domingo, 5 de outubro de 2025

O TEMPO DA GRADUAÇÃO – 1986-1991 – Parte I.

A transição – I.

 

Conforme já depreende o leitor destes garatujares, aqui se inicia mais uma série de postagens, cujos fundamentos estão assentados nos rememorares de quem as escreve e publica neste espaço. Nela se pretende retomar algumas observações já feitas ao longo do tempo em que se escreve neste blog, procurando aprofundar algumas incursões na memória aqui já feitas, talvez de maneira aligeirada, intentando encontrar explicações ou respostas, ainda que inconclusivas, para algumas questões, igualmente já levantadas, que possam vir a surgir no transcurso da construção da referida série. Estando envolvido com leituras de pressupostos teóricos que tem como objetivo a compreensão do tempo histórico e da sua importância para a compreensão da História, este escrevedor acaba por refletir no seu “tempo histórico”, vivido pessoal e coletivamente, buscando reforçar o trabalho que tem desenvolvido nos últimos quinze anos de sua vida acadêmica, tomando a “memória” como ponto de inflexão para a construção de fontes históricas com as quais possa desenvolver as pesquisas que tenham o propósito de elaborar estudos sobre a “cidade” nos diversos âmbitos do cotidiano que constitui o seu farfalhar social.

A propósito da perspectiva do tempo no “fazer histórico, já nas páginas introdutórias de sua obra “O Tempo dos Historiadores” (2013), José d’Assunção Barros, assevera que “[...]. Situar todas as coisas no tempo — enxergá-las sob a perspectiva de que cada uma delas interage e ajuda a constituir um contexto, unindo-se a uma vasta rede de outras coisas que também se inscrevem no tempo — é típico da História. Os historiadores estão presos ao tempo, literalmente. [...]. O que é visceral mesmo, em cada historiador, é a ideia de que tudo se inscreve no tempo, de que tudo se transforma — e de que devemos refletir de modo problematizado sobre cada uma destas transformações, deixando que incida sobre elas uma análise que será a nossa e que, de resto, também se inscreve no tempo” (BARROS, 2013, p. 17-18). 

Ainda conforme preconiza Barros, “[...] Quando se diz que ”a História é o estudo dos homens no tempo”, rompe-se com a ideia de que a História deve examinar apenas e necessariamente o passado. O que ela estuda, na verdade, são as ações e transformações humanas (ou permanências) que se desenvolvem ou se estabelecem em um determinado período de tempo, mais longo ou mais curto” (BARROS, 2013, p. 18).

E mais adiante, Barros fornece a ferramenta conceitual a partir da qual o perquiridor da história vai construir as suas reflexões acerca da sociedade humana na qual concentra as suas atenções, propugnando que “[...]. O tempo dos historiadores refere-se essencialmente à existência dos homens. O que de fato interessa a um historiador é a passagem do homem sobre a Terra, o que inclui tudo aquilo que, tocado pelo homem, transformou-se, e também aquilo que, vindo de fora, transformou a vida humana” (BARROS, 2013, p. 20). 

Portanto, é nesta perspectiva que se pretende discorrer sobre o caminhar de José Mário nas sendas do seu processo formativo acadêmico, abordando algumas dentre tantas passagens do seu trilhar aquelas paragens desconhecidas e, porque não dizer, de possibilidade de o fazer, pouco prováveis a ele, que em grande medida, não estava devidamente provido das ferramentas adequadas, nem dos recursos necessários, muito menos dos pressupostos teóricos fundamentais para empreender aquela jornada. Como já sabe o leitor deste espaço, José Mário fizera um primeiro grau bastante irregular, com diversas interrupções e outras tantas soluções de continuidade; um segundo grau – hoje denominado “Ensino Médio”, cuja diferença não se resume à sua nomenclatura –, embora feito com alguma regularidade no que tange ao correr das séries, não obtivera um bom acúmulo de saberes que o habilitasse a maiores intentos e mais altas pretensões propedêuticas, visto tê-lo concluído em uma versão técnica, o que lhe não permitia lidar com ensinos aprofundados de matérias que lhe indicariam, ao menos, já haver tomado contato de um elenco de conteúdos com os quais precisaria lidar, no momento de se lançar em seleções vestibulares, caso viesse a pretender se imiscuir no caminho da formação universitária.

Ao se iniciar o ano letivo de 1985, José Mário, sequer cogitava a mais intangível possibilidade de se lançar empreitadas que viessem a resultar no ingresso em um curso superior. Primeiro, estava posta a interrogação sobre as suas condições objetivas em se fazer aprovar em um vestibular, dado ao grau de dificuldade e ao nível de exigência posta por aquele tipo de certame, representado pela obrigatoriedade de ler  - ou ter lido – um conjunto de autores e obras literárias, por exemplo. Embora, como já se disse aqui, ele tenha percorrido um bom número de títulos, grande parte daqueles que apareciam nas listas propostas pelas principais universidades do País que lhe chegara ao conhecimento, jamais lhe passara pelas pontas dos dedos. Outrossim, como já é cediço, a grande defasagem entre aquilo que lhe fora proporcionado no campo das ciências exatas – não deixando de salientar, aquilo que ele não conseguira absorver/aprender – e aquilo que era cobrado naquele tipo de demanda para ingressar no ensino superior, impactaria ineludivelmente, no seu desempenho diante dos problemas relativos àquela área do conhecimento, não obstante, algumas das provas serem compostas de questões objetivas. Embora ele nem mesmo tivesse cogitado inserir-se naquele tipo de embate, o fato de não dispor daquelas condições objetivas não deixava de ser por ele consideradas. E, caso viesse a pensar em se envolver em tal, sob aquelas condições adversas, ele não possuía ilusões. Aquelas que, quiçá um dia houvesse possuído, morreram no embate com a realidade vivida até ali, nas proximidades de completar o primeiro quarto de Século, indicando que o tempo já passava e a percepção daquela passagem, já se apresentava com a aparência de maior velocidade.

Segundo, se porventura viesse a passar em algum daqueles certames, viria uma outra dificuldade a se enfrentar, que, ele sabia, não havia como resolver, ao menos, nas condições as quais ele e a sua provedora estavam sujeitos. A moradia e a alimentação fora das quatro paredes do seu residir, era, por assim dizer, um obstáculo intransponível, visto não possuir nenhum lugar onde pudesse morar, fosse em Salvador ou em Feira de Santana, bem como não possuir parentes, aderentes ou mesmo amigos que o pudesse socorrer em tais circunstâncias; nem haver recursos financeiros que permitissem uma locação – de casa, de apartamento ou de vaga de pensão. Isto implicava em acrescentar mais um obstáculo a uma eventual caminhada no processo de formação acadêmica, na medida em que, sem morar e sem se alimentar, não havia como cursar. Saliente-se de passagem que, nem estava posto o item deslocamento no conjunto de necessidades de um estudante que não possuía residência em Salvador ou em Feira de Santana – para falar em cidades próximas daquela onde se localizava a sua moradia –, uma vez que, consuetudinariamente, ele contava com a gratuidade nos transportes públicos. Mesmo aquela gratuidade, estava sujeita à interpretação de condutores, despachantes e, principalmente,, da maneira como os proprietários das empresas concessionárias de transportes a compreendiam, visto não haver “leis escritas” que a regulassem, implicando em travamentos de tais deslocamentos, sobretudo, no âmbito intermunicipal.

