Enfim, graduado – Os concursos – III.
Ao desenvolver as últimas linhas do escrito anterior, o paciente leitor foi deixado a perceber o quanto José Mário ainda teria que se embater contra as vicissitudes inerentes à organização dos concursos públicos que, conforme já se disse, chegava para “despolitizar” o acesso ao serviço estatal de carreira, mormente, àquela relacionada com o ensino público, em tese, tirando das mãos de parlamentares e/ou outras lideranças políticas locais e regionais, a prerrogativa de indicar para os postos de seus interesses, aqueles que fossem seus apadrinhados e, sobretudo, aqueles que lhes devessem lealdade na capitação e na destinação dos votos que lhes garantisse o longo ciclo de eleições, que garantiria o domínio da coisa pública por si e por aqueles que formassem o circulo político em seu entorno. .
Malgrado o advento daquele instituto que prometia uma certa
isonomia de acesso aos diversos postos existentes no alargado organograma do
serviço público, ao que parece, as elites dirigentes encontraram maneiras de se
proteger de uma provável sangria dos seus interesses corporativos, reorientando
a burocracia encarregada de (des)organizar os certames que visassem admitir
outros elementos no serviço público e, para piorar, também gozando de
estabilidade, a tarefa de os tornar quase impermeáveis à tantos quantos
buscassem fazer parte daquela horda de gente maiúscula e, até ali intocáveis, que
já se empoleirara nos diversos escaninhos distribuídos pelos diversos setores
inseridos no dito organograma. Desta forma, caberia aos elaboradores de
critérios e contracritérios para o ingresso no setor, criar o maior número de
dificuldades que pudessem, sem, contudo, deixar transparecer se tratar de
elementos impeditivos de ingresso de novos postulantes às vagas presumivelmente
abertas para quantos fossem capazes de as preencher. Com a pretensa intensão de
“selecionar os melhores”, criavam na verdade, obstáculos com o fito de impedir
que as suas gentes não fossem aquelas que ocupariam as vagas postas em disputas.
As elites políticas locais, regionais, estaduais ou
nacionais, jamais se permitiriam deixar escapar de suas vastas capoeiras, as
“galinhas dos ovos de ouro”, visto estarem nelas a mais consistente, perene e
abundante fonte de votos que, em última análise, é o combustível que move o
interesse político. Assim, como é cediço, por meio da posse e do controle deste
contingente de votantes e de agenciadores de um número expressivo de votos, são
pavimentados os caminhos de um carreirismo marcado pela obtenção de mandatos
que se sucedem, quase ininterruptamente, até que aquele sempre eleito aponte o
seu sucessor, antes ou depois de morrer, algumas vezes, no exercício de algum
cargo eletivo, em alguma das instâncias de poder.
Portanto, o concurso público se apresenta para aqueles que
não dispunham de apadrinhamentos, compadrios ou quaisquer outras modalidades de
personalismos politicamente conduzidos, como se fora uma espécie de instituto
democratizador do acesso ao serviço público e à estabilidade funcional que
seria adquirida após uma espécie de experiência, eufemisticamente denominada
estágio probatório. Esperava-se, portanto, que por meio daquele tipo de certame
seletivo, qualquer pessoa, de qualquer origem social, que não dispusesse de
quaisquer outros recursos que não a formação profissional, se poderia fazer aprovar
para o ingresso no serviço público, no
caso específico de José Mário, seria o meio impessoal através do qual se faria
professor, em qualquer dos níveis do exercício da docência.
Mas, conforme se pôde perceber no arrazoado anterior, aquele
primeiro exame a que se submetera em sua empreitada no que tange à participação
em concursos públicos, se mostrou um exemplo daquilo que não deveria ser um
certame que pretendia selecionar aqueles que houvesse tido um desempenho acima
de uma determinada média e, que ao longo dos anos, se tornou um modo de se
realizar seleções públicas, ao menos em geral, considerando-se aquilo que se
fez notar nos anos que se seguiram, quando os processos passaram a contar com
um grande número de “empresas” especializadas em desenvolver os processos seletivos
de tal natureza. Daí à proliferação de cursos preparatórios para as avaliações
públicas voltadas para as mais diversas áreas de atuação no Estado, sobretudo,
aquelas mais disputadas, tanto no que tange ao prestígio que daria àquele que
as ocupasse, quanto no que tange aos bons salários que viessem a pagar. Nos
tais cursos preparatórios se enraizava o
oferecimento de macetes, dicas, orientações de como proceder no momento de
responder a tais ou quais tipos de questões, em tais ou quais áreas do
conhecimento que mais pesariam neste ou naquele tipo de avaliação, que, nem é
preciso dizer, elevou enormemente o ganho monetário de tantos quantos tiveram a
ideia de urdir, de elaborar, de formatar, de vender, de divulgar e ministrar os
tais cursos.
