domingo, 12 de outubro de 2025

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte II.

A transição – II.

 

Retomando a escrita iniciada há alguns dias, quando se discorreu sobre o primeiro momento em que se iniciava uma transição marcada pelos lapsos de ideias que se afiguravam no cérebro do protagonista destes garatujares, em que se cogitava um novo caminhar que partiria da conclusão do ensino médio para se fazer ingressar no ensino superior, aqui se procurará dar continuidade ao arrazoado que deu início à série que o paciente leitor ora tem diante de si, na qual o seu autor se disporá a discorrer sobre o tempo em que José Mário passava a conjecturar sobre qual seria a maneira por meio da qual se prepararia  para o processo seletivo, a partir do qual se imiscuiria no processo de formação superior, que o faria preparado para se tornar professor – ao menos, era este o propósito de um curso de licenciatura -, fornecendo a ele – bem como aos demais discentes –,  as ferramentas para a inserção no labor escolar. Era um “tempo” de decisões que repercutiriam por toda a sua vida, ensejando aquilo que para José Mário seria uma “virada de chave” – como se diz – para o caminhar sinuoso que vinha se delineando, o que o obrigaria procurar fazer daquele decidir, um momento definitivo de afirmação, tanto enquanto cidadão do mundo, como enquanto alguém que buscava se preparar para construir e desenvolver uma vida profissional.

Em conformidade com o postulado de Jacques Le Goff, (1924-2014), ao desenvolver verbete para a enciclopédia Einaudi, publicado no Brasil em  forma de livro pela editora da Unicamp, no qual assevera que “A memória, como propriedade de conservar certas informações, remete-nos em primeiro lugar a um conjunto de funções psíquicas, graças às quais o homem pode atualizar impressões ou informações passadas, ou que ele representa como passadas” (LE GOFF, 1996, p. 423), é que este escrevente procurará levantar algumas camadas já bastante espessas acumuladas há um bom já passar de tempos, intentando trazer alguns fragmentos de lembranças com os quais possa revisitar aquele passado que aqui se pretende evocar.

No arrazoado anterior, José Mário foi deixado ao sabor dos seus pensamentos, quando cogitava sobre o que fazer após concluir aquele excessivamente longo ciclo formativo, quando as ideias e as hipóteses bailavam em seu cérebro, assim como a maneira como tal ou qual possibilidade se encaminharia. O terceiro ano do segundo grau se desenrolava sem grandes tropeços ou percalços e o seu desfecho acabara por se dar em conformidade com o que seria recomendável, noves fora um pequeno susto causado por uma greve professoral deflagrada quase no fim do ano letivo, cuja consequência para o alunado foi a postergação da colação de grau por alguns dias e, consequente adiamento da entrega dos certificados comprobatórios da conclusão de curso. Fora este pequeno incidente de ordem institucional, nada mais houve que viesse a obstar aquele fim de processo.

Mas, fora deste transcorrer de caminhada escolar formal, havia que se encetar gestões no sentido de dar largas aos novos pensamentos que lhe brotaram com o intuito de viabilizar a preparação para as outras etapas do seu processo formativo. Neste sentido, convinha encontrar as pessoas e os meios para que ele pudesse fazer frente ao novo caminhar.

Portanto, era preciso considerar que, àquela altura do seu caminhar processual,  a José Mário faltava tudo: as bases elementares para o enfrentamento de um vestibular, em condições mínimas de aprovação – rudimentos matemáticos, de física, de química, de biologia, conhecimentos em diversas outras áreas que, ao concluir o segundo grau, ele já deveria possuir, entre outras deficiências formativas –; de sorte que a sua investida não fosse vã e frustrante, uma vez que, como se já salientou, a sua idade já se fazia avançar, no sentido de iniciar e concluir mais uma etapa de preparação para o mercado de trabalho – os dispositivos legais em vigor naquele instante de sua vida, indicavam que a realização de concurso público só seria possível até os trinta anos completos –, o que insidia em mais pressão sobre aquele rapaz que em breve, entraria no início do seu segundo quartel de existência. Também, a ele faltavam os recursos financeiros que lhe permitissem ingressar em algum curso pré-vestibular; que lhe permitisse uma eventual contratação de professor para uma ou duas matérias específicas; recursos tiflológicos que lhe permitissem  aceder às matérias por meio do sistema Braille, no sentido de lhe propiciar uma maior e melhor apreensão dos conteúdos propedêuticos necessários à obtenção de êxito naquela empreitada – sem falar que não possuía nem mesmo a grana para a inscrição no dito cujo. Mas, ele também não dispunha de um espaço adequado para a realização de leituras/estudos dos livros e matérias propostas, o que dificultava um pouquinho mais a sua preparação. Era, pois, um tempo de escassez de quase tudo; até mesmo dos meios para a sua manutenção cotidiana, o que obrigava a reduzir ao factível as possíveis ambições; o que limitava até mesmo os sonhares, na medida em que, apesar de sonhar não haver custo, ele estava sujeito à possibilidade de se fazer frente ao custo de sua realização. Talvez, seja preciso lembrar ao arguto leitor que, tudo isto atuava como elemento limitador e, mesmo, inibidor para qualquer intento de ser isto, fazer aquilo..., enfim, se fazer “homem”, conforme entendia a sua genitora: ter com que se manter.

