quinta-feira, 8 de outubro de 2020

A segunda investida na "memória musical".

 

Um escrevedor fala de memória musical II.

Nesta segunda incursão no recanto da memória deste escrevedor, coletivamente construída, se fará um mergulho no tempo até o ano da graça de 1969. Aquele fora um ano bastante movimentado, em vários campos do viver cotidiano dos habitantes do mundo ocidental que vivia o auge da chamada “Guerra Fria”, com o foco no esforço norte-americano no sentido de dobrar o “Vietnam” ao julgo do capitalismo que queriam impor por suas armas; os terráqueos assistiam estupefatos o pouso da Apolo 11 na lua, mediante grande espetacularização do feito, que também era parte do esforço norte-americano pela hegemonia na corrida espacial, que travava com a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas; os brasileiros viviam os seus “anos de chumbo”, sob o signo do Ato Institucional N.o 5; também viviam o tempo dos grandes festivais de música popular; apreciava-se o movimento da “jovem guarda”, com as versões de Rossini Pinto (1937-1985),que fizera de sucessos executados no norte da América e na Europa, cujas melodias eram de músicas originalmente gravadas em inglês, francês, italiano entre outras, que ganhavam letras em português, com temáticas variadas, sobretudo, relacionadas aos amores vividos, perdidos, desejados, algumas traziam temas relacionados aos movimentos capitaneados pela juventude burguesa – majoritariamente europeia e norte-americana -, que se convencionou denominar de “Contra cultura”, trazidas à interpretação de gente como Wilson Simonal, Wanderléa, Vanusa, Jerry Adriani, Wanderley Cardoso, Roberto Carlos, os Incríveis, The Fevers, entre tantos outros.

Em Alagoinhas, 1969 se inicia com este escrevedor sendo levado pela primeira vez ao Grupo Escolar Brasilino Viegas, para ali começar a sua vida estudantil; também naquele ano, chegava à energia elétrica em sua casa. Devido à expansão daquele serviço público aos novos espaços de residência de pessoas de baixa renda, acabou por propiciar a instalação da novidade na modesta casa onde viviam mãe e três filhos.

E, a energia elétrica em casa, significava ouvir rádio e, nele, ouvir músicas em profusão, visto ele não possuir meios de audição de discos. É cediço que o rádio tem uma importância crucial na formação deste escrevente, uma vez que por grande parte de sua vida, o rádio foi o seu livro, o seu jornal, o seu formador de vocabulário, o seu construtor de consciência política, a sua companhia nas horas insones, tão comum a ele e, parece que igualmente comum aos que não enxergam, conforme se foi constatando à medida que tomava contato com outros cegos e tomava conhecimento deste fenômeno que  sempre acreditou ser um evento somente seu.

Como já foi dito na crônica anterior, a memória musical deste que garatuja estas linhas, é plena de reminiscências de melodias, algumas completas, outras, em grande parte, fragmentadas, que vez por outra surgem nos seus pensamentos, quase sempre trazendo outros elementos consigo, que permitem sentir cheiros não mais existentes, paladares muito distantes no tempo e, até mesmo sensações táteis de espaços já não mais visitados e superfícies há muito não mais tocadas.

Assim, ao trazer à superfície da memória algum fragmento de melodias que ouvira há já um bom tempo – ou mesmo há não tanto tempo assim -, uma gama de lembranças assoma ao pensamento e desencadeia um turbilhão de sensações, que, saliente-se, demora o tempo apenas suficiente para que o rememorar se configure e o rememorante se assegure de não estar em uma realidade sólida, mas sim, em uma realidade que já se configurou em passado.

O ano de 1969 foi pleno de músicas que ficaram na memória deste escrevedor e, a que hoje vos será apresentada, ficou por muito tempo como fragmentos de melodia e letra, visto que com o passar dos anos, ela foi esquecida pelos produtores de programas de “flash back” das emissoras de rádio brasileiras, ou, pelo menos, aquelas que eram ouvidas com regularidade. Mas, as lembranças de seus fragmentos traziam consigo as demais lembranças acima aludidas, o que açulava a vontade de ouvir de novo aqueles acordes, pois, por eles, vinha a saudade de um tempo que fora vivido, mas que a ele não mais se poderia voltar.

Chega a era dos computadores e da internet e, com eles, o desejo de encontrar tais músicas. Para tanto, se fez várias incursões com o fito de encontrar: se sabia o nome do intérprete – Antônio Marcos (1945-1992). Mas, não se sabia o nome da música, embora a sua melodia estivesse nítida na “memória auditiva” de quem a procurava.

Depois de algum esforço para juntar os fragmentos da letra que ainda estavam na memória, se conseguiu um trecho mais ou menos coerente da letra, que dizia: “... eu preciso encontrar alguém que viva só; eu preciso achar alguém que sofra como eu também; se então, alguém souber de quem não teve amor: mande este alguém falar comigo, por favor....”.

É interessante notar que, foi feita uma busca em alguns sites que listam um grande número de cantores e as suas músicas mais executadas – o dicionário Cravo Albin, inclusive. Antônio Marcos aparece, em quase todas as listas. No entanto, a música que se procurava, não apareceu em nenhuma delas.

Assim, ao pesquisar no Google usando o trecho acima, finalmente se chegou à música tão desejada de ser encontrada e ouvida... “Eu preciso Encontrar Urgentemente”, este é o seu título.

Ao penetrar o som daquela melodia nos ouvidos deste escrevedor, vieram as lembranças do tempo em que se contava oito, nove ou dez anos, com vários cheiros e sensações táteis vindo ao rememorar.

Evidentemente que para esta memória, a letra não estava relacionada a um “amor” não tido ou perdido. Mas, estava relacionada com a solidão que já se fazia marca indelével do viver deste lembrador, uma vez que os seus amigos eram poucos, pouquíssimos, se diria; os seus colegas de escola, moravam longe e não se podiam encontrar, quer para estudarem juntos; quer para fazerem estripulias de meninos; os seus irmãos eram mais velhos e já possuíam uma rotina diferente da dele...

Então caríssimos leitores, aí está o link daquela música que não se ouviu por largos anos, mas que permaneceu sob profundas camadas de memórias, apenas esperando ser convocada à superfície, mediante os primeiros acordes de sua composição melódica, quando viessem a ser ouvidos. Está inserida no primeiro disco daquela carreira que fora interrompida pelo álcool, associado a outros problemas existenciais de Antônio Marcos, cuja vida fora consumada tão precocemente.

 

https://youtu.be/Yqs0HWRDQDg


Professor José Jorge Andrade Damasceno - 08 de outubro de 2020.

sábado, 3 de outubro de 2020

HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DE ALAGOINHAS, PELOS ESCRITOS DE MARIA FEIJÓ - XX.

 

Histórias e memórias de Alagoinhas, pelos escritos de Maria Feijó XX - Marta e Maria Clara: entre as queixas e as palavras de ânimo.

 

Caros e pacientes leitores, esta já é a vigésima vez que este título é trazido ao vosso crivo.  Desde outubro de 2013 que uma parte dos escritos de Maria Feijó tem sido considerada com o objetivo de encontrar as “histórias e Memórias de Alagoinhas”, em um exercício quase exegético no sentido de pensar o papel daquela literata em dar a conhecer o seu rememorar, a partir de uma produção literária que, como já se salientou outras vezes, tem a cidade de Alagoinhas onde nascera e crescera como o seu “lugar de memória” privilegiado. Até o ano de 2012, quando tomou contato com as três prosas de Feijó que tem sido alvo das análises construídas e publicadas em grande parte no jornal “Alagoinhas Hoje”, este autor não tivera contato com a produção de Feijó, embora o seu nome lhe fosse já conhecido, sobretudo, a partir de estudiosos da produção cultural e literária da urbe famosa pelas suas laranjas. Ao se interessar pelo estudo da história da cidade é que de fato se aproximou de Feijó, sobretudo para esquadrinhar a sua prosa, no sentido de encontrar os vestígios de memória que permitisse a ampliação da pesquisa acerca da história de Alagoinhas, apenas iniciada. Ao pensar a história da cidade como um objeto de estudo extremamente valioso, também se faz necessário pensar na diversidade de formas de sua apreensão. Particularizando uma tal reflexão e, estreitando o objeto no sentido de imiscuir-se em uma investigação sobre a cidade de Alagoinhas, é forçoso pensar nas inúmeras dificuldades em encontrar elementos que permitam ao pesquisador a construção de seu corpus documental, a partir do qual desenvolverá as investigações e análises que sustentarão a escrita da história da cidade, que, em última instância, deverá ser o resultado final do seu esforço.

