– Obras e autores parte VII.
Este é mais um arrazoado a partir do qual se pretende
analisar o percurso de José Mário nas lides do seu processo formativo,
considerando as incursões que ele fizera na produção literária que lhe caíra
nas mãos, no lapso de tempo que medeia o seu caminhar pela vida, pela escola e
pelas ruas da sua cidade onde permutava algumas ideias com uns poucos amigos
que possuíra e cultivara, em todo o
transcurso das décadas de 1970 e 1980. Por aquela ocasião, ele estava em
processo de construção do seu modo de perceber e pensar a realidade que o
rodeava e, por conseguinte, elaborava a sua leitura de mundo, tanto o material
quanto o imaterial, com o qual era instado a interagir, como parte do esforço
para compreender o cotidiano que dele se acercava, procurando absorver os
pontos e os contrapontos que lhe eram diuturnamente apresentados ao espírito.
Não obstante o tempo transcorrido desde então, as camadas de memória já
superpostas e, principalmente, as experiências vividas que resultaram no
acúmulo ainda maior de camadas, fazendo ainda mais difícil a identificação de
qual delas estaria sendo escavada, o rememorar deste escrevedor impertinente,
talvez seja útil para a compreensão do vivido pelo protagonista que tem tido o
fio do seu viver puxado pelo Teseu que navega nos labirintos propiciados pelas
entradas cada vez mais profundas em seu emaranhado de reentrâncias no extenso espaço
da memória.
Não é sem razoável grau de acerto que Pierre Nora (1931-2025),
procura elencar um conjunto de “lugares de memória”, a partir dos quais são
desencadeados lembrares diversos àqueles que por eles passam – temporária ou
frequentemente (cemitérios, antigas construções emblemáticas, igrejas onde
antes congregara, clubes e outros espaços de sociabilidades que antes
frequentara), também os livros e outros impressos que alguém acabara por reler
– que, quase invariavelmente, levam a um “reencontrar” de lembranças de um
tempo há muito já pretérito, que ressurge com impressionante nitidez naqueles
que alguma vez retorna ao seu “lugar de memória”, deixando profunda impressão
naquele espírito, que julgava já completamente apagadas aquelas sensações
trazidas à tona, mediante o contato com os “lugares de memória”, os quais
voltara a visitar de maneira voluntária ou, ainda que involuntariamente. É por
isto que Nora diz que “[...]A
memória é a vida, sempre carregada por grupos vivos e, nesse sentido, ela está em permanente evolução,
aberta à dialética da lembrança e do
esquecimento, inconsciente de suas deformações sucessivas, vulnerável a
todos os usos e manipulações, susceptível
de longas latências e de repentinas revitalizações. [...]”. (NORA, 2010, p. 8).
É assim que, tomando na devida conta as reflexões que se vem
fazendo sobre José Mário em sua voracidade de leitor e, apontando para as suas
dificuldades em compreender com um pouco mais de profundidade aquilo a que se
dispusera a ler, insere-se aqui uma correta ponderação feita por um leitor,
quando ele assevera que leitura e compreensão de um texto literário, requer
maturidade, seja do ponto de vista cronológico, seja do ponto de vista
intelectual, acrescenta este escrevedor, embora, creia ele, o tal acréscimo
estivesse implícito na ponderação feita pelo atento e arguto leitor. No caso
específico de Zé Mário, talvez, lhe faltasse as duas modalidades de maturidade,
uma vez que, ele, em grande parte dos casos, se mantinha nadando em rios cujas águas
mal lhe cobriam os pés. É verdade que faltava a ele, um grande número de
informações sobre a obra que lia, sobre o autor que a compusera, sobre o tempo
em que fora escrita, sobre o contexto social, econômico e cultural que
propiciou a sua circulação, divulgação e aceitação – ou não – daquilo que nela se
procurava descrever, contestar, reforçar, refutar, enfim, a quem ela era
dirigida e porque fora tornada pública. No entanto, Zé Mário não era capaz,
sequer, de levantar algum senão, que indicasse uma leitura compreensiva e,
pior, uma postura reflexiva sobre o que lera. Seria quase um passar de páginas
maquinal, apenas para chegar ao fim e concluir triunfante: acabei de ler tal,
ou qual obra. É certo que tal postura ainda prevalece nos dias hodiernos, a
despeito do grande volume de informações, disponíveis para consulta na rede
mundial de computadores. Mas, também, já houve tempos que tais bancos de dados
não existiam – ou pelo menos que fossem alcançáveis em minutos, mediante alguns
cliques ou toques em telas –, que permitisse ao leitor aceder a meandros que
estivessem ativos no momento da escrita de alguma obra. Ainda assim, grandes
reflexões foram desenvolvidas, alentados debates foramdesencadeados e tornados
públicos por meio de jornais e/ou revistas especializadas, em alguns casos,
levando autores a rever a sua prosa, como parece ter sucedido a Herberto Sales
(1917-1999), autor de “Cascalho”, que teria alterado bastante o seu prosear,
entre a primeira edição publicada em 1944 e a que ele classificou como
definitiva, publicada em 1955, -
implementando algumas alterações no curso da trama, talvez, quiçá, mediante
pressão de alguns elementos nela envolvidos, suprimindo algumas passagens que
colocassem em risco a sua integridade física, visto alguns poderosos da região
terem se reconhecido em personagens do enredo ficcional produzido pelo futuro
imortal da Academia Brasileira de Letras, saído dos torrões de Andaraí, na Bahia.
