NACOS DE LITERATURA – ALGUMAS DIGRESSÕES – VIII.
Vivanco, entre Passional e “Subversivo”: uma bala encravada
na escada forja o “bom” pretexto para o golpe. – Parte IV.
Há algumas semanas, este autodenominado cronista tem
procurado apontar para algumas possibilidades de se apreender e compreender a
história através de leitura e exame de obras literárias e, em alguns casos bem
específicos, tomar uma obra ou um conjunto delas, como fonte para a pesquisa
histórica. Intentando argumentar o postulado tão rapidamente alinhavado, ele cogita
percorrer algumas delas, ainda que resumidamente, tomando em conta as
dificuldades enfrentadas por José Mário para se desprender dos textos e se imiscuir
nos contextos, tanto no que se refere ao livro que tinha em mãos, quanto no que
se refere ao tempo histórico e ao espaço social em que fora forjado o enredo
desenvolvido pelo escritor que, no caso ora em exame, é o gaúcho Érico
Veríssimo (1905-1975). Considerando a escassez de ferramentas com as quais
melhor pudesse alcançar os propósitos do literato ao tecer a sua trama, José
Mário acabava por concentrar a sua atenção em algumas árvores, sobretudo,
aquelas mais frondosas ou frutíferas, sem conseguir perceber a floresta como um
todo, com o seu complexo cipoal de possibilidades, a sua diversidade de
movimentos propiciados pela rica fauna a ela relacionada.
Conforme já o arguto leitor tem notado, este escrevedor está
há quatro domingos estagnado no ponto em que Veríssimo demonstra aos leitores
de “O Senhor Embaixador”, as inquietações de Juventino Carrera em relação à sua
permanência à frente da República do Sacramento e, portanto, os seus intentos
de produzir um cenário que justificasse a ruptura institucional que entendia
precisava perpetrar por meio de um golpe de Estado, que abrisse as portas para
uma terceira reeleição, com o fito de “salvar” o seu País de uma “oligarquia”
formada por proprietários rurais que queriam vê-lo pelas costas. Mas, de acordo
com o que escrevera o Presidente da República do Sacramento para o seu Embaixador
em Washington, o seu desejado golpe de Estado precisava ser justificável
perante a comunidade internacional em geral e, à democracia Norte-Americana, em
particular. E, tanto ali, quanto alhures, a justificativa estava em “assustar”
os Estados Unidos, indicando que o golpe era necessário para conter uma horda de
comunistas que estaria pronta para promover a sovietização da América Latina.
Em pleno curso da chamada “Guerra Fria”, o Presidente sacramentenho e o seu Embaixador,
ainda de acordo com o escrito do primeiro e com as falas do segundo ao adido
militar, estavam certos de que o governo norte-americano, a Organização dos
Estados Americanos, a Organização das Nações Unidas e, por fim, o mundo quase
todo entenderiam o grande esforço que aquele País faria para deter o comunismo,
confinando-o a Ilha onde Fidel Castro fizera a Revolução que derrubou Fulgêncio Batista, há
menos de um ano, do momento em que Carrera escrevera para o seu diplomata.
Note-se de passagem, que aquela justificativa se tornara a
pedra de toque de todos os golpes de Estado levados à cabo em toda a América
Latina, principalmente, entre as décadas de 1960 e 1970 e, as ditaduras civis-militares
deles resultantes. Parlamentares, jornalistas, juristas, entidades civis e
empresariais em toda a América de fala latina, clamavam aos militares que
contivessem o comunismo que ameaçava a “Democracia”, mas, sobretudo, diziam
ameaçar a religião, a propriedade privada, em suma, o capitalismo e a hegemonia
norte-americana. E José Mário, nada compreendia de tudo aquilo; estava ele
apenas percorrendo aquelas páginas, sem atinar para a gravidade do tema que
Veríssimo se dispunha a abordar, sem, contudo, poder dizer exatamente o que
pretendia, sob pena de censura, tortura... Como já se apontou, faltava àquele
leitor, o conhecimento histórico do momento em que o enredo foi tramado;
faltava a ele os elementos externos ao texto que lhe propiciassem um
entendimento completo daquilo que estava grafado naquelas mais de quatrocentas
páginas.
Mas, volte-se ao edifício onde se encontrava instalada a embaixada
da República do Sacramento. Afinal, Gabriel Heliodoro precisava encontrar “um
bom pretexto” para que o seu compadre pudesse promover o golpe de Estado que
tanto queria, para poder se impor como presidente da república por mais um
período, pelo menos, de acordo com o que confessara, aquele necessário a “completar”
o que começou. Ali, em um dos seus aposentos, o Embaixador se encontrava em uma
atividade extra diplomática, tendo recebido para jantar e depois, para
atividades de alcova, uma “loura” americana com quem, por um curto espaço de
tempo, se envolvera em relação extraconjugal. Aquele envolvimento acabou por
permitir a Gabriel Heliodoro a oportunidade para atender ao anseio de Juventino
Carrera, ainda que indiretamente. Explique-se.
