superficial, sem ao menos atentar para o que se passava de fato, enquanto os dois diplomatas sorviam as suas bebidas. É então o momento em que Veríssimo introduz o terceiro dos discursos aqui aludidos, aproveitando o desfecho do caso que suscitara aquela obra, para inserir o Brasil real no contexto de uma República do Sacramento fictícia, mas que serviria aos prováveis propósitos do autor, o de criticar a sua própria República, ora igualmente submetida a uma ditadura. E, para demonstrar ao seu leitor a medida da indignação do diplomata brasileiro, empresta-lhe o discurso em forma de desabafo:

“[...]. — Feijão podre! Um símbolo de nosso regime, da podridão de nossos governantes e políticos. O  Brasil, [...], é um país saqueado. De fora para dentro. De dentro para fora.  De cima para baixo... Ninguém nunca é responsabilizado por coisa alguma.  Ninguém vai para a cadeia. [...]”.

Depois, Veríssimo enfatiza o desconforto – seu e de quantos discordavam da teoria do “Homem Cordial”, de Sergio Buarque de Holanda (1902-1982), em “Raízes do Brasil – 1936” – do seu personagem, formulando diversas objeções sobre a “cordialidade” do brasileiro, inclusive, mencionando o seu próprio pai, Senador da República e, partícipe de várias ações cordiais pouco convencionais e, que, ao fim e ao cabo, favorecera até mesmo aos seus próprios cavalos de raça, quando desfrutavam de leite em pó, teórica e oficialmente  destinado à crianças famélicas e desnutridas de regiões pobres de uma imensidão territorial denominada Brasil.

Transcreva-se aqui, à guisa de conclusão, o último trecho do discurso que Veríssimo insere no falar daquele diplomata, no qual aparece a maneira como pensara e se expressara enquanto bebericavam no outono da capital norte-americana. Observe-se que, a “simpatia” a que alude Orlando Gonzaga, talvez, queira significar a “cordialidade” acima apontada, em uma espécie de desvio que Veríssimo promove para, quiçá, evitar ferir alguma suscetibilidade.

“[...]. Somos tão simpáticos que  nos acostumamos à miséria em que vivem mais de dois terços da população  total do país... uma miséria abjeta, que, no nosso Nordeste, é igual ou pior  que a asiática... E, como somos simpáticos e caridosos e, às vezes, vamos aos  domingos à missa, durante a qual sorrimos e acenamos de longe para Deus  (que deve ser um sujeito simpático), de vez em quando damos esmolas aos  mendigos, vagamente convencidos de que assim estamos contribuindo para  resolver o problema social... [...].”.

Enfim, para compreender as comparações feitas às situações reportadas por Orlando Gonzaga e, para compreender as inferências que Veríssimo procurava fazer, no intuito de conduzir o seu leitor à reflexões que lhe permitissem chegar à mensagem que ele queria transmitir por meio do seu texto ficcional, seria preciso dispor de informações extratextuais e de um pensamento crítico aguçado, ferramentas e  instrumentos importantes para chegar a um tal entendimento, que, José Mário não dispunha, embora possuísse algumas obras de teoria literária, que nunca lera e, quando procurara o fazer, nunca as compreendera o suficiente, no sentido de perceber a produção literária como uma ferramenta para compreender o mundo por meio das tramas que ali eram propostas. E hoje, no momento mesmo em que estas linhas estão sendo escritas, haveria ainda leitores como o José Mário de cinquenta anos atrás? E “a pátria mãe tão distraída”, ainda estaria sendo “subtraída” por “tenebrosas transações”?

 

Alagoinhas – 09 de agosto de 2026 – inverno brasileiro.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com – www.historias-e-memorias.blogspot.com 

domingo, 2 de agosto de 2026

NACOS DE LITERATURA – ALGUMAS DIGRESSÕES – III.


Introdução – segue

 

Mais uma vez, o paciente leitor tem diante de si, uma tentativa de refletir sobre o modo como José Mário se relacionava com a produção literária que lhe caíra nas mãos, nas mais diferentes etapas do seu processo formativo. Ali, de per si, ele procurava se moldar enquanto quem precisava apreender a realidade à sua volta, na medida mesmo das suas limitações sensoriais. Em tal contexto, o rádio e os livros eram, simultânea e paradoxalmente, o modo por meio do qual ele conseguia perceber o mundo e dele fazer a sua leitura, ainda que, em vários momentos, tal leitura não correspondesse precisamente ao que de fato era ou poderia vir a ser. Se a percepção de mundo a partir da radiodifusão era mediada pelas locuções oriundas de programas de tipo noticiarista, entretenimento ou opinativo, filtrada pela censura ou pela autocensura – situações que se originavam nos órgãos repressivos do Estado, chegando à ser perpetradas pela direção e pelo grupo proprietário das emissoras, quase sempre aliados ao Regime autoritário em vigência no Brasil pós-64 –, era ao mergulhar na literatura que ele poderia escapar dos filtros que o impediam de perceber o Brasil real, o Mundo real em que ele estava inserido. No entanto, mesmo com a liberdade de alcançar um mais amplo entendimento de uma parte daquilo que se lhe apresentava cotidianamente, faltava a ele, os elementos filosóficos que poderia chamar em seu socorro, no sentido de elaborar a interpretação do que lia e, principalmente, propiciar a aplicação à sua construção mental, daquilo que lia. Nem se está a falar de uma filosofia livresca e distante da sua realidade intrínseca; mas, sim, de um dia a dia cercado de gentes que lhe pudesse ajudar a compreender o que de fato se passava com a espécie humana, que insistia na guerra, na acumulação de haveres e mesmo de saberes, por um grupo de humanos, em detrimento do depauperamento de outros grupos tão humanos quanto os primeiros. Esta explicação nunca lhe fora dada, até porque, ele quase que não possuía tal percepção; mesmo ele sendo parte daquele grupo depauperado, talvez, sequer se desse conta de que aquele estado de coisas era socialmente construído e, sustentado à custa dos inúmeros que pouco ou nada possuíam.

Assim, era a literatura que o informava de tais diferenças, embora isto ele não percebesse de imediato, uma vez que, para ele, a literatura era fruto de imaginações vindas de cabeças férteis e, por assim dizer, “iluminadas”, que traziam para os livros os enredos por eles pensados, com o fito de promover uma espécie de torpor, naqueles leitores que, por acaso, se viessem a reconhecer em algum daqueles personagens que tivessem sido caracterizados de modo a aproximar-se de quem os encontrasse representados naquelas páginas. Para José Mário, a literatura não passava de um debate intelectual, por vezes romanesco, por outras mais próximo do mundo realmente vivido pelas pessoas de carne e osso, mas, sempre algo imaginado, criado, mentalmente elaborado, sem a pretensão de apresentar ao leitor alguma coisa factível. Para ele, aquele conjunto de enredos bem urdidos, sistematicamente elaborados, era, quase sempre, uma representação do real, sem nunca se pretender apresentar o que e como de fato era. José Mário não conseguia estabelecer quaisquer nexos que lhe permitisse compreender uma obra apresentada como realista, romântica ou naturalista, como sendo uma manifestação de seus autores em favor de uma mudança social ou mesmo, em defesa de um determinado status quo.

