domingo, 22 de março de 2026

FRAGMENTOS DE MEMÓRIA, PEDAÇOS DE HISTÓRIA - PARTE IV

 

JOSÉ MÁRIO NA GRADUAÇÃO – 4.

 

O qualificado corpo de leitores destes arrazoares construídos a partir de elementos constantes na memória do seu escrevinhador, tem diante de si para a sua reflexão, mais um rememorar de um caminhar acadêmico vivenciado por José Mário enquanto cursava a licenciatura “plena” em História na Faculdade de Formação de Professores de Alagoinhas, considerando os percalços e as vicissitudes daqueles percursos acidentados e cheios de curvas sinuosas e íngremes, muitas vezes mal ou nada sinalizadas, o que representara grande perigo, nem de  longe suspeitado pelo incauto e despreparado viajor. Incauto, porque não dispunha de meios para aferir o que se lhe aguardava ao final de cada trecho da estrada, razão pela qual não se acautelara, em momento algum – por vezes, em razão de puro e simples desconhecimento; outras vezes, por sua natural ingenuidade, a partir da qual acreditara sempre que as coisas se ajustariam, de alguma maneira – no sentido de não se lançar para o próximo passo, sem antes estudar o tipo de terreno no qual precisaria palmilhar. Despreparado, porque não dispunha de quaisquer ferramentais de apoio, fossem eles tiflológicos, bibliográficos ou emocionais que lhe permitissem apoiar os pés ou afirmar os braços em estruturas que lhe propiciassem resistir aos solavancos que lhe sobreviriam ao longo de todo o tempo que se faria o trajeto. Assim, noves fora alguns poucos amigos e colegas que vez por outra lhe davam algum apoio – ao menos, conforme lhe dissera alguns anos depois o seu orientador de mestrado “o apoio moral” –, em todo o seu caminhar acadêmico – inclusive, quando da sua carreira docente –, ele sempre fora um viajor solitário que buscava forças dentro do seu alforje pessoal, sempre com pouquíssimo estoque delas.

Portanto, conforme se leu nos garatujares anteriores, para José Mário, o segundo semestre letivo se lhe apresentara ineludivelmente mais complicado, no que respeitava ao acesso ao material correspondente às leituras inerentes à cada disciplina que precisaria cursar, uma vez que, além do volume de tais leituras lhe parecerem ainda mais alentado, havia também o déficit acumulado do semestre anterior que lhe obrigara a abandonar quatro das seis disciplinas em que estivera matriculado, resultando em reprovação por falta. O seu espírito, como que se inquietava e, como que dele  cobrava sabe-se lá o que, na medida em que, de si para consigo, ele entendia que fracassara, é certo, mas, não por inércia de sua parte. No entanto, o seu interior pouco se consolava com aquela assertiva dissuasória, com a qual procurava responder ao redarguir do seu temperamento que cobrava, insistentemente uma ação mais efetiva, no sentido de fazer valer uma das suas características que, para bem ou para mal, sempre lhe marcara os passos: nunca parar; recuar, dependendo das circunstâncias e, se fosse para avançar com mais força e determinação; voltar atrás, deixar de seguir: nunca... Aquilo lhe moera os  ânimos, logo ao se confrontar com as dissonâncias que se apresentavam no que tange à interação entre os professores e a turma e, depois, havendo tempo, a clássica e incômoda pergunta: e com você, o que ou como faço? E, muitas vezes, a pergunta era feita ao aluno invisível à percepção daquele professor acostumado a interagir com aqueles que estavam no seu mesmo patamar de percepção visual, já quase ao final do seu performar professoral, crendo mesmo que houvera desempenhado bem a interpretação que fizera do seu saber e do seu conhecer da matéria, para depois, bem depois,  se lhe aperceber a presença de um aluno que pouco ou nada absorvera da exuberância do seu desempenho e, então, assim provocado no ponto para o qual jamais cogitara ser necessário estar preparado, defendeu-se com perguntas – retóricas, saliente-se de passagem – que, ao invés de ser ele mesmo quem respondesse, esperara que tal resposta viesse daquele a quem ele deveria ter na conta de sua didática, de sua metodologia do ensino da História, um aluno que não era o padrão considerado pelos teóricos e, ainda menos, pelas teorias com as quais páginas e páginas dos assim chamados “conhecimentos pedagógicos” foram impressas, ensinadas nos diversos seguimentos do ensino, mundo a fora e, que certamente, aqueles professores conheciam – ou deveriam conhecer -; escreveram trabalhos e forçaram os seus professores a ler o que escreveram em suas avaliações.

