domingo, 1 de fevereiro de 2026

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte XVIII.

 

O Intervalo – III - Conjecturando.

 

Diferentemente do que se vem escrevendo nesta série que já se faz um tanto alentada, o arrazoado que o paciente leitor terá diante de si, não parte necessariamente de um feixe de rememorares – no estilo Marcel Proust (1871-1922) ou García Márquez (1928-2014) –, mas, em conformidade com o apelo feito por uma fiel leitora deste espaço – para não dizer exigência –, quando escrevera para este garatujador, solicitando explicações do “por quê” o procurador declinou da sua prerrogativa e, diante da sua resposta informando não saber, não ter como explicar, ela insiste que ao menos especule “para lhe satisfazer a curiosidade”, nas linhas que se seguem, se procurará levantar algumas hipóteses sobre o que teria levado o irmão de José Mário a não fazer uso da procuração que lhe fora conferida para o matricular, preferindo lhe enviar um telegrama, por meio do qual o convocava para que se fizesse presente na cidade, para a realização de sua matrícula na Faculdade de Formação de Professores de Alagoinhas, a (FFPA). Afinal, para a referida leitora, cuja mensagem foi encaminhada para este escrevedor logo no domingo a tarde, ou seja, ainda no calor da leitura, não seria possível que não se procurasse entender os motivos daquele gesto, ainda que no campo das conjecturas.  Então, enfrente-se mais este desafio.

É assim que, os leitores destes arrazoares foram deixados em contato com José Mário, por ocasião do seu retorno para Alagoinhas, vindo que fora de Jacobina, onde estivera com a parentela de sua mãe, chamado que fora pelo seu irmão, ao receber daquele um telegrama, enquanto ouvia por meio do rádio e da televisão, os discursos e as análises inerentes às novas diretrizes monetárias do País. Era pois um sábado quase outonal, ainda que faltassem mais de vinte dias para aquela estação em que as folhas caem e que as cigarras já maduras, cantam e morrem; e, em que são sentidos os últimos aromas das madrugadas do verão; quando as frutas da estação que já quase se finda, passam a rarear e os seus sabores precisarão esperar o limiar do próximo dezembro para voltar aos paladares. Portanto, aquele fora um primeiro de março ensolarado e de temperatura amena, cujo dia transcorrera com um ar fresco e um clima agradável, o que viera a favorecer um ambiente propício a que se desse largas ao pensamento e favorecera aos cogitares do espírito. Em meio às divagações embaladas pela sensação de conforto em seu habitat, é que ele passara a cismar, no sentido de entender a razão de ter sido chamado quase que às pressas, uma vez que, antes de sair da cidade, José Mário houvera providenciado tudo para que as coisas fossem feitas sem a sua presença, o que, talvez pensasse, daria a ele uns dias a mais para recarregar as energias para o enfrentamento que, já acreditava, iria exigir bastante de si. Debalde, buscara aquelas razões; fizera algumas interrogações, sem conseguir, entretanto, encontrar quaisquer respostas satisfatórias para elas.

entretanto, se faz necessário desenvolver uma contextualização relacionada aos dois irmãos, visando uma melhor compreensão da especulação em curso. Em primeiro lugar, é preciso dizer que os dois irmãos são filhos de duas mães com um mesmo pai, sem que se tenham conhecido durante a fase infantil; José Mário, quatro anos mais velho do que aquele outro irmão – tendo ainda um irmão mais velho, da mesma idade que contava José Mário e, que se conheceram mais ou menos na mesma ocasião –, compartilhando ambientes cotidianos diferentes, amadurecimentos diferentes, conceitos e condições de sobrevivência diferentes, embora estivessem no mesmo campo econômico e social do viver, a pobreza, ainda que não a extrema. Quando se dá o episódio da procuração e do telegrama, um deles contava vinte e cinco anos completados no final de 1985 e o segundo, prestes a completar 22 anos, naquele mês de março recém começado.

Em segundo lugar, não se pode perder de vista o fato de que, embora eles já se conhecessem há cerca de onze anos, tempo em que José Mário os descobrira – embora já soubesse da existência deles, sem, no entanto,  ainda estabelecer contado, até os meados de 1974, quando entrara pela primeira vez no espaço onde residiam e ali, travara o primeiro diálogo com aquela senhora que já contava cerca de sessenta e poucos anos – e que frequentou com alguma assiduidade a casa da avó materna daqueles seus irmãos e, ao mesmo tempo em que ouvia com atenção as narrativas daquela senhora tão falante e cheia de vivências, as conversas com os irmãos eram menos frequentes e, mais concentradas com o outro mais velho, que era da sua mesma idade e, com seriação escolar mais adiantada, o que quer dizer que, com o moço mais jovem, as trocas de ideias eram mais ocasionais e furtivas. Ou seja: a relação de José Mário mais próxima era com o seu coetâneo. Evidentemente, isto pode ter construído uma pequena barreira entre ele e o mais moço dos irmãos, sem contudo os afastar de todo. Tanto é assim que, conforme se leu em arrazoados anteriores, ambos comemoraram efusivamente o aparecimento do nome de José Mário, na lista dos que foram aprovados para o acesso ao curso de Licenciatura em História, para o qual concorreu.

Em terceiro lugar, talvez se possa acrescentar o fato de que eles não dispunham de quaisquer outros meios de se comunicar, de se interligar, de trocar ideias e impressões, que não a presencialidade física. Para além disto, havia entre eles uma diferença profunda de temperamento, de preferências e, sobretudo, de perspectiva, como é natural entre irmãos, evidentemente, porém, tornada mais agravada pelo pouco contato presencial, tanto no que diz respeito à frequência numérica, quanto no que diz respeito à objetividade de tais contatos. Isto quer dizer que, as conversas e/trocas só se davam em ocasiões muito específicas, de acordo com alguma necessidade manifesta por um ou por outro, embora tal necessidade se apresentasse em um maior número de vezes, de parte de José Mário, por razões mais do que óbvias.

Conforme se pode perceber, está claro que se torna uma empreitada difícil, procurar esquadrinhar o que se tivera passado naquele espírito enquanto cismava sobre os acontecimentos recentes ou, sobre o que teria se passado com o seu irmão, enquanto esteve fora. Entretanto, talvez se possa especular o que fervilhara no cérebro de José Mário, ao longo daquele e dos dias que se seguiram, quando buscava entender o gesto do seu irmão que, antes, houvera aceitado receber dele uma procuração para realizar a sua matrícula enquanto viajava, para depois, sem que houvesse um motivo aparente, abrir mão de tal procuração, fazendo com que convocasse José Mário, por meio de um telegrama lacônico, para que voltasse para a cidade, a fim de não perder a data da matrícula. Quiçá, José Mário se inquietasse com a possibilidade de ter havido alguma interferência exógena entre eles dois, no sentido de alguém lhe ter aconselhado para que considerasse o perigo de se envolver em uma questão complexa e perigosa como aquela. OU, o medo tenha sido deflagrado de modo autóctone, na medida em que aquele rapazinho em processo de amadurecimento, se tivesse assustado com o tamanho da responsabilidade de que fora investido. Enfim, inúmeras são as possibilidades que se poderia levantar, com o fito de explicar aquela repentina mudança. Até poderia não ser nada do que até aqui fora exposto. O desconhecimento do modo de funcionar a Universidade, para ele, pode ter sido o motivo que o levara a declinar do pedido feito por José Mário, para que realizasse a sua matrícula, mediante a procuração que possuía; ou, ainda, alguém poderia ter lhe dito que aquela procuração não teria validade jurídica, o que inviabilizaria o seu uso para o fim ensejado por eles.

