JOSÉ MÁRIO NA GRADUAÇÃO – 6.
Em um prosear que já se tem estendido há algumas semanas,
este escrevedor vem se valendo de fragmentos de memórias já bem recônditas para
tentar reconstruir alguns pedaços de História do caminhar de José Mário pela
graduação. A partir de tais fragmentos, se tem procurado refletir sobre um
momento histórico dado, ligado a um tempo e a um conjunto dado de
circunstâncias delimitadas ao seu espaço de percurso, aquela Alagoinhas que
ainda não houvera ultrapassado os dez mil aparelhos telefônicos instalados; que
ainda talvez não contasse com mais de
vinte mil automóveis circulando pelas suas ruas, ainda majoritariamente
calçadas com paralelepípedos, tanto em suas ruas centrais, quanto nas
periféricas, que eventualmente fossem pavimentadas; aquela Alagoinhas que
contava com cerca de oito ou quiçá uma dezena de linhas de transporte coletivo,
disponíveis para atender a uma demanda formada
majoritariamente por comerciários e estudantes de escolas públicas e privadas
da segunda até a sexta feira, sendo o sábado até por volta das duas da tarde,
utilizadas pelos munícipes em geral, na ida e, sobretudo no retorno da feitura
da feira semanal, que, aliás, ainda estava instalada no centro da cidade. É
neste sentido que em tais fragmentos de memória espacial, este garatujador tem
bem claro o existir de espaços urbanos ainda pouco desenvolvidos no que tange à
ocupação comercial e/ou residencial, como por exemplo, vastas áreas entre a rua
Marechal Deodoro e a 21 de abril; entre a rua Liz Viana e a Coronel Filadepho
Neves; entre a rua Dantas Bião e a região da “Igreja inacabada” – que começava
a ser ocupada esparsamente pelos conjuntos “INOCOP” –, entre outras.
Era, portanto, a conformação da Alagoinhas encontrada pelo
nascer do ano de 1987, conformação, aliás, que demorou cerca de dez anos para apresentar
uma alteração significativa, visto que, naquele ano, estava em execução um
projeto ousado de intervenção urbana, levado a efeito pela administração
Municipal, que só passa a fazer sentir os seus efeitos por parte da população
em geral, cinco ou dez anos mais tarde. Era, portanto, como se ia dizendo, o
cenário espacial em que José Mário se movia em caminhadas entre os buracos produzidos
para a implantação do sistema de esgotamento proposto pelo projeto “CURA”, apelidado
carinhosamente pela oposição como “projeto Fura” e os demais buracos produzidos
pela erosão da pavimentação em função de chuvas e da falta de manutenção por parte
do poder público, como parte do seu esforço para chegar até o prédio onde
funcionava a FFPA, para ali assistir as aulas, entrar em contato com os demais
colegas e, principalmente, tentar se inserir no mecanismo de funcionamento daquela
instituição de ensino. A partir daquele ano, saliente-se, todo o seu tempo era
vivido naquele espaço, exceto as refeições – por não dispor de recursos para o
fazer ali, no seu sistema de cantina – e o repouso noturno, que, via de regra,
se dava por volta das onze, onze e meia da noite, quando então retornava para o
seu local de residência.
Não sem razão, que nos rememorares deste escrevedor, há um “lugar
de memória” em cada corredor, em cada sala, enfim, em cada canto de espaço
daquele prédio no qual se encontram feixes de cinco anos ou mais de frequência
e contato tátil e auditivo com aquele ambiente, cheio de alunos, professores e
funcionários em suas movimentações e com os seus ruídos; ou vazio, estando
apenas ele e os objetos que o compunham, sem ruídos e sem rumores de falas ou
passos, para estudos solitários, para derramares de lágrimas de angústia por
perceber o célere passar do tempo e a sua quase estagnação no transcurso do
curso; para o vivenciar de sofrimentos indescritíveis em consonância com
esforços hercúleos para compreender conceitos e princípios teóricos básicos,
sem os quais jamais conseguiria dar os passos adiante, no sentido de
compreender aquela História que se dispunha a apreender.
Mas enfim, março e o provável retomar do curso por parte de
José Mário; todos os demais estudantes, inclusive, os aprovados para o ingresso
naquele ano, estariam prontos para o “começar”. Estavam todos ansiosos pelo
primeiro contato com os novos professores. No caso específico de José Mário,
seria uma retomada de algumas disciplinas abandonadas no primeiro semestre,
tais quais Sociologia, Introdução à História, Filosofia e, metodologia do
Estudo e da Pesquisa, com isto, pretendendo recompor o elenco de disciplinas
deixadas para trás. Para além da ansiedade de todos, corria nos
bastidores/corredores da FFPA, a notícia de que haveria uma equipe de
professores, inclusive oriundos da UFBA, atraídos que foram pelos bons salários
que passariam a ser pagos a partir daquele ano, estipulados pelo governo que
saíra derrotado do sufrágio havido há poucos meses. No entanto, todos acabaram
frustrados em suas expectativas, visto que, fruto de uma queda de braços entre
o novo governo que saíra eleito das urnas de 1986 e os representantes dos
professores, resultara na deflagração de uma greve que, impedira o início das
aulas, perdurando até praticamente o mês de julho, acarretando a perda total
daquele primeiro semestre letivo de 1987, que sequer fora iniciado. O novo
governo defendia que não conseguiria pagar aqueles salários majorados no apagar
das luzes da administração anterior. Por sua vez, os professores se levantaram
em favor da manutenção dos novos valores, acabando por produzir um impasse
institucional, resolvido parcialmente com o prevalecer do entendimento da nova administração,
resultando no fim da greve e retomada das atividades apenas em agosto, com um
toque especial e folclórico de um dos novos contratados oriundo da UFBA que,
ficara apenas por um semestre, se retirando do corpo docente da FFPA, sob a
justificativa de que só ali estivera, atraído que fora pelo excelente salário
oferecido. Não havendo mais o dito salário, o que quereria ele mais ali? E
assim falou, assim ele fez. Diferentemente daquele professor, os demais se mantiveram
no corpo docente da FFPA, embora insatisfeitos com os salários. Para José
Mário, acabou se dando uma virada de página, uma vez que pôde se matricular em
outras disciplinas em turnos diferentes, feito que o ajudaria a tirar um pouco
do grande atraso na integralização do seu curso.
Alagoinhas – 05 de abril de 2026 – outono brasileiro
Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com