domingo, 23 de novembro de 2025

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte VIII.

Janeiro 1986 – Às vésperas das provas – I.

 

Em mais uma investida no que respeita ao esforço por trazer à lume alguns fragmentos extraídos de um tempo já pretérito, a partir de elementos escavados nas camadas de sedimentos da memória, este garatujador chega a tantos quantos se dignem a ler estes rememorares, com mais um dos momentos que antecederam aos dias de realização da avaliação que faria José Mário, com vistas à sua pretensão de ingressar no curso de Licenciatura em História, da então Faculdade de Formação de Professores de Alagoinhas. Aqui, se pretende discorrer, ainda que brevemente, sobre um aspecto da “História vivida” pelo seu protagonista, a partir das escolhas feitas no presente, visto que, como já se vem salientando há algumas postagens, a memória está sujeita às ressignificações do presente, feitas por quem lembra. Assim, uma tal “história” vivida por quem lembra, se apresenta à memória, associada às reflexões realizadas por quem lembra, estimuladas pelo esforço de lembrar situações e/ou circunstâncias nas quais esteve envolvido. Conforme assevera Maurice Halbwachs (1877-1945), “[...], a história vivida se distingue da história escrita: ela tem tudo o que é necessário para constituir um panorama vivo e natural sobre o qual se possa basear um pensamento  para conservar e reencontrar a imagem de seu passado” (HALBWACHS, 2006, p. 90).

Deste modo, com estes elementos em mente, se quer aqui enfatizar a proposição que aponta para hipótese de que José Mário, embora não tivesse claro no momento em que vivera tais circunstâncias, estava intentando abrir um novo embate em busca de reposicionar para si, o ingresso em um espaço social para o qual não dispunha dos instrumentos adequados para tomar parte dele. Ele, inexoravelmente, vivia em uma constante incógnita sobre o que faria; sobre o que seria; sobre se teria; sobre se alcançaria; sobre se, por acaso alcançasse, conseguiria enfrentar os obstáculos que se lhe procuraria reter no lugar de onde sequer deveria intentar sair; ou antes: se teria algum êxito em se imiscuir em um espaço social que a ele não pertencia. Saliente-se que, ele, nem sequer atentava para aquelas dificuldades, pois, não as conhecia; não sabia, por exemplo, que a sua origem social e econômica, bem como a falta de prestígio e/ou conhecimento entre os “donos” da política e sociedade locais, era um fator preponderante para obstar qualquer mobilidade social; acreditava ele que, bastava obter uma colocação no mundo do trabalho, por meio de uma “Formação profissional”, para que a sua posição social se modificasse, como que naturalmente. Mas, o tempo acabou por demonstrar exatamente o contrário. No entanto, isto é tema para outras digressões. Por ora, permaneça-se “ás vésperas” do certame a que se submeteria dali há algumas semanas.

Logo depois daquela primeira quarta feira do ano de 1986 e, passadas as divagações que sempre se fazem presentes em tais ocasiões, o espírito de José Mário, ainda absorto em suas digressões relacionadas ao seu devir, procurava retomar os preparativos propedêuticos iniciados mais ou menos aos meados do novembro anterior, com vistas à realização daquelas provas que talvez lhes abrisse – ou mesmo fechasse – as portas para o ingresso no ensino superior. De tal ingresso ou não, para ele, dependia o que viria a ser o seu caminhar, no sentido de definir o que ele seria e/ou o que ele faria dali para adiante. Imerso nas incertezas quanto ao ser, ao ter e ao fazer, ele insistia em procurar amenizar as indiscutíveis lacunas do seu processo formativo, cuja evidência era avultada, à medida em que se esforçava por compreender determinados temas que, àquela altura da vida, já deveria dominar com alguma propriedade. A sua defasagem naqueles conteúdos específicos de cada matéria estudada, deixava nele a impressão que o seu navegar naufragaria, ao primeiro temporal que se lhe abatesse durante a travessia daquele oceano de temas e textos que precisaria vencer para conseguir chegar à outra margem e pisar em terra firme, para então poder prosseguir a caminhar.

Noves fora aquelas preocupações de ordem intelectual, materializada em sua percepção das dificuldades que precisaria enfrentar, José Mário, naquele mesmo primeiro dia do ano, acabara por enfrentar um revés sentimental, ao ser preterido por uma jovem, sob o pretexto de não saber como lidaria com uma pessoa assim, sensorialmente diferente dela. Embora hesitasse em fazer tal afirmação, não conseguiu ocultar por mais tempo, na medida em que, imediatamente após dizer o “não” ao insólito pedido de namoro que acabara de ouvir, ela indagou ao solicitante, quem lhe escolhia as roupas; quem lhe auxiliava na higiene... Depois das explicações dadas mecanicamente, o humilhado rapaz se retira da presença daquela sua pretendida, se perguntando se tais questões apontavam para um “desalinho” de sua indumentária, ou, pior, algum “traço” de sujeira que, quem sabe, lhe tivesse causado repulsa. Evidentemente que aquele não fora o primeiro malogro de José Mário no campo das investidas em busca de um relacionamento socioafetivo; mas, sem dúvida, um dos revezes mais evidentes e, significativamente mais claros de rejeição, por questões aliadas à posição econômica e, sobretudo,  à condição sensorial do pretendente incauto.

Virada aquela página amarga e desalentadora para um início de ano, já no dia seguinte, José Mário retomava as suas lições de Língua e Literatura com a sua devotada professora. Naquelas tardes quentes das primeiras semanas de janeiro, ele se dirigira até o bairro do Jardim Pedro Braga, na rua Alfredo Garcia, onde ficava aquela residência acolhedora, para ali, receber as instruções sobre morfologia, sintaxe e outras questões relacionadas à gramática; aulas agradáveis e relevantes relacionadas à produção literária, tanto envolvendo obras e autores brasileiros – seus estilos, suas escolas – quanto portugueses, mormente, aqueles cujas obras já eram canônicas e de repercussão. Não faltara, outrossim, aulas e orientações basilares para a produção de texto, momento em que a excelente preceptora  chamava a atenção do seu aluno, para as possibilidades de construção redacional que poderiam aparecer durante o certame. Uma redação descritiva; uma redação discursiva, na qual poderia expressar livremente o seu pensar, o seu conhecer acerca do requerido pelos avaliadores; uma análise de um texto inserido na prova, que deveria ser lido com toda a atenção.