É assim que, aqui se pretende trazer mais três obras que
José Mário lera, a partir do seu próprio interesse e escolha, sempre tendo em
vista a sua necessidade de se assenhorar dos livros que gratuita e livremente
eram colocados ao seu dispor e de quem mais tivesse interesse em os ter e os
ler. A primeira delas é “A Moreninha”, de Joaquim Manuel de Macêdo (1820-1882),
obra publicada em 1844 e, que ele julgara ter entendido perfeitamente, pois o
enredo romanesco e previsível estivera dentro das suas expectativas, visto que
apresentava um caminhar com poucas tropelias e se encaminhava para o assim
chamado “final feliz”, como ele esperava e pelo que torcia. Nada compreendia,
evidentemente e como nas obras até aqui comentadas, daquilo que levara o autor
a conduzir a trama na direção que o fizera, adotando os passos que escolhera
para o encaminhamento do romance. Pouco compreendia dos meandros culturais e
psicossociais inerentes ao século XIX em que fora ambientado, ignorando por
completo os usos e os costumes que marcavam o seu desenrolar, sequer
conseguindo separar as distintas realidades: aquela que presidia a obra e
aquela outra que presidia o tempo que a estava lendo. Ainda assim, considerou
que em algum momento do seu viver, circunstâncias e/ou situações trazidas para
o desenrolar da trama e, que lhe marcara o espírito, ainda há pouco mergulhado
na adolescência – uma adolescência tardia, saliente-se, de passagem – pudessem
vir a se fazer real em seu favor. Isto é: ele de fato não conseguia separar a
realidade romantizada e tornada pública por meio de um livro que atravessara o
século que lhe dera origem, de uma representação ficcional daquela que passara
sob os seus dedos ágeis. Por vezes, ele acreditava que na verdade, o enredo era
uma descrição de uma realidade de fato
vivida – do mesmo modo como entendera no caso de “O Tronco do Ipê, de José de
Alencar, já mencionado há alguns dias neste mesmo espaço.
A segunda das obras aqui trazidas para comentar acerca das
dificuldades de compreensão das “entrelinhas”, por parte de José Mário, a
despeito de suas incursões na produção literária que lhe era disponibilizada em
Braille – embora já existisse, nunca se interessara pelo livro gravado - é, “A
Escrava Isaura”, de Bernardo Guimarães (1815-1884), publicada em 1875 –
portanto, no auge da campanha abolicionista encabeçada por diversos
intelectuais da época, que ganhara força logo depois da Guerra do Paraguai ou
da Tríplice Aliança, 1864-1870 -, que retratara em suas páginas uma
crudelíssima realidade vivida por tantos escravos brasileiros – e assim ele
entendeu adequadamente a obra – mas, que ele não conhecia, sequer um tantinho
dela. A história que ele conhecia fora lhe ensinada no primeiro grau – que
ainda cursava quando leu a obra em causa –, que nada falava a respeito da
escravidão imposta a africanos trazidos
para o Brasil em navios “Tumbeiros” – tão ricamente descrito pelo
lirismo de Antônio Frederico de Castro Alves (1847-1871) – ou, sobre aqueles aqui
nascidos e que formavam o grupo de indivíduos que com seus corpos e força de
trabalho, propiciava o desenvolvimento e o enriquecimento do Brasil, passando
longe de falar dos maus tratos, da servidão a força de chicote e privação da
liberdade; de forma discreta e quase despercebida, falava de escravidão por
nascimento; mas, falava também e com muito entusiasmo, de que eles eram os
responsáveis – sem que indicasse a que custo – pela movimentação da produção e
da comercialização de inúmeros produtos que faziam a “riqueza” da nação.