Daí, conforme imagina este escrevente, talvez se possa esboçar uma provável tentativa de explicação da motivação que levara aquele rapazinho a abrir mão de sua condição de “procurador” do irmão que temporariamente se ausentara da cidade para ter com os seus parentes maternos. Talvez, aquele mocinho estivesse temeroso de não saber se  desencompatibilizar da tarefa que lhe fora confiada, resultando em prejuízo para o seu representado, em caso de algum erro em sua execução. É preciso salientar que, embora ainda muito moço, ele já desempenhava tarefa de fiscalização no setor de transporte da prefeitura municipal. Ao que parece, nem aquela experiência funcional foi suficiente para que ele se sentisse seguro em executar aquela outra tarefa, que, diferentemente daquela que já desenvolvia há algum tempo em uma área de grande responsabilidade junto ao município, talvez se lhe escapasse ao domínio, aquela que lhe fora conferida por aquele irmão que estava prestes a ingressar no ensino superior, para o quê ele concorreria, fazendo uso da procuração que jazia em suas mãos. Assim pensando e, considerando o que se expôs até aqui, talvez se possa afirmar com alguma perspectiva de certeza que, sentindo o peso da responsabilidade que lhe houvera sido delegada, ele acabara por não se querer arriscar e, ainda menos, arriscar a caminhada do seu irmão, preferindo convocar-lhe para que assumisse ele mesmo a tarefa de fazer a sua matrícula.

 

Alagoinhas – 01 de fevereiro de 2026 – Verão brasileiro

 

 Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 25 de janeiro de 2026

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte XVII.


O Intervalo – II.

 

Os elementos que concorrem para o desencadear de lembranças, não concorrem na mesma medida, quando elas precisam ser ordenadas. O escavar das memórias, de acordo com o que é encontrado em Macel Proust (1871-1922), quase sempre é precedido por um fragmento inesperado, encontrado em algum processo sensitivo inerente ao viver humano, NO caso de Proust, tal desencadear se deu no momento mesmo em que ele provou um biscoito que lhe era servido com chá, em casa de suas parentes. Ao voltar a vivenciar aquele momento alguns anos depois, como que reabre a sucessão de eventos que passa a narrar na primeira pessoa, ordenando no tempo e estruturando em elaborações longas e densas, por meio do que, ele “rememora” um bom número de pessoas e eventos, a partir dos quais elabora construções que acabam por serem tomadas como tratados sobre o modo como funcionaria a memória social, fundamentada em um conjunto de outras memórias, por vezes superpostas. Ele assim se exprime em obra de sua lavra, hoje já clássica, “A Procura do Tempo Perdido - Para o lado de Swann”:

 

“[...]. Mas, no mesmo instante em que a colherada misturada com farelos do bolo tocou o meu palato, estremeci, atento ao que se passava de extraordinário em mim. Um prazer delicioso me invadira, isolado, sem a noção da causa. Ele imediatamente tornou as vicissitudes da vida indiferentes para mim, seus desastres, inofensivos, sua brevidade, ilusória, do mesmo modo que o amor age, enchendo-me de uma essência preciosa. ou melhor, essa essência não estava em mim, era eu. Parei de me sentir medíocre, contingente, mortal. De onde poderia ter vindo essa poderosa alegria? Sentia que ela estava ligada ao gosto do chá e do bolinho, mas o ultrapassava infinitamente, não devia  ser da mesma natureza. De onde vinha ela? O que significava? Onde  apreendê-la? Bebo um segundo gole no qual nada encontro a mais  que no primeiro, um terceiro que me traz um pouco menos que o  segundo. É tempo de parar, a virtude da bebida parece diminuir. É  evidente que a verdade que procuro não está nela, mas em mim. Ela  a despertou, mas não a conhece, e só pode repetir indefinidamente,  cada vez com menos força, esse mesmo testemunho que não sei interpretar e o qual quero ao menos lhe pedir de novo e reencontrar  intato logo em seguida, à minha disposição, para uma iluminação  decisiva. [...].” (PROUST, 2022, p. 70-71.

 

Conforme pode perceber quem ora lê estes garatujares, embora Proust tenha sentido uma espécie de tempestade mnemônica, tal não se deu em meio à certezas; ao contrário. Inúmeras foram as interrogações que se lhe assomaram ao espírito, ao ponto de tentar repetir o fenômeno, mediante mais duas ou três colheradas do chá com bolo. No entanto, o primeiro desencadear ao toque do composto no seu palato, fê-lo como que reconstituir parte de um passado há muito submerso na memória, o que lhe permitiu escavar profundas camadas superpostas, pouco a pouco trazidas à superfície e, transformadas em textos densos e profundos, estabeleceu parâmetros sobre os quais trabalham aqueles que se exercitam na tarefa de rememorar aquilo que vivera, tanto no que diz respeito ao seu viver pessoal, quando ao que se refere à elaboração coletiva de uma memória comum.

É ainda na direção desenvolvida por Proust que caminha García Márquez (1927-2014) em seu “Viver para contar”, quando ao rememorar a viagem feita com a sua mãe para o lugar onde vivera, com o fito de vender a propriedade da família. Reportando-se ao episódio em que a sua mãe é recebida por um  seu velho conhecido da aldeia onde crescera, García Márquez apresenta um rememorar que lembra o trecho transcrito acima, provavelmente, indicando já conhecer o que fora desenvolvido pelo autor francês. Diz ele:

“[...]. Desde que provei a sopa tive a sensação de que todo o mundo adormecido despertava na minha memória. Sabores que tinham sido meus na infância e que perdera desde que me fui embora da aldeia reapareciam intactos com cada colherada e apertavam‑me o coração. Desde o princípio da conversa que me senti diante do doutor com a mesma idade que tinha quando lhe fazia partidas pela janela, de modo que me intimidou quando se dirigiu a mim com a seriedade e o afecto com que falava à minha mãe. Quando era pequeno, em situações difíceis, procurava dissimular a minha atrapalhação com um pestanejar rápido e contínuo. Aquele reflexo incontrolável voltou‑me de imediato quando o doutor olhou para mim. [...].” (MÁRQUEZ, 2003, p. 39).

Portanto, os rememorares, via de regra, precisam de dispositivos que ajudem o seu desencadear, promovendo uma avalanche de fragmentos que puco a puco fão sendo agrupados em construções mnemônicas, sempre tendo em vista que tais construções tem o presente como elemento desencadeador de uma reconstrução do passado, através de uma consciente ação de seleção do que lembrar, do como e do quando lembrar; do que trazer a público; do que falar, do quando falar e do que silenciar, bem como, do que esquecer. No caso específico deste que ora escreve estes caracteres alfanuméricos, as músicas e os cheiros que se lhe assomam à memória, em geral, são os desencadeadores de feixes e feixes de lembranças que, pouco a pouco, vão se deixando apreender e vão sendo transformadas em arrazoados que exprimem – ou procuram exprimir – os rememorares decodificados em linhas e páginas, conversas e reflexões. Para dar um exemplo concreto do que foi dito, em 2005, quando residia em Niterói, por ocasião do cursar das disciplinas do doutorado, enquanto procurava dormir após um dia intenso de estudante de pós-graduação, ouvia um programa especial, no rádio, produzido e transmitido pela rádio Jornal do Brasil FM. Ali, era apresentado um CD de Elba Ramalho e Dominguinhos; tendo sido tocadas todas as faixas, entremeadas de falas dos dois artistas. Pois bem. Quando ele lembra ou mesmo, quando ele toca uma daquelas faixas – Chama – vem-lhe à memória detalhes bem nítidos daquele apartamento onde o programa era escutado, situado à Rua Teixeira de Freitas, condomínio Flamboyant, no bairro do Fonseca, como se ainda lá estivesse.

Mas, volte-se ao ano de 1986, ao final de fevereiro, logo após ter saído o resultado do vestibular que lhe dera acesso ao curso de licenciatura em História, a ser desenvolvido na ainda Faculdade de Formação De Professores De Alagoinhas (FFPA). Depois de ter visitado os seus amigos e aqueles que lhes deram apoio na caminhada até a realização daquele certame, passara a se preparar para realizar a matrícula, inicialmente programada para a terceira semana de fevereiro, no sentido de procurar, receber e organizar a documentação exigida para aquele fim. Entretanto, estava em curso uma greve de professores e estudantes , o que inviabilizou a efetivação da matrícula na data estabelecida.

