sábado, 16 de agosto de 2025

As Linhas e as Entrelinhas – XI

 

– Obras e autores parte IX.

 

Ainda caminhando pelas sendas dos rememorares, apontando para um passado que ainda se faz presente, tem se procurado entregar ao paciente leitor, mais um arrazoado no qual se pretende pensar a construção do processo de formação de um indivíduo situado entre as décadas de 1970 e 1980, na qual era bastante rarefeita a existência de um instrumental técnico – ou o acesso a ele – que permitisse o elaborar de ferramentas que possibilitasse um aprofundamento do pensamento – ou mesmo o conhecimento dele – que ensejasse o desenvolvimento de um modelo por meio do qual, se pudesse construir uma leitura de mundo que tornasse possível uma maior e melhor compreensão da realidade em que vivia, visto que, para conseguir avançar na busca do amadurecimento pessoal e, para se fazer inserir no caminhar coletivo, se fazia imperativo que apreendesse não só os elementos inerentes à vida de per si, bem como que compreendesse os modos de utilização do instrumental cognitivo que no que respeita ao caso em exame, em grande parte das vezes, estava limitado ao pequeno arsenal propedêutico acumulado no processo de seriação escolar.

Já se apontou em elaborações textuais anteriores, que o personagem que tem sido aqui analisado, apesar de já haver passado a sua primeira quinzena de verões, quando se imiscuíra no mundo das construções literárias, enfrentou algumas sérias dificuldades em separar o mundo ficcional que lhe caíra nas mãos – mesmo se considerando que grande parte dele fora retratado em publicações já centenárias ou próximas de alcançar esta marca –, do mundo real e palpável em que vivia. Na realidade, ele não conhecia a existência de tal diferença, uma vez que ainda não possuía a capacidade de abstrair entre o lido e o vivido, no sentido de entender a existência de uma distância substantiva entre os dois mundos pelos quais tentava transitar – o real o ficcional –, tanto pela sua inserção tardia no processo de formação escolar, quanto pela falta de interação com um ambiente cotidiano que lhe permitisse estabelecer a dicotomia entre a realidade vivida e aquela apresentada nas representações de um mundo cujos elementos constitutivos já se faziam profundamente modificados, não só pelo tempo, como também pelo desenvolvimento social, cultural, histórico, econômico e, sem perder de vista que, no momento em que ele realizava as suas leituras, já eram outros  os sistemas filosóficos que vigoravam no tempo histórico em que se encontrava, em relação àqueles  sob os quais estava lastreado o mundo do Século XIX, que presidia majoritariamente a produção literária que estivera ao alcance daquele leitor ainda intelectualmente imaturo.

Portanto, como se tem podido  perceber, a despeito da atenção dedicada às leituras que fazia e, malgrado os esforços envidados na busca de sua compreensão, José Mário não conseguia separar adequadamente aqueles dois mundos, embora ele soubesse que aquele que lhe era trazido magistralmente pelos diversos escritores com os quais tomara contato, se lhe afigurasse inatingível, não por pensar que tal mundo não existisse de fato; mas, porque acreditava que ele, leitor que estava sob algumas condições sociais, econômicas e culturais adversas, jamais o alcançaria, acreditando quase piedosamente, que outros, no seu mesmo tempo de existir, poderiam chegar a atingir aqueles objetivos de vida, sentimento, prestígio social, ou quaisquer outros, apontados pelos autores e, evidentemente, tornados possível em suas tramas. É preciso salientar que as suas leituras, em grande parte, estavam concentradas na escola romântica, embora, ele não fizesse quaisquer distinções entre elas, pois, para ele, tudo era romance, desde que o final se desse com um casal que durante todo o enredo se queria, se cogitava que tivesse uma relação idílica e, tal se desse ao fim da obra que se dispunha a ler, como se deu, por exemplo, em “Inocência” – embora, ao pegar a obra e ler as suas primeiras páginas, não compreendera imediatamente que aquele era o nome da personagem; acreditara se tratar  de um “estado”, “uma condição” de “pureza” de malícias -, escrita pelo Visconde de Taunay (1843-1899). Portanto, tudo aquilo que fugisse desse diapasão, lhe soava como inaceitável. Tal régua de medir por ele utilizada, fazia com que ele repelisse grande parte das obras de Jorge Amado (1912-2001), Guimarães Rosa (1908-1967), João Cabral de Melo Neto (1920-1999), Clarisse Lispector (1920-1977) – estes três últimos, se quer ele conhecia alguma de suas obras e, sobre a última, nem mesmo ouvira falar

