domingo, 26 de abril de 2026

FRAGMENTOS DE MEMÓRIA PEDAÇOS DE HISTÓRIA - PARTE IX. JOSÉ MÁRIO NA GRADUAÇÃO – 9.

 

JOSÉ MÁRIO NA GRADUAÇÃO – 9.

 

Em mais um feixe de fragmentos do caminhar de José Mário pelas sendas da graduação, este escrevedor volta a evocar profundas camadas de memória já situada em um passado marcado pelo acumular de sedimentos, mas, conforme preconiza Henry Rousso, “ne passe pas”. Este não passar “do passado”, não implica em um não passar do tempo; mas antes, a despeito do “passar” do tempo. Ao ser evocado a partir da memória, assim como do contato com pessoas e acontecimentos – e sobretudo, com os seus desdobramentos –, o “passado que não passa”, se faz representar naquilo que é lembrado, a partir de quem lembra. Um passado que “não passa” está presente nas pessoas que o viveram e, sobretudo, naquelas que escolhem estabelecer relações entre aquele passado e o presente, embora sujeito a ressignificações, ele não é apagado de todo, nem esquecido. Quando evocado, aquele passado está ali, malgrado as muitas camadas que o tempo acumulou sobre ele. Conforme assevera Tzvetan Todorov – entre outros autores que se debruçaram sobre a tarefa de compreender a memória –, o lembrar não é um relembrar as coisas conforme elas se sucederam; não é sentir a dor com a mesma intensidade do momento em que foi vivida; mas, o lembrar é trazer à superfície, alguma situação ou circunstância vivida em um momento ou lugar dado e, em um tempo do caminhar do indivíduo que se dispõe a lembrar, visto que “[...] a memória é uma faculdade individual”,  conforme postula Maurice Halbwach (1877-1945), já quase ao final do seu tratado sobre a “memória Coletiva” (2006, p. 119).

Algumas páginas antes, ele já assegura que

 

“[...], se a memória coletiva tira sua força e sua duração  por ter como base um conjunto de pessoas, são os indivíduos que se  lembram, enquanto integrantes do grupo. Desta massa de lembranças comuns, umas apoiadas nas outras, não são as mesmas que aparecerão com maior intensidade a cada um deles. De bom grado,  diríamos que cada memória individual é um ponto de vista sobre a  memória coletiva, que este ponto de vista muda segundo o lugar  que ali ocupo e que esse mesmo lugar muda segundo as relações  que mantenho com outros ambientes. [...].” (HALBOACH, 2006, p. 69).

 

Portanto, é com estes elementos teóricos tomados na devida conta, que se vem construindo os arrazoados que tem chegado ao crivo de argutos leitores que visitam este espaço. Neles, se vem discorrendo sobre as dificuldades que José Mário encontrara durante grande parte do seu intento em se licenciarem História, no que respeita ao seu acesso aos materiais propedêuticos de que tinha necessidade, a fim de fazer as leituras e a partir delas, acompanhar com alguma regularidade, as aulas. Algumas tentativas foram feitas para minimizar a defasagem que se tornava cada vez mais um obstáculo de difícil transposição, uma vez que, sem as leituras, era ainda mais difícil a compreensão e/ou a apreensão do que era ensinado pelos professores.

Diante do fracasso das iniciativas encetadas  para resolver o problema que, com o passar do tempo, acabava por se agravar, José Mário se sentia impotente diante daquele hiato que se interpunha entre ele e a instituição de ensino à qual estava vinculado, na medida em que aquela, quase lavara as mãos, alegando ter feito o que podia para resolver o imbróglio. Ele, por sua vez, passara a lançar mão da única ferramenta que lhe restava e, que poderia usar sem que lhe acarretasse custo: o chamado “modus esperneandi”, que consistia em comentar com alguns colegas que lhe fossem mais próximos, fazendo-lhes saber que havia grandes dificuldades para acompanhar o curso, em razão da instituição não empreender esforços para lhe prover de condições mínimas para tanto. Entre aqueles colegas, havia um que exercia o jornalismo em periódicos locais, o que resultou em reportagens de sua lavra, denunciando o descaso ou, quando menos, o pouco empenho da cúpula diretiva da FFPA, no sentido de prover àquele aluno reclamante, de algumas condições materiais efetivas e eficientes que lhe permitissem prosseguir no intento de integralizar a licenciatura em História. Aquele mesmo colega, conseguiu escrever uma reportagem a tal respeito, em um periódico que circulava na capital do Estado, talvez, acreditando que alguma autoridade com foro sobre a FFPA, ao ler aquela matéria, se “sensibilizasse” e, dependendo do seu interesse pelo caso, procurasse fazer com que alguma coisa viesse a ser feita, na prática.

Mas, nem é preciso dizer aos caros leitores, que aqueles esforços do repórter e as reclamações do estudante, em nada resultaram, no que respeita a alguma movimentação concreta das autoridades relacionadas ao setor, para que aquele discente pudesse dar curso ao seu intento. Diante da inércia das ditas autoridades, alguns colegas tomaram a iniciativa que, por fim, acabou por ter um papel importantíssimo na concretização do caminhar de José Mário, rumo à conclusão daquilo que fora iniciado com a aprovação no vestibular de 1986. Alguns dentre eles, resolveram que contratariam uma colega, estudante do curso de Estudos Sociais – que estava precisando de grana para se manter e, que José Mário sequer conhecia –, pagar-lhe-ia um salário e, ela faria as leituras, em um regime de trabalho de 20 horas semanais – regime aliás, que José Mário, sequer sabia como calcular –, tais tratativas correram em segredo, uma vez que, só depois de negociadas, decididas e acertadas com a “contratada”, foi então comunicado ao estudante que seria beneficiado pela iniciativa. Ele, entre surpreso e acanhado, recebera o gesto como quem é comunicado de enforcamento próximo. Mas, depois de ter vivido todo o processo, ele entendeu que aquele procedimento levado à cabo por aqueles que se deram ao trabalho de o fazer, acabou resolvendo assim, coletivamente e, sem participação dos agentes diretivos daquela instituição de ensino, aquele problema, modalidade que fora mantida e bancada por um variado grupo de colegas e, inclusive com participação de alguns professores, até o momento da sua colação de grau, em 1991.

 

Alagoinhas – 26 de abril de 2026 – Outono brasileiro – Quarenta anos depois da catástrofe nuclear de Chernobyl.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

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