sábado, 16 de agosto de 2025

As Linhas e as Entrelinhas – XI

 

– Obras e autores parte IX.

 

Ainda caminhando pelas sendas dos rememorares, apontando para um passado que ainda se faz presente, tem se procurado entregar ao paciente leitor, mais um arrazoado no qual se pretende pensar a construção do processo de formação de um indivíduo situado entre as décadas de 1970 e 1980, na qual era bastante rarefeita a existência de um instrumental técnico – ou o acesso a ele – que permitisse o elaborar de ferramentas que possibilitasse um aprofundamento do pensamento – ou mesmo o conhecimento dele – que ensejasse o desenvolvimento de um modelo por meio do qual, se pudesse construir uma leitura de mundo que tornasse possível uma maior e melhor compreensão da realidade em que vivia, visto que, para conseguir avançar na busca do amadurecimento pessoal e, para se fazer inserir no caminhar coletivo, se fazia imperativo que apreendesse não só os elementos inerentes à vida de per si, bem como que compreendesse os modos de utilização do instrumental cognitivo que no que respeita ao caso em exame, em grande parte das vezes, estava limitado ao pequeno arsenal propedêutico acumulado no processo de seriação escolar.

Já se apontou em elaborações textuais anteriores, que o personagem que tem sido aqui analisado, apesar de já haver passado a sua primeira quinzena de verões, quando se imiscuíra no mundo das construções literárias, enfrentou algumas sérias dificuldades em separar o mundo ficcional que lhe caíra nas mãos – mesmo se considerando que grande parte dele fora retratado em publicações já centenárias ou próximas de alcançar esta marca –, do mundo real e palpável em que vivia. Na realidade, ele não conhecia a existência de tal diferença, uma vez que ainda não possuía a capacidade de abstrair entre o lido e o vivido, no sentido de entender a existência de uma distância substantiva entre os dois mundos pelos quais tentava transitar – o real o ficcional –, tanto pela sua inserção tardia no processo de formação escolar, quanto pela falta de interação com um ambiente cotidiano que lhe permitisse estabelecer a dicotomia entre a realidade vivida e aquela apresentada nas representações de um mundo cujos elementos constitutivos já se faziam profundamente modificados, não só pelo tempo, como também pelo desenvolvimento social, cultural, histórico, econômico e, sem perder de vista que, no momento em que ele realizava as suas leituras, já eram outros  os sistemas filosóficos que vigoravam no tempo histórico em que se encontrava, em relação àqueles  sob os quais estava lastreado o mundo do Século XIX, que presidia majoritariamente a produção literária que estivera ao alcance daquele leitor ainda intelectualmente imaturo.

Portanto, como se tem podido  perceber, a despeito da atenção dedicada às leituras que fazia e, malgrado os esforços envidados na busca de sua compreensão, José Mário não conseguia separar adequadamente aqueles dois mundos, embora ele soubesse que aquele que lhe era trazido magistralmente pelos diversos escritores com os quais tomara contato, se lhe afigurasse inatingível, não por pensar que tal mundo não existisse de fato; mas, porque acreditava que ele, leitor que estava sob algumas condições sociais, econômicas e culturais adversas, jamais o alcançaria, acreditando quase piedosamente, que outros, no seu mesmo tempo de existir, poderiam chegar a atingir aqueles objetivos de vida, sentimento, prestígio social, ou quaisquer outros, apontados pelos autores e, evidentemente, tornados possível em suas tramas. É preciso salientar que as suas leituras, em grande parte, estavam concentradas na escola romântica, embora, ele não fizesse quaisquer distinções entre elas, pois, para ele, tudo era romance, desde que o final se desse com um casal que durante todo o enredo se queria, se cogitava que tivesse uma relação idílica e, tal se desse ao fim da obra que se dispunha a ler, como se deu, por exemplo, em “Inocência” – embora, ao pegar a obra e ler as suas primeiras páginas, não compreendera imediatamente que aquele era o nome da personagem; acreditara se tratar  de um “estado”, “uma condição” de “pureza” de malícias -, escrita pelo Visconde de Taunay (1843-1899). Portanto, tudo aquilo que fugisse desse diapasão, lhe soava como inaceitável. Tal régua de medir por ele utilizada, fazia com que ele repelisse grande parte das obras de Jorge Amado (1912-2001), Guimarães Rosa (1908-1967), João Cabral de Melo Neto (1920-1999), Clarisse Lispector (1920-1977) – estes três últimos, se quer ele conhecia alguma de suas obras e, sobre a última, nem mesmo ouvira falar

É assim que, neste e nos próximos três arrazoados, se buscará falar das tentativas de ler e minimamente compreender uma parte da prosa de Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908), que José Mário fizera ao tempo do seu processo formativo. Tais intentos foram experienciados no escopo do seu trajeto de leitor quase compulsivo, possibilitado pela facilidade com que conseguia acesso aos livros em Braille, conforme já sabe o leitor destas linhas, que eram distribuídos gratuitamente, mediante pedido feito à Fundação para o Livro do Cego no Brasil, situada na cidade de São Paulo. Devido à variedade e extensão dos escritos de Machado de Assis, disponibilizados por aquela instituição que se dedicava ao trabalho de transcrição de livros em Braille para a leitura dos cegos brasileiros, duas delas serão tratadas aqui e, mais três em outros arrazoados. Iaiá Garcia, primeira das obras machadianas que passou sob os dedos de José Mário, teve a sua primeira edição publicada em 1878. Nela, o leitor, como sempre, nada conseguiu apreender de sua trama, senão o embate entre os dois pretendentes à mão da jovem órfã, que era cortejada por um antigo apaixonada pela sua madrasta e por um velho solteirão que, aos olhos da madrasta parecia mais aconselhável. No entanto, para além da menção à “Guerra do Paraguai”, onde o amigo de Luís Garcia servira no fronte, nada mais Zé Mário colhera de sua leitura, para além daquilo que ele entendera como o desenlace esperado. Exasperava-se pela demora com que o autor empreendia ao seu enredo, algumas vezes abandonando a leitura quando acreditava que não teria o final que almejava, voltando ao texto com a impaciência de um leitor que não se conformava em não chegar ao fim da leitura e encontrar o seu desejo atendido. Não compreendia a forma de conduzir a trama que era peculiar àquele autor que, ainda sem uma grande compreensão, entendia ter algumas características que diferenciaria dos demais que lera até ali e, que igualmente, pouco ou nada entendera do contexto que cercava tanto a concepção da obra, quanto aquele que a construía; menos ainda, compreendia o objetivo que impelia Machado de Assis, em tal ou qual direção, na construção daquilo que o leitor ainda entendia como sendo um “romance”.

A segunda das obras machadianas que lhe despertara o interesse, “A Mão e a Luva”, publicada em (1874), acabou por se lhe apresentar como uma trama que dava a ele aquela sensação de que “para cada mão, haveria uma luva perfeita para encaixar. Aquela compreensão equivocada que ele construíra da trama tecida por Machado, acabou por produzir uma expectativa de caminhar cotidiano que não correspondeu à sua realidade vivida. É evidente, como se percebe com o passar do tempo e o acumular de experiências desapontadoras, que o tratado de Machado não apontava para uma compreensão da vida em termos de coisas ou pessoas encaixáveis e/ou ajustáveis ao querer ou ao desejar de quem quer que fosse. Seja como for, aquele entendimento construído pelo leitor, acabara por criar nele alguns desconfortos, sobretudo no campo afetivo, podando a sua percepção da vida, como sendo um constante entrecruzar-se de pessoas e fatos, ineludivelmente executados, absolutamente fora de uma fixidez de fins estabelecidos à priori.

Para finalizar este arrazoado que já se faz longo e, antes de continuar a discorrer acerca da inserção de Zé Mário na verve machadiana, caberia aqui salientar que, ao menos este escrevedor, jamais conseguiu saber e, muito menos entender, quais os critérios adotados pela Fundação para o livro do cego no Brasil – se os havia –, no momento de decidir quais livros, autores ou temas por eles tratados eram escolhidos para serem transcritos e, posteriormente disponibilizar para o acesso dos leitores cegos brasileiros. Salvo um melhor trabalho de pesquisa e de busca de informações mais precisas, grande parte daquilo que era transcrito em Braille pelo parque gráfico da referida instituição, estava concentrada em obras tidas como clássicas e, que foram tornadas públicas a partir dos meados do Século XIX e, do início do seguinte, talvez nas suas primeiras quatro ou cinco décadas. Os mais atentos leitores destes garatujares, certamente, já perceberam que boa parte das obras e autores aqui comentados, se situa nos tempos do Brasil imperial e escravocrata.

