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O Jornalista Bill Godkin: A História Imediata da República
do Sacramento – Parte III.
Conforme já é cediço dos argutos e assíduos leitores deste
espaço, há já algumas semanas este garatujador vem discorrendo sobre a obra de Érico
Veríssimo (1905-1975), “O Senhor Embaixador”, publicada em 1965, quando
prosperava célere o golpe civil-militar perpetrado no Brasil em 1964, que,
saliente-se de passagem, contava com ampla aprovação da sociedade brasileira –
inclusive, com diversas manifestações de apoio e aplauso por todo o país. E, estribado
em tal aprovação, o grupo que assumiu a hegemonia do golpe militar, amplamente
instado pela sociedade civil, a partir de quase toda imprensa jornalística,
radiofônica e televisiva, apertava o garrote nos pescoços de quantos ousassem
se opor àquele arbítrio, calando assim, toda e qualquer voz que se levantasse
para denunciar aquela truculência institucional, não importando o instrumento
que viesse a ser usado para fazer aquelas denúncias. É neste sentido que
Veríssimo lança mão da literatura com o fito de propiciar o conhecimento do que
estava se passando no País onde ele acabara de publicar a sua obra, tomando o
cuidado de recriar os espaços e os personagens envolvidos na sua trama, para
não ser atropelado pela censura instaurada como instrumento de silenciamento da
história que marcava aquele “tempo infeliz da nossa História”, evitando vir ao conhecimento
público aquelas “tenebrosas transações”, conforme aponta Chico Buarque de
Holanda em música gravada alguns anos depois.
E, cabe uma vez mais salientar que, como o ponto de partida
destes garatujares fora a pouca ou nenhuma compreensão alcançada por José
Mário, ao tomar contato com aquela obra, quando era ainda ginasiano, parece
inevitável apontar para o fato de que ele não percebera a crítica feita pelo
autor, através de um diplomata brasileiro, ao apontar o fato de que a cidade em
que se encontrava todo o corpo administrativo e diplomático, embora capital da
maior democracia da América, sequer gozava do direito ao voto. Eis aqui a
passagem que aquele leitor não se apercebeu da importância que possuía para o
intento do seu autor: “[...], Washington, a capital do
tédio e da impotência, é um conglomerado de funcionários públicos e diplomatas
(alguns de sexo duvidoso) e de velhos aposentados. E depois, [...], este
enclave apertado entre Maryland e a Virgínia não tem sequer o direito de voto”.
[...]”. Não seria uma alusão ao Brasil que tirara de sua capital, Brasília,
o direito de eleger os seus governadores? José Mário nem de longe cogitava a
este respeito, em 1976.
Portanto, ao publicar a obra em causa, o seu autor faz uma
análise geral da América Latina em seu surto ditatorial, sob o manto de um
anticomunismo muito mais imaginário do que real, sobretudo, ao tomar como fantasma
a assombrar as elites econômicas nacionais e internacionais – como internacionais
entenda-se norte-americanas –, personificado no êxito do movimento
revolucionário encabeçado por Fidel Castro em Cuba que, no tempo de sua
deflagração, não se inscrevia como sendo uma Revolução Socialista e, Muito
menos, comunista. E, diga-se de passagem, o tempo histórico no qual Veríssimo inscreve
os acontecimentos relativos à República do Sacramento, o tal “comunismo” da
Revolução Cubana, ainda não ia além das preocupações daquele que então ocupava
a Casa Branca e dos receios dos financistas cujos haveres ainda se encontravam
nos empreendimentos em solo cubano.
Assim, após ter feito um preâmbulo a respeito da obra em que
se insere a proposta deste arrazoado, volte-se a ela. Depois de abrir alguns
parêntesis para uma rápida passada pelo discurso proferido por Godkin em
resposta aos seus homenageadores que queriam mais do que um simples “obrigado
rapazes”, se faz necessário considerar uma parte da trajetória profissional daquele
jornalista norte-americano e o seu interesse pela República do Sacramento que,
saliente-se, foi onde ele se firmou como repórter político, ao ser recebido por
Juventino Carrera, ainda na condição de chefe das forças que pretendiam
derrubar o governo de Antonio María Chamorro, o que acabou acontecendo pouco
tempo após a entrevista concedida àquele jovem jornalista estadunidense,
interessado em noticiar os desdobramentos de uma campanha militar que, no fim
de contas, estaria prestando um serviço ao governo norte-americano, ao se
colocar como uma barreira ao “comunismo” que rondava o continente, conforme pensavam
os “revolucionários” do Sacramento.
