JOSÉ MÁRIO NA GRADUAÇÃO – 7.
Em mais um mergulho em espaços de memória já pretéritos, se
pretende trazer mais um lote de fragmentos extraídos de camadas de memória para
com eles, se tentar trazer mais alguns pedaços de história. Já são muitas as
camadas de sedimentos acumulados e, que escavados por quem lembra, reúne alguns
rememorares extraídos de um tempo que já vai remontando algumas décadas,
buscando refletir a partir do passado que se apresenta no presente de quem
garatuja estes arrazoares. Conforme já é cediço e se vem reforçando ao longo
destes rememorares, a memória trazida a público, além de sofrer a ressignificação
imposta pelo tempo e elo acúmulo de sedimentos que se vão depositando a partir
de interações com outros elementos do viver em sociedade, também se apresenta
como uma escolha de quem lembra, tendo o presente como elemento norteador
daquilo que é lembrado.
Portanto, é Nesta perspectiva da rememoração de um passado trazido
à público por meio das reflexões sobre mais alguns elementos constitutivos da
memória daquele que traceja estas linhas, que aqui se procurará evocar mais
alguns rememorares do processo formativo em que José Mário esteve inserido,
quando se procurava licenciar em História pela Faculdade de Formação de
Professores de Alagoinhas, ainda situada na esquina da Ruy Barbosa com a Elvira
Dórea, entre a residência das Farani e o Centro Traumatológico e Ortopédico
(CETRO). Portanto, dentro dos seus muros, muros que, aliás, permanecem os
mesmos e com as mesmas construções que foram feitas para atender a necessidade
de alocação de espaços de aula, cada pessoa que por lá passou em sua caminhada
rumo à formação acadêmica, pode, em geral, evocar inúmeras memórias naquele “lugar
de memória” por excelência. Embora já há muito tempo não mais funcione naquele
prédio a aludida faculdade, grande parte de tantos quantos por ali passaram,
certamente – a despeito de diversas alterações em sua configuração interna –, poderá
evocar lembrares que, aparentemente – e só aparentemente – estariam esquecidos.
Naquele prédio, muitos sorriram ao verem concluídos os seus caminhares; muitos
choraram, ao terem o seu caminhar retardado por reprovações, trancamentos e
outras razões as mais diversas; outros tantos se recrearam em alegres
confabulações e trocas simbólicas e, até mesmo afetivas; ali, foram feitas muitas
leituras prazerosas bem como outras tantas dolorosas, sobretudo, no que concerne
à compreensão de conceitos, teorias e concepções, tudo aquilo que se
apresentava como tarefas, muitas vezes penosas para aqueles que não possuíam
bases outras em que fossem fincados os fundamentos filosóficos e/ou
metodológicos que lhe permitissem a apreensão e a compreensão do que se lhe
cobrava ao longo do curso, como era o seu caso específico, conforme já se
discorreu em tratados anteriores.
Não obstante o transcorrer de uma longa greve de
professores, de acordo com o que se leu no arrazoado precedente, José Mário que
já houvera decidido retomar o curso e, dentro dos prazos regulamentares já
houvera feito a sua matrícula, a despeito do movimento paredista dos seus
docentes, se manteve em contato com os antigos e com os novos colegas – claro,
alguns deles; aqueles dos quais se aproximara, tanto no início do curso, quanto
no momento de retomada da matrícula, quando conhecera alguns dos que formariam
a nova turma –, sempre buscando manter-se informado de quando se daria a
retomada do caminhar, uma vez que os meios de comunicação mais importantes
naquele momento, silenciavam a respeito do movimento dos professores, talvez e,
aqui vai uma especulação, pelo fato da Uneb não ser uma instituição com visibilidade social, uma vez que era uma
Universidade Estadual, que mantinha cursos que não possuíam apelo econômico nem
prestígio político, muito menos, importância social. Em outras palavras, era
uma Universidade recente, que mantinha cursos de e para pobres, razão pela qual
a elite social e econômica do Estado, não exercia qualquer tipo de pressão,
quer sobre o Governo, quer sobre a instituição. Isto implicava em que ao rádio
e/ou à Televisão, pouco importava se haveria um acordo entre as partes que
resultasse na resolução do impasse, ou se o movimento se encaminharia para o enfraquecimento
pelo cansaço que, aliás, parece ter sido o que acabou por acontecer.
