Introdução - segue
O que os pacientes leitores destas páginas terão diante de
si e para a sua consideração, é mais um tracejar conciso de um caminhar nas
lides da leitura de um sujeito que buscava encontrar nela o aprofundamento da
vida escolar. Ele imaginava que, aquelas informações que não poderiam ser
obtidas nas lições escolares, poderiam sê-lo nas obras ficcionais, sobretudo,
conforme pensava, aquelas que o ajudariam a melhor escrever, a melhor falar, o
que se alcançaria ao ampliar o seu vocabulário, pois assim lhe era ensinado nas
aulas de “Comunicação e expressão” e, mais tarde, nas aulas de Literatura
brasileira e/ou portuguesa. Para um melhor entendimento do que se acaba de
afirmar, faz-se necessário apontar para um traço da personalidade daquele
menino em formação, uma vez que, ele imaginava que locucionar adequada e
corretamente, poderia vir a ser uma saída para o seu caso, visto ser ele
desprovido de recursos financeiros e econômicos; destituído de relações políticas
e sociais que lhe pudessem favorecer quando fosse o momento de buscar um espaço
onde viesse a obter uma remuneração que lhe permitisse prover o necessário a si
e à sua mãe, então, a sua única provedora. Destarte, seria no campo da cultura,
que acreditava poder ingressar sem precisar de indicações ou apadrinhamentos,
que recairia o envidar de seus esforços, no sentido de contornar os dois fossos
aludidos frases acima, que se interpunham entre ele e os demais elementos
constitutivos do viver social e, de acordo com o que lhe fora feito imaginar,
não os poderia transpor ou contornar, sem que tivesse um diferencial para o
fazer. Conforme o entendimento daí depreendido, se não se é bonito nem
atraente, ao menos, que use bem e expresse corretamente o idioma. Passara a
crer, portanto, que o tal diferencial seria o bem falar, o bem escrever. Porém,
faltou que lhe fosse apontado um outro pilar para obter o tal “diferencial”: o
bem refletir; o cogitar; o “pensar”, além do lido, do ouvido, do ensinado, do
aprendido. Não é demais salientar que no período de sua formação escolar, o
ensino fora bafejado pela desditosa reforma da educação, que alijou o ensino de
História, de Filosofia e de Sociologia do contexto da formação geral dos
estudantes, nos níveis básicos e secundários, fazendo com que a capacidade
crítica daqueles que foram atropelados pelas ações repressivas sobre o processo
de escolarização, se tornasse frágil e/ou inexistente; quando muito, se tornou
latente e, privilégio de pouquíssimos.
Assim, este segundo arrazoar introdutório da série que
pretende desenvolver algumas reflexões a respeito da apropriação da produção
literária que José Mário pudera ler ao longo do seu processo formativo, intenta
trazer mais alguns exemplos do modo como ele pouco ou nada compreendia daquilo
que lia, para além dos aspectos da trama desenvolvida nas obras que lhe eram
dadas a percorrer. Retomando a obra de Érico Veríssimo (1905-1975), “O Senhor
Embaixador”, aludida no garatujar anterior, publicada pouco mais de um ano após
a deflagração no Brasil do Golpe Civil Militar de 31 de março de 1964 e, cerca
de seis anos após a deflagração da Revolução Cubana.
No momento em que toma contato com aquela obra pela primeira
vez, José Mário ainda estava cursando, talvez, a sexta série do então primeiro
grau, logo tendo se lançado à sua leitura, e, sofregamente percorrera os seis
volumes em Braille em que fora transcrita a História da República do
Sacramento. Talvez mesmo, aquela obra fosse imprópria para a sua leitura, menos
por conta da pouca idade, mais por conta da imaturidade do seu espírito – sem
falar no seu estágio escolar atrasado em relação a outros jovens seus coetâneos
–, visto que já contava cerca de quinze ou dezesseis anos. Tal imaturidade se
refletia não só na dificuldade de compreender os diversos e imbricados diálogos que compõe a obra, as
descrições das personagens e as imersões em seus pensares mais recônditos, bem
como, no que respeita aos emaranhados de fatos e circunstâncias envolvendo
protagonistas e coadjuvantes da trama urdida por Veríssimo e, suas
repercussões, marcas de um novo tipo de construção literária a que não fora
previamente apresentado. Salvo um lapso de memória deste escrevedor, aquela
talvez tenha sido a primeira obra escrita no século em que José Mário nascera e
chegara aos anos da puberdade. Até ali, só houvera lido alguns clássicos do
dezenove, ainda assim, fazendo leituras vocabulares e silábicas, sem quaisquer
laivos de interpretações textuais.
Outrossim, faltava àquele leitor voraz, as informações
contextuais que o pudessem ajudar a estabelecer os nexos entre o que lia e a
realidade que tal leitura lhe queria apresentar. Embora ali estivessem listadas
localidades, situações, pessoas e circunstâncias constantes do mundo de fato
existente, ele não dispunha de elementos informativos e formativos que o
auxiliasse a sair das páginas ficcionais para as sutilezas que o autor estava
obrigado a inserir nas falas colocadas nos lábios do seu conjunto de
intérpretes. As ideias ali expostas a partir de cada movimento dos diversos
personagens, longe de serem abstrações de um literato engenhoso, conforme
pensava aquele leitor, quando pensava, eram proposições trazidas à
consideração de tantos quantos as
pudessem perceber. Quando Veríssimo se dispõe a descrever os traços desta ou
daquela personagem – e isto, aquele leitor não percebia senão como um traçar de
características singulares e estravagantes –, pretendia como que apresentar um
retrato completo daquele personagem, não como alguém meramente inventado, mas
sim, como gentes existentes e agentes no desfiar da sua trama.
