domingo, 2 de novembro de 2025

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte V.

   O SUSTO

 

Em mais um desfolhar de lembranças de um garatujador que insiste em escavar as espessas camadas quase fossilizadas de memórias que cobrem um tempo já pretérito, aqui se pretende trazer mais uma das vicissitudes enfrentadas por José Mário, no seu intento de prosseguir o seu processo formativo, por meio do qual ele viesse a pleitear um lugar como cidadão socialmente ativo e, economicamente produtivo. Quando, retoricamente, Jean-Pierre Rioux pergunta se é possível “Fazer uma História do Presente”, depois de apontar as objeções enfrentadas por este tipo de “fazer histórico”, em seguida ele apresenta a resposta à indagação com a qual abre o seu postulado, afirmando que “Essa história, de fato, por ser feita com testemunhas vivas e fontes proteiformes, porque é levada a desconstruir o fato histórico sob a pressão dos meios de comunicação, porque globaliza e unifica sob o fogo das representações tanto quanto das ações, pode ajudar a distinguir talvez de forma mais útil do que nunca o verdadeiro do falso.”. E, logo adiante, Rioux arremata a resposta à formulação por ele proposta, asseverando que

 

“[...],se ela tem como missão, como toda história digna deste nome, mostrar a evidência científica das verdades materiais diante do esquecimento, da amnésia ou do delírio ideológico, (pensemos, por exemplo, nos que negam as câmaras de gás), ela sem dúvida está mais apta a explicar do que a verdade estatística da enumeração, da qual somos tão apreciadores; ela não evita ver em ação a verdade psicológica da intenção, a humilde verdade do plausível, a força da questão da memória sobre o curso do tempo” (RIOUX, 1999, pp. 48-49). 

 

É pensando neste construto teórico e metodológico acima apenas esboçado, que se vem elaborando estes arrazoados fincados nos rememorares que quem traceja as linhas que ora os leitores têm diante de si. Depois de ter superado as intercorrências que se apresentaram diante de si para dar início aos seus planos de preparação com o objetivo de estar apto para enfrentar o vestibular que o poderia levar ao principiar de um novo estradar da vida, José Mário se encontrara diante de um problema que poderia embargar o seu caminhar naquela direção e, sem que ele pudesse intentar qualquer ação para o resolver, poderia frustrar todo o esforço até ali despendido. Como um rastilho de pólvora, correra entre o professorado a notícia de que um movimento grevista poderia ser deflagrado, a qualquer momento, tendo em vista o fracasso de negociações salariais entre a categoria e o governo do Estado. Como fogo que ardia sob monturo, aquela probabilidade de interrupção do ano letivo, já quase próximo da sua conclusão, acabou por chegar aos ouvidos do alunado, provocando nele uma grande ansiedade, principalmente, naquele grupo de alunos que estava por concluir o terceiro ano do segundo grau, obstando-lhe, em caso de concretização da notícia que circulava, a obtenção dos certificados que faria daqueles alunos inseridos no referido grupo, prontos para os caminhares que escolhessem e/ou que pudessem prosseguir caminhando.

Era fim de novembro de 1985, quando ansiosos, José Mário e um bom número de outros secundaristas, se dirigiram ao “Estadual”, depois de terem realizado as últimas avaliações, para ali receberem os seus resultados e, saberem se houvera passado “direto” ou se ainda ficariam em regime de recuperação de alguma outra matéria. Ao saber que estava concluída a sua jornada escolar no âmbito do “Segundo grau”, José Mário voltara para casa, fazendo o trajeto a pé, a despeito do calor daquela manhã, para que, segundo imaginava, enquanto caminhasse, ele poderia ruminar aquele resultado, aquele aprovar que recebera, depois de um longo e cansativo ano escolar, que lhe impusera mais um grande feixe  de esforços, tanto físicos quanto mentais, para alcançar aquele tão esperado quanto desejado resultado. O tal ruminar se fazia necessário, para que ele pudesse se dar conta de que de fato, tudo estava terminado, tudo o que precisava cumprir naquela etapa do seu processo de escolarização estava, enfim, formal e plenamente cumprido, para que ele mesmo pudesse acreditar que sim, que estava mesmo concluído aquele longo e difícil processo.