É assim que, ainda que não tomando esses elementos de modo organizado como aqui se resumiu, para José Mário, aquele seria apenas o ano da conclusão do Segundo Grau e, de alguma forma, já seria um ganho, se assim se desse. A única possibilidade de um pretender aceder ao ensino superior que por vezes se lhe assomava ao espírito, em alguns lampejos logo apagados pelo seu recorrer à sua realidade objetiva, era a Faculdade de Formação de Professores de Alagoinhas, espaço que já visitava há um par de anos, no sentido de se valer do acervo de sua biblioteca, para elaboração de trabalhos escolares. Mas, o curso que ali era oferecido, que mais lhe instigava era o de licenciatura curta em Estudos Sociais, que lhe soava como um inacreditável tom de incongruência, visto que, aquele era um dos cursos inventados e impostos pela ditadura civil-militar, implantada pelo golpe perpetrado contra a democracia em 1964, com o objetivo de reduzir a reflexão e anular o pensamento crítico propiciados pelos cursos de História, Sociologia e Filosofia, incoerentemente embutidos nos tais “Estudos Sociais”. Além disto, para que fosse possível aquilo que se denominava “plenificação” do curso iniciado na FFPA, como era conhecida aquela instituição, seria necessária uma complementação em Feira de Santana, que colocaria em pauta, aquelas dificuldades já acima elencadas.

E, desta maneira, como não poderia deixar de ser, caso José Mário se quisesse aventurar numa nova caminhada por meio da qual viesse a se inserir no corpo discente formado por aqueles que ingressassem na FFPA, ainda que no curso estapafúrdio de “Estudos Sociais”, haveria que se preparar para fazer face às exigências inerentes àquele tipo de seleção. No entanto, conforme já se acentuou há algumas linhas, o seu objetivo primevo era, inarredavelmente, encerrar aquele ciclo escolar, o que se daria com um considerável atraso, em relação ao que se esperava de um aluno em condições normais de tempo e de temperatura: concluir o segundo grau entre os dezessete  e os dezoito anos. Naquele ano da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1985, aquele concluinte completaria 25 anos, redundando em uma defasagem de aproximadamente oito anos, o que equivaleria, mais ou menos, ao tempo de ingressar, cursar e concluir um curso de graduação, entrar em um programa de Pós-graduação para cursar e concluir o Mestrado e, ingressar em um programa de Pós-Graduação, nele cursando a metade do tempo necessário para defender a tese de doutorado.

 

Alagoinhas – 05 de outubro de 2025 – primavera brasileira

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com

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domingo, 28 de setembro de 2025

28 de setembro de 1975 – mais um domingo de um viver em internato

   O cheiro de cuscuz  na vizinhança

 

Em mais um arrazoado que se traz a quem visite este espaço virtual, procura-se apresentar mais um feixe de memórias há muito depositado sob camadas acumuladas pelo passar do tempo, cujo objetivo é extrair dele os silenciamentos impostos pelas muitas condições inerentes às escolhas do que lembrar e do que esquecer que, em última instância, nada mais é do que um silenciar. UM tal silenciar acaba por parecer um esquecer; na verdade, ao lembrar de algum momento vivido, nem sempre é possível verbalizar aquela lembrança, aquele momento que emergiu à superfície da memória, depois de ter atravessado algumas camadas que o encobriam e, que pareciam lhe obstar os movimentos que lhe permitissem assomar ao momento em que se dá a lembrança. O tempo, ao passar no seu passo irrefreável, deixa para trás os vestígios daquilo que foi vivido, em grande parte dele, só registrado na memória que se apresenta no presente de quem lembra, para que aquilo de que se lembra, seja iluminado  em alguns dos seus aspectos, permitindo acesso aos elementos constitutivos daquele lembrar, que por sua vez, sofre ressignificações no presente em que se lembra.

Assim, é neste sentido, que aqui se pretende trazer à lume e ao crivo de tantos quantos leiam estes rememorares, mais um daqueles momentos vividos por José Mário, entre os anos de 1975  e 1976, passados em confinamento nas dependências de um instituto para cegos. Localizado no bairro do Barbalho, na cidade de Salvador, aquele estabelecimento era apresentado ao público em geral e aos familiares dos que dele viessem a fazer uso em particular, como sendo um espaço onde as pessoas cegas ali alojadas teriam, além da formação propedêutica inerente à construção do saber necessário para a interação com o mundo comum dos demais elementos constitutivos da sociedade, também receberiam a orientação para a vida social, escolar e, claro, confessional. Através dos meios de comunicação que lhes abriam os espaços para divulgação e esclarecimentos da sua razão de ser, os seus dirigentes procuravam incutir no espírito daqueles que dele se aproximavam, a ideia de que era um local onde os internos estavam recebendo o treinamento para conseguirem inserção social, primeiro junto à escola e outros centros de obtenção dos saberes; depois, no mundo laboral, de onde buscariam obter o sustento e a subsistência. Talvez, se precise afirmar, de passagem, que tal construção argumentativa era falaciosa, na medida em que aquela propaganda, em grande parte das vezes e dos casos, não conseguia passar do caráter publicitário, servindo muito mais para o consolo dos familiares que precisariam deixar os seus cegos aos cuidados do tal estabelecimento, bem como para convencer ao público em geral, da necessidade de apoio financeiro para que o dito pudesse fazer frente às circunstâncias inerentes às suas condições de provimento de alojamento, de alimentação, de vestuário, de higiene dos internos, bem como das atividades de orientação que apontaram como sendo o propósito de sua existência, assim como de suas investidas em busca de recursos públicos e privados, para conseguirem levar a bom termo os serviços prestados.

Embora o tempo que aqui tenha sido evocado esteja situado no fim do mês de setembro de 1975, já em plena vigência da primavera há muito esperada, o que se pretende relatar nestes garatujares, poderia ter se dado em qualquer dos meses ou estações que marcaram o tempo que José Mário vivenciara o cotidiano daquele internato. Lá, onde tudo era marcado pelo ritmo imposto pelos sons dos sinos ou das sirenes, que indicavam os horários rígidos do silêncio do dormitório, do acordar para o banho matinal, da corrida ensandecida para a primeira refeição do dia e, os demais movimentos para as aulas internas, bem como para as demais atividades relacionadas ao funcionamento do internato eram, meticulosamente, marcada pelos sinais sonoros daqueles dois instrumentos, tão odiados quanto esperados pela maioria dos que ali viviam confinados. Portanto, como o arguto leitor pode depreender, nada se fazia ali, fora daqueles horários previstos e, assim, as refeições, por exemplos, obedeciam a estritos horários bem balizados, sem quaisquer possibilidades de modificações, sob quaisquer pretextos ou desejos, quer dos internos, quer dos funcionários que ali atuavam.

Mas, a rigidez dos movimentos e da operacionalização do sistema de internato imposto por àquele estabelecimento para cegos, não se restringia ao ritmo dos sons que demarcavam os horários em que tais ou quais atividades deveriam ser realizadas. Indo além dos ritmos dos movimentos e dos comportamentos, era igualmente, o que se daria a comer, para aquela gente de origem, hábitos e culturas alimentares variadas, também mantinha uma rigidez quase draconiana, na medida em que, em geral, não se tomava em conta nem mesmo as necessidades nutricionais – se diria hoje em dia –, na definição daquilo que se iria servir, das quantidades adequadas às idades dos internos; nem mesmo, se cogitava atender a alguma necessidade nutricional mais específica de alguns dentre eles.