No que respeita José Mário, cabe salientar de passagem, que
ele não possuía quaisquer fundamentos para levantar os óbices acima indicados,
uma vez que, conforme o leitor já sabe, tratava-se de um sujeito ingênuo,
crédulo nas pessoas e, principalmente, nas instituições democratizadoras do
acesso ao serviço do Estado e, mesmo tendo sido prejudicado grandemente naquele
que fora a sua primeira experiência em tal tipo de processo seletivo, ele não
creditava os percalços que vivenciara, a qualquer pessoa ou mesmo setor de
algum órgão responsável pela parte burocrática do certame. O tempo porém, ah, o
tempo, fê-lo começar a desconfiar de tudo aquilo, pois, é certo,os
tentáculos,as engrenagens os interesses – políticos, sociais, econômicos e,
principalmente de classe – envolvidos na ocupação dos cargos públicos, passaram
a ser percebidos por ele em etapas outras do seu caminhar.
Assim pensando, ao entender que aquele concurso ele fizera
apenas para não sair de mãos abanando, pois, diante do que já foi relatado, o
revés era líquido e certo, ele passara a pensar no que fazer dali para diante,
uma vez que o próximo concurso ainda precisaria esperar alguns anos, só vindo a
ser realizado cerca de seis ou sete anos após aquele que acabara de perder.
Portanto, era preciso recolher os cacos e, retomar um
roteiro já iniciado, visando mais e melhor se preparar para avançar em outras
direções. Começara a circular insistentes boatos que a FFPA estaria para
realizar um concurso para História Contemporânea e, ato contínuo, passou ele a
levantar bibliografia e, buscar meios para ter acesso a elas, mediante a
contratação de ledor fixo, ou a procura de ledores voluntários para que pudesse
dar cabo ao projeto.
Assim pensando, José Mário foi a campo e, respaldado na
experiência que ensejou viabilizar o seu processo de conclusão da graduação,
ele procurou o grupo que anteriormente se cotizara para levantar os recursos
necessários para a contratação de alguém que lhe pudesse prestar serviço como
ledor. Foi desta maneira que ele reagrupou as pessoas que contribuíram naquela
ocasião e, agregou mais algumas, até que conseguiu integralizar o numerário equivalente ao salário mínimo
vigente em 1993, o que lhe deu a possibilidade de contratar uma excelente
ledora que por sorte fora indicada por um dos contribuintes para a cotização.
Com isto, José Mário conseguiu ler uma boa parte daquela bibliografia que não
lhe fora possível enfrentar durante a graduação e, procurou com isto, se
preparar para mais um conjunto de batalhas que enfrentaria dali até o ano em
que logrou se fazer aprovar em um concurso para docente no ensino superior.
Neste campo do acesso à leitura, há que se fazer uma menção honrosa a um seu
colega de turma, Jairo Trindade, ledor voluntário que se prontificou a fazer
algumas valiosas inserções em diversas obras acadêmicas para José Mário, o que
lhe foi bastante singular, no que tange ao acesso da bibliografia proposta para
a elaboração do seu projeto de seleção de mestrado, bem como, permitiu algumas
leituras muitíssimo úteis para a realização da prova teórica inerente àquela
seleção.
Assim, entre 1994 e 1996, José Mário enfrentaria duas
seleções para ingresso no Mestrado, além de mais quatro concursos para docente
do ensino superior, sendo um na Uefs (Universidade Estadual de Feira de
Santana) e outros três na Uneb, sendo um para Alagoinhas, confirmando assim o
boato que correra largamente e, outros dois para o campus de Caetité.
Alagoinhas/Salvador – 05 de julho de 2026 – inverno
brasileiro
Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com
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