José Mário, enquanto isto, passara pelo “Estadual” com o fito de receber a sua certificação de conclusão do segundo grau. Ali estivera por um bom par de horas, aguardando a chegada da diretora de então, que assinaria o dito certificado. Estando ali, fora sentar-se ao fundo do auditório, onde tantas vezes estivera acompanhado por muitos colegas, onde muitas conversas se desenrolaram; onde algumas garotas lhe despertariam o interesse, sem que, no entanto, ele o tornasse conhecido, por receio de sensura, rejeição explícita, ou coisas que tais. No entanto, ali ele estava, diante de uma imensidão de escola, inteiramente vazia por conta das férias; o espaço, portanto,seu velho conhecido, lhe fazia companhia à solidão que sentia. Sim. Uma solidão real, indicada pela ausência concreta de pessoas. Mas, havia aquela outra; aquela em que o seu espírito vagueava em busca de encontrar com quem trocar as impressões que ora experimentava; mas, experimentava apenas ele, consigo mesmo. Quisera mesmo que as horas se quedassem em sua companhia; que respirassem com ele aqueles ares que, dali em diante, se tornariam ares de um passado que ainda estava ali, ao alncance dos seus sentidos; um passado que passara, mas, há ainda tão pouco tempo.Porém, malgrado o seu desejo, as horas passaram, a professora/diretora chegara, assinara o documento, seu Faustino o entregara; ele, se retirara; se dirigira de volta para a sua casa.

Tendo sido adiada a matrícula e, tendo ele em ordem toda a documentação exigida, acabara por ir ter com a parentela de sua mãe, na cidade de Jacobina, tendo deixado seu irmão paterno em alerta e com uma procuração para fazer a sua matrícula, quando isto fosse determinado pela Faculdade. Assim pensando, assim agindo: no dia 28 de fevereiro ele se encontrava em Jacobina, quando ouvira pela televisão, que havía nascido mais uma moeda no Brasil: o Cruzado. Ouvira por todo o dia as vozes de Dilson Funaro, do então presidente da República José Sarney, bem como de inúmeros comentaristas de economia, se esforçando por orientar a população, sobre as novas diretrizes monetárias que passariam a reger a vida econômica e social do País.

Entretanto, depois de julgar ter entendido todas as explicações dadas e as análises feitas, uma surpresa: um telegrama do seu irmão, o convocava para voltar imediatamente para Alagoinhas, a fim de realizar a sua matrícula. José Mário não entendeu nada. Como assim? O seu irmão não fora instituído seu procurador para aquele fim?

Assim pensando, se perguntara outras vezes a mesma coisa. Por que então aquela urgência? Toda a documentação, além da procuração, já não se encontrava em suas mãos? E, como não havia como obter respostas àquela questão, no sábado, primeiro de março, um sábado de sol, depois de uma noite/madrugada inteiras de estrada, ele já se encontrava em solo alagoinhense para se apresentar na segunda feira, dia em que tornaria efetiva a sua entrada no ensino superior, entrada que a aprovação no vestibular fora apenas a primeira etapa. Outras, não imaginava quantas, haveriam de vir e, ele, as teria de encarar, enfrentar, caminhar, seguir em frente, não obstante os obstáculos que houvesse de transpor.

 

Alagoinhas – 25 de janeiro de 2026 – verão brasileiro.

 

Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 18 de janeiro de 2026

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte XVI.

 

O Intervalo – I.

 

Depois de escavar sedimentos de memórias que trouxeram à lume as reações de José Mário ao saber que houvera saído o resultado do certame a que se submetera com o fito de conquistar o acesso ao ensino superior, no arrazoado  que o paciente leitor ora tem diante de si, pretende-se abordar mais alguns movimentos do protagonista, no sentido de repercutir alguns dos desdobramentos relacionados àquela que fora uma das maiores efemérides do seu caminhar até então. Evidentemente, é no feixe de camadas de memória deste escrevente, que se vai buscar aqueles fragmentos a partir do qual a narrativa será construída. Não é de mais salientar, que a memória aqui trazida no processo de construção textual aqui desenvolvida, é evocada e selecionada por quem lembra e, é uma representação do passado, a partir do presente.

Passadas algumas horas após as peripécias feitas por José Mário para saber se estaria ou não na lista dos aprovados que acabara de sair no jornal A Tarde daquele dia 7 de fevereiro de 1986, pelo menos três sentimentos contraditórios lhe perpassaram o espírito. O primeiro e mais imediato deles, foi a euforia, desencadeada que fora pela surpresa de ter encontrado o seu nome em uma lista de aprovados que não mais acreditava vir a constar, considerando as conferências dos gabaritos publicados logo após a realização das provas. Segundo a sua análise de resultados de tais conferências, a ele parecera que não seria daquela vez que faria parte do seleto grupo de estudantes que avançaria no percurso formativo, alcançando o acesso ao ensino superior. Impulsionado por aquela euforia decorrente de tão agradável surpresa, ele passou alguns dias inebriado pela sua classificação e, passara a visitar as pessoas que contribuíram com ele, no alcançar daquele feito. Conforme se apontou no arrazoado anterior, a primeira visita feita sob a égide da alegria que lhe explodira no peito, fora feita ao Pastor Jessé da Silva (1948-2022), quando descera do ônibus em que embarcara na rodoviária e se dirigira aquela casa, situada à Rua Benjamin Constant, para ali, trocarem um abraço de grandes amigos que o eram, desde o ano de 1980, quando tiveram os primeiros contatos pessoais. Já lá pelos meados daquela mesma tarde, a professora Edna Garcia Batista (1945-2017), sua professora de Língua e Gramática Portuguesa - já largamente citada nos escritos anteriores –, o recebeu em sua casa para um longo “dedo de prosa” descontraído e, livre das amarras das lições, das leituras e das explicações que marcaram os encontros anteriores, porém, envolto pelo mesmo carinho e atenção que os dominara, por pelo menos uns três meses. Nos oito ou dez dias seguintes, José Mário prosseguira em seu visitar a outros amigos e demais que o incentivara com palavras de apoio e, lhe propiciara alguma outra contribuição que lhe impulsionasse a continuar a caminhar no rumo que houvera escolhido seguir. Portanto, aquela euforia fora o combustível que mantivera aquela máquina de fazer visitas e implementar longas e até animadas conversas, com as gentes mais diversas, tanto no ser, quanto no ter.

No entanto, pouco a pouco, aquele combustível foi, por muito gasto e sem a indispensável reposição,  se tornando insuficiente para fornecer a energia necessária para a movimentação física e mental de um estado de espírito eufórico, dando lugar ao segundo dos sentimentos contraditórios que aquele rapaz passara a experimentar, em relação à surpresa de ter encontrado o seu nome na lista de aprovados no certame que o habilitaria a prosseguir no seu processo formativo. Era a busca de respostas para as questões que se lhe avultavam ao cérebro, que queria saber “o que fazer?” e “como fazer?”, que fazia murchar a euforia dos primeiros dias, tomando de chofre o espírito daquele moço, obrigando-o a voltar a atentar para a realidade social e econômica em que ele vivia, desde a mais tenra idade. Aquela, por sua vez, lhe gritava na cara e sem a menor discrição, que, apesar de ter ele subvertido em seu favor uma parte da discrepância inerente à sua formação escolar, a outra parte, aquela que envolvia a característica social em que ele se encaixava, embora não o impedisse de tomar parte daquela nova jornada escolar para a qual ele fora habilitado, no entanto, ele não estava social e economicamente equipado para caminhar naquela estrada que se lhe abria, uma vez que, para nela jornalhar, ele não dispunha do aparato exigido para tal. Os gritos que a realidade lhe impusera ao espírito, acabara por atormentar a José Mário, nos dias que se seguiram àqueles primeiros, marcados pela euforia do resultado que lhe fora favorável.