Neste sentido, grassava a fome entre os internos daquele estabelecimento de abrigo para cegos, não no sentido de faltar o que comer; mas, no sentido de se comer mal; tanto do ponto de vista qualitativo, quanto – e principalmente – do ponto de vista quantitativo. Vez por outra, quase sempre sem razão aparente – especulava-se  que eram os momentos de visitas da chamada “diretoria externa” – algumas iguarias pouco usuais – galinhas, refrigerantes, leite, queijo, chocolates e doces ausentes do dia a dia, além de outras delícias que o paladar sentia a falta – surgiam nas mesas, em qualquer das refeições, para alegria dos comezinhos, que se refestelavam em mesa farta e sem restrições de quantidade nem de tempo de permanência no local das refeições. Mas, saliente-se que aqueles eram momentos raros, pouco comuns, tais quais passagens de cometas pela terra.

Outrossim,, cabe ressaltar de passagem que, malgrado os dirigentes se dizerem Católicos, Apostólicos Romanos e, obrigarem, por conseguinte, a que todos os internos assim o fossem, frequentando as missas, comungando, rezando todas as tardes e, sobretudo, no chamado mês de Maria, durante um dos mais evocados períodos do “ano litúrgico”, a “semana Santa”, a alimentação permanecia a mesma, sem o peixe nem os seus acompanhamentos “obrigatórios” para a ocasião, demarcando naquele espírito ainda um tanto em formação, uma das primeiras impressões do que mais tarde veio a saber se tratar da “hipocrisia”, que demandava dos outros, aquilo que os próprios demandantes não cumpriam. José Mário, embora não católico por convicção, estranhou o fato de que, nas duas daquelas ocasiões que lá estivera, uma das refeições servidas na semana que deveria ter sido santa, foi uma feijoada meio atrapalhada, que aliás, ele a devorara com toda a gula que o momento lhe permitiu. Alguns dos internos se impuseram jejum, tal o nível de convicção que os movia; outros, resignados e premidos pela fome de um estômago mal alimentado nas refeições anteriores, acabaram por sucumbir à exigência da carne que clamava por sustento.

E, enfim, muitas vezes, enquanto circulava no sexto andar e, ali aguardava o toque do sino chamando para o café, ele sentira, além do cheiro da Chadler que a brisa do mar ali próximo levava até as suas apuradas narinas, também um convidativo cheiro de cuscuz que vinha da vizinhança, apertando-lhe a saudade de casa e, impondo-lhe a tristeza, pela certeza de que não encontraria aquela iguaria na mesa diante da qual, se assentaria dali há alguns poucos minutos. Aliás, esta é uma das lembranças mais vivas que volta e meia se lhe assoma ao espírito, em recordações de um tempo em que o cuscuz do vizinho não só lembrava a casa da sua mãe, bem como lhe trazia o desejo de o encontrar naquela mesa onde dali há pouco tomaria o café e, sem aquele cuscuz, cujo cheiro lhe chegara, sem contudo, estar ali servido, como gostaria de encontrar.

Portanto, era sim fome: a fome de não comer o que desejava, pois, aquele cuscuz o levaria ao seu comer em casa; embora envolta em dificuldades para a obtenção dos víveres, aquela sua casa, naquele momento distante, por vezes se podia não só sentir o cheiro, mas sim, se comia um cuscuz de “Flor de Milho”, que àquelas horas das manhãs lhe fazia tanta falta.

 

Alagoinhas – 28 de setembro de 2025 – Primavera brasileira.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com

 

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domingo, 21 de setembro de 2025

21 de setembro de 1975 - Missa e Roupa Limpa

 

Domingo de Missa no repositório de cegos da Bahia

 

Excelentes e pacientes leitores que emprestam um pouco do seu tempo precioso para ler estes garatujares, tens hoje mais um deles em vossas telas. Em mais um mergulho nas profundezas silenciosas da memória, este escrevedor procurará trazer mais uns feixes de lembranças da passagem de José Mário pelo Instituto de Cegos Da Bahia, intentando desenvolver algumas reflexões sobre mais algumas facetas daquele seu processo de formação escolar e de pretenso amadurecimento para o convívio social. Conforme já se disse em arrazoados anteriores, ele ali estava “preso” ou, para usar um termo caro à civilidade, estava  “privado de sua liberdade”, não por uma escolha sua nem por um sentimento masoquista; mas, fora fruto de uma decisão pragmática, fundamentada em expectativas que, mais tarde, ao fim de todo o processo, se demonstraram inalcançadas, decisões, enfim, cujo lastro era a necessidade de se apropriar de instrumentos que o pudesse preparar para o mercado de trabalho e, claro, o pudesse dotar de ferramentas que lhe permitisse alcançar autonomia no campo da mobilidade. Aquele pragmatismo, portanto, fizera com que ele deixasse para trás o aprendizado que já desenvolvia, no que tange à apreensão dos espaços relacionados às suas necessidades de interação na cidade onde nascera – utilização de transporte que o levasse ao centro, por exemplo –; o conhecimento das ruas e direções que precisaria seguir, com o fito de chegar aos lugares em que precisasse estar; também deixara o convívio com a sua mãe e demais familiares, impactando fortemente sobre a realidade encontrada ao chegar no espaço em que seria confinado, dele só saindo para as atividades escolares e, para os períodos de férias, quando, aliás, voltava a se reencontrar com os ares alagoinhenses que, para ele, se assemelhavam aos ventos da liberdade de sair e de voltar para casa, quando quisesse, pudesse e apetecesse o fazer.

Embora as experiências vividas no Instituto de Cegos da Bahia já estejam encobertas por um grande números de camadas acumuladas ao longo do tempo, aquele que remonta a elas, ainda consegue extrair fragmentos que o ajudam a reconstruir, ao menos em partes, alguns dos elementos que acabaram por constituir a sua “memória”, não se perdendo de vista que, aqueles fragmentos que aqui ou ali ressurgem e se reconfiguram, emergem da escolha de quem lembra e, lembrando, traz à tona as reminiscências e quebra os silêncios que se estabeleceram, a despeito  de não terem sido de todo esquecidas. Isto posto, ressalta-se que, o fragmento que aqui se pretende trazer para conhecimento e reflexão de quem venha a ler estes rememorares, remonta ao ano da Graça de 1975, portanto, há cinquenta anos, quando o rapaz que os protagonizara, ainda não houvera completado a primeira década e meia do seu existir. Ainda assim, malgrado o já largo passar de tempos que se estabeleceram entre o momento vivido e o rememorado, os vestígios daqueles dias ainda se encontram vivos, como tendo sido gravado em pedra, a pedra do tempo já pretérito.

