domingo, 1 de março de 2026

FRAGMENTOS DE MEMÓRIA, PEDAÇOS DE HISTÓRIA - PARTE I

JOSÉ MÁRIO NA GRADUAÇÃO – 1.

 

Lançando mão das metáforas dos fragmentos de alimentos que, quando em contato com o paladar  desperta rememorares que se sobrepõem ao esquecimento, utilizados por Marcel Proust (1871-1922) e Gabriel García Márquez (1928-2014), este escrevedor pretende proporcionar  aos caros leitores destes garatujares, mais alguns nacos de História, advindos de processos mnemônicos imersos nas camadas de um passado que “ainda não passou”, a despeito do tempo há muito transcorrido. É certo que no caso dos fragmentos de memórias aqui trazidos, A EVOCAÇÃO DO PASSADO não se relaciona com o toque de um alimento dado no paladar do rememorador, visto que, ele raramente provara qualquer iguaria excepcional em grande parte da sua experiência associada ao palato; a sua alimentação cotidiana, além de frugal, sempre fora trivial, no que respeitava ao lugar que ocupava na sociedade alagoinhense de então. Mas, também é certo que, tais fragmentos podem vir a ser desencadeados a partir de outras sensações como os cheiros e os sons do ambiente em que vivera e, que ao voltar a sentir/ouvir, ainda que de si para consigo, em seu consciente, conforme assevera Ecléa Bosi (1936-2017), em sua já clássica obra “História e Sociedade: lembranças de Velho (1994)”, “[...], a lembrança pura, quando se atualiza na  imagem-lembrança, traz à  tona da consciência um momento único, singular,. _não repetido, _irreversível, da vida. Daí, também, o caráter não  mecânico, mas evocativo, do seu aparecimento por via da memória. [...]” (BOSI, 1994, p. 49).

Tendo isto em conta o caráter evocativo deste tipo de rememorar, Enzo Traverso 2012, sustenta que:

“[...]. A memória é qualitativa, singular, pouco preocupada com comparações, com a contextualização, ou  com generalizações. Quem a transporta não necessita  de apresentar provas. O relato do passado prestado por  uma testemunha — sempre que não seja um mentiroso  consciente — será sempre a sua verdade, ou seja, a imagem do passado em si deposto. Pelo seu carácter subjectivo, a memória nunca é cristalizada; mais se parece  com um estaleiro aberto, em contínua operação. [...].” (TRAVERSO, 2012, p.22).

Mais adiante, no mesmo parágrafo, ele reforça a assertiva transcrita acima, considerando alguns dos limites da memória, por sua sujeição a erosão que lhe é imposta pelo tempo, dizendo que “[...]. Não é só o tempo a erodir e a enfraquecer a recordação. A memória é uma construção,  sempre filtrada por conhecimentos adquiridos posteriormente, pela reflexão que se segue ao acontecimento,  por experiências que se sobrepõem à primeira e modificam a recordação. [...].” (TRAVERSO, 2012, p. 22), significando que o “recordar” não tem um caráter estático, na medida em que está sujeito ao acúmulo de outras experiências construído ao longo de um tempo que se desenvolve desde o momento “lembrado” e chega àquele em que se dá o lembrar e este, por sua vez, é dado a conhecer, tanto por meio de uma escrita, quanto por meio de uma entrevista de História Oral.

Portanto, é assim que se chega àquela segunda feira dos meados de março de 1986, dia em que José Mário teria o seu primeiro dia de aula na condição de graduando na Faculdade de Formação de Professores de Alagoinhas. Era um dia quase outonal, visto que todos os seus primeiros sinais já estavam postos e, logo, logo ele chegaria e se instalaria no lugar do verão que não tinha pressa de se retirar. Em todo o caso, era março; março que tinha as suas águas cantadas pelo poeta; também era naquele mês que o ano letivo tinha início, em todos os espaços e graus de ensino no Brasil; era também em março que ganhava corpo uma vaga de ações fiscalizadoras dos preços das mercadorias, um fenômeno que até ali se circunscrevera a poucos cidadãos brasileiros, mormente, aqueles que faziam parte dos meios de comunicação, que então, acabava por se alargar sobremaneira, criando a horda dos “fiscais do Sarney”, que buscavam enquadrar os comerciantes que se recusassem a cumprir as proposições constantes no “plano Cruzado. Enfim, era um março atípico e diferente dos vinte e cinco marços vividos anteriormente por aquele rapaz que se dirigiria ao prédio onde aquela faculdade funcionava e, onde ele iria dar os primeiros passos da sua caminhada rumo à sua formação profissional.

Não obstante as aulas só serem efetivadas à noite, naquela segunda-feira, José Mário despertara cedo, se é que dormira, ainda envolto nas questões que formulara ao sair do prédio da FFPA, após a realização de sua matrícula. O dia passara arrastado mas, enfim, passara e, ele se dirigira ao edifício situado à Praça Ruy Barbosa, talvez ali já fosse a rua Elvira Dórea; como chegara cedo, pouco antes das seis e meia, acercara-se de um banco de pedra que estava posto sob algumas árvores. Ali, ele acompanhara os últimos cantares de cigarras maduras, o que indicava de fato a proximidade do outono. Enquanto aqueles zip-zip-zips, ressoavam como sinfonia de abertura da noite, os pensamentos daquele rapaz revoavam para dentro do recinto que o iria receber, juntamente com outros trinta e nove colegas, para começar, acreditava, a responder às indagações que fizera e, claro, não encontrara quaisquer respostas que lhe satisfizessem o seu espírito irrequieto.

No entanto, à medida que os minutos passavam e que os demais estudantes chegavam, ele passava a ter clareza de uma primeira resposta aos seus indagares: ele não conhecia e, nem era conhecido de quase nenhum daqueles que fariam com ele aquela jornada. Exceto uns dois ou três que o conheciam de outras experiências não estudantis, a sua suspeita acabara por se confirmar: era ele apenas mais um, em meio àquela “multidão” que, em princípio, fora indiferente a ele, exceto, o fato de se tratar de um aluno cego, que, certamente poderiam ter pensado, teria algumas dificuldades em andar no mesmo passo e ritmo que o restante da turma.

Ingressados que foram na sala de aula destinada ao novo curso e, ao conjunto dos alunos que nele estariam envolvidos, outra surpresa: pouco ou nada compreendera do que ouvira da parte daquelas professoras que se apresentaram como sendo a que “comandava” a realização do curso – professora Ialmar Leocádia Viana, chefe do departamento de História (cujo nome já lhe causou incompreensão) –, bem como aquela outra que permaneceria na sala para dar a sua aula, após a apresentação do curso e de suas principais diretrizes. A professora Zalvira Vilas boas, fizera a sua primeira exposição, apresentando e explicando o programa de disciplina que pretendia desenvolver, Introdução à História, aumentando ainda mais a confusão na cabeça de José Mário, visto não ter ele tido a oportunidade de ler o dito programa; nem mesmo, saber realmente do que se trataria em tal disciplina. Ainda naquele curto espaço de tempo, duas coisas lhe causaram espécie – talvez elas já tivessem tido lugar no dia seguinte. A primeira delas foi o fato de um aluno de outro curso/turno, entrar naquela sala sem a menor cerimônia, para anunciar a sua campanha para a presidência do “DA”, claro, José Mário não fazia a menor ideia do que fosse aquilo. A segunda, esta já na exposição do plano de curso de História Antiga, que ficara a cargo da professora Alba Melo, foi a desenvoltura com que um dos alunos interpelou a professora, enquanto apresentava o seu programa de curso, questionando o porquê da ausência de referência a “Marx”. E, de si para consigo, José Mário perguntou “Marcos?” Ou seria “Marques?”, pois, aquele nome que o aluno apontou faltar nas referências da professora, José Mário nunca houvera ouvido, principalmente, depois de ser informado por um colega a quem perguntara, tratar-se de “Karl Marx”; para o coitado, deu no mesmo”

Mais uma surpresa se guardou para o final da aula. Quando acabada aquela que fora a primeira parte do primeiro dia de aula, viria o professor José Sales da Costa, que ele conhecia, através do contato que com ele tivera na Primeira Igreja Batista de Alagoinhas, que seria o responsável por conduzir a matéria de Filosofia. Mas, notou que, o grupo inicial não permaneceu na sala, o que lhe aguçou a curiosidade, visto que, o público que assistiria àquela disciplina iniciada às vinte horas e dez minutos, reduzira-se consideravelmente. O que houve, perguntou. Algum tempo depois obteve a resposta. Uma parte da turma que ingressara no curso de licenciatura plena em História, era egressa do curso de Estudos Sociais – cuja licenciatura era de curta duração –, que já haveria cursado Filosofia, o que os desobrigava o fazer, pois, já aproveitaria a carga horária.

