JOSÉ MÁRIO NA GRADUAÇÃO – 1.
Lançando mão das metáforas dos fragmentos de alimentos que,
quando em contato com o paladar desperta
rememorares que se sobrepõem ao esquecimento, utilizados por Marcel Proust (1871-1922)
e Gabriel García Márquez (1928-2014), este escrevedor pretende proporcionar aos caros leitores destes garatujares, mais
alguns nacos de História, advindos de processos mnemônicos imersos nas camadas
de um passado que “ainda não passou”, a despeito do tempo há muito
transcorrido. É certo que no caso dos fragmentos de memórias aqui trazidos, A
EVOCAÇÃO DO PASSADO não se relaciona com o toque de um alimento dado no paladar
do rememorador, visto que, ele raramente provara qualquer iguaria excepcional
em grande parte da sua experiência associada ao palato; a sua alimentação cotidiana,
além de frugal, sempre fora trivial, no que respeitava ao lugar que ocupava na
sociedade alagoinhense de então. Mas, também é certo que, tais fragmentos podem
vir a ser desencadeados a partir de outras sensações como os cheiros e os sons
do ambiente em que vivera e, que ao voltar a sentir/ouvir, ainda que de si para
consigo, em seu consciente, conforme assevera Ecléa Bosi (1936-2017), em sua já
clássica obra “História e Sociedade: lembranças de Velho (1994)”, “[...], a lembrança pura, quando se atualiza
na imagem-lembrança, traz
à tona da consciência um momento
único, singular,. _não repetido, _irreversível, da vida. Daí, também, o caráter
não mecânico, mas evocativo, do seu
aparecimento por via da memória. [...]” (BOSI, 1994, p. 49).
Tendo isto em conta
o caráter evocativo deste tipo de rememorar, Enzo Traverso 2012, sustenta que:
“[...]. A memória é
qualitativa, singular, pouco preocupada com comparações, com a
contextualização, ou com generalizações.
Quem a transporta não necessita de
apresentar provas. O relato do passado prestado por uma testemunha — sempre que não seja um
mentiroso consciente — será sempre a sua
verdade, ou seja, a imagem do passado em si deposto. Pelo seu carácter
subjectivo, a memória nunca é cristalizada; mais se parece com um estaleiro aberto, em contínua
operação. [...].” (TRAVERSO, 2012, p.22).
Mais adiante, no
mesmo parágrafo, ele reforça a assertiva transcrita acima, considerando alguns
dos limites da memória, por sua sujeição a erosão que lhe é imposta pelo tempo,
dizendo que “[...]. Não é só o tempo a erodir e a enfraquecer a recordação. A
memória é uma construção, sempre
filtrada por conhecimentos adquiridos posteriormente, pela reflexão que se
segue ao acontecimento, por experiências
que se sobrepõem à primeira e modificam a recordação. [...].” (TRAVERSO, 2012,
p. 22), significando que o “recordar” não tem um caráter estático, na medida em
que está sujeito ao acúmulo de outras experiências construído ao longo de um
tempo que se desenvolve desde o momento “lembrado” e chega àquele em que se dá
o lembrar e este, por sua vez, é dado a conhecer, tanto por meio de uma
escrita, quanto por meio de uma entrevista de História Oral.
Portanto, é assim
que se chega àquela segunda feira dos meados de março de 1986, dia em que José Mário
teria o seu primeiro dia de aula na condição de graduando na Faculdade de
Formação de Professores de Alagoinhas. Era um dia quase outonal, visto que
todos os seus primeiros sinais já estavam postos e, logo, logo ele chegaria e
se instalaria no lugar do verão que não tinha pressa de se retirar. Em todo o
caso, era março; março que tinha as suas águas cantadas pelo poeta; também era
naquele mês que o ano letivo tinha início, em todos os espaços e graus de ensino
no Brasil; era também em março que ganhava corpo uma vaga de ações fiscalizadoras
dos preços das mercadorias, um fenômeno que até ali se circunscrevera a poucos
cidadãos brasileiros, mormente, aqueles que faziam parte dos meios de
comunicação, que então, acabava por se alargar sobremaneira, criando a horda dos
“fiscais do Sarney”, que buscavam enquadrar os comerciantes que se recusassem a
cumprir as proposições constantes no “plano Cruzado. Enfim, era um março atípico
e diferente dos vinte e cinco marços vividos anteriormente por aquele rapaz que
se dirigiria ao prédio onde aquela faculdade funcionava e, onde ele iria dar os
primeiros passos da sua caminhada rumo à sua formação profissional.