É assim que, aquele domingo, 21 de setembro de 1975, que se dizia iniciar-se a “estação das flores”, a tão decantada e esperada primavera, amanhecera como os demais dias vividos naquele repositório de cegos, todos obrigatoriamente acordados às seis da manhã, como nos demais dias da semana, despertados pelo barulho rouco e amaldiçoado de uma sirene executada por um dos funcionários encarregados daquela tarefa, dando início à execução da mesma rotina cotidiana: banhavam-se, vestiam-se de roupa limpa e adequada ao dia de domingo, subia-se para o sexto andar, ali, aguardando o toque da sineta para o café, sempre frugal e insuficiente para mitigar a fome daqueles adolescentes que, na sua quase totalidade, gastavam energias em atividades noturnas... Enquanto se aguardava aquele tão ansiado soar do sino vindo do refeitório, se aspirava o cheiro da “Chadler Industrial da Bahia S.A”, situada ali por perto, fabricante de um chocolate que, embora desejado, se sabia que tão cedo ou mesmo nunca se chegaria a comer; apesar dos muros altos, se podia receber os primeiros raios do sol primaveril; a brisa ainda fresca da manhã que ainda se espreguiçava em bocejos da aurora há pouco apresentada ao viajor, fazendo  com que aqueles que ali se encontrava procurassem encher os pulmões com os aromas embrulhados no frescor que o amanhecer exalava.

Depois de vaguear naquele espaço de recreação por alguns quase intermináveis quarenta minutos, ouviam quase todos o som que vinha do refeitório, lançando-se à escada, como gado impulsionado pelo resto da manada, querendo todos, há um só tempo, alcançar o ponto de onde julgavam escutar o chamado; as escadas não conseguiam obstaculizar a desabalada carreira empreendida pelos mais afoitos e, como não poderia deixar de ser, pelos mais comedidos ou tímidos, se é que a fome conseguia estabelecer distinção entre uns e outros. Caso não caísse alguém pelo caminho, enfim, chegavam todos às suas mesas, antes de se assentarem, todos maquinalmente rezavam uma reza incompreensível e repetida mecanicamente, quase todos temendo uma punição – para uns era a Divina; para outros tantos era a de Josefina -, em caso de serem flagrados sem cumprir o ritual que, necessariamente, deveria preceder a satisfação – parcial, como já se disse – daquela necessidade vital; uma vez assentados, todos devoravam ávidos o que lhes era dado como repasto – um café preto e fraco, quase morno, servido em canecos esmaltados, por vezes um terço de uma banana da terra, por outras um mingau que se não se distinguia plenamente de que era feito, um terço  de uma bisnaga de  pão –; ao mais um soar de sinos, todos se deviam levantar; uma vez mais, mecanicamente rezar e, já em passos mais lentos, todos deveriam retornar ao ponto do prédio de onde se deslocaram até onde então se encontravam. Cabe salientar de passagem, para fins de esclarecimento, que o ritual brevemente acima descrito, era aplicável a todos os dias, semanas, meses ou anos que fossem vividos naquele ambiente de quase quartel ou convento, de acordo com a equipe diretiva de plantão, onde incontáveis cegos foram depositados e arquivados  - e alguns esquecidos – por grande parte de suas vidas.

Tendo a manada retornado ao sexto andar, ali vagueava por mais um tempo que quase não passava, até ser chamada, uma vez mais, mediante o toque de um sino que, desta vez, a convocava para a capela, onde deveria, obrigatoriamente, fosse católico ou crente – ou nem uma coisa e nem outra – para ali ouvir missa dominical, com padre, sacristão, confissão e comunhão, de acordo com o prescrito no dogma religioso adotado pela instituição e imposto aos seus internos. Mesmo aqueles que já possuíam a permissão de sair para passeios, teriam que permanecer no local de realização da missa, até que, uma vez terminada, pudesse se dirigir para onde quisessem.

Uma vez ouvido o som que os chamava à audição do rito religioso dominical – faz-se necessário aditar o fato de que durante a semana, também havia tal obrigação que era cumprida no final das tardes –, os internos deveriam passar pelo vestiário, a fim de se fazer a conferência de sua indumentária, no que dizia respeito à limpeza e a adequação ao acesso à capela. A funcionária, constatando eventual sujeira ou algum outro desalinho na roupa de alguém dentre eles, providenciaria  ajustar o tal desalinho, para que o interno naquele repositório de cegos, se dirigisse à missa, vestido com a roupa limpa, podendo assim assistir o ofício religioso, executado por um prelado externo àquele espaço onde desempenharia a sua tarefa sacerdotal, em conformidade com o que era esperado da instituição que os abrigava.

 

Alagoinhas – 21 de setembro de 2025 – ainda inverno brasileiro

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 14 de setembro de 2025

As Linhas e as Entrelinhas – XV

 

– Obras e autores parte XII.

 

Recorrendo-se ainda uma vez aos escavares de camadas espessas da memória, considerando um tempo marcado por aquele passado que ainda é percebido no presente, com mais estes garatujares que o paciente leitor tem diante de si, chega-se ao termo destes arrazoares que já vem longos e, quiçá, levantando mais algumas camadas de memórias acumuladas no curso do tempo vivido, se pretende desenvolver mais algumas formulações envolvendo o processo formativo do protagonista até aqui envolvido nestes escritos, considerando o seu ingresso no ensino superior, depois de muitas idas e vindas experimentadas desde que ele começara a palmilhar a estrada dos pós vinte anos, momento em que consegue concluir o que então se denominava “primeiro grau” e, seguia para concluir o também então chamado de “segundo grau”, assomando, por fim, o patamar do ensino superior, se fazendo aprovar para o curso de História, em sua primeira turma, iniciada em 1986, na Faculdade de Formação de Professores de Alagoinhas.

Conforme postula Paul Ricöeur (1913-2005), ao se recorrer à “memória” em busca de encontrar os vestígios daquilo que ficou no passado e que se quer trazer ao presente, “[...], uma busca específica de verdade está implicada na visão da ”coisa” passada, do que anteriormente visto, ouvido, experimentado, aprendido. Essa busca de verdade especifica a memória como grandeza cognitiva. Mais precisamente, é no momento do reconhecimento, em que culmina o esforço da recordação, que essa busca de verdade se declara enquanto tal. [...], sentimos e sabemos que alguma coisa se passou, que alguma coisa teve lugar, a qual nos implicou como agentes, como pacientes, como testemunhas. [...]. Falaremos, doravante, da verdade-fidelidade da lembrança para dizer essa busca, essa reivindicação, esse clarim, que constitui a dimensão epistêmico-veritativa do orthos logos da memória. [...]” (RICÖEUR, 2007, p. 70).

Já se falou bastante das dificuldades enfrentadas por José Mário em compreender as diversas obras que se lhe passaram sob os dedos, na medida em que tal leitura ele só conseguia fazer no que dizia respeito à superfície delas ou, como também já se falou, a sua dificuldade era mediada tanto pela falta de elementos conceituais e contextuais relacionadas aos temas abordados, bem como era presidida pela sua compreensão estreita do que viria a ser uma construção literária. Naquele já distante e tórrido verão de 1985/1986, ele procurara se preparar para os exames vestibulares, estudando língua, redação e literatura com a sua professora Edna Garcia, amiga e incentivadora que sempre o apoiara, desde quando o tivera como aluno alguns anos antes, quando cursara a oitava série. Com ela ele voltara a ler obras da literatura brasileira, sobretudo, aquelas que estavam relacionadas para o certame que se realizaria no final de janeiro e, com a sua ajuda, passara a tentar compreender os tratados desenvolvidos por aqueles escritores, a partir de elementos estruturados na diversidade das escolas e gêneros literários estabelecidos em cânones a partir dos quais se deveria entender aquilo que se propunha a obra de cada autor.

