– Obras e autores parte X.
Em mais um intento de discorrer sobre o processo formativo
de José Mário e as suas dificuldades em lidar com o mundo em que vivia e o
compreender a partir do mundo que lhe era apresentado pela literatura que ele
devorava, embora não a conseguisse digerir adequada e satisfatoriamente para
poder absorver alguma dentre as muitas lições possíveis de se aprender, aqui se
traz à consideração do paciente leitor destes garatujares, mais algumas abordagens
sobre a proposição que se vem fazendo ao longo de algumas semanas aqui, neste
mesmo espaço. A hipótese que se tem procurado demonstrar aqui, é a de que a
dificuldade que fazia com que aquele leitor voraz não conseguisse compreender
adequadamente as propostas encontradas nos livros que lhe era facultada a
leitura, se lhe apresentava como resultado da falta de instrumental teórico e
de apreensão contextual adequada, para que ele pudesse ler para além das linhas
que percorria e, como consequência, sair
da superficialidade que se lhe apresentava o texto que acabara de ler. Tal
falta, embora ele já contasse mais de dezesseis anos, quando fizera a maioria
das leituras das obras aqui analisadas, o impedia de abstrair os elementos
constitutivos dos textos em causa, bem como, impedia a compreensão das
características pessoais e estilísticas dos autores que, em última análise,
indicava grande parte da razão de ser de sua obra.
Portanto, o que se vem postulando nestes arrazoares é que, a
formação de um sujeito para que possa encarar o mundo que lhe rodeia, precisa
não só de um ferramental teórico e metodológico adequado, como também, precisa
que a sua apreensão e que a sua aplicação se dê nas etapas escolares e etárias
equivalentes ao desenvolvimento intelectual do ser em formação. Para José
Mário, além de não haver a sincronia apontada acima, nem contar com a
existência de bases culturais anteriormente assentadas e, advindas de um
pertencimento familiar que as houvesse construído, também ele não teve acesso
ao tal instrumental teórico, nem se observou a relação idade/série, uma vez
que, quando já deveria estar matriculado no então segundo grau, ele ainda se
debatia com as dificuldades relacionadas com a sétima série do então primeiro
grau, o que efetivamente interferiu no processo de seu amadurecimento, tanto
intelectual, quanto no acúmulo de referências que permitissem aprender a
construir um modo de pensar que lhe propiciasse a sua apreensão de mundo,
visando a interação com os diversos elementos presentes na sua constituição.
Assim, não tendo alcançado desenvolver tais habilidades no
tempo oportuno, José Mário acabou por não saber como lidar com o mundo que se
lhe apresentava para que nele se inserisse e nele navegasse, enfrentando as
marés que teria de atravessar diária e constantemente, se quisesse chegar a
algum lugar, onde ele de fato queria.
Embora já existissem em bom número e, José Mário conhecesse
e tivesse em casa algumas delas - como as
propostas por Massaud Moisés (1928-2018) -, não era fácil o acesso a antologias
– e José Mário ainda não dispunha de maturidade para as entender como sendo necessária
a leitura delas –, que tratassem de obras, conjuntos de obras ou de grupos de
autores, que permitissem obter informações sobre as circunstâncias em que foram
produzidas tais ou quais obras; os contextos em que estavam inseridas e que
possibilitaram o desenvolvimento das histórias lidas; as características de
tais ou quais autores, que possibilitassem entender as motivações não só da
criação dos enredos, bem como da elaboração das personagens e dos seus modos de
ser e de se comportar. Era sob estas perspectivas que José Mário se lançava nas
leituras que se propôs fazer, ao longo do seu caminhar de estudante irregular,
no sentido de suas idas e vindas pela seriação escolar. Assim, é com espírito
lacunar de informações das circunstâncias, dos contextos e das características
estilísticas e, sem quaisquer informações sobre quem fora e o que fizera no
tempo em que vivera, que aquele leitor se imiscuiu na produção literária de
Machado de Assis (1839-1908), mormente, aquela que mais dificuldades lhe impôs para compreender os
descaminhos trilhados pelo seu autor na construção do seu complicado desenrolar:
“Dom Casmurro”. Publicada em 1899 e , ao que tudo faz crer, diferentemente de
grande parte das obras literárias desenvolvidas no transcurso do Século XIX,
ela já aparece como livro, completo e trabalhado como tal, em lugar de aparecer
em fascículos publicados paulatinamente nos jornais, como o fora até então,
inclusive, outras obras machadianas.