Assim, noites pós noites de longas horas insones, tempo em que ele fora confrontado com perguntas que iam desde aquela que apontava para a sua indumentária escassa e pouco adequada ao novo ambiente que passaria a frequentar, até aos materiais tiflológicos que deveria utilizar ou, que deveria buscar aceder, junto à secretaria de educação do Estado, no seu setor de “educação especial”, é que se passara grande parte dos dias que antecederam o momento em que se daria a sua matrícula no curso e na Faculdade para os quais fora aprovado. Foi daqueles embates de si para consigo que, de súbito, se lhe ocorreu procurar aquelas dedicadas senhoras que atuavam no aludido setor, entendendo que seria dali que lhe viria o apoio de que precisaria para aquele momento em que, acreditava, estaria dando um salto gigantesco, no que tange à preparação de uma pessoa cega para que ela alcançasse o ápice de uma carreira, por meio da qual, entraria no mercado de trabalho, com uma profissão definida e com a autonomia pretendida.

Conforme era do seu temperamento, ato pensado, pensamento executado. Em algum dos primeiros dias de março de 1986, já sob os auspícios do recém nascido “Plano Cruzado”, depois de mais uma daquelas noites mal dormidas, José Mário se levanta por volta das cinco da manhã, disposto a se dirigir até a capital do Estado, com o intuito de encontrar aquelas “senhoras dedicadas”, já suas conhecidas, para lhes fazer saber a novidade e, claro, apelar pelo seu apoio, no que tange ao fornecimento de material tiflológico por meio do qual, ele pudesse – conforme cria – fazer frente às suas novas necessidades – que, na verdade, não eram novas mas, sim, mais prementes –, de modo a poder caminhar com alguma tranquilidade ou mesmo, com alguma desenvoltura naquela nova senda, onde as exigências, o desempenho e as cobranças certamente seriam maiores.  Entretanto, malgrado aquelas senhoras terem recebido a novidade com alguma simpatia – elas jamais esperariam nada daquele aluno rebelde, insubmisso e indisciplinado, conforme uma delas confessara alguns anos mais tarde –, o resultado daquela entrevista acabou por desencadear o terceiro sentimento controverso naquele espírito em que ainda restava um pouco de “crença” nas instituições e nas pessoas encarregadas de apoiar as iniciativas das pessoas cegas, no sentido de construir o seu caminho para alcançar a sua autonomia: a descrença absoluta em quaisquer delas.

Depois de terem ouvido atentamente o relato quase entusiasmado do seu interlocutor, uma delas proferiu uma sentença que José Mário nunca esquecera, que caiu sobre ele como se fora um balde com água recém extraída das geleiras siberianas:

- “Cursar História para quê José Mário? Para ensinar no Instituto de Cegos”?

Nem é preciso dizer que José Mário quase não conseguiu articular uma resposta. A única que lhe veio ao cérebro, ele a exprimiu, quase balbuciante:

- “E, quem disse que eu quero ensinar no Instituto de Cegos? Eu quero ensinar na escola comum”.

Assim, sem poder aquilatar o efeito daquelas suas palavras dirigidas àquelas “dedicadas senhoras” – talvez até tenham sido tomadas como insolentes e atrevidas –, José Mário voltara quase no mesmo rastro para Alagoinhas, com uma máquina de escrever Olivetti Letera32 e um gravador Philips nas mãos – e as fitas? E as pilhas para fazer o dito funcionar? E o papel? –, como tendo sido a única coisa que elas poderiam dar como incentivo àquele aluno, ali, já com a certeza de que não poderia contar com elas, pois, deixaram bem claro: “Nossa tarefa e responsabilidade é com o primeiro e o segundo graus. Quem entra no terceiro grau, precisa saber que não é aqui o ponto de apoio”. Ou seja: quer voar mais alto do que a sua realidade econômica e social permite? Então, se vire, como puder

 

Alagoinhas – 18 de janeiro de 2026 – verão brasileiro.

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 11 de janeiro de 2026

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte XV.

 

07 de fevereiro de 1986 – O resultado–.

 

Diante do arguto e paciente leitor destes garatujares, se encontra mais um arrazoado fundamentado nos escavares de sedimentos de memória, armazenados há pelo menos quarenta anos, em que se procurará trazer à tona, alguns fragmentos de um tempo que, ainda que já vá um tanto longe, não o está fora do alcance de quem o viveu e dele tem lembranças. A Alagoinhas apresentada como pano de fundo para contextualizar o rememorar aqui proposto, era ainda um urbe quase pacata, de poucos automóveis; a sua população se aproximava da centena de milhar, embora a sua distribuição espacial fosse facilmente estruturada em bairros como o 2 de Julho, Mangalô, Barreiro e Santa Terezinha como os que abrigava um maior número de habitantes; enquanto o Jardim Pedro Braga, o Silva Jardim, a Praça Kenedy e Alagoinhas Velha, experimentavam grande expansão com loteamentos, construções de novas residências e a implantação de conjuntos residenciais. A Praça J. J. Seabra e a praça Ruy Barbosa, eram de longe os maiores, os mais conhecidos e os mais frequentados espaços públicos de então. Grande parte daqueles que cursavam o ensino superior, o faziam fora do seu território, mormente em Salvador e Feira de Santana. Este escrevedor tem muito nítido em sua memória tátil aqueles espaços; suas travessas, suas ruas paralelas e perpendiculares, as conhecendo muito bem, ao ponto de conseguir percebê-las, a cada ponto citado durante estes escritos, como se neles estivesse passando enquanto escreve. É dentro deste corolário de lembranças espaciais, sociais e vivenciais que se fundamentam as memórias aqui esboçadas. Insiste-se em trazer como fundamento teórico e metodológico da proposta largamente exposta no transcurso destes escritos, o postulado de Paul Ricöeur, a respeito da memória, quando afirma ser ela a única coisa que temos em que nos fiar de ter se dado alguma coisa, em algum momento. Diz o filósofo francês já diversas vezes citado nesta série de rememorares, que viveu entre os anos de 1913 e 2005 : [...] uma busca específica de verdade está implicada na visão da ”coisa” passada, do que anteriormente visto, ouvido, experimentado, aprendido. Essa busca de verdade especifica a memória como grandeza cognitiva. Mais precisamente, é no momento do reconhecimento, em que culmina o esforço da recordação, que essa busca de verdade se declara enquanto tal. Então, sentimos e sabemos que alguma coisa se passou, que alguma coisa teve lugar, a qual nos implicou como agentes, como pacientes, como testemunhas. [...] (RICÖEUR, 2007, p. 70).

E, mais adiante, para o fim que aqui interessa, ele arremata, que:

Será preciso, [...], não esquecer que tudo tem início não nos arquivos, mas com o testemunho, e que, apesar da carência principial de confiabilidade do testemunho, não temos nada melhor que o testemunho, em última análise, para assegurar-nos de que algo aconteceu, a que alguém atesta ter assistido pessoalmente, e que o principal, se não às vezes o único recurso, além de outros tipos de documentação, continua a ser o confronto entre testemunhos” (RICÖEUR, 2007, p. 156).

 

Enfim, chegava a metade do dia daquela terça-feira 28 de janeiro, último dia das provas do vestibular que forneceria o passaporte para o ingresso no ensino superior para quem nele fosse aprovado, dia que José Mário quase não se dispusera a se dirigir ao local para onde convergira um bom número de estudantes que pleiteavam as vagas disponibilizadas para os cursos de licenciatura ofertados pela FFPA; dia em que ele não experimentara a mesma disposição para o enfrentamento daqueles testes que, não só avaliavam o nível de conhecimento propedêutico dos candidatos mas, também, ao que parecia, avaliava a capacidade de resistência de um bom número deles. Certamente, aquele terceiro e último dia de provas, já fora marcado pela abstenção de uma parte dos avaliados, quer pelo cansaço físico e mental ou pela descoberta das fragilidades dos conhecimentos testados até ali, quer pelo desânimo resultante de tal descoberta. O certo é que José Mário, ao se dirigir ao “Estadual” para encarar aquele último dia de provas, o fizera, muito mais pelo seu temperamento que não admitia iniciar uma jornada e voltar do meio do caminho; mas, também e, principalmente, porquê, para ele, não era só desistir; era, sobretudo, apresentar uma justificativa fundamentada no terreno movediço de explicações que não se sustentariam em pé, no momento em que fosse em busca de apoio daqueles que o haviam emprestado, quando ele o buscara.

