domingo, 21 de setembro de 2025

21 de setembro de 1975 - Missa e Roupa Limpa

 

Domingo de Missa no repositório de cegos da Bahia

 

Excelentes e pacientes leitores que emprestam um pouco do seu tempo precioso para ler estes garatujares, tens hoje mais um deles em vossas telas. Em mais um mergulho nas profundezas silenciosas da memória, este escrevedor procurará trazer mais uns feixes de lembranças da passagem de José Mário pelo Instituto de Cegos Da Bahia, intentando desenvolver algumas reflexões sobre mais algumas facetas daquele seu processo de formação escolar e de pretenso amadurecimento para o convívio social. Conforme já se disse em arrazoados anteriores, ele ali estava “preso” ou, para usar um termo caro à civilidade, estava  “privado de sua liberdade”, não por uma escolha sua nem por um sentimento masoquista; mas, fora fruto de uma decisão pragmática, fundamentada em expectativas que, mais tarde, ao fim de todo o processo, se demonstraram inalcançadas, decisões, enfim, cujo lastro era a necessidade de se apropriar de instrumentos que o pudesse preparar para o mercado de trabalho e, claro, o pudesse dotar de ferramentas que lhe permitisse alcançar autonomia no campo da mobilidade. Aquele pragmatismo, portanto, fizera com que ele deixasse para trás o aprendizado que já desenvolvia, no que tange à apreensão dos espaços relacionados às suas necessidades de interação na cidade onde nascera – utilização de transporte que o levasse ao centro, por exemplo –; o conhecimento das ruas e direções que precisaria seguir, com o fito de chegar aos lugares em que precisasse estar; também deixara o convívio com a sua mãe e demais familiares, impactando fortemente sobre a realidade encontrada ao chegar no espaço em que seria confinado, dele só saindo para as atividades escolares e, para os períodos de férias, quando, aliás, voltava a se reencontrar com os ares alagoinhenses que, para ele, se assemelhavam aos ventos da liberdade de sair e de voltar para casa, quando quisesse, pudesse e apetecesse o fazer.

Embora as experiências vividas no Instituto de Cegos da Bahia já estejam encobertas por um grande números de camadas acumuladas ao longo do tempo, aquele que remonta a elas, ainda consegue extrair fragmentos que o ajudam a reconstruir, ao menos em partes, alguns dos elementos que acabaram por constituir a sua “memória”, não se perdendo de vista que, aqueles fragmentos que aqui ou ali ressurgem e se reconfiguram, emergem da escolha de quem lembra e, lembrando, traz à tona as reminiscências e quebra os silêncios que se estabeleceram, a despeito  de não terem sido de todo esquecidas. Isto posto, ressalta-se que, o fragmento que aqui se pretende trazer para conhecimento e reflexão de quem venha a ler estes rememorares, remonta ao ano da Graça de 1975, portanto, há cinquenta anos, quando o rapaz que os protagonizara, ainda não houvera completado a primeira década e meia do seu existir. Ainda assim, malgrado o já largo passar de tempos que se estabeleceram entre o momento vivido e o rememorado, os vestígios daqueles dias ainda se encontram vivos, como tendo sido gravado em pedra, a pedra do tempo já pretérito.

É assim que, aquele domingo, 21 de setembro de 1975, que se dizia iniciar-se a “estação das flores”, a tão decantada e esperada primavera, amanhecera como os demais dias vividos naquele repositório de cegos, todos obrigatoriamente acordados às seis da manhã, como nos demais dias da semana, despertados pelo barulho rouco e amaldiçoado de uma sirene executada por um dos funcionários encarregados daquela tarefa, dando início à execução da mesma rotina cotidiana: banhavam-se, vestiam-se de roupa limpa e adequada ao dia de domingo, subia-se para o sexto andar, ali, aguardando o toque da sineta para o café, sempre frugal e insuficiente para mitigar a fome daqueles adolescentes que, na sua quase totalidade, gastavam energias em atividades noturnas... Enquanto se aguardava aquele tão ansiado soar do sino vindo do refeitório, se aspirava o cheiro da “Chadler Industrial da Bahia S.A”, situada ali por perto, fabricante de um chocolate que, embora desejado, se sabia que tão cedo ou mesmo nunca se chegaria a comer; apesar dos muros altos, se podia receber os primeiros raios do sol primaveril; a brisa ainda fresca da manhã que ainda se espreguiçava em bocejos da aurora há pouco apresentada ao viajor, fazendo  com que aqueles que ali se encontrava procurassem encher os pulmões com os aromas embrulhados no frescor que o amanhecer exalava.