Por exemplo, ao descrever a paisagem de Washington preparando
o leitor para o desenrolar dos fios que foram tecidos para contar uma parte da
História da República do Sacramento, aquela desenvolvida na capital norte
americana, Veríssimo procura apresentar aquela cidade a tantos quantos não a
conheçam ou se algum dos leitores já lá tenha estado, a possa reconhecer. Tal
recurso é deveras importante para que um princípio do conceito de História se
estabeleça: alguma coisa só acontece em algum lugar e em um tempo dado. Mesmo o
lugar ficticiamente construído, no caso em exame, a República do Sacramento, o
seu estabelecimento se faz necessário, com o fito de relacionar o Estado
existente onde se fará credenciar o novo embaixador. Portanto, Veríssimo
precisa lançar mão de um lugar real e de um outro imaginário, para poder
ambientar a sua construção literária que, na verdade, não é só uma construção
saída da sua imaginação; mas, talvez se possa aqui dizer, uma denúncia de um
estado de coisas que prevalecera em toda a América Latina, sobretudo, quanto
estiveram em confronto os fantasmas norte americanos de um comunismo iminente e
as necessidades de pão e terra de todos os demais Estados sobre os quais
recaíam as suspeitas de simpatia pela União Soviética ou, quando menos, pelas
suas ideias de justiça social.
Ainda considerando a ambientação da trama no tempo e no
espaço, quando Veríssimo descreve os mais proeminentes elementos do corpo
diplomático que passará a ser liderado pelo “Senhor Embaixador” recém-chegado,
apresentando as suas idades presumidas, ou indicando o tempo em que alguns
deles ali atuam, permite ao leitor interessado, reconhecer, mesmo que de
maneira aproximada, mediante pesquisas – hoje mais ágeis e rápidas –, a partir
de associações com passagens do próprio enredo – o novo embaixador apresentará
as suas credenciais ao presidente Eisenhower –, quando aqueles eventos se deram.
Veríssimo abre o seu texto com uma espécie de homenagem a um
correspondente inglês, que diz aos homenageantes já está próximo dos sessenta;
que fizera a sua primeira entrevista com o compadre de quem iria assumir a
embaixada da República do Sacramento, realizada no esconderijo de Juventino
Carrera, em 1925, quando aquele aprendiz de jornalista contava 24 anos; que
Gabriel Heliodoro Alvarado teria nascido em
1903 e, que a altura que se faria credenciar junto à Casa Branca, deveria
contar pouco mais de cinquenta anos, sempre presumíveis. Tais indicações,
depois de alguma reflexão e argúcia – o que, conforme já se tem salientado,
José Mário ainda não possuía quando fizera aquela leitura –, poderia fazer o
leitor arriscar uma presunção do tempo histórico em que se faz desenvolver a
trama, como tendo sido em algum momento entre 1953 e 1961, postulando que já
tivesse passado de 1959, por conta da alusão do autor, à preocupação manifesta
por Eisenhower com Cuba e a sua Revolução.
Entretanto, reforce-se de passagem que, estas formulações
nem de longe passavam pelas cogitações daquele leitor há pouco entrado na
puberdade, para quem, Cuba era pouco mais que uma palavra, que um país longínquo,
tanto quanto desconhecido, até mesmo de uma boa parte daqueles poucos que o
cercavam para conversas que, aliás, sequer abrangiam o campo da política. Se
para José Mário, Cuba era pouco ou nada conhecida, menos ainda o era a União
Soviética, de quem só ouvira falar, quando por meio dos seus atletas e/ou
equipes, se destacava em diversas modalidades esportivas; quando no noticiário,
era ela citada como tendo sido protagonista de um boicote às olimpíadas de Los
Angeles; ou ainda, quando aparecia nos telejornais, alguma notícia que dava
conta de alguma “deserção” de cidadãos comuns, militares e intelectuais dissidentes e/ou de desportistas
que se queriam abrigar sob o regime da “liberdade” do mundo capitalista, em
contraposição à “ditadura” que diziam viver no mundo da “cortina de ferro”.
Mas, saliente-se ainda uma vez mais, ele pouco compreendia estes jogos de
palavras, estas frases ditas inumeráveis vezes nas emissoras de rádio e de
televisão, que, paradoxalmente, defendiam – ou precisavam defender – um país
cujo governo matava, censurava e fazia desaparecer aqueles que ousavam erguer a
voz em forma de música; ou por meio de publicações clandestinas; ou através da
teledramaturgia; ou mesmo, por protestos estudantis e professorais, para
denunciar a truculência daqueles que governavam “o país que vai pra frente”.
Alagoinhas – 26 de julho de 2026 – inverno brasileiro.
Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com