domingo, 9 de novembro de 2025

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte VI.

Ainda em Dezembro

 

Com o intento de discorrer ainda uma vez mais sobre algumas das facetas do caminhar de José Mário em seu processo formativo, aqui se pretende trazer à lume mais uma dentre elas, na medida em que ele se encaminha para o enfrentamento de mais uma de suas etapas. Sem deixar de reforçar o que há algumas páginas se vem afirmando, isto é, que estes garatujares são originados de rememorares escavados das camadas de tempo que estão sobrepostas em blocos mais ou menos espessos, mais ou menos profundos, demarcados por um passar de tempo que acaba por forjar um passado ainda não passado de todo, cujos vestígios ainda aparecem no presente, com mais ou menos nitidez para aquele que lembra e/ou se dispõe a lembrar. Assim, um tal passado emerge diante de quem lembra, embora com ressignificações impostas pelo presente, considerando-se os elementos que foram incorporados no curso da vida; considerando-se as camadas de outras experiências que acabaram por interpolar àqueles lembrares, formando um conjunto de elementos cada vez mais interrelacionados ao passado que se quer lembrar. É assim que, ao procurar exercitar o rememorar, aquele que lembra acaba selecionando aquilo que lembra; depois, escolhendo de acordo com as necessidades e/ou com as possibilidades, aquilo que vai dar a conhecer daquilo que lembrou, ou o que vai silenciar, de acordo com os interditos que se lhes sejam socialmente impostos. De sorte que, aquilo que é proposto por Michel de Certeau, ao explicar a “Operação historiográfica”, indicando que a sociedade e o seu conjunto de entidades cercam o historiador com os seus conjuntos de limites e de possibilidades na condução da sua pesquisa, também, com a devida vênia, pode-se aplicar ao processo de lembrar, esquecer, silenciar da memória.

É assim que, em um dos capítulos que integra a obra coletiva de 2012 – “Os Novos Domínios da História” –, organizada por Ciro Flamarion Santana Cardoso (1943-2013) e por Ronaldo Vainfas (1956-), Márcia Menendes Motta, ao falar sobre o binômio “história” e “Memória”, fundamentando-se em argumentação construída por autores franceses como Maurice Halbwachs (1877-1945) e Pierre Nora (1931-2025), sustenta o postulado segundo o qual

 

“[...] a memória e a história não são sinônimos, pois, diferentemente da primeira, a história aposta na descontinuidade, visto que ela é, ao mesmo tempo, registro, distanciamento, problematização, crítica e reflexão; ela é manejada, reconstruída a partir de outros interesses e em direção diversa, e, para se opor à memória, a história tem ainda o objetivo de denunciar e investigar os elementos que foram sublimados ou mesmo ignorados pela memória” (MOTTA, 2012, p. 25).

Já no parágrafo seguinte, Motta apresenta ao seu leitor o paradigma sobre o qual lastreia a sua compreensão daquilo que vem a se constituir na “memória, assegurando que

 

Quando falamos de memória, devemos levar em conta que ela constrói uma linha reta com o passado, alimentando-se de lembranças vagas, contraditórias e sem nenhuma crítica às fontes que, em tese, embasariam essa mesma memória. Ela é ainda, segundo Nora, ”um fenômeno sempre atual, um elo vivido no eterno presente”. (Nora, 1993, p. 9). [...]” (MOTTA, 2012, p. 25).

 

Ao citar Nora 1993, Motta reforça a proposição de que a “memória” se alimenta de fragmentos e, por meio deles, ela procura se ancorar naquele passado que evoca no presente. Motta conclui as proposições trazidas para este escrevinhar, assegurando que

 

“Se entendermos que a memória só se explica pelo presente, isso significa também afirmar que é deste presente que ela recebe incentivos para se consagrar enquanto um conjunto de lembranças de determinado grupo. São, assim, os apelos do presente que explicam por que a memória retira do passado apenas alguns dos elementos que possam lhe dar uma forma ordenada e coerente. [...].” (MOTTA, 2012, p. 25).