Segundo o já quase sexagenário jornalista conta ao diplomata
brasileiro Orlando Gonzaga – já rapidamente analisado em arrazoares anteriores –,
tudo começa com a escrita de uma dissertação, conforme o seu próprio entendimento,
“[...], sob o título pretensioso de Radiografia das
ditaduras latino-americanas. [...]”, título que era bem sugestivo
para a época que o seu autor pretendia analisar, embora nunca houvesse posto os
pés na região de suas preocupações acadêmicas, exceto por meio de um punhado de
livros que devorara na biblioteca do estabelecimento de ensino que o forjara. E
Godkin continua a sua narrativa informando a Gonzaga que:
“[...] Não me lembro como nem porque
um dos diretores da Amalgamated Press leu a minha dissertação, achou que eu
tinha qualidades de repórter e me ofereceu um emprego na sua agência. Aceitei,
fui mandado para uma dessas republiquetas da América Central onde se esperava
barulho nas vésperas duma eleição presidencial... Passei um mês duríssimo
naquele inferno tropical. [...]”.
Depois de salientar que daquele teste “duríssimo” ele,
embora poupado das enfermidades tropicais, sentiu uma espécie de frustração,
uma vez que acabou por não ocorrer nem a revolução temida, nem a eleição
esperada, Godkin prossegue dizendo ao seu interlocutor pouco atento que:
“[...]. Minha grande oportunidade
surgiu em fins de 1925. Na República do Sacramento, onde Don Antonio María
Chamorro exercia sua ditadura havia quase vinte e cinco anos, um jovem tenente,
Juventino Carrera, revoltou um batalhão do Exército, no quartel da cidade de
Los Plátanos, e refugiou-se com seus soldados na Sierra de la Calavera, de onde
começou uma luta implacável de guerrilhas contra os federales. [...]”.
E Godkin diz ao seu
interlocutor que teria sido dele a iniciativa de se enfronhar pelo Caribe
distante e pouco importante, principalmente, para o governo e,
consequentemente, para a imprensa norte-americana. Siga-se pois o seu relato:
“[...]. Um dia resolvi entrevistar pessoalmente o Tenente Carrera
na sua toca ou, melhor, no seu ninho de águia. Meu chefe achou a ideia um tanto
esdrúxula. Sacramento era um país sem importância. Todos consideravam perdida a
causa do jovem revolucionário. Don Antonio María Chamorro estava solidamente
estabelecido no poder. O povo sacramentenho vivia aterrorizado. Os camponeses
que ajudavam os revolucionários eram sumariamente passados pelas armas. Além de
tudo, El Chacal del Caribe (era assim que os inimigos chamavam ao
ditador) contava com o apoio moral de Don Herminio Ormazabal, Arcebispo Primaz
do Sacramento. [...], o Governo de Chamorro parecia firme como os Andes. Mas a
verdade é que ninguém conseguiu me tirar a ideia da cabeça. Eu simpatizava com
a causa dos rebeldes. [...]”.
Tendo agido em conformidade com os trâmites
burocráticos e diplomáticos de praxe e, a despeito da grande má vontade das
autoridades investidas no país, tanto as locais quanto as diplomáticas, Godkin
prossegue dizendo que:
“[...]. Para resumir a história, obtive um
salvo-conduto, jurei perante as autoridades sacramentenhas que não aproveitaria
a oportunidade para prestar qualquer serviço aos revolucionários e prometi
submeter à censura ditatorial a minha entrevista com Carrera, antes de
publicá-la. [...]”.
Conforme se pode depreender a partir da
narrativa que Veríssimo propõe ao leitor por meio de Willians Godkin, o
jornalista que se tornará central na condução da sua novela, o caráter militar
do grupo comandado por Carrera que o periodista noviço se dispõe a entrevistar,
não obstante os perigos da empreitada, tanto advindos dos guerrilheiros, quanto
das autoridades constituídas, dá bem a medida do intento do autor gaúcho, no
sentido de que ele pretende apontar para uma história que não é de fato aquela
vivida na República do Sacramento mas, sim, aquela mesma que era vivida no
tempo em que escrevera e que depois publicara aquela obra. O País que aparece sub-repticiamente
na trama escrita por Veríssimo, é um Estado marcado pelas ditaduras; pelos
movimentos de militares que requerem para si a prerrogativa de conduzir os seus
destinos e, principalmente, os seus negócios; eivado de civis que se apresentam
como “Salvadores”, embora não digam claramente o que e a quem querem salvar;
trata-se de um país cuja elite não se importa com o bem-estar público mas, sim,
com o seu próprio bem-estar e, claro, o bem-estar daqueles que com ela formam
fileiras. E, cabe aqui salientar, muitos daqueles que insistem em formar
fileiras com uma elite egoísta e excludente, sequer terão algum dia a
possibilidade de se fazer pertencer à elite que apoiam, acreditando que por ela
será absorvido e, por via de consequência, nela acolhido. Nem percebem, ou não
querem perceber que se estão deixando enganar ou se enganando a si mesmos.
Alagoinhas – 11 de outubro de 2026 – primavera
brasileira.
Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com – visite o blog: www.historias-e-memorias.blogspot.com