 

Enfim, vinte e duas e quarenta, José Mário sai para tentar alcançar o último ônibus que o levaria ao seu lugar de moradia, para ali, procurar dormir, ainda que antes de o conseguir, viesse a ruminar o que lhe fora oferecido como matéria para aquele seu iniciar de caminhada.

 

Alagoinhas – 01 de março de 2026 – verão brasileiro.


José Jorge Andrade Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Um Domingo Atípico – Comida boa e Mesa farta

Um Domingo Atípico – Comida boa e Mesa farta

 

Em mais u conjunto de fragmentos de memória, neste arrazoado dominical se tentará trazer a quem acompanha este espaço, um pedacinho de história. Tais fragmentos, conforme já é cediço, resulta de escavações nas diversas camadas de memória já imersa no tempo e, de escolhas feitas por quem lembra, que, por sua vez, seleciona não só o que lembra, como também, pode escolher silenciar, esquecer ou, conforme é agora o caso, tornar públicas os seus lembrares.

Em outros escritos publicados há já algum tempo, se discorreu sobre a época em que José Mário fora confinado no Instituto de Cegos da Bahia, localizado  em uma das muitas ladeiras de Salvador, aquela que desce rumo ao São José de Baixo, em frente a mais duas: uma que dá acesso ao Santo Antônio Além do Carmo e uma outra que dá acesso à feira de São Joaquim, a conhecida “Ladeira de Água de Meninos”. Foi ali que ele passara todo o ano letivo de 1975 e uma grande parte do ano letivo de 1976, voltando para o seu espaço de moradia em Alagoinhas, somente por ocasião das férias de meio e de fim de ano. Ali, ele ficara confinado às quatro paredes daquele prédio de seis andares, saindo apenas para a frequência às aulas na escola regular em que todos eram matriculados. Entre tantas, se poderia citar o Carneiro Ribeiro – à época funcionando no prédio do Navarro de Brito, no Curuzu – e o Instituto de Educação Isaías Alves (ICEIA), situado no Barbalho. Para tanto, todos eram  transportados até elas, em um veículo Kombi, de propriedade do internato, dirigida pelo anedótico “Seu Brás”, motorista da instituição há já um bom par de anos, ficando ali praticamente todos os seus dias de vida.

Para José Mário, dono de um apetite voraz e, vivendo o momento do chamado “Estirão”, que é o instante em que o garoto apresenta um crescimento mais rápido e perceptível, gerando uma necessidade e/ou um desejo de ingestão de alimentos mais exacerbada; sem falar que o dito se encontra em plena puberdade, apresentando alguns comportamentos que lhe rouba energias em boa monta; e, no caso específico dos residentes em prédios como o do Instituto, precisava fazer esforços contínuos e cotidianos para percorrer os inúmeros degraus de longa escadaria, com o fito de chegar nos andares onde desenvolveriam as suas atividades, a oferta de alimentos, embora fracionada por todo o dia, não era suficiente para lhe mitigar a fome que, se não era marcada pela falta do que comer, o era pela insuficiência de sua ingestão. Como resultado perceptível de tal disparidade, se poderia informar que, ao chegar naquele estabelecimento em março de 1975, os uniformes que para ele foram confeccionados, ficaram bem apertados, dificultando a tarefa de os vestir; em junho do mesmo ano de 1975, aquela indumentária que ficara apertada no seu corpo, teria folgado tanto, que ele conseguia colocar um rádio Nissei de seis faixas dentro da bermuda, sem quaisquer dificuldades e, ainda, com alguma folga.

Lá no Instituto de Cegos, no seu setor de refeitório, o regramento da oferta de alimentos era bem rígido e “militarmente” controlado. Embora alguns dos internos já servissem o seu próprio prato – e, José Mário era um dentre eles –, havia um quantitativo previamente estabelecido, que cada um poderia colocar para si. Eram duas conchas de feijão; uma colher das grandes, de arroz; uma fatia de bife (ou se fosse ensopado, uma colher) e, farinha, esta sim, não tinha limites. Aquele que eventualmente quebrasse o limite, colocando um item ou uma colher a mais – e, José Mário o fizera algumas vezes –, deixaria um dos colegas de mesa sem ter o que colocar em seu prato, resultando em desequilíbrio do almoço do outro.

Entretanto, ao que parecia, todos acabavam por se sentir em um grande dilema: se ele não o fizesse, o outro o faria e, quem ficaria sem algum dos itens seria ele, que aliás, chegou a acontecer consigo, ao menos uma vez. Naquela circunstância, o ingênuo acreditara que as regras eram respeitadas e sob elas se agia. Na primeira vez que ele fora deslocado para uma mesa em que os ocupantes possuíam a prerrogativa de se servir, enquanto José Mário cumpria uma delas, que era a que obrigava a cortar o bife primeiro, para depois colocar os demais itens, o bestão acabou por ficar sem arroz. Diante do que, ele nunca mais cumpriu, nem procurou cumprir regra alguma daquele refeitório.

No entanto, em algumas pouquíssimas ocasiões, as coisas foram tornadas um pouco diferentes, ainda que só excepcionalmente. Os limites de vezes que se podia comer: caíam; a quantidade e a qualidade do alimento disposto às mesas, dera saltos bem perceptíveis ao cheiro e ao paladar; sucos, refrigerantes, doces e guloseimas em geral, se fizeram presentes naquelas mesas tão frugais, de sopa rala, um mingau que nunca se conseguia identificar qual era o seu feitio  e de dois pães grandes que eram divididos em fatias, pelos seus seis ocupantes. Em um domingo, um dia daqueles que se não esperava quase nenhuma excepcionalidade; domingo marcado pela obrigação de ouvir missa na Capela; depois dela, se dirigir ao andar térreo, onde se circulava por toda a sua extensão, a espera da hora da merenda das dez e, principalmente, do almoço que, conforme já se salientou, embora fosse servido na ocasião aprazada, não era suficiente para mitigar os estômagos de mais de sessenta jovens, adolescentes e crianças, era aguardado com grande ansiedade; era capaz de chegar uma da tarde, mas, meio dia, este teimava em não chegar...

Mas, naquele domingo, ah, que domingo!, talvez tenha sido único, naqueles quase dois anos de confinamento e fome crônica; um daqueles domingos, portanto, ao tocar do sino que chamava toda aquela gente famélica e ansiosa para comer e, comer o que estivesse posto nas mesas, subiram todos para o refeitório querido e tão desejado; aos saltos; até mesmo pulando os degraus, fazendo um dos últimos esforços que a reserva de energias permitia... e, aqueles olfatos turbinados pelo desejo de comer... logo farejaram alguns cheiros diferentes, convidativos, alertadores de novidades: às mesas, antes frugais e com quase sempre os mesmos itens, naquele dia estavam fartas; se diria, fartíssimas e, não só de quantidades que permitiriam comer quantas vezes se quisesse e se pudesse; mas, aquela comida não só era abundante, como era maravilhosamente gostosa, apetitosa...