Tendo sido aprovado no aludido certame, sido matriculado e dado início à frequência às aulas a partir de março de 1986, tomara contato com professores e matérias novas, ritmos e processos avaliativos que lhe deixaram aturdido e, ao mesmo tempo, impressionado com o fato de seus outros colegas encararem com a maior naturalidade, aquele ritmo quase frenético de se acompanhar as aulas. Ele nunca esquecera o elenco de matérias em que se matriculara, bem como dos professores que as desenvolveram. Na segunda feira, tivera “História Antiga”, com a professora Alba Mello, entre as dezoito e trinta e as vinte e uma horas; seguida por “ Introdução à Filosofia”, com o professor José Sales; na terça-feira, tivera “Introdução à História!, com a professora Zalvira Vilasboas, seguida da professora Emília –  e ele não lembra ou nunca soube o seu sobrenome – com “Sociologia; na quarta, retornava a professora Alba Melo com a sua “História Antiga” e era seguida de uma matéria que soara muitíssimo estranho aos ouvidos de José Mário – Metodologia do estudo e da pesquisa –, embora o nome da professora ministrante – Iraci Gama Santa Luzia – lhe fosse familiar, apesar de não a conhecer. Seria por meio daquela disciplina que ele viria a ouvir, pela primeira vez, a expressão “entrelinhas”, tratando-se de leitura e compreensão de texto; na quinta e na sexta feira, se complementava o elenco de matérias iniciadas na segunda, na terça e na quarta feira, entrando como novidade a disciplina de “Língua Portuguesa”, sob a responsabilidade da professora Lígia Freire, que a complementava no sábado pela manhã.

É preciso salientar de passagem que, a expressão “entrelinhas”, ouvida durante todo o transcorrer da matéria magistralmente conduzida pela professora Iraci – embora, à época, José Mário não houvesse considerado assim –, acabara por deixar aquele estudante ainda mais confuso, visto que, acreditava que se tratasse de haver alguma outra “linha” que se requeria um esforço extra para ser percebida, entre as linhas escritas, gravadas nas páginas que percorria. O que o deixava ainda mais confuso é que, em Braille, modo como ele exercitava a leitura e a escrita, não havia como inserir uma outra linha, entre as linhas  que ele apreendia por meio do tato, ensejando, por vezes uma pergunta recôndita – seria possível, na escrita em tinta, se inserir uma “linha” entre as que estavam fixadas no papel, que o leitor seria concitado a perceber com alguma arguta habilidade especial? –, isto é: para ele, as tais “entrelinhas” eram linhas extras sutilmente inseridas nos textos e não, como depois veio a saber, um exercício realizado pelo leitor, a partir de outras leituras e da apreensão dos contextos sociais, políticos, filosóficos, entre outros, bem como se referia à compreensão das subliminaridades que acabaram por levar a construção do texto sob o exercício da leitura e da análise feita pelos que viessem a tomar contato com o que fora produzido por autores tais, inscritos em escolas e/ou gêneros literários quais.

Assim, no transcurso do tempo que precisara empregar para o desenvolvimento e a conclusão da sua Licenciatura Plena em História, ele acabara por travar contato com uma aluna do curso de Licenciatura em Letras, com habilitação em francês, que era alguns semestres mais adiantada do que ele, quando acabaram sendo alunos comuns da professora Estela Rodrigues, em uma matéria que para José Mário fora “eletiva” e, para aquela sua colega era obrigatória. Tratava-se da disciplina “Metodologia do estudo e da pesquisa II”, ofertada pelo curso de Letras, que ele integralizara na sua carga horária e, que ampliara um pouco mais a sua compreensão dos elementos constitutivos do fazer e do apreender o conhecimento. Ali, a professora Estela Rodrigues, muito abordou sobre um tema que lhe era caro, falando de uma “Pseudoconcreticidade”, implicando em uma provocação aos seus alunos, insistindo que sem a dúvida e sem o questionamento, não se poderia compreender nem mesmo a produção textual mais simples. Tendo os seus ensinamentos como base epistemológica para o desenvolvimento de um trabalho que demonstrasse um pouco do que fora apreendido naquelas aulas, a professora em questão, dividiu a turma em duplas, para que fosse desenvolvido um trabalho de leitura de uma obra de livre escolha e, por fim, fosse apresentado u texto monográfico que demonstrasse uma espécie de “nova” compreensão daquilo que fora lido.

Neste sentido, formando dupla com a discente do curso de letras com quem passara a formar uma parceria que ultrapassou aqueles tempos estudantis, José Mário e Milfa Valério – hoje professora aposentada, que atuara no campus II, DEDCII Alagoinhas que, durante o seu exercício docente, viera a ser professora daquele seu colega e que fora sua incentivadora no estudo da língua francesa que ela tão bem domina –, se propuseram a ler e a discorrer sobre a obra de Aluísio de Azevedo (1857-1913), “o Mulato”, publicada em 1881, tratado que, segundo as convenções literárias, marcara o início do romance “naturalista” no Brasil. Ali, eles tomaram contato com um enredo cujo desenrolar se deu fora da capital da Corte Imperial – o que para ele, em particular, não deixara de ser observado, considerando as obras até ali percorridas pelos seus dedos – e, cujo desenlace acabara por despertar nos leitores/analistas, uma desconfiança que acabaram por tomar como hipótese de trabalho. Para eles, o “cônego” não só fora o assassino de “Raimundo”, como também era o seu pai biológico, indicando não só uma quebra do “celibato” que lhe era imposto pela instituição que representava, bem como, fora fruto de uma relação com uma senhora que poderia vir a ser mãe da mesma senhorita por  quem o rapaz se afeiçoara e de quem teria alcançado recíproca, o que arriscaria se dar um incesto, que só com a morte do rapaz se poderia evitar. Tendo chegado a aquele entendimento mediante sutilezas deixadas pelo autor, consideraram propor como título do arrazoado que escreveram para submeter a avaliação da professora Estela, “O Falso Moralismo em O Mulato”.

Tendo sido exitosos não só na proposição do entendimento que tiveram da obra, bem como no construir os elementos argumentativos a partir dos quais sustentaram as premissas por eles levantadas, receberam os elogios da professora/avaliadora, que apontara a  precisão dos postulados que eles apresentaram ao longo do arrazoado, em suas cerca de trinta páginas, bem escritas e bem fundamentadas.

Para José Mário – aquele aluno já quase ao final do seu curso de licenciatura em História e, há pouco entrado nos trinta –, a abordagem de um romance sustentada na identificação do seu pertencimento a uma escola/gênero literário dados, representou uma profunda e completa virada no seu modo de compreender o texto literário, uma vez que, as conclusões que extraíra juntamente com a sua parceira de trabalho, foram obtidas a partir de reflexões de elementos que não se encontravam diretamente estabelecidos no texto de per si; mas, principalmente, foram estruturadas em elementos subliminares ao texto, além de terem sido percebidos nas “entrelinhas” apresentadas no transcurso da leitura daquelas “linhas” que estavam postas pelo autor do arrazoado, mas que, se fazia necessário um observar mais atento de quem as viesse a ler.