Talvez, aqui se possa apontar que, uma chave para se procurar compreender a postura “conservadora” da FLCB, esteja no período em que foi mais intensa a distribuição do material transcrito para o Sistema Braille de leitura e escrita para os cegos. Aquele era o tempo da Ditadura civil-Militar instaurada pelo golpe de 1964, na qual, os generais presidentes governavam o País com “mão-de-ferro e, evidentemente, as instituições – mesmo aquelas que, em tese, não ofereciam grande resistência ou qualquer perigo ao Regime – se encontravam sob vigilância ou, como se diz, “pisavam em ovos”, com receio de despertar o furor dos “donos do poder” e aqueles, se voltarem contra elas, “com fúria e altivez”. Obras como algumas das produzidas no tempo da escola realista, ou mesmo, aquelas entendidas como “subversivas”, ao menos o quanto se sabe, jamais foram transcritas para o Sistema Braille. Teria a Fundação para o Livro do Cego no Brasil se imposto uma auto censura – por medo ou simples alinhamento –, no que respeita a obras e a autores que seria conveniente  evitar que chegasse às mãos e/ou conhecimento dos leitores cegos, contaminando-os com as ideias “indesejáveis” ali contidas – tais como comunismo, crítica ao sistema econômico e social; questionamentos à autoridade dos militares no poder; ou apenas uma compreensão da exploração do trabalho pelos proprietários dos meios de produção, da opressão exercida sobre os pobres, dentre outras aberrações apontadas por autores dispostos a “subverter a ordem” com os seus escritos?  Temeria as autoridades, uma “insurreição” dos cegos brasileiros?  E, sendo tal “revolta” possível, como ela se daria, a partir de algumas leituras “desviantes”, se alguns dos leitores, sequer conseguiam avançar para além das linhas percorridas?

Cabe ainda salientar que constava no catálogo de distribuição da aludida Fundação, livros de autores de literatura policialesca, como por exemplo, “O caso dos dez Negrinhos” e “O Homem do Terno Marrom”, da escritora britânica Agatha Christie (1890-1976), o que poderia levar a crer que houvesse uma questão a ser colocada, que buscasse entender haver alguma razão obscura, ou ao menos, mal explicada, sobre as escolhas de quais ou tais obras a serem transcritas para o Braille e distribuídas para tantos cegos quantos quisessem recebê-las  em suas residências.

A tal propósito, conviria a se conjecturar a respeito de tão estúpida possibilidade de uma rebelião a partir do acesso a construções ficcionais que mal eram compreendidas na sua superfície, havendo eclodido o movimento insurrecional promovido pelos cegos aliciados pela leitura das obras “perigosas” e, logo depois de esmagado pela bravura dos soldados, munidos de canhões e tanques ágeis e modernos, qual viria a ser o nome dado àquele pretenso “levante” incitado pelo comunismo que grassava nos malditos livros, quase sempre considerados “doutrinadores”? Talvez, passasse para a História como “o levante das bengalas longas”; ou ainda, os insurretos poderiam vir a ser conhecidos como “os ceguinhos rebeldes”; mas, também poderia aquele imaginado movimento ser conhecido como “insurreição dos sem vista” ou ainda, “A Revolução dos Cegos”!... Vai saber!...

 

Alagoinhas – inverno brasileiro – 16 de agosto de 2025

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 10 de agosto de 2025

AS LINHAS E AS ENTRELINHAS - X

 

– Obras e autores parte VIII.

 

Conforme se vem salientando nestes garatujares, os elementos trazidos ao crivo da arguta observação de tantos quantos se interessem em lê-los, estão ineludivelmente arraigados no rememorar daquele que os escreve, considerando, evidentemente, o que se vem dizendo acerca do lembrar, do esquecer, do silenciar, do apagar. Estes movimentos da memória têm por princípio a preservação do vivido ou, pelo menos, o esforço para não o perder de todo, fazendo daquela experiência uma espécie de trampolim para o salto nas lembranças e, por consequência, procurar construir um caudal de elaborações de um dado passado lembrado. Conforme preconiza Jeanne Marie Gagnebin,

“[...]. Tal rememoração implica uma certa ascese da atividade historiadora que, em vez de repetir aquilo de que se lembra, abre-se aos brancos, aos buracos, ao esquecido e ao recalcado, para dizer, com hesitações, solavancos, incompletude, aquilo que ainda não teve direito nem à lembrança nem  às palavras. A rememoração também significa uma atenção precisa ao  presente, em particular a estas estranhas ressurgências do passado no  presente, pois não se trata somente de não se esquecer do passado, mas  também de agir sobre o presente. A fidelidade ao passado, não sendo  um fim em si, visa à transformação do presente” (GAGNEBIN, 2009, P. 55).

 

 

Há já algumas postagens, vem-se desenvolvendo arrazoados que demonstrem a hipótese que os move, que é a de que José Mário em seu processo formativo, sofreu com a falta de alguns instrumentos que lhe facilitassem a apreensão dos elementos que constituem o modo de pensar inerente ao mundo em que estava inserido, que lhe ajudassem a absorver  não somente os textos que lhe  passassem sob os dedos, mas, sobretudo, o ajudassem a perceber com clareza, as articulações empregadas nas construções literárias que formatam os diversos contextos sobre os quais se desenrolavam os enredos propostos pelos autores das obras lidas. Tal falta acabou por produzir alguns déficits no seu processo formativo que dificultaram e muito, a construção de ferramentas interpretativas dos ditos e dos não ditos inerentes aos textos literários, retardando a sua compreensão de mundo, a sua construção de um pensamento crítico, procrastinando assim o seu crescimento, amadurecimento e frutificação intelectual, tão necessários à interação social, à intervenção no que diz respeito às relações com o conviver com a sociedade e com as exigências inerentes ao processo de inserção como força de trabalho ativa na produção material e imaterial, indispensáveis ao viver e à sobrevivência junto aos demais elementos constitutivos da formação econômica e social a que pertence.

É neste sentido que aqui se traz mais um conjunto de obras que foram lidas  por José Mário quando estava procurando desenvolver o seu processo formativo para a vida adulta e laboral, mas, a despeito da atenção e do interesse com que se lançou à tarefa de percorrer as suas páginas em Braille, não as entendeu, ou, o que viria a ser a mesma coisa, não conseguiu abstrair daquela obra entrada naquilo que viria a se denominar “escola realista”, aquilo que era objetivo do autor, comunicar por meio dos seus escreveres, muito menos, compreendeu que se tratava de um retratar histórico através da literatura, de um ciclo econômico do Brasil, há já algum tempo sendo superado por outros ciclos que lhe sobrepuseram: o ciclo da cana de açúcar.

Desta forma, para trazer ao público leitor um pouco daquela fase da História econômica brasileira através da produção literária, José Lins do Rego (1901-1957), desenvolveu uma espécie de série composta por cinco títulos, que consistiu em desenvolver tramas distribuídas em publicações trazidas à lume em cerca de aproximadamente  cinco anos entre a primeira e a quinta obra – tendo surgido uma sexta, publicada sete anos depois da quinta dentre elas -, através da qual ele elaborou uma saga elementar para a compreensão daquele Brasil que se queria novo, sobretudo, após a eclosão dos episódios que desaguaram naquilo que ficou historicamente conhecida como “A Revolução de 30”, que pôs fim ao período chamado de “República Velha” ou, “República do Café com Leite”, período em que as oligarquias rurais pouco a pouco, perdiam a hegemonia exercida sobre aquela sociedade em que a maioria da população nascera, crescera, se desenvolvera e morrera nos interstícios das propriedades rurais pertencentes aos chefes locais, sendo forçada a dar lugar a uma “burguesia” urbana em franco crescimento, que reclamava um lugar político equivalente ao domínio econômico que se lhe afigurava como inerente à riqueza que acumulara até ali. .

Portanto, Menino de Engenho 1932, Doidinho 1933, Bangüê 1934, O Moleque Ricardo 1935 e Usina 1936, além de Fogo Morto que foi publicada em 1943, eram as obras que compunham o que se convencionou denominar de “ciclo da cana-de-açúcar”, onde Lins do Rego procurara mostrar aos seus leitores o paulatino e vigoroso enfraquecimento do domínio exercido pelos coronéis dos engenhos sobre a grande maioria da população, quase sempre a eles subordinada e, por eles, constantemente ameaçada, se acaso lhes contrariasse a vontade ou, não lhes atendesse os caprichos. Oriundos dos setores que dominaram a cena política e a vida econômica e que deram as cartas para o funcionamento da sociedade brasileira, praticamente, por todo o tempo de construção do Estado e de sua formação sociocultural, no instante mesmo em que se dera o processo de ocupação portuguesa. Desde a implantação da República no último decênio do século XIX, aqueles coronéis experimentavam um franco e inelutável declínio de sua importância econômica e, veem erodida a relevância de sua participação política no que tange à determinação dos destinos daquela Nação, nascida como resultado do fim do império dos Orleans e Bragança.

Assim, quarenta e dois anos depois da publicação de Menino de Engenho, Zé Mário, arrastado pela onda levantada por outros colegas que, tal qual ele, também entraram em contato com aquelas obras no mesmo momento da formação escolar, acabara por ler as três primeiras delas, sem contudo, encontrar em suas páginas, nada mais do que texto muito bem escrito – como não poderia deixar de o ter sido – e que a ele se lhe afigurava como uma prosa bem concatenada e coerente, sem, no entanto, fazer grande sentido para aquele leitor superficial.

