domingo, 3 de maio de 2026

FRAGMENTOS DE MEMÓRIA PEDAÇOS DE HISTÓRIA - PARTE X.

 

JOSÉ MÁRIO NA GRADUAÇÃO – 10.

 

Ao longo dos arrazoados publicados no espaço gentilmente visitado por seus generosos leitores, se procurou acompanhar o percurso feito por José Mário, com o fito de perceber o amaranhado cipoal de situações e de circunstâncias que moldaram o seu processo formativo no ensino superior, no que respeita à construção necessária para que se pudesse forjar o profissional que, em breve, ao menos se esperava, ingressaria na vida professoral. Este acompanhar de percurso está lastreado em rememorares deste escrevedor, a partir das camadas de memórias já sedimentadas em um passar de tempo, ainda que não muito distante, embora já marcado por aquele passado que ainda teima em não passar mas, ao contrário, se apresenta ao presente sob a evocação de quem lembra. Estes lembrares, mesmo sujeitos às ressignificações inerentes  ao trabalho da memória,  estão presentes no processo de reconstrução do passado no presente, ainda que de forma fragmentada, possibilitando a quem lembra, mediante seleção do que lembrar, do que esquecer; do que falar, do que silenciar, reunir em um escrito, aqueles “pedaços” de História..

Portanto, ao chegar nos dois últimos semestres do curso de licenciatura em História, José Mário, já cursando as últimas disciplinas de caráter propedêuticos e, teoricamente, sendo preparado para o estágio prático, mediante regência de uma turma de alunos do ensino de segundo grau, momento em que seria testado o que de fato aprendera e apreendera, sobretudo, no que diz respeito ao ensino de História. Aliás, é preciso que se diga, José Mário não teve a sorte de ser bem treinado na arte de “ensinar”, uma vez que a docente com quem ele tivera de cursar aquela que seria a disciplina cujo elemento fundamental, ao menos em tese, seria propiciar ao aluno, instrumentos teóricos e metodológicos que lhe permitissem construir estratégias por meio das quais, viesse a dominar a arte de transmitir aos seus futuros alunos, aquilo que estabelecesse como meta a ser alcançada, ao final de cada aula: fazer com que o aluno que assistisse a sua exposição do conteúdo proposto, conseguisse aprender e apreender o tema apresentado. Ao invés disto, as aulas da professora responsável por ministrar a “metodologia do Ensino da História” eram dominadas por conversações inúteis sobre o que ela fazia nos seus outros espaços de atuação, negligenciando a exposição e/ou discussão dos poucos textos indicados para as aulas. Cento e vinte horas de uma matéria, embora importantíssima para a formação dos futuros professores, simplesmente desperdiçadas, no que respeita à sua existência na grade curricular do curso.

Ainda assim, concluída a matéria sem nada ter aprendido dela e, por via de consequência, sem nada para apreender, no semestre seguinte, haveria de entrar em sala de aula como regente, ao menos por uma unidade e, assim foi. Tendo preparado o seu material e o seu plano de aula, quase à revelia daquela mesma senhora, lançou-se ao estágio, como que às apalpadelas, alcançando alguma receptividade dos seus alunos, apesar de tudo. E, como se não bastasse, a dita professora de estágio, entra sorrateira na sala, sem aviso prévio e, prevalecendo da impossibilidade daquele professor/estagiário de ver a sua chegada, embora ele tenha percebido que uma pessoa estranha à aula, houvera ingressado na sala. Depois, ela mesma contou, sem qualquer pejo e, acreditando que houvera feito uma grande coisa, que houvera dado uma “grande cartada”, no que tange ao método de avaliar – o que, aliás, este escrevedor entende ter sido uma demonstração do seu desrespeito pelo “outro” –,que pedira aos alunos que silenciasse a respeito do seu acesso ao espaço. Não contava ela que, tal ingresso sorrateiro e desleal, fora percebido por José Mário, mediante o fato de haver um silêncio como que “ensurdecedor” e, que a cidadã, fumante inveterada, o que permitiu ao estagiário desconfiar de que, quem acabara de entrar naquele ambiente, pudesse ser a sua professora de estágio supervisionado. Aquela desconfiança, fizera com que ele parasse a exposição que fazia e, dirigindo-se aos seus alunos temporários sobre se houvera entrado ali alguém que não algum dos seus colegas, com o que eles assentiram, o que obrigou aquela víbora a se apresentar. Claro que ela teria que visitar o seu aluno, para saber o que ele estaria desenvolvendo em sala, estava em conformidade com o aprendido. Mas, aprendido? O quê? Quando?, se ela nada ensinara? E, de mais a mais, ainda que o estagiário não soubesse quando seria visitado, à chegada da dita, seria, evidentemente, vista por ele, caso ele enxergasse, não é mesmo?

Mas, de qualquer sorte, fora este incidente lamentável, para dizer o mínimo e uma greve de professores que lhe interrompeu o estágio, deixando-o inconcluso, tudo correu com alguma tranquilidade, no que respeita ao desenvolvimento do estágio, como um todo. No entanto, sob o ponto de vista de José Mário, mesmo tendo tido uma avaliação que lhe permitiu a aprovação, ele nada pôde acumular como experiência em termos de regência, visto a atividade ter sido desenvolvida em um espaço curto de tempo e sem qualquer orientação técnica, teórica e, menos ainda, metodológica. Ele fez aquele estágio, conforme se salientou acima, às apalpadelas, tirando de onde não tinha nada posto; elaborando as aulas, de acordo com aquilo que acreditava seria razoável nas circunstâncias postas, uma vez que, fora o fato de ser uma turma de primeiro ano de segundo Grau; não obstante a professora titular ser uma de suas colegas e, lhe ter indicado o conjunto de conteúdos que costumava entregar, ele procurou não “reinventar a roda”. E, de mais a mais, quando ele acreditava estar encontrando o ponto de “fervura” adequado para seguir fazendo aquilo que se propôs, rebenta um movimento grevista dos professores de Primeiro e Segundo Graus, interrompendo assim o andar das coisas e, impedindo que o processo fosse concluído.

Desta forma, apesar dos contratempos aqui relatados – além de outros de menor monta, cuja exposição talvez nem fosse de bom alvitre – terminado  o semestre, sendo aquele o último que se fazia necessário para que José Mário integralizasse toda a carga de disciplinas elencadas na grade curricular do curso, tendo sido aprovado naquela que a ele mais preocupara, dado a sua especificidade, conforme se viu, para a qual ele não fora adequadamente preparado, só restava ingressar com o pedido de colação de grau, o que foi feito. Assim, no longo mês de agosto de 1991, na presença dos demais colegas que cursaram o dito estágio, além do então diretor da FFPA, bem como de professores do colegiado de História, José Mário fechou o ciclo como discente, recebendo, enfim, o Grau de Licenciado em História, estando, ao menos em tese, apto para exercer a docência, a partir daquele momento.

 

Alagoinhas – 03 de maio de 2026 – outono brasileiro

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comente; quero saber o que você pensa!