domingo, 8 de março de 2026

FRAGMENTOS DE MEMÓRIA, PEDAÇOS DE HISTÓRIA - PARTE II


JOSÉ MÁRIO NA GRADUAÇÃO – 2.

 

Dando vasão aos rememorares que se vem desenvolvendo neste espaço, fundamentado em fragmentos de memórias escavados de camadas de acúmulo profundo e largamente calcado em um tempo que já se faz distante, se pretende trazer mais estes garatujares nos quais, mais um pedaço de história do caminhar de José Mário pelas sendas da graduação poderá ser apreciado por quem ocupa um pouco do seu tempo para visitar e ler este espaço. Uma vez mais se faz necessário afirmar que a “memória social” é construída por meio dos fragmentos de memórias individuais e, que estas, estão sujeitas às escolhas do que lembrar, do que esquecer, do que silenciar. Aqui, já se Pôde notar que, a escolha feita por este que agora lembra, é a do “lembrar”, apesar de não ser um “lembrar” absoluto, visto que, estes lembrares estão determinados pelo presente, visto já ter havido o acúmulo de outras memórias que sobrepuseram àquelas que são trazidas à lume, sem, no entanto, neutralizar de todo o elemento “lembrado” mas, por vezes, o “lembrado” se apresenta impregnado de elementos do presente. Conforme sustenta Maurice Halbwachs (1877-1945), em obra publicada postumamente e, tornada célebre entre aqueles que se dedicaram ao desenvolvimento de estudos sobre a memória,

“[...], se a memória coletiva tira sua força e sua duração por ter como base um conjunto de pessoas, são os indivíduos que se lembram, enquanto integrantes do grupo. Desta massa de lembranças comuns, umas apoiadas nas outras, não são as mesmas que aparecerão com maior intensidade a cada um deles.[...].

 

Isto quereria dizer que, se fosse possível entrevistar alguns daqueles que foram colegas de José Mário, tomando parte das mesmas discussões havidas naquelas aulas e com aqueles professores, as lembranças fáticas até poderia ser as mesmas ou bem próximas; mas, o sentimento, as reações e os efeitos daquelas lembranças, inevitavelmente, não poderiam ser os sentidos uniformemente por todos; embora grande parte até possa se lembrar de episódios que se mostrassem fugidios à memória de quem se lembra, certamente, apenas alguns fragmentos estariam presentes na memória de grande parte daquele grupo. Deste raciocínio, decorre mais esta assertiva de Halbwachs que diz:

“[...], cada memória individual é um ponto de vista sobre a memória coletiva, que este ponto de vista muda segundo o lugar que ali ocupo e que esse mesmo lugar muda segundo as relações que mantenho com outros ambientes. Não é de surpreender que nem todos tirem o mesmo partido do instrumento comum. Quando tentamos explicar essa diversidade, sempre voltamos a uma combinação de influências que são todas de natureza social”. (HALBWACH, 2003, p. 69). 

 

 

Crê-se que aqui caberia a seguinte passagem extraída da já mencionada obra de Maurice Halbwachs, que diz  “[...].A sucessão de lembranças, mesmo as mais pessoais, sempre se explica pelas mudanças que se produzem em nossas relações com os diversos ambientes coletivos, ou seja, em definitivo,  pelas transformações desses ambientes, cada um tomado em separado, e em seu conjunto” (HALBWACH, 2006: P. 69).

 

Portanto, ainda envolto em um misto de euforia e medo, José Mário acompanha o desenrolar das primeiras semanas de aula, observando que a cada novo professor apresentado; a cada programa de disciplina explicado, ele se perguntava de si para consigo, como apreenderia todas aquelas propostas, se lhe eram inteiramente desconhecidas aquelas matérias, aqueles autores, aqueles temas; muitos deles ouvidos ali, pela primeira vez em sua vida; nem mesmo os livros que ele lera, jamais passara perto daquele emaranhado de conceitos, palavras; elementos todos novos para os seus ouvidos e, ainda não passados sob os seus dedos...; sim, caro leitor: no ano da Graça do Nosso Senhor Jesus Cristo, de 1986, José Mário nunca houvera tido um livro em Braille transcrito a partir da obra “Uma Introdução à História”, de Ciro Flamarion Cardoso; ou ”O Egito Antigo”, do mesmo autor, onde se pretendia que aquele aluno compreendesse o conceito de “Modo de Produção”, conceito aliás, cunhado pelo seu também desconhecido Karl Marx, nome que nunca houvera ouvido antes em seu viver estudantil, quando no segundo dia de aula , conforme já foi mencionado, um aluno indaga a razão daquele autor não estar presente no programa de disciplina que a docente acabara de apresentar.

