Introdução
Conforme já se pode perceber no título dado ao texto que ora
se faz publicar, ao escrever estes garatujares em forma de reflexões envolvendo
o fazer da História e uma ínfima parte
de uma dada construção da Literatura, este escrevedor inicia um novo desfilar
de postulados com o qual pretende conversar com quem tenha a paciência e o
interesse neste tipo de tema. Cabe salientar de passagem que, quem traceja estes escritos, há algum tempo vem
fazendo algumas incursões voltadas para o estreitamento de um esforço para
compreender a História a partir da literatura. É neste sentido que publica em
2024, o livro intitulado “Um retrato tirado
de Alagoinhas ”quando ela ainda era menina moça” : histórias e memórias da cidade, nos escritos
de Maria Feijó”, uma obra inserida
no âmbito da coleção “Nem “Vultos”, nem “Feitos”: UM CONSTRUTO DE HISTÓRIAS E
MEMÓRIAS ATRAVÉS DE DIVERSAS TRAJETÓRIAS”, por meio da qual procura entender um
pouco da História de Alagoinhas, tendo como ponto de partida o avultado romance
da literata alagoinhense Maria Feijó de Souza, usando a epígrafe que ela propõe
nas páginas iniciais do seu avultado compêndio. Por meio daqueles historiares
literários, se buscou entender algumas tomadas de posição no campo da política social
por parte da elite econômica e cultural da cidade, posicionamentos que, aliás,
estão de algum modo delineados no modo de pensar daquela sociedade que Feijó
entendia como “ainda menina moça”, o que talvez se quisesse dizer “ainda
adolescente”; ainda em formação. Na obra de 2024, o seu autor procurara apontar
os traços que Feijó faz desfilar ao longo das oitocentas páginas de uma
trajetória professoral que, na prática, expõe as sub-reptícias atitudes de uma
elite social, econômica e cultural que por sua vez, encarnava um modo de pensar
calcado em uma moral parcial e classista, pouco ou nada aplicável àqueles que
dela fosse uma das partes.
Mas, conforme já é de conhecimento de quem acompanha estes
arrazoares, José Mário, personagem esquadrinhado em grande parte dos textos aqui
publicados, embora tenha sido um leitor voraz, sempre tivera grande dificuldade
de ir além dos textos que se lhe passava sob os dedos. Ele entendia o texto
pelo texto, sem que pudesse identificar alguma coisa que estivesse além daquilo
que ali se encontrava escrito; ele não imaginava que os escritos que lhe caíra
nas mãos e que percorrera com atenção, ultrapassassem as páginas nas quais
estavam impressos em forma de caracteres. José Mário não conseguia identificar
a existência de uma História que norteasse tal ou qual texto, senão, aquela ficcional,
construída pela argúcia da imaginação do seu autor. Sequer desconfiava haver
uma História de fato vivida, em algum tempo ou lugar, que acabaria por
desencadear no romancista, uma capacidade para desenvolver a construção de uma
obra em que tal “História” ganharia contornos ficcionais. Para ele, não era
verossímil que tal ou qual obra, em quaisquer dos casos, fosse apresentada de
modo a descrever o cotidiano de um sistema social, econômico ou cultural, procurando
destacar as opressões, as pressões, as tensões e/ou circunstâncias que precisassem ser realçadas
mas, que por vezes, não poderia ser explicitada. Em suma: para José Mário,
aquele conjunto de obras rotuladas genericamente de “Romance”, nada mais era do
que o fruto do trabalho ficcional de engenhosos criadores de enredos bem
elaborados, bem urdidos, com personagens bem construídos e com roteiros bem
sincronizados que, ao fim e ao cabo, visava instigar o imaginário do leitor e,
de acordo com a capacidade de imaginação de cada um, pensar em realidades
diversas daquelas então vividas; em outros casos, fazer crer que, em algum
momento, em algum rasgo de sorte, poderia ser que a sua realidade de falta de
quase tudo, sofresse uma virada tal que, a fartura de tudo viesse a ocupar o
lugar real no seu viver. Ah, mas a realidade era tão dura que, na maioria das
vezes, nem mesmo um romance bem tramado era capaz de arrancar aquele leitor do
lugar em que se encontrava, ao devorar aquelas histórias de sucesso e ventura
daqueles personagens que lhe cativara a preferência.