Mas, poucas outras vezes surpresas tão marcantes para o olfato e principalmente para o paladar, tiveram lugar ali, naquele confinamento que, reputavam por educativo... José Mário sempre o entendera que aquele lugar era sim, um lugar de instrução e, quiçá, de correção... Para ele, aquilo ali, nunca fora um lugar para educar; quando muito, para adestrar.

 

Alagoinhas – 28 de fevereiro de 2026 – verão brasileiro

 

Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 15 de fevereiro de 2026

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte XX.

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte XX.

 

A expectativa do começo.

 

Os lugares de memória que marcam os arrazoados desenvolvidos até aqui, estão fundamentados ineludivelmente naquela Alagoinhas de março de 1986 em que José Mário estava prestes a começar uma nova etapa da sua jornada formativa, que era ainda uma cidade pacata e típica do interior brasileiro, com as suas ruas calçadas de paralelepípedos irregulares em grande parte do seu feitio; onde uma grande parte das pessoas se conheciam entre si e, em um bom par de casos, com familiares ainda entrelaçados por meio de uma diversidade de complexas e multifacetadas relações. Tratava-se de  uma cidade com população estimada em cerca de cento e quinze mil habitantes espraiados pelos diversos bairros e distritos que conformavam a sua urbe, onde o comércio ainda era  a única fonte de emprego e renda para a maior parte das pessoas que ali insistia – ou só podia –ali residir. Suas ruas eram largas e as suas praças razoavelmente arborizadas, contando com poucas ruas com pavimentação asfáltica e, com uma estação rodoviária com cerca de quatro anos de funcionamento. A ela, servia um sistema de transporte que já se mostrava insuficiente para atender ao crescente avanço da cidade, no que tange ao surgimento de bairros cada vez mais distantes e populosos. Ainda contava com uma movimentada feira livre, armada nas ruas adjacentes ao prédio em que funcionava o Paço Municipal, entre as sextas e sábados, com o concurso de gentes de todas as procedências, que vendiam e compravam todos os tipos de mercadorias, por meio das quais tanto eram alimentadas as gentes ali residentes, quanto proviam pequenos e médios comerciantes/agricultores de haveres, por meio dos quais, retornariam semanas pós semanas, a mercanciar os produtos alimentícios que voltariam a abastecer as casas de compradores e vendedores, simultânea e concomitantemente.

Portanto, aquela era a Alagoinhas em cujo solo nascera José Mário e, em cujo tecido social ele insistia em se imiscuir, embora, social e economicamente, ele não dispusesse dos meios para o compor. Desta forma, esta série de arrazoados que até aqui foi escrita e que hoje se encerra, tem como elemento constitutivo de sua construção e desenvolvimento, uma memória marcada pelo rememorar de quem o elabora, calcado em impressões indeléveis deixadas no espírito deste escrevente, quando tomara contato com aquela urbe que acreditava iniciar uma saída do marasmo que  marcara profundamente o imaginário da sua gente. Era uma Alagoinhas que via alargar-se o seu sistema telefônico; uma cidade que estava sob a égide da execução do “Projeto Cura”, que modernizava o seu sistema de esgotamento sanitário – apesar de tal modernização alcançar o centro da cidade e, poucos outros espaços em seu entorno, não alcançando os bairros mais distantes e, por conseguinte, mais necessitados de tão importantes melhorias -, que estava prestes a ganhar novas e modernas agências da Caixa Econômica Federal e do Banco do Nordeste Brasileiro; também, àquela mesma época,  entrava em funcionamento o amplo e moderno posto da Telebahia, facilitando os contatos interurbanos. Tudo isto chega até Alagoinhas, depois de anos de esquecimento e paralisia quase completa, após um lapso  de retomada, marcado pela implantação do Distrito Industrial de Sauipe, que prometia emprego, renda e desenvolvimento para a cidade, acabando por ser abandonado incompleto, pelo governo que sucedeu a gestão de Judélio Carmo (1945-2009), em seu primeiro mandato que vigorou entre 1973 e 1976 e, que por sinal, estava em um segundo mandato, iniciado em 1983.

Assim, era a Alagoinhas de meados dos anos oitenta do século XX, na qual a cultura e a escolarização superior se concentrava em um único lugar, cujo prédio estava situado no curso da Praça Ruy Barbosa, para onde afluíam os fomentadores e os desenvolvedores da cultura citadina, que, ao convergir para aquele prédio pensado e construído para abrigar a cultura consolidada nos livros, e que, acabara por ser transformado em espaço de apreensão do saber e em lugar de difusão de saberes, fizeram a efervescência educacional e cultural se fundirem de tal forma, que muitas foram as vezes em que se fizeram uma só coisa, um só agir das coisas. Era pois, naquele ambiente quase glamuroso que José Mário repentinamente se vira inserido, embora, sem ter a menor noção daquilo tudo. Qual o interesse em um certo “Cometa Halley”, se perguntava, que faria com que diversos estudantes, professores e partícipes da cultura local, se postassem em uma madrugada fria de abril, no entorno da FFPA – ou fora em um lugar que chamavam “Horto Neandertal”, que ele sequer sabia existir -, para esperar que o dito se tornasse visível? Pois então, a parte as incompreensões de José Mário sobre o que movia aquela gente a fazer esta ou aquela coisa e, considerando que uma parte da sua trajetória naquela instituição de ensino superior já fora tornada pública, tanto neste blog, quanto em diversas colunas publicadas no jornal eletrônico “Alagoinhas Hoje”, volte-se pois, à tarde/noite em que ele saíra do prédio da Faculdade de Formação de Professores de Alagoinhas, onde estivera para realizar a sua primeira matrícula, para voltar ao seu lugar de residência, que, aliás, estava física e socialmente longe de todo aquele fulgor cultural/educacional

Destarte, quando saíra do recinto onde estivera instalada a Secretaria Acadêmica, onde efetivara, enfim, a sua matrícula, José Mário tomara o caminho de casa, não sem antes marcar o trajeto de cerca de três quilômetros e meio que fizera a pé – visto querer caminhar para ruminar e tentar apreender toda aquela avalanche de coisas que a ele se apresentava em uma velocidade assombrosa –, conforme já o houvera se dado em outras situações semelhantes, ele estava às voltas com um sem número de reflexões, quase todas oriundas de divagações e inferências que lhe fervilhava o cérebro irrequieto, embora, com poucas informações consolidadas sobre quaisquer coisas, mormente, sobre o que viria a ser um curso superior e, principalmente, como ele funcionaria em um cotidiano em que ele estava prestes a tomar contato real. De posse do seu comprovante de matrícula, ele queria entender o que viria a ser cada uma daquelas matérias que ali estavam elencadas. Assim, com a exceção de Filosofia, Sociologia e Língua Portuguesa, que ele julgava saber do que se tratava, José Mário se esforçava para entender o que viria a ser “Introdução à História”, “História Antiga” – que, aliás, ele acreditava ser a mesma coisa – e, a mais intrigante delas era uma certa “Metodologia do estudo e da pesquisa”, embora ele cresse saber o significado de cada uma daquelas palavras, não as conseguia entender, quando emuladas em uma proposição de disciplina a ser ministrada, aliás, por professores que ele nunca conhecera antes, salvo o professor de Filosofia, José Sales da Costa  e, outras duas de quem ele ouvira falar, mas, nunca houvera tido qualquer contato pessoal: Lígia Margarida Martins Freire (1941-2021) e Iraci Gama Santa Luzia (1943-). As outras três docentes com as quais cursaria a “Introdução à História”, Zalvira Vilas Boas, “História Antiga”, Alba Melo e, “Sociologia”, Emília, ele sequer ouvira falar, antes daquele dia da matrícula.

