domingo, 23 de novembro de 2025

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte VIII.

Janeiro 1986 – Às vésperas das provas – I.

 

Em mais uma investida no que respeita ao esforço por trazer à lume alguns fragmentos extraídos de um tempo já pretérito, a partir de elementos escavados nas camadas de sedimentos da memória, este garatujador chega a tantos quantos se dignem a ler estes rememorares, com mais um dos momentos que antecederam aos dias de realização da avaliação que faria José Mário, com vistas à sua pretensão de ingressar no curso de Licenciatura em História, da então Faculdade de Formação de Professores de Alagoinhas. Aqui, se pretende discorrer, ainda que brevemente, sobre um aspecto da “História vivida” pelo seu protagonista, a partir das escolhas feitas no presente, visto que, como já se vem salientando há algumas postagens, a memória está sujeita às ressignificações do presente, feitas por quem lembra. Assim, uma tal “história” vivida por quem lembra, se apresenta à memória, associada às reflexões realizadas por quem lembra, estimuladas pelo esforço de lembrar situações e/ou circunstâncias nas quais esteve envolvido. Conforme assevera Maurice Halbwachs (1877-1945), “[...], a história vivida se distingue da história escrita: ela tem tudo o que é necessário para constituir um panorama vivo e natural sobre o qual se possa basear um pensamento  para conservar e reencontrar a imagem de seu passado” (HALBWACHS, 2006, p. 90).

Deste modo, com estes elementos em mente, se quer aqui enfatizar a proposição que aponta para hipótese de que José Mário, embora não tivesse claro no momento em que vivera tais circunstâncias, estava intentando abrir um novo embate em busca de reposicionar para si, o ingresso em um espaço social para o qual não dispunha dos instrumentos adequados para tomar parte dele. Ele, inexoravelmente, vivia em uma constante incógnita sobre o que faria; sobre o que seria; sobre se teria; sobre se alcançaria; sobre se, por acaso alcançasse, conseguiria enfrentar os obstáculos que se lhe procuraria reter no lugar de onde sequer deveria intentar sair; ou antes: se teria algum êxito em se imiscuir em um espaço social que a ele não pertencia. Saliente-se que, ele, nem sequer atentava para aquelas dificuldades, pois, não as conhecia; não sabia, por exemplo, que a sua origem social e econômica, bem como a falta de prestígio e/ou conhecimento entre os “donos” da política e sociedade locais, era um fator preponderante para obstar qualquer mobilidade social; acreditava ele que, bastava obter uma colocação no mundo do trabalho, por meio de uma “Formação profissional”, para que a sua posição social se modificasse, como que naturalmente. Mas, o tempo acabou por demonstrar exatamente o contrário. No entanto, isto é tema para outras digressões. Por ora, permaneça-se “ás vésperas” do certame a que se submeteria dali há algumas semanas.

Logo depois daquela primeira quarta feira do ano de 1986 e, passadas as divagações que sempre se fazem presentes em tais ocasiões, o espírito de José Mário, ainda absorto em suas digressões relacionadas ao seu devir, procurava retomar os preparativos propedêuticos iniciados mais ou menos aos meados do novembro anterior, com vistas à realização daquelas provas que talvez lhes abrisse – ou mesmo fechasse – as portas para o ingresso no ensino superior. De tal ingresso ou não, para ele, dependia o que viria a ser o seu caminhar, no sentido de definir o que ele seria e/ou o que ele faria dali para adiante. Imerso nas incertezas quanto ao ser, ao ter e ao fazer, ele insistia em procurar amenizar as indiscutíveis lacunas do seu processo formativo, cuja evidência era avultada, à medida em que se esforçava por compreender determinados temas que, àquela altura da vida, já deveria dominar com alguma propriedade. A sua defasagem naqueles conteúdos específicos de cada matéria estudada, deixava nele a impressão que o seu navegar naufragaria, ao primeiro temporal que se lhe abatesse durante a travessia daquele oceano de temas e textos que precisaria vencer para conseguir chegar à outra margem e pisar em terra firme, para então poder prosseguir a caminhar.

Noves fora aquelas preocupações de ordem intelectual, materializada em sua percepção das dificuldades que precisaria enfrentar, José Mário, naquele mesmo primeiro dia do ano, acabara por enfrentar um revés sentimental, ao ser preterido por uma jovem, sob o pretexto de não saber como lidaria com uma pessoa assim, sensorialmente diferente dela. Embora hesitasse em fazer tal afirmação, não conseguiu ocultar por mais tempo, na medida em que, imediatamente após dizer o “não” ao insólito pedido de namoro que acabara de ouvir, ela indagou ao solicitante, quem lhe escolhia as roupas; quem lhe auxiliava na higiene... Depois das explicações dadas mecanicamente, o humilhado rapaz se retira da presença daquela sua pretendida, se perguntando se tais questões apontavam para um “desalinho” de sua indumentária, ou, pior, algum “traço” de sujeira que, quem sabe, lhe tivesse causado repulsa. Evidentemente que aquele não fora o primeiro malogro de José Mário no campo das investidas em busca de um relacionamento socioafetivo; mas, sem dúvida, um dos revezes mais evidentes e, significativamente mais claros de rejeição, por questões aliadas à posição econômica e, sobretudo,  à condição sensorial do pretendente incauto.

Virada aquela página amarga e desalentadora para um início de ano, já no dia seguinte, José Mário retomava as suas lições de Língua e Literatura com a sua devotada professora. Naquelas tardes quentes das primeiras semanas de janeiro, ele se dirigira até o bairro do Jardim Pedro Braga, na rua Alfredo Garcia, onde ficava aquela residência acolhedora, para ali, receber as instruções sobre morfologia, sintaxe e outras questões relacionadas à gramática; aulas agradáveis e relevantes relacionadas à produção literária, tanto envolvendo obras e autores brasileiros – seus estilos, suas escolas – quanto portugueses, mormente, aqueles cujas obras já eram canônicas e de repercussão. Não faltara, outrossim, aulas e orientações basilares para a produção de texto, momento em que a excelente preceptora  chamava a atenção do seu aluno, para as possibilidades de construção redacional que poderiam aparecer durante o certame. Uma redação descritiva; uma redação discursiva, na qual poderia expressar livremente o seu pensar, o seu conhecer acerca do requerido pelos avaliadores; uma análise de um texto inserido na prova, que deveria ser lido com toda a atenção.

Portanto, além de todo o cuidado em orientar aquele vestibulando tão atento quanto interessado em reduzir o seu quadro lacunar, naquela e ainda mais, nas outras áreas do conhecimento, aquela professora demonstrava ter não só apreço pelo seu pupilo de tão grandes fragilidades em alguns assuntos da língua e, ao mesmo tempo, com alguma acuidade em outros, como também parecia viver aquele momento como se fosse ela mesma a vestibulanda, ou ainda, como se orientasse as suas próprias filhas para o ingresso no ensino superior. Aquela era a atitude da professora Edna Garcia Batista (1945-2017).

 

Alagoinhas – 23 de novembro de 2025 – primavera brasileira

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com

 

P.S.: esta é a postagem de número 200, neste blog. 

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