Ainda em Dezembro
Com o intento de discorrer
ainda uma vez mais sobre algumas das facetas do caminhar de José Mário em seu
processo formativo, aqui se pretende trazer à lume mais uma dentre elas, na
medida em que ele se encaminha para o enfrentamento de mais uma de suas etapas.
Sem deixar de reforçar o que há algumas páginas se vem afirmando, isto é, que
estes garatujares são originados de rememorares escavados das camadas de tempo
que estão sobrepostas em blocos mais ou menos espessos, mais ou menos profundos,
demarcados por um passar de tempo que acaba por forjar um passado ainda não
passado de todo, cujos vestígios ainda aparecem no presente, com mais ou menos
nitidez para aquele que lembra e/ou se dispõe a lembrar. Assim, um tal passado
emerge diante de quem lembra, embora com ressignificações impostas pelo
presente, considerando-se os elementos que foram incorporados no curso da vida;
considerando-se as camadas de outras experiências que acabaram por interpolar àqueles
lembrares, formando um conjunto de elementos cada vez mais interrelacionados ao
passado que se quer lembrar. É assim que, ao procurar exercitar o rememorar, aquele
que lembra acaba selecionando aquilo que lembra; depois, escolhendo de acordo
com as necessidades e/ou com as possibilidades, aquilo que vai dar a conhecer
daquilo que lembrou, ou o que vai silenciar, de acordo com os interditos que se
lhes sejam socialmente impostos. De sorte que, aquilo que é proposto por Michel
de Certeau, ao explicar a “Operação historiográfica”, indicando que a sociedade
e o seu conjunto de entidades cercam o historiador com os seus conjuntos de limites
e de possibilidades na condução da sua pesquisa, também, com a devida vênia,
pode-se aplicar ao processo de lembrar, esquecer, silenciar da memória.
É assim que, em um dos
capítulos que integra a obra coletiva de 2012 – “Os Novos Domínios da História”
–, organizada por Ciro Flamarion Santana Cardoso (1943-2013) e por Ronaldo
Vainfas (1956-), Márcia Menendes Motta, ao falar sobre o binômio “história” e “Memória”,
fundamentando-se em argumentação construída por autores franceses como Maurice
Halbwachs (1877-1945) e Pierre Nora (1931-2025), sustenta o postulado segundo o
qual
“[...] a memória e a história não são sinônimos, pois,
diferentemente da primeira, a história aposta na descontinuidade, visto que ela
é, ao mesmo tempo, registro, distanciamento, problematização, crítica e
reflexão; ela é manejada, reconstruída a partir de outros interesses e em
direção diversa, e, para se opor à memória, a história tem ainda o objetivo de
denunciar e investigar os elementos que foram sublimados ou mesmo ignorados
pela memória” (MOTTA, 2012, p. 25).
Já no parágrafo seguinte, Motta apresenta ao seu leitor o
paradigma sobre o qual lastreia a sua compreensão daquilo que vem a se
constituir na “memória, assegurando que
“Quando falamos de
memória, devemos levar em conta que ela constrói uma linha reta com o passado,
alimentando-se de lembranças vagas, contraditórias e sem nenhuma crítica às
fontes que, em tese, embasariam essa mesma memória. Ela é ainda, segundo Nora,
”um fenômeno sempre atual, um elo vivido no eterno presente”. (Nora, 1993, p.
9). [...]” (MOTTA, 2012, p. 25).
Ao citar Nora 1993,
Motta reforça a proposição de que a “memória” se alimenta de fragmentos e, por
meio deles, ela procura se ancorar naquele passado que evoca no presente. Motta
conclui as proposições trazidas para este escrevinhar, assegurando que
“Se entendermos que
a memória só se explica pelo presente, isso significa também afirmar que é
deste presente que ela recebe incentivos para se consagrar enquanto um conjunto
de lembranças de determinado grupo. São, assim, os apelos do presente que
explicam por que a memória retira do passado apenas alguns dos elementos que
possam lhe dar uma forma ordenada e coerente. [...].” (MOTTA, 2012, p. 25).