É assim que, neste e nos próximos três arrazoados, se buscará falar das tentativas de ler e minimamente compreender uma parte da prosa de Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908), que José Mário fizera ao tempo do seu processo formativo. Tais intentos foram experienciados no escopo do seu trajeto de leitor quase compulsivo, possibilitado pela facilidade com que conseguia acesso aos livros em Braille, conforme já sabe o leitor destas linhas, que eram distribuídos gratuitamente, mediante pedido feito à Fundação para o Livro do Cego no Brasil, situada na cidade de São Paulo. Devido à variedade e extensão dos escritos de Machado de Assis, disponibilizados por aquela instituição que se dedicava ao trabalho de transcrição de livros em Braille para a leitura dos cegos brasileiros, duas delas serão tratadas aqui e, mais três em outros arrazoados. Iaiá Garcia, primeira das obras machadianas que passou sob os dedos de José Mário, teve a sua primeira edição publicada em 1878. Nela, o leitor, como sempre, nada conseguiu apreender de sua trama, senão o embate entre os dois pretendentes à mão da jovem órfã, que era cortejada por um antigo apaixonada pela sua madrasta e por um velho solteirão que, aos olhos da madrasta parecia mais aconselhável. No entanto, para além da menção à “Guerra do Paraguai”, onde o amigo de Luís Garcia servira no fronte, nada mais Zé Mário colhera de sua leitura, para além daquilo que ele entendera como o desenlace esperado. Exasperava-se pela demora com que o autor empreendia ao seu enredo, algumas vezes abandonando a leitura quando acreditava que não teria o final que almejava, voltando ao texto com a impaciência de um leitor que não se conformava em não chegar ao fim da leitura e encontrar o seu desejo atendido. Não compreendia a forma de conduzir a trama que era peculiar àquele autor que, ainda sem uma grande compreensão, entendia ter algumas características que diferenciaria dos demais que lera até ali e, que igualmente, pouco ou nada entendera do contexto que cercava tanto a concepção da obra, quanto aquele que a construía; menos ainda, compreendia o objetivo que impelia Machado de Assis, em tal ou qual direção, na construção daquilo que o leitor ainda entendia como sendo um “romance”.

A segunda das obras machadianas que lhe despertara o interesse, “A Mão e a Luva”, publicada em (1874), acabou por se lhe apresentar como uma trama que dava a ele aquela sensação de que “para cada mão, haveria uma luva perfeita para encaixar. Aquela compreensão equivocada que ele construíra da trama tecida por Machado, acabou por produzir uma expectativa de caminhar cotidiano que não correspondeu à sua realidade vivida. É evidente, como se percebe com o passar do tempo e o acumular de experiências desapontadoras, que o tratado de Machado não apontava para uma compreensão da vida em termos de coisas ou pessoas encaixáveis e/ou ajustáveis ao querer ou ao desejar de quem quer que fosse. Seja como for, aquele entendimento construído pelo leitor, acabara por criar nele alguns desconfortos, sobretudo no campo afetivo, podando a sua percepção da vida, como sendo um constante entrecruzar-se de pessoas e fatos, ineludivelmente executados, absolutamente fora de uma fixidez de fins estabelecidos à priori.

