O Intervalo – III - Conjecturando.
Diferentemente do que se vem escrevendo nesta série que já
se faz um tanto alentada, o arrazoado que o paciente leitor terá diante de si,
não parte necessariamente de um feixe de rememorares – no estilo Marcel Proust
(1871-1922) ou García Márquez (1928-2014) –, mas, em conformidade com o apelo feito
por uma fiel leitora deste espaço – para não dizer exigência –, quando
escrevera para este garatujador, solicitando explicações do “por quê” o
procurador declinou da sua prerrogativa e, diante da sua resposta informando
não saber, não ter como explicar, ela insiste que ao menos especule “para lhe
satisfazer a curiosidade”, nas linhas que se seguem, se procurará levantar
algumas hipóteses sobre o que teria levado o irmão de José Mário a não fazer
uso da procuração que lhe fora conferida para o matricular, preferindo lhe
enviar um telegrama, por meio do qual o convocava para que se fizesse presente
na cidade, para a realização de sua matrícula na Faculdade de Formação de Professores
de Alagoinhas, a (FFPA). Afinal, para a referida leitora, cuja mensagem foi
encaminhada para este escrevedor logo no domingo a tarde, ou seja, ainda no
calor da leitura, não seria possível que não se procurasse entender os motivos
daquele gesto, ainda que no campo das conjecturas. Então, enfrente-se mais este desafio.
É assim que, os leitores destes arrazoares foram deixados em
contato com José Mário, por ocasião do seu retorno para Alagoinhas, vindo que
fora de Jacobina, onde estivera com a parentela de sua mãe, chamado que fora
pelo seu irmão, ao receber daquele um telegrama, enquanto ouvia por meio do
rádio e da televisão, os discursos e as análises inerentes às novas diretrizes
monetárias do País. Era pois um sábado quase outonal, ainda que faltassem mais
de vinte dias para aquela estação em que as folhas caem e que as cigarras já
maduras, cantam e morrem; e, em que são sentidos os últimos aromas das
madrugadas do verão; quando as frutas da estação que já quase se finda, passam
a rarear e os seus sabores precisarão esperar o limiar do próximo dezembro para
voltar aos paladares. Portanto, aquele fora um primeiro de março ensolarado e
de temperatura amena, cujo dia transcorrera com um ar fresco e um clima
agradável, o que viera a favorecer um ambiente propício a que se desse largas
ao pensamento e favorecera aos cogitares do espírito. Em meio às divagações
embaladas pela sensação de conforto em seu habitat, é que ele passara a cismar,
no sentido de entender a razão de ter sido chamado quase que às pressas, uma
vez que, antes de sair da cidade, José Mário houvera providenciado tudo para
que as coisas fossem feitas sem a sua presença, o que, talvez pensasse, daria a
ele uns dias a mais para recarregar as energias para o enfrentamento que, já
acreditava, iria exigir bastante de si. Debalde, buscara aquelas razões; fizera
algumas interrogações, sem conseguir, entretanto, encontrar quaisquer respostas
satisfatórias para elas.
entretanto, se faz necessário desenvolver uma
contextualização relacionada aos dois irmãos, visando uma melhor compreensão da
especulação em curso. Em primeiro lugar, é preciso dizer que os dois irmãos são
filhos de duas mães com um mesmo pai, sem que se tenham conhecido durante a
fase infantil; José Mário, quatro anos mais velho do que aquele outro irmão –
tendo ainda um irmão mais velho, da mesma idade que contava José Mário e, que
se conheceram mais ou menos na mesma ocasião –, compartilhando ambientes
cotidianos diferentes, amadurecimentos diferentes, conceitos e condições de
sobrevivência diferentes, embora estivessem no mesmo campo econômico e social
do viver, a pobreza, ainda que não a extrema. Quando se dá o episódio da
procuração e do telegrama, um deles contava vinte e cinco anos completados no
final de 1985 e o segundo, prestes a completar 22 anos, naquele mês de março
recém começado.
Em segundo lugar, não se pode perder de vista o fato de que,
embora eles já se conhecessem há cerca de onze anos, tempo em que José Mário os
descobrira – embora já soubesse da existência deles, sem, no entanto, ainda estabelecer contado, até os meados de
1974, quando entrara pela primeira vez no espaço onde residiam e ali, travara o
primeiro diálogo com aquela senhora que já contava cerca de sessenta e poucos
anos – e que frequentou com alguma assiduidade a casa da avó materna daqueles
seus irmãos e, ao mesmo tempo em que ouvia com atenção as narrativas daquela
senhora tão falante e cheia de vivências, as conversas com os irmãos eram menos
frequentes e, mais concentradas com o outro mais velho, que era da sua mesma
idade e, com seriação escolar mais adiantada, o que quer dizer que, com o moço
mais jovem, as trocas de ideias eram mais ocasionais e furtivas. Ou seja: a
relação de José Mário mais próxima era com o seu coetâneo. Evidentemente, isto
pode ter construído uma pequena barreira entre ele e o mais moço dos irmãos,
sem contudo os afastar de todo. Tanto é assim que, conforme se leu em
arrazoados anteriores, ambos comemoraram efusivamente o aparecimento do nome de
José Mário, na lista dos que foram aprovados para o acesso ao curso de
Licenciatura em História, para o qual concorreu.
