domingo, 22 de fevereiro de 2026

Um Domingo Atípico – Comida boa e Mesa farta

Um Domingo Atípico – Comida boa e Mesa farta

 

Em mais u conjunto de fragmentos de memória, neste arrazoado dominical se tentará trazer a quem acompanha este espaço, um pedacinho de história. Tais fragmentos, conforme já é cediço, resulta de escavações nas diversas camadas de memória já imersa no tempo e, de escolhas feitas por quem lembra, que, por sua vez, seleciona não só o que lembra, como também, pode escolher silenciar, esquecer ou, conforme é agora o caso, tornar públicas os seus lembrares.

Em outros escritos publicados há já algum tempo, se discorreu sobre a época em que José Mário fora confinado no Instituto de Cegos da Bahia, localizado  em uma das muitas ladeiras de Salvador, aquela que desce rumo ao São José de Baixo, em frente a mais duas: uma que dá acesso ao Santo Antônio Além do Carmo e uma outra que dá acesso à feira de São Joaquim, a conhecida “Ladeira de Água de Meninos”. Foi ali que ele passara todo o ano letivo de 1975 e uma grande parte do ano letivo de 1976, voltando para o seu espaço de moradia em Alagoinhas, somente por ocasião das férias de meio e de fim de ano. Ali, ele ficara confinado às quatro paredes daquele prédio de seis andares, saindo apenas para a frequência às aulas na escola regular em que todos eram matriculados. Entre tantas, se poderia citar o Carneiro Ribeiro – à época funcionando no prédio do Navarro de Brito, no Curuzu – e o Instituto de Educação Isaías Alves (ICEIA), situado no Barbalho. Para tanto, todos eram  transportados até elas, em um veículo Kombi, de propriedade do internato, dirigida pelo anedótico “Seu Brás”, motorista da instituição há já um bom par de anos, ficando ali praticamente todos os seus dias de vida.

Para José Mário, dono de um apetite voraz e, vivendo o momento do chamado “Estirão”, que é o instante em que o garoto apresenta um crescimento mais rápido e perceptível, gerando uma necessidade e/ou um desejo de ingestão de alimentos mais exacerbada; sem falar que o dito se encontra em plena puberdade, apresentando alguns comportamentos que lhe rouba energias em boa monta; e, no caso específico dos residentes em prédios como o do Instituto, precisava fazer esforços contínuos e cotidianos para percorrer os inúmeros degraus de longa escadaria, com o fito de chegar nos andares onde desenvolveriam as suas atividades, a oferta de alimentos, embora fracionada por todo o dia, não era suficiente para lhe mitigar a fome que, se não era marcada pela falta do que comer, o era pela insuficiência de sua ingestão. Como resultado perceptível de tal disparidade, se poderia informar que, ao chegar naquele estabelecimento em março de 1975, os uniformes que para ele foram confeccionados, ficaram bem apertados, dificultando a tarefa de os vestir; em junho do mesmo ano de 1975, aquela indumentária que ficara apertada no seu corpo, teria folgado tanto, que ele conseguia colocar um rádio Nissei de seis faixas dentro da bermuda, sem quaisquer dificuldades e, ainda, com alguma folga.

Lá no Instituto de Cegos, no seu setor de refeitório, o regramento da oferta de alimentos era bem rígido e “militarmente” controlado. Embora alguns dos internos já servissem o seu próprio prato – e, José Mário era um dentre eles –, havia um quantitativo previamente estabelecido, que cada um poderia colocar para si. Eram duas conchas de feijão; uma colher das grandes, de arroz; uma fatia de bife (ou se fosse ensopado, uma colher) e, farinha, esta sim, não tinha limites. Aquele que eventualmente quebrasse o limite, colocando um item ou uma colher a mais – e, José Mário o fizera algumas vezes –, deixaria um dos colegas de mesa sem ter o que colocar em seu prato, resultando em desequilíbrio do almoço do outro.

Entretanto, ao que parecia, todos acabavam por se sentir em um grande dilema: se ele não o fizesse, o outro o faria e, quem ficaria sem algum dos itens seria ele, que aliás, chegou a acontecer consigo, ao menos uma vez. Naquela circunstância, o ingênuo acreditara que as regras eram respeitadas e sob elas se agia. Na primeira vez que ele fora deslocado para uma mesa em que os ocupantes possuíam a prerrogativa de se servir, enquanto José Mário cumpria uma delas, que era a que obrigava a cortar o bife primeiro, para depois colocar os demais itens, o bestão acabou por ficar sem arroz. Diante do que, ele nunca mais cumpriu, nem procurou cumprir regra alguma daquele refeitório.

No entanto, em algumas pouquíssimas ocasiões, as coisas foram tornadas um pouco diferentes, ainda que só excepcionalmente. Os limites de vezes que se podia comer: caíam; a quantidade e a qualidade do alimento disposto às mesas, dera saltos bem perceptíveis ao cheiro e ao paladar; sucos, refrigerantes, doces e guloseimas em geral, se fizeram presentes naquelas mesas tão frugais, de sopa rala, um mingau que nunca se conseguia identificar qual era o seu feitio  e de dois pães grandes que eram divididos em fatias, pelos seus seis ocupantes. Em um domingo, um dia daqueles que se não esperava quase nenhuma excepcionalidade; domingo marcado pela obrigação de ouvir missa na Capela; depois dela, se dirigir ao andar térreo, onde se circulava por toda a sua extensão, a espera da hora da merenda das dez e, principalmente, do almoço que, conforme já se salientou, embora fosse servido na ocasião aprazada, não era suficiente para mitigar os estômagos de mais de sessenta jovens, adolescentes e crianças, era aguardado com grande ansiedade; era capaz de chegar uma da tarde, mas, meio dia, este teimava em não chegar...

Mas, naquele domingo, ah, que domingo!, talvez tenha sido único, naqueles quase dois anos de confinamento e fome crônica; um daqueles domingos, portanto, ao tocar do sino que chamava toda aquela gente famélica e ansiosa para comer e, comer o que estivesse posto nas mesas, subiram todos para o refeitório querido e tão desejado; aos saltos; até mesmo pulando os degraus, fazendo um dos últimos esforços que a reserva de energias permitia... e, aqueles olfatos turbinados pelo desejo de comer... logo farejaram alguns cheiros diferentes, convidativos, alertadores de novidades: às mesas, antes frugais e com quase sempre os mesmos itens, naquele dia estavam fartas; se diria, fartíssimas e, não só de quantidades que permitiriam comer quantas vezes se quisesse e se pudesse; mas, aquela comida não só era abundante, como era maravilhosamente gostosa, apetitosa...

Mas, poucas outras vezes surpresas tão marcantes para o olfato e principalmente para o paladar, tiveram lugar ali, naquele confinamento que, reputavam por educativo... José Mário sempre o entendera que aquele lugar era sim, um lugar de instrução e, quiçá, de correção... Para ele, aquilo ali, nunca fora um lugar para educar; quando muito, para adestrar.

 

Alagoinhas – 28 de fevereiro de 2026 – verão brasileiro

 

Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

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