Vivanco, entre Passional e “Subversivo”: uma bala encravada
na escada forja o “bom” pretexto para o golpe. – Parte II.
Em mais uma empreitada no campo da História, percebida a
partir da literatura, chega-se ao venerando e paciente leitor deste espaço virtual,
para discorrer mais um pouco sobre “O Senhor Embaixador”, livro que José Mário
tivera nas mãos por pelo menos três vezes entre 1975 e os anos que se seguiram,
quando tivera curso o seu processo de escolarização. Ele, no entanto, não
conseguira compreender a proposta do autor daquilo que mais tarde se poderia
denominar de “Romance Histórico”, pelas razões já esboçadas nos garatujares
anteriores, acrescendo-se ainda, talvez, a sua dificuldade de abstração, inerente,
saliente-se, ao seu processo geral de formação propedêutica, desprovido de disciplinas
chave para desenvolver o cogitar crítico do mundo ao seu redor. Disto, crê-se,
resultou em um baixo nível de capacidade reflexiva, visto não ter ele
interlocuções com leitores mais avançados em termos de acesso à outras obras
que lhes pudessem esclarecer as dúvidas de interpretação que se lhe assomavam ao
espírito. Não tendo com quem dialogar acerca do que lia, do modo como lia e,
principalmente, da possibilidade de haver outros modos de compreender o que
lia, acabava por ficar com entendimento superficial das obras que lhe caíam nas
mãos, portanto, impedindo o avançar da interpretação, para além do pensar ali
exposto.
Desta maneira, José Mário, por esta e outras razões, não
associava o conjunto de textos que acabara de ler, com a mensagem que nele se
pretendia passar. Além disto, como já se indicou no escrevinhar anterior, o seu
total desconhecimento da História, não só do Brasil e da Bahia em que vivia os
seus anos formativos, como também da América Latina em que grassavam as
ditaduras, as rupturas institucionais, os governos civis e militares que não
tinham as suas populações na devida conta, mas, ao contrário, os interesses
pessoais e das elites a que pertenciam e/ou representavam; os conglomerados
econômicos nacionais e, sobretudo, os internacionais, eram considerados em seus
desígnios e, de acordo com o que ditavam para controlar o poder político, a
ordem social, o sistema econômico vigente, que, de um modo geral, submetia os “de
baixo”, à exploração que alimentava o insaciável modo de produção capitalista,
ferozmente defendido por aqueles regimes, por aquelas ditaduras, enfim, por aqueles
que se alimentavam da fome e da miséria de grande parte dos habitantes das
plagas latino-americanas.
Conforme se apontou nos arrazoares apresentados na postagem anterior,
ao desenvolver algumas digressões em torno do tratado literário entabulado pelo
escritor gaúcho Érico Veríssimo (1905-1975) publicado em 1965, em que tece uma
trama na qual pretendera dar a conhecer aos seus leitores, alguns enredos que,
aqui, ali e alhures, se faziam entrelaçar no viver cotidiano da quase
totalidade dos Estados Latino-americanos, sobretudo, entre as décadas de 1950 e
1980, em carta dirigida ao seu embaixador nos Estados Unidos da América,
Juventino Carrera confabula com o seu “compadre” sobre a sua necessidade de
encontrar um “bom” pretexto para “[...] fechar o Congresso e decretar Estado de
Sítio, [...]”, que abriria a brecha constitucional que precisava para se fazer
reeleger à presidência pela terceira vez, sem contrariar o governo de Washington,
nem os demais Estados membros da Organização dos Estados Americanos.
Observe-se, de passagem, que ao “generalíssimo”, pouco se lhe dava contrariar aqueles
que por ele eram governados, dentro dos seus limites territoriais. Mas, ainda que de modo retórico e protocolar,
dizia se importar com a opinião mundial, sobretudo a de Washington, de quem
ansiava pelos vultosos dólares que pretendia lhe fossem emprestados, que permitiriam
construir a sua “Transacramentenha”, que se lhe serviria como um monumento para
celebrar a grandeza da sua administração. Isto posto, retome-se um pouco mais
do corolário de queixas do compadre presidente, ao compadre embaixador.
Continuando a leitura da carta recebida do presidente da República
do Sacramento, Gabriel Heliodoro prossegue a percorrer aquela missiva
presidencial, talvez, sorvendo cada palavra ali contida e, quiçá, maquinando em
seu cérebro afeito às operações de força, qual resposta lhe daria, logo que
terminasse de a examinar. Informa o missivista que, no dia anterior à escrita
daquela carta, houvera almoçado com o embaixador Norte-Americano e com o Arcebispo
local. Em seguida, diz do que tratara e o que pensara dos seus resultados.