Em terceiro lugar, talvez se possa acrescentar o fato de que
eles não dispunham de quaisquer outros meios de se comunicar, de se interligar,
de trocar ideias e impressões, que não a presencialidade física. Para além
disto, havia entre eles uma diferença profunda de temperamento, de preferências
e, sobretudo, de perspectiva, como é natural entre irmãos, evidentemente,
porém, tornada mais agravada pelo pouco contato presencial, tanto no que diz
respeito à frequência numérica, quanto no que diz respeito à objetividade de
tais contatos. Isto quer dizer que, as conversas e/trocas só se davam em
ocasiões muito específicas, de acordo com alguma necessidade manifesta por um
ou por outro, embora tal necessidade se apresentasse em um maior número de
vezes, de parte de José Mário, por razões mais do que óbvias.
Conforme
se pode perceber, está claro que se torna uma empreitada difícil, procurar
esquadrinhar o que se tivera passado naquele espírito enquanto cismava sobre os
acontecimentos recentes ou, sobre o que teria se passado com o seu irmão,
enquanto esteve fora. Entretanto, talvez se possa especular o que fervilhara no
cérebro de José Mário, ao longo daquele e dos dias que se seguiram, quando
buscava entender o gesto do seu irmão que, antes, houvera aceitado receber dele
uma procuração para realizar a sua matrícula enquanto viajava, para depois, sem
que houvesse um motivo aparente, abrir mão de tal procuração, fazendo com que
convocasse José Mário, por meio de um telegrama lacônico, para que voltasse
para a cidade, a fim de não perder a data da matrícula. Quiçá, José Mário se
inquietasse com a possibilidade de ter havido alguma interferência exógena
entre eles dois, no sentido de alguém lhe ter aconselhado para que considerasse
o perigo de se envolver em uma questão complexa e perigosa como aquela. OU, o
medo tenha sido deflagrado de modo autóctone, na medida em que aquele rapazinho
em processo de amadurecimento, se tivesse assustado com o tamanho da
responsabilidade de que fora investido. Enfim, inúmeras são as possibilidades
que se poderia levantar, com o fito de explicar aquela repentina mudança. Até
poderia não ser nada do que até aqui fora exposto. O desconhecimento do modo de
funcionar a Universidade, para ele, pode ter sido o motivo que o levara a
declinar do pedido feito por José Mário, para que realizasse a sua matrícula,
mediante a procuração que possuía; ou, ainda, alguém poderia ter lhe dito que
aquela procuração não teria validade jurídica, o que inviabilizaria o seu uso
para o fim ensejado por eles.
Daí, conforme imagina este escrevente, talvez se possa esboçar
uma provável tentativa de explicação da motivação que levara aquele rapazinho a
abrir mão de sua condição de “procurador” do irmão que temporariamente se
ausentara da cidade para ter com os seus parentes maternos. Talvez, aquele
mocinho estivesse temeroso de não saber se desencompatibilizar da tarefa que lhe fora
confiada, resultando em prejuízo para o seu representado, em caso de algum erro
em sua execução. É preciso salientar que, embora ainda muito moço, ele já
desempenhava tarefa de fiscalização no setor de transporte da prefeitura
municipal. Ao que parece, nem aquela experiência funcional foi suficiente para
que ele se sentisse seguro em executar aquela outra tarefa, que, diferentemente
daquela que já desenvolvia há algum tempo em uma área de grande
responsabilidade junto ao município, talvez se lhe escapasse ao domínio, aquela
que lhe fora conferida por aquele irmão que estava prestes a ingressar no
ensino superior, para o quê ele concorreria, fazendo uso da procuração que
jazia em suas mãos. Assim pensando e, considerando o que se expôs até aqui, talvez
se possa afirmar com alguma perspectiva de certeza que, sentindo o peso da
responsabilidade que lhe houvera sido delegada, ele acabara por não se querer
arriscar e, ainda menos, arriscar a caminhada do seu irmão, preferindo
convocar-lhe para que assumisse ele mesmo a tarefa de fazer a sua matrícula.
Alagoinhas – 01 de fevereiro de 2026 – Verão brasileiro
Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com