Portanto, concluída aquela última etapa da empreitada levada à termo em três dias de sol pleno e de calor intenso; em três dias marcados por variações de ânimo vividas por aquele vestibulando, desencadeadas pelas diversas frustrações experimentadas a cada conferência de gabaritos; três dias marcados por uma perda gradativa de confiança em um resultado que viesse a coroar os esforços até ali envidados, dirigiu-se ele para a sua residência, mergulhando de volta ao seu estado de solidão latente, em elucubrações feitas de si para consigo, no sentido de intentar encontrar uma tábua de salvação daquele naufrágio do seu barco, que ele já sentia soçobrar. Fizera maquinalmente o trajeto de volta para casa; lá entrara, almoçara e, se dirigira ao seu espaço de dormir, para ali, recobrar o sono mal conciliado na noite anterior. E, adormecera; adormecera para repassar como em um “filme” imaginário, tudo que procurara fazer, bem como tudo que sucedera, desde o instante em que decidira trilhar aquele caminho em busca de avançar no seu processo formativo, daquela vez, não mais o escolar obrigatório e formal; mas, pensava ele, aquele seria um processo de formação para a vida laboral, igualmente formal mas, diferentemente do anterior, com uma ponta de validade, na medida em que, conforme pensava, ressalte-se, ele alcançaria uma titulação que o catapultaria, inexoravelmente, ao seleto grupo das pessoas capacitadas para o exercício de uma função social dada.

Entretanto, malgrado todo aquele reboliço desencadeado no seu cérebro, José Mário dormira profundamente por toda aquela tarde, não obstante o  forte calor do final de janeiro; apesar da inexistência de meios mecânicos para proporcionar um pouco de conforto enquanto procurava refazer o corpo e a mente, naquele quarto onde o telhado baixo e a quase inexistente ventilação aumentava ainda mais a sensação de calor, fazendo com que José Mário se debatesse e suasse profusamente, a tarde passara lenta e a noite chegara morna e, ao mesmo tempo que indiferente àquele rapaz ainda envolto em ideias que davam conta de sua pouca malícia e de sua quase total desconexão da realidade da vida efetivamente vivida; não passava pelos pensamentos daquele rapaz formado pela leitura romântica da vida, que o que ele quisesse obter, ainda que, eventualmente, capacitado para tal, teria que ser quase que tomado a força; teria que enfrentar a obstinada resistência da sociedade em permitir que ele pudesse exercer alguma coisa no campo da vida profissional, ainda que ele fosse – ou imaginasse ser –capacitado para o fazer. A sua ingenuidade não possibilitava compreender que a vida não lhe sorriria feliz por ser ele um “Licenciado”, um “graduado”; sequer passava pelos seus pensamentos a perspectiva de que, na realidade, o graduar-se ou o licenciar-se, seria uma arma para o combate; não o troféu do combate.

Assim passaram-se os dias e as noites que se seguiram ao que se descreveu linhas acima. Aqueles pensares chegavam e saíam como as ondas do oceano, ora fortes e devastadores; ora suaves e percebidos apenas pelos sussurros dos seus movimentos; ora rebentando nas pedras, esmiuçando as quimeras e tornando em pó as formulações e os intentos que vicejavam por alguns minutos ou, quando muito, por algumas horas, para depois serem esfarelados como os barquinhos de papel engolidos pelas águas espumosas das quais não consegue escapar ou ainda, feitos nada, como os castelos de areia tão cuidadosamente construídos nos muitos instantes de solidão e nos remoeres dos anseios de se obter as ferramentas para a tão necessária inserção social. Eram dias que insistiam em não começar, entre noites que teimava em não terminar; as tardes quentes e lentas, como que arrastavam os pés, como aquele que não quer chegar, pelo menos, não quer chegar logo ao fim, para assim, vir a noite e com ela a insônia, aquela dama que insiste em não arredar dali, pelo menos, enquanto o dia seguinte não se aproximar. Aquele ciclo acabava por devastar os nervos, os ânimos, as vontades, as possibilidades... Mas, a teimosia, esta, também impertinente, não arredava do seu posto de observação; vigiava cada movimento; cada mudança de rumo ou de humor; tomava nota de cada pensar em desistir; marcava com cores vivas cada querer voltar atrás!... Ah, a teimosia... a teimosia... aquela velha senhora que parecia inquebrantável em seu propósito de não permitir recuos, nem mesmo aqueles recuos pretensamente estratégicos... Ela, ela não admitia nem ele, pois, via uma espécie de escusa para desistir..

Pois então, fora exatamente a teimosia quem insistira para que José Mário, mesmo não acreditando ter qualquer chance, de acordo com a leitura que fizera dos gabaritos que consultara, esperasse e ficasse atento à divulgação do resultado do vestibular e, claro, fosse conferir a lista dos aprovados, até para ter a certeza de que nela o seu nome não estaria elencado. Ouvinte de rádio desde a sua meninice, sendo aquele o único veículo a que tinha acesso, sabia que havia uma seção do “Balanço Geral”, então apresentado por Fernando José (1943-1998), na qual as manchetes dos principais jornais de Salvador eram destacadas, atentava a cada manhã, para aquela parte do programa, com o fito de saber quando sairia a manchete dando conta de que a Uneb divulgaria o resultado daquele vestibular em que ele era um dos postulantes; em anos anteriores, algumas rádios até divulgavam nominalmente as listas de aprovados, sobretudo, nos cursos socialmente mais importantes: Medicina, Odontologia, e Direito, para os quais o glamour tanto da mídia quanto das famílias dos aprovados era já de conhecimento público. Ele não esperava tanto, no que respeita à curso de licenciatura, da Universidade do Estado da Bahia e, ainda menos, da Faculdade de Formação de Professores de Alagoinhas. Mas, conseguir saber que aquele resultado saíra e, em qual jornal procurar, já seria um grande avanço, pois assim, saberia, se sim ou se não, se não ou se sim. E, assim foi.

Ao levantar de mais uma daquelas longas noites insones, Poucos antes das seis daquela manhã de sexta-feira que antecedera o carnaval de 1986, José Mário ligara o rádio e passara a ouvir o “Balanço Geral” programa diário veiculado pela Rádio Sociedade da Bahia (AM) – “ Balanço total, o que deu no Jornal” dizia a vinheta, gravada  com a inconfundível e belíssima voz de oton Carlos (1957-2020). Atentamente, ele escutava Fernando José lendo as manchetes do “Bahia Hoje”, do “Jornal da Bahia”, da “Tribuna da Bahia” e, por fim, anunciava “as manchetes do Jornal A Tarde”: “[...]. Sai o resultado do vestibular da Uneb [...]”... José Mário nada mais ouviu; engoliu o café e correu para a rodoviária, pensando encontrar ali um dos seus irmãos, que atuava como fiscal de transportes, para que lesse o jornal e visse a lista dos aprovados que ali estava publicado . Não o encontrando, criou coragem, procurou vencer a timidez – na verdade, era o medo de não se achar elencado naquela lista – se encaminhou para uma banca de jornais e, pediu ao jornaleiro que, por gentileza, lesse a lista dos aprovados em História...

- “Mas, olhe, não precisa ler tudo não... Basta ler aqueles aprovados com o nome iniciado pela letra J”...

José Mário engoliu o choro, ao ouvir o seu nome... Pediu que lesse outra vez.... De novo, engoliu o choro, agradeceu e saiu, procurando conter as lágrimas, que queriam lhe irromper das órbitas... Com o coração aos saltos, ele entra no ônibus e, desce na Praça Ruy Barbosa, para se dirigir até a rua Benjamin Constante, onde se situava a residência do Pastor Jessé, aquele que propiciou o recurso para que pudesse pagar a sua inscrição, para lhe dizer que... passou! Nunca ele choraria em público, daquele jeito, sem ... procurara estancar o pranto, antes de bater à porta que logo se lhe abrira e, largara a informação para o amigo, como se ... e veio o abraço... O abraço de quem se comprazia com aquela notícia e.... saindo de diante dele, deixou que rebentasse o ribeiro, sem receios ou vergonhas de quaisquer natureza. Era o extravasar de uma etapa percorrida e, mesmo contrariando o seu próprio diagnóstico, concluída com êxito.

