domingo, 3 de agosto de 2025

As Linhas e as Entrelinhas – IX

 

– Obras e autores parte VII.

 

Este é mais um arrazoado a partir do qual se pretende analisar o percurso de José Mário nas lides do seu processo formativo, considerando as incursões que ele fizera na produção literária que lhe caíra nas mãos, no lapso de tempo que medeia o seu caminhar pela vida, pela escola e pelas ruas da sua cidade onde permutava algumas ideias com uns poucos amigos que possuíra e cultivara,  em todo o transcurso das décadas de 1970 e 1980. Por aquela ocasião, ele estava em processo de construção do seu modo de perceber e pensar a realidade que o rodeava e, por conseguinte, elaborava a sua leitura de mundo, tanto o material quanto o imaterial, com o qual era instado a interagir, como parte do esforço para compreender o cotidiano que dele se acercava, procurando absorver os pontos e os contrapontos que lhe eram diuturnamente apresentados ao espírito. Não obstante o tempo transcorrido desde então, as camadas de memória já superpostas e, principalmente, as experiências vividas que resultaram no acúmulo ainda maior de camadas, fazendo ainda mais difícil a identificação de qual delas estaria sendo escavada, o rememorar deste escrevedor impertinente, talvez seja útil para a compreensão do vivido pelo protagonista que tem tido o fio do seu viver puxado pelo Teseu que navega nos labirintos propiciados pelas entradas cada vez mais profundas em seu emaranhado de reentrâncias no extenso espaço da memória.

Não é sem razoável grau de acerto que Pierre Nora (1931-2025), procura elencar um conjunto de “lugares de memória”, a partir dos quais são desencadeados lembrares diversos àqueles que por eles passam – temporária ou frequentemente (cemitérios, antigas construções emblemáticas, igrejas onde antes congregara, clubes e outros espaços de sociabilidades que antes frequentara), também os livros e outros impressos que alguém acabara por reler – que, quase invariavelmente, levam a um “reencontrar” de lembranças de um tempo há muito já pretérito, que ressurge com impressionante nitidez naqueles que alguma vez retorna ao seu “lugar de memória”, deixando profunda impressão naquele espírito, que julgava já completamente apagadas aquelas sensações trazidas à tona, mediante o contato com os “lugares de memória”, os quais voltara a visitar de maneira voluntária ou, ainda que involuntariamente. É por isto que Nora diz que “[...]A memória é a vida, sempre carregada por grupos vivos e, nesse  sentido, ela está em permanente evolução, aberta à dialética da lembrança e do  esquecimento, inconsciente de suas deformações sucessivas, vulnerável a todos os  usos e manipulações, susceptível de longas latências e de repentinas revitalizações. [...]”. (NORA, 2010, p. 8).

É assim que, tomando na devida conta as reflexões que se vem fazendo sobre José Mário em sua voracidade de leitor e, apontando para as suas dificuldades em compreender com um pouco mais de profundidade aquilo a que se dispusera a ler, insere-se aqui uma correta ponderação feita por um leitor, quando ele assevera que leitura e compreensão de um texto literário, requer maturidade, seja do ponto de vista cronológico, seja do ponto de vista intelectual, acrescenta este escrevedor, embora, creia ele, o tal acréscimo estivesse implícito na ponderação feita pelo atento e arguto leitor. No caso específico de Zé Mário, talvez, lhe faltasse as duas modalidades de maturidade, uma vez que, ele, em grande parte dos casos, se mantinha nadando em rios cujas águas mal lhe cobriam os pés. É verdade que faltava a ele, um grande número de informações sobre a obra que lia, sobre o autor que a compusera, sobre o tempo em que fora escrita, sobre o contexto social, econômico e cultural que propiciou a sua circulação, divulgação e aceitação – ou não – daquilo que nela se procurava descrever, contestar, reforçar, refutar, enfim, a quem ela era dirigida e porque fora tornada pública. No entanto, Zé Mário não era capaz, sequer, de levantar algum senão, que indicasse uma leitura compreensiva e, pior, uma postura reflexiva sobre o que lera. Seria quase um passar de páginas maquinal, apenas para chegar ao fim e concluir triunfante: acabei de ler tal, ou qual obra. É certo que tal postura ainda prevalece nos dias hodiernos, a despeito do grande volume de informações, disponíveis para consulta na rede mundial de computadores. Mas, também, já houve tempos que tais bancos de dados não existiam – ou pelo menos que fossem alcançáveis em minutos, mediante alguns cliques ou toques em telas –, que permitisse ao leitor aceder a meandros que estivessem ativos no momento da escrita de alguma obra. Ainda assim, grandes reflexões foram desenvolvidas, alentados debates foramdesencadeados e tornados públicos por meio de jornais e/ou revistas especializadas, em alguns casos, levando autores a rever a sua prosa, como parece ter sucedido a Herberto Sales (1917-1999), autor de “Cascalho”, que teria alterado bastante o seu prosear, entre a primeira edição publicada em 1944 e a que ele classificou como definitiva, publicada  em 1955, - implementando algumas alterações no curso da trama, talvez, quiçá, mediante pressão de alguns elementos nela envolvidos, suprimindo algumas passagens que colocassem em risco a sua integridade física, visto alguns poderosos da região terem se reconhecido em personagens do enredo ficcional produzido pelo futuro imortal da Academia Brasileira de Letras, saído dos torrões de Andaraí, na Bahia.

