domingo, 6 de setembro de 2026

NACOS DE LITERATURA – ALGUMAS DIGRESSÕES – VIII.

NACOS DE LITERATURA – ALGUMAS DIGRESSÕES – VIII.

 

Vivanco, entre Passional e “Subversivo”: uma bala encravada na escada forja o “bom” pretexto para o golpe. – Parte IV.

 

Há algumas semanas, este autodenominado cronista tem procurado apontar para algumas possibilidades de se apreender e compreender a história através de leitura e exame de obras literárias e, em alguns casos bem específicos, tomar uma obra ou um conjunto delas, como fonte para a pesquisa histórica. Intentando argumentar o postulado tão rapidamente alinhavado, ele cogita percorrer algumas delas, ainda que resumidamente, tomando em conta as dificuldades enfrentadas por José Mário para se desprender dos textos e se imiscuir nos contextos, tanto no que se refere ao livro que tinha em mãos, quanto no que se refere ao tempo histórico e ao espaço social em que fora forjado o enredo desenvolvido pelo escritor que, no caso ora em exame, é o gaúcho Érico Veríssimo (1905-1975). Considerando a escassez de ferramentas com as quais melhor pudesse alcançar os propósitos do literato ao tecer a sua trama, José Mário acabava por concentrar a sua atenção em algumas árvores, sobretudo, aquelas mais frondosas ou frutíferas, sem conseguir perceber a floresta como um todo, com o seu complexo cipoal de possibilidades, a sua diversidade de movimentos propiciados pela rica fauna a ela relacionada.

Conforme já o arguto leitor tem notado, este escrevedor está há quatro domingos estagnado no ponto em que Veríssimo demonstra aos leitores de “O Senhor Embaixador”, as inquietações de Juventino Carrera em relação à sua permanência à frente da República do Sacramento e, portanto, os seus intentos de produzir um cenário que justificasse a ruptura institucional que entendia precisava perpetrar por meio de um golpe de Estado, que abrisse as portas para uma terceira reeleição, com o fito de “salvar” o seu País de uma “oligarquia” formada por proprietários rurais que queriam vê-lo pelas costas. Mas, de acordo com o que escrevera o Presidente da República do Sacramento para o seu Embaixador em Washington, o seu desejado golpe de Estado precisava ser justificável perante a comunidade internacional em geral e, à democracia Norte-Americana, em particular. E, tanto ali, quanto alhures, a justificativa estava em “assustar” os Estados Unidos, indicando que o golpe era necessário para conter uma horda de comunistas que estaria pronta para promover a sovietização da América Latina. Em pleno curso da chamada “Guerra Fria”, o Presidente sacramentenho e o seu Embaixador, ainda de acordo com o escrito do primeiro e com as falas do segundo ao adido militar, estavam certos de que o governo norte-americano, a Organização dos Estados Americanos, a Organização das Nações Unidas e, por fim, o mundo quase todo entenderiam o grande esforço que aquele País faria para deter o comunismo, confinando-o a Ilha onde Fidel Castro fizera a  Revolução que derrubou Fulgêncio Batista, há menos de um ano, do momento em que Carrera escrevera para o seu diplomata.

Note-se de passagem, que aquela justificativa se tornara a pedra de toque de todos os golpes de Estado levados à cabo em toda a América Latina, principalmente, entre as décadas de 1960 e 1970 e, as ditaduras civis-militares deles resultantes. Parlamentares, jornalistas, juristas, entidades civis e empresariais em toda a América de fala latina, clamavam aos militares que contivessem o comunismo que ameaçava a “Democracia”, mas, sobretudo, diziam ameaçar a religião, a propriedade privada, em suma, o capitalismo e a hegemonia norte-americana. E José Mário, nada compreendia de tudo aquilo; estava ele apenas percorrendo aquelas páginas, sem atinar para a gravidade do tema que Veríssimo se dispunha a abordar, sem, contudo, poder dizer exatamente o que pretendia, sob pena de censura, tortura... Como já se apontou, faltava àquele leitor, o conhecimento histórico do momento em que o enredo foi tramado; faltava a ele os elementos externos ao texto que lhe propiciassem um entendimento completo daquilo que estava grafado naquelas mais de quatrocentas páginas.

Mas, volte-se ao edifício onde se encontrava instalada a embaixada da República do Sacramento. Afinal, Gabriel Heliodoro precisava encontrar “um bom pretexto” para que o seu compadre pudesse promover o golpe de Estado que tanto queria, para poder se impor como presidente da república por mais um período, pelo menos, de acordo com o que confessara, aquele necessário a “completar” o que começou. Ali, em um dos seus aposentos, o Embaixador se encontrava em uma atividade extra diplomática, tendo recebido para jantar e depois, para atividades de alcova, uma “loura” americana com quem, por um curto espaço de tempo, se envolvera em relação extraconjugal. Aquele envolvimento acabou por permitir a Gabriel Heliodoro a oportunidade para atender ao anseio de Juventino Carrera, ainda que indiretamente. Explique-se.

