Janeiro 1986 – Às vésperas das provas – I.
Em mais uma investida no que respeita ao esforço por trazer
à lume alguns fragmentos extraídos de um tempo já pretérito, a partir de
elementos escavados nas camadas de sedimentos da memória, este garatujador
chega a tantos quantos se dignem a ler estes rememorares, com mais um dos
momentos que antecederam aos dias de realização da avaliação que faria José
Mário, com vistas à sua pretensão de ingressar no curso de Licenciatura em História,
da então Faculdade de Formação de Professores de Alagoinhas. Aqui, se pretende
discorrer, ainda que brevemente, sobre um aspecto da “História vivida” pelo seu
protagonista, a partir das escolhas feitas no presente, visto que, como já se
vem salientando há algumas postagens, a memória está sujeita às
ressignificações do presente, feitas por quem lembra. Assim, uma tal “história”
vivida por quem lembra, se apresenta à memória, associada às reflexões
realizadas por quem lembra, estimuladas pelo esforço de lembrar situações e/ou
circunstâncias nas quais esteve envolvido. Conforme assevera Maurice Halbwachs
(1877-1945), “[...], a história vivida se distingue
da história escrita: ela tem tudo o que é necessário para constituir um
panorama vivo e natural sobre o qual se possa basear um pensamento para conservar e reencontrar a imagem de seu
passado” (HALBWACHS, 2006, p. 90).
Deste modo, com estes elementos em
mente, se quer aqui enfatizar a proposição que aponta para hipótese de que José
Mário, embora não tivesse claro no momento em que vivera tais circunstâncias, estava
intentando abrir um novo embate em busca de reposicionar para si, o ingresso em
um espaço social para o qual não dispunha dos instrumentos adequados para tomar
parte dele. Ele, inexoravelmente, vivia em uma constante incógnita sobre o que faria;
sobre o que seria; sobre se teria; sobre se alcançaria; sobre se, por acaso
alcançasse, conseguiria enfrentar os obstáculos que se lhe procuraria reter no
lugar de onde sequer deveria intentar sair; ou antes: se teria algum êxito em
se imiscuir em um espaço social que a ele não pertencia. Saliente-se que, ele, nem
sequer atentava para aquelas dificuldades, pois, não as conhecia; não sabia,
por exemplo, que a sua origem social e econômica, bem como a falta de prestígio
e/ou conhecimento entre os “donos” da política e sociedade locais, era um fator
preponderante para obstar qualquer mobilidade social; acreditava ele que,
bastava obter uma colocação no mundo do trabalho, por meio de uma “Formação
profissional”, para que a sua posição social se modificasse, como que
naturalmente. Mas, o tempo acabou por demonstrar exatamente o contrário. No
entanto, isto é tema para outras digressões. Por ora, permaneça-se “ás vésperas”
do certame a que se submeteria dali há algumas semanas.
Logo depois daquela primeira quarta feira do ano de 1986 e,
passadas as divagações que sempre se fazem presentes em tais ocasiões, o
espírito de José Mário, ainda absorto em suas digressões relacionadas ao seu
devir, procurava retomar os preparativos propedêuticos iniciados mais ou menos
aos meados do novembro anterior, com vistas à realização daquelas provas que
talvez lhes abrisse – ou mesmo fechasse – as portas para o ingresso no ensino
superior. De tal ingresso ou não, para ele, dependia o que viria a ser o seu
caminhar, no sentido de definir o que ele seria e/ou o que ele faria dali para
adiante. Imerso nas incertezas quanto ao ser, ao ter e ao fazer, ele insistia
em procurar amenizar as indiscutíveis lacunas do seu processo formativo, cuja
evidência era avultada, à medida em que se esforçava por compreender
determinados temas que, àquela altura da vida, já deveria dominar com alguma
propriedade. A sua defasagem naqueles conteúdos específicos de cada matéria
estudada, deixava nele a impressão que o seu navegar naufragaria, ao primeiro
temporal que se lhe abatesse durante a travessia daquele oceano de temas e
textos que precisaria vencer para conseguir chegar à outra margem e pisar em
terra firme, para então poder prosseguir a caminhar.
Noves fora aquelas preocupações de ordem intelectual,
materializada em sua percepção das dificuldades que precisaria enfrentar, José
Mário, naquele mesmo primeiro dia do ano, acabara por enfrentar um revés
sentimental, ao ser preterido por uma jovem, sob o pretexto de não saber como
lidaria com uma pessoa assim, sensorialmente diferente dela. Embora hesitasse
em fazer tal afirmação, não conseguiu ocultar por mais tempo, na medida em que,
imediatamente após dizer o “não” ao insólito pedido de namoro que acabara de
ouvir, ela indagou ao solicitante, quem lhe escolhia as roupas; quem lhe
auxiliava na higiene... Depois das explicações dadas mecanicamente, o humilhado
rapaz se retira da presença daquela sua pretendida, se perguntando se tais questões
apontavam para um “desalinho” de sua indumentária, ou, pior, algum “traço” de
sujeira que, quem sabe, lhe tivesse causado repulsa. Evidentemente que aquele
não fora o primeiro malogro de José Mário no campo das investidas em busca de
um relacionamento socioafetivo; mas, sem dúvida, um dos revezes mais evidentes
e, significativamente mais claros de rejeição, por questões aliadas à posição
econômica e, sobretudo, à condição
sensorial do pretendente incauto.
Virada aquela página amarga e desalentadora para um início
de ano, já no dia seguinte, José Mário retomava as suas lições de Língua e
Literatura com a sua devotada professora. Naquelas tardes quentes das primeiras
semanas de janeiro, ele se dirigira até o bairro do Jardim Pedro Braga, na rua
Alfredo Garcia, onde ficava aquela residência acolhedora, para ali, receber as
instruções sobre morfologia, sintaxe e outras questões relacionadas à gramática;
aulas agradáveis e relevantes relacionadas à produção literária, tanto
envolvendo obras e autores brasileiros – seus estilos, suas escolas – quanto portugueses,
mormente, aqueles cujas obras já eram canônicas e de repercussão. Não faltara,
outrossim, aulas e orientações basilares para a produção de texto, momento em
que a excelente preceptora chamava a
atenção do seu aluno, para as possibilidades de construção redacional que
poderiam aparecer durante o certame. Uma redação descritiva; uma redação
discursiva, na qual poderia expressar livremente o seu pensar, o seu conhecer acerca
do requerido pelos avaliadores; uma análise de um texto inserido na prova, que
deveria ser lido com toda a atenção.
Portanto, além de todo o cuidado em orientar aquele vestibulando
tão atento quanto interessado em reduzir o seu quadro lacunar, naquela e ainda
mais, nas outras áreas do conhecimento, aquela professora demonstrava ter não
só apreço pelo seu pupilo de tão grandes fragilidades em alguns assuntos da
língua e, ao mesmo tempo, com alguma acuidade em outros, como também parecia
viver aquele momento como se fosse ela mesma a vestibulanda, ou ainda, como se orientasse
as suas próprias filhas para o ingresso no ensino superior. Aquela era a atitude
da professora Edna Garcia Batista (1945-2017).
Alagoinhas – 23 de novembro de 2025 – primavera brasileira
Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com
P.S.: esta é a postagem de número 200, neste blog.
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