O Jornalista Bill Godkin: A História Imediata da República
do Sacramento – Parte V.
De volta a este espaço para mais algumas digressões deste
garatujador que, ainda alicerçadas em “O Senhor Embaixador”, publicada em 1965,
conforme já se salientou, continua a tratar de uma das obras menos conhecidas
ou comentadas do escritor gaúcho Érico Veríssimo (1905-1975) mas que, segundo
entende quem escreve estas linhas, poderia muito bem ser arrolada entre as
obras publicadas no mesmo período por García Márquez (1927-1914), Vargas Llosa
(1936-2025), para citar apenas estes, que, conforme se pôde ler por ocasião da
concessão do prêmio Nobel de Literatura a García Márquez, teria sido acertado
em uma troca de cartas entre alguns literatos Latino-Americanos, que cada um
deles escreveria uma obra que retratasse o “ditador” de plantão no seu País,
dando a ele uma caracterização que ensejasse ser entendida pelos que viessem a
tomar contato com aquele coquetel de obras, como sendo alguém descolado no
tempo e no espaço, o que permitiria associar à figura de quaisquer um dos ditadores, bem como à
quaisquer ditaduras das muitas que marcaram a História da América Latina, além
de ser uma maneira de driblar as censuras impostas pelos títeres de plantão em
todo o continente, que, aliás, saliente-se, costumavam ser implacáveis.
Portanto, é no bojo desta produção literária que se pode
encontrar obras como “O Outono do Patriarca” e “Cem anos de solidão” de García
Márquez; “A Cidade e os Cachorros” e “A Festa do Bode” de Vargas Llosa; “Eu, O
Supremo” de Augusto Roa Bastos (1917-2005), ”O Senhor Presidente”, de Miguel Ángel
Asturias (1899-1974), entre outros, a este corolário de grande valor literário,
conforme se vem defendendo aqui, poderia perfeitamente acrescentar “O Senhor
Embaixador”, obra que vem dando material para a construção dos arrazoados que
se vem trazendo ao arguto leitor que frequenta este espaço.
É assim que, por meio destas e de outras produções
literárias que visam trazer à lume algumas representações da sociedade humana
e, que apresentam ao leitor um cotidiano vivencial no qual o próprio leitor
está inserido, embora conduzidas de modo ficcional, e que, em grande medida, indica o viver de
grupos sociais e em circunstâncias em que a sobrevivência é a pedra de toque de
grande parte dos personagens envolvidos nas tramas magistralmente tecidas pelos
seus autores, igualmente, elas podem servir ao pesquisador social em geral e ao
Historiador em particular, como objetos para uma melhor compreensão do vivido e/ou
como fontes a partir das quais possam ser postas e analisadas questões e produzidas
hipóteses produzidas para um estudo dado.
Desta forma, a obra ora em análise, pelo seu estilo e
considerando as características mais relevantes de alguns dos personagens que a
compõem, permite ao examinador atento da trama desenvolvida por Veríssimo,
perceber as diversas histórias que perpassam o continente, mormente, no período
de tempo que vai do ano de 1947 – quando emerge o anticomunismo que até ali se
mantinha latente entre os norte-americanos, sobretudo, entre os seus militares,
diplomatas, administradores e financistas – e 1976, quando eclode na Argentina
uma ditadura que viria a se somar à brasileira de 1964 e à chilena de 1973, cujo fio condutor em comum
era precisamente o “anticomunismo” norte-americano, largamente difundido por
todo o continente, através dos meios de comunicação e de entretenimento, grandemente
alargados em sua difusão, mormente por meio do cinema e da televisão.
Mas, volte-se ao diálogo entre Bill Godkin e Orlando
Gonzaga, que já se aproximava do seu termo, quando o último passa a se referir àquele
que talvez fosse de fato o motivo de terem os dois amigos se encontrado naquele
espaço para beber e conversar. Depois de perguntar ao amigo se quereria beber
mais um “Campari” ou mesmo uma “Cicuta” e Godkin recusar ambas, e este último
confessar ao brasileiro que estaria até se sentindo bem, ao poder recordar
todas aquelas facetas da sua caminhada de periodista, Orlando Gonzaga, como uma
forma de levar a conversa ao seu ápice, considera que, dado ao prestígio de
Godkin junto à empresa em que era repórter, voltara a estar com o ditador sacramentenho
outras vezes, ao que o jornalista responde positivamente, afirmando que “Muitas. Sempre que havia algum barulho no Sacramento, a
Amalpress me despachava para Cerro Hermoso. [...]”. Ao que o brasileiro
apresenta como uma assertiva interrogativa: “Você deve então conhecer pessoalmente
esse embaixador que o Generalíssimo mandou agora para cá, não? [...]”. Ao que
Godkin responde sem titubeio: “Don Gabriel Heliodoro Alvarado? Claro que
conheço. A primeira vez que o vi, ele estava ao lado de Juventino Carrera, na
Sierra de la Calavera. Era um de seus mais jovens e valorosos companheiros.