 

Alagoinhas – 11 de janeiro de 2026 – verão brasileiro

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 4 de janeiro de 2026

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte XIV.

28 de janeiro de 1986 – as provas – V.

 

 

O arrazoado que se encontra diante de quem se disponha a percorrer as suas linhas, começa a evocar a proposição desenvolvida pelo Historiador francês Jacques Le Goff (1924-2014), com o fito de sustentar os elementos que aqui serão evocados, no sentido de dar curso ao tema que há algumas semanas se vem desenvolvendo. Em sua “História e Memória”, saída no Brasil em 1992, depois de fazer um completo arrazoar sobre os diversos traços de que se constitui a relação entre a “História” e a “Memória, Le Goff assevera que “A memória, onde cresce a história, que por sua vez a alimenta, procura salvar o passado para servir o presente e o futuro. [...]” (LE GOFF, 1992, p. 423). É em tal sentido que, ao se levantar as já espessas camadas de sedimentos muito fragmentados de quem rememora, tem sido evocada a memória de situações e circunstâncias vividas em um tempo que já está assentado em um passado que ainda não passou de todo – no dizer de Henry Rousso –, pois os seus diversos desdobramentos ainda são sentidos por tantos quantos as atravessaram. No dizer de Paul Ricöeur (1913-2005), “[...], sentimos e sabemos que alguma coisa se passou, que alguma coisa teve lugar, a qual nos implicou como agentes, como pacientes, como testemunhas. [...].” (RICÖEUR, 2007, p. 70).

É assim que, para reforçar a importância da memória para a História, a ideia de “lugares de memória” é bem ilustrativa para melhor se compreender aquilo que se vem arrazoando ao longo desta série de textos. Conforme se vem salientando ao longo destes garatujares, os espaços onde se dá um determinado evento individual ou coletivo, podem funcionar como desencadeador de memórias; também, há “lugares” que, nem sempre são criados para um tal fim – embora que outros, deliberadamente, podem sê-lo –, acabam por se tornar um “lugar de memória”, na medida em que, ao voltar alguém a percorrer salas, corredores e outros elementos concretos de um espaço dado, inúmeras lembranças podem vir à tona, espontaneamente ou não, fazendo com que aquele que estando ali, se lembra, possa refazer um circuito completo de acontecimentos, situações e/ou circunstâncias vividas naquele “lugar”. Os exemplos são abundantes. Para ilustrar, se pode citar as catedrais; as necrópoles; os diversos tipos monumentos aos mortos, ao soldado desconhecido; os prédios onde eram praticadas as seções de torturas – com a exceção dos “monumentos”, quase nenhum dos exemplos apontados, foi construído com a finalidade de ser um “lugar” de memória. No entanto, aqueles que foram vítimas das torturas perpetradas pelas forças da repressão, acabam por constituí-los como tais. Exemplo similar é o espaço onde funcionou o Centro Integrado Luíz Navarro de Brito, onde José Mário fez todo o seu processo formativo. No entanto, para ele, é um “lugar de memória” por excelência. Ali, no prédio onde estava instalada a direção, por sinal, ele realizara as provas por meio das quais, intentava inserir-se em mais uma etapa daquele processo que iniciara onze anos antes.

Portanto, conforme já é cediço através dos escritos anteriores, há pelo menos quarenta anos, José Mário, na ânsia de desenvolver o seu processo formativo, que teria o ingresso no ensino superior uma de suas etapas, buscava se apropriar de elementos propedêuticos que o permitissem fazer aquela transição, o que levaria a uma completa mudança de rumos do seu caminhar. Daí o estado de apreensão e ansiedade que vivenciara  naquela tarde em que, levado pela curiosidade e, mais do que isto, pelo desejo mesmo de saber qual teria sido o seu desempenho em relação aos conteúdos que julgara estar mais preparado, vindo a noite, o  encontrar desalentado, com o espírito tanto abatido, quanto reflexivo, sobre o continuar ou o recuar naquela caminhada que já lhe parecia perdida. E, com tantas interrogações a fervilhar naquele cérebro em ebulição, o sono teimava em não se apresentar; quando o fizera, não fora reparador; se fizera intermitente, arredio e, sobretudo, apenas o fizera mediante o cansaço do corpo que reclamava repouso.. Tendo enfim conciliado o sono, o fizera resoluto de não se dirigir ao local das provas, no terceiro dia de sua realização.

Assim, a manhã seguinte àquela tarde de conferência de gabaritos e à noite turbulenta e quase insone, o vestibulando despertara de um susto; em um raiar de dia que não ouvira o gorjear dos pássaros; nem aspirara os aromas matinais; despertara, porém sem o ímpeto dos dias anteriores, desfizera a resolução tomada antes de adormecer; levantara de um salto e se dirigira ao banho; tomara café e saíra. Na verdade, sem pressa; sua esperança era que não conseguisse chegar antes do fechamento dos portões; perderia, não por deliberação que beirava a covardia; mas, por não alcançar em tempo hábil o local das provas do último dia; aquelas que, dependendo do seu desempenho, o levaria a se fazer aprovar para o curso pretendido. Chegara. Talvez, houvesse sido o último a entrar no espaço das provas; tivera a impressão de ouvir o portão ser fechado logo após a sua entrada. Acreditara que, mais um minuto e, estaria fora do grupo que concorreria à vaga de História.

Mas, uma vez mais diante do material a ser lido e respondido, acomodado na sala da direção do “Estadual”, passara a se aplicar em interpretar os textos em Braille que estavam sob os seus dedos; atentara para a formulação das questões, temendo não as compreender corretamente e, por via de consequência, não as responder adequadamente. Ali, diga-se de passagem, ele tomara contato pela primeira vez, com questões de geografia que fugiam àquela que aprendera e que encontrara nos diversos livros que lera. Nada – ou quase nada – de relevo, hidrografia,, nem questões atinentes àquilo que depois veio a saber serem do campo da “Geografia física”. Questões como distribuição de renda; progressão aritmética ou geométrica de populações; densidade demográfica...; questões que, como foi dito em relação ao primeiro grupo, viera a saber se tratar de geografia econômica ou humana... Nem é preciso dizer que tudo aquilo era do seu inteiro desconhecimento; as respostas foram dadas por dedução – nem sempre lógica –, que o levara a perder pontos preciosos no computo geral do gabarito; era assim que lhe surgiam, a cada nova página lida, a cada questão que procurava resolver, novidades que lhe não foram apresentadas ao longo de todo o primeiro grau, nem mesmo no segundo.

Deste modo, ao final do turno de provas, José Mário se encontrava física e mentalmente exausto e, ao remoer as respostas que dera – como aliás, era do seu feitio, desde os tempos escolares –, ficara cada vez mais descrente de uma aprovação naquele certame. Nele, o bravo estudante descobrira, a cada linha lida daquele caderno de provas, o quanto estava desprovido de leituras e de conteúdos escolares, para fazer frente àqueles outros concorrentes, mais bem providos de acúmulo propedêutico e mais preparados para aquele tipo de enfrentamento. Talvez, aquele certame não tenha sido pior para ele, pelo fato de todo o material necessário para a sua realização ter sido transcrito em Braille e, ele não ter precisado lidar com ledores semianalfabetos ou analfabetos funcionais, o que dificultaria ainda mais a mobilização da sua já parca provisão de recursos intelectuais e a sua pequena quantidade de conteúdo para dar provisão àquela empreitada. Ah, como ele aguardara aquela tarde, como sendo o instante de dormir o sono reparador, aquele que não alcançara na noite anterior!

 

Alagoinhas – 04 de janeiro de 2026 – verão brasileiro.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 28 de dezembro de 2025

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte XIII.

27 de janeiro de 1986 – as provas – IV.