Talvez, se pudesse aqui conjecturar, evidentemente, com base na experiência já há muito passada, que, tivesse ele tido acesso à leitura de jornais, considerando-os, no que tange à variedade de suas tendências, na diversidade de sua circulação, no público leitor que pretendia alcançar, bem como no variado espectro do modo de pensar dos seus redatores e/ou proprietários, tendo contato com as suas notícias, os seus editoriais, com as suas reportagens/matérias e, principalmente com os seus artigos opinativos, José Mário teria adquirido elementos mais sólidos em que elaborar um melhor perceber da literatura, que é um pacote fechado que, quando entregue ao leitor, nenhum dos seus construtos poderia ser alterado. Houvera ele tomado contato com as crônicas e com os artigos que eram publicados nos diversos periódicos que circularam no tempo em que se dera a sua formação, é provável que lhe fornecessem os elementos que lhe faltavam para melhor compreender a produção literária que lhe formatara o pensar. Os jornais, embora igualmente submetidos à censura e à autocensura, conseguiam contornar melhor os interditos e, por conta da sua imediaticidade, os filtros se tornavam menos eficazes. O fato de ser publicado logo no dia seguinte ao acontecido, ao escrito e ao reportado, acabava por transformar o jornal em um cabedal de criticidade entregue ao crivo dos seus leitores. Qualquer deles, em acesso de humor conduzido pela biles, só poderia propor alguma interdição ao escrito ou ao reportado que se lhe não fosse agradável e/ou lhes ferisse os brios, depois de ter o periódico já circulado e sido lido por um bom número de outros cidadãos pelo Estado, pelo País ou mundo a fora.

Pois bem: José Mário não tivera acesso a este pântano de sapos, cobras e lagartos, que lhe poderia fornecer um excelente ferramental a partir do qual ele poderia aprofundar a sua compreensão de mundo, oferecida pela literatura. Por certo, é da falta daqueles elementos norteadores de um pensamento crítico, capaz de perceber nas linhas e nas entre linhas, nos textos e nos intertextos, as vicissitudes de uma humanidade em crise “existencial” permanente, que tornou José Mário um leitor maquinal, que não conseguia estabelecer relações entre o escrito nos livros que lera e à realidade que vivera, inclusive, no seu cotidiano pessoal. Quando lera em “O Senhor Embaixador” as pequenas exposições feitas por Veríssimo de algumas circunstâncias vividas por alguns de seus personagens, não conseguia perceber a sociedade latino-americana cruamente retratada nelas. Como ilustração da premissa acima engendrada, considere-se a atitude da jovem Glenda Doremus, ao ser apresentada a um dos embaixadores africanos presentes na festa que Gabriel Heliodoro dera por ocasião do seu credenciamento junto ao governo norte-americano e, a explosão de ira manifesta pela moça, ao se encontrar sozinha com o seu anfitrião, Pablo Ortega, a quem se declarou racista, porém, não antes de o censurar por tê-la forçado a apertar a mão “daquele negro”. É preciso salientar que, José Mário não conhecia aquela expressão, aquela atitude de repulsa a uma pessoa negra – nem mesmo aquela diferença manifesta na cor da pele – e, nem mesmo o conceito de racismo, enquanto manifestação de não aceitação de uma pessoa por conta de sua etnia, era do seu conhecimento.

Assim, por acreditar tratar-se de ficção magistralmente construída pelo seu autor, não compreendia que ali estava representada a humanidade – ainda que partes dela – com suas idiossincrasias Isto é, o que José Mário tinha sob os seus dedos, era elementos romantizados de uma realidade efetivamente vivida e, que ele não conhecia, embora, também fosse parte daqueles circunstanciares que Veríssimo lhe apresentava através da “República do Sacramento”, descrita em cenas passadas na capital norte-americana, entre a primavera e o verão de 1959.

 

Alagoinhas – 02 de agosto de 2026 – inverno brasileiro.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 26 de julho de 2026

NACOS DE LITERATURA – ALGUMAS DIGRESSÕES – II.

 

Introdução - segue

 

O que os pacientes leitores destas páginas terão diante de si e para a sua consideração, é mais um tracejar conciso de um caminhar nas lides da leitura de um sujeito que buscava encontrar nela o aprofundamento da vida escolar. Ele imaginava que, aquelas informações que não poderiam ser obtidas nas lições escolares, poderiam sê-lo nas obras ficcionais, sobretudo, conforme pensava, aquelas que o ajudariam a melhor escrever, a melhor falar, o que se alcançaria ao ampliar o seu vocabulário, pois assim lhe era ensinado nas aulas de “Comunicação e expressão” e, mais tarde, nas aulas de Literatura brasileira e/ou portuguesa. Para um melhor entendimento do que se acaba de afirmar, faz-se necessário apontar para um traço da personalidade daquele menino em formação, uma vez que, ele imaginava que locucionar adequada e corretamente, poderia vir a ser uma saída para o seu caso, visto ser ele desprovido de recursos financeiros e econômicos; destituído de relações políticas e sociais que lhe pudessem favorecer quando fosse o momento de buscar um espaço onde viesse a obter uma remuneração que lhe permitisse prover o necessário a si e à sua mãe, então, a sua única provedora. Destarte, seria no campo da cultura, que acreditava poder ingressar sem precisar de indicações ou apadrinhamentos, que recairia o envidar de seus esforços, no sentido de contornar os dois fossos aludidos frases acima, que se interpunham entre ele e os demais elementos constitutivos do viver social e, de acordo com o que lhe fora feito imaginar, não os poderia transpor ou contornar, sem que tivesse um diferencial para o fazer. Conforme o entendimento daí depreendido, se não se é bonito nem atraente, ao menos, que use bem e expresse corretamente o idioma. Passara a crer, portanto, que o tal diferencial seria o bem falar, o bem escrever. Porém, faltou que lhe fosse apontado um outro pilar para obter o tal “diferencial”: o bem refletir; o cogitar; o “pensar”, além do lido, do ouvido, do ensinado, do aprendido. Não é demais salientar que no período de sua formação escolar, o ensino fora bafejado pela desditosa reforma da educação, que alijou o ensino de História, de Filosofia e de Sociologia do contexto da formação geral dos estudantes, nos níveis básicos e secundários, fazendo com que a capacidade crítica daqueles que foram atropelados pelas ações repressivas sobre o processo de escolarização, se tornasse frágil e/ou inexistente; quando muito, se tornou latente e, privilégio de pouquíssimos.

Assim, este segundo arrazoar introdutório da série que pretende desenvolver algumas reflexões a respeito da apropriação da produção literária que José Mário pudera ler ao longo do seu processo formativo, intenta trazer mais alguns exemplos do modo como ele pouco ou nada compreendia daquilo que lia, para além dos aspectos da trama desenvolvida nas obras que lhe eram dadas a percorrer. Retomando a obra de Érico Veríssimo (1905-1975), “O Senhor Embaixador”, aludida no garatujar anterior, publicada pouco mais de um ano após a deflagração no Brasil do Golpe Civil Militar de 31 de março de 1964 e, cerca de seis anos após a deflagração da Revolução Cubana.