Portanto, além de todo o cuidado em orientar aquele vestibulando tão atento quanto interessado em reduzir o seu quadro lacunar, naquela e ainda mais, nas outras áreas do conhecimento, aquela professora demonstrava ter não só apreço pelo seu pupilo de tão grandes fragilidades em alguns assuntos da língua e, ao mesmo tempo, com alguma acuidade em outros, como também parecia viver aquele momento como se fosse ela mesma a vestibulanda, ou ainda, como se orientasse as suas próprias filhas para o ingresso no ensino superior. Aquela era a atitude da professora Edna Garcia Batista (1945-2017).

 

Alagoinhas – 23 de novembro de 2025 – primavera brasileira

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com

 

P.S.: esta é a postagem de número 200, neste blog. 

domingo, 16 de novembro de 2025

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte VII.

   Janeiro de 1986 – Ano “novo” que nada trazia de novo.

 

Em mais um esforço para trazer à lume alguns dos sedimentos de memória escavados no fundo de armazenamento de placas sobrepostas de memórias, este escrevedor chega com mais um arrazoado em que busca recuperar alguns momentos do caminhar de José Mário nas sendas do seu processo formativo, envolvendo alguns dos elementos com os quais ele fora pouco a pouco moldado, para que pudesse dar os próximos passos na consecução do seu intento de se tornar, enfim, um cidadão pleno e integralmente partícipe da vida econômica e da convivência social, que se afirmava ser indispensável para a saúde humana. Neste ponto, se faz necessário colocar em dúvida uma tal afirmativa, uma vez que, já passados quase quarenta anos em que se deram as coisas aqui rememoradas, embora tenha havido um avanço de José Mário no que tange à sua formação enquanto cidadão economicamente produtivo, a tal “convivência social” ou, como entende este escrevedor, a aceitação “social”, condicionada à inserção no processo produtivo, acabou por permanecer sempre e em todo o tempo, no campo da expectativa, expectativa, aliás, não plenamente correspondida, em consonância com a realidade vivida. Conforme já se vem salientando ao longo destes garatujares, é característica da memória de quem lembra, a propriedade de escolher o que lembra e, sobretudo, de silenciar, esquecer ou falar sobre o que lembra. Há vezes em que tais rememorares brotam aos borbotões, rebentando na memória de quem se lembra, como ribeiros caudalosos, que jorram em profusões diversas e díspares, forçando uma escolha daquilo que será dito, silenciado ou apagado por quem lembra.

O mês de dezembro se encaminhava para o ocaso dos seus longos e quase intermináveis trinta e um dias; dias que se tornavam mais quentes com a chegada do verão nos trópicos; a primavera se apressava em seu passo rumo aos ares temperados que dali há alguns meses ela alegraria com o seu despontar. Os pássaros, as cigarras e os galináceos, sequer se davam conta de tais alterações, afinal, aqueles seres estavam ajustados aos ires e vires das estações, sem sofrerem as tensões inerentes aos humanos, cujas preocupações eram moldadas pelo tempo do calendário; pelo tempo do relógio; pelo tempo do trabalho; pelo tempo dos sinos das catedrais e das sirenes das escolas. Tal, evidentemente, não se dava com as aves ou com os insetos, que nasciam, cresciam, se reproduziam, envelheciam e morriam, sem que aqueles contares de tempo lhes importassem ou moldassem o funcionamento dos seus equilíbrios biologicamente elaborados pelo Eterno que os criou. Com jácas e cajus em abundância, o verão chegava e, com ele, as festas de fim de ano que, saliente-se, que só o eram para tantos quantos tivessem os meios econômicos para bancar os seus elevados custos. Aqueles que socialmente estavam alijados de tais efemérides, quiçá, ficavam com as sobras e, em geral, sobras apenas emocionais, se “alegrando” com os refestelares alheios e distantes da realidade de grande parte dos terráqueos, entre os quais, José Mário que, por azar, em tal ocasião, completava o seu acréscimo de dias vividos.

Assim, foi mergulhado em tais reflexões que ele recebera a virada de mais uma página do calendário “gregoriano”, que indicara o ano de 1986, com a cabeça prenhe de interrogações sem respostas e, pior, sem quaisquer esboços de respostas. A tensão estava posta, por conta da aproximação da data de realização das provas do vestibular a que se submeteria, mais para o final daquele primeiro mês do ano que começara para José Mário, como o fora com os anteriores – e, diga-se de passagem, como vieram a ser os que se sucederam –, marcados pelas incertezas e incógnitas que sempre o cercaram em todo o tempo do seu viver. Não possuía nada por certeza; os dias eram vividos sem quaisquer garantias do que se teria, do que se seria, do que se daria... Um dia por vez, não por seu querer racional; um dia por vez, por força da impossibilidade de prever ou preparar o dia seguinte ou, ainda, sem sequer saber se haveria um dia seguinte.

Desta maneira, com todas aquelas dúvidas e questões fervilhando naquele cérebro pleno de ansiedades, José Mário se dirigiu ao espaço onde se reunia a igreja “Assembléia de Deus”, para ali participar do entediante e pouco alentador ritual de “passagem de ano” – que os líderes insistiam em chamar de “culto” –, cuja importância e eficácia – esta última, sobejamente entendida como inexistente - para ele já se reduzira bastante, desde que o começara a frequentar, sempre compulsoriamente, desde que lá ingressara e, mesmo antes, quando participara entre os Batistas. Em ambos os espaços, mas, principalmente no último deles, José Mário estivera com o fito de ocupar um tempo que para ele era lento em sua passagem, uma vez que era inútil tentar dormir nos horários costumeiros, em ocasião como aquela, em que os “alegres” e ruidosos vizinhos procuravam macaquear os ricos e abastados membros de uma elite social e econômica que celebravam com grande pompa o ano que para eles fora permeado de lucros e dividendos, frutos da exploração de tantos quantos ora estavam em grande euforia por terem sido os que trabalharam para que aqueles outros pudessem esbanjar em suas festas comemorativas de “virada de ano”.

Sempre avesso a todo tipo de formalidade, tanto religiosa quanto social , que por vezes, por pura conveniência, era catapultado ao nível da “gratidão”, José Mário fora muitas vezes criticado pela sua descrença em relação ao valor  efetivo das diversas práticas litúrgicas. Naquela mesma ocasião, fora confrontado por uma sua amiga, pelo fato de não ter participado de um “culto” em celebração à conclusão do segundo grau, como ela e outros o fizeram, inclusive, os filhos – principalmente as filhas –, dos figurões  da liderança eclesiástica. Calmamente e com a convicção que o seu ceticismo lhe conferia, retrucou que, para ele, aquela era apenas mais uma etapa do caminho percorrido e, que, de mais a mais, muitas outras haveria que percorrer; era sim, grato ao Eterno por mais aquele avançar; mas, não cria ser necessário uma manifestação celebrativa, apenas e tão somente para atender às expectativas de quem quer que fosse, sem contar que não possuía indumentária adequada ao tal “momento de gratidão”, nem teria como obter, visto não dispor de erário onde pudesse buscar fazer frente àquela necessidade extra de provimento.