Conforme já se apontou acima, não obstante o interesse, a atenção e o empenho de José Mário em se assenhorar do conteúdo das obras que se dispusera a percorrer com os seus dedos, pouco ficou daquele esforço em tomar contato com o enredo desenvolvido pelo autor, a não ser, alguns fragmentos que se lhe introjetaram na memória, como duas quadras recitadas pelas gentes em seus azafamas diários que Lins do Rego transpusera a sua trama, apesar de Zé Mário talvez não ser capaz de dizer em qual das três que lera se encontrariam as quadras infamantes, urdidas e que eram disparadas por três ou mais grupos de subalternos que se conflagravam entre si, embora, aquele leitor não atinasse a razão de tais confrontos, se nenhum dos grupos era formado pelos proprietários ou pelos seus herdeiros. A primeira das quadras que passava de boca em boca, no formato de insultos cuspidos na cara dos contendores, dizia: “Branco Deus fez; mulato Deus pintô; caboco bufa de porco, nêgo o diabo cagô. A segunda delas dizia: “Branco dorme na sala; mulato no corredô; caboco na cozinha; nêgo no cagadô”. Elas eram recitadas uns contra os outros e, dependendo dos níveis de acirramento dos ânimos, poderia acabar em pródiga pancadaria.

Mas, qual era a razão daquela animosidade, o voraz leitor não conseguira encontrar. Na verdade, se quer ele atentara para aquilo que poderia estar no subtexto daquela manifestação insidiosa, como sendo uma relação conflituosa que formatasse uma reação à mestiçagem – para não dizer uma rejeição a ela - presente na configuração da população rural, que constituía o maior contingente que formava as gentes que habitava nos engenhos. Ao contrário: ele entendia como alguma coisa passível de risos; como se fossem brincadeiras inofensivas para aqueles que eram listados entre uns que tinham alguns privilégios – que ocupavam os melhores lugares da casa – e, outros que eram deslocados para as áreas mais insalubres do lugar. Não compreendia se tratar de modos de que aquela gente se valia para lidar com a condição a que estava sujeita ou, quiçá, de se ajustar à  posição em que se encontrava, que, lhes parecia, talvez se possa dizer, ser melhor do que a do outro que se lhe encontrava colocado logo abaixo. E, saliente-se, conforme se pôde perceber nas quadras acima transcritas de memória – ressalte-se -, o elemento negro sempre é estabelecido nos degraus mais baixos e degradantes do existir humano, nas situações mais vexatórias em relação aos demais rejeitados sociais e, que não sem uma boa dose de contradição, se imaginam melhores, acreditando-se situar acima daqueles na hierarquia social vigente, sem atinar que, no fim e ao cabo, todos eles estão sujeitos à mesma tirania exercida pela opressão que os possuidores dos meios de produção, faz recair sobre aqueles que nada mais possuem, senão a sua força de trabalho.

 

Alagoinhas, 10 de agosto de 2025 – inverno brasileiro.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com–––– 

domingo, 3 de agosto de 2025

As Linhas e as Entrelinhas – IX

 

– Obras e autores parte VII.

 

Este é mais um arrazoado a partir do qual se pretende analisar o percurso de José Mário nas lides do seu processo formativo, considerando as incursões que ele fizera na produção literária que lhe caíra nas mãos, no lapso de tempo que medeia o seu caminhar pela vida, pela escola e pelas ruas da sua cidade onde permutava algumas ideias com uns poucos amigos que possuíra e cultivara,  em todo o transcurso das décadas de 1970 e 1980. Por aquela ocasião, ele estava em processo de construção do seu modo de perceber e pensar a realidade que o rodeava e, por conseguinte, elaborava a sua leitura de mundo, tanto o material quanto o imaterial, com o qual era instado a interagir, como parte do esforço para compreender o cotidiano que dele se acercava, procurando absorver os pontos e os contrapontos que lhe eram diuturnamente apresentados ao espírito. Não obstante o tempo transcorrido desde então, as camadas de memória já superpostas e, principalmente, as experiências vividas que resultaram no acúmulo ainda maior de camadas, fazendo ainda mais difícil a identificação de qual delas estaria sendo escavada, o rememorar deste escrevedor impertinente, talvez seja útil para a compreensão do vivido pelo protagonista que tem tido o fio do seu viver puxado pelo Teseu que navega nos labirintos propiciados pelas entradas cada vez mais profundas em seu emaranhado de reentrâncias no extenso espaço da memória.

Não é sem razoável grau de acerto que Pierre Nora (1931-2025), procura elencar um conjunto de “lugares de memória”, a partir dos quais são desencadeados lembrares diversos àqueles que por eles passam – temporária ou frequentemente (cemitérios, antigas construções emblemáticas, igrejas onde antes congregara, clubes e outros espaços de sociabilidades que antes frequentara), também os livros e outros impressos que alguém acabara por reler – que, quase invariavelmente, levam a um “reencontrar” de lembranças de um tempo há muito já pretérito, que ressurge com impressionante nitidez naqueles que alguma vez retorna ao seu “lugar de memória”, deixando profunda impressão naquele espírito, que julgava já completamente apagadas aquelas sensações trazidas à tona, mediante o contato com os “lugares de memória”, os quais voltara a visitar de maneira voluntária ou, ainda que involuntariamente. É por isto que Nora diz que “[...]A memória é a vida, sempre carregada por grupos vivos e, nesse  sentido, ela está em permanente evolução, aberta à dialética da lembrança e do  esquecimento, inconsciente de suas deformações sucessivas, vulnerável a todos os  usos e manipulações, susceptível de longas latências e de repentinas revitalizações. [...]”. (NORA, 2010, p. 8).

É assim que, tomando na devida conta as reflexões que se vem fazendo sobre José Mário em sua voracidade de leitor e, apontando para as suas dificuldades em compreender com um pouco mais de profundidade aquilo a que se dispusera a ler, insere-se aqui uma correta ponderação feita por um leitor, quando ele assevera que leitura e compreensão de um texto literário, requer maturidade, seja do ponto de vista cronológico, seja do ponto de vista intelectual, acrescenta este escrevedor, embora, creia ele, o tal acréscimo estivesse implícito na ponderação feita pelo atento e arguto leitor. No caso específico de Zé Mário, talvez, lhe faltasse as duas modalidades de maturidade, uma vez que, ele, em grande parte dos casos, se mantinha nadando em rios cujas águas mal lhe cobriam os pés. É verdade que faltava a ele, um grande número de informações sobre a obra que lia, sobre o autor que a compusera, sobre o tempo em que fora escrita, sobre o contexto social, econômico e cultural que propiciou a sua circulação, divulgação e aceitação – ou não – daquilo que nela se procurava descrever, contestar, reforçar, refutar, enfim, a quem ela era dirigida e porque fora tornada pública. No entanto, Zé Mário não era capaz, sequer, de levantar algum senão, que indicasse uma leitura compreensiva e, pior, uma postura reflexiva sobre o que lera. Seria quase um passar de páginas maquinal, apenas para chegar ao fim e concluir triunfante: acabei de ler tal, ou qual obra. É certo que tal postura ainda prevalece nos dias hodiernos, a despeito do grande volume de informações, disponíveis para consulta na rede mundial de computadores. Mas, também, já houve tempos que tais bancos de dados não existiam – ou pelo menos que fossem alcançáveis em minutos, mediante alguns cliques ou toques em telas –, que permitisse ao leitor aceder a meandros que estivessem ativos no momento da escrita de alguma obra. Ainda assim, grandes reflexões foram desenvolvidas, alentados debates foramdesencadeados e tornados públicos por meio de jornais e/ou revistas especializadas, em alguns casos, levando autores a rever a sua prosa, como parece ter sucedido a Herberto Sales (1917-1999), autor de “Cascalho”, que teria alterado bastante o seu prosear, entre a primeira edição publicada em 1944 e a que ele classificou como definitiva, publicada  em 1955, - implementando algumas alterações no curso da trama, talvez, quiçá, mediante pressão de alguns elementos nela envolvidos, suprimindo algumas passagens que colocassem em risco a sua integridade física, visto alguns poderosos da região terem se reconhecido em personagens do enredo ficcional produzido pelo futuro imortal da Academia Brasileira de Letras, saído dos torrões de Andaraí, na Bahia.

É assim que, aqui se pretende trazer mais três obras que José Mário lera, a partir do seu próprio interesse e escolha, sempre tendo em vista a sua necessidade de se assenhorar dos livros que gratuita e livremente eram colocados ao seu dispor e de quem mais tivesse interesse em os ter e os ler. A primeira delas é “A Moreninha”, de Joaquim Manuel de Macêdo (1820-1882), obra publicada em 1844 e, que ele julgara ter entendido perfeitamente, pois o enredo romanesco e previsível estivera dentro das suas expectativas, visto que apresentava um caminhar com poucas tropelias e se encaminhava para o assim chamado “final feliz”, como ele esperava e pelo que torcia. Nada compreendia, evidentemente e como nas obras até aqui comentadas, daquilo que levara o autor a conduzir a trama na direção que o fizera, adotando os passos que escolhera para o encaminhamento do romance. Pouco compreendia dos meandros culturais e psicossociais inerentes ao século XIX em que fora ambientado, ignorando por completo os usos e os costumes que marcavam o seu desenrolar, sequer conseguindo separar as distintas realidades: aquela que presidia a obra e aquela outra que presidia o tempo que a estava lendo. Ainda assim, considerou que em algum momento do seu viver, circunstâncias e/ou situações trazidas para o desenrolar da trama e, que lhe marcara o espírito, ainda há pouco mergulhado na adolescência – uma adolescência tardia, saliente-se, de passagem – pudessem vir a se fazer real em seu favor. Isto é: ele de fato não conseguia separar a realidade romantizada e tornada pública por meio de um livro que atravessara o século que lhe dera origem, de uma representação ficcional daquela que passara sob os seus dedos ágeis. Por vezes, ele acreditava que na verdade, o enredo era uma  descrição de uma realidade de fato vivida – do mesmo modo como entendera no caso de “O Tronco do Ipê, de José de Alencar, já mencionado há alguns dias neste mesmo espaço.