Entretanto, faz-se necessário salientar o fato de que, por total falta de informação do modo como funcionava a Universidade e o modo como se dava a organização da estrutura disciplinar dos seus cursos, José Mário não conseguira se precaver para uma armadilha que se lhe apresentava naquele elenco de disciplinas, qual seja o fato de que eram seis, ao invés de onze ou doze, regime do qual acabara de sair. No momento em que refletia, não se dera conta de que no regime escolar anterior, as dez, onze ou doze disciplinas eram cursadas em um período de cerca de dez meses; enquanto aquele novo regime escolar em que entraria já, já, seis disciplinas deveriam ser cursadas em cerca de quatro meses. Aquelas duas maneiras de aceder ao corpo de matérias a ser apreendido, estaria no modo como ele faria para dar conta do cursar, no tempo e com os meios que precisaria alocar. Naquele instante, ele não atentando para tal forma de distribuição do cursar no segundo grau, com aquele que se lhe apresentava no instante em que analisava o elenco de disciplinas que cursaria dali por diante, entendeu que seria mais leve ou, pelo menos, mais tranquila, a tarefa que se lhe afigurava. O seu pensar equivocado só foi por ele percebido, quando em contato direto com as disciplinas e com os prazos atinentes às leituras, as avaliações e ao transcurso do curso como um todo.

Para os leitores de quarenta anos posteriores às reflexões aqui propostas, cabe salientar, de passagem, que as ferramentas com as quais se opera largamente nos tempos hodiernos, não eram sequer sabidas, menos ainda alcançáveis por aquele rapaz que acabara de ter a sua matricula efetivada em uma Faculdade. Redes sociais, acesso rápido à todo o tipo de informações, sequer era cogitável lá pelos meados dos anos oitenta do século em que tais coisas se passaram; nem mesmo àquelas informações que poderiam ser obtidas à custa de leituras de periódicos e/ou obras publicadas sobre as diversas transformações que foram operadas nas universidades, bem como as diversas reformas educacionais, eram para ele de acesso negado, quer pela necessidade de aquisição e/ou empréstimos em bibliotecas, quer pela inexistência de transcrições em braile de tais obras, mormente, as mais basilares e icônicas. O modo como funcionavam as então Faculdades, o acesso aos periódicos que eram por elas publicados e fomentados, além de ser lento e difícil, devido a uma grande dispersão deles, também o  contato e a troca de informações eram lentas, raras e esparsas. Tal acesso era ainda mais restrito, quando se tratasse de aluno cego, que, em geral, primeiro precisava saber que tal ou qual periódico existia, poderia ser encontrado em alguma biblioteca; depois, ele precisaria encontrar um tempo em meio às suas atividades de transcrição e leitura das obras inerentes a cada disciplina que cursava, também precisaria de alguém, pago ou voluntário, que lhe quisesse ler um material que, via de regra, não fazia parte das suas leituras obrigatórias e indispensáveis. Em síntese, longe estava o tempo em que tudo se podia encontrar, ler, reproduzir, estudar por quem quer que fosse, em qualquer tempo e lugar.

 

Alagoinhas – 15 de fevereiro de 2026 (domingo de carnaval) – verão brasileiro.

Professor Jorge Damasceno – e-mail: historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 8 de fevereiro de 2026

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte XIX.

 

A Matrícula

 

Aquela primeira segunda feira de março de 1986, seria o primeiro dia de vigência efetiva do “Plano Cruzado”, nova política monetária implantada pelo governo Sarney, com o fito de debelar a escalada inflacionária e, o constante aumento abusivos dos preços que grassara no País, desde a chegada da assim denominada “Nova República”. Não obstante o advento do “Fiscal do Sarney”, o tempo mostraria a ineficácia daquelas medidas e das suas subsequentes tentativas de reordenamento de rumos, promovidos em diversos momentos pela equipes econômicas que sucederam àquela que dera início àquele processo de controle artificial dos preços. Tais controles eram burlados pelo desaparecimento de mercadorias; pelas cobranças de ágio para a entrega de outras; cenas espetacularizadas em que garrotes eram içados dos pastos de agropecuaristas para fazer com que a população creditasse ao governo uma autoridade que de fato ele não possuía... Enfim, era portanto, naquela segunda feira que José Mário se levantara menos interessado no que viria a ser o primeiro dia que sucederia ao feriado bancário, decretado na semana anterior. Afinal, ele não possuía quaisquer ativos, passivos ou proventos de qualquer ordem ou procedência com os quais precisasse se preocupar; ele estava fora do mercado de trabalho, não possuía um único centavo que fosse depositado em cruzeiros, que acabaria por derreter, ao ser convertido para Cruzado... Naquele dia 3 de março, ele só possuía o desejo de que chegasse a hora em que se iria matricular na licenciatura para a qual o seu nome se encontrara na lista daqueles que a poderiam cursar.

É assim que, ao despertar daquela segunda feira iluminada pelo sol de um verão que já começava a se despedir para dar lugar ao outono, não sem antes fazer valer as “águas de março”, conforme preconizava o poeta em antológica canção interpretada por Elis Regina (1945-1982), o alvorecer do dia, o farfalhar dos ventos nas folhas, o zunir dos últimos insetos que sorvem as últimas gotas do orvalho  da noite e o chilrear das aves que saem em busca de seus espaços de abrigo de um sol escaldante que se avizinhava, encontram  José  Mário absorto em seus pensamentos que fugiam sorrateiros do lugar onde vive e se remete teimoso para o lugar onde ele só estaria, lá para o fim da tarde. Ele tivera uma noite de sono intermitente, como habitualmente se lhe ocorria em situações de mudanças. Ele, embora em diversos momentos do seu viver, precisasse realizar mudanças em sua vida – fosse por necessidade, fosse por imposição das circunstâncias ou por alguma outra razão –, nunca o fizera por vontade deliberada, mas, ordinariamente por pressão. Para ele, invariavelmente, fora muito custoso sair de um determinada instância do seu viver ou do seu ser, para se reposicionar em uma outra instância dada. Não obstante aquele momento de ruptura com o ensino escolar fosse uma necessidade imperiosa da vida que ele pretendia percorrer, José Mário, de per si, embora entendesse, não compreendia plenamente o que estava para se dar dali há algumas horas. Como seria? E de qual modo faria? Eram as indagações que fazia o seu espírito tão irrequieto, quanto atemorizado.

Portanto, aqueles e tantos outros cogitares se interpuseram entre os seus lapsos de sono e as longas vigílias que marcaram o passar da noite do domingo até o raiar da manhã de um dia atípico para José Mário. Dali por diante, tudo seria não só novo, como desconhecido para ele. Embora já conhecesse, ainda que superficialmente, o novo espaço em que seria inserido daquele ano para frente, se lhe afligira o espírito uma ansiedade típica do seu ser, uma vez que, conforme já se apontou, ele era pouco afeito a mudanças de ambiente, no que tange à forma, ao espaço, ao público com os quais precisaria lidar. Tudo ali lhe era desconhecido; poucos daqueles com os quais precisaria interagir durante o curso, já houvera estado consigo antes, exceto um deles – embora ainda disto ele não soubesse. Ele se sentia como que esmagado ao peso de um peso ainda desconhecido, mas que quase lhe vergava os ombros... Mas, é preciso enfrentar aquele que se lhe apresentava como um monstro, apenas por ser “novo”. Lembrava do pânico que vivera há apenas alguns anos, quando sua mãe cogitara de buscar o transferir do seu já bem conhecido Brasilino Viegas, para um acanhado Oliveira Brito, apenas por aquele último se situar bem mais perto de casa, o que facilitaria a tarefa dos seus irmãos de o levar e o buscar... Ele se lembrava do quanto temera aquele afastamento abrupto de um lugar que não só ele conhecia, como era conhecido, não só pelos professores que ali atuavam, como pelos seus colegas, quer de turma, ou apenas que pertenciam ao mesmo grupo escolar. Na escola mais próxima de casa, não só ele não conhecia ninguém, entre os outros alunos e os professores que ali estavam lotados, como não conhecia o espaço físico em que seria inserido. Pois então, era este o fantasma que lhe visitara por toda a noite; que lhe sussurrava sorrateiramente que, quem sabe, seria esmagado por tantos desconheceres.