Embora a urbe alagoinhense já tenha percorrido um bom punhado de anos em seus ires e vires, é consenso que há um grande hiato entre aquilo que está escrito sobre a cidade e aquilo que é preciso estudar e escrever sobre a sua história. Muito agarrada à obra de Salomão Antônio Barros (1899-1986),, tão vazia do ponto de vista teórico, quanto frágil do ponto de vista metodológico, parte das pesquisas envolvendo a história de Alagoinhas se tornava cada vez mais estéril, visto que a obra “Vultos e Feitos do Município de Alagoinhas” não atendia às necessidades de um mergulho profundo e seguro no rico manancial de possibilidades que se prenuncia ao pesquisador, na medida em que muitas são as lacunas encontradas na referida obra. Prova disto é o número de trabalhos monográficos e dissertativos que vem sendo produzidos na Universidade e fora dela, sobretudo, a partir dos anos 2000. Até então, a  construção memorialística da cidade, estava restrita a uma produção dispersa, feita a partir de iniciativas de pessoas interessadas em sustentar uma história lastreada em formas de perceber o mundo baseada em um romantismo épico, cujos elementos humanos são sempre harmoniosos entre si, não havendo quaisquer divergências entre as pessoas, os modos de crer, de viver, de morar, de saber, de conhecer o passado, que não aqueles baseados no culto aos “Vultos e Feitos”, levados aos “lugares de memória”, como se nunca houvesse havido quaisquer discórdias, quaisquer contradições nos avanços e recuos da economia, da sociedade e da cultura, quaisquer disputas de poder, ou qualquer tipo de expropriação dos trabalhadores por parte dos proprietários dos meios de produção.

E o grande marco desta história quase paradisíaca, sem conflitos, sem disputas de quaisquer ordem, sem querelas, sem pobres, sem escravos, sem esmolantes, sem pessoas destoantes no modo de conceber o mundo à sua volta, é aquela obra que por vários anos se tornou a única referência para escolares e professores recorrerem, quando houvesse necessidade de saber alguma coisa sobre a “história” de Alagoinhas. Aliás, a obra “Vultos e Feitos do Município de Alagoinhas foi catapultada a um patamar que sequer o seu autor intentou alcançar. Ao concluir o seu desfile de “eventos” e “heróis” que considera importantes “vultos” para a construção da trajetória social e econômica da cidade, nas últimas páginas do seu tratado que prioriza nomes datas e fatos da sua inteira escolha, Barros assevera que: Este Documentário histórico já poderia ter sido lançado  a público, mas, por circunstâncias especiais, sua conclusão  esteve sem continuidade por um espaço de tempo”. (BARROS, 1979, p. 344).

Note-se que, Barros diz ter havido “circunstâncias especiais” que de algum modo postergaram o seu propósito de tornar público o seu “documentário”. Quais teriam sido as ditas “circunstâncias especiais” que forçaram o autor a retardar a publicação do seu trabalho? Eis uma pergunta que mereceria uma investigação no sentido de encontrar pistas que levasse a respostas, pois, certamente elas podem ser várias. Convém salientar de passagem, o significado da palavra “documentário”. O dicionário Houaiss indica ser uma palavra de uso recente – 1913 -, com duas acepções. A primeira é um adjetivo “que tem valor ou caráter de documento” e, o segundo é um substantivo empregado no sentido de produção didática em formato de filme. Como é fácil depreender, a acepção utilizada por Barros é a do valor documental. Logo, aquela obra deveria ter sido sempre tratada como o que de fato ela é: uma fonte histórica. E, como tal, deveria ser utilizada na pesquisa histórica, com todos os cuidados e/ou desconfianças que deve nortear o pesquisador diante de toda e qualquer fonte.

 

Mas, é preciso voltar aos escritos de Maria Feijó. Como se disse, este escrevedor toma contato com três das suas obras e logo que inicia a leitura, começa a perceber o caráter memorialístico da produção da literata Alagoinhense, chegando mesmo a suspeitar – evidentemente que outros pesquisadores que se interessaram por sua obra tiveram a mesma impressão – que o livro “Pelos caminhos da vida de uma professora primária” possa ser lido como uma obra autobiográfica. Depois de ter percorrido o alentado volume em suas oitocentas páginas, pelo menos uma conclusão se pôde tirar: aquela obra é muito mais memorialística do que a que foi escrita por Salomão Antônio Barros, apesar dos limites temporais apresentados.

Ao discorrer sobre “O Tempo vivo da Memória”, Ecléa Bosi (1936-2017), assevera que “a memória se enraíza no concreto, no espaço; gesto, imagem e objeto. A história se liga apenas às continuidades temporais, às evoluções e às relações entre as coisas”. (BOSI, 2003, p. 16).

 

Depreende-se, portanto, que o esforço de Feijó em construir uma narrativa que apresentasse o cotidiano de “uma professora primária”, está assentado em elementos espaciais que são objetificados e presentificados nas diversas descrições que faz dos lugares, das coisas e das pessoas, fundamentando em tais descrições, o edifício memorialístico de um tempo vivido, de um lugar a partir do qual se dá o desenrolar do “enredo”. É desta maneira que faz as escolhas do que lembrar, do que esquecer e do que silenciar. Neste sentido, pode ser trazido ao presente, aquele passado que a literata constrói de acordo com o seu propósito de pensar a vida, a trajetória e as vicissitudes de uma professora primária, quase sempre idealizada, embora a base seja a sua própria experiência profissional e pessoal. Tal construção memorialística não a distancia muito do objetivo não explicitado de uma espécie de acerto de contas em torno da sua própria história de vida. Ali, é a sua memória que intervém no processo criativo, estruturando a narrativa de modo a estabelecer os nexos entre o narrado e o vivido. Ainda uma vez se recorre a E. Bosi, em uma passagem onde ela assevera que:

 

“A memória opera com grande liberdade escolhendo acontecimentos no espaço e no tempo, não arbitrariamente, mas porque se relacionam através de índices comuns. São configurações mais intensas quando sobre elas incide o brilho de um significado coletivo.  É tarefa do cientista social procurar esses vínculos de afinidades eletivas entre fenômenos distanciados no tempo”. (BOSI, p. 31).

 

Então, pois, retome-se o diálogo entre as duas amigas professoras, ainda sob a mediação da escritora alagoinhense. No arrazoado anterior, a conversa foi interrompida quando Marta atalha a amiga para demonstrar a sua surpresa em vê-la tão desanimada, embora ainda fosse jovem e estivesse há muito pouco tempo no exercício da docência no curso primário. Entrementes, tal fora o desencanto da amiga, que Marta começara a matutar em uma maneira de realentar lhe a disposição para continuar em seu ofício e, ao mesmo tempo, procurava atinar no que faria para que a amiga recuperasse o  “amor” que a ajudaria no enfrentamento das intempéries inerentes ao exercício do magistério que, ela queria fazer com que Maria Clara soubesse, não era apenas no Rio de Janeiro, lugar  onde então viviam e trocavam aquelas palavras, mas em todo o Brasil, mormente no interior da Bahia, sua terra.

 

Maria Feijó informa ao leitor que, ao retomar a palavra, Maria Clara se dirige à sua interlocutora, apresentando-lhe com mais vagar, o motivo de estar tão decepcionada com a profissão que escolhera:

 

“— Sabe, Marta, ando muito desanimada. Lá em casa, quando desejei ingressar no Instituto de Educação, ninguém queria. Todos achavam” uma profissão muito espinhosa, incompreendida e sem nenhum proveito monetário”. Sempre mais práticos e objetivos do que eu. Minhas irmãs enveredaram por outros caminhos e se encontram em ótima situação. As três casadas só se preocupam com os afazeres domésticos; e das quatro restantes, quem menos persebe sou eu e é a que mais estudou, estuda e trabalha, vê?” (FEIJÓ, 1978, P. 19-20).

