Enfim, graduado – Os concursos – I.
Em mais um
evocar de lembranças que envolvem o caminho percorrido por José Mário com o
fito de se fazer inserir no “mundo do trabalho”, mundo em que ele se queria – e,
mais ainda – precisava tomar parte ativa, na medida mesma da sua necessidade de
sobrevivência, este escrevedor apresenta mais um arrazoado onde elenca alguns
fragmentos de memórias de um tal percorrer, para o conhecimento e a reflexão dos
seus argutos e pacientes leitores. Conforme já se vem apontando em tratados
anteriores, a memória é uma ferramenta metodológica que tem adquirido grande
importância na reconstrução e na compreensão de processos históricos que, em
grande medida, não dispõe de registros documentais completos – e, em alguns
casos, tais registros são difusos, desconhecidos ou inexistentes – e, como tal, tem sido
discutida naquilo que respeita à sua
validade na tarefa de desenvolver uma pesquisa que resulte em um produto
historiográfico válido. Paloma Aguilar Fernández (1965-), cientista política
espanhola, escreveu em “Memoria e olvido de la Guerra Civil Espanhola”,
publicada em 1996:
“La historia es la parte del pasado que, de una u
otra forma, ha quedado registrada, almacenada en los distintos depósitos de la
memoria. Por tanto, la historia es una sección del pasado susceptible de ser
recordada a través de documentos y testimonios. El pasado, obviamente, es algo
mucho más amplio, inaprehensible e inabarcable” (FERNANDEZ, 1996, p. 35 - 36).
Mais adiante, já se reportando ao rememorar de um certo “passado”,
Aguilar Fernández assegura que:
el recuerdo, en definitiva, no puede ser
desvinculado de las circunstancias en que se produce, puesto que la memoria
siempre incluye elementos del presente. Por otra parte, como la memoria es algo
difuso, en constante evolución y en flujo permanente, resulta evidente que cada
vez que se evoca un recuerdo, éste ha de pasar a través de los filtros del
presente; por ello, en cada nueva evocación se introducen leves modificaciones,
matices nuevos derivados del momento actual (FERNANDEZ, 1996, p. 39).
Tal assertiva pode ser reforçada com o que escrevera Bosi 1994,
quando assevera que:
Portanto, tomando as passagens acima na devida conta, este
garatujador intentará trazer neste e nos arrazoados que se seguem, alguns
rememorares dos embates enfrentados por José Mário no que tange à sua busca de
inserção no serviço público, nomeadamente, no setor do ensino. Até a chegada da
tão decantada “Constituição cidadã”, promulgada com grande pompa e
circunstância em 05 de outubro de 1988, o “sonho” de se tornar um empregado do
Estado e, por conseguinte, a possibilidade de se obter a estabilidade – que o
protegeria das intempéries e idiossincrasias de governantes e/ou partidos
contrários àqueles que o empregara –, só era realizável, para a grande maioria
dos casos, mediante intermediações políticas que, por sua vez, exigia em
contrapartida, fidelidade político/eleitoral de quem viesse a ser agraciado por
um contrato de professor ou de outras profissões estatais. Tais contratos eram
entregues aos felizardos por meio de agentes e agenciadores políticos, àqueles que fossem
indicados para tal, independentemente de sua capacidade e/ou capacitação paro
exercício da função para a qual fossem designados a desempenhar na máquina
pública.
Desta forma, o diferencial implementado a partir da aludida Constituição,
estava baseado em uma novidade, novidade, aliás, há muito reclamada por aqueles
que nunca alcançariam o acesso ao serviço público sem a exigência do já bem
conhecido “Q.I” – quem indicou? –, que consistia na realização de avaliação “impessoal”
de candidatos ao desempenho de cargos e funções públicas. Era o concurso
público que se tornava ferramenta obrigatória tanto para o Estado receber os
seus agentes, quanto para aqueles que para tal se dispusessem. Era o concurso
público que, a partir de então, passava a ser o paladino da moral com a coisa
pública, induzindo a ilusão de que, dali por diante, quem ingressasse na função
pública, o faria por meio de seu esforço pessoal, de sua capacidade intelectual
e, sobretudo, de sua capacitação profissional.
Assim, considerando-se o princípio elementar embutido na
ideia de uma seleção impessoal que se imaginara ser um dos fundamentos de um concurso
público, para José Mário, se lhe afigurava como uma forma de driblar os obstáculos
que, a priori, lhe interditara as tentativas de ingresso nos espaços escolares
privados, tendo em conta, na mesma medida, a nova Carta Magna de 1988, que
vedava impedir-se que uma pessoa cega, por exemplo, fosse admitida no serviço
público, uma vez aprovada para tal. Tendo tais considerações em mente, ele
passara a se preocupar em estar preparado para enfrentar aquele novo tipo de desafio,
embora ele não imaginasse que não dependeria só do seu desempenho intelectual ou
do seu domínio temático e propedêutico, para se fazer aprovar em tal ou qual certame.
Entretanto, pelo fato de tudo aquilo ser muito novo para ele
e, por ser um indivíduo, um tanto ingênuo, admita-se, que cria nas instituições
– e, apesar de saber que eram elas feitas e dirigidas por sujeitos que nelas
mantinham os seus interesses e, que tudo fariam para que se lhes não escapassem
das mãos – para ele, ainda não estava claro, que a subjetividade dos
avaliadores; que a objetividade no atendimento às especificidades de candidatos
que precisavam de material especializado; que a organização - mais ainda, a desorganização – da realização
dos concursos, tão ansiosamente esperados por ele e um sem número de outros
indivíduos que pretendiam e/ou precisavam ingressar no serviço público, definiriam
a aprovação e, mais precisamente, a reprovação nos ditos eventos, muito mais do
que o seu desempenho na realização das provas propostas para tal.
Diante de tudo aquilo, José Mário passara a buscar formas
por meio das quais pudesse se cercar de material de estudos, leitura e reflexão,
com o fito de se aprofundar em temas que não ficaram bem fixados e, com isto, procurar
se preparar adequadamente para aquela nova maneira de enfrentar a busca por um
lugar na docência de história, em um primeiro momento, no setor do Estado onde
se iria lidar com os alunos do primeiro e do segundo graus. Nem de longe lhe
passava pelas pretensões pleitear o ingresso no ensino superior, uma vez que para
tal não se sentia – e de fato não estava – capacitado. Entendia ele que, para
tanto, precisaria fazer uma profunda revisão de tudo que vira na graduação,
sobretudo, nas matérias aonde foram mais superficiais os conteúdos
apresentados. Até chegara a elaborar um roteiro por meio do qual pensara em desenvolver a dita
revisão. Mas, o momento era de inserir-se no trabalho. O que ele imediatamente necessitava
era obter os meios de subsistir: um provento que lhe permitisse obter o
sustento para si e para aquela que até ali o sustentara de tudo que os seus
parcos ganhos permitiram. E, enfim, o Estado da Bahia, já sob a égide da “Constituição
Cidadã”, depois de um bom par de anos, realizaria o primeiro concurso para
ingresso de professores no Primeiro e Segundo graus. Para José Mário, aquele
seria o primeiro concurso que prestaria com o objetivo de iniciar a sua
carreira como professor.
Alagoinhas – 21 de junho de 2026 – inverno brasileiro
Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com
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