 

Professor Jorge Damasceno – 14 de setembro de 2025 – inverno brasileiro – Alagoinhas Ba/Br.

 

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domingo, 7 de setembro de 2025

As Linhas e as Entrelinhas – XIV


– Obras e autores parte XI.

 

Retomando neste penúltimo arrazoado proposto para aquilo que aqui se vem discorrendo sob as dificuldades encontradas por José Mário em compreender para além das “linhas que passaram sob os seus dedos em suas leituras feitas no transcurso do seu processo formativo”, pretende-se analisar mais uma dentre elas, talvez, a mais difícil para ele, na medida em que o gênero daquela obra em especial, fugir completamente do escopo já restrito de sua compreensão dos propósitos do autor, na medida em que, para cada “caixinha” em que se encaixa um gênero de obra  - romance/novela, crônica, conto, ... – existe um propósito para a sua escrita e para a sua publicação/circulação. E, como não poderia deixar de ser, há um tempo “histórico” em que aquela obra se inscreve e, a partir dele, se faz necessário compreender a sua razão de ser. Àquela altura da sua formação escolar, ele ainda não distinguia o tempo em que foram escritas as obras que lera, do tempo e da realidade em que estava vivendo. Nesta perspectiva, ele não fazia diferença entre a realidade do século XIX – tempo da escrita a ser evocada aqui – e o momento real no qual ele estava inserido, terceiro quartel do século XX.

Em completo acordo com José d’Assunção Barros que, evocando Marc Bloch (1871-1944), quando preconiza que ”a História é o estudo [ou a ciência]  dos homens no tempo”, prossegue Barros asseverando que “[...]. Situar todas as coisas no tempo — enxergá-las sob  a perspectiva de que cada uma delas interage e ajuda a constituir  um contexto, unindo-se a uma vasta rede de outras coisas que  também se inscrevem no tempo — é típico da História. Os historiadores estão presos ao tempo, literalmente. [...].” e Barros prossegue apontando o que para ele é fundamental, a perspectiva de que  “[...] tudo se inscreve  no tempo, de que tudo se transforma — e de que devemos refletir de modo problematizado sobre cada uma destas transformações,  deixando que incida sobre elas uma análise que será a nossa e  que, de resto, também se inscreve no tempo” (BARROS, 2013, Pp. 17-18.

E, acrescenta este escrevedor que, pelo fato de ser a “História” escrita, pensada e estudada com base no transcorrer do “tempo”, para ser apreendida, faz-se necessário recorrer aos rastros por ela deixados em sua passagem. Tais rastros são também encontráveis nas “Fontes históricas”, que, em última instância, são os vestígios que podem ser apreendidos pelo historiador, tanto por meio de uma diversidade de registros, como  os pictóricos, os  escritos, os fotográficos ou, os imagéticos em geral,  dentre outros, quanto os diversos registros sonoros produzidos mais recentemente e “monumentalizados” em discos – em diversos formatos), fitas cassete ou VHS, “CDs”, “DVDs”, “MP3”, e ainda aqueles outros que ficaram na memória e que só poderão ser apreendidos mediante entrevistas gravadas pelo historiador/pesquisador oral. Esta, por sua vez, uma vez evocada, pode escolher o que lembrar ou esquecer, qual lembrança tornar pública ou qual silenciar. Assim sendo, à medida em que estes garatujares vinham sendo elaborados, algumas camadas de memória eram escavadas e levantadas e por conseguinte, alguns outros lembrares ressurgiam, mediante as evocações daquilo que pudesse trazer um certo passado à luz das reflexões históricas a ele pertinentes.

Conforme se tem salientado ao longo destas reflexões, algumas obras foram percorridas por Zé Mário, sem que ele pudesse apreender com precisão qual era a real pretensão dos autores em as produzir e qual o objetivo em fazê-las circular e, sobretudo, a razão daquelas obras terem ultrapassado não só o tempo de vida dos autores e dos leitores a que se dirigiam, bem como, a razão porque chegaram até ele e aos seus coetâneos, ao ponto de ainda terem a sua leitura cobrada nas escolas em suas diversas fases, incluídas entre as leituras obrigatórias para os candidatos aos certames de ingresso nas universidades, independentemente dos cursos pretendidos e, mais: ainda tendo a leitura delas estimuladas  pelos meios de comunicação, sobretudo, através das adaptações para as telenovelas, em diversas emissoras de televisão e, até mesmo , adaptações para difusão radiofônica.

Mesmo que a sua compreensão aos dezessete ou dezoito anos não alcançasse inferir as reflexões acima propostas, José Mário continuava a fazer as suas leituras, malgrado todas aquelas limitações já postas em arrazoares anteriores. De sorte que, continuando a percorrer algumas das obras de Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908), embora o fizesse motivado pela riqueza e profundidade do vocabulário nelas encontrado, por não conseguir estabelecer diferença entre romance, crônica ou conto – conforme já se explicou – ele arriscara a leitura de “O Alienista”, publicado em 1882, fazendo-o em sua íntegra, a despeito do descompasso entre a leitura e a compreensão do que lia. Por não saber distinguir o estilo da composição literária, uma vez mais, logo imaginara se tratar de uma obra cujo enredo passaria pelos clichês já consolidados no seu modo de pensar a literatura: um ou dois pares românticos; algumas intrigas e disputas; depois, tudo se resolvendo para acabar em pares felizes e leitores satisfeitos com o final por ele esperado e/ou desejado.

É certo que, à medida em que avançava no percurso das páginas do escrito machadiano, compreendia que eles não se encaminhariam na direção que aquele leitor esperava; o enredo se entrelaçando entre diagnósticos de “loucura” pouco a pouco se alastrando pela cidade, fazia com que aquele leitor começasse a perder o entendimento da proposta do autor – se é que em algum momento o tivera –, na medida em que Machado encaminhava o seu Doutor Bacamarte a compreender que, no fim e ao cabo, quem era o “luco” e necessitado de confinamento era ele próprio. O desavisado leitor não sabia que se tratava de uma ironia machadiana, ao modismo que grassara no século em que aquele conto fora escrito, uma espécie de “medicalização do modo de vida da sociedade”, que pressupunha uma “dominação” de formas de pensar baseadas em um “saber médico superior”, que marcara as ações das autoridades públicas de então. O tal “saber médico superior”, procurava chamar para si o conhecimento absoluto das razões que levavam aos adoeceres então frequentes de uma parte considerável da população, fazendo-se imperiosa a obediência às suas prescrições, tanto medicamentosas, quanto comportamentais.

É assim que, por não conhecer as circunstâncias que marcaram a produção da obra que lera e que, por isto mesmo não entendera, José Mário também não foi capaz de compreender nem a obra em si, nem a fina ironia nela presente. Só bem mais tarde, ao tomar contato com tratados que lhe apresentaram o contexto em que aquele tratado estava inserido, entre eles, o que relata o movimento chamado de “cemiterada” –História que pode ser conferida na obra de João José Reis (A Morte é Uma Festa – e, as motivações que o desencadeara, é que ele começou então a tomar contato com expressões como “miasma”, que fora um dos motes fundamentais da tentativa de “reinado” dos saberes médicos na sociedade brasileira   dos “oitocentos”, que Machado tão magistralmente ironizara por meio do seu “Simão Bacamarte.