Seguiram-se os dias, as semanas, os meses e, pouco a pouco, a euforia se esvaía para dar lugar à realidade, uma vez que, não obstante José Mário ter saído de seu lugar de habitação para se dirigir ao lugar de formação e lá assistir as aulas que aconteciam todas as noites de segunda a sexta-feira e as manhãs dos sábados, ele pouco ou nada absorvia, uma vez que, pouco ou nada conhecia daquilo que era apresentado pelos professores; uma vez que, obras, autores e circunstâncias e temas trazidos ao debate durante a execução do programa de ensino por parte dos professores, eram-lhe quase que inteiramente desconhecidos, ampliando ainda mais o fosso que o separava de grande parte dos colegas, que, ao contrário, não só absorviam o conteúdo apresentado, como participavam ativamente dos debates, acalorados em boa parte das vezes, fazendo com que José Mário se sentisse deslocado, completamente deslocado daquele ambiente de efervescência intelectual que se lhe apresentava distante ao seu espírito, pouco afeito àquele tipo de movimento envolvendo professores e alunos.

Mas, então, qual era o problema que o impedia de envolver-se com os temas e os debates a eles relacionados? Ah!, o problema era o mesmo que já enfrentara em etapas anteriores do seu processo formativo. Tratava-se do acesso ao material bibliográfico disponibilizado ao corpo discente, para que, realizando as leituras previamente indicadas, lançando mão de obras outras que pudesse auxiliar na compreensão daquilo que ora lia, pudesse enfim, formular as questões ou mesmo, apontar as dúvidas que insistissem em permanecer, para levar às aulas e alimentar as discussões propostas pelos professores, ou levantadas por outros elementos constitutivos do corpo discente, tornando as aulas movimentadas e produtivas. Ali, ele começava a perceber que, cursar doze matérias em aproximadamente oito meses, se tornava mais fácil do que cursar seis em cerca de quatro meses. Algumas vezes, quase engolfado pela total inexistência de material em Braille que lhe permitisse aceder aos textos propostos pelos seis professores daquele primeiro semestre, recorrera ao seu irmão e a algumas outras pessoas, no sentido de fazerem leituras para que ele mesmo copiasse em Braille e, pudesse ler um pouco do muito que era cobrado pelo fazer acadêmico.

No entanto, José Mário logo sofreu o choque de realidade, ao perceber que, de modo algum, quaisquer atos voluntários seriam suficientes para enfrentar o desafio que se lhe opunha a empreitada. A sua professora de História Antiga, por exemplo, se voluntariou para gravar alguns textos que ela utilizaria em suas aulas. Mas, ela não o poderia fazer com os demais textos e obras por ela mesma propostos, uma vez que tal esforço, demandaria tempo e energia que, certamente, ainda que estivesse disposta, ela não teria, sob pena de desorganizar a sua vida pessoal e profissional. O voluntarismo, nestes e, crê este garatujador, em outros casos, embora minimize bastante a dificuldade em aceder obras e textos – no caso de leitura da pessoa cega –, não consegue resolver o problema crônico do déficit de leitura, sobretudo, aquela leitura demandada por um curso de graduação, que exige do discente não só a leitura dos textos, como também, a absorção do seu conteúdo que, inclusive, implica na realização de resumos, resenhas, fichamentos que, por sua vez, exige citação de passagens do texto ou livro, requerendo escrita correta do nome do autor, por exemplo. Como fazer tudo isto, se o meio de leitura foi uma fita cassete? E, para complicar um pouco mais, eram seis as matérias a serem cursadas; eram, ao menos, seis grupos de textos/obras que precisavam ser acessadas e, naquele momento, caso houvesse quem o fizesse, por meio de gravações, que exigiam boa entonação de leitura, boa pontuação; disposição tempo e, remuneração. José Mário sequer dispunha de algum meio para fazer funcionar tudo isto; tal só poderia se dar por meio do concurso da instituição. Quiçá, não fora este o motivo da tal reunião da comissão de vestibular, da qual se tratou em outra ocasião, ocorrida quando o senhor José Mário se apresentou para fazer a inscrição no vestibular?

 

Alagoinhas – 08 de março de 2025 – verão brasileiro

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

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