 

Clara é, portanto, a única dentre as suas irmãs que escolhe ser professora e, segunda a sua avaliação, a que, embora ainda jovem e em pouco tempo de labor, não está “feliz”, não se sente realizada. Feijó, por meio de Marta, argumenta de maneira um tanto ingênua, talvez na tentativa de pavimentar o caminho por onde trilhará no seu percurso memorialístico. “Mas, Clarinha, aqui no Rio o magistério é muito bem olhado e Professora bastante remunerada. O Governo, de vez em quando, bem que melhora a situação de vocês.  Pelo menos é o que me consta.” FEIJÓ, 1978, p. 20).

 

Maria Clara retoma a palavra. Na sua fala fica patente o discurso de Feijó, que reaparece na boca e na prática de Luísa Peixoto, sua professora protagonista da história que será contada por Marta, com o fito de convencer a amiga e colega de profissão, a enfrentar o que lhe está proposto vivenciar como professora primária. Diz a jovem:

 

“— Não é só isso, menina! Você sabe: se se tem no íntimo o germe de um ideal, seja ele qual for, é caso perdido. Vai roendo, roendo, mesmo que traça e, quando a gente abre os olhos, é tarde. A obsessão cresce tanto que se luta por ele até o fim. Então, não é somente de dinheiro que se trata. Se fosse por esta parte material, talvez eu já tivesse abandonado tudo, porque, para atenuar a situação, meu pessoal continua pior, achando que estou, deveras, perdendo tempo e mocidade cada vez mais, sendo Professora, quando bem podia ter enveredado por outras áreas, noutros misteres, tantos são os que existem por aí..”. (FEIJÓ, 1978, p. 20).

 

Ao atalhar de Marta que lhe indaga o que tem afligido a amiga, visto não ser, necessariamente, segundo o que dissera, a baixa remuneração do seu laborar, Clara retruca incisivamente. “— Ah! minha querida, e o desconforto, a luta insana, o sofrimento enorme, imenso, que parece não ter fim?...” (FEIJÓ, 1978, Idem).

 

Marta volta a ponderar, uma vez que diz não entender por que o desânimo abate alguém tão plena de vida:

 

“— Mas você, nova, bonita como está, queimada pelo sol de Copacabana, anseio de todas as moças de sua idade, cheia de saúde e vida, disposta e bem tratada, com esse aspecto saudável, tão esportivo, aparência ótima?!  Não, minha filha, o seu todo nada revela” desconforto, sofrimento imenso, sem fim, luta insana”. Você constantemente vem à praia. Infelizmente eu é que não a tenho visto.  Pouco chego até aqui, apesar de morar pertíssimo.  Cadê tempo?” (FEIJÓ, 1978, Idem).

 

Observe-se que, pouco a pouco, Feijó vai construindo os elementos discursivos com os quais precisará trabalhar para enfrentar a tarefa a que se propôs, qual seja: ao de desenvolver uma narrativa por meio da qual possa inserir tanto a sua memória da Alagoinhas que pretende retratar, quanto uma parte da sua vivência pessoal e/ou profissional. É assim que ela ainda se conserva na condução da narrativa, a fim de preparar o terreno no qual fincará os fundamentos argumentativos sobre os quais assentará a sua narrativa.

Assim, Maria Clara continua o seu “desfile de penas”, em resposta às ponderações de Marta:

 

“Sim, — [...] — você tem razão e me ajuda até, - por tudo Isso e mais. Agora estou de férias. Durante o período letivo, tenho um dia de folga por semana. Como adoro o mar, fujo sempre que posso para nele me entreter e recuperar energias perdidas. Razão do...” aspecto saudável...”.” (FEIJÓ, 1978, Idem).

 

Prossegue Maria Clara, atendendo a uma abordagem de Marta que dizia ainda não entender o porquê daquelas queixas.

 

“Logo me entenderá. Escute, Marta: você me ajudou até demais, falando em mocidade, saúde, beleza, vida, inteligência, ar esportivo, jovialidade... Já pensou, entretanto, na distância que, diariamente, transponho da Rua Mariz e Barros até Marechal Hermes — onde leciono —, um fim de mundo, no subúrbio, num trem  da Central (ou mesmo de ônibus), verdadeiro formigueiro humano, inverno ou verão, saindo de casa às 6 da manhã e só regressando às 16 horas? Já pensou nisto, Marta? E... se não fossem estas folgas, como eu iria respirar? Compreendeu agora?” (FEIJÓ, 1978, Idem).

 

Maria Feijó intervém mais uma vez no diálogo das duas amigas professoras, com o propósito de informar ao seu leitor que, após Maria Clara proferir aquelas palavras cheias de “ais”, um “sorriso meio triste, desalentador, cobre-lhe o semblante, olhando a companheira com um gracioso olhar enviesado...”( Ao que, ainda conforme Feijó, Marta retruca assegurando que  ”[...], minha amiga, não é um mal sem remédio. Ainda há isso. Nem tudo na vida é completo como todos nós, ardentemente, desejamos, e sonhamos, e nem está perdido tudo assim [...]”. FEIJÓ, 1978, Idem).

Mas, Maria Clara não se vai deixar convencer, assim, tão fácil. Em mais uma argumentação diante da tentativa feita pela amiga, ela ainda se mostra quase descrente, embora admita haver alguma esperança de uma diminuição de “sofrimento”, ao menos no que tange à distância entre a sua casa e o seu espaço laboral. Diz ela que:

“— É! Há uma esperança, embora remota, de conseguir transferência para mais perto, conforme os pontos obtidos. Felizmente tenho alcançado boa classificação. Entretanto... já imaginou o enorme número de candidatas? A maioria, jovem como eu, aspirando os mesmos ideais, tendo os mesmos sonhos e as vagas sendo pouquíssimas, quando vou chegar até uma delas?...” (FEIJÓ, 1978, p. 21).

 

Marta, uma vez mais, procura animar a amiga com um assomo de confiança. À indagação feita por Maria Clara, ela atalha com a seguinte construção retórica: “[...]. Mas... há essa esperança. Que seria de nós sem ela, hein? É a bússola que conduz todo viageiro no imenso barco da vida, visando a meta final...”. Ainda uma vez o argumento de Marta não anula as dúvidas de sua amiga, que, de bom grado lhe contrapõe o retorno ao duro viver do cotidiano:” [...], lindo esse trecho poético do romance! Lembre-se, contudo, minha amiga, que estávamos ou estamos, na dura realidade da vida, enfrentando uma condução com destino a Marechal Hermes...”. Pedindo que a deixe terminar a sua argumentação, Marta prossegue o discurso, asseverando que “[...]. Você só tem dois anos, dois aninhos só, de profissão! Está com todas as forças vitais para lutar e ir ao encontro de seu ideal. Paciência, confiança em si mesma e espere mais um pouco. Além do que, Clarinha, você não precisa desse ordenado” tão suado e difícil” para manter-se, graças a Deus, nem sustentar marido e filhos...”. Mas, insistindo em interromper lhe a fala, Clara procura talvez, demonstrar que não se deixará vencer facilmente pelo argumentar da interlocutora. A respeito do “ordenado suado”, ela acrescenta que “— ... ele serve, apenas —[...] - para os alfinetes, digamos assim, tão pouco é...”. E, sem permitir a retomada do esforço feito por Marta para que Maria Clara se reanime a prosseguir em sua faina professoral, arremata o diálogo só principiado, apontando para uma situação que, ainda quando se escreve estas linhas, é vivenciada por todos aqueles profissionais que atuam como docentes, em todo e qualquer dos seus níveis. Diz a jovem professora:

 

“— e ainda: os deveres escolares vêm para dentro de casa. É o jeito, senão nem dou conta. E as aulas para preparar? O pessoal fica furioso, porque não descanso. Comprei até um mimeógrafo e com ele, além dos meus, passo trabalho das outras colegas que não o possuem. E me lamento, tanto, tanto, que minhas irmãs têm pena e colaboram comigo, ajudando-me sempre que preciso. O papai e a mamãe olham só e balançam, negativamente, a cabeça. Nada dizem, pois. acham ser meu gosto. Francamente, Marta, toda a vida acalentei este grande sonho, porém, pensei que fosse menos árdua a sua realidade. Não agüento mais. Às vezes, quando chego a casa, já as meninas saíram, foram ao cinema, a um passeio compras ou alguma visita. É verdade que não sou muito disto, não, mas lá um dia, tenho vontade, e até necessidade, de também ser jovem. Porém, creia-me, cadê coragem? Nem para ler, que foi sempre do que mais gostei. A estante vive abarrotada de livros novos. Olho-os só e pronto. Cansaço, desânimo, decepção é o que sinto hoje, pelo magistério... — E, com olhos tristes e inquiridores, encara a amiga: — Você acha ainda que devo ser otimista?” (FEIJÓ, 1978,P. 21).