À guisa de exemplo daquilo que se acabou de explicitar, se
tomará o caso da leitura que José Mário fizera de “O Senhor Embaixador”, obra publicada
em 1965, pelo gaúcho Érico Veríssimo (1905-1975), cuja trama girava em torno de
uma certa República do Sacramento!, país imaginário instalado em algum canto do
Caribe. Tal república era uma ditadura que estava prestes a cair sob o fogo da
revolução comunista e, que o seu embaixador nos Estados Unidos da América se
dispusera a lutar ao lado do “compadre” que o elevara ao posto diplomático mais
importante. É claro que José Mário não tivera senão o texto em si; jamais
imaginara que Veríssimo empreendia uma crítica mordaz aos sistemas ditatoriais
encarapitados em uma considerável parcela de países da América Latina –
inclusive a deflagrada no Brasil em 1964 – e, que para os denunciar, precisava ocultar
as suas localidades em países inventados, bem como os seus nomes reais,
escamoteados em personagens caricatas e estravagantes. O que para José Mário
talvez se aproximasse de uma realidade dada, ainda assim, uma realidade bem
distante daquela descrita por Veríssimo, fosse a caracterização de cada um dos
elementos presentes na trama por ele urdida, que acabara por levar Gabriel
Heliodoro Alvarado ao fuzilamento pelo pelotão revolucionário, por ele
desdenhado, ao legar os seus “conjones” a algum museu que acreditava seria
erguido para homenagear o governo que ora acabava de ser derrubado.
Mas, para além disto, nada mais. Ele, conforme já se salientou,
não conhecia o contexto sob o qual se produziu o artefato literário que acabara
de ler e, por consequência, não lhe pudera compreender, nem esmo aceder o intertexto,
visto que, ainda de acordo com o que já se apontou, ele não fora capacitado
para perceber além das palavras que lia; não conseguia racionalizar aquilo que
não fosse percebido na superfície a ele apresentada. Foi preciso o transcurso
de um longo tempo e a reformulação da
sua compreensão sobre a literatura, para que a pudesse entender como uma das
diversas formas de apresentar a realidade aos que dela fizessem uso, no sentido
de apreender o fazer histórico que se desenvolvia em seu entorno. Tal
compreensão lhe permitiu – já bem mais tarde, ao longo do seu processo
formativo – um aproveitamento da produção literária que se lhe passou pelas mãos
e pelos ouvidos, no sentido de poder obter maiores ganhos na sua compreensão e,
posteriormente, na sua utilização como uma ferramenta para a compreensão da
História.
Entretanto, para José Mário, o momento em que se dá o salto para
a compreensão da literatura como uma ferramenta capaz de abrir o entendimento
para a apreensão de algumas dentre as muitas “faces” da História, está situado
no ano de 1996,quando ele é convocado
para assumir a docência na cadeira de História da América, após ter estado em
uma lista de espera, por conta de sua aprovação em segundo lugar, no último dos
concursos feitos para ingressar na Uneb. Passados alguns meses da publicação do
resultado, fora consultado sobre o seu interesse em assumir as disciplinas
relacionadas à História da América, uma vez que aquela que a lecionava, fora
transferida para outra unidade e, ficara vaga a cadeira que ocupava. Enquanto procurava
atender às exigências legais e médicas para atender à convocação, passara a
conversar com professores que trabalhavam com aquela matéria, sobretudo, aquela
que a desenvolvia no curso de História da Ufba. Ao recebê-lo em sua casa,
quando lhe passava algumas informações sobre o modo como ela estruturava os
semestres em que trabalhava com a América independente, falara de autores e
obras relacionadas à disciplina e, lá para as tantas, pronunciara dois nomes de
literatos que lhe soaram desconhecidos e, de fato o eram, causando nele uma
estranheza relacionada à sua inserção entre as referências para o estudo da
matéria em causa. Falara de Mário Vargas Llosa – de quem dissera não gostar,
por suas posições políticas serem divergentes – e, também falara de Gabriel García Márquez
que, não obstante ser um dos detentores do Nobel de Literatura, José Mário
nunca houvera ouvido falar. De volta para a sua Alagoinhas, com as mãos cheias
de sugestões bibliográficas e o cérebro girando a onze mil por segundo, se autocensurava
pelo fato de já haver concluído a
graduação; já ter sido aprovado para ingressar no mestrado; já estar prestes a
assumir um lugar de docente na universidade e, nunca – ao menos não se lhe
ocorrera – ter ouvido falar de García Márquez, de Vargas Llosa – ao menos eles,
que poderia fazer uso das obras. Mas, como o fazer, se as não conhecia?
Para além de não conhecer as obras ou os autores
mencionados, José Mário possuía mais um limite que precisaria superar. Para
ele, literatura, era literatura e História, era História, como se fossem água e
óleo: não se misturavam e, se misturasse, um sujaria a água e, esta, por sua
vez, limitaria a utilidade do que lhe acabara de sujar e impossibilitar o seu
uso, tanto para beber, quanto para limpar. Assim pensando, por algum tempo, ele
relutou em incorporar o uso da literatura à sua metodologia de ensino de História
da América. .
Alagoinhas – 19 de julho de 2026 – inverno brasileiro.
Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com