JOSÉ MÁRIO NA GRADUAÇÃO – 2.
Dando vasão aos rememorares que se vem desenvolvendo neste espaço,
fundamentado em fragmentos de memórias escavados de camadas de acúmulo profundo
e largamente calcado em um tempo que já se faz distante, se pretende trazer mais
estes garatujares nos quais, mais um pedaço de história do caminhar de José
Mário pelas sendas da graduação poderá ser apreciado por quem ocupa um pouco do
seu tempo para visitar e ler este espaço. Uma vez mais se faz necessário
afirmar que a “memória social” é construída por meio dos fragmentos de memórias
individuais e, que estas, estão sujeitas às escolhas do que lembrar, do que
esquecer, do que silenciar. Aqui, já se Pôde notar que, a escolha feita por
este que agora lembra, é a do “lembrar”, apesar de não ser um “lembrar”
absoluto, visto que, estes lembrares estão determinados pelo presente, visto já
ter havido o acúmulo de outras memórias que sobrepuseram àquelas que são
trazidas à lume, sem, no entanto, neutralizar de todo o elemento “lembrado”
mas, por vezes, o “lembrado” se apresenta impregnado de elementos do presente.
Conforme sustenta Maurice Halbwachs (1877-1945), em obra publicada postumamente
e, tornada célebre entre aqueles que se dedicaram ao desenvolvimento de estudos
sobre a memória,
“[...], se a memória coletiva
tira sua força e sua duração por ter como base um conjunto de pessoas, são os
indivíduos que se lembram, enquanto integrantes do grupo. Desta massa de
lembranças comuns, umas apoiadas nas outras, não são as mesmas que aparecerão
com maior intensidade a cada um deles.[...].
Isto
quereria dizer que, se fosse possível entrevistar alguns daqueles que foram
colegas de José Mário, tomando parte das mesmas discussões havidas naquelas aulas
e com aqueles professores, as lembranças fáticas até poderia ser as mesmas ou
bem próximas; mas, o sentimento, as reações e os efeitos daquelas lembranças,
inevitavelmente, não poderiam ser os sentidos uniformemente por todos; embora
grande parte até possa se lembrar de episódios que se mostrassem fugidios à
memória de quem se lembra, certamente, apenas alguns fragmentos estariam
presentes na memória de grande parte daquele grupo. Deste raciocínio, decorre
mais esta assertiva de Halbwachs que diz:
“[...],
cada memória individual é um ponto de vista sobre a memória coletiva, que este
ponto de vista muda segundo o lugar que ali ocupo e que esse mesmo lugar muda
segundo as relações que mantenho com outros ambientes. Não é de surpreender que
nem todos tirem o mesmo partido do instrumento comum. Quando tentamos explicar
essa diversidade, sempre voltamos a uma combinação de influências que são todas
de natureza social”. (HALBWACH, 2003, p. 69).
Crê-se
que aqui caberia a seguinte passagem extraída da já mencionada obra de Maurice
Halbwachs, que diz “[...].A sucessão de lembranças, mesmo as mais
pessoais, sempre se explica pelas mudanças que se produzem em nossas relações
com os diversos ambientes coletivos, ou seja, em definitivo, pelas
transformações desses ambientes, cada um tomado em separado, e em seu conjunto”
(HALBWACH, 2006: P. 69).
Portanto, ainda envolto em um misto de euforia e medo, José
Mário acompanha o desenrolar das primeiras semanas de aula, observando que a
cada novo professor apresentado; a cada programa de disciplina explicado, ele
se perguntava de si para consigo, como apreenderia todas aquelas propostas, se
lhe eram inteiramente desconhecidas aquelas matérias, aqueles autores, aqueles
temas; muitos deles ouvidos ali, pela primeira vez em sua vida; nem mesmo os
livros que ele lera, jamais passara perto daquele emaranhado de conceitos,
palavras; elementos todos novos para os seus ouvidos e, ainda não passados sob
os seus dedos...; sim, caro leitor: no ano da Graça do Nosso Senhor Jesus
Cristo, de 1986, José Mário nunca houvera tido um livro em Braille transcrito a
partir da obra “Uma Introdução à História”, de Ciro Flamarion Cardoso; ou ”O
Egito Antigo”, do mesmo autor, onde se pretendia que aquele aluno compreendesse
o conceito de “Modo de Produção”, conceito aliás, cunhado pelo seu também
desconhecido Karl Marx, nome que nunca houvera ouvido antes em seu viver
estudantil, quando no segundo dia de aula , conforme já foi mencionado, um
aluno indaga a razão daquele autor não estar presente no programa de disciplina
que a docente acabara de apresentar.