Ao chegar em Washington para o credenciamento junto ao governo Norte-Americano, o diplomata já tinha por amante a mulher de um de seus auxiliares que, ao que parece, não só sabia, como consentia, embora reclamasse sem êxito o seu quinhão em um dos vértices do triângulo. No entanto, ao ver o embaixador trocar, ainda que temporariamente o “posto” de amante antes ocupado pela consorte do Cônsul, para o entregar à “loura Americana”, ficou indignado com o infame e, intentou vingar-se do patife. Tendo pendulado entre matar-se para causar remorso à esposa ou ferir de morte o Embaixador, depois de muitos e confusos cogitares, Pancho Vivanco, enfim, decidiu-se pela segunda opção: mataria o desgraçado que infelicitava a sua pobre Rosália. No momento da consumação do crime, desejara apenas inutilizar aquela virilidade incontida, tendo procurado atirar uma bala em cada testículo e, partira para a concretização do intento, saindo de entre árvores onde se ocultara. Ao fazê-lo, perdera a pontaria: nem o matara, nem lhe extinguira a virilidade, pois, fora morto por um guarda noturno que rondava o quarteirão e já o tinha sob vigilância, pois ali estivera por um longo tempo, à espera da saída do embaixador que embarcaria a amante de volta para o seu lugar de residência.

Passados alguns poucos instantes do malogrado intento do Cônsul da República do Sacramento Francisco Vivanco, tendo se certificado de que não fora ferido, pois a bala mal lhe raspara o roupão que vestia e, ao examinar o local em que se dera a tentativa de crime passional, percebera que a bala ficara encravada na escada do patamar de entrada da embaixada e, logo compreendeu que, não poderia haver outra oportunidade mais favorável: transformaria aquilo em um atentado subversivo, perpetrado por um comunista infiltrado no corpo diplomático do País. Depois de tentar sem sucesso fazer o adido militar pensar no que poderia significar aquele corpo estendido à frente dos dois, Gabriel Heliodoro fê-lo saber de uma vez naquilo que já maquinara, enquanto o mandara chamar. Transcreva-se abaixo o diálogo entre os dois encarregados dos assuntos da República do Sacramento junto ao governo de Washington, conforme Veríssimo magistralmente apresenta aos seus leitores. Diz o texto:

 

“[...]. Aí está a oportunidade que esperávamos. Vivanco fazia parte duma conspiração esquerdista. O meu assassínio seria o sinal para começarem os atos de terrorismo e sabotagem no Sacramento, compreendes? — E as provas? — As provas, meu velho, nós, tu e eu, vamos fabricar agora. Telefona para um de teus tenentes que saiba escrever à máquina... ah! e que seja da mais absoluta confiança. [...]. [...]: — Prepararemos documentos que provem a ligação de Francisco Vivanco com os revolucionários. É preciso não esquecer que a polícia americana deve encontrar no bolso deste sujeito uma carta em que alguém comunica a alguém (inventa nomes, é a tua especialidade) que o Doutor Gris deixou os Estados Unidos secretamente, por vontade própria, e já está com os exilados sacramentenhos em Cuba. Precisamos duma lista grande de nomes de pessoas do Sacramento” implicadas” no movimento, para que nossa polícia possa começar as prisões... [...]”.

 

E Gabriel Heliodoro arremata triunfal:

 

 “[...]. Tu então não vês que vamos oferecer numa bandeja de ouro o pretexto que meu compadre Juventino está esperando para justificar aos olhos do mundo um novo Movimiento de Salvación Nacional? [...]. Gabriel Heliodoro acocorou-se ao pé do corpo de Vivanco e vasculhou-lhe os bolsos. Tirou deles um lenço úmido e sujo, uma nota de dólar enrolada como um cigarro e uma caixa de lápis de cor. Ergueu os olhos para o cúmplice e sorriu. — Acho que estas provas não são suficientes...  Tornou a pôr-se de pé. — Depois que tivermos todos os documentos prontos, meteremos a carta a respeito de Gris no bolso do defunto e guardaremos os outros” papéis comprometedores” na gaveta da mesa dele, na chancelaria. [...].”.

Conforme se pôde depreender, o “bom pretexto” para o golpe se lhe apresentara no gesto de um homem que preferia ver a sua mulher feliz no leito do amante, mesmo sendo ele rejeitado em suas tentativas de a levar para o leito marital, a vê-la de olhos inchados de tanto chorar por ter sido preterida, que habilmente Gabriel Heliodoro transformara em uma ação de “esquerdistas” para sabotar o seu País e nele implantar o comunismo. E os forjares de provas contra os opositores dos regimes ditatoriais que se foram instalando por toda a América Latina, teriam sido muito diferentes no Brasil, no Chile, na Bolívia, na Colômbia, na Argentina, entre outros espaços onde as perseguições, as torturas, os desaparecimentos e as mortes grassaram livremente? E, o que dizer dos impeachments perpetrados mais recentemente, bem como dos viciados processos que viriam a ser instaurados, sob o largo cobertor do “combate” à corrupção?

 

Alagoinhas – 06 de setembro de 2026 – inverno brasileiro.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com – www.historias-e-memorias.blogspot.com