A segunda das obras aqui trazidas para comentar acerca das dificuldades de compreensão das “entrelinhas”, por parte de José Mário, a despeito de suas incursões na produção literária que lhe era disponibilizada em Braille – embora já existisse, nunca se interessara pelo livro gravado - é, “A Escrava Isaura”, de Bernardo Guimarães (1815-1884), publicada em 1875 – portanto, no auge da campanha abolicionista encabeçada por diversos intelectuais da época, que ganhara força logo depois da Guerra do Paraguai ou da Tríplice Aliança, 1864-1870 -, que retratara em suas páginas uma crudelíssima realidade vivida por tantos escravos brasileiros – e assim ele entendeu adequadamente a obra – mas, que ele não conhecia, sequer um tantinho dela. A história que ele conhecia fora lhe ensinada no primeiro grau – que ainda cursava quando leu a obra em causa –, que nada falava a respeito da escravidão imposta a africanos trazidos  para o Brasil em navios “Tumbeiros” – tão ricamente descrito pelo lirismo de Antônio Frederico de Castro Alves (1847-1871) – ou, sobre aqueles aqui nascidos e que formavam o grupo de indivíduos que com seus corpos e força de trabalho, propiciava o desenvolvimento e o enriquecimento do Brasil, passando longe de falar dos maus tratos, da servidão a força de chicote e privação da liberdade; de forma discreta e quase despercebida, falava de escravidão por nascimento; mas, falava também e com muito entusiasmo, de que eles eram os responsáveis – sem que indicasse a que custo – pela movimentação da produção e da comercialização de inúmeros produtos que faziam a “riqueza” da nação.

Destarte, é a partir da leitura daquela obra que lhe ferira profundamente a sensibilidade, que ele tomara conhecimento da crueza do regime... Opa, calma aí!: da crueza, da torpeza,  ou do autoritarismo de um senhor de engenho – ou seja, Zé Mário não sabia ser comum atitudes como as de Leôncio - que queria a todo o custo possuir sexualmente uma de suas escravas, daquelas dentre as que serviam na “casa grande”, nascida da conjunção de um homem branco com uma mulher negra, razão pela qual lhe foi imputada a condição de escrava. Para ele, não era o regime que se apresentava em sua forma de ser e de existir; mas, entendera da leitura, que se tratava de um sujeito isolado que prevalecendo da condição de “senhor”, “proprietário” daquela escrava, pretendia possuí-la para desfrutar do seu sexo, no frescor dos seus anos. Da mesma maneira que não entendera o sucedido ao “Pai Tomás” como sendo inerente ao regime a que ele estava submetido, José Mário também não conseguira associar as agruras sofridas pela escrava Isaura – assim como fora vivida por outras escravas em inúmeras propriedades isoladas nos longínquos grotões do País -, como sendo um elemento constitutivo do modo escravista de trabalho, vigente nas plagas brasílicas. Para ele, se tratava de mais um romance, uma criação literária, não atinava ser lugar comum aquele tipo de circunstância vivida pelos que eram submetidos ao regime de escravidão, que vigorara por todo o tempo de existência do Brasil colonial e do Brasil imperial, marcadamente nos ciclos econômicos sob os quais o país foi moldado. Aquele leitor não sabia, por exemplo, que a escravidão negra não foi a única praticada no Brasil colonial e imperial. Não sabia que o trabalho compulsório também foi imposto aos povos nativos, em lugares onde a escravidão negra não era comercialmente rentável para quem a traficava; nem valia a pena bancar o seu custo em áreas que a produção não fosse destinada ao comércio em grande escala.

A terceira das três publicações que José Mário teve sob os seus dedos para uma leitura que fora feita com bastante atenção e interesse foi “O Cabeleira”, de Franklin Távora (1842-1888), publicada em 1876. Marcada por tramas envolvendo mortes e sangue, mostrou um cenário repleto de descrições cruas dos crimes perpetrados pelo protagonista, cuja leitura não fez Zé Mário reconhecer uma mudança no perfil dos livros até então lidos por ele, se apresentando ao seu espírito como uma obra que ele simplesmente não encontrara razão para a sua leitura, malgrado o entusiasmo que lhe despertara o título do tratado. Era lhe difícil suspeitar se tratar de obra que talvez pudesse ser classificada como regionalista ou, uma espécie de antecipação de uma literatura sobre o cangaço que surgira no nordeste brasileiro – embora pudesse ser encontrado em outras regiões do país, sob outras denominações. Ele nada absorvera do conteúdo apresentado ao longo daquelas páginas, não ficando sequer o registro na memória de um caminhar minimamente lógico da narrativa. Não ficou nenhum nome de personagens que fosse, apesar de ter ele lido toda a obra. Para aquele leitor voraz e com baixíssimo senso crítico, não fazia o menor sentido não haver em um “romance” um trecho que fosse que conduzisse a um descrever de amores e, claro, com um “final feliz”. Talvez até tenha havido, uma conversão de um assassino cruel, por meio de um amor de alguma jovem mulher encantadora, doce e meiga que quebraria os rancores e as asperezas acumulados; que amansaria um homem endurecido pelos muitos crimes e pelas muitas vinganças aplicadas aos seus inimigos. Se perguntado, ele sequer arriscaria dizer se houve este esperado abrandamento “do coração” daquele homem rude, acre e de sentimento petrificado, pois, ele sequer se lembra de uma única passagem daquilo que lera em “O Cabeleira”.

 

Alagoinhas, inverno brasileiro – 02 de agosto de 2025

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 27 de julho de 2025

As Linhas e as Entrelinhas – VIII

– Obras e autores parte VI.

 

A ideia – ou necessidade – de refletir aqui sobre obras e autores que passaram pelos dedos de José Mário durante o seu processo de escolarização e/ou de formação da sua percepção de mundo, repousa em uma questão que sempre esteve rondando o seu cérebro, na medida em que o tempo passava e se construía o seu pensamento, nem sempre crítico, embora um tanto questionador, no que respeita ao entendimento que alcançava das leituras feitas – embora nem sempre tenha sido aquele o intento ao fazê-las -, reflexões sempre desenvolvidas a partir de um rememorar de momentos vividos ou de eventos pelos quais passou ou deles teve notícia. Este rememorar, como se vem insistindo aqui, é feito a partir de escolhas de quem rememora, mediante o escavar de camadas de memórias, algumas vezes bem profundas, espessas e cobertas pelo passar do tempo, quase sempre evocadas por quem lembra e ,trazidas à superfície, quando se dá, por fim, a escolha daquilo que se vai tornar público, o que se vai silenciar ou apagar, uma decisão, insista-se, sempre uma decisão daquele que lembra.

No arrazoado passado, se discorreu sobre algumas obras cujas leituras foram impostas aos estudantes, ao longo do nível 2 do então primeiro grau, por meio das quais, em geral, se esperava deles, apenas a compreensão do que fora lido, sob o ponto de vista da gramática normativa – ou na melhor das hipóteses, dependendo da professora que faria a avaliação, alguns elementos inerentes ao processo redacional -, pouco ou nada sendo cobrado do aprendiz, alguma noção daquilo que viesse a ser percebido nas entrelinhas da obra que acabara de ler; daquilo que eventualmente houvesse de subliminar nos textos recentemente percorrido por eles. No que respeita àquele aluno em causa, apesar de já contar com uma idade superior aos demais alunos que com ele cursara as quatro últimas séries do primeiro grau, não os conseguira ultrapassar o nível de compreensão do que liam, fazendo valer o que o maior passar dos anos lhe deveria conferir. Ou seja: a sua maturidade não era maior do que a dos seus colegas que contavam três, quatro ou mais anos a menos que ele. Não obstante ter ele lido bem mais páginas do que os seus colegas de série, não os conseguia ultrapassar no acúmulo de conhecimento que lhe permitisse melhor compreensão das linhas e, sobretudo, das entrelinhas das obras que leram com o mesmo objetivo: desenvolver as tarefas escolares.

Dentre as obras que José Mário lera, para além das tarefas escolares, ao menos três poderiam aqui ser citadas, para que o leitor tenha um melhor juízo daquilo que se vem apontando ao longo destes arrazoares. O gaúcho Érico Veríssimo (1905-1975) comparece com duas delas, aliás, as duas únicas daquele autor brasileiro que fora lida pelo aluno baiano de Alagoinhas. A primeira que aqui se quer comentar é “Olhai os Lírios no Campo, publicada em 1938, caiu nas mãos de José Mário aproximadamente quarenta anos após aquela data. Como sempre, por meio da então Fundação para o Livro do Cego no Brasil, ele recebera em Braille, em três ou quatro volumes e, do mesmo modo como as demais, devorou-a, de capa a capa, sem, porém, ultrapassar a superfície das linhas que passaram sob os seus dedos. Da mesma maneira como se deu com outras obras que devorara, pouco ou nada ficou de entendimento, a não ser algumas expressões como aquelas que Eugênio tivera de ouvir dos moleques de sua idade “Calça furada”, dando a entender ao leitor que, embora Eugênio fosse um menino filho de alfaiate, aquele não conseguira “consertar” as calças do filho, evitando que passasse por aquele constrangimento diante dos colegas de folguedos e travessuras, infantis e juvenis. O que, aliás, não ocorria com José Mário, cuja genitora era lavadeira de ganho e, que fazia todo esforço para que o seu filho estivesse sempre com a roupa limpa e perfumada com patchouli, planta que sempre cultivara no quintal para tal fim. E, em laivos de alguma possiblidade de pensamento crítico, ele acabava por se perguntar, qual teria sido o motivo de Eugênio não ter as calças consertadas pelo seu pai, sem, no entanto, a questão se demorar muito no seu cérebro e, menos ainda, tentar encontrar alguma resposta, provisória ou precária que fosse.

