O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte XX.
A expectativa do começo.
Os lugares de memória que marcam os arrazoados desenvolvidos
até aqui, estão fundamentados ineludivelmente naquela Alagoinhas de março de
1986 em que José Mário estava prestes a começar uma nova etapa da sua jornada
formativa, que era ainda uma cidade pacata e típica do interior brasileiro, com
as suas ruas calçadas de paralelepípedos irregulares em grande parte do seu
feitio; onde uma grande parte das pessoas se conheciam entre si e, em um bom
par de casos, com familiares ainda entrelaçados por meio de uma diversidade de complexas
e multifacetadas relações. Tratava-se de uma cidade com população estimada em cerca de
cento e quinze mil habitantes espraiados pelos diversos bairros e distritos que
conformavam a sua urbe, onde o comércio ainda era a única fonte de emprego e renda para a maior
parte das pessoas que ali insistia – ou só podia –ali residir. Suas ruas eram
largas e as suas praças razoavelmente arborizadas, contando com poucas ruas com
pavimentação asfáltica e, com uma estação rodoviária com cerca de quatro anos
de funcionamento. A ela, servia um sistema de transporte que já se mostrava insuficiente
para atender ao crescente avanço da cidade, no que tange ao surgimento de
bairros cada vez mais distantes e populosos. Ainda contava com uma movimentada
feira livre, armada nas ruas adjacentes ao prédio em que funcionava o Paço
Municipal, entre as sextas e sábados, com o concurso de gentes de todas as
procedências, que vendiam e compravam todos os tipos de mercadorias, por meio
das quais tanto eram alimentadas as gentes ali residentes, quanto proviam
pequenos e médios comerciantes/agricultores de haveres, por meio dos quais,
retornariam semanas pós semanas, a mercanciar os produtos alimentícios que voltariam
a abastecer as casas de compradores e vendedores, simultânea e concomitantemente.
Portanto, aquela era a Alagoinhas em cujo solo nascera José
Mário e, em cujo tecido social ele insistia em se imiscuir, embora, social e
economicamente, ele não dispusesse dos meios para o compor. Desta forma, esta
série de arrazoados que até aqui foi escrita e que hoje se encerra, tem como
elemento constitutivo de sua construção e desenvolvimento, uma memória marcada
pelo rememorar de quem o elabora, calcado em impressões indeléveis deixadas no
espírito deste escrevente, quando tomara contato com aquela urbe que acreditava
iniciar uma saída do marasmo que marcara
profundamente o imaginário da sua gente. Era uma Alagoinhas que via alargar-se
o seu sistema telefônico; uma cidade que estava sob a égide da execução do “Projeto
Cura”, que modernizava o seu sistema de esgotamento sanitário – apesar de tal
modernização alcançar o centro da cidade e, poucos outros espaços em seu
entorno, não alcançando os bairros mais distantes e, por conseguinte, mais necessitados
de tão importantes melhorias -, que estava prestes a ganhar novas e modernas
agências da Caixa Econômica Federal e do Banco do Nordeste Brasileiro; também,
àquela mesma época, entrava em
funcionamento o amplo e moderno posto da Telebahia, facilitando os contatos
interurbanos. Tudo isto chega até Alagoinhas, depois de anos de esquecimento e paralisia
quase completa, após um lapso de
retomada, marcado pela implantação do Distrito Industrial de Sauipe, que
prometia emprego, renda e desenvolvimento para a cidade, acabando por ser
abandonado incompleto, pelo governo que sucedeu a gestão de Judélio Carmo
(1945-2009), em seu primeiro mandato que vigorou entre 1973 e 1976 e, que por
sinal, estava em um segundo mandato, iniciado em 1983.
Assim, era a Alagoinhas de meados dos anos oitenta do século
XX, na qual a cultura e a escolarização superior se concentrava em um único
lugar, cujo prédio estava situado no curso da Praça Ruy Barbosa, para onde afluíam
os fomentadores e os desenvolvedores da cultura citadina, que, ao convergir para
aquele prédio pensado e construído para abrigar a cultura consolidada nos
livros, e que, acabara por ser transformado em espaço de apreensão do saber e em
lugar de difusão de saberes, fizeram a efervescência educacional e cultural se
fundirem de tal forma, que muitas foram as vezes em que se fizeram uma só
coisa, um só agir das coisas. Era pois, naquele ambiente quase glamuroso que
José Mário repentinamente se vira inserido, embora, sem ter a menor noção
daquilo tudo. Qual o interesse em um certo “Cometa Halley”, se perguntava, que
faria com que diversos estudantes, professores e partícipes da cultura local,
se postassem em uma madrugada fria de abril, no entorno da FFPA – ou fora em um
lugar que chamavam “Horto Neandertal”, que ele sequer sabia existir -, para
esperar que o dito se tornasse visível? Pois então, a parte as incompreensões de
José Mário sobre o que movia aquela gente a fazer esta ou aquela coisa e,
considerando que uma parte da sua trajetória naquela instituição de ensino
superior já fora tornada pública, tanto neste blog, quanto em diversas colunas
publicadas no jornal eletrônico “Alagoinhas Hoje”, volte-se pois, à tarde/noite
em que ele saíra do prédio da Faculdade de Formação de Professores de
Alagoinhas, onde estivera para realizar a sua primeira matrícula, para voltar
ao seu lugar de residência, que, aliás, estava física e socialmente longe de
