domingo, 20 de setembro de 2026

NACOS DE LITERATURA – ALGUMAS DIGRESSÕES – X.

 

Glenda Doremus – “a República do Sacramento” em “um estudo interpretativo”. – Parte II.

 

Ao trazer mais estes arrazoares para apreciação de quantos acederem a este espaço de leitura virtual, uma vez mais se intenta apontar algumas dentre as muitas possibilidades de se apreender e, quiçá, se compreender a realidade cotidiana através da literatura e a partir dela, se construir um tratado que permita o aprofundamento da compreensão do fazer histórico, por meio de leituras de mundo que apontem para os desafios de elaborar estudos que desague na produção historiográfica.,

Em conformidade com o dito nos garatujares anteriores ao que os diletos leitores ora têm diante de si, a jovem norte-americana Glenda Doremus desenvolvera um trabalho dissertativo e, o submetera ao secretário da embaixada da República do Sacramento em Washington, antes mesmo de o submeter à banca examinadora composta por docentes da instituição acadêmica onde se fazia graduar. Dele, talvez, ela esperasse receber o incentivo que precisava para firmar-se de estar caminhando na exatidão das suas proposições. Em “O Senhor Embaixador”, publicado em 1965, Veríssimo entrega ao seu leitor, uma personagem tíbia, que pouco ou nada confiava naquilo que houvera produzido a partir dos seus estudos de história latino-americana, além de ter uma personalidade psicologicamente cambaleante e plena de traumas, em boa parte das vezes, suscitados pelo ressentimento herdado de uma memória coletiva em que se cultivava o ódio e se alimentava o medo àqueles que eram diferentes, que se apresentavam como marca indelével de parte daqueles cidadãos oriundos da região conflagrada pela guerra civil americana, já terminada há quase cem anos (1861-1865), na qual o Sul Confederado perdera o seu desejo separatista do lado setentrional, mas, principalmente, por ter sido despojada da sua característica econômica principal, que era a utilização do trabalho escravo como forma de produzir e acumular riquezas.

O aludido ressentimento, é sutilmente apresentado por Veríssimo, quando coloca em evidência as palavras que escrevera o pai da moça, nas quais demonstra o seu descontentamento por ela preferir permanecer em Washington, mesmo nas férias de verão ou ainda, nas festas natalinas, em detrimento da sua Georgia, mais precisamente na cidade de Atlanta, onde ele e a consorte esperavam a visita e a estadia da filha. Na carta que foi rapidamente citada em postagens anteriores, o pai de Glenda Doremus apresenta as queixas por sua insistência em permanecer na capital do País:

 

Querida filha: Por que não voltas para casa? Sei que Washington deve estar linda agora com as cerejeiras floridas, mas aqui em Atlanta os pessegueiros estão também em plena floração. [...]. Como eu, tua mãe ficou triste porque não nos visitaste nas tuas últimas férias de verão e porque nos comunicas agora que talvez não possas estar conosco nas de Natal. Por que odeias tanto o Sul? No fim de contas, em Washington há mais negros que brancos. [...]”.

Perceba o leitor que, neste último feixe de palavras ditas pelo pai da rapariga, sutilmente, Veríssimo aponta a razão do ódio pela derrota do intento separatista e o ressentimento por perderem o direito à utilização de mão de obra escrava, que por sua vez, alimenta a aversão e o medo ao negro, simultaneamente, quando diz que “[...], em Washington há mais negros que brancos.”. E segue a carta, onde ele acaba por revelar o segredo da garota, pelo que se exasperava e se fazia sentir impura e suja, por acreditar ter sido violentada por um homem negro, quando contava treze anos. Diz ele:

 

“[...]. Tu te queixas em tuas cartas de que não tens amigos aí e de que não te sentes feliz. Por que é então que te obstinas em viver nessa cidade que tu mesma achas monótona e desinteressante? Vem para casa, baby. Acho que não deves permitir que tua vida seja estragada por coisas que aconteceram há tantos anos e das quais não tiveste a menor culpa. [...].”.

 

Por não ser a pretensão deste escrevinhar entrar em pormenores a cerca do que fora dito na missiva dirigida à Senhorita Glenda Doremus, volte-se, portanto, ao aguardado encontro entre os dois moços, quando o secretário da embaixada da República do Sacramento em Washington, falaria à mestranda em História da América Latina, atendendo a um seu pedido de apreciação daquilo que escrevera e que lhe encaminhara para que lesse.

Depois de muito hesitar se aceitaria o convite que lhe fora dirigido por Pablo Ortega para que comparecesse à festa que o novo embaixador da República do Sacramento ofereceria no suntuoso prédio daquela representação diplomática, em alusão ao seu credenciamento junto ao governo de Washington, enfim, a jovem decidiu por vencer à sua insegurança pessoal e acadêmica, no que respeita à razoabilidade e à plausibilidade histórica do tratado que escrevera. Conforme fora apontado pelo secretário da embaixada, em mensagem manuscrita no verso do convite oficial, na ocasião, eles falariam sobre o que ela escrevera, como resultado dos seus estudos realizados sobre aquele pequeno país situado em algum ponto do caribe.

