JOSÉ MÁRIO NA GRADUAÇÃO – 5.
Ao retomar mais um feixe de fragmentos extraídos de camadas
de memória já bem profundas no tempo e distantes no que respeita ao ambiente em
que foi demarcada no viver de José Mário em seus primeiros anos de graduando em
História, eis que alguns outros pedaços de sedimentos podem ser recolhidos em
forma rememorares que, ainda que frágeis e fugidios, se pode realizar um esforço
para se conseguir compreender algumas das vicissitudes que envolveram a sua
formação acadêmica e “preparação” professoral.
José Mário chegara ao final de 1986 com o gosto amargo da
frustração, visto ter ficado claro que nem fora bem sucedido no esforço para
cursar os primeiros dois semestres de sua Licenciatura; nem tivera qualquer
resultado, no que tange a outros esforços envidados no sentido de deixar aquilo
tudo para trás e, assumir que fora de fato talhado para o serviço braçal,
desqualificado e, como tal, sujeito aos humores de empregadores que abrissem –
ou não – as portas dos seus estabelecimentos para empregar sujeitos para os
quais pagariam o salário mínimo e, de quebra, tais atitudes seriam
transformados em gestos caritativos e ações de boas obras, marcados por alto-aplausos
entre os seus iguais, com isto, marcando o aprofundamento da hipocrisia social
que, por sua vez, em geral, se consolida como a cumieira do filantropismo que
permeia os esforços das elites com o fito de estarem bem com as suas próprias “consciências”
ou, mais precisamente, com as suas conveniências.
Não se perca de vista que a sociedade brasileira tem a
mentira (faz de conta) e o aparentar ser o que não se é, como fundamento da sua
falsa religiosidade. Por meio dela as elites exercem domínio sobre aqueles outros
setores subalternizados da sociedade, embora, se saiba que tal religiosidade
não passa de uma máscara para encobrir o verdadeiro rosto do fariseu. Mas, há
que se fazer caridade, qualquer tipo de caridade; há que se fazer “boas obras”,
qualquer tipo de “boas obras”, para que sejam vistas pelos homens e, que por
meio delas, quem as tenha feito, seja reconhecido como alguém de grande
benemerência! Com isto, ser “fariseu”, ser “saduceu”, ser sacerdote ou ateu, é
mero detalhe da sinfonia tocada pela orquestra de quem se engana; de quem se
deixa enganar; de quem quer ser enganado por si mesmo, ou pelos outros.
Portanto, diante de um ano inteiramente malogrado; ano em
que salvo a aprovação no vestibular, nada mais andou favoravelmente para ele,
José Mário viu-se na contingência de lançar dos seus ombros aquele peso, antes
que se tornasse mais difícil a carga que teria de levar às costas ou,
teimosamente, procurar erguer-se das sucessivas quedas sofridas, untar as
feridas e, ainda com passos mais trôpegos e medidos, retomar o caminho que se
lhe apresentava para percorrer.
No entanto, em um deslocamento até Xiquexique para uma
atividade religiosa, já disposto a esquecer aquele ano que logo terminaria,
acabou por não sair da sua cabeça aqueles cogitares. O seu temperamento que
tinha por princípio nunca recuar, não admitia aquele jogar de toalhas que se
lhe perpassava pelo espírito. Durante toda a estada naquela cidade, assim como
por todo o deslocamento para chegar e para sair dela, aqueles pensamentos se
embatiam dentro de si, indicando que a decisão a ser tomada não seria fácil
mas, que teria de sê-lo e, o foi. Por conta do seu temperamento, ele não
aceitava simplesmente deixar para trás, todo um esforço pessoal, assim como
esforços envidados por outras pessoas, no sentido de simplesmente justificar-se
com um “não deu”, paciência. E de mais a mais, logo, logo, ele entraria em mais
um ano do seu existir, sem qualquer definição do que seria, do que faria para sobreviver, de qual modo ele
se afirmaria como um homem ao mesmo tempo apto para o exercício do seu próprio
subsistir e, como aquele que queria conduzir o seu próprio devir; bem como não
concluindo, não obtendo uma formação que lhe habilitasse para o exercício de um
ofício, como se afirmaria enquanto pessoa independente que muito queria ser.
Destarte, foi envolvido nestes embates internos entabulados
de si para consigo, Que José Mário foi encontrado pelo ano de 1987, já se
encontrando de volta em Alagoinhas. No intervalo entre a viagem do ano anterior
e o carnaval daquele novo ano, ele fizera algumas tentativas tão infrutuosas quanto
àquelas feitas logo após o trancamento de matrícula, no sentido de se
desvencilhar de vez da empreitada até ali malograda, com vistas a encontrar
alguma solução para aquele impasse quanto ao “que fazer?” de sua caminhada.
Não havendo outro caminho que não aquele que fora
interrompido no meio do segundo semestre; não tendo alcançado qualquer
resultado em suas buscas para um outro recomeço em outro tipo de processo
formativo, ele acabou por ceder à sua própria pressão e, em fevereiro de 1987,
lá estava José Mário, juntamente com a turma que fora aprovada para ingresso naquele
ano, no posto de saúde localizado no Jardim Petrolar, para ali fazer os exames
de Abreugrafia e, de posse do seu resultado, juntar a outros documentos para
retomar a matrícula deixada no meio do segundo semestre do ano anterior.
Alagoinhas – 01 de abril de 2026 – outono brasileiro
Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com
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