JOSÉ MÁRIO NA GRADUAÇÃO – 9.
Em mais um feixe de
fragmentos do caminhar de José Mário pelas sendas da graduação, este escrevedor
volta a evocar profundas camadas de memória já situada em um passado marcado
pelo acumular de sedimentos, mas, conforme preconiza Henry Rousso, “ne passe
pas”. Este não passar “do passado”, não implica em um não passar do tempo; mas
antes, a despeito do “passar” do tempo. Ao ser evocado a partir da memória,
assim como do contato com pessoas e acontecimentos – e sobretudo, com os seus
desdobramentos –, o “passado que não passa”, se faz representar naquilo que é
lembrado, a partir de quem lembra. Um passado que “não passa” está presente nas
pessoas que o viveram e, sobretudo, naquelas que escolhem estabelecer relações
entre aquele passado e o presente, embora sujeito a ressignificações, ele não é
apagado de todo, nem esquecido. Quando evocado, aquele passado está ali,
malgrado as muitas camadas que o tempo acumulou sobre ele. Conforme assevera
Tzvetan Todorov – entre outros autores que se debruçaram sobre a tarefa de
compreender a memória –, o lembrar não é um relembrar as coisas conforme elas
se sucederam; não é sentir a dor com a mesma intensidade do momento em que foi
vivida; mas, o lembrar é trazer à superfície, alguma situação ou circunstância
vivida em um momento ou lugar dado e, em um tempo do caminhar do indivíduo que
se dispõe a lembrar, visto que “[...] a memória é uma
faculdade individual”, conforme
postula Maurice Halbwach (1877-1945), já quase ao final do seu tratado sobre a “memória
Coletiva” (2006, p. 119).
Algumas páginas antes, ele
já assegura que
“[...], se a memória
coletiva tira sua força e sua duração
por ter como base um conjunto de pessoas, são os indivíduos que se lembram, enquanto integrantes do grupo. Desta
massa de lembranças comuns, umas apoiadas nas outras, não são as mesmas que
aparecerão com maior intensidade a cada um deles. De bom grado, diríamos que cada memória individual é um
ponto de vista sobre a memória coletiva,
que este ponto de vista muda segundo o lugar
que ali ocupo e que esse mesmo lugar muda segundo as relações que mantenho com outros ambientes. [...].” (HALBOACH,
2006, p. 69).
Portanto, é com
estes elementos teóricos tomados na devida conta, que se vem construindo os
arrazoados que tem chegado ao crivo de argutos leitores que visitam este
espaço. Neles, se vem discorrendo sobre as dificuldades que José Mário
encontrara durante grande parte do seu intento em se licenciarem História, no
que respeita ao seu acesso aos materiais propedêuticos de que tinha necessidade,
a fim de fazer as leituras e a partir delas, acompanhar com alguma regularidade,
as aulas. Algumas tentativas foram feitas para minimizar a defasagem que se
tornava cada vez mais um obstáculo de difícil transposição, uma vez que, sem as
leituras, era ainda mais difícil a compreensão e/ou a apreensão do que era
ensinado pelos professores.
Diante do fracasso
das iniciativas encetadas para resolver
o problema que, com o passar do tempo, acabava por se agravar, José Mário se
sentia impotente diante daquele hiato que se interpunha entre ele e a
instituição de ensino à qual estava vinculado, na medida em que aquela, quase
lavara as mãos, alegando ter feito o que podia para resolver o imbróglio. Ele,
por sua vez, passara a lançar mão da única ferramenta que lhe restava e, que
poderia usar sem que lhe acarretasse custo: o chamado “modus esperneandi”, que
consistia em comentar com alguns colegas que lhe fossem mais próximos,
fazendo-lhes saber que havia grandes dificuldades para acompanhar o curso, em
razão da instituição não empreender esforços para lhe prover de condições
mínimas para tanto. Entre aqueles colegas, havia um que exercia o jornalismo em
periódicos locais, o que resultou em reportagens de sua lavra, denunciando o
descaso ou, quando menos, o pouco empenho da cúpula diretiva da FFPA, no sentido
de prover àquele aluno reclamante, de algumas condições materiais efetivas e
eficientes que lhe permitissem prosseguir no intento de integralizar a
licenciatura em História. Aquele mesmo colega, conseguiu escrever uma
reportagem a tal respeito, em um periódico que circulava na capital do Estado, talvez,
acreditando que alguma autoridade com foro sobre a FFPA, ao ler aquela matéria,
se “sensibilizasse” e, dependendo do seu interesse pelo caso, procurasse fazer
com que alguma coisa viesse a ser feita, na prática.
Mas, nem é preciso
dizer aos caros leitores, que aqueles esforços do repórter e as reclamações do
estudante, em nada resultaram, no que respeita a alguma movimentação concreta
das autoridades relacionadas ao setor, para que aquele discente pudesse dar
curso ao seu intento. Diante da inércia das ditas autoridades, alguns colegas
tomaram a iniciativa que, por fim, acabou por ter um papel importantíssimo na
concretização do caminhar de José Mário, rumo à conclusão daquilo que fora iniciado
com a aprovação no vestibular de 1986. Alguns dentre eles, resolveram que contratariam
uma colega, estudante do curso de Estudos Sociais – que estava precisando de
grana para se manter e, que José Mário sequer conhecia –, pagar-lhe-ia um
salário e, ela faria as leituras, em um regime de trabalho de 20 horas semanais
– regime aliás, que José Mário, sequer sabia como calcular –, tais tratativas
correram em segredo, uma vez que, só depois de negociadas, decididas e acertadas
com a “contratada”, foi então comunicado ao estudante que seria beneficiado pela
iniciativa. Ele, entre surpreso e acanhado, recebera o gesto como quem é
comunicado de enforcamento próximo. Mas, depois de ter vivido todo o processo,
ele entendeu que aquele procedimento levado à cabo por aqueles que se deram ao
trabalho de o fazer, acabou resolvendo assim, coletivamente e, sem participação
dos agentes diretivos daquela instituição de ensino, aquele problema, modalidade
que fora mantida e bancada por um variado grupo de colegas e, inclusive com participação
de alguns professores, até o momento da sua colação de grau, em 1991.
Alagoinhas – 26 de
abril de 2026 – Outono brasileiro – Quarenta anos depois da catástrofe nuclear de
Chernobyl.
Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com
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