O Jornalista Bill Godkin: A História Imediata da República
do Sacramento – Parte I.
Tendo já sido publicado em dez outras ocasiões algumas
reflexões que apontam para construção de um processo de apreensão do fazer
histórico latino americano, este escrevedor volta a submeter alguns arrazoares
à consideração dos argutos visitantes deste espaço virtual de leituras, ainda
uma vez mais, procurando lhes chamar a atenção para um postulado que se vem
defendendo desde o início desta série, que é a possibilidade de se perceber,
apreender e compreender o desenvolvimento da história da sociedade, tomando
como referência a produção literária como fonte para a pesquisa histórica. Conforme apontara em uma conversa
com um frequente leitor destes garatujares, ao decidir escrever esta série que
intitulara “Nacos de Literatura”, não era pretensão deste escrevente começar
por uma obra publicada no Século XX, mas sim, tomar alguma daquelas mais
clássicas publicadas no Século XIX, ainda fasciculares e em forma de folhetins,
que saíram em diversos periódicos, por meio das quais circularam as ideias e os
pensares de então. Tanto é assim que, antes de começar a escrever os “Nacos de
Literatura” que ora se lê neste blog, foi
refeita a leitura de “O Alienista”, conto da lavra do genial Joaquim Maria
Machado de Assis (1839-1908), um brilhante tratado que mistura sarcasmo, ironia
e uma certa dose de antecipação de comportamento social marcado pela
exacerbação de um psicologismo, marcadamente vivenciado nos tempos hodiernos. Porém,
este garatujador acabou por fazer um percurso por um outro tipo de literatura,
que já aparece e circula de modo diferente da que circulara no XIX, isto é: já
aparecia em livros prontos, no formato brochura, que circulavam de acordo com a
capacidade de publicizar e distribuir que a editora possuísse.
No entanto, foi outra releitura que acabou por definir o
desenvolvimento da série que ora se encontra diante de quantos agora navegam
neste espaço virtual. Sem que esteja muito claro em seu imaginar a razão
precisa que levara este escrevedor a retomar a leitura de “O Senhor
Embaixador”, obra da lavra de Érico Veríssimo (1905-1975) e publicada em 1965,
portanto, em plena vigência da Ditadura Militar, iniciada pelo Golpe de 1964, desfechado
contra o governo de João Goulart (1919-1976), que houvera assumido o governo
deixado em 1961 por Jânio Quadros (1917-1992) e, com o franco, explícito e
indisfarçado apoio de vastos setores da sociedade civil, além do apoio e das
instâncias de diversos setores leigos da Igreja Católica e, em alguns casos,
até mesmo do seu alto clero. O certo mesmo é que, conforme já há algumas
semanas se tem feito, ao avançar pelas suas páginas e personagens, todas elas
bem descritas e caracterizadas psicológica e socialmente, tem se percebido as
muitas “faces da história” que podem ser encontradas em sua composição. Assim é
que, a partir deste arrazoar, se procurará apontar outros elementos históricos
da imaginada “República do Sacramento” – que, reafirme-se, não é apenas um
imaginar do seu autor, mas sim, um perceber geral de uma América como um todo
e, da América Latina em particular, que, em meio a censura e ao arbítrio,
Veríssimo procura denunciar –, desta vez, tomando o jornalista da Amalpress
como uma espécie de narrador privilegiado daquela história que acontecia sob a
fumaça do seu inseparável cachimbo.
Antes mesmo de adentrar ao tema proposto, cabe ressaltar de
passagem que, nas primeiras leituras feitas por José Mário da obra acima
mencionada, sequer ele dera alguma atenção ao personagem Bill Godkin que já
contava trinta e cinco anos de atuação jornalística, descrito por Veríssimo
como sendo um periodista experiente e, de acordo com o episódio de abertura da
produção literária em exame, já estava em fim de carreira, sendo homenageado
pelos seus colegas mais novos de profissão e de empresa. Para José Mário, era
apenas mais um a compor o leque de personagens que, para ele, tratava-se de um
elemento que se não aparecesse na trama, tal sequer seria percebido. Ele não
tinha ideia de se tratar de uma técnica de narrativa largamente utilizada pelos
literatos, sobretudo, por aqueles que construíram as suas novelas no bojo de
uma literatura que começava a levar aos seus leitores o conhecimento do mundo
real em que ambos estavam inseridos; uma espécie de fio condutor daquela
história; de um historiador que vivenciava, experienciava e, por fim,
registrava, aquilo que mais tarde veio saber se tratar daquilo que teóricos e
metodólogos classificaram como sendo a “História”
imediata, aquela produzida pelos jornalistas e, publicada em periódicos e
agências de notícias. Por certo, ele nada entendera do discurso pronunciado
pelo homenageado, quando instado a falar para aquelas cerca de vinte pessoas
que estavam consigo à mesa e, que além de receber deles alguns presentes,
também ouviu palavras elogiosas a si, proferidas por um jovem moço, a quem os
demais encarregaram que falasse pelos que ali se encontravam confraternizando
com o quase sexagenário colega.. Daí, se pode depreender que nada ele
conseguira compreender da fala de Bill Godkin, visto que, conforme já se disse
outras vezes, além dos poucos livros que pudera ler, o seu conhecimento e
leitura de mundo estava restrito ao seu entorno de moradia e, quando muito, aos
espaços de frequência escolar.