No entanto, malgrado todo aquele embate interno que se sustentara não só durante a noite, mas, também por todo o transcorrer daquele dia, José Mário não dispunha de qualquer outra possibilidade a mobilizar, se não aquela para a qual se preparara por todo aquele tempo. Tendo passado toda a manhã e chegada que fora a tarde, dirigira-se ele até o prédio da Faculdade de Formação de Professores de Alagoinhas, que então se situava à Rua Elvira Dórea, à Praça Ruy Barbosa, para ali efetivar a sua matrícula e, definitivamente entrar no rol dos alunos do ensino superior. Ao se dirigir até a secretaria acadêmica, uma surpresa se lhe afigurara, na pessoa da Secretária que lhe atenderia para aquele fim. Era uma senhora, sua já antiga conhecida do Brasilino Viegas, que ali atuara como uma das vice-diretoras do aludido estabelecimento escolar, quando ele ainda dava os seus primeiros passos no processo de escolarização. Sim, era a famosa e rígida Professora Valdete Costa que se encontrava diante de José Mário, com o objetivo de receber e conferir a documentação que ele levava, conforme o que fora previamente exigido, por meio da qual ela o declararia matriculado. Evidentemente que, por algumas vezes ter se dirigido àquele espaço na condição de estudante secundarista, para dali receber apoio informal do pessoal da biblioteca, talvez ele esperasse encontrar mais alguns conhecidos, além de uns poucos dentre aquelas funcionárias que tantas vezes o apoiara no seu intento de realizar pesquisas bibliográficas para elaborar os seus trabalhos escolares, ninguém mais ali lhe parecera conhecido ou, ao menos, familiar. A exceção ficou por conta do recém-empossado diretor, o professor Jamim Nascimento Silva (1941-2020), seu já conhecido, por conta de ter sido professor no Estadual, vereador na cidade em legislatura pretérita, bem como, ter ele sido pastor na Primeira Igreja Batista de Alagoinhas, antes que José Mário lá ingressasse.

Enfim, concluídos os trâmites processuais relacionados àquela etapa burocrática, saíra José Mário, efetivamente matriculado, de posse do elenco de matérias e dos horários em que seriam desenvolvidas as aulas a elas relacionadas. Era, portanto, o começo de caminhada na graduação que, doravante, ele passaria a enfrentar.

 

Alagoinhas – 08 de fevereiro de 2026 – Verão brasileiro.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com


domingo, 1 de fevereiro de 2026

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte XVIII.

 

O Intervalo – III - Conjecturando.

 

Diferentemente do que se vem escrevendo nesta série que já se faz um tanto alentada, o arrazoado que o paciente leitor terá diante de si, não parte necessariamente de um feixe de rememorares – no estilo Marcel Proust (1871-1922) ou García Márquez (1928-2014) –, mas, em conformidade com o apelo feito por uma fiel leitora deste espaço – para não dizer exigência –, quando escrevera para este garatujador, solicitando explicações do “por quê” o procurador declinou da sua prerrogativa e, diante da sua resposta informando não saber, não ter como explicar, ela insiste que ao menos especule “para lhe satisfazer a curiosidade”, nas linhas que se seguem, se procurará levantar algumas hipóteses sobre o que teria levado o irmão de José Mário a não fazer uso da procuração que lhe fora conferida para o matricular, preferindo lhe enviar um telegrama, por meio do qual o convocava para que se fizesse presente na cidade, para a realização de sua matrícula na Faculdade de Formação de Professores de Alagoinhas, a (FFPA). Afinal, para a referida leitora, cuja mensagem foi encaminhada para este escrevedor logo no domingo a tarde, ou seja, ainda no calor da leitura, não seria possível que não se procurasse entender os motivos daquele gesto, ainda que no campo das conjecturas.  Então, enfrente-se mais este desafio.

É assim que, os leitores destes arrazoares foram deixados em contato com José Mário, por ocasião do seu retorno para Alagoinhas, vindo que fora de Jacobina, onde estivera com a parentela de sua mãe, chamado que fora pelo seu irmão, ao receber daquele um telegrama, enquanto ouvia por meio do rádio e da televisão, os discursos e as análises inerentes às novas diretrizes monetárias do País. Era pois um sábado quase outonal, ainda que faltassem mais de vinte dias para aquela estação em que as folhas caem e que as cigarras já maduras, cantam e morrem; e, em que são sentidos os últimos aromas das madrugadas do verão; quando as frutas da estação que já quase se finda, passam a rarear e os seus sabores precisarão esperar o limiar do próximo dezembro para voltar aos paladares. Portanto, aquele fora um primeiro de março ensolarado e de temperatura amena, cujo dia transcorrera com um ar fresco e um clima agradável, o que viera a favorecer um ambiente propício a que se desse largas ao pensamento e favorecera aos cogitares do espírito. Em meio às divagações embaladas pela sensação de conforto em seu habitat, é que ele passara a cismar, no sentido de entender a razão de ter sido chamado quase que às pressas, uma vez que, antes de sair da cidade, José Mário houvera providenciado tudo para que as coisas fossem feitas sem a sua presença, o que, talvez pensasse, daria a ele uns dias a mais para recarregar as energias para o enfrentamento que, já acreditava, iria exigir bastante de si. Debalde, buscara aquelas razões; fizera algumas interrogações, sem conseguir, entretanto, encontrar quaisquer respostas satisfatórias para elas.

entretanto, se faz necessário desenvolver uma contextualização relacionada aos dois irmãos, visando uma melhor compreensão da especulação em curso. Em primeiro lugar, é preciso dizer que os dois irmãos são filhos de duas mães com um mesmo pai, sem que se tenham conhecido durante a fase infantil; José Mário, quatro anos mais velho do que aquele outro irmão – tendo ainda um irmão mais velho, da mesma idade que contava José Mário e, que se conheceram mais ou menos na mesma ocasião –, compartilhando ambientes cotidianos diferentes, amadurecimentos diferentes, conceitos e condições de sobrevivência diferentes, embora estivessem no mesmo campo econômico e social do viver, a pobreza, ainda que não a extrema. Quando se dá o episódio da procuração e do telegrama, um deles contava vinte e cinco anos completados no final de 1985 e o segundo, prestes a completar 22 anos, naquele mês de março recém começado.

Em segundo lugar, não se pode perder de vista o fato de que, embora eles já se conhecessem há cerca de onze anos, tempo em que José Mário os descobrira – embora já soubesse da existência deles, sem, no entanto,  ainda estabelecer contado, até os meados de 1974, quando entrara pela primeira vez no espaço onde residiam e ali, travara o primeiro diálogo com aquela senhora que já contava cerca de sessenta e poucos anos – e que frequentou com alguma assiduidade a casa da avó materna daqueles seus irmãos e, ao mesmo tempo em que ouvia com atenção as narrativas daquela senhora tão falante e cheia de vivências, as conversas com os irmãos eram menos frequentes e, mais concentradas com o outro mais velho, que era da sua mesma idade e, com seriação escolar mais adiantada, o que quer dizer que, com o moço mais jovem, as trocas de ideias eram mais ocasionais e furtivas. Ou seja: a relação de José Mário mais próxima era com o seu coetâneo. Evidentemente, isto pode ter construído uma pequena barreira entre ele e o mais moço dos irmãos, sem contudo os afastar de todo. Tanto é assim que, conforme se leu em arrazoados anteriores, ambos comemoraram efusivamente o aparecimento do nome de José Mário, na lista dos que foram aprovados para o acesso ao curso de Licenciatura em História, para o qual concorreu.