A segunda das obras de Érico Veríssimo que José Mário lera com avidez e grande interesse foi “O Senhor Embaixador”, publicada em 1959, cuja leitura lhe fora sugerida e induzida por dois de seus colegas, Carlos Caldeira, seu coetâneo, além de ser seu contemporâneo no processo de escolarização e Genésio Silva, seis anos mais velho do que os dois e, já fora do contexto escolar, com os quais disputara não só o tempo dispendido para a leitura completa daquelas mais de quatrocentas páginas ( considerando o exemplar em tinta), mas, algumas possibilidades de entendimento que viessem a ter daquela obra, transcrita em Braille e, em seis alentados volumes. Por mais que os três se tivessem esforçado no sentido de percorrer aquelas linhas, de tentar se apropriar daquele texto profundo e denso, pouco conseguiram compreender além da superfície  da proposta do escritor, uma vez que, no caso específico de José Mário, apenas depois de passados alguns anos e de adquirida alguma experiência de vida e de leituras outras, ele percebeu alguns elementos da obra que não estavam disponíveis ao nível do entendimento que tivera de sua leitura à época aqui relatada. A História de uma república imaginada pelo autor em algum lugar do Caribe, para aqueles leitores, além de acreditarem não passar de uma mera ficção ricamente desenvolvida pelo autor, aqueles leitores superficiais não compreenderam nem as entrelinhas nem os contextos que envolveram os desenvolvimentos das tramas encontradas no romance, razão pela qual, eles deram importância apenas ao pitoresco, animalesco e anedótico que encontraram e, que chamaram a atenção, como a última frase da obra, pronunciada pelo protagonista Gabriel Heliodoro – o então embaixador da “República do Sacramento” em Whashington -, ao ser colocado no paredão para o fuzilamento, por ter sido o representante da ditadura derrubada pela oposição “Lego mis Cojones al museu...”.

A terceira das obras que se escolheu para apensar um comentário neste arrazoado, é “E a Porteira Bateu”, escrita por Francisco Marins (1922-2016)e publicada em 1963. A sua leitura foi uma sugestão , para melhor dizer, uma indução feita por Eraldo Galvão, um pouco mais velho do que José Mário, apesar de estar transitando pelo mesmo processo de formação escolar, fazendo-lhe crer que a obra era imprópria para a sua idade (15 anos) à época e ele, o “sensor”, pasme-se: contava dezesseis. Mesmo tendo insistido e argumentado que entre eles quase não havia diferença no contar dos anos, isto é, ambos eram menores e, portanto, fosse aquela a razão de um não poder ler a dita obra, o outro, igualmente e pelo mesmo motivo, não o poderia.

Diante do fato de não haver aquela obra na biblioteca do internato onde ambos moravam e, ela só constar no setor Braille da biblioteca Central do Estado, José Mário driblou a “Censura” do seu coetâneo e a sua pouca disposição de fazê-la chegar às suas mãos, solicitando-a à Fundação para o Livro do Cego no Brasil, de quem recebeu algumas semanas depois mas, só veio a ler, quando voltara para a sua casa nas férias, não tendo atinado a razão do seu colega assegurar ser leitura imprópria à idade.

No entanto, insiste-se em salientar que, malgrado ter percorrido todas as suas páginas, procurando digerir cada uma das linhas com avidez, nada aprofundou do seu conteúdo textual, que viesse a provocar uma reflexão acerca daquele conteúdo. A primeira das suas preocupações, fora a de identificar a razoabilidade de ser aquela leitura imprópria a um rapaz ainda na metade da sua adolescência, uma vez que o tema ali exposto não continha qualquer ideia ou forma de pensar que já não conhecesse, ao menos, superficialmente. Talvez, aquilo tenha dificultado àquele leitor, realizar um mergulho mais profundo e, sobretudo, profícuo naquelas páginas, com o fito de tirar delas algumas noções que embasassem a construção de um pensamento crítico a respeito de algumas situações abordadas pelo autor. Pelo fato da leitura ter sido feita sem os elementos que lhe permitissem um melhor aproveitamento da proposta do autor – sequer ele sabia qual era –, acabou por ficar só na superfície, como se deu nas demais obras, restando alguns de seus fragmentos no rememorar do leitor, como por exemplo, o nome de um dos protagonistas – Adão Pungá – morto em confronto com nativos, com posseiros, ou alguma coisa do tipo; bem como a tentativa por quatro vezes frustrada de um outro personagem – talvez o principal – em ter um filho homem para fazer o seu herdeiro e, ao conseguir tal intento, depois de simpatias e rezas muitas, acabou lhe nascendo um menino frágil de saúde e corpo, tendo ele de se contentar com as três ou quatro filhas até ali geradas, arriscando a divisão do seu vasto patrimônio, o que muito afligia o seu espírito. Pronto. Acaba neste ponto a compreensão de José Mário daquela leitura.

 

Alagoinhas 27 de julho de 2025.


Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com

  

domingo, 20 de julho de 2025

As Linhas e as Entrelinhas – VII

 

– Obras e autores parte V.

 

O conjunto de arrazoados que se vem desenvolvendo há já algum par de meses neste espaço virtual, chega em sua sétima postagem, sempre contando com a paciência daqueles que se tem dignado a ler as considerações que aqui vem sendo feitas. Dito isto, antes de continuar a discorrer sobre as dificuldades enfrentadas por José Mário em compreender o que lera no tempo em que se dava o seu processo formativo, volta-se a postular algumas premissas concernentes à memória, reforçando a proposição que indica haver um processo de escolha feita por quem lembra, acerca do que lembra e, sobretudo, daquilo que, uma vez lembrado, é verbalizado, silenciado ou apagado. Conforme assevera Ecléa Bosi (1936-2017), ainda nas páginas introdutórias de sua já clássica “Memória e Sociedade: lembranças de velhos” – largamente utilizada por este escrevedor –, “A memória é um cabedal infinito do qual só registramos um fragmento. [...]. Lembrança puxa lembrança e seria preciso  um escutador infinito” BOSI, 1994, P. 39). Mais adiante, ao discorrer sobre os diversos teóricos da memória que dão lastro aos pressupostos com os quais ela lida por todo o seu corolário de argumentos, Bosi propõe o enunciado que este garatujador considera a pedra de toque com a qual se deve lidar, ao tratar de produzir estudos ou realizar pesquisas, tendo a “memória” – individual ou social/coletiva - como campo para a  reflexão histórica. Disse ela que, “Uma lembrança é diamante bruto que precisa ser lapidado pelo espírito. Sem  o trabalho da reflexão e da localização, seria uma imagem fugidia. O  sentimento também precisa acompanhá-la para que ela não seja uma  repetição do estado antigo, mas uma reaparição. (BOSI, 1994, P. 81).

É assim que, conforme relata no último capítulo da obra, ao retornar dos espaços onde ela realizara as entrevistas, Bosi propõe a si mesma, algumas reflexões, enquanto se encaminha para a sua residência ou mesmo, para talvez, realizar uma segunda entrevista do dia, observando os espaços por onde transita, procurando no seu próprio rememorar, os elementos que tragam à sua lembrança, vestígios do lugar por onde passara a caminho da escola – quando jovem – ou, quando ainda criança, levada pelas talvez já trêmulas mãos do seu avô. Daqueles cismares carregados de tempos pretéritos, aquela então pesquisadora acaba por concluir que:

 

“[...]. Para localizar uma lembrança não  basta um fio de Ariadne; é preciso desenrolar fios de meadas diversas,  pois ela é um ponto de encontro de vários caminhos, é um ponto complexo de convergência dos muitos planos do nosso passado. Como  transmitiríamos a nossos filhos o que foi a outra cidade, soterrada embaixo da atual, se não existem mais as velhas casas, as árvores, os muros e os rios de outrora?” (BOSI, 1994, p. 413).

 

Neste sentido, se pretende que este “desenrolar de fios de meadas” propugnada na passagem acima transcrita, seja um pouco a que se propõe este escrevente, ao rebuscar nos seus relembrares, um conjunto de fragmentos que tem procurado encaixar nestes garatujares. Com um tal desenrolar, pode ser que se consiga apreender algumas das muitas nuances que envolvem o lembrar e, principalmente, ao se trazer o lembrar para a formulação de algumas reflexões que ajudem na construção de alguns postulados que permitam compreender o trabalho desenvolvido pela memória, tanto no que respeita ao indivíduo de per si – que conforme Halbwach “é quem lembra” –, quanto no que tange à sociedade.

