domingo, 15 de março de 2026

FRAGMENTOS DE MEMÓRIA, PEDAÇOS DE HISTÓRIA - PARTE III

JOSÉ MÁRIO NA GRADUAÇÃO – 3.

 

O arrazoado que ora se inicia, tal qual os demais já desenvolvidos, tem como principal lastro, a memória daquele que o  escreve. Memória que, conforme já é cediço, tem no presente os elementos do passado que pretende evocar. Assim sendo, ao recorrer às camadas de lembranças já há muito recobertas pelo passar do tempo e pelo acúmulo de outros lembrares, o seu evocar, muitas vezes requer algum esforço para organizar os fragmentos extraídos de escavações realizadas em camadas espessas e já sedimentadas de um passado que insiste em não passar. Embora os rememorares não se prestem a trazer à lume as coisas como de fato se deram, ao menos, por conta dos acúmulos de tantos eventos posteriores e, sobretudo, com a percepção do que e o conhecimento – ou o efetivo vivenciar – daquilo que se veio a viver posteriormente, eles remetem ao passado, mediado pelo presente, com a possibilidade de serem rememorares eivados de reflexões que ajudem a consolidar como sendo uma memória que veio sendo construída até ao ponto de ser transmitida para tantos quantos delas venham a ter conhecimento.

A exposição anterior foi concluída com a formulação de um postulado construído sobre o lastro das dificuldades enfrentadas por José Mário, no que tange tanto ao seu desempenho acadêmico propriamente dito, quanto à obtenção dos meios através dos quais ele tomaria contato com os processos de leitura e posterior reflexão em torno dos textos e/ou obras que lhe possibilitariam acompanhar as aulas, submeter-se às avaliações e, por fim, ter aferido, adequadamente, o nível de aprendizagem que conseguira – ou não – alcançar, ao final dos semestres, resultando em aprovação ou reprovação, em cada uma das disciplinas cursadas. Tal postulado inferia que aquele aluno não dispunha de meios para resolver aquele conjunto de dificuldades de per si, a menos que houvesse ação efetiva da instituição, com o fito de propiciar algumas condições que permitisse – ao menos em parte – mitigar aqueles pontos de gargalo que entravava, para não dizer impedia, o curso normal do caminhar  daquele discente, no sentido de lhe permitir as condições mínimas de acesso ao material bibliográfico proposto por cada um dos professores responsáveis pela ministração das disciplinas que José Mário viesse a cursar.

A referida proposição sempre esteve muito claramente estruturada nos cismares de José Mário, embora, de modo igualmente claro, também ele sempre estivera resistente à presença de alguém que, conforme pensava, pudesse vir a limitar, de alguma forma ou por algum meio, o atendimento às suas necessidades, sem nem mesmo considerar que, ainda que de forma mínima, já seria um pequeno ganho, diante do fosso que se interpunha entre ele e as suas reais condições e, por conseguinte, as suas necessidades de acesso ao amplo conjunto de leituras que precisaria fazer para obter algum acúmulo que lhe permitisse uma aproximação aos seus demais colegas, no que respeita ao rendimento acadêmico de que precisava para continuar a sonhar em se tornar um licenciado em História.

Mas, infelizmente, a resistência e a desconfiança na participação institucional no seu processo formativo, não tardou em se apresentar conforme ele já houvera como que vaticinado. O primeiro efeito de sua suspeita, materializada na falta daquele apoio institucional e, que ao final do primeiro semestre, demonstrara o efeito de sua falta, se evidenciou no resultado obtido por ele, naquele e no semestre seguinte. Ao perceber que não conseguiria dar conta das seis disciplinas que iniciara por conta da obrigatoriedade de obter um conceito mínimo de 07, para alcançar a aprovação em cada uma delas, muito a contragosto, acabou por abandonar quatro delas, portanto, sendo reprovado por falta; seguindo em duas, tendo de fazer prova final para não perder o prerrequisito, o que implicaria em mais desorganização para os semestres seguintes – sendo aprovado – e, obtendo aprovação em Língua Portuguesa, talvez ainda lastreado nas aulas que o preparara para a realização do vestibular, como que, salvara uma parte do primeiro semestre, que, em alguns momentos ele dera por perdido.