 

Em mais um escavar de profundas camadas de memórias já pretéritas,  se pretende trazer à público, um outro feixe de sedimentos de um tempo em que eram envidados esforços para que José Mário se pudesse imiscuir em um processo formativo que o preparasse para a interação necessária com o viver cotidiano. Aquele era um tempo em que as assim chamadas “tecnologias assistivas” nem ao menos eram cogitadas – os primeiros cegos começavam a ser inseridos no processo de programação computacional de grande porte mas, ainda assim, sem autonomia –; o que se tinha e, mesmo assim, com grande defasagem no que tange à sua abrangência e ao alcance de tantos quantos delas viessem a necessitar, era a já velha e carcomida “tiflologia”, que, apesar do termo aparentemente pomposo, nada mais era do que o modo como as pessoas cegas podiam se acercar dos meios de escrita e leitura comuns, para que assim, conseguissem prosseguir no seu intento de se fazer formadas e, sobretudo, aptas para a inserção no mercado de trabalho, ao menos, em tese. Não custa salientar, portanto que, no tempo em que José Mário se esforçava por ingressar em um curso de nível superior, ele só contava com a sua Reglete e o seu Punção para a escrita em Braille – para o seu próprio uso –; com a sua bengala para realizar os deslocamentos; com uma máquina de datilografia comum, para a sua interação com professores e os demais com os quais precisasse se comunicar por escrito. Para José Mário tomar contato com aquilo que mais tardiamente veio a ser chamado “tecnologia assistiva”, bem como iniciar as relações com ela, em seus primeiros rudimentos bem primordiais, foi preciso esperar ainda uma década. É assim que, ao intentar trazer à lume fragmentos de memória prospectados em suas mais profundas camadas há muito encobertas pelo passar do tempo e pelo acúmulo de tantas outras que se sobrepunham àquelas, se pretende que, uma vez ressignificada e saída do silêncio em que estivera, possa então se tornar História, conforme postulam Le Goff (1992), Ricöeur (2007), Bosi (1994), Fernández (1996), Traverso (2012), já amplamente citados nestes arrazoados.

Conforme se escreveu quase ao final dos garatujares anteriores, José Mário, não obstante a sua necessidade de descansar daquela manhã puxada que fora o segundo dia de provas, fora superada pelo desejo de saber qual teria sido o seu desempenho nas provas do dia anterior, o que lhe obrigaria a apelar para os filhos do vizinho, a fim de que um deles se dispusesse a ler o gabarito que houvera sido publicado no jornal A Tarde daquela segunda feira. Assim pensando, pouco depois do almoço, tendo dado um tempo para que o “feijão” se ajustasse ao processo digestivo, tímida e cautelosamente, ele se dirigira à casa de Seu Augusto e, não sem fazer algum esforço – embora aqueles rapazes  fossem seus velhos conhecidos de conversas, brincadeiras no quintal e piadas “ao pé do poste” –, lhes indagara se o jornal A Tarde havia sido  visto ali, naquele dia. Diante da resposta afirmativa, ainda mais intimidado, indagou se alguém lhe poderia ler o gabarito das provas do vestibular, para que ele o pudesse copiar... Pronto. Desafortunadamente, estava entregue o segredo que ele tanto guardara e, que só por necessidade – para não dizer extrema curiosidade – acabara por dar a conhecer àqueles vizinhos de muitos anos e travessuras. Afinal, aquele fora um segredo que José Mário intentara ocultar, mesmo daqueles seus velhos companheiros de infância, de subidas em pés de manga e de jáca, de brincadeiras de “cowboy”, de assistências de “Viagem ao fundo do Mar”, de programas como os de “Chico City”, entre outros folguedos de tempos em que se brincava na rua e, muitos daqueles brincares só eram viabilizados coletivamente, e que  se assistia programas de televisão no mesmo espaço, na mesma sala e no mesmo aparelho, um “Colorado” em preto e branco, como era o que jazia naquela casa. Era um segredo que só fora dado a conhecer a aqueles de quem não era possível ocultar, pois, era uma empreitada que sozinho, ele não poderia enfrentar. Mas, não fora aquela necessidade de apoio para a sua consecução, nem os amigos mais próximos, nem a sua mãe e, ainda menos, os seus vizinhos mais achegados, ficariam sabendo de sua sorte: a menos que viesse a lhe ser favorável.

Assim, entre constrangimentos e mal disfarçadas surpresas, o gabarito foi lido por um deles – ou por uma delas, a esta altura, não há clareza no rememorar – tendo ele copiado as alternativas que deveriam ter sido marcadas para se configurar os acertos. Terminada que fora a leitura, ele se retirou daquele espaço, inegavelmente desapontado, para se mergulhar outra vez no seu refugiar costumeiro. Se recolhera para remoer o desapontamento que sentira ao perceber que não houvera alcançado o desempenho que acreditara teria tido. O número de alternativas acertadamente marcado, não lhe dera qualquer certeza de desempenho que redundasse em aprovação. Diversas vezes pensara em sequer se apresentar para o último dia de provas; se, naquela para a qual ele se acreditava mais preparado, houvera tido um desempenho tão abaixo do seu crivo, o que seria da segunda leva de provas, para a qual, efetivamente, ele não dispunha de qualquer preparo, ao menos para não “zerar”? Se não se saíra bem naquelas provas do primeiro dia, teria se saído ainda pior, naquelas que há poucas horas acabara de fazer.

Mergulhado naquele pensar, afogado naqueles cismares intermináveis e, embatendo-se em decisões que não se arredavam daquele cérebro em que cabriolavam, ora com força de afirmação do seu não comparecer para a realização da última leva de provas; ora, ao contrário, lhe gritava ser uma decisão covarde, o que lhe fazia rever o decidido minutos – para não dizer segundos – antes; fazendo e desfazendo a mesma decisão, conforme a força da tempestade que se abatia no seu interior, José Mário passara aquele resto de tarde entre avançar e recuar de uma caminhada que já fazia há alguns meses, que já ultrapassara alguns obstáculos, que já estava se encaminhando para os últimos metros do seu percurso.

Foi assim que aquela noite o encontrou. Não saíra do seu refúgio, a não ser para comer. Isto ele fizera cabisbaixo e sem se dispor a dizer para a sua mãe que não iria para o dia seguinte das provas. Depois, procurara conciliar o sono. Este, teimoso e resistente, custara a vir. E, se veio, o fizera de forma picotada; também trouxera consigo aqueles pesadelos de quem se faz acompanhar, quando o que o quer por perto se encontra agitado e embatendo-se consigo mesmo, quer, não quer e, ato contínuo, volta a querer. Mas, o que ele não recuperara mesmo, quer no seu ímpeto, quer em um misto de medo e resistência à ideia de recuo, foi o ânimo. Ele, ao que parecia ao insone e alquebrado vestibulando, arrefecera e, por isso mesmo, deixara de lhe servir de combustível para insistir em palmilhar aquele último pedaço de caminho que se lhe apresentaria para ser percorrido no dia seguinte àquela noite, muitíssimo mal dormida.

 

Alagoinhas – 28 de dezembro de 2025 – sexagésimo quinto verá brasileiro, vivido por quem traceja estes garatujes.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 21 de dezembro de 2025

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte XII.

27 de janeiro de 1986 – as provas – III.

 

Conforme se vem salientando ao longo dos arrazoados aqui propostos, a memória – tanto aquela ligada ao indivíduo, quanto a que se manifesta a partir do conjunto dos indivíduos –, quando ainda não monumentalizada, no dizer de Jacques Le Goff (1924-2014), está sujeita a ressignificações a partir do presente, sem, contudo, perder aquilo que mais interessa ao pesquisador, que é o fato de saber que, o que foi dito por aquele que se lembra, de fato aconteceu, conforme assegura Paul Ricöeur (1913-2005), quando diz que não se tem nada melhor para dar a conhecer um determinado evento, se não a memória do indivíduo que lembra.  É nesta perspectiva que se continua a buscar na trajetória de José Mário, a memória daquele passado em que ele estivera envolvido em seu esforço para dar continuidade ao processo formativo que, de acordo com o que pensava, dar-lhe-ia o ferramental de que necessitava para que, entre outras coisas, pudesse prover a si e aos que por ele viessem a ser arrimados. É assim que, ao desenvolver estes garatujares, se tem procurado realizar incursões nos sedimentos das diversas camadas da memória, sob as quais se encontra o passado que se tem procurado trazer ao crivo de tantos quantos tenham tido a paciência de os ler. Faz-se ainda mister ressaltar de passagem que, os rememorares que vem sendo trazidos nestas postagens, estão sustentados no princípio postulado por Le Goff, em obra de 1996, publicada no Brasil sob o título de “História e Memória”, originalmente publicada em formato de verbetes, quando ao final daquele em que discorre sobre a memória, crava uma espécie de resumo de todo o seu trabalho em fazer o leitor entender o que é e para que serve a memória, afirmando que: “A memória, onde cresce a história, que por sua vez a alimenta, procura salvar o passado para servir o presente e o futuro. [...].” (LE GOFF, 1996, p. 477). 