Foi assim que José Mário vivera todo o restante daquele ano de 1986 que, depois da euforia produzida pela aprovação e ingresso no curso de História, se envolveu em um sem-número de incertezas e, com uma sensação de prejuízo irreparável, após a difícil decisão de trancamento do curso, na medida em que tivera que desembarcar do “trem”, sendo necessário esperar que outro viesse para prosseguir a viagem. Os meses que se seguiram à efetivação do processo de interrupção do trajeto ainda na “segunda estação”, acabaram por consolidar uma certeza que ele insistia em não querer ter: o mundo era sim, talhado para os mais fortes e completos em sua funcionalidade física, no sentido de que aqueles cujos cinco elementos sensoriais estivessem em sua plenitude, fatalmente seria exitoso – exceto, no caso de quem de fato quisesse, por decisão sua e, quase sempre, só sua, resolvesse não querer prosseguir –, na medida em que, apenas a vontade de querer continuar, não era suficiente para poder fazê-lo. Ou seja: não bastava a vontade de seguir, nem mesmo a “força” do espírito em se por a caminhar. Instrumentos e ferramentas diversas se faziam necessários para levar adiante quaisquer processos intentados construir e/ou desenvolver e, tais ferramentas e quais instrumentos, José Mário não possuía. Por exemplo, o recurso financeiro, ao menos em tese, minimizaria o seu déficit no campo do material bibliográfico a ser utilizado durante o cursar das disciplinas. No entanto, além de não os possuir, também há um outro elemento que não poderia deixar de ser tomado na devida conta. A exposição professoral se dava mediante projeções, escritas em quadro, gesticulações..., o que efetivamente acabava por alijar o aluno cujo sentido da visão não poderia abarcar aquele conjunto de movimentos e instrumentos que, apesar de se dizer que eram “ferramentas auxiliares”, na prática, eram os principais elementos de interação professor/turma. Nem é preciso apontar o tamanho do prejuízo daquele outro  e único aluno, que não poderia ser considerado em tal tipo de interação.

Mas, o excelente leitor poderia objetar que já haveria um grupo de pessoas dispostas a “emprestar” os seus olhos e tempo àquele tipo de aluno, com o fito de tornar o acesso ao material a ser empregado pelos professores, pelo menos, aqueles registrados em livros e/ou capítulos de livros, o que, indubitavelmente, ajudaria a reduzir a distância abissal interposta entre os elos da cadeia formativa. E, quem disse que José Mário não procurou lançar mão deste tipo de apoio? Sim, caro leitor. Ele procurou o que à época se denominava “Grupo de Copistas Voluntárias”, sediado em Salvador, para que elas lhes transcrevessem o material que ele precisaria para tentar desempenhar razoavelmente os seus estudos. No entanto, a primeira objeção feita por uma delas, referiu-se ao tamanho e à quantidade do material demandado por ele. Afinal, ele era só mais um dentre aqueles que precisavam do serviço, que, salientou bem a caridosa criatura que recebera a solicitação:

- “somos voluntárias”; “faremos na medida do possível”; “Quando for possível”...

Ou seja: se der, quando der... Observe-se que, a necessidade do demandante é deixada de lado, o tempo da academia, sequer é considerado – este escrevedor já se posicionou em um texto mais longo sobre o tema do “voluntarismo”, do “Filantropismo” (DAMASCENO, José Jorge Andrade. A cuia e a bengala : histórias, memórias e trajetórias de pessoas cegas  em Salvador, em busca de inserção econômica e autodeterminação social  (1963-1993). Salvador: Edufba  2022). Só para se ter uma ideia da seriedade que fora aquele demandar de material a ser transcrito em Braille, os textos que José Mário levou para as egrégias senhoras daquele “Grupo de Copistas” nos meados de agosto de 1986, para fazer face às disciplinas que cursaria até dezembro daquele mesmo ano, apenas em abril do ano seguinte, é que ele começou a receber de volta, o que, nem é preciso dizer, já estava o semestre devidamente trancado, por falta de “cara-de-pau” do aluno, para pedir “paciência” aos seus professores. Afinal, havia que se realizar as avaliações; havia que se concluir o semestre e, seguir adiante, rumo aos próximos.

 

Alagoinhas – 22 de março de 2026 – outono brasileiro

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

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