domingo, 8 de fevereiro de 2026

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte XIX.

 

A Matrícula

 

Aquela primeira segunda feira de março de 1986, seria o primeiro dia de vigência efetiva do “Plano Cruzado”, nova política monetária implantada pelo governo Sarney, com o fito de debelar a escalada inflacionária e, o constante aumento abusivos dos preços que grassara no País, desde a chegada da assim denominada “Nova República”. Não obstante o advento do “Fiscal do Sarney”, o tempo mostraria a ineficácia daquelas medidas e das suas subsequentes tentativas de reordenamento de rumos, promovidos em diversos momentos pela equipes econômicas que sucederam àquela que dera início àquele processo de controle artificial dos preços. Tais controles eram burlados pelo desaparecimento de mercadorias; pelas cobranças de ágio para a entrega de outras; cenas espetacularizadas em que garrotes eram içados dos pastos de agropecuaristas para fazer com que a população creditasse ao governo uma autoridade que de fato ele não possuía... Enfim, era portanto, naquela segunda feira que José Mário se levantara menos interessado no que viria a ser o primeiro dia que sucederia ao feriado bancário, decretado na semana anterior. Afinal, ele não possuía quaisquer ativos, passivos ou proventos de qualquer ordem ou procedência com os quais precisasse se preocupar; ele estava fora do mercado de trabalho, não possuía um único centavo que fosse depositado em cruzeiros, que acabaria por derreter, ao ser convertido para Cruzado... Naquele dia 3 de março, ele só possuía o desejo de que chegasse a hora em que se iria matricular na licenciatura para a qual o seu nome se encontrara na lista daqueles que a poderiam cursar.

É assim que, ao despertar daquela segunda feira iluminada pelo sol de um verão que já começava a se despedir para dar lugar ao outono, não sem antes fazer valer as “águas de março”, conforme preconizava o poeta em antológica canção interpretada por Elis Regina (1945-1982), o alvorecer do dia, o farfalhar dos ventos nas folhas, o zunir dos últimos insetos que sorvem as últimas gotas do orvalho  da noite e o chilrear das aves que saem em busca de seus espaços de abrigo de um sol escaldante que se avizinhava, encontram  José  Mário absorto em seus pensamentos que fugiam sorrateiros do lugar onde vive e se remete teimoso para o lugar onde ele só estaria, lá para o fim da tarde. Ele tivera uma noite de sono intermitente, como habitualmente se lhe ocorria em situações de mudanças. Ele, embora em diversos momentos do seu viver, precisasse realizar mudanças em sua vida – fosse por necessidade, fosse por imposição das circunstâncias ou por alguma outra razão –, nunca o fizera por vontade deliberada, mas, ordinariamente por pressão. Para ele, invariavelmente, fora muito custoso sair de um determinada instância do seu viver ou do seu ser, para se reposicionar em uma outra instância dada. Não obstante aquele momento de ruptura com o ensino escolar fosse uma necessidade imperiosa da vida que ele pretendia percorrer, José Mário, de per si, embora entendesse, não compreendia plenamente o que estava para se dar dali há algumas horas. Como seria? E de qual modo faria? Eram as indagações que fazia o seu espírito tão irrequieto, quanto atemorizado.

Portanto, aqueles e tantos outros cogitares se interpuseram entre os seus lapsos de sono e as longas vigílias que marcaram o passar da noite do domingo até o raiar da manhã de um dia atípico para José Mário. Dali por diante, tudo seria não só novo, como desconhecido para ele. Embora já conhecesse, ainda que superficialmente, o novo espaço em que seria inserido daquele ano para frente, se lhe afligira o espírito uma ansiedade típica do seu ser, uma vez que, conforme já se apontou, ele era pouco afeito a mudanças de ambiente, no que tange à forma, ao espaço, ao público com os quais precisaria lidar. Tudo ali lhe era desconhecido; poucos daqueles com os quais precisaria interagir durante o curso, já houvera estado consigo antes, exceto um deles – embora ainda disto ele não soubesse. Ele se sentia como que esmagado ao peso de um peso ainda desconhecido, mas que quase lhe vergava os ombros... Mas, é preciso enfrentar aquele que se lhe apresentava como um monstro, apenas por ser “novo”. Lembrava do pânico que vivera há apenas alguns anos, quando sua mãe cogitara de buscar o transferir do seu já bem conhecido Brasilino Viegas, para um acanhado Oliveira Brito, apenas por aquele último se situar bem mais perto de casa, o que facilitaria a tarefa dos seus irmãos de o levar e o buscar... Ele se lembrava do quanto temera aquele afastamento abrupto de um lugar que não só ele conhecia, como era conhecido, não só pelos professores que ali atuavam, como pelos seus colegas, quer de turma, ou apenas que pertenciam ao mesmo grupo escolar. Na escola mais próxima de casa, não só ele não conhecia ninguém, entre os outros alunos e os professores que ali estavam lotados, como não conhecia o espaço físico em que seria inserido. Pois então, era este o fantasma que lhe visitara por toda a noite; que lhe sussurrava sorrateiramente que, quem sabe, seria esmagado por tantos desconheceres.

No entanto, malgrado todo aquele embate interno que se sustentara não só durante a noite, mas, também por todo o transcorrer daquele dia, José Mário não dispunha de qualquer outra possibilidade a mobilizar, se não aquela para a qual se preparara por todo aquele tempo. Tendo passado toda a manhã e chegada que fora a tarde, dirigira-se ele até o prédio da Faculdade de Formação de Professores de Alagoinhas, que então se situava à Rua Elvira Dórea, à Praça Ruy Barbosa, para ali efetivar a sua matrícula e, definitivamente entrar no rol dos alunos do ensino superior. Ao se dirigir até a secretaria acadêmica, uma surpresa se lhe afigurara, na pessoa da Secretária que lhe atenderia para aquele fim. Era uma senhora, sua já antiga conhecida do Brasilino Viegas, que ali atuara como uma das vice-diretoras do aludido estabelecimento escolar, quando ele ainda dava os seus primeiros passos no processo de escolarização. Sim, era a famosa e rígida Professora Valdete Costa que se encontrava diante de José Mário, com o objetivo de receber e conferir a documentação que ele levava, conforme o que fora previamente exigido, por meio da qual ela o declararia matriculado. Evidentemente que, por algumas vezes ter se dirigido àquele espaço na condição de estudante secundarista, para dali receber apoio informal do pessoal da biblioteca, talvez ele esperasse encontrar mais alguns conhecidos, além de uns poucos dentre aquelas funcionárias que tantas vezes o apoiara no seu intento de realizar pesquisas bibliográficas para elaborar os seus trabalhos escolares, ninguém mais ali lhe parecera conhecido ou, ao menos, familiar. A exceção ficou por conta do recém-empossado diretor, o professor Jamim Nascimento Silva (1941-2020), seu já conhecido, por conta de ter sido professor no Estadual, vereador na cidade em legislatura pretérita, bem como, ter ele sido pastor na Primeira Igreja Batista de Alagoinhas, antes que José Mário lá ingressasse.

Enfim, concluídos os trâmites processuais relacionados àquela etapa burocrática, saíra José Mário, efetivamente matriculado, de posse do elenco de matérias e dos horários em que seriam desenvolvidas as aulas a elas relacionadas. Era, portanto, o começo de caminhada na graduação que, doravante, ele passaria a enfrentar.

 

Alagoinhas – 08 de fevereiro de 2026 – Verão brasileiro.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comente; quero saber o que você pensa!