JOSÉ MÁRIO NA GRADUAÇÃO – 10.
Ao longo dos arrazoados publicados no espaço gentilmente
visitado por seus generosos leitores, se procurou acompanhar o percurso feito
por José Mário, com o fito de perceber o amaranhado cipoal de situações e de
circunstâncias que moldaram o seu processo formativo no ensino superior, no que
respeita à construção necessária para que se pudesse forjar o profissional que,
em breve, ao menos se esperava, ingressaria na vida professoral. Este acompanhar
de percurso está lastreado em rememorares deste escrevedor, a partir das
camadas de memórias já sedimentadas em um passar de tempo, ainda que não muito
distante, embora já marcado por aquele passado que ainda teima em não passar
mas, ao contrário, se apresenta ao presente sob a evocação de quem lembra.
Estes lembrares, mesmo sujeitos às ressignificações inerentes ao trabalho da memória, estão presentes no processo de reconstrução do
passado no presente, ainda que de forma fragmentada, possibilitando a quem
lembra, mediante seleção do que lembrar, do que esquecer; do que falar, do que
silenciar, reunir em um escrito, aqueles “pedaços” de História..
Portanto, ao chegar nos dois últimos semestres do curso de
licenciatura em História, José Mário, já cursando as últimas disciplinas de
caráter propedêuticos e, teoricamente, sendo preparado para o estágio prático,
mediante regência de uma turma de alunos do ensino de segundo grau, momento em
que seria testado o que de fato aprendera e apreendera, sobretudo, no que diz
respeito ao ensino de História. Aliás, é preciso que se diga, José Mário não
teve a sorte de ser bem treinado na arte de “ensinar”, uma vez que a docente
com quem ele tivera de cursar aquela que seria a disciplina cujo elemento
fundamental, ao menos em tese, seria propiciar ao aluno, instrumentos teóricos
e metodológicos que lhe permitissem construir estratégias por meio das quais,
viesse a dominar a arte de transmitir aos seus futuros alunos, aquilo que estabelecesse
como meta a ser alcançada, ao final de cada aula: fazer com que o aluno que assistisse
a sua exposição do conteúdo proposto, conseguisse aprender e apreender o tema
apresentado. Ao invés disto, as aulas da professora responsável por ministrar a
“metodologia do Ensino da História” eram dominadas por conversações inúteis
sobre o que ela fazia nos seus outros espaços de atuação, negligenciando a exposição
e/ou discussão dos poucos textos indicados para as aulas. Cento e vinte horas
de uma matéria, embora importantíssima para a formação dos futuros professores,
simplesmente desperdiçadas, no que respeita à sua existência na grade curricular
do curso.
Ainda assim, concluída a matéria sem nada ter aprendido dela
e, por via de consequência, sem nada para apreender, no semestre seguinte,
haveria de entrar em sala de aula como regente, ao menos por uma unidade e,
assim foi. Tendo preparado o seu material e o seu plano de aula, quase à
revelia daquela mesma senhora, lançou-se ao estágio, como que às apalpadelas,
alcançando alguma receptividade dos seus alunos, apesar de tudo. E, como se não
bastasse, a dita professora de estágio, entra sorrateira na sala, sem aviso
prévio e, prevalecendo da impossibilidade daquele professor/estagiário de ver a
sua chegada, embora ele tenha percebido que uma pessoa estranha à aula, houvera
ingressado na sala. Depois, ela mesma contou, sem qualquer pejo e, acreditando
que houvera feito uma grande coisa, que houvera dado uma “grande cartada”, no
que tange ao método de avaliar – o que, aliás, este escrevedor entende ter sido
uma demonstração do seu desrespeito pelo “outro” –,que pedira aos alunos que
silenciasse a respeito do seu acesso ao espaço. Não contava ela que, tal
ingresso sorrateiro e desleal, fora percebido por José Mário, mediante o fato
de haver um silêncio como que “ensurdecedor” e, que a cidadã, fumante inveterada,
o que permitiu ao estagiário desconfiar de que, quem acabara de entrar naquele
ambiente, pudesse ser a sua professora de estágio supervisionado. Aquela
desconfiança, fizera com que ele parasse a exposição que fazia e, dirigindo-se
aos seus alunos temporários sobre se houvera entrado ali alguém que não algum
dos seus colegas, com o que eles assentiram, o que obrigou aquela víbora a se
apresentar. Claro que ela teria que visitar o seu aluno, para saber o que ele
estaria desenvolvendo em sala, estava em conformidade com o aprendido. Mas,
aprendido? O quê? Quando?, se ela nada ensinara? E, de mais a mais, ainda que o
estagiário não soubesse quando seria visitado, à chegada da dita, seria,
evidentemente, vista por ele, caso ele enxergasse, não é mesmo?
Mas, de qualquer sorte, fora este incidente lamentável, para
dizer o mínimo e uma greve de professores que lhe interrompeu o estágio,
deixando-o inconcluso, tudo correu com alguma tranquilidade, no que respeita ao
desenvolvimento do estágio, como um todo. No entanto, sob o ponto de vista de
José Mário, mesmo tendo tido uma avaliação que lhe permitiu a aprovação, ele
nada pôde acumular como experiência em termos de regência, visto a atividade ter
sido desenvolvida em um espaço curto de tempo e sem qualquer orientação
técnica, teórica e, menos ainda, metodológica. Ele fez aquele estágio, conforme
se salientou acima, às apalpadelas, tirando de onde não tinha nada posto;
elaborando as aulas, de acordo com aquilo que acreditava seria razoável nas
circunstâncias postas, uma vez que, fora o fato de ser uma turma de primeiro
ano de segundo Grau; não obstante a professora titular ser uma de suas colegas
e, lhe ter indicado o conjunto de conteúdos que costumava entregar, ele
procurou não “reinventar a roda”. E, de mais a mais, quando ele acreditava
estar encontrando o ponto de “fervura” adequado para seguir fazendo aquilo que
se propôs, rebenta um movimento grevista dos professores de Primeiro e Segundo
Graus, interrompendo assim o andar das coisas e, impedindo que o processo fosse
concluído.
Desta forma, apesar dos contratempos aqui relatados – além de
outros de menor monta, cuja exposição talvez nem fosse de bom alvitre –
terminado o semestre, sendo aquele o
último que se fazia necessário para que José Mário integralizasse toda a carga
de disciplinas elencadas na grade curricular do curso, tendo sido aprovado
naquela que a ele mais preocupara, dado a sua especificidade, conforme se viu,
para a qual ele não fora adequadamente preparado, só restava ingressar com o
pedido de colação de grau, o que foi feito. Assim, no longo mês de agosto de
1991, na presença dos demais colegas que cursaram o dito estágio, além do então
diretor da FFPA, bem como de professores do colegiado de História, José Mário
fechou o ciclo como discente, recebendo, enfim, o Grau de Licenciado em
História, estando, ao menos em tese, apto para exercer a docência, a partir
daquele momento.
Alagoinhas – 03 de maio de 2026 – outono brasileiro
Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com
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