lido por José Mário aproximadamente em 1978, “Dom Casmurro”
foi uma obra que se apresentou para ele, como tendo sido a mais difícil para a
sua compreensão fincada solidamente em uma leitura romanesca, visto que,
conforme veio a saber muito mais tarde, tratava-se da fase “realista” de
Machado de Assis. Tal classificação, volte-se a salientar, para ele não fazia
qualquer sentido, pois, no seu entendimento, tudo era romance e, como tal,
precisava se desenrolar como romance: pares; disputas, discordâncias e, por
fim, acertos que resultassem naquilo que ele considerava o desfecho adequado
para aquele tipo de escrito, “o final feliz”. Mas, malgrado o seu esforço para
entender o andamento do texto e, não obstante o seu empenho para decifrar os
intrincados caminhares construídos pelo autor, nada conseguira absorver,
compreender ou mesmo apreender da proposta de Machado para os seus personagens
e, para a trama por ele urdida. Zé Mário sequer atentara para a dubiedade do
desfecho da obra, certamente, cravando ter havido o dito adultério por parte de
Capitu, entendendo menos ainda, o que levara o autor – e claro, ele não o
percebera – a dar a obra por terminada, sem entregar ao leitor um fim
conclusivo. É verdade que Zé Mário só tomara conhecimento da polêmica – sem o
menor sentido para ele –, bem depois, quando já entrara em contato com outras
percepções da obra, evidentemente, ao se encontrar no processo de graduação. Ainda
assim, a leitura fora feita com bastante atenção, cuidado e vagar; entremeada
de retornos às páginas anteriores, com o fito de procurar entender o que fora
lido ou, retornar a algum trecho que se lhe escapara a atenção; pausas e
retomadas foram feitas na vã tentativa
de entender o que se lhe escapara. Entretanto, todo aquele esforço intelectual
empreendido visando enfim, compreender o labiríntico desenvolvimento daquela
que, conforme se leu bem mais tarde, fora a obra mais trabalhada das propostas
por Machado de Assis, José Mário nada logrou alcançar em sua empreitada para
apreender o que propunha o autor na exposição do seu discurso.
Assim, se ao ler “Dom Casmurro”, José Mário mal compreendia
as formulações encontradas quando percorridas “as linhas” nas quais pululavam
belas construções frasais, saltitavam expressões que indicavam o rico
vocabulário com o qual Machado elaborava
o conjunto complexo de sua narrativa, ele nada conseguia apreender a infinidade
de subliminaridades que poderiam se fazer notar, naquilo que mais tarde ele
veio a saber existir, mormente nos textos literários: as “entrelinhas”. Nelas
estaria a chave para a compreensão do dito, pois ali estaria o “não dito”, que
não precisava sê-lo, desde que o leitor o pudesse abstrair para a melhor e mais
profunda compreensão do que se pretendia dizer, quando uma obra estivesse nas
mãos daqueles que a iria percorrer. Uma vez escrita a obra, o autor deixaria
que o seu leitor pudesse captar os interditos, pois, como já é cediço, grande
parte daquilo que se pretende comunicar, nem sempre pode estar explicitado,
devido as interdições, as circunstâncias que podem ter envolvido esta ou aquela
produção literária. É o que Michel de Certeau indica como sendo o “lugar de
produção”, que envolve, que influencia, que ajusta ou que limita quem elabora
uma leitura de mundo, neste caso específico, por meio da literatura.
Alagoinhas – 24 de agosto de 2025 – inverno brasileiro.
Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com
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