Portanto, conforme ele mesmo esperava, saíra daquele ritual religioso, pretensamente em “agradecimento” pela passagem de mais um ano, tão entediado e com uma sensação de inutilidade, quanto saíra da sua casa para juntar-se àquela horda de gente que dizia exprimir gratidão mas, que, ao que lhe parecera, mais se esforçavam em dizer de si para consigo que estavam satisfeitos com o que fizeram e/ou com o que obtiveram, do que propriamente, reconhecerem o quanto estavam tristes e infelizes com a vida que levavam e com a pobreza que amargaram, na verdade e sem mascaramentos, naquele ano que terminava e, para ele, já terminava tarde e sem quase deixar saudade.

 

Alagoinhas – 16 de novembro de 2025 – primavera brasileira

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 9 de novembro de 2025

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte VI.

Ainda em Dezembro

 

Com o intento de discorrer ainda uma vez mais sobre algumas das facetas do caminhar de José Mário em seu processo formativo, aqui se pretende trazer à lume mais uma dentre elas, na medida em que ele se encaminha para o enfrentamento de mais uma de suas etapas. Sem deixar de reforçar o que há algumas páginas se vem afirmando, isto é, que estes garatujares são originados de rememorares escavados das camadas de tempo que estão sobrepostas em blocos mais ou menos espessos, mais ou menos profundos, demarcados por um passar de tempo que acaba por forjar um passado ainda não passado de todo, cujos vestígios ainda aparecem no presente, com mais ou menos nitidez para aquele que lembra e/ou se dispõe a lembrar. Assim, um tal passado emerge diante de quem lembra, embora com ressignificações impostas pelo presente, considerando-se os elementos que foram incorporados no curso da vida; considerando-se as camadas de outras experiências que acabaram por interpolar àqueles lembrares, formando um conjunto de elementos cada vez mais interrelacionados ao passado que se quer lembrar. É assim que, ao procurar exercitar o rememorar, aquele que lembra acaba selecionando aquilo que lembra; depois, escolhendo de acordo com as necessidades e/ou com as possibilidades, aquilo que vai dar a conhecer daquilo que lembrou, ou o que vai silenciar, de acordo com os interditos que se lhes sejam socialmente impostos. De sorte que, aquilo que é proposto por Michel de Certeau, ao explicar a “Operação historiográfica”, indicando que a sociedade e o seu conjunto de entidades cercam o historiador com os seus conjuntos de limites e de possibilidades na condução da sua pesquisa, também, com a devida vênia, pode-se aplicar ao processo de lembrar, esquecer, silenciar da memória.

É assim que, em um dos capítulos que integra a obra coletiva de 2012 – “Os Novos Domínios da História” –, organizada por Ciro Flamarion Santana Cardoso (1943-2013) e por Ronaldo Vainfas (1956-), Márcia Menendes Motta, ao falar sobre o binômio “história” e “Memória”, fundamentando-se em argumentação construída por autores franceses como Maurice Halbwachs (1877-1945) e Pierre Nora (1931-2025), sustenta o postulado segundo o qual

 

“[...] a memória e a história não são sinônimos, pois, diferentemente da primeira, a história aposta na descontinuidade, visto que ela é, ao mesmo tempo, registro, distanciamento, problematização, crítica e reflexão; ela é manejada, reconstruída a partir de outros interesses e em direção diversa, e, para se opor à memória, a história tem ainda o objetivo de denunciar e investigar os elementos que foram sublimados ou mesmo ignorados pela memória” (MOTTA, 2012, p. 25).

Já no parágrafo seguinte, Motta apresenta ao seu leitor o paradigma sobre o qual lastreia a sua compreensão daquilo que vem a se constituir na “memória, assegurando que

 

Quando falamos de memória, devemos levar em conta que ela constrói uma linha reta com o passado, alimentando-se de lembranças vagas, contraditórias e sem nenhuma crítica às fontes que, em tese, embasariam essa mesma memória. Ela é ainda, segundo Nora, ”um fenômeno sempre atual, um elo vivido no eterno presente”. (Nora, 1993, p. 9). [...]” (MOTTA, 2012, p. 25).

 

Ao citar Nora 1993, Motta reforça a proposição de que a “memória” se alimenta de fragmentos e, por meio deles, ela procura se ancorar naquele passado que evoca no presente. Motta conclui as proposições trazidas para este escrevinhar, assegurando que

 

“Se entendermos que a memória só se explica pelo presente, isso significa também afirmar que é deste presente que ela recebe incentivos para se consagrar enquanto um conjunto de lembranças de determinado grupo. São, assim, os apelos do presente que explicam por que a memória retira do passado apenas alguns dos elementos que possam lhe dar uma forma ordenada e coerente. [...].” (MOTTA, 2012, p. 25).

Assim, considerando os postulados apresentados nas passagens aqui transcritas, este escrevedor  traz para o seu leitor, mais alguns fragmentos dos rememorares a respeito do processo em que José Mário vivenciara quando procurava se apropriar dos conteúdos necessários ao alcance do seu intento de ingressar no ensino superior. Ainda era dezembro de 1985. Conforme é cediço, aquele era o tempo que demarcava a passagem de estação; era o mês de manhãs frescas e embaladas pelo trinar dos pássaros que, com sua diversidade de espécies e cantares, agradavam os ouvidos de quem atentasse para o seu chilrear; também, aquelas manhãs de fim de primavera e início de verão, traziam deliciosos aromas aos olfatos mais sensíveis, que se dissipavam com o avançar das horas matinais; manhãs enfim, que traziam os primeiros raios de um novo dia tão desejado quanto esperado. O meio do dia e o início da tarde, eram marcados por um aumento gradual da temperatura ambiente, tendo o seu ponto mais alto, o período das treze horas, declinando à medida em que avançava a tarde e principiava o pôr do sol. Com ele, uma vez mais o trinar dos pássaros, o cacarejar dos galináceos que procuravam se abrigar do anoitecer que se aproximava, bem como, os primeiros buzinares das cigarras, indicando por aquela sinfonia, a aproximação e o começo da noite, por vezes, mornam nas suas primeiras horas e, um pouco mais amenas, à medida em que se aproximava a madrugada seguinte. Assim eram os dezembros que permeavam a memória de José Mário que, precisamente naquele dezembro completaria o seu primeiro quartel de século, com as mesmas incertezas que o cercavam nos natalícios anteriores, sobretudo, aqueles vividos a partir do momento em que tomara consciência da vida.