No momento em que toma contato com aquela obra pela primeira vez, José Mário ainda estava cursando, talvez, a sexta série do então primeiro grau, logo tendo se lançado à sua leitura, e, sofregamente percorrera os seis volumes em Braille em que fora transcrita a História da República do Sacramento. Talvez mesmo, aquela obra fosse imprópria para a sua leitura, menos por conta da pouca idade, mais por conta da imaturidade do seu espírito – sem falar no seu estágio escolar atrasado em relação a outros jovens seus coetâneos –, visto que já contava cerca de quinze ou dezesseis anos. Tal imaturidade se refletia não só na dificuldade de compreender os diversos  e imbricados diálogos que compõe a obra, as descrições das personagens e as imersões em seus pensares mais recônditos, bem como, no que respeita aos emaranhados de fatos e circunstâncias envolvendo protagonistas e coadjuvantes da trama urdida por Veríssimo e, suas repercussões, marcas de um novo tipo de construção literária a que não fora previamente apresentado. Salvo um lapso de memória deste escrevedor, aquela talvez tenha sido a primeira obra escrita no século em que José Mário nascera e chegara aos anos da puberdade. Até ali, só houvera lido alguns clássicos do dezenove, ainda assim, fazendo leituras vocabulares e silábicas, sem quaisquer laivos de interpretações textuais.

Outrossim, faltava àquele leitor voraz, as informações contextuais que o pudessem ajudar a estabelecer os nexos entre o que lia e a realidade que tal leitura lhe queria apresentar. Embora ali estivessem listadas localidades, situações, pessoas e circunstâncias constantes do mundo de fato existente, ele não dispunha de elementos informativos e formativos que o auxiliasse a sair das páginas ficcionais para as sutilezas que o autor estava obrigado a inserir nas falas colocadas nos lábios do seu conjunto de intérpretes. As ideias ali expostas a partir de cada movimento dos diversos personagens, longe de serem abstrações de um literato engenhoso, conforme pensava aquele leitor, quando pensava, eram proposições trazidas à consideração  de tantos quantos as pudessem perceber. Quando Veríssimo se dispõe a descrever os traços desta ou daquela personagem – e isto, aquele leitor não percebia senão como um traçar de características singulares e estravagantes –, pretendia como que apresentar um retrato completo daquele personagem, não como alguém meramente inventado, mas sim, como gentes existentes e agentes no desfiar da sua trama.

Por exemplo, ao descrever a paisagem de Washington preparando o leitor para o desenrolar dos fios que foram tecidos para contar uma parte da História da República do Sacramento, aquela desenvolvida na capital norte americana, Veríssimo procura apresentar aquela cidade a tantos quantos não a conheçam ou se algum dos leitores já lá tenha estado, a possa reconhecer. Tal recurso é deveras importante para que um princípio do conceito de História se estabeleça: alguma coisa só acontece em algum lugar e em um tempo dado. Mesmo o lugar ficticiamente construído, no caso em exame, a República do Sacramento, o seu estabelecimento se faz necessário, com o fito de relacionar o Estado existente onde se fará credenciar o novo embaixador. Portanto, Veríssimo precisa lançar mão de um lugar real e de um outro imaginário, para poder ambientar a sua construção literária que, na verdade, não é só uma construção saída da sua imaginação; mas, talvez se possa aqui dizer, uma denúncia de um estado de coisas que prevalecera em toda a América Latina, sobretudo, quanto estiveram em confronto os fantasmas norte americanos de um comunismo iminente e as necessidades de pão e terra de todos os demais Estados sobre os quais recaíam as suspeitas de simpatia pela União Soviética ou, quando menos, pelas suas ideias de justiça social.

Ainda considerando a ambientação da trama no tempo e no espaço, quando Veríssimo descreve os mais proeminentes elementos do corpo diplomático que passará a ser liderado pelo “Senhor Embaixador” recém-chegado, apresentando as suas idades presumidas, ou indicando o tempo em que alguns deles ali atuam, permite ao leitor interessado, reconhecer, mesmo que de maneira aproximada, mediante pesquisas – hoje mais ágeis e rápidas –, a partir de associações com passagens do próprio enredo – o novo embaixador apresentará as suas credenciais ao presidente Eisenhower –, quando aqueles eventos se deram.

Veríssimo abre o seu texto com uma espécie de homenagem a um correspondente inglês, que diz aos homenageantes já está próximo dos sessenta; que fizera a sua primeira entrevista com o compadre de quem iria assumir a embaixada da República do Sacramento, realizada no esconderijo de Juventino Carrera, em 1925, quando aquele aprendiz de jornalista contava 24 anos; que Gabriel Heliodoro Alvarado teria nascido em  1903 e, que a altura que se faria credenciar junto à Casa Branca, deveria contar pouco mais de cinquenta anos, sempre presumíveis. Tais indicações, depois de alguma reflexão e argúcia – o que, conforme já se tem salientado, José Mário ainda não possuía quando fizera aquela leitura –, poderia fazer o leitor arriscar uma presunção do tempo histórico em que se faz desenvolver a trama, como tendo sido em algum momento entre 1953 e 1961, postulando que já tivesse passado de 1959, por conta da alusão do autor, à preocupação manifesta por Eisenhower com Cuba e a sua Revolução.

Entretanto, reforce-se de passagem que, estas formulações nem de longe passavam pelas cogitações daquele leitor há pouco entrado na puberdade, para quem, Cuba era pouco mais que uma palavra, que um país longínquo, tanto quanto desconhecido, até mesmo de uma boa parte daqueles poucos que o cercavam para conversas que, aliás, sequer abrangiam o campo da política. Se para José Mário, Cuba era pouco ou nada conhecida, menos ainda o era a União Soviética, de quem só ouvira falar, quando por meio dos seus atletas e/ou equipes, se destacava em diversas modalidades esportivas; quando no noticiário, era ela citada como tendo sido protagonista de um boicote às olimpíadas de Los Angeles; ou ainda, quando aparecia nos telejornais, alguma notícia que dava conta de alguma “deserção” de cidadãos comuns, militares  e intelectuais dissidentes e/ou de desportistas que se queriam abrigar sob o regime da “liberdade” do mundo capitalista, em contraposição à “ditadura” que diziam viver no mundo da “cortina de ferro”. Mas, saliente-se ainda uma vez mais, ele pouco compreendia estes jogos de palavras, estas frases ditas inumeráveis vezes nas emissoras de rádio e de televisão, que, paradoxalmente, defendiam – ou precisavam defender – um país cujo governo matava, censurava e fazia desaparecer aqueles que ousavam erguer a voz em forma de música; ou por meio de publicações clandestinas; ou através da teledramaturgia; ou mesmo, por protestos estudantis e professorais, para denunciar a truculência daqueles que governavam “o país que vai pra frente”.

 

Alagoinhas – 26 de julho de 2026 – inverno brasileiro.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 19 de julho de 2026

NACOS DE LITERATURA – ALGUMAS DIGRESSÕES – I.