Teria no máximo vinte e um anos... [...]”. E, atendendo à curiosidade do seu
interlocutor, que queria saber que “tipo de homem” seria o Embaixador da República
do Sacramento que, dali há algumas horas daquele abril de 1959, entregaria as
suas credenciais ao presidente Eisenhower, Godkin assim o descreve:
“Fisicamente? Um metro e noventa de altura,
mais ou menos... Uma face acobreada cujos traços lembram um pouco certas
esculturas maias. Olhos vivos, escuros, dotados duma perigosa força hipnótica.
De todos os homens que conheci na cordilheira ao lado de Carrera, a fisionomia
que mais fundo me ficou gravada na memória foi a desse Gabriel Heliodoro. O sobrenome
que usa é adotado, mas assenta-lhe bem... [...]”.
O diplomata brasileiro, depois de abrir sobre
a mesa o jornal que tinha ao lado, comenta que:
“[...]. O News traz hoje uma notícia com retrato sobre a sua ”escultura
maia”. Veja este clichê... O salafrário tem mesmo uma cara atraente. A nota
biográfica diz que ele nasceu em 1903... de sorte que deve ter hoje cinquenta e
seis anos. Este retrato deve ser antigo, pois representa um homem de quarenta e
cinco ou quarenta e oito anos, no máximo. [...]”.
Depois
de examinar o jornal que o amigo apresentara e, atento à observação que o seu
interlocutor fizera a respeito de uma possível manipulação da imagem ali
impressa – observe-se que se trata de um jornal publicado ainda nos anos 50;
observe-se também que o diplomata brasileiro indica uma nota de desconfiança
que apontaria uma discrepância entre a idade que lhe foi apresentada na “nota
biográfica” e a fotografia estampada no periódico em exame; o pesquisador da
História que tem o jornal como uma de suas fontes, deveria ter a sua atenção e
foco em questões como a que fora colocada por Orlando Gonzaga. Por sua vez,
Godkin examina a imagem em questão e sentencia convicto: “[...]. Não. A
fotografia é recente. Esses índios não mostram a idade na cara. [...]”.
E a conversa entre os dois amigos é concluída
com algumas observações que fazem um para o outro e, uma dentre elas, dizia
respeito à tarefa primeva do novo Embaixador da República do Sacramento, que
era a de “[...], preparar o espírito de
Tio Sam para lhe arrancar mais um empréstimo substancial...”, para com ele
realizar obras com as quais “El Libertador” pretendia não só se fazer grande
junto ao seu povo, bem como, se não deixar esquecer pela posteridade, uma vez
que, além de demonstrar o seu apego ao poder, procuraria, por outro lado, fazer
crer que a sua maior preocupação seria o “desenvolvimento” do País, como aliás,
proclamavam todos os ditadores e/ou os regimes ditatoriais que grassavam na
América Latina, sob o argumento tão frágil quanto falacioso, de defender o
continente em geral e o seu País em particular, do “terrível” regime comunista,
que, uma vez implantado, solaparia a “democracia liberal que tanto os favorecia”,
lhes devoraria as propriedades, as mulheres, as crianças, as crenças, os
valores e tradições “seculares” mas, principalmente, lhes tiraria o direito à
livre exploração da força de trabalho
que tanto lhes avultava os haveres. Era com este medo propagandeado em todo o
continente e por todos os meios ao seu alcance, que as ditaduras eram
implantadas e os seus líderes operacionalizavam a sua manutenção, tanto entre
os seus próprios povos, quanto à comunidade internacional – aliás, era neste
sentido que se fundamentava a carta de Juventino Carrera, endereçada ao seu
embaixador em Washington, conforme se comentou há algumas postagens. Aquele
imaginado e imaginário medo de uma pretensa “sovietização” do continente, era
espalhado Como um rastilho de pólvora, através do qual, os norte-americanos em
conluio com os seus aliados em toda a América Latina, exploravam em favor das
suas elites e daqueles que os cercavam e acompanhavam em seus intentos e delírios.
Alagoinhas – 25 de outubro de 2026 – primavera
brasileira.
Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com