Enfim, graduado – Introdução (fim).
Em mais um feixe de fragmento
de memória de um tempo já distante mas, ainda não passado e, portanto, sujeito
às escolhas feitas no presente, pretende-se trazer mais um pedaço da história
de José Mário, no que respeita ao seu processo de busca de inserir-se no espaço
laboral para o qual, ao menos em tese, ele estaria preparado para atuar. Tal
feixe de memórias, aqui apresentado em fragmentos escavados nas profundezas de
camadas já bem espessas de quem viveu todo aquele embate intensamente travado,
no sentido de alcançar se fazer aceito enquanto professor, não só formado mas,
principalmente, exercendo efetivamente à docência, ressalte-se, nos espaços
escolares. Conforme postula Jacques Le Goff (1924-2014), ao discorrer sobre a
memória, ele afirma que: “A memória, como
propriedade de conservar certas informações, remete-nos em primeiro lugar a um
conjunto de funções psíquicas, graças às
quais o homem pode atualizar impressões
ou informações passadas, ou que ele representa como passadas.” (LE GOFF,
1996, P. 423). Isto quer dizer que “a memória”, embora esteja em consonância
com elementos psicofisiológicos, igualmente está condicionada às representações
inerentes àquele que busca nela o lastro para firmar aqueles lembrares que
escolhe trazer à sua narrativa, quer por meio da escrita, quer por meio da
exposição oral. Ao propor elementos que balizam a memória, Paul Ricöeur (1913-2005),
em uma obra monumental intitulada “A Memória, a História, o Esquecimento”,
aponta que a “memória” pode ser entendida em pelo menos dois flancos. Diz ele:
“[...].De um lado, as
lembranças distribuem-se e se organizam em níveis de sentido, em arquipélagos,
eventualmente separados por abismos, de outro, a memória continua sendo a
capacidade de percorrer, de remontar no tempo, sem que nada, em princípio,
proíba prosseguir esse movimento sem solução de continuidade. [...]” (RICÖEUR,
2007, p. 108).
E, Ecléa Bosi (1936-2017) destaca o caráter evocativo dos rememorares,
quando assevera que “[...], a
lembrança pura, quando se atualiza na imagem-lembrança,
traz à tona da consciência um
momento único, singular,. _não repetido, _irreversível, da vida. Daí, também, o
caráter não mecânico, mas evocativo, do
seu aparecimento por via da memória. [...].” (BOSI, 1994, p. 49).
Desta forma, conforme já se houvera percebido ao se deparar
com as situações anteriormente já apontadas, a batalha que José Mário precisaria
enfrentar para alcançar o seu objetivo seria ainda mais intensa, na medida em
que era um caminho a ser percorrido rumo à sua sobrevivência, bem como, no
sentido de se desenvolver nos demais transitares da vida humana: trabalho,
salário, constituição de família e prole. Sem o primeiro e mais essencial deles,
não se conseguiria obter os demais, ao menos, no que concerne à responsabilidade econômica
e ética, tanto para consigo, quanto para quem viesse a tomar parte do seu
caminhar social. Não obstante a aspereza do solo que precisaria palmilhar; a
escassez dos recursos, assim técnicos como financeiros, bem como de acesso à
leitura indispensável para o ofício, tanto no que concerne à aquisição de obras
didático-historiográficas, quanto aos meios que permitissem a contratação de
pessoal de apoio como ledores; a despeito das portas que lhe foram batidas na
cara em todo aquele percorrer de espaços escolares, fez-se necessário insistir
em enfrentar as situações e as circunstâncias que se lhe impunha a sociedade,
aquela mesma que era proclamada como plural e disposta a propiciar as
oportunidades àqueles que as buscassem. Embora José Mário já se tivesse
apercebido de ser aquela uma proposição falaciosa, era necessário continuar
empregando todo esforço de sua parte, a fim de que tal falácia fosse desnudada
em forma de publicizar as mentiras calcificadas no sistema que, em uma prática
bem diversa daquilo que queria fazer crer, inferia recusas a que um candidato
que não se enquadrava nos padrões já estabelecidos e secularmente consolidados,
embora diplomado em uma das suas engrenagens, que se queria participar nela
como um dos seus “dentes” ou de suas “correias” de transmissão.