 

Introdução

 

Conforme já se pode perceber no título dado ao texto que ora se faz publicar, ao escrever estes garatujares em forma de reflexões envolvendo o  fazer da História e uma ínfima parte de uma dada construção da Literatura, este escrevedor inicia um novo desfilar de postulados com o qual pretende conversar com quem tenha a paciência e o interesse neste tipo de tema. Cabe salientar de passagem que,  quem traceja estes escritos, há algum tempo vem fazendo algumas incursões voltadas para o estreitamento de um esforço para compreender a História a partir da literatura. É neste sentido que publica em 2024, o livro intitulado “Um retrato tirado de Alagoinhas ”quando ela ainda era menina moça” :  histórias e memórias da cidade, nos escritos de Maria Feijó”,  uma obra inserida no âmbito da coleção “Nem “Vultos”, nem “Feitos”: UM CONSTRUTO DE HISTÓRIAS E MEMÓRIAS ATRAVÉS DE DIVERSAS TRAJETÓRIAS”, por meio da qual procura entender um pouco da História de Alagoinhas, tendo como ponto de partida o avultado romance da literata alagoinhense Maria Feijó de Souza, usando a epígrafe que ela propõe nas páginas iniciais do seu avultado compêndio. Por meio daqueles historiares literários, se buscou entender algumas tomadas de posição no campo da política social por parte da elite econômica e cultural da cidade, posicionamentos que, aliás, estão de algum modo delineados no modo de pensar daquela sociedade que Feijó entendia como “ainda menina moça”, o que talvez se quisesse dizer “ainda adolescente”; ainda em formação. Na obra de 2024, o seu autor procurara apontar os traços que Feijó faz desfilar ao longo das oitocentas páginas de uma trajetória professoral que, na prática, expõe as sub-reptícias atitudes de uma elite social, econômica e cultural que por sua vez, encarnava um modo de pensar calcado em uma moral parcial e classista, pouco ou nada aplicável àqueles que dela fosse uma das partes.

Mas, conforme já é de conhecimento de quem acompanha estes arrazoares, José Mário, personagem esquadrinhado em grande parte dos textos aqui publicados, embora tenha sido um leitor voraz, sempre tivera grande dificuldade de ir além dos textos que se lhe passava sob os dedos. Ele entendia o texto pelo texto, sem que pudesse identificar alguma coisa que estivesse além daquilo que ali se encontrava escrito; ele não imaginava que os escritos que lhe caíra nas mãos e que percorrera com atenção, ultrapassassem as páginas nas quais estavam impressos em forma de caracteres. José Mário não conseguia identificar a existência de uma História que norteasse tal ou qual texto, senão, aquela ficcional, construída pela argúcia da imaginação do seu autor. Sequer desconfiava haver uma História de fato vivida, em algum tempo ou lugar, que acabaria por desencadear no romancista, uma capacidade para desenvolver a construção de uma obra em que tal “História” ganharia contornos ficcionais. Para ele, não era verossímil que tal ou qual obra, em quaisquer dos casos, fosse apresentada de modo a descrever o cotidiano de um sistema social, econômico ou cultural, procurando destacar as opressões, as pressões, as tensões  e/ou circunstâncias que precisassem ser realçadas mas, que por vezes, não poderia ser explicitada. Em suma: para José Mário, aquele conjunto de obras rotuladas genericamente de “Romance”, nada mais era do que o fruto do trabalho ficcional de engenhosos criadores de enredos bem elaborados, bem urdidos, com personagens bem construídos e com roteiros bem sincronizados que, ao fim e ao cabo, visava instigar o imaginário do leitor e, de acordo com a capacidade de imaginação de cada um, pensar em realidades diversas daquelas então vividas; em outros casos, fazer crer que, em algum momento, em algum rasgo de sorte, poderia ser que a sua realidade de falta de quase tudo, sofresse uma virada tal que, a fartura de tudo viesse a ocupar o lugar real no seu viver. Ah, mas a realidade era tão dura que, na maioria das vezes, nem mesmo um romance bem tramado era capaz de arrancar aquele leitor do lugar em que se encontrava, ao devorar aquelas histórias de sucesso e ventura daqueles personagens que lhe cativara a preferência.

À guisa de exemplo daquilo que se acabou de explicitar, se tomará o caso da leitura que José Mário fizera de “O Senhor Embaixador”, obra publicada em 1965, pelo gaúcho Érico Veríssimo (1905-1975), cuja trama girava em torno de uma certa República do Sacramento!, país imaginário instalado em algum canto do Caribe. Tal república era uma ditadura que estava prestes a cair sob o fogo da revolução comunista e, que o seu embaixador nos Estados Unidos da América se dispusera a lutar ao lado do “compadre” que o elevara ao posto diplomático mais importante. É claro que José Mário não tivera senão o texto em si; jamais imaginara que Veríssimo empreendia uma crítica mordaz aos sistemas ditatoriais encarapitados em uma considerável parcela de países da América Latina – inclusive a deflagrada no Brasil em 1964 – e, que para os denunciar, precisava ocultar as suas localidades em países inventados, bem como os seus nomes reais, escamoteados em personagens caricatas e estravagantes. O que para José Mário talvez se aproximasse de uma realidade dada, ainda assim, uma realidade bem distante daquela descrita por Veríssimo, fosse a caracterização de cada um dos elementos presentes na trama por ele urdida, que acabara por levar Gabriel Heliodoro Alvarado ao fuzilamento pelo pelotão revolucionário, por ele desdenhado, ao legar os seus “conjones” a algum museu que acreditava seria erguido para homenagear o governo que ora acabava de ser derrubado.

Mas, para além disto, nada mais. Ele, conforme já se salientou, não conhecia o contexto sob o qual se produziu o artefato literário que acabara de ler e, por consequência, não lhe pudera compreender, nem esmo aceder o intertexto, visto que, ainda de acordo com o que já se apontou, ele não fora capacitado para perceber além das palavras que lia; não conseguia racionalizar aquilo que não fosse percebido na superfície a ele apresentada. Foi preciso o transcurso de um longo  tempo e a reformulação da sua compreensão sobre a literatura, para que a pudesse entender como uma das diversas formas de apresentar a realidade aos que dela fizessem uso, no sentido de apreender o fazer histórico que se desenvolvia em seu entorno. Tal compreensão lhe permitiu – já bem mais tarde, ao longo do seu processo formativo – um aproveitamento da produção literária que se lhe passou pelas mãos e pelos ouvidos, no sentido de poder obter maiores ganhos na sua compreensão e, posteriormente, na sua utilização como uma ferramenta para a compreensão da História.

Entretanto, para José Mário, o momento em que se dá o salto para a compreensão da literatura como uma ferramenta capaz de abrir o entendimento para a apreensão de algumas dentre as muitas “faces” da História, está situado no ano de 1996,quando  ele é convocado para assumir a docência na cadeira de História da América, após ter estado em uma lista de espera, por conta de sua aprovação em segundo lugar, no último dos concursos feitos para ingressar na Uneb. Passados alguns meses da publicação do resultado, fora consultado sobre o seu interesse em assumir as disciplinas relacionadas à História da América, uma vez que aquela que a lecionava, fora transferida para outra unidade e, ficara vaga a cadeira que ocupava. Enquanto procurava atender às exigências legais e médicas para atender à convocação, passara a conversar com professores que trabalhavam com aquela matéria, sobretudo, aquela que a desenvolvia no curso de História da Ufba. Ao recebê-lo em sua casa, quando lhe passava algumas informações sobre o modo como ela estruturava os semestres em que trabalhava com a América independente, falara de autores e obras relacionadas à disciplina e, lá para as tantas, pronunciara dois nomes de literatos que lhe soaram desconhecidos e, de fato o eram, causando nele uma estranheza relacionada à sua inserção entre as referências para o estudo da matéria em causa. Falara de Mário Vargas Llosa – de quem dissera não gostar, por suas posições políticas serem divergentes  – e, também falara de Gabriel García Márquez que, não obstante ser um dos detentores do Nobel de Literatura, José Mário nunca houvera ouvido falar. De volta para a sua Alagoinhas, com as mãos cheias de sugestões bibliográficas e o cérebro girando a onze mil por segundo, se autocensurava  pelo fato de já haver concluído a graduação; já ter sido aprovado para ingressar no mestrado; já estar prestes a assumir um lugar de docente na universidade e, nunca – ao menos não se lhe ocorrera – ter ouvido falar de García Márquez, de Vargas Llosa – ao menos eles, que poderia fazer uso das obras. Mas, como o fazer, se as não conhecia?