É assim que, aqui se pretende trazer mais três obras que José Mário lera, a partir do seu próprio interesse e escolha, sempre tendo em vista a sua necessidade de se assenhorar dos livros que gratuita e livremente eram colocados ao seu dispor e de quem mais tivesse interesse em os ter e os ler. A primeira delas é “A Moreninha”, de Joaquim Manuel de Macêdo (1820-1882), obra publicada em 1844 e, que ele julgara ter entendido perfeitamente, pois o enredo romanesco e previsível estivera dentro das suas expectativas, visto que apresentava um caminhar com poucas tropelias e se encaminhava para o assim chamado “final feliz”, como ele esperava e pelo que torcia. Nada compreendia, evidentemente e como nas obras até aqui comentadas, daquilo que levara o autor a conduzir a trama na direção que o fizera, adotando os passos que escolhera para o encaminhamento do romance. Pouco compreendia dos meandros culturais e psicossociais inerentes ao século XIX em que fora ambientado, ignorando por completo os usos e os costumes que marcavam o seu desenrolar, sequer conseguindo separar as distintas realidades: aquela que presidia a obra e aquela outra que presidia o tempo que a estava lendo. Ainda assim, considerou que em algum momento do seu viver, circunstâncias e/ou situações trazidas para o desenrolar da trama e, que lhe marcara o espírito, ainda há pouco mergulhado na adolescência – uma adolescência tardia, saliente-se, de passagem – pudessem vir a se fazer real em seu favor. Isto é: ele de fato não conseguia separar a realidade romantizada e tornada pública por meio de um livro que atravessara o século que lhe dera origem, de uma representação ficcional daquela que passara sob os seus dedos ágeis. Por vezes, ele acreditava que na verdade, o enredo era uma  descrição de uma realidade de fato vivida – do mesmo modo como entendera no caso de “O Tronco do Ipê, de José de Alencar, já mencionado há alguns dias neste mesmo espaço.

A segunda das obras aqui trazidas para comentar acerca das dificuldades de compreensão das “entrelinhas”, por parte de José Mário, a despeito de suas incursões na produção literária que lhe era disponibilizada em Braille – embora já existisse, nunca se interessara pelo livro gravado - é, “A Escrava Isaura”, de Bernardo Guimarães (1815-1884), publicada em 1875 – portanto, no auge da campanha abolicionista encabeçada por diversos intelectuais da época, que ganhara força logo depois da Guerra do Paraguai ou da Tríplice Aliança, 1864-1870 -, que retratara em suas páginas uma crudelíssima realidade vivida por tantos escravos brasileiros – e assim ele entendeu adequadamente a obra – mas, que ele não conhecia, sequer um tantinho dela. A história que ele conhecia fora lhe ensinada no primeiro grau – que ainda cursava quando leu a obra em causa –, que nada falava a respeito da escravidão imposta a africanos trazidos  para o Brasil em navios “Tumbeiros” – tão ricamente descrito pelo lirismo de Antônio Frederico de Castro Alves (1847-1871) – ou, sobre aqueles aqui nascidos e que formavam o grupo de indivíduos que com seus corpos e força de trabalho, propiciava o desenvolvimento e o enriquecimento do Brasil, passando longe de falar dos maus tratos, da servidão a força de chicote e privação da liberdade; de forma discreta e quase despercebida, falava de escravidão por nascimento; mas, falava também e com muito entusiasmo, de que eles eram os responsáveis – sem que indicasse a que custo – pela movimentação da produção e da comercialização de inúmeros produtos que faziam a “riqueza” da nação.