Em terceiro lugar, talvez se possa acrescentar o fato de que eles não dispunham de quaisquer outros meios de se comunicar, de se interligar, de trocar ideias e impressões, que não a presencialidade física. Para além disto, havia entre eles uma diferença profunda de temperamento, de preferências e, sobretudo, de perspectiva, como é natural entre irmãos, evidentemente, porém, tornada mais agravada pelo pouco contato presencial, tanto no que diz respeito à frequência numérica, quanto no que diz respeito à objetividade de tais contatos. Isto quer dizer que, as conversas e/trocas só se davam em ocasiões muito específicas, de acordo com alguma necessidade manifesta por um ou por outro, embora tal necessidade se apresentasse em um maior número de vezes, de parte de José Mário, por razões mais do que óbvias.

Conforme se pode perceber, está claro que se torna uma empreitada difícil, procurar esquadrinhar o que se tivera passado naquele espírito enquanto cismava sobre os acontecimentos recentes ou, sobre o que teria se passado com o seu irmão, enquanto esteve fora. Entretanto, talvez se possa especular o que fervilhara no cérebro de José Mário, ao longo daquele e dos dias que se seguiram, quando buscava entender o gesto do seu irmão que, antes, houvera aceitado receber dele uma procuração para realizar a sua matrícula enquanto viajava, para depois, sem que houvesse um motivo aparente, abrir mão de tal procuração, fazendo com que convocasse José Mário, por meio de um telegrama lacônico, para que voltasse para a cidade, a fim de não perder a data da matrícula. Quiçá, José Mário se inquietasse com a possibilidade de ter havido alguma interferência exógena entre eles dois, no sentido de alguém lhe ter aconselhado para que considerasse o perigo de se envolver em uma questão complexa e perigosa como aquela. OU, o medo tenha sido deflagrado de modo autóctone, na medida em que aquele rapazinho em processo de amadurecimento, se tivesse assustado com o tamanho da responsabilidade de que fora investido. Enfim, inúmeras são as possibilidades que se poderia levantar, com o fito de explicar aquela repentina mudança. Até poderia não ser nada do que até aqui fora exposto. O desconhecimento do modo de funcionar a Universidade, para ele, pode ter sido o motivo que o levara a declinar do pedido feito por José Mário, para que realizasse a sua matrícula, mediante a procuração que possuía; ou, ainda, alguém poderia ter lhe dito que aquela procuração não teria validade jurídica, o que inviabilizaria o seu uso para o fim ensejado por eles.

Daí, conforme imagina este escrevente, talvez se possa esboçar uma provável tentativa de explicação da motivação que levara aquele rapazinho a abrir mão de sua condição de “procurador” do irmão que temporariamente se ausentara da cidade para ter com os seus parentes maternos. Talvez, aquele mocinho estivesse temeroso de não saber se  desencompatibilizar da tarefa que lhe fora confiada, resultando em prejuízo para o seu representado, em caso de algum erro em sua execução. É preciso salientar que, embora ainda muito moço, ele já desempenhava tarefa de fiscalização no setor de transporte da prefeitura municipal. Ao que parece, nem aquela experiência funcional foi suficiente para que ele se sentisse seguro em executar aquela outra tarefa, que, diferentemente daquela que já desenvolvia há algum tempo em uma área de grande responsabilidade junto ao município, talvez se lhe escapasse ao domínio, aquela que lhe fora conferida por aquele irmão que estava prestes a ingressar no ensino superior, para o quê ele concorreria, fazendo uso da procuração que jazia em suas mãos. Assim pensando e, considerando o que se expôs até aqui, talvez se possa afirmar com alguma perspectiva de certeza que, sentindo o peso da responsabilidade que lhe houvera sido delegada, ele acabara por não se querer arriscar e, ainda menos, arriscar a caminhada do seu irmão, preferindo convocar-lhe para que assumisse ele mesmo a tarefa de fazer a sua matrícula.

 

Alagoinhas – 01 de fevereiro de 2026 – Verão brasileiro

 

 Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 25 de janeiro de 2026

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte XVII.


O Intervalo – II.

 

Os elementos que concorrem para o desencadear de lembranças, não concorrem na mesma medida, quando elas precisam ser ordenadas. O escavar das memórias, de acordo com o que é encontrado em Macel Proust (1871-1922), quase sempre é precedido por um fragmento inesperado, encontrado em algum processo sensitivo inerente ao viver humano, NO caso de Proust, tal desencadear se deu no momento mesmo em que ele provou um biscoito que lhe era servido com chá, em casa de suas parentes. Ao voltar a vivenciar aquele momento alguns anos depois, como que reabre a sucessão de eventos que passa a narrar na primeira pessoa, ordenando no tempo e estruturando em elaborações longas e densas, por meio do que, ele “rememora” um bom número de pessoas e eventos, a partir dos quais elabora construções que acabam por serem tomadas como tratados sobre o modo como funcionaria a memória social, fundamentada em um conjunto de outras memórias, por vezes superpostas. Ele assim se exprime em obra de sua lavra, hoje já clássica, “A Procura do Tempo Perdido - Para o lado de Swann”:

 

“[...]. Mas, no mesmo instante em que a colherada misturada com farelos do bolo tocou o meu palato, estremeci, atento ao que se passava de extraordinário em mim. Um prazer delicioso me invadira, isolado, sem a noção da causa. Ele imediatamente tornou as vicissitudes da vida indiferentes para mim, seus desastres, inofensivos, sua brevidade, ilusória, do mesmo modo que o amor age, enchendo-me de uma essência preciosa. ou melhor, essa essência não estava em mim, era eu. Parei de me sentir medíocre, contingente, mortal. De onde poderia ter vindo essa poderosa alegria? Sentia que ela estava ligada ao gosto do chá e do bolinho, mas o ultrapassava infinitamente, não devia  ser da mesma natureza. De onde vinha ela? O que significava? Onde  apreendê-la? Bebo um segundo gole no qual nada encontro a mais  que no primeiro, um terceiro que me traz um pouco menos que o  segundo. É tempo de parar, a virtude da bebida parece diminuir. É  evidente que a verdade que procuro não está nela, mas em mim. Ela  a despertou, mas não a conhece, e só pode repetir indefinidamente,  cada vez com menos força, esse mesmo testemunho que não sei interpretar e o qual quero ao menos lhe pedir de novo e reencontrar  intato logo em seguida, à minha disposição, para uma iluminação  decisiva. [...].” (PROUST, 2022, p. 70-71.

 

Conforme pode perceber quem ora lê estes garatujares, embora Proust tenha sentido uma espécie de tempestade mnemônica, tal não se deu em meio à certezas; ao contrário. Inúmeras foram as interrogações que se lhe assomaram ao espírito, ao ponto de tentar repetir o fenômeno, mediante mais duas ou três colheradas do chá com bolo. No entanto, o primeiro desencadear ao toque do composto no seu palato, fê-lo como que reconstituir parte de um passado há muito submerso na memória, o que lhe permitiu escavar profundas camadas superpostas, pouco a pouco trazidas à superfície e, transformadas em textos densos e profundos, estabeleceu parâmetros sobre os quais trabalham aqueles que se exercitam na tarefa de rememorar aquilo que vivera, tanto no que diz respeito ao seu viver pessoal, quando ao que se refere à elaboração coletiva de uma memória comum.