Assim, considerando os postulados apresentados nas passagens aqui transcritas, este escrevedor  traz para o seu leitor, mais alguns fragmentos dos rememorares a respeito do processo em que José Mário vivenciara quando procurava se apropriar dos conteúdos necessários ao alcance do seu intento de ingressar no ensino superior. Ainda era dezembro de 1985. Conforme é cediço, aquele era o tempo que demarcava a passagem de estação; era o mês de manhãs frescas e embaladas pelo trinar dos pássaros que, com sua diversidade de espécies e cantares, agradavam os ouvidos de quem atentasse para o seu chilrear; também, aquelas manhãs de fim de primavera e início de verão, traziam deliciosos aromas aos olfatos mais sensíveis, que se dissipavam com o avançar das horas matinais; manhãs enfim, que traziam os primeiros raios de um novo dia tão desejado quanto esperado. O meio do dia e o início da tarde, eram marcados por um aumento gradual da temperatura ambiente, tendo o seu ponto mais alto, o período das treze horas, declinando à medida em que avançava a tarde e principiava o pôr do sol. Com ele, uma vez mais o trinar dos pássaros, o cacarejar dos galináceos que procuravam se abrigar do anoitecer que se aproximava, bem como, os primeiros buzinares das cigarras, indicando por aquela sinfonia, a aproximação e o começo da noite, por vezes, mornam nas suas primeiras horas e, um pouco mais amenas, à medida em que se aproximava a madrugada seguinte. Assim eram os dezembros que permeavam a memória de José Mário que, precisamente naquele dezembro completaria o seu primeiro quartel de século, com as mesmas incertezas que o cercavam nos natalícios anteriores, sobretudo, aqueles vividos a partir do momento em que tomara consciência da vida.

Marcado por um cogitar constante em torno do seu vir a ser, José Mário era constantemente atormentado pela constatação de que nada se lhe apresentava no longínquo horizonte das possibilidades, uma vez que, àquela altura do seu caminhar, nada havia que lhe desse qualquer segurança de futuro. As questões sem respostas se acotovelavam no seu espírito, perturbando-o e dificultando a sua concentração nos estudos que precisava desenvolver com vistas ao vestibular que enfrentaria dali há alguns dias. Para ele, tudo era uma incógnita; nada se lhe parecia verossímil; nada se lhe apresentava como crível, fosse qual fosse a medida de prazo que interpusesse. Por mais que se esforçasse para obter alguma resposta plausível, ainda que provisória, temporária ou sujeita à condicionantes as mais diversas, era obstado pela percepção que possuía da sua realidade concreta e palpável. Eram os vinte e cinco anos que se aproximavam e, que dentro em pouco se completariam, que fazia com que os seus pensamentos se turvassem dentro de si; que diversos embates se travassem em seu espírito tão irrequieto quanto cético, na medida em que não atinava para nenhum porvir concretamente alcançável a partir do seu lugar social.

Portanto, para ele, o completar mais um ano, era entrar uma vez mais, no terreno das hipóteses não demonstradas; era ingressar no campo do talvez, quem sabe, pode ser que... Logo, não havia o que comemorar nem celebrar; era mais um ano que acabara de passar sem qualquer coisa de sua, sem qualquer vestígio de possibilidade de alguma coisa: um ano a mais completado de interrogações não respondidas; e, o que se iniciava, era um ano a mais para sofrer a mesma falta de respostas concretas, de realizações duradouras e passivas de render frutos reais e incorporáveis ao seu viver diário. Era apenas mais um virar de calendários; era mais um insano espoucar de fogos de artifício que a ele não dizia respeito; era mais um estourar de champagnes que estava longe do seu alcance, tanto no que respeita à capacidade financeira de aquisição, quanto na compreensão de um sentido que ele não encontrava em tais manifestações de júbilo, visto que, para ele, o tal júbilo não quisera passar no seu existir concreto e real.

 

Alagoinhas – 09 de novembro de 2025 – primavera brasileira.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

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