Depois de vaguear naquele espaço de recreação por alguns quase intermináveis quarenta minutos, ouviam quase todos o som que vinha do refeitório, lançando-se à escada, como gado impulsionado pelo resto da manada, querendo todos, há um só tempo, alcançar o ponto de onde julgavam escutar o chamado; as escadas não conseguiam obstaculizar a desabalada carreira empreendida pelos mais afoitos e, como não poderia deixar de ser, pelos mais comedidos ou tímidos, se é que a fome conseguia estabelecer distinção entre uns e outros. Caso não caísse alguém pelo caminho, enfim, chegavam todos às suas mesas, antes de se assentarem, todos maquinalmente rezavam uma reza incompreensível e repetida mecanicamente, quase todos temendo uma punição – para uns era a Divina; para outros tantos era a de Josefina -, em caso de serem flagrados sem cumprir o ritual que, necessariamente, deveria preceder a satisfação – parcial, como já se disse – daquela necessidade vital; uma vez assentados, todos devoravam ávidos o que lhes era dado como repasto – um café preto e fraco, quase morno, servido em canecos esmaltados, por vezes um terço de uma banana da terra, por outras um mingau que se não se distinguia plenamente de que era feito, um terço  de uma bisnaga de  pão –; ao mais um soar de sinos, todos se deviam levantar; uma vez mais, mecanicamente rezar e, já em passos mais lentos, todos deveriam retornar ao ponto do prédio de onde se deslocaram até onde então se encontravam. Cabe salientar de passagem, para fins de esclarecimento, que o ritual brevemente acima descrito, era aplicável a todos os dias, semanas, meses ou anos que fossem vividos naquele ambiente de quase quartel ou convento, de acordo com a equipe diretiva de plantão, onde incontáveis cegos foram depositados e arquivados  - e alguns esquecidos – por grande parte de suas vidas.

Tendo a manada retornado ao sexto andar, ali vagueava por mais um tempo que quase não passava, até ser chamada, uma vez mais, mediante o toque de um sino que, desta vez, a convocava para a capela, onde deveria, obrigatoriamente, fosse católico ou crente – ou nem uma coisa e nem outra – para ali ouvir missa dominical, com padre, sacristão, confissão e comunhão, de acordo com o prescrito no dogma religioso adotado pela instituição e imposto aos seus internos. Mesmo aqueles que já possuíam a permissão de sair para passeios, teriam que permanecer no local de realização da missa, até que, uma vez terminada, pudesse se dirigir para onde quisessem.

Uma vez ouvido o som que os chamava à audição do rito religioso dominical – faz-se necessário aditar o fato de que durante a semana, também havia tal obrigação que era cumprida no final das tardes –, os internos deveriam passar pelo vestiário, a fim de se fazer a conferência de sua indumentária, no que dizia respeito à limpeza e a adequação ao acesso à capela. A funcionária, constatando eventual sujeira ou algum outro desalinho na roupa de alguém dentre eles, providenciaria  ajustar o tal desalinho, para que o interno naquele repositório de cegos, se dirigisse à missa, vestido com a roupa limpa, podendo assim assistir o ofício religioso, executado por um prelado externo àquele espaço onde desempenharia a sua tarefa sacerdotal, em conformidade com o que era esperado da instituição que os abrigava.

 

Alagoinhas – 21 de setembro de 2025 – ainda inverno brasileiro

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comente; quero saber o que você pensa!