domingo, 15 de fevereiro de 2026

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte XX.

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte XX.

 

A expectativa do começo.

 

Os lugares de memória que marcam os arrazoados desenvolvidos até aqui, estão fundamentados ineludivelmente naquela Alagoinhas de março de 1986 em que José Mário estava prestes a começar uma nova etapa da sua jornada formativa, que era ainda uma cidade pacata e típica do interior brasileiro, com as suas ruas calçadas de paralelepípedos irregulares em grande parte do seu feitio; onde uma grande parte das pessoas se conheciam entre si e, em um bom par de casos, com familiares ainda entrelaçados por meio de uma diversidade de complexas e multifacetadas relações. Tratava-se de  uma cidade com população estimada em cerca de cento e quinze mil habitantes espraiados pelos diversos bairros e distritos que conformavam a sua urbe, onde o comércio ainda era  a única fonte de emprego e renda para a maior parte das pessoas que ali insistia – ou só podia –ali residir. Suas ruas eram largas e as suas praças razoavelmente arborizadas, contando com poucas ruas com pavimentação asfáltica e, com uma estação rodoviária com cerca de quatro anos de funcionamento. A ela, servia um sistema de transporte que já se mostrava insuficiente para atender ao crescente avanço da cidade, no que tange ao surgimento de bairros cada vez mais distantes e populosos. Ainda contava com uma movimentada feira livre, armada nas ruas adjacentes ao prédio em que funcionava o Paço Municipal, entre as sextas e sábados, com o concurso de gentes de todas as procedências, que vendiam e compravam todos os tipos de mercadorias, por meio das quais tanto eram alimentadas as gentes ali residentes, quanto proviam pequenos e médios comerciantes/agricultores de haveres, por meio dos quais, retornariam semanas pós semanas, a mercanciar os produtos alimentícios que voltariam a abastecer as casas de compradores e vendedores, simultânea e concomitantemente.

Portanto, aquela era a Alagoinhas em cujo solo nascera José Mário e, em cujo tecido social ele insistia em se imiscuir, embora, social e economicamente, ele não dispusesse dos meios para o compor. Desta forma, esta série de arrazoados que até aqui foi escrita e que hoje se encerra, tem como elemento constitutivo de sua construção e desenvolvimento, uma memória marcada pelo rememorar de quem o elabora, calcado em impressões indeléveis deixadas no espírito deste escrevente, quando tomara contato com aquela urbe que acreditava iniciar uma saída do marasmo que  marcara profundamente o imaginário da sua gente. Era uma Alagoinhas que via alargar-se o seu sistema telefônico; uma cidade que estava sob a égide da execução do “Projeto Cura”, que modernizava o seu sistema de esgotamento sanitário – apesar de tal modernização alcançar o centro da cidade e, poucos outros espaços em seu entorno, não alcançando os bairros mais distantes e, por conseguinte, mais necessitados de tão importantes melhorias -, que estava prestes a ganhar novas e modernas agências da Caixa Econômica Federal e do Banco do Nordeste Brasileiro; também, àquela mesma época,  entrava em funcionamento o amplo e moderno posto da Telebahia, facilitando os contatos interurbanos. Tudo isto chega até Alagoinhas, depois de anos de esquecimento e paralisia quase completa, após um lapso  de retomada, marcado pela implantação do Distrito Industrial de Sauipe, que prometia emprego, renda e desenvolvimento para a cidade, acabando por ser abandonado incompleto, pelo governo que sucedeu a gestão de Judélio Carmo (1945-2009), em seu primeiro mandato que vigorou entre 1973 e 1976 e, que por sinal, estava em um segundo mandato, iniciado em 1983.

Assim, era a Alagoinhas de meados dos anos oitenta do século XX, na qual a cultura e a escolarização superior se concentrava em um único lugar, cujo prédio estava situado no curso da Praça Ruy Barbosa, para onde afluíam os fomentadores e os desenvolvedores da cultura citadina, que, ao convergir para aquele prédio pensado e construído para abrigar a cultura consolidada nos livros, e que, acabara por ser transformado em espaço de apreensão do saber e em lugar de difusão de saberes, fizeram a efervescência educacional e cultural se fundirem de tal forma, que muitas foram as vezes em que se fizeram uma só coisa, um só agir das coisas. Era pois, naquele ambiente quase glamuroso que José Mário repentinamente se vira inserido, embora, sem ter a menor noção daquilo tudo. Qual o interesse em um certo “Cometa Halley”, se perguntava, que faria com que diversos estudantes, professores e partícipes da cultura local, se postassem em uma madrugada fria de abril, no entorno da FFPA – ou fora em um lugar que chamavam “Horto Neandertal”, que ele sequer sabia existir -, para esperar que o dito se tornasse visível? Pois então, a parte as incompreensões de José Mário sobre o que movia aquela gente a fazer esta ou aquela coisa e, considerando que uma parte da sua trajetória naquela instituição de ensino superior já fora tornada pública, tanto neste blog, quanto em diversas colunas publicadas no jornal eletrônico “Alagoinhas Hoje”, volte-se pois, à tarde/noite em que ele saíra do prédio da Faculdade de Formação de Professores de Alagoinhas, onde estivera para realizar a sua primeira matrícula, para voltar ao seu lugar de residência, que, aliás, estava física e socialmente longe de todo aquele fulgor cultural/educacional