Destarte, é a partir da leitura daquela obra que lhe ferira
profundamente a sensibilidade, que ele tomara conhecimento da crueza do
regime... Opa, calma aí!: da crueza, da torpeza, ou do autoritarismo de um senhor de engenho –
ou seja, Zé Mário não sabia ser comum atitudes como as de Leôncio - que queria
a todo o custo possuir sexualmente uma de suas escravas, daquelas dentre as que
serviam na “casa grande”, nascida da conjunção de um homem branco com uma
mulher negra, razão pela qual lhe foi imputada a condição de escrava. Para ele,
não era o regime que se apresentava em sua forma de ser e de existir; mas, entendera
da leitura, que se tratava de um sujeito isolado que prevalecendo da condição
de “senhor”, “proprietário” daquela escrava, pretendia possuí-la para desfrutar
do seu sexo, no frescor dos seus anos. Da mesma maneira que não entendera o
sucedido ao “Pai Tomás” como sendo inerente ao regime a que ele estava
submetido, José Mário também não conseguira associar as agruras sofridas pela
escrava Isaura – assim como fora vivida por outras escravas em inúmeras
propriedades isoladas nos longínquos grotões do País -, como sendo um elemento
constitutivo do modo escravista de trabalho, vigente nas plagas brasílicas.
Para ele, se tratava de mais um romance, uma criação literária, não atinava ser
lugar comum aquele tipo de circunstância vivida pelos que eram submetidos ao
regime de escravidão, que vigorara por todo o tempo de existência do Brasil
colonial e do Brasil imperial, marcadamente nos ciclos econômicos sob os quais
o país foi moldado. Aquele leitor não sabia, por exemplo, que a escravidão
negra não foi a única praticada no Brasil colonial e imperial. Não sabia que o
trabalho compulsório também foi imposto aos povos nativos, em lugares onde a
escravidão negra não era comercialmente rentável para quem a traficava; nem
valia a pena bancar o seu custo em áreas que a produção não fosse destinada ao
comércio em grande escala.
A terceira das três publicações que José Mário teve sob os
seus dedos para uma leitura que fora feita com bastante atenção e interesse foi
“O Cabeleira”, de Franklin Távora (1842-1888), publicada em 1876. Marcada por
tramas envolvendo mortes e sangue, mostrou um cenário repleto de descrições
cruas dos crimes perpetrados pelo protagonista, cuja leitura não fez Zé Mário
reconhecer uma mudança no perfil dos livros até então lidos por ele, se
apresentando ao seu espírito como uma obra que ele simplesmente não encontrara
razão para a sua leitura, malgrado o entusiasmo que lhe despertara o título do
tratado. Era lhe difícil suspeitar se tratar de obra que talvez pudesse ser
classificada como regionalista ou, uma espécie de antecipação de uma literatura
sobre o cangaço que surgira no nordeste brasileiro – embora pudesse ser
encontrado em outras regiões do país, sob outras denominações. Ele nada
absorvera do conteúdo apresentado ao longo daquelas páginas, não ficando sequer
o registro na memória de um caminhar minimamente lógico da narrativa. Não ficou
nenhum nome de personagens que fosse, apesar de ter ele lido toda a obra. Para
aquele leitor voraz e com baixíssimo senso crítico, não fazia o menor sentido
não haver em um “romance” um trecho que fosse que conduzisse a um descrever de
amores e, claro, com um “final feliz”. Talvez até tenha havido, uma conversão
de um assassino cruel, por meio de um amor de alguma jovem mulher encantadora,
doce e meiga que quebraria os rancores e as asperezas acumulados; que amansaria
um homem endurecido pelos muitos crimes e pelas muitas vinganças aplicadas aos
seus inimigos. Se perguntado, ele sequer arriscaria dizer se houve este esperado
abrandamento “do coração” daquele homem rude, acre e de sentimento petrificado,
pois, ele sequer se lembra de uma única passagem daquilo que lera em “O
Cabeleira”.
Alagoinhas, inverno brasileiro – 02 de agosto de 2025
Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com
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