todo aquele fulgor cultural/educacional
Destarte, quando saíra do recinto onde estivera instalada a
Secretaria Acadêmica, onde efetivara, enfim, a sua matrícula, José Mário tomara
o caminho de casa, não sem antes marcar o trajeto de cerca de três quilômetros e
meio que fizera a pé – visto querer caminhar para ruminar e tentar apreender
toda aquela avalanche de coisas que a ele se apresentava em uma velocidade
assombrosa –, conforme já o houvera se dado em outras situações semelhantes,
ele estava às voltas com um sem número de reflexões, quase todas oriundas de
divagações e inferências que lhe fervilhava o cérebro irrequieto, embora, com
poucas informações consolidadas sobre quaisquer coisas, mormente, sobre o que
viria a ser um curso superior e, principalmente, como ele funcionaria em um
cotidiano em que ele estava prestes a tomar contato real. De posse do seu
comprovante de matrícula, ele queria entender o que viria a ser cada uma
daquelas matérias que ali estavam elencadas. Assim, com a exceção de Filosofia,
Sociologia e Língua Portuguesa, que ele julgava saber do que se tratava, José
Mário se esforçava para entender o que viria a ser “Introdução à História”, “História
Antiga” – que, aliás, ele acreditava ser a mesma coisa – e, a mais intrigante
delas era uma certa “Metodologia do estudo e da pesquisa”, embora ele cresse
saber o significado de cada uma daquelas palavras, não as conseguia entender,
quando emuladas em uma proposição de disciplina a ser ministrada, aliás, por
professores que ele nunca conhecera antes, salvo o professor de Filosofia, José
Sales da Costa e, outras duas de quem
ele ouvira falar, mas, nunca houvera tido qualquer contato pessoal: Lígia Margarida
Martins Freire (1941-2021) e Iraci Gama Santa Luzia (1943-). As outras três
docentes com as quais cursaria a “Introdução à História”, Zalvira Vilas Boas, “História
Antiga”, Alba Melo e, “Sociologia”, Emília, ele sequer ouvira falar, antes
daquele dia da matrícula.
Entretanto, faz-se necessário salientar o fato de que, por
total falta de informação do modo como funcionava a Universidade e o modo como
se dava a organização da estrutura disciplinar dos seus cursos, José Mário não
conseguira se precaver para uma armadilha que se lhe apresentava naquele elenco
de disciplinas, qual seja o fato de que eram seis, ao invés de onze ou doze,
regime do qual acabara de sair. No momento em que refletia, não se dera conta
de que no regime escolar anterior, as dez, onze ou doze disciplinas eram
cursadas em um período de cerca de dez meses; enquanto aquele novo regime
escolar em que entraria já, já, seis disciplinas deveriam ser cursadas em cerca
de quatro meses. Aquelas duas maneiras de aceder ao corpo de matérias a ser
apreendido, estaria no modo como ele faria para dar conta do cursar, no tempo e
com os meios que precisaria alocar. Naquele instante, ele não atentando para
tal forma de distribuição do cursar no segundo grau, com aquele que se lhe
apresentava no instante em que analisava o elenco de disciplinas que cursaria
dali por diante, entendeu que seria mais leve ou, pelo menos, mais tranquila, a
tarefa que se lhe afigurava. O seu pensar equivocado só foi por ele percebido,
quando em contato direto com as disciplinas e com os prazos atinentes às
leituras, as avaliações e ao transcurso do curso como um todo.
Para os leitores de quarenta anos posteriores às reflexões
aqui propostas, cabe salientar, de passagem, que as ferramentas com as quais se
opera largamente nos tempos hodiernos, não eram sequer sabidas, menos ainda
alcançáveis por aquele rapaz que acabara de ter a sua matricula efetivada em
uma Faculdade. Redes sociais, acesso rápido à todo o tipo de informações, sequer
era cogitável lá pelos meados dos anos oitenta do século em que tais coisas se
passaram; nem mesmo àquelas informações que poderiam ser obtidas à custa de
leituras de periódicos e/ou obras publicadas sobre as diversas transformações
que foram operadas nas universidades, bem como as diversas reformas
educacionais, eram para ele de acesso negado, quer pela necessidade de
aquisição e/ou empréstimos em bibliotecas, quer pela inexistência de
transcrições em braile de tais obras, mormente, as mais basilares e icônicas. O
modo como funcionavam as então Faculdades, o acesso aos periódicos que eram por
elas publicados e fomentados, além de ser lento e difícil, devido a uma grande
dispersão deles, também o contato e a
troca de informações eram lentas, raras e esparsas. Tal acesso era ainda mais
restrito, quando se tratasse de aluno cego, que, em geral, primeiro precisava
saber que tal ou qual periódico existia, poderia ser encontrado em alguma
biblioteca; depois, ele precisaria encontrar um tempo em meio às suas
atividades de transcrição e leitura das obras inerentes a cada disciplina que
cursava, também precisaria de alguém, pago ou voluntário, que lhe quisesse ler
um material que, via de regra, não fazia parte das suas leituras obrigatórias e
indispensáveis. Em síntese, longe estava o tempo em que tudo se podia
encontrar, ler, reproduzir, estudar por quem quer que fosse, em qualquer tempo e
lugar.
Alagoinhas – 15 de fevereiro de 2026 (domingo de carnaval) –
verão brasileiro.
Professor Jorge Damasceno – e-mail: historiadorbaiano@gmail.com