domingo, 1 de fevereiro de 2026

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte XVIII.

 

O Intervalo – III - Conjecturando.

 

Diferentemente do que se vem escrevendo nesta série que já se faz um tanto alentada, o arrazoado que o paciente leitor terá diante de si, não parte necessariamente de um feixe de rememorares – no estilo Marcel Proust (1871-1922) ou García Márquez (1928-2014) –, mas, em conformidade com o apelo feito por uma fiel leitora deste espaço – para não dizer exigência –, quando escrevera para este garatujador, solicitando explicações do “por quê” o procurador declinou da sua prerrogativa e, diante da sua resposta informando não saber, não ter como explicar, ela insiste que ao menos especule “para lhe satisfazer a curiosidade”, nas linhas que se seguem, se procurará levantar algumas hipóteses sobre o que teria levado o irmão de José Mário a não fazer uso da procuração que lhe fora conferida para o matricular, preferindo lhe enviar um telegrama, por meio do qual o convocava para que se fizesse presente na cidade, para a realização de sua matrícula na Faculdade de Formação de Professores de Alagoinhas, a (FFPA). Afinal, para a referida leitora, cuja mensagem foi encaminhada para este escrevedor logo no domingo a tarde, ou seja, ainda no calor da leitura, não seria possível que não se procurasse entender os motivos daquele gesto, ainda que no campo das conjecturas.  Então, enfrente-se mais este desafio.

É assim que, os leitores destes arrazoares foram deixados em contato com José Mário, por ocasião do seu retorno para Alagoinhas, vindo que fora de Jacobina, onde estivera com a parentela de sua mãe, chamado que fora pelo seu irmão, ao receber daquele um telegrama, enquanto ouvia por meio do rádio e da televisão, os discursos e as análises inerentes às novas diretrizes monetárias do País. Era pois um sábado quase outonal, ainda que faltassem mais de vinte dias para aquela estação em que as folhas caem e que as cigarras já maduras, cantam e morrem; e, em que são sentidos os últimos aromas das madrugadas do verão; quando as frutas da estação que já quase se finda, passam a rarear e os seus sabores precisarão esperar o limiar do próximo dezembro para voltar aos paladares. Portanto, aquele fora um primeiro de março ensolarado e de temperatura amena, cujo dia transcorrera com um ar fresco e um clima agradável, o que viera a favorecer um ambiente propício a que se desse largas ao pensamento e favorecera aos cogitares do espírito. Em meio às divagações embaladas pela sensação de conforto em seu habitat, é que ele passara a cismar, no sentido de entender a razão de ter sido chamado quase que às pressas, uma vez que, antes de sair da cidade, José Mário houvera providenciado tudo para que as coisas fossem feitas sem a sua presença, o que, talvez pensasse, daria a ele uns dias a mais para recarregar as energias para o enfrentamento que, já acreditava, iria exigir bastante de si. Debalde, buscara aquelas razões; fizera algumas interrogações, sem conseguir, entretanto, encontrar quaisquer respostas satisfatórias para elas.

entretanto, se faz necessário desenvolver uma contextualização relacionada aos dois irmãos, visando uma melhor compreensão da especulação em curso. Em primeiro lugar, é preciso dizer que os dois irmãos são filhos de duas mães com um mesmo pai, sem que se tenham conhecido durante a fase infantil; José Mário, quatro anos mais velho do que aquele outro irmão – tendo ainda um irmão mais velho, da mesma idade que contava José Mário e, que se conheceram mais ou menos na mesma ocasião –, compartilhando ambientes cotidianos diferentes, amadurecimentos diferentes, conceitos e condições de sobrevivência diferentes, embora estivessem no mesmo campo econômico e social do viver, a pobreza, ainda que não a extrema. Quando se dá o episódio da procuração e do telegrama, um deles contava vinte e cinco anos completados no final de 1985 e o segundo, prestes a completar 22 anos, naquele mês de março recém começado.

Em segundo lugar, não se pode perder de vista o fato de que, embora eles já se conhecessem há cerca de onze anos, tempo em que José Mário os descobrira – embora já soubesse da existência deles, sem, no entanto,  ainda estabelecer contado, até os meados de 1974, quando entrara pela primeira vez no espaço onde residiam e ali, travara o primeiro diálogo com aquela senhora que já contava cerca de sessenta e poucos anos – e que frequentou com alguma assiduidade a casa da avó materna daqueles seus irmãos e, ao mesmo tempo em que ouvia com atenção as narrativas daquela senhora tão falante e cheia de vivências, as conversas com os irmãos eram menos frequentes e, mais concentradas com o outro mais velho, que era da sua mesma idade e, com seriação escolar mais adiantada, o que quer dizer que, com o moço mais jovem, as trocas de ideias eram mais ocasionais e furtivas. Ou seja: a relação de José Mário mais próxima era com o seu coetâneo. Evidentemente, isto pode ter construído uma pequena barreira entre ele e o mais moço dos irmãos, sem contudo os afastar de todo. Tanto é assim que, conforme se leu em arrazoados anteriores, ambos comemoraram efusivamente o aparecimento do nome de José Mário, na lista dos que foram aprovados para o acesso ao curso de Licenciatura em História, para o qual concorreu.