 

Alagoinhas – 07 de setembro de 2025 – inverno brasileiro –  Ducentésimo terceiro ano da “independência política” do Brasil –


Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com

  

sábado, 30 de agosto de 2025

As Linhas e as Entrelinhas – XIII

 

– Obras e autores parte XI.

 

Já prestes a concluir esta série de arrazoados em que se vem tratando das dificuldades encontradas por José Mário em se capacitar para empreender a leitura mais além das linhas de um texto dado, cabe salientar que, como se já vem pontuando nos garatujares anteriores, grande parte das obras que se dispusera a ler, mesmo no ambiente escolar – em casos em que conseguira acordos ou anuência de algumas docentes –, os títulos e os autores eram de sua livre escolha. Para tanto, ele procurava convencer os professores da necessidade de o fazer, argumentando que tal ou qual obra por ele escolhida, já se encontrava transcrita em Braille, o que tornaria a sua tarefa mais exequível, por não ter que enfrentar os transtornos advindos de fatores que iam desde a aquisição, a possível transcrição e, por fim, a leitura e compreensão de um título que ainda não estivesse em Braille. Eventualmente encontrando alguma resistência em algumas de suas mestres, ele procurava respeitosamente argumentar, dizendo que, em virtude das suas condições econômicas e sociais, não teria como adquirir a obra por elas escolhidas, outrossim, informava que não contava com colegas que morassem próximo do seu lugar de morada e, para completar, não teria como remunerar alguém que lhe pudesse ler o título em questão, para que depois ele pudesse ser por elas avaliado. Quase sempre, ele conseguia convencer as mestres a flexibilizarem no tocante à escolha da sua obra de trabalho, embora algumas delas se mostrassem recalcitrantes e não cedessem em suas posições e auras de autoridade, acabando por designar uma obra diferente daquela que fora proposta para o restante da turma, o que, saliente-se, didaticamente não era a melhor escolha a ser feita. Crê-se que, ao se posicionarem estabelecendo uma obra para toda a turma e uma outra para aquele aluno que não a poderia comprar ou, se o pudesse, não a poderia ler com autonomia, acabava por segregar as avaliações, já que não o poderia fazer sob os mesmos critérios adotados para todo o grupo..

 Assim, ao procurar ponderar com as suas professoras a impossibilidade de aceder com autonomia algumas das obras por elas propostas para a leitura obrigatória e avaliativa, aquele estudante buscava demonstrar para elas que, malgrado aqueles impedimentos, tanto de ordem econômica e social, quanto aquelas outras de caráter técnico, havia nele o interesse e a vontade de ler e por tal leitura ser avaliado, como o seria os seus demais colegas. Além da compreensão de que a leitura da mesma obra que o seria pelos demais alunos possibilitaria a realização de avaliações mais justas, José Mário entendia que para ele, um leitor voraz e interessado na leitura como sendo uma atividade escolar, daria a ele a oportunidade de melhor compreender os textos, mediante as explicações e as ponderações das suas mestres, uma vez que considerava que elas deveriam ser proficientes na execução daquele tipo de conteúdo e, como tais, estariam plenamente capacitadas para o bom andamento do seu processo formativo, que, ao fim e ao cabo, o levaria a alcançar o amadurecimento como cidadão e como estudante. Isto implicaria em uma melhor compreensão da vida em sociedade; na interação necessária para a sua inserção no mundo do trabalho e, nas lutas pelo seu integral processo de aceitação por parte da construção social como um todo, a despeito de limitações  sensoriais inerentes à sua condição de cegueira.

Portanto, todo aquele conjunto de obras que ele leu, fê-lo, em geral, por sua própria escolha, sempre com o intuito de desenvolver o seu processo formativo. Sem qualquer critério lastreado em qualquer distinção de pertencimento de tal ou qual obra, em tal ou qual escola literária, ele se aplicava em obter o material em Braille e, uma vez chegando às suas mãos, ele percorria diligentemente as suas páginas, nem sempre alcançando compreendê-las nas suas intertextualidades, como já se vem salientando há já alguns arrazoados. No entanto, algumas delas ele não logrou completar a leitura, tendo já sido apontadas algumas dentre elas, aqui nestes garatujares, como foi o caso de “O Romance de um Moço Pobre”, alguns títulos de Monteiro Lobato, entre outros já comentados em escritos anteriores.

Aqui, no entanto, vale mencionar uma das obras primas da lavra de Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908), de quem se vem tratando nas últimas postagens. Aquele rapaz com inúmeros defeitos de formação escolar, não concebia que alguém já morto e sepultado, viesse a escrever um tratado abordando situações, circunstâncias e aspectos retroativo de sua vida já finda, apontando para o que já vivera e, quiçá, elaborando juízo sobre o que fizera, sobre o que propusera, sobre o que pensara devesse ter feito e, assim por diante. Para Zé Mário, não fazia o menor sentido ler um texto escrito a partir da sepultura do seu autor. Ora, pensava  o rapaz atônito, ali já era demais para aquele desnorteado leitor que, se mal compreendia as linhas pelas quais transitavam os seus dedos, página a página, imagina compreender um escrito produzido a partir de um lugar em que, quem lá se encontra, não pode nem mesmo se revolver no ataúde em que está encerrado... Onde já se viu, um defunto se arvorar a escrever um texto zombando até mesmo daqueles que choravam a sua morte! Ali, era exigir “demais da conta”, como diriam mineiros e goianos, para um leitor que se encontrava fechado em si mesmo e, sem algum outro leitor mais bem versado nas lides da produção literária brasileira e oitocentista para dialogar consigo... Como compreender se tratar de fina ironia de Machado de Assis, se para aquele leitor raso e sem uma compreensão daquilo que se encontrava nas entrelinhas da aludida obra, a literatura nada mais era do que construções romanescas envolvendo indivíduos vivos, com enredos que envolvia tramas amorosas ou, quando muito, tramas envolvendo disputas políticas econômicas em torno de alguma fortuna ou alguma coisa do tipo?

Assim pensando e, diante da completa incompreensão daquilo que intentara ler, nada mais restou àquele estudante de primeiro grau, afrontado de chofre na sua plena ignorância das ferramentas literárias e da genialidade de Machado de Assis, senão fecharas “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, sem que houvesse ultrapassado as primeiras cinco ou seis páginas - como já prevenira o seu autor ao apresentar a obra ao público -, para só voltar a abri-la cerca de vinte anos depois e, por fim, ler por completo e, melhor compreender aquela composição magistral do cognominado “Bruxo do Cosme Velho”. Daquela vez, a obra fora mais bem compreendida e, até se lançou mão de alguns de seus trechos para desenvolver a peça introdutória de dissertação de mestrado, defendida em 1998.

 

Alagoinhas – 30 de agosto de 2025 – inverno brasileiro.

 

Professor José Jorge Andrade Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 24 de agosto de 2025

As Linhas e as Entrelinhas – XII

– Obras e autores parte X.