 

Marta se vê obrigada a silenciar. Percebe que o discurso retoricamente proferido aos ouvidos pouco dispostos a escutá-los, demonstraram-se inócuos, na medida em que precisará empregar outras formas discursivas para alcançar o propósito de ver a sua interlocutora recobrada em seu ânimo e desejo de continuar a exercer a profissão que escolheu e para a qual se capacitou.

Professor Jorge Damasceno – 04 de outubro de 2020.

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Um escrevedor fala de memória musical - I.

 

Um escrevedor fala de memória musical - I.

 

Com o título acima, tem início uma nova série de escritos, desta vez com um tema muito caro ao seu propositor, uma vez que os acordes melódicos e os diversos instrumentos que os executa, funcionam como um bálsamo regenerador do seu corpo e da sua alma. A memória musical deste escrevedor é bastante vasta, consistindo em um grande e variado acervo melódico, construído e alimentado desde sua tenra idade. Ao longo de mais de 50 anos, inúmeras músicas foram ouvidas, apreciadas e armazenadas em um rememorar constante, parte delas muitas vezes realimentadas por audições frequentes; outra parte, permanecera quase esquecida, mas nunca de todo apagada, sendo reavivada quer por raríssimas escutas em transmissões radiofônicas, quer por fragmentos que, vez por outra, ressurgem dispersos e desconexos em alguns assomos de lembranças vagas e/ou confusas, perdidas no tempo cada vez mais afastado.

É assim que, semanalmente, se pretende publicar crônicas alusivas a músicas que entraram nos ouvidos frágeis deste garatujador e, de lá nunca mais saíram, pois se arraigaram na sua excelente memória melódica.

Para a estreia desta série, se trará a música que inspirou a ideia destas crônicas, ligando músicas ao seu rememorar, ligando-o a pessoas, lugares e tempos históricos bem definidos.

Nas longas e quase intermináveis tardes de sua solidão, lá pelos idos de 1978, talvez estudasse a noite, este escrevedor munia-se de fichas telefônicas e se dirigia até a praça Maestro Santa Isabel, com o objetivo de utilizar um dos telefones públicos recém instalados na cidade, como parte da expansão da Telebahia, a fim de ligar para a rádio Clube de Salvador e falar com o locutor da tarde, Armando Mariane e, pedir que tocasse a sua música preferida. Isto feito, subia até o fim da praça, sentava-se à sombra da Igreja ali existente e, aguardava que o seu pedido fosse atendido.

A música era em inglês, o que implicava em desconhecer completamente o que dizia a letra que era cantada. Então, o que tanto atraía o moço, para querer ouvir aquela música, tantas vezes quantas pudesse? Uma música aparentemente simples em sua construção melódica era profundamente tocante aos sentidos do seu apreciador, dando a ele uma sensação de indescritível emoção ao ouvir o seu pedido atendido, mesmo quando o locutor não conseguia pronunciar satisfatoriamente, ou o nome de quem pediu, ou a cidade de onde lhe chegou o pedido.

Não vinha ao caso. O que importava é que o locutor lhe atendera o pedido musical e ele poderia ouvir e guardar aqueles sons em sua memória.

O que explicaria tamanha alegria sentida ao ouvir aquela música, apertando o rádio ao ouvido e, acabado aquele momento de raro enlevo, a sensação de vazio, levando ao desejo de ouvir outra vez, de novo, outra vez e, ainda mais uma vez? Um tal sentimento, fazia com que ele voltasse no dia seguinte ao mesmo lugar, a pedir a mesma música e a voltar a sentar-se à mesma sombra da Igreja, para esperar que sua música fosse outra vez tocada.

Certamente os psicólogos, pedagogos e outros ilustres estudiosos do sentir humano, já desenvolveram várias respostas para as indagações formuladas acima. Mas, cá entre nós, para este escrevedor, nenhuma delas faz qualquer sentido lógico ou fenomenológico.

E, afinal, qual era a música? Quem a interpretava?

Curiosos? Calma! Já se dirá. Ou antes: já se saberá, ao clicar no link.

https://youtu.be/jZEPIpTpoPs

 

Professor José Jorge Andrade Damasceno – 01 de outubro de 2020.

Texto da Professora Iraci Gama

30 de setembro - dia de Alagoinhas Ferroviária!

Nessa rua ferroviária, pelos trilhos, pelas Oficinas, pela Estação do trem, pela Caixa D'água, em forma de taça, pelo Guindaste histórico, de uso para duas bitolas diferentes, de dois prédios importantes para a energia elétrica em nosso Município. Dentro da Oficina São Francisco duas peças simbólicas : uma pela representação da "Maria Fumaça" de saudosa memória; a outra, pela marca forte, do tempo em que os operários dessa Oficina, reparavam as locomotivas que puxavam os nossos trens. Mas precisavam olha-las, por baixo. Ah! Meu Deus! Ficar em baixo de toneladas de ferro! Somente um processo permite isso: colocar a Maria Fumaça na rotunda! Aqui na Oficina São Francisco isso acontecia, sempre, e esse local continua  inalterado, podendo ser admirado, pelos visitantes que tenham o privilégio de entrar no recinto. Recinto quase sagrado de quase cem anos, pois que é de 1930, onde centenas de pessoas gastaram suas energias, realizando sonhos de produção e de sobrevivência. Levas e levas de operários que interligavam sentimentos e costuravam emoções de transformar chapas inteiras de ferro, em delicadas peças de passar água e vapor, de passar o som anunciador da chegada , na curva da rua com apito identificador, ou de produzir sinos grandes e possantes, capazes de receber as batidas fortes do badalo para dizer : saí; já vou; fique em paz; vou em paz; até a próxima; adeus; quantas mensagens , no apito ou no bater do sino? Diferentes sentidos para diferentes pessoas, para diferentes situações, para diferentes momentos, para diferentes realidades...para diferentes operários - da produção à utilização. Em todos, porém, o toque do prazer, indescritível prazer de trabalhar na "Leste", de fazer a máquina deslizar sobre os trilhos, de ver o trem chegar e sair da Estação, levando e trazendo gente, mercadorias, comerciantes, passeadores, amantes com seus sonhos e encantamentos. Ah! Meu Deus! O trem! Que saudade! Corre menino! Corre menina! Corre pai! Corre mãe! Corram todos! É o trem que vem. Vamos saudá-lo! Vamos dar adeus ao trem! Como esse adeus está demorando! Trinta anos! As crianças ficaram adultas e fizeram várias crianças, mas não têm o gosto de seu tempo de criança; não podem dizer: corram crianças, venham dar adeus ao trem. E eu que já cheguei além dos adultos e estou no caminho da velhice, pergunto a Deus, sem perder a esperança: será que ainda vejo o trem correndo por essas nossas linhas? Não vale o trem do forró! É um alento, um substitutivo confortador! Um afago para meu coração! Mas quero e desejo ardentemente, o trem de passageiros, de novo, com as pessoas em pé, junto às janelas, para acenar, com gosto, respondendo ao aceno da minha e de outras portas, para que eu sonhe com muitas viagens, com muitas vantagens, incontáveis encontros e alegrias, de apertos de mão, de abraços, de aconchegos e entregas.

Que venha o TREM! Que volte o TREM! ALAGOINHAS AMA O TREM! ALAGOINHAS  QUER O TREM!!!

domingo, 27 de setembro de 2020

HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DE ALAGOINHAS, PELOS ESCRITOS DE MARIA FEIJÓ - XIX.

 

Histórias e Memórias de Alagoinhas, pelos escritos de Maria Feijó – XIX – cumprimentos, descrições e primeiras trocas de impressões : a literata se transmuta em Marta, mas ainda conduz a fala das duas amigas professoras.

