domingo, 28 de setembro de 2025

28 de setembro de 1975 – mais um domingo de um viver em internato

   O cheiro de cuscuz  na vizinhança

 

Em mais um arrazoado que se traz a quem visite este espaço virtual, procura-se apresentar mais um feixe de memórias há muito depositado sob camadas acumuladas pelo passar do tempo, cujo objetivo é extrair dele os silenciamentos impostos pelas muitas condições inerentes às escolhas do que lembrar e do que esquecer que, em última instância, nada mais é do que um silenciar. UM tal silenciar acaba por parecer um esquecer; na verdade, ao lembrar de algum momento vivido, nem sempre é possível verbalizar aquela lembrança, aquele momento que emergiu à superfície da memória, depois de ter atravessado algumas camadas que o encobriam e, que pareciam lhe obstar os movimentos que lhe permitissem assomar ao momento em que se dá a lembrança. O tempo, ao passar no seu passo irrefreável, deixa para trás os vestígios daquilo que foi vivido, em grande parte dele, só registrado na memória que se apresenta no presente de quem lembra, para que aquilo de que se lembra, seja iluminado  em alguns dos seus aspectos, permitindo acesso aos elementos constitutivos daquele lembrar, que por sua vez, sofre ressignificações no presente em que se lembra.

Assim, é neste sentido, que aqui se pretende trazer à lume e ao crivo de tantos quantos leiam estes rememorares, mais um daqueles momentos vividos por José Mário, entre os anos de 1975  e 1976, passados em confinamento nas dependências de um instituto para cegos. Localizado no bairro do Barbalho, na cidade de Salvador, aquele estabelecimento era apresentado ao público em geral e aos familiares dos que dele viessem a fazer uso em particular, como sendo um espaço onde as pessoas cegas ali alojadas teriam, além da formação propedêutica inerente à construção do saber necessário para a interação com o mundo comum dos demais elementos constitutivos da sociedade, também receberiam a orientação para a vida social, escolar e, claro, confessional. Através dos meios de comunicação que lhes abriam os espaços para divulgação e esclarecimentos da sua razão de ser, os seus dirigentes procuravam incutir no espírito daqueles que dele se aproximavam, a ideia de que era um local onde os internos estavam recebendo o treinamento para conseguirem inserção social, primeiro junto à escola e outros centros de obtenção dos saberes; depois, no mundo laboral, de onde buscariam obter o sustento e a subsistência. Talvez, se precise afirmar, de passagem, que tal construção argumentativa era falaciosa, na medida em que aquela propaganda, em grande parte das vezes e dos casos, não conseguia passar do caráter publicitário, servindo muito mais para o consolo dos familiares que precisariam deixar os seus cegos aos cuidados do tal estabelecimento, bem como para convencer ao público em geral, da necessidade de apoio financeiro para que o dito pudesse fazer frente às circunstâncias inerentes às suas condições de provimento de alojamento, de alimentação, de vestuário, de higiene dos internos, bem como das atividades de orientação que apontaram como sendo o propósito de sua existência, assim como de suas investidas em busca de recursos públicos e privados, para conseguirem levar a bom termo os serviços prestados.

Embora o tempo que aqui tenha sido evocado esteja situado no fim do mês de setembro de 1975, já em plena vigência da primavera há muito esperada, o que se pretende relatar nestes garatujares, poderia ter se dado em qualquer dos meses ou estações que marcaram o tempo que José Mário vivenciara o cotidiano daquele internato. Lá, onde tudo era marcado pelo ritmo imposto pelos sons dos sinos ou das sirenes, que indicavam os horários rígidos do silêncio do dormitório, do acordar para o banho matinal, da corrida ensandecida para a primeira refeição do dia e, os demais movimentos para as aulas internas, bem como para as demais atividades relacionadas ao funcionamento do internato eram, meticulosamente, marcada pelos sinais sonoros daqueles dois instrumentos, tão odiados quanto esperados pela maioria dos que ali viviam confinados. Portanto, como o arguto leitor pode depreender, nada se fazia ali, fora daqueles horários previstos e, assim, as refeições, por exemplos, obedeciam a estritos horários bem balizados, sem quaisquer possibilidades de modificações, sob quaisquer pretextos ou desejos, quer dos internos, quer dos funcionários que ali atuavam.