Naquele mesmo ano de 1992, José Mário empreendera mais uma
tentativa de atuar no ensino de primeiro e segundo graus, buscando intermediação
de um amigo em comum entre ele e dirigentes de uma escola em acelerada ascensão
na cidade, cujo objetivo era se equivaler a duas outras que já estavam bem
consolidadas há mais tempo. Aquele estabelecimento de ensino para o qual o recém-formado
pretendia se candidatar a uma de suas vagas, surfava bem na onda do avanço
experimentado pelo setor privado da educação, mormente nos últimos anos da
década de 1970, chegando aos anos 1990 em plena expansão. Era notório que, as
consideradas “Ciências duras” além daquelas elencadas entre as que dariam forma
ao discurso e, portanto, áreas nas quais
estavam inseridas as matérias que preparariam os alunos para competir nos “melhores”
e mais cobiçados cursos do ensino superior, eram os agentes de propulsão daquela
escalada de crescimento que, geravam não só o surgimento daquelas instituições,
assim como a procura por elas, por parte de endinheirados e/ou “remediados”,
que não mais queriam os filhos frequentando aquelas escolas públicas nem os
queriam misturados àquela gente periférica que, majoritariamente ali eram
amontoados em salas apinhadas e ensinados por professores mal formados e, sempre
propensos à greves, o que, pensavam eles, reduziria as chances de ingresso em
cursos como os de medicina, direito, odontologia, engenharias... Para atuar naquelas
áreas tidas e havidas como mais importantes do conhecimento propedêutico, os
professores que pretendessem tomar parte no corpo docente em tais instituições,
eram escolhidos adrede e, ao que se sabe, muito bem pagos. Mas, também, deles
era exigida formação específica e, sobretudo, destaque em outras escolas por
onde houvessem passado.
No entanto, para as outras matérias, consideradas
secundárias, tanto pelos pais, quanto pelos donos das escolas privadas, quase
não havia exigência de formação específica, significando que, tendo o
postulante o diploma de algum curso superior – em alguns casos, ainda
licenciandos foram admitidos naqueles estabelecimentos –, estava garantida a
sua admissão entre aqueles que comporiam o seu corpo docente. Conhecendo aquele
descompasso entre o querer se tornar escola de excelência e descuido com que
tratava a área de humanas, José Mário apresentou-se como sendo um candidato
adequado para ocupar a vaga de História, recentemente aberta pela saída de um
seu colega que, noves fora a sua indiscutível competência para o exercício
professoral, ainda estava cursando a licenciatura em História. Assim pensando,
levara a um amigo comum das duas partes, aquele mesmo curriculum Vitae que
encaminhara para a Cooperativa Educacional de Salvador e para a Fundação José
Carvalho, conforme episódios já comentados em postagens anteriores, para que
fosse entregue à direção daquela escola em ascensão. José Mário procurara
evitar o contato direto com o pessoal responsável pela contratação de
professores, pelo fato de serem conhecidos uns dos outros, com o fito de evitar
constrangimentos, visto que, ele já suspeitava que não seria aceito para tomar
parte daquele corpo docente, pelas razões já expostas páginas atrás, agravadas
por terem sido colegas em alguns momentos dos seus respectivos cursos e,
evidentemente, por conhecer um pouco do modo como aquelas pessoas pensavam e,
sobretudo, por partilharem, tal qual os demais dirigentes de outros
estabelecimentos privados, de uma leitura de mundo em que o professor cego
estaria em dissonância com a prática professoral.
Assim como ele pensara e expressara tal pensar ao intermediário
que levaria o curriculum Vitae, assim fora. Ao retornar com a resposta
negativa, trouxera igualmente a justificativa já apresentada nas investidas
anteriores. Ele não conseguiria manter os alunos na sala, o que nos obrigaria a
contratar uma outra pessoa para tanto; ele teria dificuldades em lidar com a
concentração dos alunos, uma vez que não usaria o quadro de giz, que não usaria
o retroprojetor ou o slide. A surpresa para José Mário, ficou reservada a um
argumento que ele não contava lhe fosse desfavorável, principalmente, vindo de dirigentes
que pretendiam levar a sua escola ao topo do padrão já alcançado pelas demais:
- Ele não gosta de trabalho em grupo. Eu estudei com ele
algumas matérias e, observei a sua resistência a trabalhos de equipe.
Isto, ele confessava ao seu interlocutor: de fato,
surpreendeu. Surpreendeu por entender que trabalho de grupo – ou em equipe,
como se queira –, nada mais é do que uma forma de muitos passarem em uma ou mais matérias, semestrais ou anuais,
pelo esforço de poucos. Ora, alguém faria uma prova de vestibular ou de acesso
ao serviço público, agrupados em equipes? Seja como for, aquele foi o argumento
mais incompreensível para não receber um professor para lecionar em seu estabelecimento.
Alagoinhas – 14 de junho de 2026 – outono brasileiro.
Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com