JOSÉ MÁRIO NA GRADUAÇÃO – 8.
Os caros leitores destes garatujares eletrônicos, terão
diante de si, mais um “fragmento de memória” deste escrevedor, como resultado
de mais um mergulhar nas inúmeras camadas de sedimentos de um passado cada vez
mais distante e com uma profundidade que exige algum esforço para alcançar tais
fragmentos e trazê-los à memória. Este exercício feito no presente, implica em
escolhas do que lembrar; assim como do que falar e do que manter no silêncio
que, conforme se tem manifestado nos arrazoares anteriores, é fruto de uma
seleção por parte de quem lembra, o que acaba por apontar para uma elaboração
discursiva que visa dar a conhecer “pedaços” de uma história dada. Os “pedaços
de História” que tem José Mário como protagonista, sobretudo, naqueles instantes
em que o seu caminhar pela rota da formação profissional aparece como elemento
central destes arrazoares, assinala o esforço rememorativo que se precisa
realizar, no sentido de trazer à público alguns dos desdobramentos de um
caminhar sinuoso, acidentado e pleno de imprecisões no que respeita ao “passo
seguinte” a ser dado.
Quando Ecléa Bose (1936-2017)
dá início ao quarto e último capítulo do seu tratado sobre o relembrar dos “velhos”,
procura refazer alguns dos percursos pelas sendas por meio das quais se
dirigira aos seus “lugares de Memória” que foram erguidos ao longo do tempo de sua
infância, aquelas veredas pelas quais, ao menos nos primeiros anos escolares, ela
fora levada pelas mãos do seu avô: para a escola, para passeios, para lugares
onde ela pudesse viver a ludicidade dos verdes anos do seu caminhar. Naquele
rememorar de caminhos há muito palmilhados, ela sente o fluir das memórias
infantis que guardara de trajetos diversas vezes feitos, dos meios de transporte
em pleno processo de “modernização”, de espaços frequentados com regularidade ou
visitados apenas esporadicamente, de muros com seus formatos e cores, assim como
a sua simbologia da demarcação de limites de propriedade, bem como de interdições; aquela memória remonta também a árvores – que,
certamente, à altura de suas evocações, já nem mais estavam nos mesmos lugares
onde foram vistas e apreciadas, inclusive frutos delas advindos –, até mesmo
vozes e rostos se lhe assomaram ao espírito, fazendo com que ela pudesse
rememorar o feitio da pavimentação das ruas que passara em já pretéritos tempos
escolares. Citando Halbwach (1877-1945), a autora de “Memória e Sociedade:
lembranças de velhos”, assevera que
“[...] A lembrança é uma imagem construída pelos materiais que
estão, agora, à nossa disposição, no
conjunto de representações que povoam nossa consciência atual. Por mais nítida que nos pareça a lembrança de
um fato antigo, ela não é a mesma imagem
que experimentamos na infância, porque nós não
somos os mesmos de então e porque nossa percepção alterou-se e, com ela, nossas idéias, nossos juízos de
realidade e de valor. O simples fato de
lembrar o passado, no presente, exclui a identidade entre as imagens de
um e de outro, e propõe a sua diferença em termos de ponto de vista.” (BOSI, 1994, p. 55).
Talvez, aqui se possa especular que, fora por meio da
convivência, quiçá, diária com aquele senhor
já prenhe de memórias, que ela possa ter começado a desenvolver interesse pelas
conversas dos já "maduros e, conforme preconizava aquela sociedade que se
desenvolvera em consonância com uma pretensa “modernização” capitaneada pelo
acelerar do desenvolvimento de um capitalismo tardio e periférico, já eram passíveis de reclusão ao um asilo – hoje, eufemisticamente denominado “Casa de
repouso” –, ou, quando menos, encaminhados para o sótão da casa e,
principalmente, da vida daqueles outros, mais novos e ainda na plenitude da
produtividade. Portanto, retomando o caminhar naqueles espaços pelos quais os
seus pés infantis e/ou juvenis passaram no curso de uma parte dos seus andares
em trajetos habituais, parte deles, feito na companhia do seu avô, Bosi constrói
uma proposição teórica sobre a qual repousa a compreensão do que é e como
funciona a memória, fundamentada em premissas estruturadas a partir do
pensamento de Halbwach, cujo elemento fulcral se estrutura na ideia de que, o
passado não se apresenta do mesmo modo como foi vivido por quem dele se lembra
ou é “assaltado” em seus lembrares, por algum dos seus fragmentos. Diz ela que:
“Não
basta um esforço abstrato para recriar impressões passadas, nem palavras exprimem o sentimento de
diminuição que acompanha a
impossibilidade. Perdeu-se o tônus vital que permitia aquelas sensações, aquela
captação do mundo. Quando passamos na mesma calçada, junto ao mesmo muro, o
ruído da chuva nas folhas nos desperta
alguma coisa. Mas, a sensação pálida de agora é uma reminiscência da alegria de outrora. Esta sombra tem algo
parecido com a alegria, tem o seu
contorno: é uma evocação”. (BOSI, 1994, p. 84).