Para além de não conhecer as obras ou os autores mencionados, José Mário possuía mais um limite que precisaria superar. Para ele, literatura, era literatura e História, era História, como se fossem água e óleo: não se misturavam e, se misturasse, um sujaria a água e, esta, por sua vez, limitaria a utilidade do que lhe acabara de sujar e impossibilitar o seu uso, tanto para beber, quanto para limpar. Assim pensando, por algum tempo, ele relutou em incorporar o uso da literatura à sua metodologia de ensino de História da América. .

 

Alagoinhas – 19 de julho de 2026 – inverno brasileiro.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 12 de julho de 2026

FRAGMENTOS DE MEMÓRIA PEDAÇOS DE HISTÓRIA - PARTE XX.

 

FRAGMENTOS DE MEMÓRIA PEDAÇOS DE HISTÓRIA - PARTE XX.

 

 

Enfim, graduado – Os concursos – IV.

 

Os caros leitores destes rememorares que já se fazem bem longos, saliente-se, encontrarão neste último fragmento de memórias, algumas frações de histórias vividas por José Mário enquanto procurava se afirmar como pessoa, como homem e, sobretudo, enquanto profissional minimamente capaz de desenvolver satisfatoriamente o labor para o qual se fizera preparar ao longo de pelo menos uma década, alguns elementos que consubstanciaram o desfecho de uma parte do processo desencadeado logo em seguida à conclusão da graduação, por meio do qual era forjado o docente em que fora erigido, uma vez aprovado e empossado no cargo de professor auxiliar, depois de embater-se em busca de aprovação em alguns concursos, de acordo com o que está posto no último parágrafo do arrazoado anterior. Aqui, por fim, se procurará apresentar de relance, alguns dos momentos mais cruciais daquele caminhar de quem já houvera ingressado na terceira década de vida, avançado mais cinco anos sobre ela e, nada de concreto, nada de assegurado, nada de palpável se lhe afigurava, em todos os sentidos do viver humano, malgrado os seus esforços em reverter o espectro de fracasso que lhe rondara o viver, por todos aqueles verões já por ele passados.

Conforme já é cediço de quem acompanha estes garatujares, em todas as fases anteriores do caminhar de José Mário, o tropeço e o embaraço eram já lugar comum, quando ele se lançava em alguma empreitada, sobretudo, aquela que implicasse na busca de espaço no campo da atividade laboral. A cada fracasso experimentado em suas tentativas de alcançar a obtenção de meios de subsistência, eram acumuladas camadas de cansaço, sensação de impotência e, imensas dúvidas sobre a tal “capacidade” que se lhe atribuíam, visto que, sempre saía dos certames com mais um fracassar quase que já desenhado. Por vezes, ele andara a ermo pela cidade, horas e horas a fio, como que buscando encontrar explicações, motivos; como que buscando racionalizar os porquês  e, os encontrando, de que forma os resolver, para ter ânimo e, encarara mais um, mais um, mais um...

Assim é que se passaram os anos de 1993, 1994, 1995 e 1996, quando enfim, ingressara simultaneamente no mestrado na Universidade Federal da Bahia e na docência na Universidade do Estado da Bahia; assim é que precisou caminhar, cair e procurar levantar de cada uma das quedas que levara em todo aquele tempo. No primeiro semestre de 1994, por exemplo, duas delas. A primeira, previsível, visto que nunca se houvera submetido a um certame naquele formato em que se fazia uma prova por cerca de seis horas; depois, se sorteava um tema e se apresentava uma aula no formato 50 minutos, acreditando que o tema precisaria ser esgotado em um tempo tão exíguo, não compreendendo, portanto, que o que estava a se julgar, era exatamente a capacidade de síntese, que aliás, ele nunca a tivera nem a teria, quando o candidato demonstraria não só o conhecimento do tema abordado, bem como e principalmente, que não seria possível dar conta de sua largueza, de sua complexidade e de sua profundidade, em apenas uma única aula de 50 minutos. Este conhecimento, esta consciência, José Mário só adquiriu com os tomos levados. Naquela primeira tentativa, ele concorrera com um colega muito melhor preparado e, ele sabia disto. No entanto, acreditara que ao menos se faria classificar para esperar segunda ou terceira chance, se eventualmente houvesse.

E, dias depois, tendo sabido ter saído o resultado, como sempre o fizera, procurara saber qual teria sido o seu, não diretamente; mas, tentando saber de modo transversal. Informado, soubera da aprovação daquele colega que sabia ser o mais e melhor preparado; indagara então, sobre os demais classificados, se houve... Sim, houve; mas, não ele. Entre surpreso e frustrado, saíra dali e se refugiara na sala onde desde o ano anterior lia e estudara. Ali, desabara em um choro compulsivo que custou conter; atravessara a Avenida Juracy Magalhães em busca daquele espaço de trabalho que, naquele dia fora o seu refúgio, sem conseguir fazer parar o rio que lhe inundava a cara triste e abatida... Ficara naquela sala, talvez duas ou três horas, procurando recompor-se, para que, ao voltar para a sua casa,  a sua mãe não o visse tão desfalecido de ânimo – pelo menos, ele assim pensara. Já se disse que não foi surpresa a reprovação. Além de não ter qualquer domínio de sala de aula; além de ter sido sorteado um ponto sobre o qual possuía pouquíssima bibliografia e pequeníssimo trânsito; além do fato de ter como concorrente um colega extremamente bem-preparado, entendera que ainda muito faltava para obter um acúmulo propedêutico, associado a uma capacidade analítica, para alcançar aprovação naquele tipo de exame. Mas, embora soubesse não estar em condições plenas de enfrentamento, quisera acreditar que pudesse se classificar, ao menos para ganhar forças para os combates posteriores. No entanto, a desclassificação foi como um balde de água gélida jogada sobre o seu corpo que, embora acostumado com as intempéries, sentira e muito, o seu impacto.

Destarte, uns dois meses após o relatado fracasso, veio o segundo. Aprofundando as leituras; procurando recobrar o ânimo e as forças; relutando contra o espírito abatido, movido muito mais pela necessidade imposta pela busca de provimento da vida, se lançou em mais um concurso para professor, daquela feita, fora da cidade. Embora não muito distante, aquela empreitada implicava em um maior esforço físico, visto que era preciso transportar uma enorme carga de material transcrito para a sua leitura/consulta, além das  duas máquinas que necessitaria utilizar, tudo isto em transporte coletivo. Por meio de uma colega de longos anos, conseguira uma residência em que pousaria pelo tempo necessário para a realização do exame e, lá, procurara elaborar o plano de aula, de acordo com o tema sorteado. E assim foi. Malgrado toda hospitalidade dos donos da aludida residência, a necessidade de concluir o plano de aula e a impossibilidade de um descanso que refizesse um pouco os desgastes inerentes a tal tipo de empreitada, o desempeno na aula pública foi simplesmente pífio. Bem mais tarde, José Mário acabaria por saber que, na prova escrita, feita no dia anterior, ele alcançara nota nove e, não fora a aula pública tão ruim, se teria feito aprovar.