Depois de a ter recepcionado no recinto diplomático onde se daria a conversa e, depois de ter provocado a jovem, fazendo com que ela, muito à contragosto,  cumprimentasse o embaixador do Haiti, Pablo Ortega, tendo concluído estar diante de uma  pessoa “racista” – eles se conheceram há pouco; ele, por certo, embora desconfiasse, talvez não soubesse das inclinações dos sulistas à discriminação racial; ou procurara submetê-la àquele teste, precisamente por conhecer aquela tendência  –, conduziu a rapariga até um espaço reservado, distante do burburinho da festa e, após lhe ter ouvido o protesto por  a ter forçado a apertar a mão de um preto, enfim, iniciara a tecer as suas considerações sobre o que ela lhe encaminhara, com o pedido de apreciação.

Assim, Ortega começa a falar a respeito do texto escrito por Doremus, de modo bastante áspero e, conforme a observação do próprio Veríssimo, inexplicavelmente agressivo, ao dizer que “Sua dissertação não revela o menor senso de perspectiva histórica e está cheia de inverdades”. Diante da estupefação da moça e do seu protesto ao que ouvira, Veríssimo oferece ao leitor o seguinte diálogo, que precisará ser transcrito aqui, para que se possa compreender a afirmação que Ortega fizera, ao principiar a sua impressão sobre a produção em apreço.

“[...]. — Inverdades? Como? Por quê? 

“— Para principiar, você usou fontes de informação contaminadas.

“— Mas os dados que usei me foram fornecidos em grande parte pela sua própria embaixada!

“— É exatamente por isso que eu os declaro impuros, falsos. 

“— Você está bêbedo. 

“— Pode ser, mas isso não torna menos verdadeiro o que acabo de lhe dizer... [...]”.

Diante da quase paralisia mental da jovem, Ortega lhe assegura que:

 

“— Claro, há na sua tese coisas indiscutíveis — [...]. — O Sacramento é realmente uma ilha, fica no Mar das Caraíbas, foi descoberto em 1525 por um dos capitães do conquistador espanhol Francisco Fernando de Córdoba, um certo Leandro García Escala, que fundou Puerto Esmeralda na costa noroeste da ilha e mais tarde Cerro Hermoso, no platô central. Mas a história do puma fulvo que montava guarda à boca duma mina de prata e só devorava os espanhóis, ao passo que poupava os nativos, cujas mãos lambia, não é mais verdadeira do que a da loba que amamentou Rômulo e Remo. [...]”.  

 

Uma vez mais, diante do exposto pelo seu interlocutor, a rapariga evoca o fato de ter lido sobre o tema, em livro emprestado por um outro membro daquela mesma embaixada, procurando assim, validar a fonte que utilizara, construída sobre um mito, conforme lhe garante Ortega. É precisamente no que respeita ao seu excesso de confiança nas fontes que repousa toda a crítica desenvolvida por Pablo Ortega, às proposições  históricas apresentadas pela jovem historiadora da América Latina, que se deixara envolver pelas suas fontes, sem submetê-las às necessárias críticas, que acabou por engolfar a sua pesquisa e a perturbar a elaboração das suas hipóteses, de tal modo que acabou por cometer erros de avaliação e, por conseguinte, aceitar como verazes, os historiares dali extraídos.

É nesta perspectiva que, em dado momento, ela se queixa de não ter encontrado nos jornais que pesquisara do Sacramento, a informação que Pablo lhe dera durante a exposição que desenvolvia sobre a História do seu País, dando conta que o governo sacramentenho solicitara ao governo norte-americano, que lhe enviasse corpos de fuzileiros para combater um certo Juan Balsa, tido como um bandoleiro que precisava ser contido, uma vez que o exército local não possuía capacidade de combate para tanto. A senhorita Doremus, em defesa do seu desconhecimento da informação que acabava de receber, retruca o seu interlocutor, afirmando “— Não encontrei em nenhum dos jornais de Cerro Hermoso ou Puerto Esmeralda qualquer referência ao fato de o Governo sacramentenho ter pedido a intervenção dos nossos fuzileiros especificamente para perseguir e capturar Juan Balsa e seus companheiros”. 

Em resposta, Ortega lhe dera uma lição de como o pesquisador não deve proceder, ao examinar as fontes que estão ao seu dispor, sem que delas desconfie, por todo o tempo em que as esteja examinando, buscando sempre estabelecer confrontos que lhes assegure não estar se deixando enganar por elas. E postula o secretário da embaixada da República do Sacramento:

 

“— Claro que não. Uma notícia como essa poderia perturbar o mundo de Don Antonio María e da sua gentil ”corte” e por outro lado equivaleria a uma constrangedora confissão pública de impotência da parte do Exército Nacional. Noticiou-se apenas que o Governo de Chamorro havia dado permissão a um batalhão de soldados da amiga República norte-americana para fazer manobras de desembarque num certo ponto do território nacional”.

 

Mesmo que aquela mestranda em História da América Latina tivesse visto nos jornais que pesquisara – e ela apresenta um grupo deles, situados em ao menos duas das principais cidades daquele país caribenho, inclusive, os da sua capital – alguma notícia, do modo como fora descrita por Ortega, ela sequer desconfiara das fontes e, cravara, conforme a sua interpelação ao interlocutor, que não houvera intervenção norte americana, nas ações de combate à guerrilha de Juan Balsa. Ou seja, o pesquisador que se embate na tarefa de desenvolver alguma investigação histórica, não pode se deixar levar de roldão pelas suas fontes, sob pena de ter um trabalho historiográfico fragilizado e desancado por leitores argutos e/ou examinadores atentos aos caminhos percorridos pelo processo de execução da pesquisa histórica.

 

Alagoinhas – 20 de setembro de 2026 –último domingo de inverno brasileiro.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com – www.historias-e-memorias.blogspot.com 

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