Assim, é com tal
proposição em mente, que o corpo de leitores destes escreveres devem acompanhar
as tentativas de resolver as dificuldades de José Mário em aceder aos textos e
às obras que precisava para se apropriar do que lhe era ensinado nas diversas
disciplinas que se dispusera a cursar. No tratado anterior, se disse que uma
das primeiras soluções que se intentou encontrar para o problema, teria sido a
disponibilização de uma funcionária – analfabeta funcional (à época pouco se utilizava este termo) – para lhe servir de ledora. Também se disse, pela razão
uma vez mais exposta entre os travessões, que a solução se mostrou um desastre
e, que outras alternativas precisaram ser buscadas. Entre elas, uma funcionária
recém-contratada fora lhe colocada à disposição. Aquela sim, sabia ler; possuía
uma capacidade – ali já rara – de fazer a leitura em voz alta, respeitando a
pontuação do texto. O problema desta solução, já foi com o setor administrativo
no qual ela era lotada. A chefia do dito setor, achava um excesso e, embora não
dissesse nestes termos – mas o seu pensar e as suas atitudes posteriores assim
o exprimiam –, acreditava tratar-se de um desperdício, permitir que aquela
funcionária ficasse inteiramente a disposição para a leitura do material de que
José Mário precisava, ao tempo em que reivindicara que apenas uma parte da
carga horária da funcionária fosse disponibilizada para aquele fim.
É evidente que José Mário
se levantou contra aquela proposta do chefe do setor em que a
funcionária se encontrava lotada, chegando a provocar uma reunião entre eles e
o então diretor da Faculdade de Formação de Professores de Alagoinhas, ocorrida
sob forte tensão na sala da direção. O diretor, pusilânime, por todo o tempo,
procurou administrar a querela, em favor do seu funcionário chefe de setor, o
que irritou profundamente José Mário, que ficaria privado de uma pessoa que,
finalmente àquela altura, sabia ler. Tendo vencido a queda de braço com o dito
chefe – o que depois se mostrou uma “Vitória de Pirro” –, precisou enfrentar a
resistência do indigitado, na medida em que, por várias vezes, o dito cujo se
recusara a liberar a funcionária que, ficava como que, sendo jogada entre o mar
e o rochedo.
Desta maneira, a postura do excelentíssimo chefe do setor e a
pusilanimidade do então diretor, dava bem a medida da incompreensão que aqueles
cidadãos possuíam da impossibilidade – ou dificuldade, para dizer o mínimo –
que possuía aquele aluno em aceder ao material por meio do qual ele deveria
apreender os conteúdos das disciplinas que cursava. Para eles, duas ou três
horas de uma carga horária de seis horas semanais e, ainda assim, alguns dias
por semana, seriam mais que suficientes para que o material fosse lido. E,
pasme-se, chegaram a questionar, se haveria tanta coisa assim para ser lida,
que não o pudesse se fazer, em apenas alguns espaços curtos de tempo. . E, como seria de se esperar, José Mário não
se conformava com aquela atitude de incompreensão por parte daqueles gestores,
sobretudo, quando imaginava que um deles era professor, o que o fazia pensar
que conhecesse a dinâmica de um curso de ensino superior, no que respeita ao
volume e a quantidade de leituras, para não dizer, do nível de densidade dos
temas a serem estudados e apreendidos.
Alagoinhas, 19 de abril de 2026 – outono brasileiro
Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Comente; quero saber o que você pensa!