 

No arrazoado anterior, o leitor foi apresentado aos dois personagens que Maria Feijó de Souza criou, especialmente para que pela intermediação deles, o seu rememorar possa ser trazido à lume, na medida em que ela própria não quer ser identificada diretamente com o que irá rememorar. É um artefato narrativo que autora utiliza para suas reminiscências poderem fluir, sem que venham a ferir suscetibilidades. Tais memórias entremeadas de elaborações ficcionais, são, por assim dizer, memórias vividas a partir de interações coletivas na sociedade alagoinhense, localizada em um espaço de convivência daquela que relembra e em um tempo por ela vivido, no curso da história de um cotidiano perpassado por diversos conjuntos de pessoas, das mais diversas classes, visto aquela sociedade já estar demarcada pelas diferenças de pertencimento social, econômico, étnico e lugar de moradia.

Assim, conforme formula o sociólogo francês Maurice Halbwach (1877-1945), Feijó é a pessoa que lembra; mas um tal lembrar é produto da coletividade em que ela esteve inserida. Diz ele:

 

“[...], se a memória coletiva tira sua força e sua duração por ter como base um conjunto de pessoas, são os indivíduos que se lembram, enquanto integrantes do grupo. Desta massa de lembranças comuns, umas apoiadas nas outras, não são as mesmas que aparecerão com maior intensidade a cada um deles. [...], cada memória individual é um ponto de vista sobre a memória coletiva, que este ponto de vista muda segundo o lugar que ali ocupo e que esse mesmo lugar muda segundo as relações que mantenho com outros ambientes. Não é de surpreender que nem todos tirem o mesmo partido do instrumento comum. Quando tentamos explicar essa diversidade, sempre voltamos a uma combinação de influências que são todas de natureza social”. (HALBWACH, 2006, p. 69). 

 

Portanto, Feijó é o “indivíduo que lembra”, a partir dos diversos elementos acumulados no transcurso de sua existência, associados a outros transcursos existenciais que com ela interagiram coletivamente, quer sejam suas colegas de curso ginasial, normal ou de atuação professoral, quer sejam os seus alunos, amigos, e as demais pessoas que com ela conviveram e socialmente interagiram. Tais conjuntos de lembranças vão sendo armazenados ao longo do tempo e ancorados no porto localizado no espaço chamado memória. Dali, são extraídos os rememorares materializados em suas obras literárias, sobretudo, aquelas prosas publicadas entre 1972 e 1978, além dos contos e poesias tornadas públicas em todo o seu percurso, sendo Alagoinhas, sua cidade natal, quase sempre o fio condutor de todo o seu mourejar no mundo das letras. Crê-se que aqui caberia a seguinte passagem extraída da já mencionada obra de Maurice Halbwachs, que diz  “[...].A sucessão de lembranças, mesmo as mais pessoais, sempre se explica pelas mudanças que se produzem em nossas relações com os diversos ambientes coletivos, ou seja, em definitivo,  pelas transformações desses ambientes, cada um tomado em separado, e em seu conjunto” (HALBWACH, 2006: P. 69).

 

Neste ponto, retoma-se a conversa das duas amigas professoras que se reencontram em Copacabana, depois de algum tempo sem se esbarrarem em algum outro lugar, sem entabularem alguma conversa por outro qualquer meio – já existia o telefone; mas, ele sequer é mencionado como possibilidade de alguma troca de notícias entre as duas. Maria Feijó teima em não se retirar do processo narrativo, pois ainda faz o trabalho de transição entre ela mesma e a personagem Marta, que acaba de criar para puxar o fio da história que constrói em torno de Maria Luísa Peixoto e o conduzir até o seu desfecho. É assim que ela descreve o estado de espírito das suas “amigas” que há algum tempo residiam apenas na sua criação literária: “Continuam sorrindo numa alegria colegial, realmente parecendo sincera, estando ambas felizes, enquanto os convencionais beijinhos estalam em cada face oferecida.” (FEIJÓ, 1978, p. 18).

A literata se esmera em descrever a personagem condutora da narrativa, mas não consegue esconder os seus próprios traços pessoais, profissionais e afetivos. Cada componente da descrição que ela faz de Marta, aponta para ela mesma. Certamente isto não é acidental, uma vez que a autora teria tido inúmeras oportunidades de se retirar do texto, caso assim o quisesse. Acontece que ela não o quer, não o pode, se diria. Sua têmpera de narradora não o permitiria. Siga o leitor os contornos que Feijó esboça para apresentar Marta. Ela começa por indicar que as duas teriam alguma semelhança – saíram ambas da mesma criação literária -, distanciando-se apenas no tempo já vivido, visto que” embora ambas fossem distanciadas em idade, tornaram-se amigas pela semelhança da profissão”.

E prossegue:

“Marta, na realidade, contava 38 a 40 anos. Mais ou menos. Casada, sem filhos, Professora Primária formada por outro Estado da União, e por este motivo jamais pôde ensinar — seu maior sonho — no Rio de Janeiro, porque para aqui viera quando ainda Distrito Federal.  Tudo fez, tentando lecionar, mas inúteis todos os esforços. Ingressara, então, na Faculdade de Filosofia, fazendo Jornalismo.  Como sempre gostasse de escrever, superou o sonho não realizado de exercer o magistério carioca, ao tempo em que, militando na imprensa, desposou um colega muito culto, bacharel em Direito, escritor e, sobretudo, muito a amava”. (FEIJÓ, 1978, p.18).

 

Ainda descrevendo Marta, Feijó traça os seus contornos e dotes de mulher, cujo corpo ainda se não deixou vencer pelo correr implacável dos anos:

 

“Morena, alta, esguia, trajava nessa manhã luminosa de domingo.  maiô preto de uma peça — embora moderna, não usava o duas peças e biquini, ainda pior — que mais lhe delineava o corpo bem feito, não aparentando, nem de longe, a idade real.  Se muito, uns 32 anos demonstrava! Eterno segredo de juventude trazia-lhe sorrisos diante da vida. Muito conversada, descontraída, acompanhava o marido, quando podia, em viagens de estudo, recreio, congressos, encontros, seminários, conferências etc.  Porém, lá no íntimo, ao Paulo — seu marido — sempre confessava que se sentia, às vezes, não propriamente desajustada dentro da profissão que desempenhava, mas lhe faltando” qualquer coisa”. Nascera mesmo para Professora Primária, embora achasse ser o complemento dessa honrosa profissão.  realmente, o jornalismo. As duas se fundiam na verdadeira, por ela ambicionada. Enfim, nem tudo é como se deseja e, tal o espírito de adaptação que a envolvia, conformava-se, porque encontrara na vida, sua outra metade, sonho de toda mulher, considerando isto, grande dádiva dos Céus. E, assim, se dava por muito feliz. Realizada” (FEIJÓ, 1978, p. 19).

 

Parece claro que o perfil acima construído é mesmo da literata alagoinhense,” [...]. Casada, sem filhos, Professora Primária  formada por outro Estado da União,[...]”,  até mesmo no fato de atuar em um mister que, por assim dizer, não escolhera se não pela impossibilidade de exercer o “magistério”, pois, conforme ressalta nas palavras que coloca no trabalho de apresentação de Marta “[...].Nascera mesmo para Professora  Primária, embora achasse ser o complemento dessa honrosa profissão”. 

Para justificar a a opção de contar a sua história de professora primária como o fez, trata de apresentar aquela que será concitada a ouvir o relato, de modo a destoar um pouco de Marta, tanto nos traços corporais, quanto no que tange ao desapontamento com a profissão e/ou com a situação em que está vivenciando no exercício do magistério. Observe-se o modo como Feijó apresenta a interlocutora:

“A outra, Maria Clara — Clarinha na intimidade —, loura natural, bonita, garota de uns 20 anos se muito, descendia de família numerosa, abastada, nortista, mas radicada no Rio fazia muito tempo, sendo ela, carioca de nascimento e caçula na família.  Magra.  Elegante. Inteligente. Amadurecida e, o que é mais importante: de uma cultura e talento muito grandes para uma jovem que, numa supercivilizada metrópole, poderia não se interessar, como o fazia, pelas coisas do espírito.  Estudiosa e sensata.  Completa a garota.  Gostava de festas, mas se não as freqüentasse, não ligava. Mantinha seus flertes, entretanto, por eles não se interessava muito” Gênero de primeira necessidade” não os considerava.” (Feijó, 1978, p. 19).

