domingo, 5 de abril de 2026

FRAGMENTOS DE MEMÓRIA, PEDAÇOS DE HISTÓRIA - PARTE VI.

 

 

JOSÉ MÁRIO NA GRADUAÇÃO – 6.

 

Em um prosear que já se tem estendido há algumas semanas, este escrevedor vem se valendo de fragmentos de memórias já bem recônditas para tentar reconstruir alguns pedaços de História do caminhar de José Mário pela graduação. A partir de tais fragmentos, se tem procurado refletir sobre um momento histórico dado, ligado a um tempo e a um conjunto dado de circunstâncias delimitadas ao seu espaço de percurso, aquela Alagoinhas que ainda não houvera ultrapassado os dez mil aparelhos telefônicos instalados; que ainda talvez não  contasse com mais de vinte mil automóveis circulando pelas suas ruas, ainda majoritariamente calçadas com paralelepípedos, tanto em suas ruas centrais, quanto nas periféricas, que eventualmente fossem pavimentadas; aquela Alagoinhas que contava com cerca de oito ou quiçá uma dezena de linhas de transporte coletivo, disponíveis  para atender a uma demanda formada majoritariamente por comerciários e estudantes de escolas públicas e privadas da segunda até a sexta feira, sendo o sábado até por volta das duas da tarde, utilizadas pelos munícipes em geral, na ida e, sobretudo no retorno da feitura da feira semanal, que, aliás, ainda estava instalada no centro da cidade. É neste sentido que em tais fragmentos de memória espacial, este garatujador tem bem claro o existir de espaços urbanos ainda pouco desenvolvidos no que tange à ocupação comercial e/ou residencial, como por exemplo, vastas áreas entre a rua Marechal Deodoro e a 21 de abril; entre a rua Liz Viana e a Coronel Filadepho Neves; entre a rua Dantas Bião e a região da “Igreja inacabada” – que começava a ser ocupada esparsamente pelos conjuntos “INOCOP” –, entre outras.

Era, portanto, a conformação da Alagoinhas encontrada pelo nascer do ano de 1987, conformação, aliás, que demorou cerca de dez anos para apresentar uma alteração significativa, visto que, naquele ano, estava em execução um projeto ousado de intervenção urbana, levado a efeito pela administração Municipal, que só passa a fazer sentir os seus efeitos por parte da população em geral, cinco ou dez anos mais tarde. Era, portanto, como se ia dizendo, o cenário espacial em que José Mário se movia em caminhadas entre os buracos produzidos para a implantação do sistema de esgotamento proposto pelo projeto “CURA”, apelidado carinhosamente pela oposição como “projeto Fura” e os demais buracos produzidos pela erosão da pavimentação em função de chuvas e da falta de manutenção por parte do poder público, como parte do seu esforço para chegar até o prédio onde funcionava a FFPA, para ali assistir as aulas, entrar em contato com os demais colegas e, principalmente, tentar se inserir no mecanismo de funcionamento daquela instituição de ensino. A partir daquele ano, saliente-se, todo o seu tempo era vivido naquele espaço, exceto as refeições – por não dispor de recursos para o fazer ali, no seu sistema de cantina – e o repouso noturno, que, via de regra, se dava por volta das onze, onze e meia da noite, quando então retornava para o seu local de residência.

Não sem razão, que nos rememorares deste escrevedor, há um “lugar de memória” em cada corredor, em cada sala, enfim, em cada canto de espaço daquele prédio no qual se encontram feixes de cinco anos ou mais de frequência e contato tátil e auditivo com aquele ambiente, cheio de alunos, professores e funcionários em suas movimentações e com os seus ruídos; ou vazio, estando apenas ele e os objetos que o compunham, sem ruídos e sem rumores de falas ou passos, para estudos solitários, para derramares de lágrimas de angústia por perceber o célere passar do tempo e a sua quase estagnação no transcurso do curso; para o vivenciar de sofrimentos indescritíveis em consonância com esforços hercúleos para compreender conceitos e princípios teóricos básicos, sem os quais jamais conseguiria dar os passos adiante, no sentido de compreender aquela História que se dispunha a apreender.

Mas enfim, março e o provável retomar do curso por parte de José Mário; todos os demais estudantes, inclusive, os aprovados para o ingresso naquele ano, estariam prontos para o “começar”. Estavam todos ansiosos pelo primeiro contato com os novos professores. No caso específico de José Mário, seria uma retomada de algumas disciplinas abandonadas no primeiro semestre, tais quais Sociologia, Introdução à História, Filosofia e, metodologia do Estudo e da Pesquisa, com isto, pretendendo recompor o elenco de disciplinas deixadas para trás. Para além da ansiedade de todos, corria nos bastidores/corredores da FFPA, a notícia de que haveria uma equipe de professores, inclusive oriundos da UFBA, atraídos que foram pelos bons salários que passariam a ser pagos a partir daquele ano, estipulados pelo governo que saíra derrotado do sufrágio havido há poucos meses. No entanto, todos acabaram frustrados em suas expectativas, visto que, fruto de uma queda de braços entre o novo governo que saíra eleito das urnas de 1986 e os representantes dos professores, resultara na deflagração de uma greve que, impedira o início das aulas, perdurando até praticamente o mês de julho, acarretando a perda total daquele primeiro semestre letivo de 1987, que sequer fora iniciado. O novo governo defendia que não conseguiria pagar aqueles salários majorados no apagar das luzes da administração anterior. Por sua vez, os professores se levantaram em favor da manutenção dos novos valores, acabando por produzir um impasse institucional, resolvido parcialmente com o prevalecer do entendimento da nova administração, resultando no fim da greve e retomada das atividades apenas em agosto, com um toque especial e folclórico de um dos novos contratados oriundo da UFBA que, ficara apenas por um semestre, se retirando do corpo docente da FFPA, sob a justificativa de que só ali estivera, atraído que fora pelo excelente salário oferecido. Não havendo mais o dito salário, o que quereria ele mais ali? E assim falou, assim ele fez. Diferentemente daquele professor, os demais se mantiveram no corpo docente da FFPA, embora insatisfeitos com os salários. Para José Mário, acabou se dando uma virada de página, uma vez que pôde se matricular em outras disciplinas em turnos diferentes, feito que o ajudaria a tirar um pouco do grande atraso na integralização do seu curso.

 

Alagoinhas – 05 de abril de 2026 – outono brasileiro

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comente; quero saber o que você pensa!