A transição – II.
Retomando
a escrita iniciada há alguns dias, quando se discorreu sobre o primeiro momento
em que se iniciava uma transição marcada pelos lapsos de ideias que se
afiguravam no cérebro do protagonista destes garatujares, em que se cogitava um
novo caminhar que partiria da conclusão do ensino médio para se fazer ingressar
no ensino superior, aqui se procurará dar continuidade ao arrazoado que deu
início à série que o paciente leitor ora tem diante de si, na qual o seu autor
se disporá a discorrer sobre o tempo em que José Mário passava a conjecturar
sobre qual seria a maneira por meio da qual se prepararia para o processo seletivo, a partir do qual se
imiscuiria no processo de formação superior, que o faria preparado para se
tornar professor – ao menos, era este o propósito de um curso de licenciatura
-, fornecendo a ele – bem como aos demais discentes –, as ferramentas para a inserção no labor
escolar. Era um “tempo” de decisões que repercutiriam por toda a sua vida, ensejando
aquilo que para José Mário seria uma “virada de chave” – como se diz – para o
caminhar sinuoso que vinha se delineando, o que o obrigaria procurar fazer
daquele decidir, um momento definitivo de afirmação, tanto enquanto cidadão do
mundo, como enquanto alguém que buscava se preparar para construir e desenvolver
uma vida profissional.
Em
conformidade com o postulado de Jacques Le Goff, (1924-2014), ao desenvolver verbete
para a enciclopédia Einaudi, publicado no Brasil em forma de livro pela editora da Unicamp, no
qual assevera que “A memória, como propriedade de conservar certas informações,
remete-nos em primeiro lugar a um conjunto de funções psíquicas, graças às
quais o homem pode atualizar impressões ou informações passadas, ou que ele
representa como passadas” (LE GOFF, 1996, p. 423), é que este escrevente
procurará levantar algumas camadas já bastante espessas acumuladas há um bom já
passar de tempos, intentando trazer alguns fragmentos de lembranças com os
quais possa revisitar aquele passado que aqui se pretende evocar.
No arrazoado anterior, José Mário foi deixado ao sabor dos
seus pensamentos, quando cogitava sobre o que fazer após concluir aquele excessivamente
longo ciclo formativo, quando as ideias e as hipóteses bailavam em seu cérebro,
assim como a maneira como tal ou qual possibilidade se encaminharia. O terceiro
ano do segundo grau se desenrolava sem grandes tropeços ou percalços e o seu desfecho
acabara por se dar em conformidade com o que seria recomendável, noves fora um
pequeno susto causado por uma greve professoral deflagrada quase no fim do ano
letivo, cuja consequência para o alunado foi a postergação da colação de grau por
alguns dias e, consequente adiamento da entrega dos certificados comprobatórios
da conclusão de curso. Fora este pequeno incidente de ordem institucional, nada
mais houve que viesse a obstar aquele fim de processo.
Mas, fora deste transcorrer de caminhada escolar formal,
havia que se encetar gestões no sentido de dar largas aos novos pensamentos que
lhe brotaram com o intuito de viabilizar a preparação para as outras etapas do
seu processo formativo. Neste sentido, convinha encontrar as pessoas e os meios
para que ele pudesse fazer frente ao novo caminhar.
Portanto, era preciso considerar que, àquela altura do seu
caminhar processual, a José Mário faltava
tudo: as bases elementares para o enfrentamento de um vestibular, em condições
mínimas de aprovação – rudimentos matemáticos, de física, de química, de
biologia, conhecimentos em diversas outras áreas que, ao concluir o segundo
grau, ele já deveria possuir, entre outras deficiências formativas –; de sorte que
a sua investida não fosse vã e frustrante, uma vez que, como se já salientou, a
sua idade já se fazia avançar, no sentido de iniciar e concluir mais uma etapa de
preparação para o mercado de trabalho – os dispositivos legais em vigor naquele
instante de sua vida, indicavam que a realização de concurso público só seria
possível até os trinta anos completos –, o que insidia em mais pressão sobre
aquele rapaz que em breve, entraria no início do seu segundo quartel de
existência. Também, a ele faltavam os recursos financeiros que lhe permitissem ingressar
em algum curso pré-vestibular; que lhe permitisse uma eventual contratação de
professor para uma ou duas matérias específicas; recursos tiflológicos que lhe
permitissem aceder às matérias por meio
do sistema Braille, no sentido de lhe propiciar uma maior e melhor apreensão
dos conteúdos propedêuticos necessários à obtenção de êxito naquela empreitada –
sem falar que não possuía nem mesmo a grana para a inscrição no dito cujo. Mas,
ele também não dispunha de um espaço adequado para a realização de leituras/estudos
dos livros e matérias propostas, o que dificultava um pouquinho mais a sua
preparação. Era, pois, um tempo de escassez de quase tudo; até mesmo dos meios
para a sua manutenção cotidiana, o que obrigava a reduzir ao factível as
possíveis ambições; o que limitava até mesmo os sonhares, na medida em que,
apesar de sonhar não haver custo, ele estava sujeito à possibilidade de se
fazer frente ao custo de sua realização. Talvez, seja preciso lembrar ao arguto
leitor que, tudo isto atuava como elemento limitador e, mesmo, inibidor para
qualquer intento de ser isto, fazer aquilo..., enfim, se fazer “homem”,
conforme entendia a sua genitora: ter com que se manter.
