O SUSTO
Em mais um desfolhar de
lembranças de um garatujador que insiste em escavar as espessas camadas quase
fossilizadas de memórias que cobrem um tempo já pretérito, aqui se pretende trazer
mais uma das vicissitudes enfrentadas por José Mário, no seu intento de
prosseguir o seu processo formativo, por meio do qual ele viesse a pleitear um
lugar como cidadão socialmente ativo e, economicamente produtivo. Quando,
retoricamente, Jean-Pierre Rioux pergunta se é possível “Fazer uma História do
Presente”, depois de apontar as objeções enfrentadas por este tipo de “fazer
histórico”, em seguida ele apresenta a resposta à indagação com a qual abre o
seu postulado, afirmando que “Essa história, de
fato, por ser feita com testemunhas vivas e fontes proteiformes, porque é
levada a desconstruir o fato histórico sob a pressão dos meios de comunicação,
porque globaliza e unifica sob o fogo das representações tanto quanto das
ações, pode ajudar a distinguir talvez de forma mais útil do que nunca o
verdadeiro do falso.”. E, logo adiante, Rioux arremata a resposta à formulação por
ele proposta, asseverando que
“[...],se ela tem como missão, como toda história digna deste nome,
mostrar a evidência científica das verdades materiais diante do esquecimento,
da amnésia ou do delírio ideológico, (pensemos, por exemplo, nos que negam as
câmaras de gás), ela sem dúvida está mais apta a explicar do que a verdade
estatística da enumeração, da qual somos tão apreciadores; ela não evita ver em
ação a verdade psicológica da intenção, a humilde verdade do plausível, a força
da questão da memória sobre o curso do tempo” (RIOUX, 1999, pp. 48-49).
É pensando neste construto teórico e metodológico acima apenas esboçado,
que se vem elaborando estes arrazoados fincados nos rememorares que quem
traceja as linhas que ora os leitores têm diante de si. Depois de ter superado
as intercorrências que se apresentaram diante de si para dar início aos seus
planos de preparação com o objetivo de estar apto para enfrentar o vestibular
que o poderia levar ao principiar de um novo estradar da vida, José Mário se encontrara
diante de um problema que poderia embargar o seu caminhar naquela direção e,
sem que ele pudesse intentar qualquer ação para o resolver, poderia frustrar
todo o esforço até ali despendido. Como um rastilho de pólvora, correra entre o
professorado a notícia de que um movimento grevista poderia ser deflagrado, a
qualquer momento, tendo em vista o fracasso de negociações salariais entre a
categoria e o governo do Estado. Como fogo que ardia sob monturo, aquela probabilidade
de interrupção do ano letivo, já quase próximo da sua conclusão, acabou por chegar
aos ouvidos do alunado, provocando nele uma grande ansiedade, principalmente,
naquele grupo de alunos que estava por concluir o terceiro ano do segundo grau,
obstando-lhe, em caso de concretização da notícia que circulava, a obtenção dos
certificados que faria daqueles alunos inseridos no referido grupo, prontos
para os caminhares que escolhessem e/ou que pudessem prosseguir caminhando.
Era fim de novembro de 1985, quando ansiosos, José Mário e
um bom número de outros secundaristas, se dirigiram ao “Estadual”, depois de
terem realizado as últimas avaliações, para ali receberem os seus resultados e,
saberem se houvera passado “direto” ou se ainda ficariam em regime de
recuperação de alguma outra matéria. Ao saber que estava concluída a sua
jornada escolar no âmbito do “Segundo grau”, José Mário voltara para casa,
fazendo o trajeto a pé, a despeito do calor daquela manhã, para que, segundo imaginava,
enquanto caminhasse, ele poderia ruminar aquele resultado, aquele aprovar que
recebera, depois de um longo e cansativo ano escolar, que lhe impusera mais um
grande feixe de esforços, tanto físicos
quanto mentais, para alcançar aquele tão esperado quanto desejado resultado. O
tal ruminar se fazia necessário, para que ele pudesse se dar conta de que de
fato, tudo estava terminado, tudo o que precisava cumprir naquela etapa do seu
processo de escolarização estava, enfim, formal e plenamente cumprido, para que
ele mesmo pudesse acreditar que sim, que estava mesmo concluído aquele longo e
difícil processo.