É ainda na direção desenvolvida por Proust que caminha García Márquez (1927-2014) em seu “Viver para contar”, quando ao rememorar a viagem feita com a sua mãe para o lugar onde vivera, com o fito de vender a propriedade da família. Reportando-se ao episódio em que a sua mãe é recebida por um  seu velho conhecido da aldeia onde crescera, García Márquez apresenta um rememorar que lembra o trecho transcrito acima, provavelmente, indicando já conhecer o que fora desenvolvido pelo autor francês. Diz ele:

“[...]. Desde que provei a sopa tive a sensação de que todo o mundo adormecido despertava na minha memória. Sabores que tinham sido meus na infância e que perdera desde que me fui embora da aldeia reapareciam intactos com cada colherada e apertavam‑me o coração. Desde o princípio da conversa que me senti diante do doutor com a mesma idade que tinha quando lhe fazia partidas pela janela, de modo que me intimidou quando se dirigiu a mim com a seriedade e o afecto com que falava à minha mãe. Quando era pequeno, em situações difíceis, procurava dissimular a minha atrapalhação com um pestanejar rápido e contínuo. Aquele reflexo incontrolável voltou‑me de imediato quando o doutor olhou para mim. [...].” (MÁRQUEZ, 2003, p. 39).

Portanto, os rememorares, via de regra, precisam de dispositivos que ajudem o seu desencadear, promovendo uma avalanche de fragmentos que puco a puco fão sendo agrupados em construções mnemônicas, sempre tendo em vista que tais construções tem o presente como elemento desencadeador de uma reconstrução do passado, através de uma consciente ação de seleção do que lembrar, do como e do quando lembrar; do que trazer a público; do que falar, do quando falar e do que silenciar, bem como, do que esquecer. No caso específico deste que ora escreve estes caracteres alfanuméricos, as músicas e os cheiros que se lhe assomam à memória, em geral, são os desencadeadores de feixes e feixes de lembranças que, pouco a pouco, vão se deixando apreender e vão sendo transformadas em arrazoados que exprimem – ou procuram exprimir – os rememorares decodificados em linhas e páginas, conversas e reflexões. Para dar um exemplo concreto do que foi dito, em 2005, quando residia em Niterói, por ocasião do cursar das disciplinas do doutorado, enquanto procurava dormir após um dia intenso de estudante de pós-graduação, ouvia um programa especial, no rádio, produzido e transmitido pela rádio Jornal do Brasil FM. Ali, era apresentado um CD de Elba Ramalho e Dominguinhos; tendo sido tocadas todas as faixas, entremeadas de falas dos dois artistas. Pois bem. Quando ele lembra ou mesmo, quando ele toca uma daquelas faixas – Chama – vem-lhe à memória detalhes bem nítidos daquele apartamento onde o programa era escutado, situado à Rua Teixeira de Freitas, condomínio Flamboyant, no bairro do Fonseca, como se ainda lá estivesse.

Mas, volte-se ao ano de 1986, ao final de fevereiro, logo após ter saído o resultado do vestibular que lhe dera acesso ao curso de licenciatura em História, a ser desenvolvido na ainda Faculdade de Formação De Professores De Alagoinhas (FFPA). Depois de ter visitado os seus amigos e aqueles que lhes deram apoio na caminhada até a realização daquele certame, passara a se preparar para realizar a matrícula, inicialmente programada para a terceira semana de fevereiro, no sentido de procurar, receber e organizar a documentação exigida para aquele fim. Entretanto, estava em curso uma greve de professores e estudantes , o que inviabilizou a efetivação da matrícula na data estabelecida.

José Mário, enquanto isto, passara pelo “Estadual” com o fito de receber a sua certificação de conclusão do segundo grau. Ali estivera por um bom par de horas, aguardando a chegada da diretora de então, que assinaria o dito certificado. Estando ali, fora sentar-se ao fundo do auditório, onde tantas vezes estivera acompanhado por muitos colegas, onde muitas conversas se desenrolaram; onde algumas garotas lhe despertariam o interesse, sem que, no entanto, ele o tornasse conhecido, por receio de sensura, rejeição explícita, ou coisas que tais. No entanto, ali ele estava, diante de uma imensidão de escola, inteiramente vazia por conta das férias; o espaço, portanto,seu velho conhecido, lhe fazia companhia à solidão que sentia. Sim. Uma solidão real, indicada pela ausência concreta de pessoas. Mas, havia aquela outra; aquela em que o seu espírito vagueava em busca de encontrar com quem trocar as impressões que ora experimentava; mas, experimentava apenas ele, consigo mesmo. Quisera mesmo que as horas se quedassem em sua companhia; que respirassem com ele aqueles ares que, dali em diante, se tornariam ares de um passado que ainda estava ali, ao alncance dos seus sentidos; um passado que passara, mas, há ainda tão pouco tempo.Porém, malgrado o seu desejo, as horas passaram, a professora/diretora chegara, assinara o documento, seu Faustino o entregara; ele, se retirara; se dirigira de volta para a sua casa.

Tendo sido adiada a matrícula e, tendo ele em ordem toda a documentação exigida, acabara por ir ter com a parentela de sua mãe, na cidade de Jacobina, tendo deixado seu irmão paterno em alerta e com uma procuração para fazer a sua matrícula, quando isto fosse determinado pela Faculdade. Assim pensando, assim agindo: no dia 28 de fevereiro ele se encontrava em Jacobina, quando ouvira pela televisão, que havía nascido mais uma moeda no Brasil: o Cruzado. Ouvira por todo o dia as vozes de Dilson Funaro, do então presidente da República José Sarney, bem como de inúmeros comentaristas de economia, se esforçando por orientar a população, sobre as novas diretrizes monetárias que passariam a reger a vida econômica e social do País.

Entretanto, depois de julgar ter entendido todas as explicações dadas e as análises feitas, uma surpresa: um telegrama do seu irmão, o convocava para voltar imediatamente para Alagoinhas, a fim de realizar a sua matrícula. José Mário não entendeu nada. Como assim? O seu irmão não fora instituído seu procurador para aquele fim?

Assim pensando, se perguntara outras vezes a mesma coisa. Por que então aquela urgência? Toda a documentação, além da procuração, já não se encontrava em suas mãos? E, como não havia como obter respostas àquela questão, no sábado, primeiro de março, um sábado de sol, depois de uma noite/madrugada inteiras de estrada, ele já se encontrava em solo alagoinhense para se apresentar na segunda feira, dia em que tornaria efetiva a sua entrada no ensino superior, entrada que a aprovação no vestibular fora apenas a primeira etapa. Outras, não imaginava quantas, haveriam de vir e, ele, as teria de encarar, enfrentar, caminhar, seguir em frente, não obstante os obstáculos que houvesse de transpor.

 

Alagoinhas – 25 de janeiro de 2026 – verão brasileiro.

 

Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 18 de janeiro de 2026

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte XVI.

 

O Intervalo – I.

 

Depois de escavar sedimentos de memórias que trouxeram à lume as reações de José Mário ao saber que houvera saído o resultado do certame a que se submetera com o fito de conquistar o acesso ao ensino superior, no arrazoado  que o paciente leitor ora tem diante de si, pretende-se abordar mais alguns movimentos do protagonista, no sentido de repercutir alguns dos desdobramentos relacionados àquela que fora uma das maiores efemérides do seu caminhar até então. Evidentemente, é no feixe de camadas de memória deste escrevente, que se vai buscar aqueles fragmentos a partir do qual a narrativa será construída. Não é de mais salientar, que a memória aqui trazida no processo de construção textual aqui desenvolvida, é evocada e selecionada por quem lembra e, é uma representação do passado, a partir do presente.