Assim, considerando os postulados apresentados nas passagens
aqui transcritas, este escrevedor traz
para o seu leitor, mais alguns fragmentos dos rememorares a respeito do
processo em que José Mário vivenciara quando procurava se apropriar dos conteúdos
necessários ao alcance do seu intento de ingressar no ensino superior. Ainda
era dezembro de 1985. Conforme é cediço, aquele era o tempo que demarcava a
passagem de estação; era o mês de manhãs frescas e embaladas pelo trinar dos
pássaros que, com sua diversidade de espécies e cantares, agradavam os ouvidos
de quem atentasse para o seu chilrear; também, aquelas manhãs de fim de
primavera e início de verão, traziam deliciosos aromas aos olfatos mais
sensíveis, que se dissipavam com o avançar das horas matinais; manhãs enfim,
que traziam os primeiros raios de um novo dia tão desejado quanto esperado. O
meio do dia e o início da tarde, eram marcados por um aumento gradual da
temperatura ambiente, tendo o seu ponto mais alto, o período das treze horas,
declinando à medida em que avançava a tarde e principiava o pôr do sol. Com
ele, uma vez mais o trinar dos pássaros, o cacarejar dos galináceos que
procuravam se abrigar do anoitecer que se aproximava, bem como, os primeiros
buzinares das cigarras, indicando por aquela sinfonia, a aproximação e o começo
da noite, por vezes, mornam nas suas primeiras horas e, um pouco mais amenas, à
medida em que se aproximava a madrugada seguinte. Assim eram os dezembros que
permeavam a memória de José Mário que, precisamente naquele dezembro
completaria o seu primeiro quartel de século, com as mesmas incertezas que o
cercavam nos natalícios anteriores, sobretudo, aqueles vividos a partir do
momento em que tomara consciência da vida.
Marcado por um cogitar constante em torno do seu vir a ser, José
Mário era constantemente atormentado pela constatação de que nada se lhe
apresentava no longínquo horizonte das possibilidades, uma vez que, àquela
altura do seu caminhar, nada havia que lhe desse qualquer segurança de futuro.
As questões sem respostas se acotovelavam no seu espírito, perturbando-o e
dificultando a sua concentração nos estudos que precisava desenvolver com
vistas ao vestibular que enfrentaria dali há alguns dias. Para ele, tudo era
uma incógnita; nada se lhe parecia verossímil; nada se lhe apresentava como
crível, fosse qual fosse a medida de prazo que interpusesse. Por mais que se
esforçasse para obter alguma resposta plausível, ainda que provisória, temporária
ou sujeita à condicionantes as mais diversas, era obstado pela percepção que
possuía da sua realidade concreta e palpável. Eram os vinte e cinco anos que se
aproximavam e, que dentro em pouco se completariam, que fazia com que os seus
pensamentos se turvassem dentro de si; que diversos embates se travassem em seu
espírito tão irrequieto quanto cético, na medida em que não atinava para nenhum
porvir concretamente alcançável a partir do seu lugar social.
Portanto, para ele, o completar mais um ano, era entrar uma
vez mais, no terreno das hipóteses não demonstradas; era ingressar no campo do
talvez, quem sabe, pode ser que... Logo, não havia o que comemorar nem celebrar;
era mais um ano que acabara de passar sem qualquer coisa de sua, sem qualquer
vestígio de possibilidade de alguma coisa: um ano a mais completado de interrogações
não respondidas; e, o que se iniciava, era um ano a mais para sofrer a mesma
falta de respostas concretas, de realizações duradouras e passivas de render
frutos reais e incorporáveis ao seu viver diário. Era apenas mais um virar de
calendários; era mais um insano espoucar de fogos de artifício que a ele não
dizia respeito; era mais um estourar de champagnes que estava longe do seu
alcance, tanto no que respeita à capacidade financeira de aquisição, quanto na
compreensão de um sentido que ele não encontrava em tais manifestações de
júbilo, visto que, para ele, o tal júbilo não quisera passar no seu existir
concreto e real.
Alagoinhas – 09 de novembro de 2025 – primavera brasileira.
Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com
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