A Matrícula
Aquela primeira segunda feira de março de 1986, seria o
primeiro dia de vigência efetiva do “Plano Cruzado”, nova política monetária
implantada pelo governo Sarney, com o fito de debelar a escalada inflacionária
e, o constante aumento abusivos dos preços que grassara no País, desde a
chegada da assim denominada “Nova República”. Não obstante o advento do “Fiscal
do Sarney”, o tempo mostraria a ineficácia daquelas medidas e das suas
subsequentes tentativas de reordenamento de rumos, promovidos em diversos
momentos pela equipes econômicas que sucederam àquela que dera início àquele
processo de controle artificial dos preços. Tais controles eram burlados pelo
desaparecimento de mercadorias; pelas cobranças de ágio para a entrega de
outras; cenas espetacularizadas em que garrotes eram içados dos pastos de agropecuaristas
para fazer com que a população creditasse ao governo uma autoridade que de fato
ele não possuía... Enfim, era portanto, naquela segunda feira que José Mário se
levantara menos interessado no que viria a ser o primeiro dia que sucederia ao
feriado bancário, decretado na semana anterior. Afinal, ele não possuía quaisquer
ativos, passivos ou proventos de qualquer ordem ou procedência com os quais
precisasse se preocupar; ele estava fora do mercado de trabalho, não possuía um
único centavo que fosse depositado em cruzeiros, que acabaria por derreter, ao
ser convertido para Cruzado... Naquele dia 3 de março, ele só possuía o desejo
de que chegasse a hora em que se iria matricular na licenciatura para a qual o
seu nome se encontrara na lista daqueles que a poderiam cursar.
É assim que, ao despertar daquela segunda feira iluminada
pelo sol de um verão que já começava a se despedir para dar lugar ao outono,
não sem antes fazer valer as “águas de março”, conforme preconizava o poeta em
antológica canção interpretada por Elis Regina (1945-1982), o alvorecer do dia,
o farfalhar dos ventos nas folhas, o zunir dos últimos insetos que sorvem as
últimas gotas do orvalho da noite e o
chilrear das aves que saem em busca de seus espaços de abrigo de um sol
escaldante que se avizinhava, encontram José
Mário absorto em seus pensamentos que fugiam
sorrateiros do lugar onde vive e se remete teimoso para o lugar onde ele só
estaria, lá para o fim da tarde. Ele tivera uma noite de sono intermitente,
como habitualmente se lhe ocorria em situações de mudanças. Ele, embora em
diversos momentos do seu viver, precisasse realizar mudanças em sua vida –
fosse por necessidade, fosse por imposição das circunstâncias ou por alguma outra
razão –, nunca o fizera por vontade deliberada, mas, ordinariamente por
pressão. Para ele, invariavelmente, fora muito custoso sair de um determinada
instância do seu viver ou do seu ser, para se reposicionar em uma outra instância
dada. Não obstante aquele momento de ruptura com o ensino escolar fosse uma
necessidade imperiosa da vida que ele pretendia percorrer, José Mário, de per
si, embora entendesse, não compreendia plenamente o que estava para se dar dali
há algumas horas. Como seria? E de qual modo faria? Eram as indagações que
fazia o seu espírito tão irrequieto, quanto atemorizado.
Portanto, aqueles e tantos outros cogitares se interpuseram entre
os seus lapsos de sono e as longas vigílias que marcaram o passar da noite do
domingo até o raiar da manhã de um dia atípico para José Mário. Dali por
diante, tudo seria não só novo, como desconhecido para ele. Embora já conhecesse,
ainda que superficialmente, o novo espaço em que seria inserido daquele ano
para frente, se lhe afligira o espírito uma ansiedade típica do seu ser, uma
vez que, conforme já se apontou, ele era pouco afeito a mudanças de ambiente, no
que tange à forma, ao espaço, ao público com os quais precisaria lidar. Tudo
ali lhe era desconhecido; poucos daqueles com os quais precisaria interagir
durante o curso, já houvera estado consigo antes, exceto um deles – embora ainda
disto ele não soubesse. Ele se sentia como que esmagado ao peso de um peso
ainda desconhecido, mas que quase lhe vergava os ombros... Mas, é preciso
enfrentar aquele que se lhe apresentava como um monstro, apenas por ser “novo”.
Lembrava do pânico que vivera há apenas alguns anos, quando sua mãe cogitara de
buscar o transferir do seu já bem conhecido Brasilino Viegas, para um acanhado
Oliveira Brito, apenas por aquele último se situar bem mais perto de casa, o
que facilitaria a tarefa dos seus irmãos de o levar e o buscar... Ele se
lembrava do quanto temera aquele afastamento abrupto de um lugar que não só ele
conhecia, como era conhecido, não só pelos professores que ali atuavam, como
pelos seus colegas, quer de turma, ou apenas que pertenciam ao mesmo grupo
escolar. Na escola mais próxima de casa, não só ele não conhecia ninguém, entre
os outros alunos e os professores que ali estavam lotados, como não conhecia o
espaço físico em que seria inserido. Pois então, era este o fantasma que lhe visitara
por toda a noite; que lhe sussurrava sorrateiramente que, quem sabe, seria
esmagado por tantos desconheceres.
No entanto, malgrado todo aquele embate interno que se
sustentara não só durante a noite, mas, também por todo o transcorrer daquele
dia, José Mário não dispunha de qualquer outra possibilidade a mobilizar, se
não aquela para a qual se preparara por todo aquele tempo. Tendo passado toda a
manhã e chegada que fora a tarde, dirigira-se ele até o prédio da Faculdade de
Formação de Professores de Alagoinhas, que então se situava à Rua Elvira Dórea,
à Praça Ruy Barbosa, para ali efetivar a sua matrícula e, definitivamente
entrar no rol dos alunos do ensino superior. Ao se dirigir até a secretaria
acadêmica, uma surpresa se lhe afigurara, na pessoa da Secretária que lhe
atenderia para aquele fim. Era uma senhora, sua já antiga conhecida do
Brasilino Viegas, que ali atuara como uma das vice-diretoras do aludido
estabelecimento escolar, quando ele ainda dava os seus primeiros passos no
processo de escolarização. Sim, era a famosa e rígida Professora Valdete Costa
que se encontrava diante de José Mário, com o objetivo de receber e conferir a
documentação que ele levava, conforme o que fora previamente exigido, por meio
da qual ela o declararia matriculado. Evidentemente que, por algumas vezes ter
se dirigido àquele espaço na condição de estudante secundarista, para dali
receber apoio informal do pessoal da biblioteca, talvez ele esperasse encontrar
mais alguns conhecidos, além de uns poucos dentre aquelas funcionárias que
tantas vezes o apoiara no seu intento de realizar pesquisas bibliográficas para
elaborar os seus trabalhos escolares, ninguém mais ali lhe parecera conhecido
ou, ao menos, familiar. A exceção ficou por conta do recém-empossado diretor, o
professor Jamim Nascimento Silva (1941-2020), seu já conhecido, por conta de
ter sido professor no Estadual, vereador na cidade em legislatura pretérita,
bem como, ter ele sido pastor na Primeira Igreja Batista de Alagoinhas, antes
que José Mário lá ingressasse.
Enfim, concluídos os trâmites processuais relacionados
àquela etapa burocrática, saíra José Mário, efetivamente matriculado, de posse
do elenco de matérias e dos horários em que seriam desenvolvidas as aulas a
elas relacionadas. Era, portanto, o começo de caminhada na graduação que,
doravante, ele passaria a enfrentar.
Alagoinhas – 08 de fevereiro de 2026 – Verão brasileiro.
Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com