Marcado por um cogitar constante em torno do seu vir a ser, José Mário era constantemente atormentado pela constatação de que nada se lhe apresentava no longínquo horizonte das possibilidades, uma vez que, àquela altura do seu caminhar, nada havia que lhe desse qualquer segurança de futuro. As questões sem respostas se acotovelavam no seu espírito, perturbando-o e dificultando a sua concentração nos estudos que precisava desenvolver com vistas ao vestibular que enfrentaria dali há alguns dias. Para ele, tudo era uma incógnita; nada se lhe parecia verossímil; nada se lhe apresentava como crível, fosse qual fosse a medida de prazo que interpusesse. Por mais que se esforçasse para obter alguma resposta plausível, ainda que provisória, temporária ou sujeita à condicionantes as mais diversas, era obstado pela percepção que possuía da sua realidade concreta e palpável. Eram os vinte e cinco anos que se aproximavam e, que dentro em pouco se completariam, que fazia com que os seus pensamentos se turvassem dentro de si; que diversos embates se travassem em seu espírito tão irrequieto quanto cético, na medida em que não atinava para nenhum porvir concretamente alcançável a partir do seu lugar social.

Portanto, para ele, o completar mais um ano, era entrar uma vez mais, no terreno das hipóteses não demonstradas; era ingressar no campo do talvez, quem sabe, pode ser que... Logo, não havia o que comemorar nem celebrar; era mais um ano que acabara de passar sem qualquer coisa de sua, sem qualquer vestígio de possibilidade de alguma coisa: um ano a mais completado de interrogações não respondidas; e, o que se iniciava, era um ano a mais para sofrer a mesma falta de respostas concretas, de realizações duradouras e passivas de render frutos reais e incorporáveis ao seu viver diário. Era apenas mais um virar de calendários; era mais um insano espoucar de fogos de artifício que a ele não dizia respeito; era mais um estourar de champagnes que estava longe do seu alcance, tanto no que respeita à capacidade financeira de aquisição, quanto na compreensão de um sentido que ele não encontrava em tais manifestações de júbilo, visto que, para ele, o tal júbilo não quisera passar no seu existir concreto e real.

 

Alagoinhas – 09 de novembro de 2025 – primavera brasileira.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 2 de novembro de 2025

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte V.

   O SUSTO

 

Em mais um desfolhar de lembranças de um garatujador que insiste em escavar as espessas camadas quase fossilizadas de memórias que cobrem um tempo já pretérito, aqui se pretende trazer mais uma das vicissitudes enfrentadas por José Mário, no seu intento de prosseguir o seu processo formativo, por meio do qual ele viesse a pleitear um lugar como cidadão socialmente ativo e, economicamente produtivo. Quando, retoricamente, Jean-Pierre Rioux pergunta se é possível “Fazer uma História do Presente”, depois de apontar as objeções enfrentadas por este tipo de “fazer histórico”, em seguida ele apresenta a resposta à indagação com a qual abre o seu postulado, afirmando que “Essa história, de fato, por ser feita com testemunhas vivas e fontes proteiformes, porque é levada a desconstruir o fato histórico sob a pressão dos meios de comunicação, porque globaliza e unifica sob o fogo das representações tanto quanto das ações, pode ajudar a distinguir talvez de forma mais útil do que nunca o verdadeiro do falso.”. E, logo adiante, Rioux arremata a resposta à formulação por ele proposta, asseverando que

 

“[...],se ela tem como missão, como toda história digna deste nome, mostrar a evidência científica das verdades materiais diante do esquecimento, da amnésia ou do delírio ideológico, (pensemos, por exemplo, nos que negam as câmaras de gás), ela sem dúvida está mais apta a explicar do que a verdade estatística da enumeração, da qual somos tão apreciadores; ela não evita ver em ação a verdade psicológica da intenção, a humilde verdade do plausível, a força da questão da memória sobre o curso do tempo” (RIOUX, 1999, pp. 48-49). 

 

É pensando neste construto teórico e metodológico acima apenas esboçado, que se vem elaborando estes arrazoados fincados nos rememorares que quem traceja as linhas que ora os leitores têm diante de si. Depois de ter superado as intercorrências que se apresentaram diante de si para dar início aos seus planos de preparação com o objetivo de estar apto para enfrentar o vestibular que o poderia levar ao principiar de um novo estradar da vida, José Mário se encontrara diante de um problema que poderia embargar o seu caminhar naquela direção e, sem que ele pudesse intentar qualquer ação para o resolver, poderia frustrar todo o esforço até ali despendido. Como um rastilho de pólvora, correra entre o professorado a notícia de que um movimento grevista poderia ser deflagrado, a qualquer momento, tendo em vista o fracasso de negociações salariais entre a categoria e o governo do Estado. Como fogo que ardia sob monturo, aquela probabilidade de interrupção do ano letivo, já quase próximo da sua conclusão, acabou por chegar aos ouvidos do alunado, provocando nele uma grande ansiedade, principalmente, naquele grupo de alunos que estava por concluir o terceiro ano do segundo grau, obstando-lhe, em caso de concretização da notícia que circulava, a obtenção dos certificados que faria daqueles alunos inseridos no referido grupo, prontos para os caminhares que escolhessem e/ou que pudessem prosseguir caminhando.

Era fim de novembro de 1985, quando ansiosos, José Mário e um bom número de outros secundaristas, se dirigiram ao “Estadual”, depois de terem realizado as últimas avaliações, para ali receberem os seus resultados e, saberem se houvera passado “direto” ou se ainda ficariam em regime de recuperação de alguma outra matéria. Ao saber que estava concluída a sua jornada escolar no âmbito do “Segundo grau”, José Mário voltara para casa, fazendo o trajeto a pé, a despeito do calor daquela manhã, para que, segundo imaginava, enquanto caminhasse, ele poderia ruminar aquele resultado, aquele aprovar que recebera, depois de um longo e cansativo ano escolar, que lhe impusera mais um grande feixe  de esforços, tanto físicos quanto mentais, para alcançar aquele tão esperado quanto desejado resultado. O tal ruminar se fazia necessário, para que ele pudesse se dar conta de que de fato, tudo estava terminado, tudo o que precisava cumprir naquela etapa do seu processo de escolarização estava, enfim, formal e plenamente cumprido, para que ele mesmo pudesse acreditar que sim, que estava mesmo concluído aquele longo e difícil processo.