 

Em mais um intento de discorrer sobre o processo formativo de José Mário e as suas dificuldades em lidar com o mundo em que vivia e o compreender a partir do mundo que lhe era apresentado pela literatura que ele devorava, embora não a conseguisse digerir adequada e satisfatoriamente para poder absorver alguma dentre as muitas lições possíveis de se aprender, aqui se traz à consideração do paciente leitor destes garatujares, mais algumas abordagens sobre a proposição que se vem fazendo ao longo de algumas semanas aqui, neste mesmo espaço. A hipótese que se tem procurado demonstrar aqui, é a de que a dificuldade que fazia com que aquele leitor voraz não conseguisse compreender adequadamente as propostas encontradas nos livros que lhe era facultada a leitura, se lhe apresentava como resultado da falta de instrumental teórico e de apreensão contextual adequada, para que ele pudesse ler para além das linhas que percorria e, como consequência,  sair da superficialidade que se lhe apresentava o texto que acabara de ler. Tal falta, embora ele já contasse mais de dezesseis anos, quando fizera a maioria das leituras das obras aqui analisadas, o impedia de abstrair os elementos constitutivos dos textos em causa, bem como, impedia a compreensão das características pessoais e estilísticas dos autores que, em última análise, indicava grande parte da razão de ser de sua obra.

Portanto, o que se vem postulando nestes arrazoares é que, a formação de um sujeito para que possa encarar o mundo que lhe rodeia, precisa não só de um ferramental teórico e metodológico adequado, como também, precisa que a sua apreensão e que a sua aplicação se dê nas etapas escolares e etárias equivalentes ao desenvolvimento intelectual do ser em formação. Para José Mário, além de não haver a sincronia apontada acima, nem contar com a existência de bases culturais anteriormente assentadas e, advindas de um pertencimento familiar que as houvesse construído, também ele não teve acesso ao tal instrumental teórico, nem se observou a relação idade/série, uma vez que, quando já deveria estar matriculado no então segundo grau, ele ainda se debatia com as dificuldades relacionadas com a sétima série do então primeiro grau, o que efetivamente interferiu no processo de seu amadurecimento, tanto intelectual, quanto no acúmulo de referências que permitissem aprender a construir um modo de pensar que lhe propiciasse a sua apreensão de mundo, visando a interação com os diversos elementos presentes na sua constituição.

Assim, não tendo alcançado desenvolver tais habilidades no tempo oportuno, José Mário acabou por não saber como lidar com o mundo que se lhe apresentava para que nele se inserisse e nele navegasse, enfrentando as marés que teria de atravessar diária e constantemente, se quisesse chegar a algum lugar, onde ele de fato queria.

Embora já existissem em bom número e, José Mário conhecesse e tivesse em casa algumas delas  - como as propostas por Massaud Moisés (1928-2018) -, não era fácil o acesso a antologias – e José Mário ainda não dispunha de maturidade para as entender como sendo necessária a leitura delas –, que tratassem de obras, conjuntos de obras ou de grupos de autores, que permitissem obter informações sobre as circunstâncias em que foram produzidas tais ou quais obras; os contextos em que estavam inseridas e que possibilitaram o desenvolvimento das histórias lidas; as características de tais ou quais autores, que possibilitassem entender as motivações não só da criação dos enredos, bem como da elaboração das personagens e dos seus modos de ser e de se comportar. Era sob estas perspectivas que José Mário se lançava nas leituras que se propôs fazer, ao longo do seu caminhar de estudante irregular, no sentido de suas idas e vindas pela seriação escolar. Assim, é com espírito lacunar de informações das circunstâncias, dos contextos e das características estilísticas e, sem quaisquer informações sobre quem fora e o que fizera no tempo em que vivera, que aquele leitor se imiscuiu na produção literária de Machado de Assis (1839-1908), mormente, aquela que mais  dificuldades lhe impôs para compreender os descaminhos trilhados pelo seu autor na construção do seu complicado desenrolar: “Dom Casmurro”. Publicada em 1899 e , ao que tudo faz crer, diferentemente de grande parte das obras literárias desenvolvidas no transcurso do Século XIX, ela já aparece como livro, completo e trabalhado como tal, em lugar de aparecer em fascículos publicados paulatinamente nos jornais, como o fora até então, inclusive, outras obras machadianas.

lido por José Mário aproximadamente em 1978, “Dom Casmurro” foi uma obra que se apresentou para ele, como tendo sido a mais difícil para a sua compreensão fincada solidamente em uma leitura romanesca, visto que, conforme veio a saber muito mais tarde, tratava-se da fase “realista” de Machado de Assis. Tal classificação, volte-se a salientar, para ele não fazia qualquer sentido, pois, no seu entendimento, tudo era romance e, como tal, precisava se desenrolar como romance: pares; disputas, discordâncias e, por fim, acertos que resultassem naquilo que ele considerava o desfecho adequado para aquele tipo de escrito, “o final feliz”. Mas, malgrado o seu esforço para entender o andamento do texto e, não obstante o seu empenho para decifrar os intrincados caminhares construídos pelo autor, nada conseguira absorver, compreender ou mesmo apreender da proposta de Machado para os seus personagens e, para a trama por ele urdida. Zé Mário sequer atentara para a dubiedade do desfecho da obra, certamente, cravando ter havido o dito adultério por parte de Capitu, entendendo menos ainda, o que levara o autor – e claro, ele não o percebera – a dar a obra por terminada, sem entregar ao leitor um fim conclusivo. É verdade que Zé Mário só tomara conhecimento da polêmica – sem o menor sentido para ele –, bem depois, quando já entrara em contato com outras percepções da obra, evidentemente, ao se encontrar no processo de graduação. Ainda assim, a leitura fora feita com bastante atenção, cuidado e vagar; entremeada de retornos às páginas anteriores, com o fito de procurar entender o que fora lido ou, retornar a algum trecho que se lhe escapara a atenção; pausas e retomadas  foram feitas na vã tentativa de entender o que se lhe escapara. Entretanto, todo aquele esforço intelectual empreendido visando enfim, compreender o labiríntico desenvolvimento daquela que, conforme se leu bem mais tarde, fora a obra mais trabalhada das propostas por Machado de Assis, José Mário nada logrou alcançar em sua empreitada para apreender o que propunha o autor na exposição do seu discurso.

Assim, se ao ler “Dom Casmurro”, José Mário mal compreendia as formulações encontradas quando percorridas “as linhas” nas quais pululavam belas construções frasais, saltitavam expressões que indicavam o rico vocabulário com  o qual Machado elaborava o conjunto complexo de sua narrativa, ele nada conseguia apreender a infinidade de subliminaridades que poderiam se fazer notar, naquilo que mais tarde ele veio a saber existir, mormente nos textos literários: as “entrelinhas”. Nelas estaria a chave para a compreensão do dito, pois ali estaria o “não dito”, que não precisava sê-lo, desde que o leitor o pudesse abstrair para a melhor e mais profunda compreensão do que se pretendia dizer, quando uma obra estivesse nas mãos daqueles que a iria percorrer. Uma vez escrita a obra, o autor deixaria que o seu leitor pudesse captar os interditos, pois, como já é cediço, grande parte daquilo que se pretende comunicar, nem sempre pode estar explicitado, devido as interdições, as circunstâncias que podem ter envolvido esta ou aquela produção literária. É o que Michel de Certeau indica como sendo o “lugar de produção”, que envolve, que influencia, que ajusta ou que limita quem elabora uma leitura de mundo, neste caso específico, por meio da literatura.

 

Alagoinhas – 24 de agosto de 2025 – inverno brasileiro.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com