domingo, 26 de outubro de 2025

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte IV.

 

A transição – IV.

 

Não obstante os arrazoados aqui postados se enquadrarem naquilo que se poderia denominar de “História do presente”, bem como a sua substância elementar estar situada na memória, o “Tempo presente” é o seu eixo monumental, indicando que as camadas que foram levantadas pelo indivíduo que lembra, o foram de modo aa atender ao estímulo produzido pelo pertencimento à sociedade que fornece o instrumental indispensável para que tais lembranças possam ser ativadas, permitindo ao ser que lembra, dispô-los de tal forma que seja possível reconstituir aquele passado no qual estavam mergulhadas situações, circunstâncias, sensações e movimentos que marcaram o seu transitar no cotidiano vivido em um tempo já há muito mergulhado na profundeza daquela história que se quer rememorar, ao menos, alguma faceta que dela emerge do esquecimento e/ou do silenciamento. “A memória introduz o passado no presente sem modificá-lo, mas  necessariamente atualizando-o; é preciso considerar atentamente que o  passado é por via de regra plural, um pulsar da descontinuidade. [...].” (SEIXAS, 2001, p. 50). Mobilizar  camadas do passado já cobertas por outras muitas que foram acumuladas ao longo do tempo e trazê-las para a superfície, implica em um exercício de estimulação daquelas lembranças que farão o construto de um rememorar expresso no falar e/ou no escrever. Conforme preconiza Bosi em sua “Memória e sociedade: lembranças de Velhos”: “Por muito que deva à memória coletiva, é o indivíduo que recorda. Ele é o memorizador e das camadas do passado a que tem acesso  pode reter objetos que são, para ele, e só para ele, significativos dentro  de um tesouro comum” (BOSI, 1994, p. 411).

É neste sentido que se pretende desenvolver mais este arrazoado que tem José Mário, uma vez mais como protagonista, quando se dispõe a percorrer o caminho que o poderá conduzir à Faculdade de Formação de Professores de Alagoinhas, para ali, desenvolver o processo que, concluído, fará dele um professor de História. Nele, se inscreve a sua busca por melhorar as suas condições de competitividade, na medida em que procurará meios e pessoas que o possam ajudar a percorrer mais esta etapa. Imbuído deste propósito, ele começa a imaginar por quais áreas  precisaria enfrentar as fragilidades formativas, no intento de abarcar ao menos os aspectos delas seria preciso atacar de imediato.

Portanto, vencidas as primeiras etapas daquela caminhada, era preciso seguir, indo  mais além, entendendo-se com aqueles professores que pudessem contribuir com ele, agora em um capo mais prático, visto que a sua defasagem era muito grande em todas as áreas do saber, mormente, naquelas em que envolviam as “Ciências duras”: matemática, química, física, biologia, visto serem os seus desempenhos bem fracos nelas e que, precisaria pontuar minimamente, para compensar naquelas outras em que ele tivera um aproveitamento melhor e, cujo peso – que ele sequer entendia o que seria aquilo – era maior, no momento da avaliação correspondente à área escolhida.

Não obstante José Mário conhecer alguns professores de boa qualidade e de boa índole que trabalhavam com as ciências exatas, ele não possuía relações de amizade com qualquer deles; ou, aquele poucos que se disporiam a emprestar-lhe tempo e suporte naquele campo, estavam impedidos de o fazer, dado aos seus afazeres profissionais e pessoais – além da distância entre os seus lugares de morada, bem como a falta de meios que propiciasse o deslocamento -, o que obstaculizavam o atendimento daquele aluno em sua necessidade objetiva de reduzir o fosso entre o que ele aprendera no transcurso regular do seu processo escolar e, aquilo que precisaria aprender e apreender, visando a feitura das provas vestibulares.

Quanto ao campo das ciências humanas, ele se propôs a realizar estudos/leituras solo, aproveitando uma razoável publicação de livros em Braille que abarcava minimamente a produção do conhecimento pertinente àquela área. História, geografia e afins, era possível de obter em Braille, mediante solicitação à Fundação para o Livro do Cego no Brasil. Para realizar aquele tipo de estudo, José Mário se obrigava a uma disciplina e a uma rotina, de modo a se manter constante no objetivo que se propôs a alcançar.

Entretanto, ele não se sentiu seguro em levar a cabo um estudo solo da língua portuguesa, da sua gramática e da sua literatura. Para aquela tarefa, ele pode contar com o préstimo valiosíssimo da sua professora no Estadual em algumas das suas fases de escolarização. Era a professora Edna Garcia Batista (1945-2017), que não só se prontificou a partilhar com José Mário os seus vastos e sólidos conhecimentos da matéria, como o recebera em sua casa para lhe proporcionar aquelas lições que foram tão úteis, não só para o vestibular, como também para a vida pessoal e acadêmica futura. Munido de uma gramática que possuía transcrita em Braille, nos dias aprazados e nas longas tardes quentes de dezembro de 1985 e de janeiro do ano seguinte, ele comparecia para as aulas da mestre que, evidentemente não estava limitada a uma única gramática como ele, mas apresentava os conteúdos com a leveza de quem dominava o idioma e a literatura que largamente o fazia compreender. Nem é preciso dizer que aquelas aulas foram de grande valia para aquele estudante frágil em seu acúmulo propedêutico, na medida em que possibilitou o seu bom desempenho nas provas relacionadas ao conteúdo cobrado nas questões de língua e literatura, quanto nas construção do texto redacional correspondente àquele certame.

Assim, entre bons goles de café e excelente pão fresco oriundo das mãos do senhor Lourival, seu marido, as aulas fluíam agradáveis, malgrado o calor quase sufocante que se procurava minimizar com ventiladores tão quentes quanto o ambiente. Seria interessante notar que não assoma à lembrança deste garatujador, a ocorrência daquelas chuvas quase devastadoras, comuns na Alagoinhas daquela época do ano. O que indica não ter havido qualquer intercorrência que exigisse a suspensão daquelas agradáveis tardes de excelente companhia e de grande aprendizagem.

 

Alagoinhas – 26 de outubro de 2025 – primavera brasileira.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

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