Desta forma, este tratado deve retomar alguns aspectos do
discurso proferido pelo velho jornalista, a fim de poder prosseguir nas
considerações e análises a que se propõe desenvolver, em sintonia com o título
proposto para este arrazoado. Assim, depois de agradecer ao orador pelas
palavras a ele dirigidas, Bill Godkin principia a sua abordagem acerca do que
ali ouvira, dizendo que:
“[...]. ” Quando eu tinha a idade
desse moço, orgulhava-me de possuir a qualidade essencial do repórter: a de só
noticiar fatos. Hoje, na adolescência da velhice ([...]), começo a ter
dúvidas... [...]: ”isso a que chamamos fato não será uma espécie de iceberg,
quero dizer, uma coisa cuja parte visível corresponde apenas a um décimo de
seu todo? Porque a parte invisível do fato está submersa nas águas dum
torvo oceano de interesses políticos e econômicos, egoísmos e apetites
nacionais e individuais, isso para não falar nos outros motivos e mistérios da
natureza humana, mais profundos que os do mar”. [...].”.
Aqui uma interrupção do discurso proferido em
resposta àquele que fora feito em sua homenagem, para ressaltar a constatação
de se tratar de uma aula de jornalismo que Veríssimo coloca nos lábios daquele
personagem que José Mário entendera como dispensável, indicando, conforme já se
aludiu há pouco, o seu desconhecimento do papel social que desempenhava a
produção literária. Não sabia o rapaz em 1977, que um personagem não era uma
mera criação de uma cabeça brilhante e de um sujeito dotado de uma criatividade
desprovida de perspicácia e de necessidade de comunicar, denunciar, convidar à
reflexão; não era uma mera ferramenta de entretenimento nem mesmo, uma
demonstração de erudição e grande aprofundamento cultural. Até poderia ser tudo
isto; mas, não só. Era, sim, parte do processo criativo que pretendia dar a
conhecer um certo “adoecer social”, mediante entrelaçamentos de episódios e
personagens que representem os elementos sociais por meio dos quais o autor
quer ressaltar e, por meio deles, demonstrar com alguma precisão, a sua
percepção de mundo, para assim, fazer conhecer as suas peculiaridades a tantos quantos a sua
obra possa alcançar, Isto fica bem patente, quando se segue lendo o discurso
que veríssimo empresta à Bil Godkin, dirigindo-se àqueles que o iriam
substituir na tarefa de repórter da qual estava prestes a se aposentar. Diz
ele:
“[...]. ” Ao desintegrarem o átomo, os
cientistas de nosso século desintegraram também a semântica e até a ética. Quem
é que sabe hoje com certeza o sentido de palavras que usamos com tão leviana
frequência como liberdade, paz, direito e justiça? Quanto ao Palavrão, verdade...
que bicho é esse? Quantas verdades existem no mundo de nossos dias? Conheço
tantas... A da Casa Branca. A do Kremlin. A do Vaticano. A da Wall Street. A da
Broadway. A da United States Steel Corporation. A da AFL. Sim, e convém não
esquecer a da Madison Avenue, talvez a mais fantástica de todas.” [...]”.
E aquele orador que parecia pouco afeito à
homenagem que acabara de receber, arremata devastador, para José Mário que
ainda estava na infância da compreensão do mundo à sua volta, quando possuía a
certeza das coisas que ouvia no rádio e, que se pudesse, leria nos jornais que
circulavam naqueles idos da década de 1970 – até mesmo mais adiante, quando
acidentalmente, acabou por descobrir aquilo que por meio de Bill Godkin,
Veríssimo já lhe dissera, mas ele, ah, ele sequer ouvira, nem mesmo quando Raul
Seixas cantava o seu “cowboy fora da Lei”, em frase lapidar “eu não preciso ler
jornais; mentir sozinho, eu sou capaz” –, ao afirmar peremptoriamente que:
“[...]. ”O jovem orador disse que sou um
símbolo... Mas símbolo de quê? Talvez dum tipo de jornalismo em processo de
liquidação. Pertenço a uma era em que os correspondentes escreviam sobre os
acontecimentos. Vocês os modernos querem competir com Deus Nosso Senhor. Não só
procuram dar hoje as notícias de amanhã como também se avocam o direito de, na
falta de notícias, criarem acontecimentos para depois escreverem sobre eles!” [...]”.
Assim, diante do discurso acima transcrito em
suas partes mais essenciais e, conforme Veríssimo, feito de improviso e sem
qualquer vontade do jornalista em o proferir, talvez se possa inferir que o
arguto autor de “O Senhor Embaixador” estaria antecipando em sessenta anos
aquilo que faz o jornalismo hodierno, amplificado mediante os meios modernos de
difusão? Escrevesse ele hoje o seu tratado literário, expressaria um postulado
muito diferente daquele que fora construído para formar o discurso de um periodista
de longa prática jornalística em vias de conclusão?
Alagoinhas – 27 de setembro de 2026 –
primavera brasileira
Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com – www.historias-e-memorias.blogspot.com