Portanto, retomando uma parte do caminhar de José Mário em seu esforço para se ajustar à necessidade de se fazer adequar aos parâmetros sociais de escolarização, de aquisição de cultura e de incorporação de hábitos que indicassem algum nível de civilidade, aqui se pretende evocar a obrigação de que se fizessem leituras que lhe foram dadas como tarefa obrigatória – tanto quanto aos demais estudantes, saliente-se – durante o transcurso do seu processo escolar. Embora ele tenha cursado três vezes a sétima série, conforme já se apontou em postagens anteriores, em todas elas tendo havido obras a serem lidas, somente três delas permaneceram na sua lembrança, apesar de, somente os seus títulos, pois, exceto uma, todas as demais lhe foram impostas pela autoridade escolar: a professora de Português ou, para os que preferem, de Comunicação e Expressão.

A primeira das obras aludidas, lida na quinta série iniciada em Alagoinhas, mas integralizada em Salvador, no Complexo Escolar Carneiro Ribeiro Filho, em 1975, foi “A Ilha Perdida”, de Maria José Dupré (1898-1984), que, conforme já se salientou, apenas o título permaneceu na lembrança daquele aluno que se esforçava por cumprir os deveres estudantis, sem no entanto, atinar para a razão daquela leitura, daquela obra e, menos ainda, sem a compreensão do que traria para o seu desenvolvimento escolar e pessoal, uma leitura descontextualizada da sua realidade social, econômica, cultural e, ainda, qual a relação que teria que estabelecer entre os personagens e as suas peripécias, com o viver do leitor em seus limites sensoriais. Além disto, inquiria ele, se haveria alguma  possibilidade de trazer para si e para o seu dia a dia, algum resultado prático daqueles enredos. Cria que não; ao menos, não lhe fora indicado que o houvesse. Aquele leitor compulsório, sequer sabia que se tratava de obra voltada para o público infanto-juvenil, exceto, o conjunto dos seus personagens. Uma outra leitura de uma obra da mesma autora “Éramos Seis”, fora igualmente imposta àquele aluno, em um tempo e em uma série que ele não saberia precisar – talvez, aquela leitura tenha sido feita na sexta série, cursada em parte no Instituto Central Isaías Alves (ICEIA) em Salvador ou, já no Centro Integrado Luís Navarro de Brito, em Alagoinhas, no ano de 1976 –, com o mesmo resultado da primeira, continuando a não compreender o porquê de sua leitura e da obrigatoriedade de a fazer. Não lhe fora dado conhecer o contexto em que a obra fora escrita – se o foi dado, lhe escapou à memória e, sobretudo, à compreensão –, o que talvez o ajudasse a melhor entender o que lia mas, principalmente, por que e para que lia. Isto é: fora uma leitura feita para cumprir a obrigatoriedade escolar e realizar a tarefa que teria uma nota a ser atribuída, que lhe ajudaria a compor a média por meio da qual poderia vir a ser aprovado.

A segunda das obras que lera por obrigação escolar, que lhe fora apresentada no formato de livro gravado -, talvez tenha sido aquele que tomara contato pela primeira vez naquela modalidade (cuja voz de leitura, este autor não lembra com precisão se foi a da professora Ailma ou da também professora Zilma)– foi  escrita por Maurice Druon (1918-2009), cujo contato se deu na última das sétimas séries, aquela que fora cursada até o fim e que se lograra passar adiante no processo de escolarização. Ali, o estudante em questão, já entrara no ano XX do seu existir; o livro que constava no conjunto das leituras obrigatórias para a sétima série, ainda que aquela turma fosse composta por gente que já contava mais de quinze ou dezesseis anos, seria uma obra infanto-juvenil, “O Menino do Dedo Verde”. Dela, ainda restam alguns fragmentos do seu enredo, sobretudo, aquela ideia de que Tistu, seria um “anjo” e, como tal, conseguira transformar em flores os projéteis que seriam usados em um conflito iminente e,que fora evitado, por conta daquela inesperada transformação. Mas, onde estaria o contexto daqueles escritos? Qual a razão para os ler, quais as lições a se tirar de tal leitura e, claro: para que fazer tal leitura, a não ser para se incutir os elementos gramaticais e redacionais de sua composição? Tais perguntas, evidentemente, ficariam sem respostas, exceto, talvez, a última, uma vez que os alunos foram inquiridos pela excelentíssima senhora professora, sobre tais propósitos. No entanto, nada de entrelinhas, subjacências ou intertextos que ali pudessem existir, que poderiam ser apontados e, claro, instigar um aprofundamento naquele conteúdo, por parte daqueles alunos.

Por fim, para o que se tem proposto discorrer neste rememorar de tempos idos, a terceira e última obra que se leu por conta da obrigatoriedade de se percorrer as páginas de um arrazoado literário para fins didáticos e escolares foi “Clarissa”, tendo sido a única produção literária que não foi imposta a José Mário mas, sim, escolhida em comum acordo com a professora Edna Garcia Batista (1945-2017), com quem ele cursara a oitava série e, saliente-se, de quem se tornou um pouco mais do que um aluno, pois acabou por construir uma amizade que se desenvolveu para além dos muros escolares. Trata-se de uma das diversas obras escritas por Érico Veríssimo (1905-1975), que aquele aluno lera em Braille, um pouco antes de a eleger – e também por isto – para que por meio dela, a sua professora o pudesse avaliar, exigindo dele apenas o fazer uma segunda leitura, desta vez, percorrendo aquelas páginas, na tentativa de “adivinhar”, por assim dizer, o que aquela professora poderia vir a perguntar.

Saliente-se que, em tal tipo de avaliação, prevalecia o caráter de aferição de aprendizado, apoiado no processo de memorização, o que os alunos chamavam de “decorar”. Portanto, como nos demais processos já comentados, nada de informar a existência de contextualização; nada de incentivar a compreensão do desenvolvimento da trama; nada de propor uma reflexão em torno do seu conteúdo, no que respeita à possibilidade de uma aplicação prática daquilo que eventualmente fora aprendido e ou apreendido. Aquela professora em especial, focou o seu propósito avaliativo no que dizia respeito à compreensão do texto e, eventualmente, instou o avaliado a perceber algumas variações linguísticas, apontando para a presença de alguns modos de falar de personagens bem destacados, como por exemplo, um dentre eles que, naturalmente incorporara ao seu falar, a expressão “j’ouviu?”.

 

20 de julho de 2025 – inverno brasileiro – Alagoinhas, Bahia.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 13 de julho de 2025

As Linhas e as Entrelinhas VI

 

 

– Obras e autores parte IV.

 

Conforme já é cediço e, tem sido enfatizado nestes garatujares, o processo de rememoração se dá, em geral, a partir de escolhas feitas por quem se dispõe a lembrar; também, se dá a partir de elementos materiais que podem ser acessados através dos sentidos – como por exemplo, alguém que vê u prédio antigo e ele associa a algum momento do seu viver, como o seu trajeto para a escola, ou para a casa de amigos, avós;; outro que sente o cheiro de um perfume há muito não aspirado e, lembra do primeiro encontro com alguém que lhe inspirara o primeiro sentimento de afeto; um terceiro que toca com os seus dedos em um veículo antigo, seu conhecido, no qual esbarra enquanto percorre uma calçada, acontecendo de lembrar, quiçá, de alguém que tivera um daqueles e ele o soubera ou conhecera; ainda um quarto que degusta algum alimento, caso emblemático de Marcel Proust (1871-1922), que acaba por trazer à tona lembranças de infância, há muito recobertas por espessas camadas de tempo –, bem como a tarefa de lembrar é possibilitada pelo mergulho do rememorador no tempo, em busca de escavar as camadas já superpostas e, delas, extrair momentos, fatos ou experiências que, por certo, não viriam a ser despertados por meio de ações sensoriais materializáveis. Para este último tipo de exercício do lembrar, se faz necessário recorrer à “memória coletiva”, muitas vezes,  encontrável em uma conversa com pessoas da mesma idade do interlocutor ou, com alguém alguns anos mais acumulados em relação aos primeiros, uma audição de rádio, uma leitura de periódico ou livro antigos, fazendo com que aqueles lembrares saltem dos seus refúgios e se apresentem a quem lembra, que por sua vez, torna perceptível por meio de um texto escrito ou uma mensagem de áudio, por exemplo.

Há já alguns arrazoados, este escrevedor vem procurando discorrer sobre o processo que envolve a leitura que, em geral – ou pelo menos se espera –, consiste no contato, na apreensão e, principalmente, na compreensão daquilo que se tenha lido, o que pode significar – ou não – o pleno êxito do autor em passar a sua mensagem. No entanto, como diriam os mestres da língua, para se dar a compreensão da comunicação textual, faz-se necessário haver uma adequada decodificação do pensamento que foi exposto por meio do texto em questão – que pode ser escrito ou verbalizado -, por aquele que a recebera. Em grande parte das vezes, a adequada decodificação da mensagem apreendida, requer uma leitura que seja feita para além das linhas que se apresentam na superfície do suporte no qual a mensagem esteja inserida. Trata-se daquilo que se tem denominado “entrelinhas”, portanto, aquilo que estaria nos elementos não encontráveis diretamente no texto lido; aquilo que se encontra nos contextos que envolvem o texto em causa, que, grande parte das vezes, seria o resultado “resumido” dos contextos que o produzira. Seria os “por quês” daquele texto; as tensões que envolveram a sua escrita; as condições sociais e culturais que propiciaram a sua construção e, sobretudo, os meios que permitiram a sua difusão.