 

Em contrapartida ao perfil de Marta que se realizara como “toda Mulher” ao desposar “[...] um colega muito culto, bacharel em Direito, escritor e, sobretudo, muito a amava”, Maria Clara não via nisto um objetivo a perseguir e/ou alcançar. A literata constrói uma personagem de tipo mais contemporâneo ao momento que elabora o seu narrar dos fatos, informando ao leitor que Clarinha jovem e culta, ao contrário de grande parte das suas coetâneas, se interessa pelas “coisas do espírito”. Porém, no campo dos afetos “[...]. Mantinha seus flertes, entretanto, por eles não se interessava muito [...]”.

Passando para as mãos de Marta a tarefa de principiar a conversa com Maria Clara, Feijó ainda apresenta algumas dificuldades para se ausentar da narrativa, visto se fazer confundir com a primeira, enquanto se esforça para realizar a transição. Assim segue o diálogo entre as duas jovens amigas:

 

“— Então, Clarinha, como vai?  Que me conta essa mocidade brejeira e esvoaçante que você traz dentro de si, distribuindo, por onde anda, beleza e simpatia? O coração, esse pássaro feliz, vaporoso?  A profissão, como está?  São tantas as perguntas, que se perdem na conta...” (FEIJÓ, 1978, p. 18).

 

Note o leitor que ela já propiciou a resposta ao indagar de Marta, quando mais abaixo descreve as duas banhistas que, propositalmente foi discutida algumas linhas acima. Mas, observe-se a resposta de Maria Clara:

 

“— Ah! minha cara amiga, nem tanto assim a mocidade é brejeira nem distribui beleza, vida, alegria, como você pensa.  Nem tanto!  O coração?  Feliz só na aparência...  Aéreo, vazio é como vive. Embarcação segura ainda não aportou em terra firme, trazendo-lhe o dono e senhor absoluto... Continua disposto a esperar por muito tempo ainda.  Não palpita.  Funciona apenas como o principal órgão da circulação.  E o resto, a nova profissão, por exemplo, quase acabada, destruída, extinta pelas vicissitudes e desenganos.  Não fosse o grande ideal que sempre acalentei pela mesma e tudo estaria terminado, desfeito, morto.  Mudaria logo de vida.  Sem saudades.” (FEIJÓ, 1978, p. 18).

O que Feijó pretende é, sem dúvidas, construir o ambiente propício para que ela possa assentar o seu rememorar. Ela, na busca por encontrar terreno favorável para a sua construção cênica, como que tateia em busca de assegurar que elaborará uma estrutura narrativa que ao mesmo tempo seja atraente e coerente, na medida em que se trata de uma construção memorialística – embora, como já se disse, ela não use esta expressão – e, como este escrevedor suspeita, mesmo uma construção autobiográfica, sem contudo assumir claramente um tal propósito – conforme também já foi salientado em arrazoados anteriores.

É assim que ela conduz os primeiros passos da interlocução entre as duas professoras, no sentido da demonstração de surpresa de Marta, diante da reação de Clara às suas questões e afirmativas:

 

“— Como assim? — a surpresa sem poder esconder-se no rosto de   Marta.    Você quase recém-formada, minha querida?  Não. Não pode ser possível. Por que esse desânimo? Tão jovem, tão inteligente e cheia de ideal como sempre a conheci?!” (FEIJÓ, 1978, p. 18).

 

E Feijó toma de volta para si a condução da narrativa, talvez para explicar ao leitor que “a outra dá de ombros, parecendo ouvir aereamente as palavras  da amiga e sorriso  de  desdém ensombra lhe  o  semblante  jovem,  arranja a linda barraca multicor, de Marta, porque  Clara — este seu nome — pouco trazia para o banho de mar. Relativamente longe, na Rua e Sarros, zona Norte, residia”. 

 

Desta forma, Feijó, ainda na condução da narrativa, procura aplainar o tablado sobre o qual Marta se assentará para desfiar os muitos rememorares com os quais procurará convencer Maria Clara de que o seu desapontamento com o exercício professoral pode ser mitigado e até mesmo reconsiderado, caso tenha êxito em seu intento de reanimar os já quase naufragados ideais daquela jovem, que foram construídos em torno do “sonho” de fazer carreira no magistério. Assim, mediante a escuta das vicissitudes de uma “professora primária”, que, tal qual ela, também tivera o mesmo “sonho” e enfrentara os mesmos labores seus, em terreno mais árido e árduo de uma cidade do interior, Marta acredita poder prover o remédio para tão precoce desalento.

 

Professor José Jorge Andrade Damasceno – 27 de setembro de 2020.


domingo, 20 de setembro de 2020

Histórias e memórias de Alagoinhas, pelos escritos de Maria Feijó - XVIII

Histórias e memórias de Alagoinhas pelos escritos de Maria Feijó – XVIII – Metamorfoseando-se para ressignificar as suas memórias.

 

Com a pretensão de continuar o trabalho de apreensão da memória da urbe alagoinhense, retoma-se a produção literária de Maria Feijó de Souza Neves (1918-2001), sobretudo o seu alentado “Pelos Caminhos da Vida ... de uma Professora Primária”, publicado em 1978, buscando perscrutar em sua narrativa os elementos constitutivos da vida social, econômica, política e cultural da cidade, “ainda menina moça”, conforme ela expressa nas primeiras páginas da referida obra, no sentido de identificar os “ires e vires” daquela Alagoinhas pujante das décadas de 1920, 1930, 1940 e 1950, quase todas elas vividas por Feijó na sua Alagoinhas, enquanto nascia, crescia, se instruía e se fazia professora primária e, um pouco mais tarde, dava o salto na direção da formação em biblioteconomia.

No entanto, é preciso salientar, de passagem, que se faz necessário o desenvolvimento de mais trabalhos com intuito de manter viva a história, fazendo-a ser percebida em sua importância para a sua compreensão, na medida em que, segundo Jeanne Marie Gagnebin, “[...]. Essa importância sempre foi reconhecida  como a da rememoração, da retomada salvadora pela palavra de um  passado que, sem isso, desapareceria no silêncio e no esquecimento. Essa empresa de rememoração já determina, na aurora do pensamento grego, a tarefa do poeta e, mais tarde, a do historiador. [...]” (GAGNEBIN, 2013, p. 03). Ainda recorre-se a GAGNEBIN para chamar a atenção do leitor, no sentido de o alertar para o fato de que “[...]. Hoje ainda, literatura e história enraízam-se no cuidado com o lembrar, seja para tentar reconstruir um passado que nos escapa, seja para” resguardar alguma coisa da morte” (Gide) dentro da nossa frágil existência humana” (Idem, 2013, p. 03). Já deve estar evidente para o leitor que a obra que aqui se pretende desenvolver enquanto arrazoados analíticos, por certo, não foge ao que se expôs acima e, em concordância com GAGNEBIN:

“[...]. Se podemos assim ler as histórias que a humanidade se conta a si mesma como o fluxo constitutivo da memória  e, portanto, de sua identidade, nem por isso o próprio movimento da  narração deixa de ser atravessado, de maneira geralmente mais subterrânea, pelo refluxo do esquecimento; esquecimento que seria não  só uma falha, um ”branco” de memória, mas também uma atividade  que apaga, renuncia, recorta, opõe ao infinito da memória a finitude  necessária da morte e a inscreve no âmago da narração”. (GAGNEBIN, 2013, p. 03).

 

Depois de algumas páginas dedicadas ao debate em torno dos prefácios, da advertência e da dedicatória, passa-se a analisar o texto construído por Feijó, por meio do qual ela dá expressão a seus sentimentos e dá existência material ao seu “rememorar”. É com a sua verve lírica que Feijó inicia o processo de metamorfosear-se, a fim de construir o desfile de suas narrativas. Por meio de uma descrição minuciosa de “lugares”, ela procura preparar o leitor para receber os personagens por ela criados com o intuito de desenvolver a sua exposição de “tramas textuais que habilmente tece e entretece”,, através dos quais ela desenrolará o seu corolário de reminiscências, travestido de fatos apenas romanceados. Assim ela descreve o cenário no qual insere as duas jovens que conduzirão a narrativa dali por diante: “Manhã luminosa de verão. Luz e cor. Rosa feita de mar e sol corola refletida para o azul do céu, Copacabana, de brancas espumas debruçadas no moreno da areia, se retratava naquela domingueira manhã de janeiro”.

