segunda-feira, 6 de julho de 2026

FRAGMENTOS DE MEMÓRIA PEDAÇOS DE HISTÓRIA - PARTE XIX.

 

Enfim, graduado – Os concursos – III.


Ao desenvolver as últimas linhas do escrito anterior, o paciente leitor foi deixado a perceber o quanto José Mário ainda teria que se embater contra as vicissitudes inerentes à organização dos concursos públicos que, conforme já se disse, chegava para “despolitizar” o acesso ao serviço estatal de carreira, mormente, àquela relacionada com o ensino público, em tese, tirando das mãos de parlamentares e/ou outras lideranças políticas locais e regionais, a prerrogativa de indicar para os postos de seus interesses, aqueles que fossem seus apadrinhados e, sobretudo, aqueles que lhes devessem lealdade na capitação e na destinação dos votos que lhes garantisse o longo ciclo de eleições, que garantiria o domínio da coisa pública por si e por aqueles que formassem o circulo político em seu entorno. .

Malgrado o advento daquele instituto que prometia uma certa isonomia de acesso aos diversos postos existentes no alargado organograma do serviço público, ao que parece, as elites dirigentes encontraram maneiras de se proteger de uma provável sangria dos seus interesses corporativos, reorientando a burocracia encarregada de (des)organizar os certames que visassem admitir outros elementos no serviço público e, para piorar, também gozando de estabilidade, a tarefa de os tornar quase impermeáveis à tantos quantos buscassem fazer parte daquela horda de gente maiúscula e, até ali intocáveis, que já se empoleirara nos diversos escaninhos distribuídos pelos diversos setores inseridos no dito organograma. Desta forma, caberia aos elaboradores de critérios e contracritérios para o ingresso no setor, criar o maior número de dificuldades que pudessem, sem, contudo, deixar transparecer se tratar de elementos impeditivos de ingresso de novos postulantes às vagas presumivelmente abertas para quantos fossem capazes de as preencher. Com a pretensa intensão de “selecionar os melhores”, criavam na verdade, obstáculos com o fito de impedir que as suas gentes não fossem aquelas que ocupariam as vagas postas em disputas.

As elites políticas locais, regionais, estaduais ou nacionais, jamais se permitiriam deixar escapar de suas vastas capoeiras, as “galinhas dos ovos de ouro”, visto estarem nelas a mais consistente, perene e abundante fonte de votos que, em última análise, é o combustível que move o interesse político. Assim, como é cediço, por meio da posse e do controle deste contingente de votantes e de agenciadores de um número expressivo de votos, são pavimentados os caminhos de um carreirismo marcado pela obtenção de mandatos que se sucedem, quase ininterruptamente, até que aquele sempre eleito aponte o seu sucessor, antes ou depois de morrer, algumas vezes, no exercício de algum cargo eletivo, em alguma das instâncias de poder.

Portanto, o concurso público se apresenta para aqueles que não dispunham de apadrinhamentos, compadrios ou quaisquer outras modalidades de personalismos politicamente conduzidos, como se fora uma espécie de instituto democratizador do acesso ao serviço público e à estabilidade funcional que seria adquirida após uma espécie de experiência, eufemisticamente denominada estágio probatório. Esperava-se, portanto, que por meio daquele tipo de certame seletivo, qualquer pessoa, de qualquer origem social, que não dispusesse de quaisquer outros recursos que não a formação profissional, se poderia fazer aprovar para o ingresso no  serviço público, no caso específico de José Mário, seria o meio impessoal através do qual se faria professor, em qualquer dos níveis do exercício da docência.