Passadas algumas horas após as peripécias feitas por José Mário para saber se estaria ou não na lista dos aprovados que acabara de sair no jornal A Tarde daquele dia 7 de fevereiro de 1986, pelo menos três sentimentos contraditórios lhe perpassaram o espírito. O primeiro e mais imediato deles, foi a euforia, desencadeada que fora pela surpresa de ter encontrado o seu nome em uma lista de aprovados que não mais acreditava vir a constar, considerando as conferências dos gabaritos publicados logo após a realização das provas. Segundo a sua análise de resultados de tais conferências, a ele parecera que não seria daquela vez que faria parte do seleto grupo de estudantes que avançaria no percurso formativo, alcançando o acesso ao ensino superior. Impulsionado por aquela euforia decorrente de tão agradável surpresa, ele passou alguns dias inebriado pela sua classificação e, passara a visitar as pessoas que contribuíram com ele, no alcançar daquele feito. Conforme se apontou no arrazoado anterior, a primeira visita feita sob a égide da alegria que lhe explodira no peito, fora feita ao Pastor Jessé da Silva (1948-2022), quando descera do ônibus em que embarcara na rodoviária e se dirigira aquela casa, situada à Rua Benjamin Constant, para ali, trocarem um abraço de grandes amigos que o eram, desde o ano de 1980, quando tiveram os primeiros contatos pessoais. Já lá pelos meados daquela mesma tarde, a professora Edna Garcia Batista (1945-2017), sua professora de Língua e Gramática Portuguesa - já largamente citada nos escritos anteriores –, o recebeu em sua casa para um longo “dedo de prosa” descontraído e, livre das amarras das lições, das leituras e das explicações que marcaram os encontros anteriores, porém, envolto pelo mesmo carinho e atenção que os dominara, por pelo menos uns três meses. Nos oito ou dez dias seguintes, José Mário prosseguira em seu visitar a outros amigos e demais que o incentivara com palavras de apoio e, lhe propiciara alguma outra contribuição que lhe impulsionasse a continuar a caminhar no rumo que houvera escolhido seguir. Portanto, aquela euforia fora o combustível que mantivera aquela máquina de fazer visitas e implementar longas e até animadas conversas, com as gentes mais diversas, tanto no ser, quanto no ter.

No entanto, pouco a pouco, aquele combustível foi, por muito gasto e sem a indispensável reposição,  se tornando insuficiente para fornecer a energia necessária para a movimentação física e mental de um estado de espírito eufórico, dando lugar ao segundo dos sentimentos contraditórios que aquele rapaz passara a experimentar, em relação à surpresa de ter encontrado o seu nome na lista de aprovados no certame que o habilitaria a prosseguir no seu processo formativo. Era a busca de respostas para as questões que se lhe avultavam ao cérebro, que queria saber “o que fazer?” e “como fazer?”, que fazia murchar a euforia dos primeiros dias, tomando de chofre o espírito daquele moço, obrigando-o a voltar a atentar para a realidade social e econômica em que ele vivia, desde a mais tenra idade. Aquela, por sua vez, lhe gritava na cara e sem a menor discrição, que, apesar de ter ele subvertido em seu favor uma parte da discrepância inerente à sua formação escolar, a outra parte, aquela que envolvia a característica social em que ele se encaixava, embora não o impedisse de tomar parte daquela nova jornada escolar para a qual ele fora habilitado, no entanto, ele não estava social e economicamente equipado para caminhar naquela estrada que se lhe abria, uma vez que, para nela jornalhar, ele não dispunha do aparato exigido para tal. Os gritos que a realidade lhe impusera ao espírito, acabara por atormentar a José Mário, nos dias que se seguiram àqueles primeiros, marcados pela euforia do resultado que lhe fora favorável.

Assim, noites pós noites de longas horas insones, tempo em que ele fora confrontado com perguntas que iam desde aquela que apontava para a sua indumentária escassa e pouco adequada ao novo ambiente que passaria a frequentar, até aos materiais tiflológicos que deveria utilizar ou, que deveria buscar aceder, junto à secretaria de educação do Estado, no seu setor de “educação especial”, é que se passara grande parte dos dias que antecederam o momento em que se daria a sua matrícula no curso e na Faculdade para os quais fora aprovado. Foi daqueles embates de si para consigo que, de súbito, se lhe ocorreu procurar aquelas dedicadas senhoras que atuavam no aludido setor, entendendo que seria dali que lhe viria o apoio de que precisaria para aquele momento em que, acreditava, estaria dando um salto gigantesco, no que tange à preparação de uma pessoa cega para que ela alcançasse o ápice de uma carreira, por meio da qual, entraria no mercado de trabalho, com uma profissão definida e com a autonomia pretendida.

Conforme era do seu temperamento, ato pensado, pensamento executado. Em algum dos primeiros dias de março de 1986, já sob os auspícios do recém nascido “Plano Cruzado”, depois de mais uma daquelas noites mal dormidas, José Mário se levanta por volta das cinco da manhã, disposto a se dirigir até a capital do Estado, com o intuito de encontrar aquelas “senhoras dedicadas”, já suas conhecidas, para lhes fazer saber a novidade e, claro, apelar pelo seu apoio, no que tange ao fornecimento de material tiflológico por meio do qual, ele pudesse – conforme cria – fazer frente às suas novas necessidades – que, na verdade, não eram novas mas, sim, mais prementes –, de modo a poder caminhar com alguma tranquilidade ou mesmo, com alguma desenvoltura naquela nova senda, onde as exigências, o desempenho e as cobranças certamente seriam maiores.  Entretanto, malgrado aquelas senhoras terem recebido a novidade com alguma simpatia – elas jamais esperariam nada daquele aluno rebelde, insubmisso e indisciplinado, conforme uma delas confessara alguns anos mais tarde –, o resultado daquela entrevista acabou por desencadear o terceiro sentimento controverso naquele espírito em que ainda restava um pouco de “crença” nas instituições e nas pessoas encarregadas de apoiar as iniciativas das pessoas cegas, no sentido de construir o seu caminho para alcançar a sua autonomia: a descrença absoluta em quaisquer delas.

Depois de terem ouvido atentamente o relato quase entusiasmado do seu interlocutor, uma delas proferiu uma sentença que José Mário nunca esquecera, que caiu sobre ele como se fora um balde com água recém extraída das geleiras siberianas:

- “Cursar História para quê José Mário? Para ensinar no Instituto de Cegos”?

Nem é preciso dizer que José Mário quase não conseguiu articular uma resposta. A única que lhe veio ao cérebro, ele a exprimiu, quase balbuciante:

- “E, quem disse que eu quero ensinar no Instituto de Cegos? Eu quero ensinar na escola comum”.

Assim, sem poder aquilatar o efeito daquelas suas palavras dirigidas àquelas “dedicadas senhoras” – talvez até tenham sido tomadas como insolentes e atrevidas –, José Mário voltara quase no mesmo rastro para Alagoinhas, com uma máquina de escrever Olivetti Letera32 e um gravador Philips nas mãos – e as fitas? E as pilhas para fazer o dito funcionar? E o papel? –, como tendo sido a única coisa que elas poderiam dar como incentivo àquele aluno, ali, já com a certeza de que não poderia contar com elas, pois, deixaram bem claro: “Nossa tarefa e responsabilidade é com o primeiro e o segundo graus. Quem entra no terceiro grau, precisa saber que não é aqui o ponto de apoio”. Ou seja: quer voar mais alto do que a sua realidade econômica e social permite? Então, se vire, como puder

 

Alagoinhas – 18 de janeiro de 2026 – verão brasileiro.

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com