Tendo chegado em casa, de volta a sua Alagoinhas, depois de ter dormido por toda a tarde e entrado pela primeira parte da noite, ao levantar para jantar, teve como que um filme que lhe passara pelo cérebro todos os aspectos da aula que deveria ter abordado – que inserira no plano de aula, diga-se de passagem – e, que não abordara; também as respostas que deveriam ter sido dadas às indagações da banca. Tudo isto  se lhe afigurou, como se tivesse sido gravado em uma fita e, ali, enquanto jantava, um rebobinamento reverso, lhe pudesse trazer de volta o que ele não conseguiu efetivar no momento propício. Resultado: sequer classificado. Ah, o mais grave e frustrante: era ele candidato único. Isto é: perdeu para si mesmo. Derrota aliás, que voltou a se dar mais uma vez, sendo que o outro candidato já era professor substituto e, conseguira não só não se fazer aprovar, como ficar abaixo do desempenho de José Mário que, por sua vez, não conseguira alcançar a média 07 exigida para obter a aprovação.

Aliás, sobre isto, caberia um comentário. Mais tarde, ele  ficaria sabendo que a sua média final fora 6.97 e, que se dera um acalorado debate sobre aproximar ou não para 07.00, para que se desse a aprovação. Para tanto, era preciso que houvesse consenso na banca examinadora, para que tal aproximação fosse possível. Segundo o que soubera, um dos membros da banca, para sustentar o seu voto contrário a que se aproximasse a média do indigitado, chegou a argumentar que seria grande a responsabilidade que assumiriam – leia-se risco – ao aproximar aquela média, visto ser o candidato quem era. No entanto, qual não foi a surpresa de José Mário, ao se achar professor onde fora posteriormente aprovado, quando fora orientado pela secretaria acadêmica, que médias entre 6.96 e 6.99, automaticamente seriam aproximadas para 07.00. Mas, a nota do candidato a professor auxiliar, embora estivesse naquele patamar, não poderia ser aproximada, por representar um grande risco. Ah, senhor escrevente, deixe de ser implicante; é apenas uma dentre as muitas contradições que forjam e conformam o mundo acadêmico.

 

Alagoinhas – 12 de julho de 2026 – inverno brasileiro

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com

segunda-feira, 6 de julho de 2026

FRAGMENTOS DE MEMÓRIA PEDAÇOS DE HISTÓRIA - PARTE XIX.

 

Enfim, graduado – Os concursos – III.


Ao desenvolver as últimas linhas do escrito anterior, o paciente leitor foi deixado a perceber o quanto José Mário ainda teria que se embater contra as vicissitudes inerentes à organização dos concursos públicos que, conforme já se disse, chegava para “despolitizar” o acesso ao serviço estatal de carreira, mormente, àquela relacionada com o ensino público, em tese, tirando das mãos de parlamentares e/ou outras lideranças políticas locais e regionais, a prerrogativa de indicar para os postos de seus interesses, aqueles que fossem seus apadrinhados e, sobretudo, aqueles que lhes devessem lealdade na capitação e na destinação dos votos que lhes garantisse o longo ciclo de eleições, que garantiria o domínio da coisa pública por si e por aqueles que formassem o circulo político em seu entorno. .

Malgrado o advento daquele instituto que prometia uma certa isonomia de acesso aos diversos postos existentes no alargado organograma do serviço público, ao que parece, as elites dirigentes encontraram maneiras de se proteger de uma provável sangria dos seus interesses corporativos, reorientando a burocracia encarregada de (des)organizar os certames que visassem admitir outros elementos no serviço público e, para piorar, também gozando de estabilidade, a tarefa de os tornar quase impermeáveis à tantos quantos buscassem fazer parte daquela horda de gente maiúscula e, até ali intocáveis, que já se empoleirara nos diversos escaninhos distribuídos pelos diversos setores inseridos no dito organograma. Desta forma, caberia aos elaboradores de critérios e contracritérios para o ingresso no setor, criar o maior número de dificuldades que pudessem, sem, contudo, deixar transparecer se tratar de elementos impeditivos de ingresso de novos postulantes às vagas presumivelmente abertas para quantos fossem capazes de as preencher. Com a pretensa intensão de “selecionar os melhores”, criavam na verdade, obstáculos com o fito de impedir que as suas gentes não fossem aquelas que ocupariam as vagas postas em disputas.

As elites políticas locais, regionais, estaduais ou nacionais, jamais se permitiriam deixar escapar de suas vastas capoeiras, as “galinhas dos ovos de ouro”, visto estarem nelas a mais consistente, perene e abundante fonte de votos que, em última análise, é o combustível que move o interesse político. Assim, como é cediço, por meio da posse e do controle deste contingente de votantes e de agenciadores de um número expressivo de votos, são pavimentados os caminhos de um carreirismo marcado pela obtenção de mandatos que se sucedem, quase ininterruptamente, até que aquele sempre eleito aponte o seu sucessor, antes ou depois de morrer, algumas vezes, no exercício de algum cargo eletivo, em alguma das instâncias de poder.

Portanto, o concurso público se apresenta para aqueles que não dispunham de apadrinhamentos, compadrios ou quaisquer outras modalidades de personalismos politicamente conduzidos, como se fora uma espécie de instituto democratizador do acesso ao serviço público e à estabilidade funcional que seria adquirida após uma espécie de experiência, eufemisticamente denominada estágio probatório. Esperava-se, portanto, que por meio daquele tipo de certame seletivo, qualquer pessoa, de qualquer origem social, que não dispusesse de quaisquer outros recursos que não a formação profissional, se poderia fazer aprovar para o ingresso no  serviço público, no caso específico de José Mário, seria o meio impessoal através do qual se faria professor, em qualquer dos níveis do exercício da docência.

Mas, conforme se pôde perceber no arrazoado anterior, aquele primeiro exame a que se submetera em sua empreitada no que tange à participação em concursos públicos, se mostrou um exemplo daquilo que não deveria ser um certame que pretendia selecionar aqueles que houvesse tido um desempenho acima de uma determinada média e, que ao longo dos anos, se tornou um modo de se realizar seleções públicas, ao menos em geral, considerando-se aquilo que se fez notar nos anos que se seguiram, quando os processos passaram a contar com um grande número de “empresas” especializadas em desenvolver os processos seletivos de tal natureza. Daí à proliferação de cursos preparatórios para as avaliações públicas voltadas para as mais diversas áreas de atuação no Estado, sobretudo, aquelas mais disputadas, tanto no que tange ao prestígio que daria àquele que as ocupasse, quanto no que tange aos bons salários que viessem a pagar. Nos tais cursos preparatórios  se enraizava o oferecimento de macetes, dicas, orientações de como proceder no momento de responder a tais ou quais tipos de questões, em tais ou quais áreas do conhecimento que mais pesariam neste ou naquele tipo de avaliação, que, nem é preciso dizer, elevou enormemente o ganho monetário de tantos quantos tiveram a ideia de urdir, de elaborar, de formatar, de vender, de divulgar e ministrar os tais cursos.