Para finalizar este arrazoado que já se faz longo e, antes de continuar a discorrer acerca da inserção de Zé Mário na verve machadiana, caberia aqui salientar que, ao menos este escrevedor, jamais conseguiu saber e, muito menos entender, quais os critérios adotados pela Fundação para o livro do cego no Brasil – se os havia –, no momento de decidir quais livros, autores ou temas por eles tratados eram escolhidos para serem transcritos e, posteriormente disponibilizar para o acesso dos leitores cegos brasileiros. Salvo um melhor trabalho de pesquisa e de busca de informações mais precisas, grande parte daquilo que era transcrito em Braille pelo parque gráfico da referida instituição, estava concentrada em obras tidas como clássicas e, que foram tornadas públicas a partir dos meados do Século XIX e, do início do seguinte, talvez nas suas primeiras quatro ou cinco décadas. Os mais atentos leitores destes garatujares, certamente, já perceberam que boa parte das obras e autores aqui comentados, se situa nos tempos do Brasil imperial e escravocrata.

Talvez, aqui se possa apontar que, uma chave para se procurar compreender a postura “conservadora” da FLCB, esteja no período em que foi mais intensa a distribuição do material transcrito para o Sistema Braille de leitura e escrita para os cegos. Aquele era o tempo da Ditadura civil-Militar instaurada pelo golpe de 1964, na qual, os generais presidentes governavam o País com “mão-de-ferro e, evidentemente, as instituições – mesmo aquelas que, em tese, não ofereciam grande resistência ou qualquer perigo ao Regime – se encontravam sob vigilância ou, como se diz, “pisavam em ovos”, com receio de despertar o furor dos “donos do poder” e aqueles, se voltarem contra elas, “com fúria e altivez”. Obras como algumas das produzidas no tempo da escola realista, ou mesmo, aquelas entendidas como “subversivas”, ao menos o quanto se sabe, jamais foram transcritas para o Sistema Braille. Teria a Fundação para o Livro do Cego no Brasil se imposto uma auto censura – por medo ou simples alinhamento –, no que respeita a obras e a autores que seria conveniente  evitar que chegasse às mãos e/ou conhecimento dos leitores cegos, contaminando-os com as ideias “indesejáveis” ali contidas – tais como comunismo, crítica ao sistema econômico e social; questionamentos à autoridade dos militares no poder; ou apenas uma compreensão da exploração do trabalho pelos proprietários dos meios de produção, da opressão exercida sobre os pobres, dentre outras aberrações apontadas por autores dispostos a “subverter a ordem” com os seus escritos?  Temeria as autoridades, uma “insurreição” dos cegos brasileiros?  E, sendo tal “revolta” possível, como ela se daria, a partir de algumas leituras “desviantes”, se alguns dos leitores, sequer conseguiam avançar para além das linhas percorridas?

Cabe ainda salientar que constava no catálogo de distribuição da aludida Fundação, livros de autores de literatura policialesca, como por exemplo, “O caso dos dez Negrinhos” e “O Homem do Terno Marrom”, da escritora britânica Agatha Christie (1890-1976), o que poderia levar a crer que houvesse uma questão a ser colocada, que buscasse entender haver alguma razão obscura, ou ao menos, mal explicada, sobre as escolhas de quais ou tais obras a serem transcritas para o Braille e distribuídas para tantos cegos quantos quisessem recebê-las  em suas residências.

A tal propósito, conviria a se conjecturar a respeito de tão estúpida possibilidade de uma rebelião a partir do acesso a construções ficcionais que mal eram compreendidas na sua superfície, havendo eclodido o movimento insurrecional promovido pelos cegos aliciados pela leitura das obras “perigosas” e, logo depois de esmagado pela bravura dos soldados, munidos de canhões e tanques ágeis e modernos, qual viria a ser o nome dado àquele pretenso “levante” incitado pelo comunismo que grassava nos malditos livros, quase sempre considerados “doutrinadores”? Talvez, passasse para a História como “o levante das bengalas longas”; ou ainda, os insurretos poderiam vir a ser conhecidos como “os ceguinhos rebeldes”; mas, também poderia aquele imaginado movimento ser conhecido como “insurreição dos sem vista” ou ainda, “A Revolução dos Cegos”!... Vai saber!...

 

Alagoinhas – inverno brasileiro – 16 de agosto de 2025

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

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