Conforme o leitor pode perceber, aquele pretenso vestibulando estava fadado ao fracasso ou à desistência, devido à falta das condições normais de pressão e temperatura, no tempo em que estava inserido o seu caminhar terráqueo. Mas, ao que parece, a palavra “desistência” não era de emprego comum para aquele sujeito teimoso, nem o verbo “desistir” era facilmente conjugado por ele, embora esta parte da gramática ele dominasse bem. Acredita-se que precisaria mesmo conjugar o verbo “insistir”, pois, outra conjugação, saliente-se, não seria do seu feitio, visto ser aquele conjugar uma necessidade presente e constante no seu trilhar da vida formativa. Assim pensando, estava ele assim fazendo. enquanto o ano de 1985 corria célere, ele entabulava conversas com os seus poucos amigos, que logo se dispuseram a caminhar com ele aquela jornada. Um deles, garantira-lhe o recurso necessário para a feitura da inscrição e outra, dedicara-lhe tempo e paciência para que ele pudesse dirimir dúvidas e aprender o que desconhecia sobre a língua portuguesa e a literatura, campo em que, embora fosse excelente e profuso leitor –de acordo com o que já se arrazoou em escritos pretéritos –, carecia de conhecimentos teóricos que lhe fizessem compreender os elementos formadores e norteadores do fazer literário: escolas, formatos, modos de composição, entre outras características que, certamente, seriam cobradas em forma de questões e, que ele, não saberia responder adequada e corretamente. De sorte que, enquanto se empenhava em concluir o segundo grau, paralelamente, ele se esforçava por obter uma preparação, ainda que mínima, para se submeter à seleção que, sendo aprovado, o levaria  ingressar em um curso de grau superior.

Para concluir estes garatujares, cabe salientar que algum vento também lhe soprara a favor, na medida em que a oferta dos cursos a serem disputados naquele próximo exame, trouxera uma boníssima novidade. No arrazoado anterior, foi comentado que o curso que lhe era possível postular em sua cidade, o que não demandaria custos extraorçamentários para o seu acompanhamento, era o de Licenciatura Curta em Estudos Sociais, o que lhe provocara alguma resistência em se candidatar, visto ser aquele, um curso inventado/imposto pela Ditadura Militar que se impusera ao País, mediante golpe perpetrado em abril de 1964 e, que para ele, soava como incongruente, na medida em que o seu objetivo era impedir que a História, a Filosofia e a Sociologia – pretensamente embutidas  naquela matéria draconiana –, viesse a criar um espírito crítico nos estudantes – ou amortecer a criticidade naquele que eventualmente já a possuísse. No entanto, começara a correr entre os concluintes do segundo grau e, claro, chegara até ele, o boato que, na verdade, aquele curso de Estudos sociais, em forma de licenciatura curta – com uma duração de dois anos e meio, provocando a necessidade de uma complementação, o que só se daria em Feira de Santana –, seria substituído pelo curso de História, com duração plena. Imediatamente, José Mário correu para se certificar da novidade e, tendo sido informado da procedência da informação, mais ainda se interessou por se preparar para enfrentar aquele certame, por meio do qual, buscaria fazer parte daquela que seria a primeira turma de História que se formaria com o preenchimento das quarenta vagas que foram disponibilizadas para aqueles que se habilitassem a concorrer a uma delas.

 

Alagoinhas – 12 de outubro de 2025 – primavera brasileira

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com

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