Feijó está ao mesmo tempo dizendo que a conversa entre as duas professoras se dá no verão carioca, em um dos lugares mais badalados da antiga capital política do Brasil, mas, ainda fervilhante centro cultural do País. Ela prossegue em sua descrição poética do ponto de partida para uma longa prosa:

“Orgia de cores invade o espaço, e a praia, regurgitante, toma feição característica de pagode chinês no colorido das barracas mansamente acariciadas pelo vento, abrigando no seu leito, corpos besuntados de óleo e dourados de sol, no semicírculo do Leme ao Forte. Tudo é mocidade, vibração, euforia, vida, contas de vários matizes engastadas no enorme e bonito colar de Copacabana, ornando fidalgamente o colo macio da baía de Guanabara... Descanso do corpo e” relax” do espírito procuram tomar lugar ao longo da praia. Almas no aconchego das ondas, e problemas atiçados a distância, no emaranhado do mar, velas soltas largando pano à mercê dos ventos, indo perder-se nos longes da paisagem do horizonte limítrofe...” (FEIJÓ, 1978, P. 17).

 Na mesma toada lírica, Feijó pinta quase a um só tempo, o quadro humano e natural daquela Copacabana que tanto parece inebriar lhe os sentidos:

 

“Gaivotas, pintalgando o mar, bailarinas do azul, flutuam no espaço, brincando de esconde-esconde com o mistério das águas. 

 

“Montanhas em cadeia, sentinelas  do mar, num imenso cordão  cinza-esverdeado — apenas com um claro bem amplo, perto do Forte  pelo qual são avistados mar e céu, simulando grande porta aberta a  dar passagem e acolhida aos que chegam — emolduram a baía de  Guanabara como belíssimo  fundo de cartão-postal,  oferecendo  aos  olhos sequiosos de beleza, momentos de profundo êxtase e arrebatamento em mosaicos cintilantes. 

 

Corpos femininos, distribuindo alegria, exibem-se em minúsculos biquinis, cada qual procurando definir, de forma acentuadamente marcante, os dotes físicos doados em profusão pela natureza nem sempre muito pródiga para todos...” (1978, p.  17).

 

Depois de discretamente apontar para algumas desigualdades entre corpos, natureza e beleza, ela arremata as descrições do “cenário da História” que está prestes a começar:

 

“E olhares masculinos, em passarela, visivelmente extasiados, procuram disputar o instante de encantamento naquela extravagância de beleza espalhada pela manhã de sol... A paisagem humana desafia a paisagem divina... 

 

“Grupos alegres se formam, reunindo-se em buquês de várias tonalidades e, em torno dos biquinis coloridos, olhos ávidos voejam como se fossem mariposas entontecidas ao redor de feixes de luz... (FEIJÓ, 1978, p.17).

 

Todo este lirismo é uma forma da autora procurar construir para os leitores, aquelas imagens prenhes de elementos já inseridos no imaginário deles, na medida em que os meios de comunicação já difundiam aquele ideal de um Rio de Janeiro que, conforme dissera Gilberto Gil alguns anos antes “Continua lindo”, “continua sendo”. Tais construções eram impulsionadas pelas músicas, pelas revistas, pelas novelas televisivas, então em grande expansão. E, a pedra de toque daquela imagem, era, sem sombra de dúvidas, Copacabana, aquela mesma acima descrita por Feijó.

 

Procurando pouco a pouco sair da narrativa, ela prossegue no intento de metamorfosear-se, com o fito de apresentar duas jovens que, dali por diante, levarão a termo o processo narrativo. Algumas linhas após as descrições que faz do espaço onde, conforme pretende, se dará o “diálogo” entre as narradoras, especialmente criadas para executar aquela tarefa, Feijó afirma que:

 

“O contorno marinho desse quadro de verão serve de cenário ao encontro casual de duas amigas que, fazia algum tempo, viviam afastadas pelas atribulações do cotidiano. Em mútua demonstração de contentamento as duas bendizem o acaso:

 

— Marta, há quanto tempo não a encontrava! (P. 17).

Como vai se perceber mais adiante, sendo Marta aquela que conduzirá o “diálogo”, pode-se inferir ser ela a o resultado do esforço da literata alagoinhense por se metamorfosear para poder dar curso ao seu rememorar. Tanto assim o é, que se percebe na resposta dada por Marta a amiga, alguns elementos constitutivos do modo de ser “Maria Feijó.

— Verdade, Clarinha, nem parecemos amigas!  É a vida agitada deste Rio de Janeiro que nos tem distanciado um pouco, mas... nenhuma nuvem penetra no céu de nossa amizade e, assim, é um enorme prazer revê-la nesta deslumbrante manhã.  Vejamos ser esta a razão porque o sol se abriu num magnífico sorriso. Há quanto tempo não víamos "um domingo assim, de um sol assim..." (FEIJÓ, 1978, p. 18).

 

e a réplica de Clara, confirma a suspeita:

 

— Como sempre, você e sua poesia, sonhadora eterna, habitante das nuvens!... (Idem, Ibidem).

 

E assim, crê-se que os leitores já estejam mais ou menos prontos para enveredar “pelos caminhos de uma professora primária”, visto já conhecerem alguns dos processos narrativos utilizados pela sua autora, com o fito de contar a história de Luísa Peixoto, que, segundo Feijó, é a história de muitas professoras como elas.

 

Professor Jorge Damasceno

domingo, 6 de setembro de 2020

HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DE ALAGOINHAS, PELOS ESCRITOS DE MARIA FEIJÓ - XVII

Histórias e memórias de Alagoinhas pelos escritos de Maria Feijó – XVII – Dedicando a obra – os nomes ainda são os reais.

 

Conforme salientado no arrazoado anterior, com este e os próximos escritos, se pretende indicar algumas pistas que apontem para o caráter memorialístico – e talvez autobiográfico – do alentado volume publicado em 1978, na cidade do Rio de Janeiro, cujo objetivo declarado de sua autora, era o de oferecer aos alagoinhenses  “[...], o retrato, talvez, sem retoque”, da sua cidade quando ainda “menina-moça”, como se pode ler na página que antecede à dedicatória:

(... este livro, ALAGOINHAS, é o retrato, talvez, sem retoque, tirado por mim, na sua terna e doce fase de MENINA-MOÇA, genuinamente provinciana e bela. O de AGORA, com ares de metrópole e requintes de mulher civilizada creio, eu não o saiba fazer. Outros filhos seus de melhores credenciais, poderão pintá-lo com todos os matizes da ATUALIDADE. Fiz neste o que pude, melhor não podia, embora para mim tivesse sido o IDEAL...)” (FEIJÓ, 1978, p. 13).

Como se pode observar na transcrição feita da página de epígrafe, há um esforço da autora no sentido de legitimar as páginas do seu denso texto literário e/ou memorialístico, com o objetivo de que o leitor perceba um desfilar de “verdades”, embora romanceadas, indicando que a sua narrativa procurará não falsear os eventos ali expostos. Daí a metáfora do “retrato quase sem retoques”, que, em outras palavras, no livro ela procuraria apresentar os eventos como de fato eles foram, sem a interferência de sua narradora, como se ao tirar o tal “retrato sem retoques”, a retratista não quisesse ou não pudesse intervir nos traços ali apreendidos, de modo a alterar a fisionomia da retratada, ao ponto de fazê-la parecer diferente do que realmente era. .

Neste sentido, ao discorrer sobre uma outra memorialista alagoinhense, foi dito em arrazoado publicado em 2012, na revista eletrônica “Veredas da História”, que a então nonagenária Joanita Cunha “[...],por meio dos seus escritos, traça em seu descortinar de lembranças, um “retrato” da cidade, este um tanto mais retocado, embora não deixando de aparecer ao fundo, algum “defeito” ou “sujeira” na imagem, que se queria bonita [...][1], visto que, ao que parece, em suas memórias registradas nos “Traços de ontem”, Cunha pretenderia construir uma “imagem” da cidade onde nascera, crescera e tivera a sua primeira filha, “[...], como que completa, o que eventualmente viesse a faltar na fotografia de Alagoinhas tirada por Feijó, [...]”[2],.

Mas, ao que tudo faz crer, para Carlos Nássaro da Paixão, em dissertação defendida em 2009, nenhuma das duas escritoras, cujos trabalhos ele utilizou para construir o seu arrazoado, foram plenamente exitosas em seus intentos[3]. Buscando construir sua análise em assertiva apreendida de François Dosse, Nássaro constata que

“As diferentes cidades narradas pelas duas escritoras indicam que cada indivíduo produz imagens diferentes para si e que estas criam uma competição de sentidos para o urbano. Os diferentes caminhos descritos por Joanita da Cunha e Maria Feijó ocorrem levando em consideração que “a cidade é o campo fechado de uma verdadeira guerra de narrativas, das quais cada um de nós é o portador de uma memória específica e cuja tessitura constitui a densidade histórica de cada cidade”[4].