Naquela última segunda feira de janeiro de 1986, dia em que José Mário realizaria o segundo bloco de provas necessário para continuar a sua caminhada pelo vestibular, como o fizera no dia anterior, acordara ainda cedo, talvez dia já claro, mas, ainda não nascido de todo, erguendo-se e dirigindo-se ao banho e ao café, depois, vestindo-se e deixando a residência para alcançar o ônibus que, por ser uma segunda feira e, havendo grande movimentação de pessoas para a rodoviária, a fim de alcançarem o transporte que os levaria aos locais/lugares de trabalho, o coletivo urbano iniciava a circulação por volta das quatro da manhã – horário que, aliás, ele já conhecia bem –, sendo então provável que conseguisse embarcar naquele que iria para a rodoviária, o que permitiria desembarcar próximo do hospital Dantas Bião, de onde seguiria a pé em direção do Estadual, que não ficava longe dali e, chegaria em um horário compatível com o momento da abertura dos portões, quando todos ingressariam no espaço em que realizariam aquelas provas. Convém chamar a atenção de quem percorre estas linhas, que a Alagoinhas em que se passam os eventos aqui rememorados, era uma cidade que não oferecia muitas oportunidades de empregos formais aos seus munícipes, o que forçava a saída daqueles, em busca de outros centros urbanos – como Catu, Camaçari e Salvador –, onde pudessem encontrar as oportunidades de trabalho que por cá eram limitadas ao comércio varejista e ao setor de transportes  - urbano e rodoviário -, muitas vezes, incompatíveis e/ou insuficientes para atender à necessidade da grande maioria daqueles que estavam aptos para ingressar no mercado de trabalho. Isto explica, ao menos em parte, a grande pressão exercida sobre o sistema de transportes local, o que forçava o aumento da oferta de horários, tanto no setor urbano, quanto no rodoviário, que permitisse atender ao que era demandado por uma população que era obrigada a se deslocar do seu lugar de moradia, em busca de alcançar o sustento diário para si e para os seus.

Voltando a falar de José Mário em sua empreitada no intento de se fazer imiscuir no ensino superior, saliente-se de passagem que, não obstante a tensão vivida no primeiro dia e o cansaço decorrente do longo tempo que precisou empregar para completar todo o processo de leitura, reflexão, marcação das alternativas, além da escrita da redação, José Mário se mantivera firme na sala onde aqueles procedimentos foram realizados, aproveitando todo o tempo que lhe fora disponibilizado para tal e, só deixando o Estadual por volta do meio dia e meio, naquele segundo momento, por volta das sete horas da manhã seguinte, ele já lá se encontrava, pronto para enfrentar, mais aquela jornada de provas.

No entanto, para ele, aquele era o momento mais difícil do certame a que se propusera a enfrentar. Ali, José Mário estava diante de matérias cujos temas e proposições, ele pouco ou nada sabia – mais nada do que pouco, diga-se de passagem –, visto que, conforme já foi apontado em postagens anteriores, aquelas que eram as chamadas “ciências duras” – ou, como se diz hoje, “ciências Naturais e da Terra” –, quase não foi por ele aprendida, embora todas elas – ou quase todas – tenham sido regularmente cursadas. É de bom alvitre ressaltar que, em tais matérias, José Mário fora aluno de bons professores, tais como Antônio Fagundes, Zenildes  e Maria do Carmo, nas matemáticas; o professor Aristóteles, em física; o professor Benedito, em biologia; também era bom o professor de Química... Portanto, o nada ter aprendido de tais matérias, não se devera aos professores que ele tivera; mas, sim, a ele mesmo, que não possuía aptidão, disposição ou mesmo  interesse nelas. Para reforçar a inaptidão e o desinteresse, cumpre apontar o escasso acesso aos livros que delas tratavam, embora, alguns deles estivessem transcritos em Braille, como a Química de Antônio Lembo, a Física de Bonjorno, os professores mencionados acima, não os adotava como sendo o seu material de trabalho, o que dificultava ainda mais a feitura de qualquer esforço por parte daquele aluno, no sentido de melhor compreender ou, quando menos, apreender os rudimentos mais basilares daquelas ciências, ao menos, para não se dar tão mal em um certame como aquele, onde havendo classificação, tal se daria de acordo com a pontuação geral obtida.

Entretanto, ele ali precisaria estar para enfrentar aquelas questões que estavam sob os seus dedos, que, até mesmo os enunciados lhes eram pouco compreensíveis. O que precisaria fazer então, era evitar zerar qualquer uma daquelas provas, sob pena de desclassificação sumária do certame. Talvez, por isto mesmo, a tensão naquele segundo dia fosse ainda maior do que a do primeiro, exatamente porque, sequer saberia qual a resposta que não seria a correta, dentre as quatro possíveis, inseridas em cada questão proposta. Desta maneira, as provas seriam respondidas de modo alheio a qualquer processo de aprendizagem das matérias que estavam sendo apresentadas como sendo uma forma de aferir o que aquele aluno aprendera em todo o seu processo de escolarização. Era sim, um esforço para que nenhuma daquelas provas tivesse marcadas questões erradas em sua integridade, obtendo zero acertos, como já se disse, o que resultaria na perda de todo o certame!

Foi assim pensando que José Mário se dirigiu até a mesma sala onde estivera no dia anterior, para ali encarar aquela tarefa que lhe incumbia executar. Ao receber o material correspondente às provas que ele deveria responder naquele dia, procurara percorrer todas as suas páginas, no intuito de encontrar algum enunciado que para ele viesse a fazer algum sentido, visando alcançar o objetivo já acima indicado: não se fazer eliminar sumariamente daquele certame. Abrira sobre a mesa a tabela periódica que se encontrava anexa ao material; passeara com os seus dedos nas páginas e nos gráficos correspondentes à Física, não sendo, evidentemente, capaz de reconhecer ou responder quaisquer questões dali derivadas; talvez tenha encontrado na prova de biologia, alguma questão que pudesse tentar responder sem medo de  errar – embora não tivesse grande confiança naquilo – se demorando um pouco mais nelas, tomando-as enfim, como uma espécie de “tábua” de salvação, por meio da qual pudesse evitar o completo naufrágio. Tendo se debatido por algumas horas naquelas águas encapeladas, se deu por vencido e concluiu mais aquela cansativa jornada, finalizando o processo de marcação no gabarito, assinando a documentação que tivera de o fazer e, levantando-se e saindo para deixar o local, algo por volta das onze da manhã, chegando em casa na justa hora do almoço.

Mas, o desejo de descansar daquela manhã puxada, fora vencido pelo desejo de saber qual teria sido o seu desempenho nas provas do dia anterior, o que lhe obrigaria a apelar para os filhos do vizinho, a fim de que um deles se dispusesse a ler o gabarito que houvera sido publicado no jornal A Tarde. Grande era a sua timidez para realizar aquela operação e, ainda maior era o seu temor de se fazer saber vestibulando, na medida em que, até ali, só ele, a sua mãe e aqueles que lhe deram apoio, sabiam do seu intento.

 

Alagoinhas – 21 de dezembro de 2025 -  ainda primavera brasileira  (verão, daqui a três horas e quinze minutos).

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com