Mas, a rigidez dos movimentos e da operacionalização do sistema de internato imposto por àquele estabelecimento para cegos, não se restringia ao ritmo dos sons que demarcavam os horários em que tais ou quais atividades deveriam ser realizadas. Indo além dos ritmos dos movimentos e dos comportamentos, era igualmente, o que se daria a comer, para aquela gente de origem, hábitos e culturas alimentares variadas, também mantinha uma rigidez quase draconiana, na medida em que, em geral, não se tomava em conta nem mesmo as necessidades nutricionais – se diria hoje em dia –, na definição daquilo que se iria servir, das quantidades adequadas às idades dos internos; nem mesmo, se cogitava atender a alguma necessidade nutricional mais específica de alguns dentre eles.

Neste sentido, grassava a fome entre os internos daquele estabelecimento de abrigo para cegos, não no sentido de faltar o que comer; mas, no sentido de se comer mal; tanto do ponto de vista qualitativo, quanto – e principalmente – do ponto de vista quantitativo. Vez por outra, quase sempre sem razão aparente – especulava-se  que eram os momentos de visitas da chamada “diretoria externa” – algumas iguarias pouco usuais – galinhas, refrigerantes, leite, queijo, chocolates e doces ausentes do dia a dia, além de outras delícias que o paladar sentia a falta – surgiam nas mesas, em qualquer das refeições, para alegria dos comezinhos, que se refestelavam em mesa farta e sem restrições de quantidade nem de tempo de permanência no local das refeições. Mas, saliente-se que aqueles eram momentos raros, pouco comuns, tais quais passagens de cometas pela terra.

Outrossim,, cabe ressaltar de passagem que, malgrado os dirigentes se dizerem Católicos, Apostólicos Romanos e, obrigarem, por conseguinte, a que todos os internos assim o fossem, frequentando as missas, comungando, rezando todas as tardes e, sobretudo, no chamado mês de Maria, durante um dos mais evocados períodos do “ano litúrgico”, a “semana Santa”, a alimentação permanecia a mesma, sem o peixe nem os seus acompanhamentos “obrigatórios” para a ocasião, demarcando naquele espírito ainda um tanto em formação, uma das primeiras impressões do que mais tarde veio a saber se tratar da “hipocrisia”, que demandava dos outros, aquilo que os próprios demandantes não cumpriam. José Mário, embora não católico por convicção, estranhou o fato de que, nas duas daquelas ocasiões que lá estivera, uma das refeições servidas na semana que deveria ter sido santa, foi uma feijoada meio atrapalhada, que aliás, ele a devorara com toda a gula que o momento lhe permitiu. Alguns dos internos se impuseram jejum, tal o nível de convicção que os movia; outros, resignados e premidos pela fome de um estômago mal alimentado nas refeições anteriores, acabaram por sucumbir à exigência da carne que clamava por sustento.

E, enfim, muitas vezes, enquanto circulava no sexto andar e, ali aguardava o toque do sino chamando para o café, ele sentira, além do cheiro da Chadler que a brisa do mar ali próximo levava até as suas apuradas narinas, também um convidativo cheiro de cuscuz que vinha da vizinhança, apertando-lhe a saudade de casa e, impondo-lhe a tristeza, pela certeza de que não encontraria aquela iguaria na mesa diante da qual, se assentaria dali há alguns poucos minutos. Aliás, esta é uma das lembranças mais vivas que volta e meia se lhe assoma ao espírito, em recordações de um tempo em que o cuscuz do vizinho não só lembrava a casa da sua mãe, bem como lhe trazia o desejo de o encontrar naquela mesa onde dali há pouco tomaria o café e, sem aquele cuscuz, cujo cheiro lhe chegara, sem contudo, estar ali servido, como gostaria de encontrar.

Portanto, era sim fome: a fome de não comer o que desejava, pois, aquele cuscuz o levaria ao seu comer em casa; embora envolta em dificuldades para a obtenção dos víveres, aquela sua casa, naquele momento distante, por vezes se podia não só sentir o cheiro, mas sim, se comia um cuscuz de “Flor de Milho”, que àquelas horas das manhãs lhe fazia tanta falta.

 

Alagoinhas – 28 de setembro de 2025 – Primavera brasileira.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com

 

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3 comentários:

  1. Amei seu texto e, principalmente, suas memórias!

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  2. Parabéns Jorge pelo relevante texto!

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  3. Ah! Quantas memórias afetivas o cheiro do cuscuz traz...

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