 

 E, um pouco mais adiante, Araújo da Paixão crava:” Alagoinhas não é aquela apresentada por Joanita e muito menos a descrita por Feijó. Em sua complexidade a cidade não pode ser presa em uma única descrição, mas nas múltiplas imagens produzidas pelos seus diferentes caminhantes”[5].

No entanto, cabe salientar que, a obra de Maria Feijó sobre a qual Araújo da Paixão se debruça, não é a que aqui se pretende examinar. Ali, a obra lida fora “Alecrim do Tabuleiro: Crônicas evocativas de Alagoinhas”, de 1972, com a qual ele confrontou as “evocações” de Joanita Cunha. Talvez, ele tivesse outra impressão, caso a obra a examinar fosse “Pelos Caminhos da vida ... de uma professora Primária”, de 1978. Nela, crê este escrevedor, Feijó produz uma obra memorialística, embora não reivindique esta condição, mas, ao contrário, ela procura – sem sucesso, evidentemente – sair da cena, mediante a utilização do artifício de uma “narradora”, a partir da qual, alimenta livremente o seu rememorar, claro que, com todos os limites inerentes ao trabalho de “trazer o passado para o presente”, como se pode encontrar no debate teórico desenvolvido por Araújo da Paixão, na introdução e no primeiro capítulo do seu já referenciado texto dissertativo.

Entretanto, antes de enveredar “pelos caminhos da vida de uma professora primária” que Maria Feijó de Souza Neves (1918-2001) apresenta para os seus leitores, faz-se necessário gastar um pouco mais de tempo nas suas páginas iniciais, aquelas em que a escritora ainda se apresenta como sendo ela mesma. Nelas, pode-se observar o descortinar de um mundo de saudades, partindo de uma camada espessa de memórias. Ainda ali, os nomes mencionados são reais, de pessoas que passaram pela sua vida, em diversas de suas etapas. No entanto, o leitor atento, encontrará ao longo da narrativa, algumas ou quase todas elas, já despojadas dos seus nomes e arquétipos reais, uma vez que a literata os vai camuflar, do mesmo modo em que ela própria se camuflará, para poder ter a liberdade de narrar.

Assim, os seus genitores – ele ainda vivo à época do surgimento do texto – recebem referências de ternura, gratidão e apreço, daquelas páginas de dedicatória. Abrindo-as, Feijó assim se refere: “A meu PAI querido, razão inconteste do meu viver no sorriso ameno da compreensão em todas as minhas lutas” (Feijó, 1978, P. 15). Mais adiante, ela escreve na dedicatória, uma evocação à sua genitora, dizendo que “A memória de minha MÃE, cujo nome é uma constante nos meus dias” (Feijó, 1978, p. 16).

Ainda ali, ela evoca os nomes do marido e dos quatro irmãos, que são frutos do segundo casamento do seu pai, destacando duas dentre eles, para salientar lhes os precoces dotes literários e poéticos.

Um outro feixe de nomes evocados pela literata alagoinhense, requer dos leitores um pouco mais de atenção, pois, eles aparecem ainda com os seus nomes de batismos, classificados entre aqueles que tiveram alguma influência sobre ela, tanto do ponto de vista da formação profissional e literária, quanto do ponto de vista da propiciação de oportunidades que lhe permitiram alçar voos mais audaciosos. Logo após mencionar o pai, sem utilizar o seu nome, vem o marido, este sim, com o nome, desta vez, sem informar o grau de parentesco. Assim, ela dedica “Para GOARACY, estímulo de todo dia, companheiro certo na força que me reergue das intempéries da vida”. Depois de dedicar aos seus “quatro irmãozinhos menores”, Feijó aponta a que a obra também se destina “À Prof. AGOSTINHA PINTO DE CARVALHO, aquela GRANDE amiga-INCENTIVO de minhas incertezas nos altos e baixos do destino”. Na mesma página, a autora faz menção ao jornalista e político com atuação em Alagoinhas e seu coetâneo João Rodrigues Nou, salientando “[...], que talvez nem saiba, mas foi quem me procurou apontar o roteiro para novas investidas, quando palmilhávamos o solo interiorano”[6]. Tendo homenageado ex-alunos, evocado saudades com um tom de uma certa frustração, termina esta primeira página de vocações de pessoas reais, dizendo que “Enfim... para TODAS as vozes que me incentivaram a pisar o MARAVILHOSO MUNDO LITERÁRIO” (FEIJÓ, 1978, p. 15).

É assim que, ao longo da segunda página escrita para dedicar e/ou evocar pessoas ou memórias de pessoas, Feijó faz menção e, insere algumas observações, a nomes que, de alguma maneira, desempenharam papel de notória relevância no seu caminhar e/ou exerceram influências diversas no processo de sua formação pessoal, cultural, profissional e/ou nos seus modos de ser, pensar, agir, refletir, sentir, questionar, responder e, sobretudo, construir os seus juízos de valor. Não é sem razão que, logo após as lembranças dos pais, dos irmãos mais novos, dos colegas e dos alunos que passaram pelas suas mãos professorais, a primeira menção feita é “A Dr. ERNESTO SIMÕES FILHO, o DIGNÍSSIMO MINISTRO DA EDUCAÇÃO E CULTURA (do passado), alto espírito de JUSTIÇA, responsável pelo meu descortínio a novos horizontes”[7](FEIJÓ, 1978, p. 16).Ela segue em suas evocações, desta vez fazendo referência à memória do “Prof. ALCINDO DE CAMARGO, o MESTRE INESQUECÍVEL, CONSTRUTOR do ENSINO NORMAL em ALAGOINHAS, orientador ainda de minha trajetória como uma chama a iluminar caminhos”[8].

Na mesma página, Feijó dedica “As minhas PROFESSORAS PRIMARIAS: NERINA CARVALHO, VIRGÍNIA VILLA FLOR e SUZANA BARRETO, que alicerçaram o meu mundo brincando com o alfabeto”. E conclui destinando a obra “A todos os meus saudosos professores do CURSO NORMAL, tendo ainda como seus legítimos representantes: Dr. PINTO DE AGUIAR, Profa. NORMA PAIVA DE CARVALHO e SENADOR JOSAFÁ AZEVEDO” (FEIJÓ, 1978, p. 16).

No entanto, alguns dos nomes evocados nestas primeiras páginas, como já se salientou, podem aparecer ao longo da leitura, como sendo os de personagens por ela criados, precisamente para permitir o livre curso de sua narrativa.

 



[1] DAMASCENO, J. J. A. ESCRITA DA HISTÓRIA DA CIDADE MEMÓRIAS E NARRATIVAS: ALAGOINHAS COMO OBJETO DE ATENTOS VIAJANTES E MEMORIALISTAS (1889-1960). Veredas

[2] SANTOS, Joanita Cunha dos. Traços de Ontem. Belo Horizonte: Graphilivros Editores, 1987.

[3] PAIXÃO, Carlos Nássaro Araújo da. TRAÇOS DA CIDADE DE ALAGOINHAS: MEMÓRIA, POLÍTICA E IMPASSES DA MODERNIZAÇÃO (1930-1949). Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História Regional e Local da Universidade do Estado da Bahia – UNEB, Campus V, Santo Antônio de Jesus – BA.

[4] PAIXÃO, Carlos Nássaro Araújo da. Op. Cit. P.37.

[5] Idem, Ibidem.

[6] João Rodrigues Nou (1918-). Trata-se de um jornalista e político com forte atuação em Alagoinhas, tendo protagonizado um evento político controverso e ainda muito pouco estudado, que foi uma refrega no plenário da câmara Municipal, que resultou na morte do filho/secretário do então prefeito, além do ferimento de três parlamentares, em maio de 1956.

[7] Trata-se do político e jornalista baiano Ernesto da Silva Freitas Simões Filho (1886-1957), que ocupa o ministério da educação e saúde, no governo Getúlio Vargas, entre 1951-1953.

[8] Alcindo de Camargo (1886-1950) mato-grossense radicado em Alagoinhas, onde foi professor.