De tal modo, ele teve que proceder para que pudesse se
manter informado sobre o andamento do movimento docente, para não ter a desdita
de ser surpreendido pelo reinício das aulas, sem que estivesse devidamente
informado de que tal se deu ou que se daria em ocasião tal ou qual. De tais
interações, ele obteve do pessoal que atuava nos setores burocráticos da FFPA,
com os quais entabulara alguma relação, algumas valiosas informações que
ajudaram em um processo de reconfiguração do elenco de disciplinas que viria a
cursar, imediatamente após a retomada do semestre. Conforme já se disse, aquele
que transcorreria entre março e julho de 1987, acabou por ser cancelado por
conta do alongamento da greve – foi até junho ou julho –, o que possibilitou a
realização de reajustes no que respeita às matérias a cursar, no semestre que
iria recomeçar em agosto daquele ano. Já de posse de uma parte do material que
houvera sido entregue às “copistas voluntárias” quase um ano antes, José Mário
arriscou inserir mais algumas disciplinas em suas matrículas semestrais.
Tratava-se daquelas que eram comuns aos cursos de licenciatura, que poderiam
ser acompanhadas em outros turnos, em outros cursos que não o de História. Foi,
por exemplo, o caso das Psicologias e as demais que compunha o pacote das pedagógicas,
que ele cursou nas turmas de Biologia e de Letras, o que, já no fim da
caminhada, lhe valeu uma certa “recuperação” do tempo perdido com as
reprovações e o trancamento efetivado no segundo semestre.
Entretanto, ao ser retomado o semestre, nada havia mudado no
cenário que provocara toda aquela avalanche que levara José Mário a tomar
decisões extremas, ao ponto de cogitar abandonar tudo e voltar para o ponto
zero, conforme já se discorreu em publicações postadas neste mesmo espaço há
algumas semanas. A instituição, não obstante a simpatia do seu diretor, que
conhecia José Mário desde antes de se encontrarem naquele mesmo espaço, pouco
contribuíra para minimizar as dificuldades de acesso aos livros e textos
propostos pelas diversas disciplinas para com eles implementar o acúmulo do
saber acadêmico naquele aluno; algumas tentativas foram feitas, tais como a disponibilização
de funcionários para realização de leituras....; mas evidentemente não
funcionaria, uma vez que, os que estariam disponíveis, mal conheciam as letras
e, pior, mal as juntava para formar palavras, frases, orações, parágrafos. Sem
falar que, a pessoa colocada à disposição, muitas vezes não queria desempenhar
aquela tarefa; outras vezes, era aquele funcionário que nenhum dos setores
queria e, como havia um aluno que precisava, quem sabe, né? Ou seja: o tal
funcionário estava sendo obrigado a fazer uma caridade remunerada – emprestando os seus olhos (quase inúteis),
para quem não os possuía. É claro que aquilo jamais funcionaria; nem se quer
falar do volume de leitura que além de ser grande, pelo número de disciplinas
em que estava matriculado o dito aluno, a criatura não fazia ideia de como ler
aquilo – notas de rodapé ...; informação adicional de “aspas”, “parêntesis”...
nomes de autores; indicação de citação...; isto é: tudo aquilo que pudesse
contribuir para a compreensão de quem ouvia a leitura ou as leituras...; eram
textos acadêmicos, que exigia a compreensão do que ali estava sendo proposto;
compreensão e apreensão. Nem precisa dizer que, em geral, não se dava nem uma
coisa e nem outra.;
Alagoinhas – 12 de abril de 2026 – outono brasileiro
Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com
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