É assim que se volta a José Mário, na altura em que contava entre quinze e dezessete anos, momento em que tivera acesso a um grande número de obras literárias e que as devorara quase insaciavelmente, mas, que não as compreendera adequadamente. Para este arrazoado, à guisa de exemplo do que se foi afirmado, aqui serão abordadas três dentre as obras de José de Alencar (1829-1877) que lhe passaram pelas mãos e foram percorridas inteiramente pelos seus dedos. Chegadas à si por intermédio da Fundação para o Livro do Cego no Brasil, mediante sua solicitação, elas foram lidas com grande atenção e interesse; até se procurou refletir sobre o texto em si; as leituras foram feitas sem pressões externas de obrigação escolar; foram feitas nos momentos de silêncio e de temperatura ambiente, sem extremos de calor ou frio. No entanto, lhe faltavam ferramentas outras que, talvez, lhe pudessem auxiliar no intuito de promover a compreensão adequada de cada uma daquelas obras, inclusive, do seu contexto, embora ele soubesse que elas foram escritas em um outro tempo e em um outro lugar. Por outro lado, desconhecia que elas foram escritas em uma outra conjuntura – sequer sabia da sua existência como elemento de análise – nem mesmo que foram ambientadas em uma outra estrutura social – igualmente, sua desconhecida, como elemento que lhe pudesse fornecer alguma compreensão da proposta do autor.

A primeira das obras de José de Alencar que aqui se quer abordar, no sentido da dificuldade de sua compreensão por parte daquele leitor, é “Senhora de 1975, apresentada na ordem que foi lida por José Mário e, não necessariamente, na ordem de sua publicação, uma vez que ele não possuía o conhecimento dos parâmetros de uma leitura que levasse em conta o momento e o motivo do surgimento de cada obra e, como já se salientou em arrazoados anteriores, ele não possuía as noções básicas de quem era o autor – exceto o seu nome, logicamente –, a qual escola pertencia, qual o seu pertencimento social ou político ou, onde ele moldara o seu modo de pensar – este ponto, longe das cogitações daquele leitor. Para ele, o que estava em conta, no que respeita à sua compreensão de leitura, era o caminhar da narrativa, o seu desenvolvimento, o mais linear possível e, sobretudo, o final por ele esperado: o casamento, mas, fundamentado naquilo que ele entendia ser o “amor” e não, uma negociação financeira, onde os interesses “afetivos” não eram levados na devida conta. Claro está que, era por estes parâmetros que José Mário compreendia estar entendendo a obra em sua inteireza. No entanto, ele desconhecia que o que forjara aquele enredo que ele dissera não ter apreciado, o que estaria nas entrelinhas daquele desenvolvimento que o autor dera a obra, precisamente, era o contexto social e o caldo cultural que a forjara. Mesmo tendo lido a obra pouco mais de cem anos depois de sua publicação, ele não a compreendera como uma produção literária que demarcava um tempo, um lugar, um modo de pensar, calcado em elementos econômicos, sociais e culturais diferentes daquele em que o desavisado leitor se encontrava.

 O Guarani” de 1857 foi a segunda das obras em que José Mário apresentou grande dificuldade em compreender, sobretudo, as suas entrelinhas e o contexto envolvido em sua criação “. Nela, o texto sobrepujou qualquer tentativa de inferência a respeito do seu contexto, pois, além do leitor sequer atentar para a possibilidade da sua existência, ele foi completamente envolvido pelo desenrolar da obra – que transcrita em Braille rendeu cinco volumes -, reduzindo a sua compreensão aos desfechos dados pelo autor. José Mário se deu por contente pelo fato de Loredano não ter conseguido qualquer dos seus intentos; por Peri ter sido reconhecido como “herói” e por Ceci ter sido salva por ele e, claro, por talvez, ter se tornado sua esposa. Pronto. Acabou a compreensão da obra, evidentemente, uma compreensão parcial e quiçá, destorcida, pelas razões já apontadas acima, agravadas pelo entendimento por parte do leitor, de que se tratava de um “romance” clássico, com começo, meio e fim, presumíveis ou mesmo, desejáveis por quem os lia.

A terceira obra de José de Alencar que José Mário  não conseguira compreender as suas entrelinhas e, saliente-se, aquela não compreensão acabou por se tornar um obstáculo para outras situações por ele vividas nos anos que transcorreram mais à frente, foi “o Tronco do Ipê” de 1881, lida quando ele contava cerca de dezoito ou dezenove anos. Para ele, aquela obra acabou por influenciar o seu modo de pensar, no que respeita à relação afetiva, uma vez que ele compreendera aquelas linhas como sendo, diriam hoje os metodólogos, “uma representação do real” e não, uma construção literária que, necessariamente, não significaria a expressão de uma realidade dada. Aquela “alvíssaras” dada a Mário, por seu retorno à fazenda; a ansiedade que marcara Alice pela chegada do amigo de infância  que, já era encarado naturalmente como seu futuro marido, deu a José Mário a ideia, equivocada, logicamente, que a diferença social – no seu caso, agravada com a diferença sensorial – seria suplantada, em qualquer tempo ou lugar, pelo “amor” que se procurara implantar em Alice, herdeira e dona de tudo, por Mário, desprovido de tudo, mas que trazia na bagagem o bacharelado obtido em Coimbra. Para José Mário, a ascensão social seria o abridor de portas,, mas o “amor”, seria o abridor de todas as portas. Mal sabia o desgraçado leitor que, as coisas não funcionavam bem assim; o tempo e a vida é que acabaram por lhe ensinar esta verdade dura e crua. Não sabia ele que, havia um contexto inserido naquela obra, que, evidentemente, ele não conseguira ler, nas suas entrelinhas.

E, à guisa de conclusão, uma quarta obra de Alencar que aqui poderia ser evocada e, que o leitor em causa sequer conseguira avançar em suas páginas, só vindo a fazê-lo alguns anos depois da primeira tentativa, seria “Til” de 1872. A rudeza como o autor introduz os personagens e a escolha que fizera para entrelaçar os primeiros enredos da obra, acabaram por demonstrar àquele leitor que, a trama não consistiria em mais um daqueles romances novelescos que tanto apreciava, que acabaria por ter casais perfeitamente ajustados entre si, cujos enlaces se dariam ao fim e ao cabo. AS primeiras linhas da obra não lhe deram o entendimento de que assim seria, fazendo com que o leitor superficial recuasse da empreitada. Bem mais tarde, quando fez a leitura completa e, saliente-se, já no formato digital, ele acabara por compreender que a proposta do autor passava longe daquilo que ele cogitara inicialmente, embora, não deixasse de ter alguns enlaces afetivos, porém, com um aporte bem humano, ao colocar um personagem, o que dá título ao livro, pouco usual nas obras escritas naquele contexto de século XIX, em que o “perfeito” era buscado pelos autores e, quiçá, exigido pelos leitores, sobretudo, aqueles tão superficiais quanto o era José Mário.

 

Alagoinhas – 13 de julho de 2025

 

José Jorge Andrade Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com

domingo, 8 de junho de 2025

As Linhas e As Entrelinhas - V.

 

Obras e autores – Parte III.

 

Em mais um arrazoado construído a partir do rememorar deste escrevedor, mais uma tentativa de análise das compreensões e das incompreensões de um leitor voraz, daquilo que estaria nas entrelinhas do que lia, mas, sobretudo, daquilo que perpassava o contexto social e econômico em que estava inserido. Cabe salientar de passagem, que o desenvolvimento destas reflexões, está umbilicalmente relacionada com escavações feitas nas muitas camadas de memória acumuladas e sobrepostas no curso dos anos, mediante esforços para trazer à lume os fragmentos que são extraídos dos sedimentos superpostos na memória individual, entrelaçada a outros fragmentos, desta feita, encontrados em elementos da memória coletiva. O esquecimento e o silenciamento, conforme já se alertou, é uma escolha e uma seleção feita por quem lembra.

Ainda contando com a paciência e benevolência do leitor que tem acompanhado este garatujares, pretende-se trazer aqui mais um exemplo da trajetória de José Mário, no transcurso do seu processo de formação escolar, que, em tese, o ajustaria ao processo de inserção social e na obtenção de sua independência econômica, a partir do seu ingresso no mundo do trabalho. Tendo em visto o atraso em seu processo de escolarização, que acabaria por refletir naquele que resultaria na sua formação enquanto pessoa socialmente apta para interagir com os demais elementos constitutivos da tessitura urdida em seus fios formativos de uma formação econômica e social dada, ele procurara, na medida dos seus limites sensoriais, reduzir as distâncias que se interpunham entre si e os demais componentes do seu grupo etário, por exemplo, ou, quiçá, remover os muitos fossos que se interpunham entre o que ele conhecia e o que ele desconhecia, que viesse a interferir no seu desenvolvimento cognitivo, com o intento de se aproximar um pouco mais daquilo que se esperava de um rapaz comum, que já se aproximava da maioridade.