Destarte, é a partir da leitura daquela obra que lhe ferira profundamente a sensibilidade, que ele tomara conhecimento da crueza do regime... Opa, calma aí!: da crueza, da torpeza,  ou do autoritarismo de um senhor de engenho – ou seja, Zé Mário não sabia ser comum atitudes como as de Leôncio - que queria a todo o custo possuir sexualmente uma de suas escravas, daquelas dentre as que serviam na “casa grande”, nascida da conjunção de um homem branco com uma mulher negra, razão pela qual lhe foi imputada a condição de escrava. Para ele, não era o regime que se apresentava em sua forma de ser e de existir; mas, entendera da leitura, que se tratava de um sujeito isolado que prevalecendo da condição de “senhor”, “proprietário” daquela escrava, pretendia possuí-la para desfrutar do seu sexo, no frescor dos seus anos. Da mesma maneira que não entendera o sucedido ao “Pai Tomás” como sendo inerente ao regime a que ele estava submetido, José Mário também não conseguira associar as agruras sofridas pela escrava Isaura – assim como fora vivida por outras escravas em inúmeras propriedades isoladas nos longínquos grotões do País -, como sendo um elemento constitutivo do modo escravista de trabalho, vigente nas plagas brasílicas. Para ele, se tratava de mais um romance, uma criação literária, não atinava ser lugar comum aquele tipo de circunstância vivida pelos que eram submetidos ao regime de escravidão, que vigorara por todo o tempo de existência do Brasil colonial e do Brasil imperial, marcadamente nos ciclos econômicos sob os quais o país foi moldado. Aquele leitor não sabia, por exemplo, que a escravidão negra não foi a única praticada no Brasil colonial e imperial. Não sabia que o trabalho compulsório também foi imposto aos povos nativos, em lugares onde a escravidão negra não era comercialmente rentável para quem a traficava; nem valia a pena bancar o seu custo em áreas que a produção não fosse destinada ao comércio em grande escala.

A terceira das três publicações que José Mário teve sob os seus dedos para uma leitura que fora feita com bastante atenção e interesse foi “O Cabeleira”, de Franklin Távora (1842-1888), publicada em 1876. Marcada por tramas envolvendo mortes e sangue, mostrou um cenário repleto de descrições cruas dos crimes perpetrados pelo protagonista, cuja leitura não fez Zé Mário reconhecer uma mudança no perfil dos livros até então lidos por ele, se apresentando ao seu espírito como uma obra que ele simplesmente não encontrara razão para a sua leitura, malgrado o entusiasmo que lhe despertara o título do tratado. Era lhe difícil suspeitar se tratar de obra que talvez pudesse ser classificada como regionalista ou, uma espécie de antecipação de uma literatura sobre o cangaço que surgira no nordeste brasileiro – embora pudesse ser encontrado em outras regiões do país, sob outras denominações. Ele nada absorvera do conteúdo apresentado ao longo daquelas páginas, não ficando sequer o registro na memória de um caminhar minimamente lógico da narrativa. Não ficou nenhum nome de personagens que fosse, apesar de ter ele lido toda a obra. Para aquele leitor voraz e com baixíssimo senso crítico, não fazia o menor sentido não haver em um “romance” um trecho que fosse que conduzisse a um descrever de amores e, claro, com um “final feliz”. Talvez até tenha havido, uma conversão de um assassino cruel, por meio de um amor de alguma jovem mulher encantadora, doce e meiga que quebraria os rancores e as asperezas acumulados; que amansaria um homem endurecido pelos muitos crimes e pelas muitas vinganças aplicadas aos seus inimigos. Se perguntado, ele sequer arriscaria dizer se houve este esperado abrandamento “do coração” daquele homem rude, acre e de sentimento petrificado, pois, ele sequer se lembra de uma única passagem daquilo que lera em “O Cabeleira”.

 

Alagoinhas, inverno brasileiro – 02 de agosto de 2025

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

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