Assim pensando, ele saíra dos portões escolares, cuja frente voltava-se para a rua Maria Feijó, seguira a esquerda em direção à Rua 21 de abril, tendo percorrido toda a sua extensão, até alcançar a rua Severino Vieira, virando a direita para alcançar a travessia da avenida Juracy Magalhães e, prosseguir na rua Severino Vieira, até alcançar a Rua Luís Viana, entrando a esquerda, para alcançar a Coronel Philadelpho Neves, na qual entraria à direita, percorrendo-a por todo o resto de sua extensão, para em seguida, atravessar a via férrea, por onde ainda circulavam uns poucos trens, situada na altura da rua 2 de Julho, entrando, em seguida, na segunda travessa 2 de Julho, que o levaria, enfim, ao seu espaço de residência, perfazendo assim, uma distância de mais ou menos três quilômetros. Naquele trajeto ora ainda calmo e de pouco movimento de automóveis e mesmo de pessoas, José Mário acabou por mergulhar em reflexões que o remetera aos primeiros anos de sua vida escolar, muitas vezes sendo uma parte daquele trajeto, no sentido que ele fazia, o mesmo que o seu irmão o levara pela mão ou no quadro de sua velha bicicleta, para que pudesse chegar ao Brasilino Viegas, onde então estudara por todo o “primário”; também lembrara das inúmeras vezes que, sozinho, fizera aquele mesmo trajeto, em manhãs agradavelmente aromatizadas por diversidades de cheiros que ele aspirava com alegria indizível, quando se dirigia àquele mesmo estadual de onde ora voltava mergulhado nos seus pensamentos retrospectivos. Ali, sob o sol das dez de uma manhã primaveril, José Mário não só pensara no que fora, mas, como é parte do seu interior, procurara imaginar o que poderia vir a ser dali adiante, sem atinar, no entanto, o que seria aquele “vir a ser”.

Portanto, ao dar largas aos seus imaginares, quase voou para um lugar onde ele nunca antes imaginara pudesse chegar, não obstante os obstáculos que, de antemão,  ele já sabia que teria de ultrapassar; pensara que, uma vez aprovado no vestibular que em breve realizaria e, uma vez desenvolvido o curso para o qual estava inscrito para concorrer, ele poderia vir a ser um professor..., sim, um professor, de alguma escola regular, trabalhando com alunos que, diferentemente dele, não teriam dificuldades com o acesso à leitura, à escrita, ao conjunto de saberes que precisariam acumular, do mesmo modo como ele acumulara; alunos que talvez o admirassem, o detestassem, o desprezassem, ou lhe fossem indiferentes. Aquilo em si, pouco lhe importara naquele momento de conjecturares fora de quaisquer razoabilidades. O que ali importava mesmo, fora o seu imaginar para além do caminho que ele já houvera palmilhado até o instante que se dirigia à sua casa, radiante por enfim, ter fechado aquele ciclo tão longo e cheio de percalços.

Entretanto, já tendo chegado dezembro de 1985 e, passado alguns dias após ele ter recebido os resultados finais relativos ao terceiro ano do “segundo grau”, vê-se confirmada a disposição dos professores em deflagrar o movimento paredista que, conforme se salientou, era corrente de boca em boca, primeiro entre os docentes, depois, entre os alunos, já nos dias finais do mês anterior à sua efetivação. José Mário acabou por assustar-se, pois, embora não mais o atingisse, no que respeitava à conclusão do ano letivo, visto não ter ficado em recuperação de qualquer matéria, não ficou claro para ele, se o prejuízo não se estenderia àqueles que viessem a precisar da certificação de concluintes. O impasse entre governo e grevistas logo foi solucionado. No entanto, a colação de grau – evento que ele se recusou a participar, por achar desnecessário e, ser meramente protocolar -, acabou por se dar nos primeiros dias de janeiro do ano subsequente, portanto, antes da realização das provas do vestibular, para as quais ele já se vinha preparando há pelo menos dois ou três meses.

 

Alagoinhas – 02 de novembro de 2025 – primavera brasileira.

 

Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 26 de outubro de 2025

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte IV.

 

A transição – IV.

 

Não obstante os arrazoados aqui postados se enquadrarem naquilo que se poderia denominar de “História do presente”, bem como a sua substância elementar estar situada na memória, o “Tempo presente” é o seu eixo monumental, indicando que as camadas que foram levantadas pelo indivíduo que lembra, o foram de modo aa atender ao estímulo produzido pelo pertencimento à sociedade que fornece o instrumental indispensável para que tais lembranças possam ser ativadas, permitindo ao ser que lembra, dispô-los de tal forma que seja possível reconstituir aquele passado no qual estavam mergulhadas situações, circunstâncias, sensações e movimentos que marcaram o seu transitar no cotidiano vivido em um tempo já há muito mergulhado na profundeza daquela história que se quer rememorar, ao menos, alguma faceta que dela emerge do esquecimento e/ou do silenciamento. “A memória introduz o passado no presente sem modificá-lo, mas  necessariamente atualizando-o; é preciso considerar atentamente que o  passado é por via de regra plural, um pulsar da descontinuidade. [...].” (SEIXAS, 2001, p. 50). Mobilizar  camadas do passado já cobertas por outras muitas que foram acumuladas ao longo do tempo e trazê-las para a superfície, implica em um exercício de estimulação daquelas lembranças que farão o construto de um rememorar expresso no falar e/ou no escrever. Conforme preconiza Bosi em sua “Memória e sociedade: lembranças de Velhos”: “Por muito que deva à memória coletiva, é o indivíduo que recorda. Ele é o memorizador e das camadas do passado a que tem acesso  pode reter objetos que são, para ele, e só para ele, significativos dentro  de um tesouro comum” (BOSI, 1994, p. 411).

É neste sentido que se pretende desenvolver mais este arrazoado que tem José Mário, uma vez mais como protagonista, quando se dispõe a percorrer o caminho que o poderá conduzir à Faculdade de Formação de Professores de Alagoinhas, para ali, desenvolver o processo que, concluído, fará dele um professor de História. Nele, se inscreve a sua busca por melhorar as suas condições de competitividade, na medida em que procurará meios e pessoas que o possam ajudar a percorrer mais esta etapa. Imbuído deste propósito, ele começa a imaginar por quais áreas  precisaria enfrentar as fragilidades formativas, no intento de abarcar ao menos os aspectos delas seria preciso atacar de imediato.

Portanto, vencidas as primeiras etapas daquela caminhada, era preciso seguir, indo  mais além, entendendo-se com aqueles professores que pudessem contribuir com ele, agora em um capo mais prático, visto que a sua defasagem era muito grande em todas as áreas do saber, mormente, naquelas em que envolviam as “Ciências duras”: matemática, química, física, biologia, visto serem os seus desempenhos bem fracos nelas e que, precisaria pontuar minimamente, para compensar naquelas outras em que ele tivera um aproveitamento melhor e, cujo peso – que ele sequer entendia o que seria aquilo – era maior, no momento da avaliação correspondente à área escolhida.