“[...]. Sondei o gringo, que tem
ar e riso de bobo, mas é matreiro, e cheguei à conclusão que ele também quer me
ver pelas costas. Perguntei a Don Pánfilo, sem mais rodeios, qual era a sua
opinião sobre a emenda. O homem fez um discurso muito bonito, com aquela
habilidade e aquela elegância que conheces, mas desconversou. [...].”.
E, com a naturalidade inerente aos ditadores
latino-americanos de anteontem, de ontem e de sempre, Juventino Carrera
sentencia:
“[...]. Assim sendo, compadre, o remédio é
esperar que os agitadores botem a cabeça de fora para agirmos. Se não botarem,
antes de novembro, seremos obrigados a inventar um novo plano subversivo e
assustar mais uma vez com o fantasma do comunismo tanto o Departamento de
Estado como essa classe que teu” amigo” Gris, esse crápula apátrida, chama de “oligarquia
rural”. O diabo é que qualquer comoção político-social nesta hora poderá
prejudicar esse negócio do empréstimo. [...].”.
E prossegue elogioso ao seu fiel escudeiro,
transformado em diplomata:
“[...]. Às vezes me arrependo de ter-te
mandado para a nossa embaixada em Washington. És dos poucos homens de cuja
lealdade e amizade não duvido nem nunca duvidei. Mas vai ficando por aí, por enquanto,
e trata de desencavar esse empréstimo, que é vital para nossa terra. Quanto ao
mais, vamos deixar o barco correr. [...].”.
Depois de enfatizar o seu sonho de grandeza em
relação à posteridade, arremata pedindo que o seu embaixador envie com a maior
brevidade a sua opinião sobre tudo aquilo e, dizendo confiar na sua “boa estrela”,
assegura que “[...]. Antes de novembro, encontraremos um bom pretexto para o golpe.
[...].”
No entanto, antes de seguir adiante no propósito
de examinar os desdobramentos da busca pelo “bom pretexto para o golpe”, faz-se
necessário observar algumas elaborações encontradas na mensagem dirigida pelo
presidente da República do Sacramento, ao seu compadre e leal embaixador em
Washington. E, por conseguinte, aquelas considerações acabaram saltando para as
páginas da aludida obra, saídas que foram dos pensares de quantos foram
marcados pelo “macartismo”, ideário que marcou a História política do
continente, a partir de 1947, irradiando-se de Washington para praticamente,
todo o mundo ocidental. Embora à época que José Mário fizera passar sob os seus
dedos as mais de quatrocentas páginas de O Senhor Embaixador, ele não houvesse
tido a compreensão histórica do enredo magistralmente construído por Veríssimo,
pensando se tratar de uma ficção literária inocente e vaga, ali, conforme o
arguto leitor destas linhas já percebeu, a obra está eivada de expressões e
construções frasais que circulavam abundantemente nos círculos diplomáticos,
militares, governamentais e financeiros de toda a América, mormente, aquela
situada entre o Canadá e o México. De acordo com os agora abundantes estudos e
pesquisas dedicados à compreensão dos inúmeros golpes de Estado, perpetrados
sobretudo, nos Países da América Central e da América do Sul, direta ou
indiretamente patrocinados e/ou apoiados pelos governos norte-americanos, no
bojo da “Guerra Fria”, elaborações como “Subversivos”, “agitadores de esquerda”,
ensejaram ações militares ou não, forjadas e levadas à cabo sob a égide daquilo
que Juventino Carrera pretendia habilmente fazer tremer, tanto o Departamento
de Estado quanto as elites dominantes no seu País e fora dele: “o fantasma do
comunismo”. Impressiona, sobretudo, àquele leitor mais atento, o fato daquele
presidente que se queria eternizar à frente do seu País, admitir que, o tal “comunismo”
que tanto temiam os governos da América, nada mais era do que um “fantasma”,
cuja circulação não se limitava às elites sociais e econômicas; ele também
circulava entre aqueles desprovidos de quaisquer bens materiais. Aquele “fantasma”
fazia grassar um anticomunismo – que, saliente-se, persiste ainda agora, quando
estas linhas estão sendo escritas –, incutindo em toda a população, mesmo
naquela parcela que nada tem de seu, muitas vezes, nem o básico para sobreviver, o
medo de lhe ser tirado, mesmo aquilo que não possui. Imagine-se, a ideia
estapafúrdia de se cobrar mais impostos daqueles que formam uma elite
endinheirada, que possuem bens sempre avaliados na casa dos milhões... Que
absurdo, gritam aqueles que mal dispõe de uma renda pouco superior ao salário
recebido pela maioria dos viventes... Cobrar IPVA de iates, helicóptero, avião
executivo... Inaceitável! vocifera o proprietário de um Fiat 147, de 1980, ou
de um fusca 1300, saído da fábrica em 1976.
Alagoinhas – 23 de agosto de 2026 – inverno brasileiro.
Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com – www.historias-e-memorias.blogspot.com