No que respeita José Mário, cabe salientar de passagem, que ele não possuía quaisquer fundamentos para levantar os óbices acima indicados, uma vez que, conforme o leitor já sabe, tratava-se de um sujeito ingênuo, crédulo nas pessoas e, principalmente, nas instituições democratizadoras do acesso ao serviço do Estado e, mesmo tendo sido prejudicado grandemente naquele que fora a sua primeira experiência em tal tipo de processo seletivo, ele não creditava os percalços que vivenciara, a qualquer pessoa ou mesmo setor de algum órgão responsável pela parte burocrática do certame. O tempo porém, ah, o tempo, fê-lo começar a desconfiar de tudo aquilo, pois, é certo,os tentáculos,as engrenagens os interesses – políticos, sociais, econômicos e, principalmente de classe – envolvidos na ocupação dos cargos públicos, passaram a ser percebidos por ele em etapas outras do seu caminhar.

Assim pensando, ao entender que aquele concurso ele fizera apenas para não sair de mãos abanando, pois, diante do que já foi relatado, o revés era líquido e certo, ele passara a pensar no que fazer dali para diante, uma vez que o próximo concurso ainda precisaria esperar alguns anos, só vindo a ser realizado cerca de seis ou sete anos após aquele que acabara de perder.

Portanto, era preciso recolher os cacos e, retomar um roteiro já iniciado, visando mais e melhor se preparar para avançar em outras direções. Começara a circular insistentes boatos que a FFPA estaria para realizar um concurso para História Contemporânea e, ato contínuo, passou ele a levantar bibliografia e, buscar meios para ter acesso a elas, mediante a contratação de ledor fixo, ou a procura de ledores voluntários para que pudesse dar cabo ao projeto.

Assim pensando, José Mário foi a campo e, respaldado na experiência que ensejou viabilizar o seu processo de conclusão da graduação, ele procurou o grupo que anteriormente se cotizara para levantar os recursos necessários para a contratação de alguém que lhe pudesse prestar serviço como ledor. Foi desta maneira que ele reagrupou as pessoas que contribuíram naquela ocasião e, agregou mais algumas, até que conseguiu integralizar o  numerário equivalente ao salário mínimo vigente em 1993, o que lhe deu a possibilidade de contratar uma excelente ledora que por sorte fora indicada por um dos contribuintes para a cotização. Com isto, José Mário conseguiu ler uma boa parte daquela bibliografia que não lhe fora possível enfrentar durante a graduação e, procurou com isto, se preparar para mais um conjunto de batalhas que enfrentaria dali até o ano em que logrou se fazer aprovar em um concurso para docente no ensino superior. Neste campo do acesso à leitura, há que se fazer uma menção honrosa a um seu colega de turma, Jairo Trindade, ledor voluntário que se prontificou a fazer algumas valiosas inserções em diversas obras acadêmicas para José Mário, o que lhe foi bastante singular, no que tange ao acesso da bibliografia proposta para a elaboração do seu projeto de seleção de mestrado, bem como, permitiu algumas leituras muitíssimo úteis para a realização da prova teórica inerente àquela seleção.

Assim, entre 1994 e 1996, José Mário enfrentaria duas seleções para ingresso no Mestrado, além de mais quatro concursos para docente do ensino superior, sendo um na Uefs (Universidade Estadual de Feira de Santana) e outros três na Uneb, sendo um para Alagoinhas, confirmando assim o boato que correra largamente e, outros dois para o campus de Caetité.

 

Alagoinhas/Salvador – 05 de julho de 2026 – inverno brasileiro

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 28 de junho de 2026

FRAGMENTOS DE MEMÓRIA PEDAÇOS DE HISTÓRIA - PARTE XVIII.


Enfim, graduado – Os concursos – II.

 

Findava o ano de 1991 e principiava o ano de 1992 quando começaram a circular boatos de que o governo Antônio Carlos Magalhães (1927-2007), eleito em 1990 para conduzir o estado nos quatro anos seguintes ao pleito, convocaria concurso público para a carreira de professor de primeiro e segundo graus, não por ter sido aquela  a sua vontade política, mas sim, por ser obrigado pelos diplomas legais que sustentavam o regime democrático que, desde então, teria que seguir. Assim sendo, nem ele nem o seu grupo político, conforme o fizera nos seus mandatos anteriores, poderiam inchar o Estado com contratos destinados aos seus apadrinhados, em quaisquer dos seus níveis, para manter a máquina estatal a serviço dos interesses daqueles por meio dos quais eram conduzidas as diversas engrenagens do poder público. Até a promulgação das cartas Federal e Estadual, o acesso ao serviço público e, no caso que aqui interessa refletir, a carreira docente, se dava a partir da distribuição de contratos de trabalho, mediante agenciadores a serviço de parlamentares e/ou lideranças políticas locais que, de acordo com as preferências e os acordos entre as partes, ganhavam o direito de assumir regência nos espaços escolares, independentemente dos níveis de ensino a que se destinassem. Diante das diretrizes emanadas dos dispositivos constitucionais em vigor a partir de 1988 em âmbito nacional e, de 1989, em âmbito estadual, o provimento de vagas destinadas ao serviço público em geral e ao ensino de primeiro e segundo graus em particular, passa a ser feito por meio de concurso público de provas e títulos. Isto significaria, ao menos em tese, isonomia de oportunidades para quantos estivessem em condições de preencher aos requisitos propostos nos editais de convocação e, viessem a demonstrar desempenho regulado por médias, no que respeita à formação específica de cada área em que se inscrevessem. Aliás, cumpre salientar, de passagem, que com o passar do tempo e a construção de diversos atalhos de caráter espúrio, embora nem sempre ilegal, a premissa acima aludida, deixou de ser absoluta, se é que um dia o foi.

José Mário, em sua busca de alcançar um lugar de atuação no campo do ensino regular, campo para o qual, acreditava ter sido preparado durante o tempo em que cursara a graduação, procurara se organizar para enfrentar mais aquele embate e, juntamente com Ticiana que, ao longo do percurso acabou por se tornar  uma sua colega de caminhada acadêmica, pois, se licenciara em Letras na mesma instituição que ele e, se dispusera a estudar consigo, aqueles conteúdos que seriam comuns a ambos. Assim pensando e assim fazendo, ele iniciara os estudos específicos e junto com ela, procurara fazer as leituras mais gerais – sobretudo, aquelas relativas ao que se convencionou chamar “conhecimentos pedagógicos” –, que julgara necessárias, para não dizer indispensáveis  para se fazer em condições para aquele seu primeiro certame.