Não obstante José Mário conhecer alguns professores de boa qualidade e de boa índole que trabalhavam com as ciências exatas, ele não possuía relações de amizade com qualquer deles; ou, aquele poucos que se disporiam a emprestar-lhe tempo e suporte naquele campo, estavam impedidos de o fazer, dado aos seus afazeres profissionais e pessoais – além da distância entre os seus lugares de morada, bem como a falta de meios que propiciasse o deslocamento -, o que obstaculizavam o atendimento daquele aluno em sua necessidade objetiva de reduzir o fosso entre o que ele aprendera no transcurso regular do seu processo escolar e, aquilo que precisaria aprender e apreender, visando a feitura das provas vestibulares.

Quanto ao campo das ciências humanas, ele se propôs a realizar estudos/leituras solo, aproveitando uma razoável publicação de livros em Braille que abarcava minimamente a produção do conhecimento pertinente àquela área. História, geografia e afins, era possível de obter em Braille, mediante solicitação à Fundação para o Livro do Cego no Brasil. Para realizar aquele tipo de estudo, José Mário se obrigava a uma disciplina e a uma rotina, de modo a se manter constante no objetivo que se propôs a alcançar.

Entretanto, ele não se sentiu seguro em levar a cabo um estudo solo da língua portuguesa, da sua gramática e da sua literatura. Para aquela tarefa, ele pode contar com o préstimo valiosíssimo da sua professora no Estadual em algumas das suas fases de escolarização. Era a professora Edna Garcia Batista (1945-2017), que não só se prontificou a partilhar com José Mário os seus vastos e sólidos conhecimentos da matéria, como o recebera em sua casa para lhe proporcionar aquelas lições que foram tão úteis, não só para o vestibular, como também para a vida pessoal e acadêmica futura. Munido de uma gramática que possuía transcrita em Braille, nos dias aprazados e nas longas tardes quentes de dezembro de 1985 e de janeiro do ano seguinte, ele comparecia para as aulas da mestre que, evidentemente não estava limitada a uma única gramática como ele, mas apresentava os conteúdos com a leveza de quem dominava o idioma e a literatura que largamente o fazia compreender. Nem é preciso dizer que aquelas aulas foram de grande valia para aquele estudante frágil em seu acúmulo propedêutico, na medida em que possibilitou o seu bom desempenho nas provas relacionadas ao conteúdo cobrado nas questões de língua e literatura, quanto nas construção do texto redacional correspondente àquele certame.

Assim, entre bons goles de café e excelente pão fresco oriundo das mãos do senhor Lourival, seu marido, as aulas fluíam agradáveis, malgrado o calor quase sufocante que se procurava minimizar com ventiladores tão quentes quanto o ambiente. Seria interessante notar que não assoma à lembrança deste garatujador, a ocorrência daquelas chuvas quase devastadoras, comuns na Alagoinhas daquela época do ano. O que indica não ter havido qualquer intercorrência que exigisse a suspensão daquelas agradáveis tardes de excelente companhia e de grande aprendizagem.

 

Alagoinhas – 26 de outubro de 2025 – primavera brasileira.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 19 de outubro de 2025

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte III.

A transição – III.

 

Evocando a professora Ecléa Bosi (1936-2017),é possível asseverar que a memória trazida aqui para estes escritos está fincada naquilo que ela entende como sendo “[...], a lembrança pura”, pois ela aparece “[...] quando se atualiza na  imagem-lembrança” e, portanto, “[...], traz à tona da consciência um momento único, singular,. _não repetido, _irreversível, da vida. Daí, também, o caráter não  mecânico, mas evocativo, do seu aparecimento por via da memória. [...]. “[...]. A imagem-lembrança tem data certa:  refere-se a uma situação definida, individualizada, [...]”. (BOSI, 1994, p. 49). Este posicionamento de Bosi está fundamentado em Halbwachs (1877-1945), que em sua “Memória Coletiva” considera que “Para confirmar ou recordar uma lembrança, não são necessários testemunhos no sentido literal da palavra, ou seja, indivíduos presentes sob uma forma material e sensível.”. Algumas linhas abaixo ele reforça a proposição, indicando que “[...]. Uma ou muitas pessoas juntando suas lembranças conseguem descrever com muita exatidão fatos ou objetos que vimos ao mesmo tempo em que elas, e conseguem até reconstituir toda a seqüência de nossos atos e nossas palavras em circunstâncias definidas, sem que nos lembremos de nada de tudo isso. [...].” (HALBWACHS, 2006, P. 31). No entanto, ao trazer o passado para o presente, mediante a evocação daquelas lembranças que ainda se podem evocar, ainda que fragmentadas e, em parte reconstruídas por quem lembra, é possível elaborar um rememorar consistente de eventos e circunstâncias vividos naquele passado evocado, a partir de elementos do presente em que o texto é escrito.

É nesta perspectiva que se pretende continuar a discorrer sobre o processo de transição entre o então segundo grau e a busca de José Mário por ingressar no ensino superior, que se vem abordando há já um par de textos postados neste espaço virtual de leitura e reflexão. Neles, se procurou apresentar algumas das estreitas margens do seu viver que o limitava em suas tomadas de decisão a tal respeito. Também ali, se procurou demonstrar que, embora ele tivesse consciência dos limites que social e economicamente a vida lhe impunha, recebera de alguns dos seus poucos amigos a oferta de apoio, no sentido de lhe propiciar alguns meios para fazer face a elas, em caso de partir para o enfrentamento das condições postas, com vistas a fazer o percurso até o curso de licenciatura em História, que, uma vez integralizado, acabaria por o tornar professor.

Chegara outubro e com ele o espraiar dos ares primaveris. O farfalhar das folhas ao ventos, o chilrear dos muitos pássaros nas árvores já frutificando, os aromas da aurora enchendo os pulmões de frescor indizível, dava ao viajor os sinais de que o raiar do dia se fazia já em pleno desabrochar, convidando os operários, as que laboravam nos rios e os estudantes do matutino para que se levantassem e rumassem para os seus espaços de labutas diárias. Como não poderia deixar de ser, José Mário, acordado por volta das cinco da manhã de um daqueles dias de outubro de 1985, se dirigia para o “Estadual”, fazendo o trajeto da sua casa até o estabelecimento de ensino, caminhando pela rua 2 de julho, por vezes, recebia carona na carroceria de uma chevrolet C10, pertencente a um pai que levava as filhas para o mesmo local, seguindo pela Severino Vieira, atravessando a rua Luiz Vianna Filho e a rua Juracy Magalhães, para mais à frente virar a esquerda na rua 21 de abril, alcançando por fim o então debutante “Estadual”. Tendo ali chegado, ao descer do veículo, agradecia a gentileza do seu proprietário e ingressava no Centro Integrado Luiz Navarro de Brito, para participar das aulas e, após o seu término, dali sair para se dirigir até o prédio onde funcionava a Faculdade de Formação de Professores de Alagoinhas, espaço que algumas vezes visitara no intuito de fazer uso da biblioteca mas, que daquela vez, ali chegara para fazer a sua inscrição no vestibular, candidatando-se ao curso de Licenciatura Plena em História.