Mas, conforme se pôde perceber no arrazoado anterior, aquele primeiro exame a que se submetera em sua empreitada no que tange à participação em concursos públicos, se mostrou um exemplo daquilo que não deveria ser um certame que pretendia selecionar aqueles que houvesse tido um desempenho acima de uma determinada média e, que ao longo dos anos, se tornou um modo de se realizar seleções públicas, ao menos em geral, considerando-se aquilo que se fez notar nos anos que se seguiram, quando os processos passaram a contar com um grande número de “empresas” especializadas em desenvolver os processos seletivos de tal natureza. Daí à proliferação de cursos preparatórios para as avaliações públicas voltadas para as mais diversas áreas de atuação no Estado, sobretudo, aquelas mais disputadas, tanto no que tange ao prestígio que daria àquele que as ocupasse, quanto no que tange aos bons salários que viessem a pagar. Nos tais cursos preparatórios  se enraizava o oferecimento de macetes, dicas, orientações de como proceder no momento de responder a tais ou quais tipos de questões, em tais ou quais áreas do conhecimento que mais pesariam neste ou naquele tipo de avaliação, que, nem é preciso dizer, elevou enormemente o ganho monetário de tantos quantos tiveram a ideia de urdir, de elaborar, de formatar, de vender, de divulgar e ministrar os tais cursos.

No que respeita José Mário, cabe salientar de passagem, que ele não possuía quaisquer fundamentos para levantar os óbices acima indicados, uma vez que, conforme o leitor já sabe, tratava-se de um sujeito ingênuo, crédulo nas pessoas e, principalmente, nas instituições democratizadoras do acesso ao serviço do Estado e, mesmo tendo sido prejudicado grandemente naquele que fora a sua primeira experiência em tal tipo de processo seletivo, ele não creditava os percalços que vivenciara, a qualquer pessoa ou mesmo setor de algum órgão responsável pela parte burocrática do certame. O tempo porém, ah, o tempo, fê-lo começar a desconfiar de tudo aquilo, pois, é certo,os tentáculos,as engrenagens os interesses – políticos, sociais, econômicos e, principalmente de classe – envolvidos na ocupação dos cargos públicos, passaram a ser percebidos por ele em etapas outras do seu caminhar.

Assim pensando, ao entender que aquele concurso ele fizera apenas para não sair de mãos abanando, pois, diante do que já foi relatado, o revés era líquido e certo, ele passara a pensar no que fazer dali para diante, uma vez que o próximo concurso ainda precisaria esperar alguns anos, só vindo a ser realizado cerca de seis ou sete anos após aquele que acabara de perder.

Portanto, era preciso recolher os cacos e, retomar um roteiro já iniciado, visando mais e melhor se preparar para avançar em outras direções. Começara a circular insistentes boatos que a FFPA estaria para realizar um concurso para História Contemporânea e, ato contínuo, passou ele a levantar bibliografia e, buscar meios para ter acesso a elas, mediante a contratação de ledor fixo, ou a procura de ledores voluntários para que pudesse dar cabo ao projeto.

Assim pensando, José Mário foi a campo e, respaldado na experiência que ensejou viabilizar o seu processo de conclusão da graduação, ele procurou o grupo que anteriormente se cotizara para levantar os recursos necessários para a contratação de alguém que lhe pudesse prestar serviço como ledor. Foi desta maneira que ele reagrupou as pessoas que contribuíram naquela ocasião e, agregou mais algumas, até que conseguiu integralizar o  numerário equivalente ao salário mínimo vigente em 1993, o que lhe deu a possibilidade de contratar uma excelente ledora que por sorte fora indicada por um dos contribuintes para a cotização. Com isto, José Mário conseguiu ler uma boa parte daquela bibliografia que não lhe fora possível enfrentar durante a graduação e, procurou com isto, se preparar para mais um conjunto de batalhas que enfrentaria dali até o ano em que logrou se fazer aprovar em um concurso para docente no ensino superior. Neste campo do acesso à leitura, há que se fazer uma menção honrosa a um seu colega de turma, Jairo Trindade, ledor voluntário que se prontificou a fazer algumas valiosas inserções em diversas obras acadêmicas para José Mário, o que lhe foi bastante singular, no que tange ao acesso da bibliografia proposta para a elaboração do seu projeto de seleção de mestrado, bem como, permitiu algumas leituras muitíssimo úteis para a realização da prova teórica inerente àquela seleção.

Assim, entre 1994 e 1996, José Mário enfrentaria duas seleções para ingresso no Mestrado, além de mais quatro concursos para docente do ensino superior, sendo um na Uefs (Universidade Estadual de Feira de Santana) e outros três na Uneb, sendo um para Alagoinhas, confirmando assim o boato que correra largamente e, outros dois para o campus de Caetité.

 

Alagoinhas/Salvador – 05 de julho de 2026 – inverno brasileiro

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com