Ao chegar em Washington para o credenciamento junto ao
governo Norte-Americano, o diplomata já tinha por amante a mulher de um de seus
auxiliares que, ao que parece, não só sabia, como consentia, embora reclamasse
sem êxito o seu quinhão em um dos vértices do triângulo. No entanto, ao ver o
embaixador trocar, ainda que temporariamente o “posto” de amante antes ocupado
pela consorte do Cônsul, para o entregar à “loura Americana”, ficou indignado
com o infame e, intentou vingar-se do patife. Tendo pendulado entre matar-se
para causar remorso à esposa ou ferir de morte o Embaixador, depois de muitos e
confusos cogitares, Pancho Vivanco, enfim, decidiu-se pela segunda opção:
mataria o desgraçado que infelicitava a sua pobre Rosália. No momento da
consumação do crime, desejara apenas inutilizar aquela virilidade incontida,
tendo procurado atirar uma bala em cada testículo e, partira para a
concretização do intento, saindo de entre árvores onde se ocultara. Ao fazê-lo,
perdera a pontaria: nem o matara, nem lhe extinguira a virilidade, pois, fora
morto por um guarda noturno que rondava o quarteirão e já o tinha sob
vigilância, pois ali estivera por um longo tempo, à espera da saída do embaixador
que embarcaria a amante de volta para o seu lugar de residência.
Passados alguns poucos instantes do malogrado intento do Cônsul
da República do Sacramento Francisco Vivanco, tendo se certificado de que não
fora ferido, pois a bala mal lhe raspara o roupão que vestia e, ao examinar o
local em que se dera a tentativa de crime passional, percebera que a bala
ficara encravada na escada do patamar de entrada da embaixada e, logo compreendeu
que, não poderia haver outra oportunidade mais favorável: transformaria aquilo
em um atentado subversivo, perpetrado por um comunista infiltrado no corpo
diplomático do País. Depois de tentar sem sucesso fazer o adido militar pensar
no que poderia significar aquele corpo estendido à frente dos dois, Gabriel
Heliodoro fê-lo saber de uma vez naquilo que já maquinara, enquanto o mandara
chamar. Transcreva-se abaixo o diálogo entre os dois encarregados dos assuntos
da República do Sacramento junto ao governo de Washington, conforme Veríssimo
magistralmente apresenta aos seus leitores. Diz o texto:
“[...]. Aí está a oportunidade que
esperávamos. Vivanco fazia parte duma conspiração esquerdista. O meu assassínio
seria o sinal para começarem os atos de terrorismo e sabotagem no Sacramento,
compreendes? — E as provas? — As provas, meu velho, nós, tu e eu, vamos
fabricar agora. Telefona para um de teus tenentes que saiba escrever à máquina...
ah! e que seja da mais absoluta confiança. [...]. [...]: — Prepararemos
documentos que provem a ligação de Francisco Vivanco com os revolucionários. É
preciso não esquecer que a polícia americana deve encontrar no bolso
deste sujeito uma carta em que alguém comunica a alguém (inventa nomes, é a tua
especialidade) que o Doutor Gris deixou os Estados Unidos secretamente, por
vontade própria, e já está com os exilados sacramentenhos em Cuba. Precisamos
duma lista grande de nomes de pessoas do Sacramento” implicadas” no movimento,
para que nossa polícia possa começar as prisões... [...]”.
E Gabriel Heliodoro arremata triunfal:
“[...].
Tu então não vês que vamos oferecer numa bandeja de ouro o pretexto que meu
compadre Juventino está esperando para justificar aos olhos do mundo um novo
Movimiento de Salvación Nacional? [...]. Gabriel Heliodoro acocorou-se ao pé do
corpo de Vivanco e vasculhou-lhe os bolsos. Tirou deles um lenço úmido e sujo,
uma nota de dólar enrolada como um cigarro e uma caixa de lápis de cor. Ergueu
os olhos para o cúmplice e sorriu. — Acho que estas provas não são
suficientes... Tornou a pôr-se de pé. —
Depois que tivermos todos os documentos prontos, meteremos a carta a respeito
de Gris no bolso do defunto e guardaremos os outros” papéis comprometedores” na
gaveta da mesa dele, na chancelaria. [...].”.
Conforme se pôde depreender, o “bom pretexto”
para o golpe se lhe apresentara no gesto de um homem que preferia ver a sua
mulher feliz no leito do amante, mesmo sendo ele rejeitado em suas tentativas
de a levar para o leito marital, a vê-la de olhos inchados de tanto chorar por
ter sido preterida, que habilmente Gabriel Heliodoro transformara em uma ação
de “esquerdistas” para sabotar o seu País e nele implantar o comunismo. E os
forjares de provas contra os opositores dos regimes ditatoriais que se foram instalando
por toda a América Latina, teriam sido muito diferentes no Brasil, no Chile, na
Bolívia, na Colômbia, na Argentina, entre outros espaços onde as perseguições,
as torturas, os desaparecimentos e as mortes grassaram livremente? E, o que
dizer dos impeachments perpetrados mais recentemente, bem como dos viciados
processos que viriam a ser instaurados, sob o largo cobertor do “combate” à corrupção?
Alagoinhas – 06 de setembro de 2026 – inverno brasileiro.
Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com – www.historias-e-memorias.blogspot.com