Assim pensando, ele saíra dos portões escolares, cuja frente voltava-se para a rua Maria Feijó, seguira a esquerda em direção à Rua 21 de abril, tendo percorrido toda a sua extensão, até alcançar a rua Severino Vieira, virando a direita para alcançar a travessia da avenida Juracy Magalhães e, prosseguir na rua Severino Vieira, até alcançar a Rua Luís Viana, entrando a esquerda, para alcançar a Coronel Philadelpho Neves, na qual entraria à direita, percorrendo-a por todo o resto de sua extensão, para em seguida, atravessar a via férrea, por onde ainda circulavam uns poucos trens, situada na altura da rua 2 de Julho, entrando, em seguida, na segunda travessa 2 de Julho, que o levaria, enfim, ao seu espaço de residência, perfazendo assim, uma distância de mais ou menos três quilômetros. Naquele trajeto ora ainda calmo e de pouco movimento de automóveis e mesmo de pessoas, José Mário acabou por mergulhar em reflexões que o remetera aos primeiros anos de sua vida escolar, muitas vezes sendo uma parte daquele trajeto, no sentido que ele fazia, o mesmo que o seu irmão o levara pela mão ou no quadro de sua velha bicicleta, para que pudesse chegar ao Brasilino Viegas, onde então estudara por todo o “primário”; também lembrara das inúmeras vezes que, sozinho, fizera aquele mesmo trajeto, em manhãs agradavelmente aromatizadas por diversidades de cheiros que ele aspirava com alegria indizível, quando se dirigia àquele mesmo estadual de onde ora voltava mergulhado nos seus pensamentos retrospectivos. Ali, sob o sol das dez de uma manhã primaveril, José Mário não só pensara no que fora, mas, como é parte do seu interior, procurara imaginar o que poderia vir a ser dali adiante, sem atinar, no entanto, o que seria aquele “vir a ser”.

Portanto, ao dar largas aos seus imaginares, quase voou para um lugar onde ele nunca antes imaginara pudesse chegar, não obstante os obstáculos que, de antemão,  ele já sabia que teria de ultrapassar; pensara que, uma vez aprovado no vestibular que em breve realizaria e, uma vez desenvolvido o curso para o qual estava inscrito para concorrer, ele poderia vir a ser um professor..., sim, um professor, de alguma escola regular, trabalhando com alunos que, diferentemente dele, não teriam dificuldades com o acesso à leitura, à escrita, ao conjunto de saberes que precisariam acumular, do mesmo modo como ele acumulara; alunos que talvez o admirassem, o detestassem, o desprezassem, ou lhe fossem indiferentes. Aquilo em si, pouco lhe importara naquele momento de conjecturares fora de quaisquer razoabilidades. O que ali importava mesmo, fora o seu imaginar para além do caminho que ele já houvera palmilhado até o instante que se dirigia à sua casa, radiante por enfim, ter fechado aquele ciclo tão longo e cheio de percalços.

Entretanto, já tendo chegado dezembro de 1985 e, passado alguns dias após ele ter recebido os resultados finais relativos ao terceiro ano do “segundo grau”, vê-se confirmada a disposição dos professores em deflagrar o movimento paredista que, conforme se salientou, era corrente de boca em boca, primeiro entre os docentes, depois, entre os alunos, já nos dias finais do mês anterior à sua efetivação. José Mário acabou por assustar-se, pois, embora não mais o atingisse, no que respeitava à conclusão do ano letivo, visto não ter ficado em recuperação de qualquer matéria, não ficou claro para ele, se o prejuízo não se estenderia àqueles que viessem a precisar da certificação de concluintes. O impasse entre governo e grevistas logo foi solucionado. No entanto, a colação de grau – evento que ele se recusou a participar, por achar desnecessário e, ser meramente protocolar -, acabou por se dar nos primeiros dias de janeiro do ano subsequente, portanto, antes da realização das provas do vestibular, para as quais ele já se vinha preparando há pelo menos dois ou três meses.

 

Alagoinhas – 02 de novembro de 2025 – primavera brasileira.

 

Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

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