Tendo ali chegado e, se dirigido ao local onde se processavam os trabalhos de inscrição para o dito certame, José Mário teve que ser encaminhado para uma conversa com o professor José Sales– já seu conhecido por conta da sua efêmera passagem pela Primeira Igreja Batista de Alagoinhas –, professor da instituição, que presidia a comissão encarregada daquela tarefa, sem que, no entanto,  ele atinasse a razão ou a necessidade daquela entrevista, uma vez que, ao se apresentar como candidato, já levara a documentação exigida para tanto e, o recurso monetário com o qual ele pagaria a taxa referente ao seu pleito. Mal poderia imaginar que, aquela seria uma sinalização de que, em caso de aprovação, ele enfrentaria inúmeras turbulências durante o processo formativo para o qual pretendia percorrer.

José Mário saiu da tal entrevista com a sensação de que aquele lugar não seria para ele, nem para pessoas outras que causassem algum mal-estar na condução de processo de aprendizagem, provocando uma espécie de “quebra de paradigma”, no que respeita ao modo de funcionamento da engrenagem há tempos consolidada. Talvez, o “mal-estar”, não tenha sido provocado necessariamente pela sua condição econômica, tampouco pela sua origem social. Mas sim, a sua condição de cegueira, acabara pôr os assustar, por assim dizer, uma vez que, imaginavam – embora nunca tenham dito –, não estariam prontos para o receber enquanto aluno. Afinal, a escola, independentemente do nível de ensino em que esteja inserida, é um espaço de exclusão de tantos quantos não vejam, não ouçam/falem, não tenham o pleno desfrute dos movimentos ou, não tenham um ritmo cognitivo compatível com o que se considera “normal” ao ser humano. Como já é cediço – ou deveria sê-lo –, tanto na sua compleição orgânica, quanto no seu modo de funcionamento, a escola não foi feita para estes tipos acima apontados – basta prestar a devida atenção aos elementos constitutivos inerentes à escola: professora escrevendo no quadro para alunos copiarem em cadernos; ou falando para alunos ouvirem; leituras passivas e/ou ativas; respostas pedidas e recebidas em um tempo breve; aferições de aprendizagem alinhadas a determinados padrões de raciocínio e compreensão do ensinado, tudo isto em um ritmo estipulado. Ao contrário: ela foi feita para quem goza do funcionamento “normal” e pleno de todos os sentidos, para aqueles que não possuem restrições de mobilidade e, para quem pensa, raciocina e racionaliza, dentro de uma “caixa” inscrita no campo da “normalidade”. Logo, aquele candidato a aluno já chega causando preocupações àqueles que eram os responsáveis por solicitar ao órgão elaborador das provas e do material a ser utilizado no processo de execução do certame seletivo, visto não terem a menor ideia de como proceder. Aliás, fora está a motivação alegada para a tal conversa em separado com a comissão, o que lhe causara espécie, uma vez que, em sua cabeça não passava a ideia de que aqueles professores, alocados no ensino superior, trouxesse aquele vácuo de conhecimento do modo como deveria conduzir atividade docência, independentemente do aluno naquele que ingressasse naquele nível de formação.

Enfim, ultrapassado este primeiro obstáculo – ainda que à época não tenha sido percebido como tal –, a candidatura foi devidamente registrada e, José Mário, a partir daquela data, haveria que empreender esforços para alcançar uma preparação, ainda que mínima e precária, que não viesse a frustrar, não só a sua própria expectativa mas, também, a daquelas pessoas que depositaram crédito em sua capacidade de luta e de esforço para encarar mais aquele desafio. Era, portanto, o tempo de procurar encontrar pessoas que lhe pudessem auxiliar na redução de danos, quais sejam: ao falta dos rudimentos mais elementares que deveriam ter sido estabelecidos no transcurso do Segundo Grau e, que, para ele, estava bem aquém daquilo que ele precisava para obter o desempenho, ao menos suficiente para se fazer aprovar naquela empreitada em que ele já chegava com uma grande defasagem em relação a uma boa parte dos candidatos.

 

Alagoinhas, 19 de outubro  de 2025 – primavera brasileira.

José Jorge Andrade Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 12 de outubro de 2025

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte II.

A transição – II.

 

Retomando a escrita iniciada há alguns dias, quando se discorreu sobre o primeiro momento em que se iniciava uma transição marcada pelos lapsos de ideias que se afiguravam no cérebro do protagonista destes garatujares, em que se cogitava um novo caminhar que partiria da conclusão do ensino médio para se fazer ingressar no ensino superior, aqui se procurará dar continuidade ao arrazoado que deu início à série que o paciente leitor ora tem diante de si, na qual o seu autor se disporá a discorrer sobre o tempo em que José Mário passava a conjecturar sobre qual seria a maneira por meio da qual se prepararia  para o processo seletivo, a partir do qual se imiscuiria no processo de formação superior, que o faria preparado para se tornar professor – ao menos, era este o propósito de um curso de licenciatura -, fornecendo a ele – bem como aos demais discentes –,  as ferramentas para a inserção no labor escolar. Era um “tempo” de decisões que repercutiriam por toda a sua vida, ensejando aquilo que para José Mário seria uma “virada de chave” – como se diz – para o caminhar sinuoso que vinha se delineando, o que o obrigaria procurar fazer daquele decidir, um momento definitivo de afirmação, tanto enquanto cidadão do mundo, como enquanto alguém que buscava se preparar para construir e desenvolver uma vida profissional.

Em conformidade com o postulado de Jacques Le Goff, (1924-2014), ao desenvolver verbete para a enciclopédia Einaudi, publicado no Brasil em  forma de livro pela editora da Unicamp, no qual assevera que “A memória, como propriedade de conservar certas informações, remete-nos em primeiro lugar a um conjunto de funções psíquicas, graças às quais o homem pode atualizar impressões ou informações passadas, ou que ele representa como passadas” (LE GOFF, 1996, p. 423), é que este escrevente procurará levantar algumas camadas já bastante espessas acumuladas há um bom já passar de tempos, intentando trazer alguns fragmentos de lembranças com os quais possa revisitar aquele passado que aqui se pretende evocar.