No entanto, não sabia ele, certamente, que todo o seu esforço para se fazer partícipe daquela composição do todo social, quando muito, resultaria em participar como um elemento marginal no construto daquela tessitura mais ampla da sociedade. Ele não compreendia ainda, ao menos, no seu aspecto mais cru e concreto, que não seria nunca encarado com naturalidade, como um elemento comum do todo social, simples e unicamente pelo seu indisfarçável traço físico: a cegueira. Para além de haver nele outras características que pudessem dificultar a sua interação social; independentemente de ter ele uma origem econômica que lhe dificultava uma acessão, ainda que lateral, no campo da construção de uma carreira que lhe permitisse “subir” para uma camada social mais confortável, o que prevalecia mesmo, produzindo uma dificuldade ainda maior de mudança de vida, era, sem a menor dúvida – embora, repita-se, ele não tivesse qualquer consciência daquilo – o fato de ser ele um cego. Tal elemento constitutivo do seu ser e do seu viver – apesar de não ser o único, fique bem claro  –, lhe impunha limites de difícil transposição, malgrado os seus esforços em busca de desenvolvimento do seu processo de escolarização – ainda que permeado de percalços de toda ordem -, bem como,  de aprimoramento do seu espírito, mediante leituras, audições de rádio, conversas com gente mais culta e desenvolta do que ele.

Isto posto, retome-se alguns dos exemplos que vem sendo dados, no que respeita à sua tentativa de fazer leituras, considerando obras e autores que intentara compreender o conteúdo encontrado nos escritos que lhe passaram pelas mãos. Conforme já foi apontado em arrazoados anteriores, os cegos brasileiros, José Mário entre eles, eram providos de livros em Braille pela então Fundação para o Livro do Cego no Brasil, que lhes enviava obras transcritas, mediante solicitação dos interessados, conforme relação que lhes enviava periodicamente, daquilo que estava disponível em seu setor de distribuição. Muitas vezes, a solicitação era feita a partir do título da obra ou do nome do seu autor, quase sempre, sem se saber do que tratavam ou de quem as escrevia. Daí, acontecer que ao receber as obras solicitadas e iniciar a sua leitura, poderia se dar que o leitor passasse efetivamente a saber do que se tratava, entendendo ou não a proposta do autor.

Nesta perspectiva, se poderia trazer aqui, três exemplos de obras que José Mário solicitou e recebeu e, embora tenha percorrido todas as suas páginas, pouco entendera, nada entendera ou entendera muitíssimo mau o que lera. O primeiro deles foi “Vidas Secas” de Graciliano Ramos (1892-1953). Apesar de a ter lido com grande avidez e interesse, pouco entendera da proposta do autor, nem mesmo da trama desenvolvida por todo o livro. Só muito mais tarde, ao perceber a desenvoltura com que os professores falavam da obra, a maneira como os estudantes a debatiam em conversas com seus pares e, como os críticos literários se reportavam tanto à obra, quanto ao seu autor, é que ficou muitíssimo mais claro o quanto ele não compreendera a proposta narrativa do escritor alagoano. Aliás, sequer ele sabia se tratar  de um autor das Alagoas e, ainda menos, ser a trama ambientada no sertão daquele estado. Ainda mais: sequer sabia o que era “sertão”, senão um lugar distante do alcance da sua percepção, talvez, quando muito, o lugar em que nascera a sua mãe, pois ela sempre fizera menção ao lugar de seu nascimento como sendo o “sertão”, em que ela situava Mundo Novo ou Piritiba – sempre disse ter nascido e se criado em um daqueles dois lugares, sem conseguir precisar seguramente, qual deles – na Bahia, que ele, mais tarde, veio a saber se tratar daquilo que foi denominado “Chapada Diamantina”; mas, para ela, era o sertão; e para ele, ficou sendo o sertão que sabia existir. Não sem razão, José Mário estranhara muito o título de uma obra que também tivera acesso mas, para variar, sem muito êxito na sua compreensão, aquela escrita por Euclides da Cunha (1866-1909): “Os Sertões”. Como assim: haveria mais de um? Existiriam “Sertões”? Mas, não avançara muito nas suas confusas reflexões. De modo que, como sempre, só bem mais tarde é que começara a compreender o que teria levado o autor a explicar a “Guerra de Canudos”, considerando a existência de diversos sertões.

O segundo exemplo das obras solicitadas por José Mário, lidas mas, pouco ou mal compreendidas que aqui se pode trazer à consideração do leitor é “Tenda dos Milagres”, de Jorge Amado (1912-2001). Ali, se estabelecera uma imensa confusão no cérebro do pobre rapaz, ávido por se embrenhar no mundo literário, acreditando que estaria mergulhando na plenitude do conhecimento extraescolar, fazendo incursões em um mundo pouco visitado pela maioria dos seus coetâneos, sobretudo, os colegas da escola pública onde estudava. Ansioso por ler uma obra de tão afamado autor, ao iniciar o percurso pelas páginas daquele livro que recebera poucos dias antes, o que perpassara pelo seu sentimento, fora uma imensa decepção, uma frustração para quem buscava na leitura o rebusco das palavras e uso de termos cultos, o rigor da construção dos diálogos e uma ampliação de vocabulário, quiçá, para um uso futuro. Tal desapontamento do leitor se fez sentir, no que respeita ao uso de uma linguagem por ele considerada chula, que marcava a trama, em toda a sua construção. Entendia aquele desavisado leitor, que um autor com o “cartaz” que possuía Jorge Amado,  não poderia descer tão baixo no uso da língua, sobretudo, se tratando de um escritor de prestígio internacional, segundo sabia, sem no entanto compreender o caráter realista daquela obra, que, ainda no seu entendimento, extrapolava os limites da “decência”, ferido os dedos de um leitor que, conforme já se salientou antes, não entendia a conformação literária à características peculiares ao pertencimento a “escolas” ou à tipificações de modos como se construía uma obra dada. Nem é preciso dizer que aquele leitor não continuou aquela leitura e, por um bom tempo, se recusou a ler aquele autor. A reconciliação entre eles, só se deu alguns anos mais tarde, quando o leitor já cursava a graduação, através de duas obras. Uma delas foi lida por dever de ofício, quando tomou A Morte e A Morte de Quincas Berro D’água para um trabalho de História da Bahia, solicitada pelo professor Francisco Guimarães – conhecido como Chico Índio -; e Farda Fardão, Camisola de Dormir,  que leu quando de uma de suas crises de escrita, que antecedeu a uma avaliação de uma matéria dada por um professor temido por muitos, dado ao seu nível de exigência.

O terceiro dos exemplos de obras que José Mário leu, mas, pouco ou nada entendeu do seu conteúdo que aqui se pretende trazer como exemplo, é possível afirmar que se tratava de uma obra de grande valor literário e histórico, mas que, ao percorrer a sua trama narrativa, o despreparado leitor entendeu como sendo um romance (novela) como os demais que lera originados do século XIX, cujo final não fora aquele por ele esperado e, claro, muito desejado. A Cabana do Pai Tomás, de Harriet Beecher Stowe (1811-1896), foi a obra que lera com avidez, atenção mas, que não conseguira entender o seu objetivo, ainda menos, compreender a mensagem que de fato pretendeu passar. Apesar de se ter emocionado com algumas passagens, como aquela que o escravo dedicado se lançara no rio para salvar do afogamento a frágil filha do seu amo; ou aquela outra em que aquele mesmo escravo dedicado, agora já velho e vendido para outro proprietário, era cruelmente maltratado pelo seu novo dono, ele não compreendera que a obra pretendia fazer uma crítica ao sistema escravista norte-americano em vigor até o final da guerra civil que opusera os Estados escravistas e aqueles outros que não tinham tal sistema de exploração do trabalho como base para o desenvolvimento da sua economia e, que fora uma obra inspiradora para as lutas travadas naquele país, no sentido de se por fim àquele regime, palidamente retratado no livro que tivera nas mãos. Não conseguia compreender o fato de que pessoas negras eram tratadas como seres inferiores, senão, pelo fato de serem propriedades de outras pessoas; não atinara que ali estava apontada uma face social relacionada não só ao fato de serem eles tratados como se fora uma propriedade que se vendia, trocava ou alienava como se fazia com a terra, com o plantel; mas, sim, não eram entendidas como pessoas que tinham o mesmo status – ou  deveriam ter – ostentados pelos seus “proprietários”; que aliás, não só agiam como proprietários da sua força de trabalho; mas como proprietários dos seus corpos, das suas vontades, dos seus desejos, dos seus sentimentos, enfim, dos seus quereres, das suas vidas.

Assim, conforme se deu no tocante aos exemplos anteriores, esta compreensão acima grosseiramente esboçada, aquele leitor ávido por acumular volumes ao seu conjunto de leituras, só passou a compreender a importância de A Cabana do Pai Tomás, muito tempo depois de sua leitura. Além de não possuir informações concernentes aos contextos que motivaram grande parte das obras que leu, ele não possuía maturidade intelectual – nem meios – para realizar pesquisas no sentido de saber exatamente o que, o para que ou quem nem mesmo o porquê da escrita daquelas obras, do pertencimento a qual ou tal escola literária, deste ou daquele autor que as compusera. Outrossim, quem eram aqueles autores; quais as circunstâncias que os teriam levado a escrever de uma forma tal ou qual, eram do seu inteiro e total desconhecimento, o que o distanciava ainda mais da compreensão do que estaria nas entrelinhas, das linhas que acabava de percorrer.

 

Alagoinhas – 08 de junho de 2025.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com