Destarte, quando saíra do recinto onde estivera instalada a Secretaria Acadêmica, onde efetivara, enfim, a sua matrícula, José Mário tomara o caminho de casa, não sem antes marcar o trajeto de cerca de três quilômetros e meio que fizera a pé – visto querer caminhar para ruminar e tentar apreender toda aquela avalanche de coisas que a ele se apresentava em uma velocidade assombrosa –, conforme já o houvera se dado em outras situações semelhantes, ele estava às voltas com um sem número de reflexões, quase todas oriundas de divagações e inferências que lhe fervilhava o cérebro irrequieto, embora, com poucas informações consolidadas sobre quaisquer coisas, mormente, sobre o que viria a ser um curso superior e, principalmente, como ele funcionaria em um cotidiano em que ele estava prestes a tomar contato real. De posse do seu comprovante de matrícula, ele queria entender o que viria a ser cada uma daquelas matérias que ali estavam elencadas. Assim, com a exceção de Filosofia, Sociologia e Língua Portuguesa, que ele julgava saber do que se tratava, José Mário se esforçava para entender o que viria a ser “Introdução à História”, “História Antiga” – que, aliás, ele acreditava ser a mesma coisa – e, a mais intrigante delas era uma certa “Metodologia do estudo e da pesquisa”, embora ele cresse saber o significado de cada uma daquelas palavras, não as conseguia entender, quando emuladas em uma proposição de disciplina a ser ministrada, aliás, por professores que ele nunca conhecera antes, salvo o professor de Filosofia, José Sales da Costa  e, outras duas de quem ele ouvira falar, mas, nunca houvera tido qualquer contato pessoal: Lígia Margarida Martins Freire (1941-2021) e Iraci Gama Santa Luzia (1943-). As outras três docentes com as quais cursaria a “Introdução à História”, Zalvira Vilas Boas, “História Antiga”, Alba Melo e, “Sociologia”, Emília, ele sequer ouvira falar, antes daquele dia da matrícula.

Entretanto, faz-se necessário salientar o fato de que, por total falta de informação do modo como funcionava a Universidade e o modo como se dava a organização da estrutura disciplinar dos seus cursos, José Mário não conseguira se precaver para uma armadilha que se lhe apresentava naquele elenco de disciplinas, qual seja o fato de que eram seis, ao invés de onze ou doze, regime do qual acabara de sair. No momento em que refletia, não se dera conta de que no regime escolar anterior, as dez, onze ou doze disciplinas eram cursadas em um período de cerca de dez meses; enquanto aquele novo regime escolar em que entraria já, já, seis disciplinas deveriam ser cursadas em cerca de quatro meses. Aquelas duas maneiras de aceder ao corpo de matérias a ser apreendido, estaria no modo como ele faria para dar conta do cursar, no tempo e com os meios que precisaria alocar. Naquele instante, ele não atentando para tal forma de distribuição do cursar no segundo grau, com aquele que se lhe apresentava no instante em que analisava o elenco de disciplinas que cursaria dali por diante, entendeu que seria mais leve ou, pelo menos, mais tranquila, a tarefa que se lhe afigurava. O seu pensar equivocado só foi por ele percebido, quando em contato direto com as disciplinas e com os prazos atinentes às leituras, as avaliações e ao transcurso do curso como um todo.

Para os leitores de quarenta anos posteriores às reflexões aqui propostas, cabe salientar, de passagem, que as ferramentas com as quais se opera largamente nos tempos hodiernos, não eram sequer sabidas, menos ainda alcançáveis por aquele rapaz que acabara de ter a sua matricula efetivada em uma Faculdade. Redes sociais, acesso rápido à todo o tipo de informações, sequer era cogitável lá pelos meados dos anos oitenta do século em que tais coisas se passaram; nem mesmo àquelas informações que poderiam ser obtidas à custa de leituras de periódicos e/ou obras publicadas sobre as diversas transformações que foram operadas nas universidades, bem como as diversas reformas educacionais, eram para ele de acesso negado, quer pela necessidade de aquisição e/ou empréstimos em bibliotecas, quer pela inexistência de transcrições em braile de tais obras, mormente, as mais basilares e icônicas. O modo como funcionavam as então Faculdades, o acesso aos periódicos que eram por elas publicados e fomentados, além de ser lento e difícil, devido a uma grande dispersão deles, também o  contato e a troca de informações eram lentas, raras e esparsas. Tal acesso era ainda mais restrito, quando se tratasse de aluno cego, que, em geral, primeiro precisava saber que tal ou qual periódico existia, poderia ser encontrado em alguma biblioteca; depois, ele precisaria encontrar um tempo em meio às suas atividades de transcrição e leitura das obras inerentes a cada disciplina que cursava, também precisaria de alguém, pago ou voluntário, que lhe quisesse ler um material que, via de regra, não fazia parte das suas leituras obrigatórias e indispensáveis. Em síntese, longe estava o tempo em que tudo se podia encontrar, ler, reproduzir, estudar por quem quer que fosse, em qualquer tempo e lugar.

 

Alagoinhas – 15 de fevereiro de 2026 (domingo de carnaval) – verão brasileiro.

Professor Jorge Damasceno – e-mail: historiadorbaiano@gmail.com 

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