Conforme o leitor pode perceber, aquele pretenso
vestibulando estava fadado ao fracasso ou à desistência, devido à falta das
condições normais de pressão e temperatura, no tempo em que estava inserido o
seu caminhar terráqueo. Mas, ao que parece, a palavra “desistência” não era de
emprego comum para aquele sujeito teimoso, nem o verbo “desistir” era
facilmente conjugado por ele, embora esta parte da gramática ele dominasse bem.
Acredita-se que precisaria mesmo conjugar o verbo “insistir”, pois, outra
conjugação, saliente-se, não seria do seu feitio, visto ser aquele conjugar uma
necessidade presente e constante no seu trilhar da vida formativa. Assim pensando,
estava ele assim fazendo. enquanto o ano de 1985 corria célere, ele entabulava
conversas com os seus poucos amigos, que logo se dispuseram a caminhar com ele
aquela jornada. Um deles, garantira-lhe o recurso necessário para a feitura da inscrição
e outra, dedicara-lhe tempo e paciência para que ele pudesse dirimir dúvidas e
aprender o que desconhecia sobre a língua portuguesa e a literatura, campo em
que, embora fosse excelente e profuso leitor –de acordo com o que já se
arrazoou em escritos pretéritos –, carecia de conhecimentos teóricos que lhe
fizessem compreender os elementos formadores e norteadores do fazer literário:
escolas, formatos, modos de composição, entre outras características que,
certamente, seriam cobradas em forma de questões e, que ele, não saberia
responder adequada e corretamente. De sorte que, enquanto se empenhava em
concluir o segundo grau, paralelamente, ele se esforçava por obter uma
preparação, ainda que mínima, para se submeter à seleção que, sendo aprovado, o
levaria ingressar em um curso de grau
superior.
Para concluir estes garatujares, cabe salientar que algum
vento também lhe soprara a favor, na medida em que a oferta dos cursos a serem
disputados naquele próximo exame, trouxera uma boníssima novidade. No arrazoado
anterior, foi comentado que o curso que lhe era possível postular em sua
cidade, o que não demandaria custos extraorçamentários para o seu
acompanhamento, era o de Licenciatura Curta em Estudos Sociais, o que lhe
provocara alguma resistência em se candidatar, visto ser aquele, um curso
inventado/imposto pela Ditadura Militar que se impusera ao País, mediante golpe
perpetrado em abril de 1964 e, que para ele, soava como incongruente, na medida
em que o seu objetivo era impedir que a História, a Filosofia e a Sociologia –
pretensamente embutidas naquela matéria
draconiana –, viesse a criar um espírito crítico nos estudantes – ou amortecer
a criticidade naquele que eventualmente já a possuísse. No entanto, começara a correr
entre os concluintes do segundo grau e, claro, chegara até ele, o boato que, na
verdade, aquele curso de Estudos sociais, em forma de licenciatura curta – com uma
duração de dois anos e meio, provocando a necessidade de uma complementação, o
que só se daria em Feira de Santana –, seria substituído pelo curso de
História, com duração plena. Imediatamente, José Mário correu para se
certificar da novidade e, tendo sido informado da procedência da informação,
mais ainda se interessou por se preparar para enfrentar aquele certame, por
meio do qual, buscaria fazer parte daquela que seria a primeira turma de
História que se formaria com o preenchimento das quarenta vagas que foram
disponibilizadas para aqueles que se habilitassem a concorrer a uma delas.
Alagoinhas – 12 de outubro de 2025 – primavera brasileira
Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com
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