No arrazoado anterior, José Mário foi deixado ao sabor dos seus pensamentos, quando cogitava sobre o que fazer após concluir aquele excessivamente longo ciclo formativo, quando as ideias e as hipóteses bailavam em seu cérebro, assim como a maneira como tal ou qual possibilidade se encaminharia. O terceiro ano do segundo grau se desenrolava sem grandes tropeços ou percalços e o seu desfecho acabara por se dar em conformidade com o que seria recomendável, noves fora um pequeno susto causado por uma greve professoral deflagrada quase no fim do ano letivo, cuja consequência para o alunado foi a postergação da colação de grau por alguns dias e, consequente adiamento da entrega dos certificados comprobatórios da conclusão de curso. Fora este pequeno incidente de ordem institucional, nada mais houve que viesse a obstar aquele fim de processo.

Mas, fora deste transcorrer de caminhada escolar formal, havia que se encetar gestões no sentido de dar largas aos novos pensamentos que lhe brotaram com o intuito de viabilizar a preparação para as outras etapas do seu processo formativo. Neste sentido, convinha encontrar as pessoas e os meios para que ele pudesse fazer frente ao novo caminhar.

Portanto, era preciso considerar que, àquela altura do seu caminhar processual,  a José Mário faltava tudo: as bases elementares para o enfrentamento de um vestibular, em condições mínimas de aprovação – rudimentos matemáticos, de física, de química, de biologia, conhecimentos em diversas outras áreas que, ao concluir o segundo grau, ele já deveria possuir, entre outras deficiências formativas –; de sorte que a sua investida não fosse vã e frustrante, uma vez que, como se já salientou, a sua idade já se fazia avançar, no sentido de iniciar e concluir mais uma etapa de preparação para o mercado de trabalho – os dispositivos legais em vigor naquele instante de sua vida, indicavam que a realização de concurso público só seria possível até os trinta anos completos –, o que insidia em mais pressão sobre aquele rapaz que em breve, entraria no início do seu segundo quartel de existência. Também, a ele faltavam os recursos financeiros que lhe permitissem ingressar em algum curso pré-vestibular; que lhe permitisse uma eventual contratação de professor para uma ou duas matérias específicas; recursos tiflológicos que lhe permitissem  aceder às matérias por meio do sistema Braille, no sentido de lhe propiciar uma maior e melhor apreensão dos conteúdos propedêuticos necessários à obtenção de êxito naquela empreitada – sem falar que não possuía nem mesmo a grana para a inscrição no dito cujo. Mas, ele também não dispunha de um espaço adequado para a realização de leituras/estudos dos livros e matérias propostas, o que dificultava um pouquinho mais a sua preparação. Era, pois, um tempo de escassez de quase tudo; até mesmo dos meios para a sua manutenção cotidiana, o que obrigava a reduzir ao factível as possíveis ambições; o que limitava até mesmo os sonhares, na medida em que, apesar de sonhar não haver custo, ele estava sujeito à possibilidade de se fazer frente ao custo de sua realização. Talvez, seja preciso lembrar ao arguto leitor que, tudo isto atuava como elemento limitador e, mesmo, inibidor para qualquer intento de ser isto, fazer aquilo..., enfim, se fazer “homem”, conforme entendia a sua genitora: ter com que se manter.

Conforme o leitor pode perceber, aquele pretenso vestibulando estava fadado ao fracasso ou à desistência, devido à falta das condições normais de pressão e temperatura, no tempo em que estava inserido o seu caminhar terráqueo. Mas, ao que parece, a palavra “desistência” não era de emprego comum para aquele sujeito teimoso, nem o verbo “desistir” era facilmente conjugado por ele, embora esta parte da gramática ele dominasse bem. Acredita-se que precisaria mesmo conjugar o verbo “insistir”, pois, outra conjugação, saliente-se, não seria do seu feitio, visto ser aquele conjugar uma necessidade presente e constante no seu trilhar da vida formativa. Assim pensando, estava ele assim fazendo. enquanto o ano de 1985 corria célere, ele entabulava conversas com os seus poucos amigos, que logo se dispuseram a caminhar com ele aquela jornada. Um deles, garantira-lhe o recurso necessário para a feitura da inscrição e outra, dedicara-lhe tempo e paciência para que ele pudesse dirimir dúvidas e aprender o que desconhecia sobre a língua portuguesa e a literatura, campo em que, embora fosse excelente e profuso leitor –de acordo com o que já se arrazoou em escritos pretéritos –, carecia de conhecimentos teóricos que lhe fizessem compreender os elementos formadores e norteadores do fazer literário: escolas, formatos, modos de composição, entre outras características que, certamente, seriam cobradas em forma de questões e, que ele, não saberia responder adequada e corretamente. De sorte que, enquanto se empenhava em concluir o segundo grau, paralelamente, ele se esforçava por obter uma preparação, ainda que mínima, para se submeter à seleção que, sendo aprovado, o levaria  ingressar em um curso de grau superior.

Para concluir estes garatujares, cabe salientar que algum vento também lhe soprara a favor, na medida em que a oferta dos cursos a serem disputados naquele próximo exame, trouxera uma boníssima novidade. No arrazoado anterior, foi comentado que o curso que lhe era possível postular em sua cidade, o que não demandaria custos extraorçamentários para o seu acompanhamento, era o de Licenciatura Curta em Estudos Sociais, o que lhe provocara alguma resistência em se candidatar, visto ser aquele, um curso inventado/imposto pela Ditadura Militar que se impusera ao País, mediante golpe perpetrado em abril de 1964 e, que para ele, soava como incongruente, na medida em que o seu objetivo era impedir que a História, a Filosofia e a Sociologia – pretensamente embutidas  naquela matéria draconiana –, viesse a criar um espírito crítico nos estudantes – ou amortecer a criticidade naquele que eventualmente já a possuísse. No entanto, começara a correr entre os concluintes do segundo grau e, claro, chegara até ele, o boato que, na verdade, aquele curso de Estudos sociais, em forma de licenciatura curta – com uma duração de dois anos e meio, provocando a necessidade de uma complementação, o que só se daria em Feira de Santana –, seria substituído pelo curso de História, com duração plena. Imediatamente, José Mário correu para se certificar da novidade e, tendo sido informado da procedência da informação, mais ainda se interessou por se preparar para enfrentar aquele certame, por meio do qual, buscaria fazer parte daquela que seria a primeira turma de História que se formaria com o preenchimento das quarenta vagas que foram disponibilizadas para aqueles que se habilitassem a concorrer a uma delas.

 

Alagoinhas – 12 de outubro de 2025 – primavera brasileira

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com

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