Em terceiro lugar, talvez se possa acrescentar o fato de que eles não dispunham de quaisquer outros meios de se comunicar, de se interligar, de trocar ideias e impressões, que não a presencialidade física. Para além disto, havia entre eles uma diferença profunda de temperamento, de preferências e, sobretudo, de perspectiva, como é natural entre irmãos, evidentemente, porém, tornada mais agravada pelo pouco contato presencial, tanto no que diz respeito à frequência numérica, quanto no que diz respeito à objetividade de tais contatos. Isto quer dizer que, as conversas e/trocas só se davam em ocasiões muito específicas, de acordo com alguma necessidade manifesta por um ou por outro, embora tal necessidade se apresentasse em um maior número de vezes, de parte de José Mário, por razões mais do que óbvias.

Conforme se pode perceber, está claro que se torna uma empreitada difícil, procurar esquadrinhar o que se tivera passado naquele espírito enquanto cismava sobre os acontecimentos recentes ou, sobre o que teria se passado com o seu irmão, enquanto esteve fora. Entretanto, talvez se possa especular o que fervilhara no cérebro de José Mário, ao longo daquele e dos dias que se seguiram, quando buscava entender o gesto do seu irmão que, antes, houvera aceitado receber dele uma procuração para realizar a sua matrícula enquanto viajava, para depois, sem que houvesse um motivo aparente, abrir mão de tal procuração, fazendo com que convocasse José Mário, por meio de um telegrama lacônico, para que voltasse para a cidade, a fim de não perder a data da matrícula. Quiçá, José Mário se inquietasse com a possibilidade de ter havido alguma interferência exógena entre eles dois, no sentido de alguém lhe ter aconselhado para que considerasse o perigo de se envolver em uma questão complexa e perigosa como aquela. OU, o medo tenha sido deflagrado de modo autóctone, na medida em que aquele rapazinho em processo de amadurecimento, se tivesse assustado com o tamanho da responsabilidade de que fora investido. Enfim, inúmeras são as possibilidades que se poderia levantar, com o fito de explicar aquela repentina mudança. Até poderia não ser nada do que até aqui fora exposto. O desconhecimento do modo de funcionar a Universidade, para ele, pode ter sido o motivo que o levara a declinar do pedido feito por José Mário, para que realizasse a sua matrícula, mediante a procuração que possuía; ou, ainda, alguém poderia ter lhe dito que aquela procuração não teria validade jurídica, o que inviabilizaria o seu uso para o fim ensejado por eles.

Daí, conforme imagina este escrevente, talvez se possa esboçar uma provável tentativa de explicação da motivação que levara aquele rapazinho a abrir mão de sua condição de “procurador” do irmão que temporariamente se ausentara da cidade para ter com os seus parentes maternos. Talvez, aquele mocinho estivesse temeroso de não saber se  desencompatibilizar da tarefa que lhe fora confiada, resultando em prejuízo para o seu representado, em caso de algum erro em sua execução. É preciso salientar que, embora ainda muito moço, ele já desempenhava tarefa de fiscalização no setor de transporte da prefeitura municipal. Ao que parece, nem aquela experiência funcional foi suficiente para que ele se sentisse seguro em executar aquela outra tarefa, que, diferentemente daquela que já desenvolvia há algum tempo em uma área de grande responsabilidade junto ao município, talvez se lhe escapasse ao domínio, aquela que lhe fora conferida por aquele irmão que estava prestes a ingressar no ensino superior, para o quê ele concorreria, fazendo uso da procuração que jazia em suas mãos. Assim pensando e, considerando o que se expôs até aqui, talvez se possa afirmar com alguma perspectiva de certeza que, sentindo o peso da responsabilidade que lhe houvera sido delegada, ele acabara por não se querer arriscar e, ainda menos, arriscar a caminhada do seu irmão, preferindo convocar-lhe para que assumisse ele mesmo a tarefa de fazer a sua matrícula.

 

Alagoinhas – 01 de fevereiro de 2026 – Verão brasileiro

 

 Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comente; quero saber o que você pensa!