Assim pensando, ele saíra dos portões escolares, cuja frente
voltava-se para a rua Maria Feijó, seguira a esquerda em direção à Rua 21 de
abril, tendo percorrido toda a sua extensão, até alcançar a rua Severino
Vieira, virando a direita para alcançar a travessia da avenida Juracy Magalhães
e, prosseguir na rua Severino Vieira, até alcançar a Rua Luís Viana, entrando a
esquerda, para alcançar a Coronel Philadelpho Neves, na qual entraria à
direita, percorrendo-a por todo o resto de sua extensão, para em seguida, atravessar
a via férrea, por onde ainda circulavam uns poucos trens, situada na altura da
rua 2 de Julho, entrando, em seguida, na segunda travessa 2 de Julho, que o
levaria, enfim, ao seu espaço de residência, perfazendo assim, uma distância de
mais ou menos três quilômetros. Naquele trajeto ora ainda calmo e de pouco
movimento de automóveis e mesmo de pessoas, José Mário acabou por mergulhar em
reflexões que o remetera aos primeiros anos de sua vida escolar, muitas vezes
sendo uma parte daquele trajeto, no sentido que ele fazia, o mesmo que o seu
irmão o levara pela mão ou no quadro de sua velha bicicleta, para que pudesse
chegar ao Brasilino Viegas, onde então estudara por todo o “primário”; também
lembrara das inúmeras vezes que, sozinho, fizera aquele mesmo trajeto, em
manhãs agradavelmente aromatizadas por diversidades de cheiros que ele aspirava
com alegria indizível, quando se dirigia àquele mesmo estadual de onde ora
voltava mergulhado nos seus pensamentos retrospectivos. Ali, sob o sol das dez
de uma manhã primaveril, José Mário não só pensara no que fora, mas, como é
parte do seu interior, procurara imaginar o que poderia vir a ser dali adiante,
sem atinar, no entanto, o que seria aquele “vir a ser”.
Portanto, ao dar largas aos seus imaginares, quase voou para
um lugar onde ele nunca antes imaginara pudesse chegar, não obstante os
obstáculos que, de antemão, ele já sabia
que teria de ultrapassar; pensara que, uma vez aprovado no vestibular que em
breve realizaria e, uma vez desenvolvido o curso para o qual estava inscrito
para concorrer, ele poderia vir a ser um professor..., sim, um professor, de
alguma escola regular, trabalhando com alunos que, diferentemente dele, não
teriam dificuldades com o acesso à leitura, à escrita, ao conjunto de saberes
que precisariam acumular, do mesmo modo como ele acumulara; alunos que talvez o
admirassem, o detestassem, o desprezassem, ou lhe fossem indiferentes. Aquilo
em si, pouco lhe importara naquele momento de conjecturares fora de quaisquer
razoabilidades. O que ali importava mesmo, fora o seu imaginar para além do
caminho que ele já houvera palmilhado até o instante que se dirigia à sua casa,
radiante por enfim, ter fechado aquele ciclo tão longo e cheio de percalços.
Entretanto, já tendo chegado dezembro de 1985 e, passado
alguns dias após ele ter recebido os resultados finais relativos ao terceiro
ano do “segundo grau”, vê-se confirmada a disposição dos professores em
deflagrar o movimento paredista que, conforme se salientou, era corrente de
boca em boca, primeiro entre os docentes, depois, entre os alunos, já nos dias
finais do mês anterior à sua efetivação. José Mário acabou por assustar-se,
pois, embora não mais o atingisse, no que respeitava à conclusão do ano letivo,
visto não ter ficado em recuperação de qualquer matéria, não ficou claro para
ele, se o prejuízo não se estenderia àqueles que viessem a precisar da
certificação de concluintes. O impasse entre governo e grevistas logo foi solucionado.
No entanto, a colação de grau – evento que ele se recusou a participar, por
achar desnecessário e, ser meramente protocolar -, acabou por se dar nos
primeiros dias de janeiro do ano subsequente, portanto, antes da realização das
provas do vestibular, para as quais ele já se vinha preparando há pelo menos
dois ou três meses.
Alagoinhas – 02 de novembro de 2025 – primavera brasileira.
Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com
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