Seguiram-se os dias, as semanas, os meses e, pouco a pouco,
a euforia se esvaía para dar lugar à realidade, uma vez que, não obstante José Mário
ter saído de seu lugar de habitação para se dirigir ao lugar de formação e lá
assistir as aulas que aconteciam todas as noites de segunda a sexta-feira e as
manhãs dos sábados, ele pouco ou nada absorvia, uma vez que, pouco ou nada
conhecia daquilo que era apresentado pelos professores; uma vez que, obras,
autores e circunstâncias e temas trazidos ao debate durante a execução do
programa de ensino por parte dos professores, eram-lhe quase que inteiramente
desconhecidos, ampliando ainda mais o fosso que o separava de grande parte dos
colegas, que, ao contrário, não só absorviam o conteúdo apresentado, como
participavam ativamente dos debates, acalorados em boa parte das vezes, fazendo
com que José Mário se sentisse deslocado, completamente deslocado daquele
ambiente de efervescência intelectual que se lhe apresentava distante ao seu
espírito, pouco afeito àquele tipo de movimento envolvendo professores e
alunos.
Mas, então, qual era o problema que o impedia de envolver-se
com os temas e os debates a eles relacionados? Ah!, o problema era o mesmo que
já enfrentara em etapas anteriores do seu processo formativo. Tratava-se do
acesso ao material bibliográfico disponibilizado ao corpo discente, para que, realizando
as leituras previamente indicadas, lançando mão de obras outras que pudesse
auxiliar na compreensão daquilo que ora lia, pudesse enfim, formular as
questões ou mesmo, apontar as dúvidas que insistissem em permanecer, para levar
às aulas e alimentar as discussões propostas pelos professores, ou levantadas por
outros elementos constitutivos do corpo discente, tornando as aulas
movimentadas e produtivas. Ali, ele começava a perceber que, cursar doze
matérias em aproximadamente oito meses, se tornava mais fácil do que cursar
seis em cerca de quatro meses. Algumas vezes, quase engolfado pela total inexistência
de material em Braille que lhe permitisse aceder aos textos propostos pelos
seis professores daquele primeiro semestre, recorrera ao seu irmão e a algumas
outras pessoas, no sentido de fazerem leituras para que ele mesmo copiasse em
Braille e, pudesse ler um pouco do muito que era cobrado pelo fazer acadêmico.
No entanto, José Mário logo sofreu o choque de realidade, ao
perceber que, de modo algum, quaisquer atos voluntários seriam suficientes para
enfrentar o desafio que se lhe opunha a empreitada. A sua professora de
História Antiga, por exemplo, se voluntariou para gravar alguns textos que ela
utilizaria em suas aulas. Mas, ela não o poderia fazer com os demais textos e
obras por ela mesma propostos, uma vez que tal esforço, demandaria tempo e
energia que, certamente, ainda que estivesse disposta, ela não teria, sob pena
de desorganizar a sua vida pessoal e profissional. O voluntarismo, nestes e,
crê este garatujador, em outros casos, embora minimize bastante a dificuldade
em aceder obras e textos – no caso de leitura da pessoa cega –, não consegue
resolver o problema crônico do déficit de leitura, sobretudo, aquela leitura demandada
por um curso de graduação, que exige do discente não só a leitura dos textos,
como também, a absorção do seu conteúdo que, inclusive, implica na realização
de resumos, resenhas, fichamentos que, por sua vez, exige citação de passagens
do texto ou livro, requerendo escrita correta do nome do autor, por exemplo.
Como fazer tudo isto, se o meio de leitura foi uma fita cassete? E, para
complicar um pouco mais, eram seis as matérias a serem cursadas; eram, ao
menos, seis grupos de textos/obras que precisavam ser acessadas e, naquele
momento, caso houvesse quem o fizesse, por meio de gravações, que exigiam boa entonação
de leitura, boa pontuação; disposição tempo e, remuneração. José Mário sequer
dispunha de algum meio para fazer funcionar tudo isto; tal só poderia se dar
por meio do concurso da instituição. Quiçá, não fora este o motivo da tal
reunião da comissão de vestibular, da qual se tratou em outra ocasião, ocorrida
quando o senhor José Mário se apresentou para fazer a inscrição no vestibular?
Alagoinhas – 08 de março de 2025 – verão brasileiro
Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com
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