Foram alguns meses transcorridos entre os boatos de que haveria concurso, a publicação do edital por meio do qual se convocara o concurso, o enfretamento das batalhas inerentes à obtenção da documentação exigida, a inscrição no certame, a preparação intelectual e emocional e, a efetiva realização das provas. Uma verdadeira guerra de nervos se perpetrou nos entreatos daquele concurso. A obtenção da documentação exigida foi, de longe, a mais desgastante daquela refrega. Prova de cegueira; declaração de que a cegueira não era impeditiva do exercício professoral – que deveria ser emitida por um oftalmologista –, eram algumas das exigências extremamente absurdas que José Mário precisaria atender, para que a sua inscrição pudesse ser efetivada. Paralelamente a isto, aquela documentação esdrúxula teria de ser anexada aos demais formulários, compulsoriamente, para que pudesse ter atendido o pleito de dispor de provas em Braille, no transcurso da seleção escrita – e, como se não bastasse, o instituto das cotas ainda engatinhavam e, para José Mário, se fazia um entrave no seu intento de se fazer avaliar, visto que, ele, de per si, sequer queria fazer uso daquele instituto mas, foi, uma vez mais, compulsoriamente inserido nele.

Mas, para além de travar tais batalhas, era preciso estudar. Era preciso revisar conteúdos específicos da História, da Geografia e afins; e, ainda, aprender aqueles outros relacionados à formação pedagógica, que, aliás, José Mário, além de pouco saber, também possuía pouquíssimo interesse neles. Foram horas de estudos e leituras que, de vez em quando, se lhe escapavam, para dar lugar aos enfrentamentos burocráticos que, conforme pensava, tinham como objetivo único, dificultar, o quanto fosse possível, o seu acesso ao espaço escolar regular, quer por meio de tensionamentos que lhe tirassem física e emocionalmente do processo de preparação para o concurso propriamente dito, quer por meio de exigências que ele entendia como descabidas e, por isto mesmo, causando aborrecimento e dispersão.

E, por falar em burocracia, este escrevedor não poderia se furtar a chance de fazer uma digressão, considerando o vivido por José Mário e, quiçá, mais gentes que pretendiam ocupar um espaço no serviço público, sendo o concurso, o único modo por meio do qual seria possível um tal ingresso, uma vez que não dispunham de apadrinhamento nem de redes de proteção e/ou de pertencimento, que lhes ensejasse inserir na engrenagem do Estado. A aludida digressão, diz respeito às dificuldades impostas por aqueles que, uma vez empoleirados no Estado, talvez percebessem – ou, talvez, apenas suspeitassem – que os seus espaços estariam sob ameaça de novos ocupantes que, por sua vez, chegariam amparados em uma seleção “impessoal” e apoiados por uma estabilidade que os protegeriam das idiossincrasias de governos/partidos que viessem a assumir os diversos cargos eletivos. Tal premissa, talvez, presidisse o burocratismo que imperava a condução de processos seletivos, visando desacreditar a sua consecução e a necessidade de sua implementação.  Seria o velho modo de pensar o Estado, intentando dificultar o ingresso de membros que não fossem originados de uma dada casta privilegiada que já constituía e fazia girar ou emperrava a máquina pública, de acordo com os seus interesses, não só pessoais, mas, sobretudo, os interesses corporativos de quem já lá se empoleirara e, não deixaria o espaço assim, tão docilmente, para que os que não pertenciam ao corpo já bem delineado, como o fora até o surgimento dos novos diplomas legais que passaram a reger a coisa pública, no que tange ao Estado baiano, a partir de 1989.

Mas, volte-se aos pelejares de José Mário para se fazer professor do ensino regular. Enquanto se debatia com a obtenção e a organização da documentação exigida para se inscrever no dito certame, fazia-se necessário estabelecer um ritmo de estudos e leituras que lhe permitissem dar conta dos conteúdos inerentes à seleção propriamente dita. Para tanto, seria preciso concentrar-se na realização das tarefas relativas ao que e ao como estudar, também, se fazia necessário conciliar os tempos de dois estudantes que possuíam as suas especificidades de material propedêutico para revisar e/ou apreender. Eles, portanto, precisariam estabelecer um tempo para ambos estudarem o que lhes seria comum: os ditos conhecimentos pedagógicos. E isto, eles procuraram fazer, a despeito das distâncias entre os seus lugares de morada; das inconsistências que possuíam naquelas matérias que estudariam e, principalmente, dos parcos recursos materiais para a aquisição de bibliografia específica, que não estava disponível na única biblioteca que poderiam utilizar – que, saliente-se, efetivamente existia na cidade –, a da Faculdade onde se formaram. Foi também naquele espaço onde eles se estabeleceram para os encontros em que procurariam dar conta do que eles precisariam absorver, no tempo que transcorreria, indelével, até o dia em que estariam diante das questões que teriam de enfrentar, a fim de efetivamente se fazerem avaliar.

Era um domingo de novembro de 1992, no dia 22 para ser preciso, quando José Mário saiu de seu lugar de morada e se dirigiu até o prédio do Brasilino Viegas, que se situava na confluência da rua Alcindo de Camargo com a Marechal Bitencourt, onde até pouco tempo funcionara a conhecida “Feira do Pau” – o aludido prédio ainda continua lá –, com o fito de fazer as provas, depois de meses de expectativas e grande agitação de espírito, uma vez que o rapaz depositara nelas o peso de todo um preparar-se, para além de estar ali, para ele, o salto para a sua autonomia financeira, visto já estar prestes a completar 32 anos, sem quaisquer perspectiva de a alcançar de outra forma, que não a aprovação em um concurso público, conforme já se vem salientando aqui mesmo, neste espaço. Ali chegara no horário estabelecido nos dispositivos inseridos nos regimentos do certame e, procurara se acercar do pessoal responsável pela execução do indigitado, com o fito de saber se tudo estaria em conformidade com as suas necessidades de acesso às provas, conforme estava previsto no edital e nas exigências documentais, que foram todas atendidas por ele. Mas, mal sabia ele que algumas surpresas assaz desagradáveis lhe estavam reservadas para aquele infausto dia. A primeira, se fez logo notar, pelo espanto daqueles que seriam os “responsáveis” pela execução do concurso, que sequer, sabiam que haveria um candidato cego ao certame em causa. A segunda, claro, em decorrência da primeira: nada de prova em Braille; nada de materiais outros adaptados, para que o desgraçado pudesse aceder; e, nada de explicações, informações, escusas das pessoas ou dos setores que (des)organizaram o cujo dito. E, como seria de se esperar de tamanho descaso, nada de encontrar e/ou apresentar uma solução razoável para a situação, visto que, nestes casos, aqueles que são os responsáveis pela execução do concurso, nada são, nada  sabem, nada podem resolver, pois, são meros agentes burocráticos, sem quaisquer poder de decisão e, diria este garatujador, sem quaisquer interesses, que não o de receber o pagamento pelo serviço executado. Afinal, é um a menos para lhes torrar os juízos, em caso de ser aprovado. O fim disto tudo, para o arguto leitor destes arrazoares, nem é preciso que se diga.

Depois de alguma pressão feita por parte de seus colegas, uma professora efetiva do Estado e semianalfabeta – ou como se diria em um falar “politicamente correto”, analfabeta funcional –, que atuaria ali como fiscal de prova, lhe fora  designada como ledora e, o desastre só se tornou mais evidente e, José Mário, saiu daquele espaço, com a absoluta certeza de que aquela não seria a sua vez de se fazer professor do ensino de Primeiro e de Segundo graus, em uma escola pública estadual.

 

Alagoinhas – 28 de junho de 2026 – inverno brasileiro.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com