Não obstante as
aulas só serem efetivadas à noite, naquela segunda-feira, José Mário despertara
cedo, se é que dormira, ainda envolto nas questões que formulara ao sair do
prédio da FFPA, após a realização de sua matrícula. O dia passara arrastado
mas, enfim, passara e, ele se dirigira ao edifício situado à Praça Ruy Barbosa,
talvez ali já fosse a rua Elvira Dórea; como chegara cedo, pouco antes das seis
e meia, acercara-se de um banco de pedra que estava posto sob algumas árvores.
Ali, ele acompanhara os últimos cantares de cigarras maduras, o que indicava de
fato a proximidade do outono. Enquanto aqueles zip-zip-zips, ressoavam como
sinfonia de abertura da noite, os pensamentos daquele rapaz revoavam para
dentro do recinto que o iria receber, juntamente com outros trinta e nove
colegas, para começar, acreditava, a responder às indagações que fizera e,
claro, não encontrara quaisquer respostas que lhe satisfizessem o seu espírito
irrequieto.
No entanto, à medida
que os minutos passavam e que os demais estudantes chegavam, ele passava a ter
clareza de uma primeira resposta aos seus indagares: ele não conhecia e, nem
era conhecido de quase nenhum daqueles que fariam com ele aquela jornada.
Exceto uns dois ou três que o conheciam de outras experiências não estudantis,
a sua suspeita acabara por se confirmar: era ele apenas mais um, em meio àquela
“multidão” que, em princípio, fora indiferente a ele, exceto, o fato de se
tratar de um aluno cego, que, certamente poderiam ter pensado, teria algumas
dificuldades em andar no mesmo passo e ritmo que o restante da turma.
Ingressados que
foram na sala de aula destinada ao novo curso e, ao conjunto dos alunos que nele
estariam envolvidos, outra surpresa: pouco ou nada compreendera do que ouvira
da parte daquelas professoras que se apresentaram como sendo a que “comandava” a
realização do curso – professora Ialmar Leocádia Viana, chefe do departamento
de História (cujo nome já lhe causou incompreensão) –, bem como aquela outra
que permaneceria na sala para dar a sua aula, após a apresentação do curso e de
suas principais diretrizes. A professora Zalvira Vilas boas, fizera a sua
primeira exposição, apresentando e explicando o programa de disciplina que
pretendia desenvolver, Introdução à História, aumentando ainda mais a confusão
na cabeça de José Mário, visto não ter ele tido a oportunidade de ler o dito
programa; nem mesmo, saber realmente do que se trataria em tal disciplina.
Ainda naquele curto espaço de tempo, duas coisas lhe causaram espécie – talvez elas
já tivessem tido lugar no dia seguinte. A primeira delas foi o fato de um aluno
de outro curso/turno, entrar naquela sala sem a menor cerimônia, para anunciar
a sua campanha para a presidência do “DA”, claro, José Mário não fazia a menor
ideia do que fosse aquilo. A segunda, esta já na exposição do plano de curso de
História Antiga, que ficara a cargo da professora Alba Melo, foi a desenvoltura
com que um dos alunos interpelou a professora, enquanto apresentava o seu
programa de curso, questionando o porquê da ausência de referência a “Marx”. E,
de si para consigo, José Mário perguntou “Marcos?” Ou seria “Marques?”, pois,
aquele nome que o aluno apontou faltar nas referências da professora, José
Mário nunca houvera ouvido, principalmente, depois de ser informado por um
colega a quem perguntara, tratar-se de “Karl Marx”; para o coitado, deu no
mesmo”
Mais uma surpresa se
guardou para o final da aula. Quando acabada aquela que fora a primeira parte
do primeiro dia de aula, viria o professor José Sales da Costa, que ele
conhecia, através do contato que com ele tivera na Primeira Igreja Batista de
Alagoinhas, que seria o responsável por conduzir a matéria de Filosofia. Mas,
notou que, o grupo inicial não permaneceu na sala, o que lhe aguçou a curiosidade,
visto que, o público que assistiria àquela disciplina iniciada às vinte horas e
dez minutos, reduzira-se consideravelmente. O que houve, perguntou. Algum tempo
depois obteve a resposta. Uma parte da turma que ingressara no curso de
licenciatura plena em História, era egressa do curso de Estudos Sociais – cuja licenciatura
era de curta duração –, que já haveria cursado Filosofia, o que os desobrigava
o fazer, pois, já aproveitaria a carga horária.
Enfim, vinte e duas
e quarenta, José Mário sai para tentar alcançar o último ônibus que o levaria
ao seu lugar de moradia, para ali, procurar dormir, ainda que antes de o
conseguir, viesse a ruminar o que lhe fora oferecido como matéria para aquele
seu iniciar de caminhada.
Alagoinhas – 01 de
março de 2026 – verão brasileiro.
José Jorge Andrade Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com
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