O segundo efeito da inexistência de ações institucionais efetivas que visassem minimizar a grande distância que se interpunha entre aquele aluno e a ampla gama de leituras que não conseguiria realizar, se fez sentir já no início do segundo semestre, quando se matriculou nas disciplinas que pôde, sobretudo, aquela que era prerrequisito – História Medieval 1 –, ele logo se apercebera que o problema vivenciado no primeiro semestre se apresentaria ainda mais complexo, visto que, até o momento em que o professor da referida disciplina marcou a primeira prova e, que ela seria feita mediante consulta, ele caiu em si e pergunto, de si para consigo:

- Consultar o que? Como, se não dispunha de um único texto, nem copiado na reglete e, se tal consulta se daria nos diversos textos indicados, apresentados e explicados pelo professor?

Tendo entabulado conversas com colegas e professores mais próximos, com o fito de encontrar alguma maneira de sair daquele impasse e, evidentemente, sem encontrar saída que não passasse pela participação da instituição; depois de algumas ideias trocadas com o então diretor da Faculdade de Formação de Professores, o professor Jamim Nascimento e Silva – in memoriam – (um senhor alto, de fala pausada e com voz envolvente, que acabaria por ser classificado por José Mário como sendo “mais locutor de FM, do que diretor de uma instituição de ensino”), conversas quase sempre estéreis; depois de algumas reflexões feitas de si para consigo, José Mário acabou por tomar uma decisão extrema, sobretudo para ele, cujo temperamento não admitia recuos ou desistências, que consistiu em abandonar a aventura acadêmica que, para ele, já era dada como fracassada e, tentar partir para a cidade de São Paulo, na tentativa de voltar ao mercado de trabalho, para o qual precisaria se readequar, pois, naquele momento, a alternativa mais viável para os cegos, era a atividade de “câmara escura”. E assim ele o fizera, tendo mesmo ido para São Paulo e, quase se inserira em uma vaga em um laboratório de fotografia – para o que, segundo o colega que lhe dissera haver a tal vaga, ele seria treinado – cujo horário de atuação seria das 22 às cinco da manhã, o que lhe daria um ganho extra em relação ao salário, o adicional noturno. Tal só não se efetivou, pelo fato de ter havido um recadastramento eleitoral nacional e, o baiano ainda não havia recebido o seu novo título de eleitor, sem o qual, não poderia se apresentar como candidato à vaga de trabalho.

Entretanto, José Mário não dera este passo arriscado, sem ouvir a ponderação do professor Jamim que, lhe propusera que não abandonasse simplesmente o curso mas, que, usasse a prerrogativa que lhe conferia o uso do instrumento que evitaria a perda definitiva da vaga obtida por meio do vestibular: o trancamento da matrícula, que se daria por até dois anos, tempo em que ele, se quisesse, poderia retomar o curso. E, diante de mais um fracasso na tentativa de voltar ao mercado de trabalho, como trabalhador não especializado – que aliás, não muito tempo depois, as tais vagas para atuar em câmara escura, se reduziram drasticamente –, no ano seguinte, José Mário acaba por retomar a sua matrícula e, recomeçar o primeiro semestre na turma que entrou logo em seguida àquela que ele fizera parte inicialmente. A partir de então, o debate que envolveu aquele estudante e as suas dificuldades em tomar contato com as leituras propostas pelos professores, acaba por ganhar novos contornos, uma vez que, entre ele e o caminhar acadêmico, estava a instituição e, o seu papel no destravar as estradas pelas quais ele precisaria passar, para enfim, chegar ao fim que deve perseguir todo aquele que inicia uma jornada: a sua conclusão.

 

Alagoinhas – 15 de março de 2026 – verão brasileiro.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

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