segunda-feira, 22 de março de 2021

Idos de 1996

 

Idos de 1996 - Vinte e cinco anos de docência na Uneb.

 

Era uma manhã de sol de outono, daquele ano da Graça de 1996. Logo cedo, este escrevente tomou o seu café e, se preparou para cumprir um compromisso que ansiosamente esperara por alguns longos, ou, porque não dizer, quase intermináveis meses. Há cerca de quarenta dias, depois de mobilizar algumas pessoas para esquadrinhar o Diário Oficial do Estado, saíra a convocação para que se apresentasse munido de documentação e laudos médicos, para que se desse início ao processo de sua contratação, em cumprimento de sua aprovação em concurso público.

Assim, não sem alguma apreensão, deixara a sua casa e se dirigira até a rodoviária de Alagoinhas, urbe de sua moradia, com o objetivo de se deslocar até a cidade de salvador, para lá iniciar as tratativas junto ao Governo do Estado, atendendo a aludida convocação.

Ao chegar no Cab, se apresentara como tendo sido aprovado em concurso e convocado através do Diário Oficial do Estado para comparecer àquela unidade administrativa, de posse da documentação exigida, com o fito de atender aos requisitos admissionais para o cargo que fizera jus.

Ali começara um périplo que durara todo o dia, uma vez que a médica que o examinara, juntamente com a documentação apresentada, achou por bem exigir que outros laudos lhe fossem entregues, para que pudesse estabelecer o seu juízo a respeito do caso.

Um atestado comprobatório de cegueira e um eletrocardiograma foi suplementarmente pedido, o que obrigou o candidato a se dirigir ao hospital Aliança e, muito bem atendido pelo oftalmologista, dirigiu-se ao Centro Médico e Odontológico do antigo IAPSEB, nas proximidades do Centro Empresarial Iguatemi. Lá contou com a benevolência de funcionários e médicos, o que lhe permitiu não só a realização do exame, como a obtenção do laudo pouco antes do horário de almoço.

Enfim, de posse dos novos laudos exigidos, volta-se ao Cab e lá uma espera que parecera não ter fim, se conclui por volta das dezessete horas, sendo atestado apto para o ingresso no serviço público.

Chegara no setor administrativo da Uneb por volta das dezoito e trinta, após uma longa espera de ônibus que tivesse o cabula como destino; após um trajeto marcado por retenções no trânsito. Ao chegar nas salas onde funcionava o RH, quase não fora atendido, pois, apesar de ainda estar no horário de serviço, a funcionária já se encontrava de bolsa ao ombro, dirigindo-se à saída do setor. Depois de muito argumentar, ela resolveu atender ao candidato, chegado do interior, que teria grande despesa e desgastes caso precisasse voltar no dia seguinte para concluir o processo admissional iniciado no Cab.

Enfim, depois de alguns concursos sem êxito; depois de aguardar quase um ano para ser convocado mediante o concurso exitoso de 1995, em 20 de março de 1996, quarta feira, por volta das dezenove e trinta horas, depois de um dia inteiro de idas e vindas, este relator assinava a documentação que lhe propiciava a admissão nos quadros da Universidade do Estado da Bahia, para o exercício docente na ainda Faculdade de Formação de Professores de alagoinhas, no departamento de Ciências Humanas, no colegiado de História.

 

alguns dias depois, assumia o encargo de ensinar História da américa, o que ainda hoje faz, embora tendo precisado realizar um grande esforço intelectual e um grande investimento em bibliografia, para que pudesse desenvolver a tarefa com alguma qualidade, visto não ser ele pesquisador da área, o que, aliás, seria muitíssimo relevante para a sua carreira acadêmica e para a sua docência.

Aqui cabe uma menção especial ao papel desempenhado pela professora Lina Maria brandão aras, na medida em que foi a pessoa que acolheu a este garatujador; que forneceu dicas de como ele poderia montar o programa de américa II que lhe caberia ministrar; que lhe instruiu no tocante à bibliografia e, até mesmo, passou materiais com os quais se pôde trabalhar naquele iniciar de caminhada. Portanto, vale explicitar a imensa dívida que se tem para com a Professora Doutora Lina Maria Brandão Aras que, mesmo em meio às suas muitas ocupações pessoais e acadêmicas, recebeu este escrevedor em sua residência para estimular, encorajar e orientar aquele atabalhoado e assustado marinheiro que estava prestes a começar a sua primeira viagem na condição de docente do ensino superior.

vai aqui a gratidão deste escrevinhador, ao Deus Eterno que lhe propiciou iniciar e prosseguir neste labor constante; vai aqui o agradecimento e caloroso abraço a todos os alunos que, desde aquela data, passaram pelas mãos desde hoje já sexagenário professor, exigente, chato, insuportável, intragável, rigoroso, dependendo o modo como este ou aquele aluno o avaliara, por todos estes vinte e cinco anos.

Não se pode deixar de reconhecer que com um bom número de alunos se construiu bons laços de amizade, de cooperação, de troca de experiências, tanto de vida, quanto de aprendizado, a partir de leituras em comum, de boas e frutuosas conversas presenciais, através de ferramentas de trocas de mensagens ou, longas chamadas telefônicas; outros tantos, certamente cresceram e amadureceram intelectual e pessoalmente, ao aprenderem com este e com os demais professores pelos quais passaram. É gratificante a possibilidade de ter influenciado, de alguma maneira na vida e na carreira de alguns, poucos, é certo, mas, não se crê que tenha passado em branco na vida de diversos profissionais que hoje atuam no ensino fundamental ou médio, em escolas públicas ou privadas.

Enfim: toda gratidão Ao Deus eterno, o doador da vida e pleno em Graça, abundante em misericórdia, de onde se tirou forças para começar, para continuar, para prosseguir até aqui; é grande o contentamento por ter tido todos vocês como alunos.

domingo, 8 de novembro de 2020

O Voto é "antes de tudo" um direito

 

O voto é antes de tudo, um direito do cidadão – uma responsabilidade de cada eleitor.

 

 

O Brasil construiu a ideia de voto “obrigatório”, talvez por ter uma democracia com raízes pouco profundas, com o fito de evitar que os mais politizados – ou aqueles que resolvessem trocar o seu voto por quinquilharias -, escolhessem por aqueles que não julgassem importante comparecer aos locais de votação, para exercer ali o seu direito de cidadão. Isto equivale a dizer que, se você não escolher, outros escolherão por você e, o seu direito a corrigir uma “escolha” que não fez ou não quis fazer, só poderá voltar a ser exercido quatro anos depois.

 

Alagoinhas tem um histórico eleitoral muito complexo, na medida em que se observa a trajetória das eleições nos últimos quarenta anos. Em 1982, mesmo com o apoio do PCdoB dado ao candidato João Paulilo, Judélio Carmo foi eleito para governar a cidade por seis anos. Sua intervenção no processo urbanístico da cidade ainda se faz perceber, na medida em que estruturou a urbe alagoinhense para receber diversos equipamentos que ainda hoje conformam a paisagem urbanística do município.

Em 1996, como muitos dos leitores devem lembrar, a cidade elegeu o pior gestor que esteve à frente do município, considerando-se o período mencionado. Ao concluir o mandato, além de nada ter sido feito de duradouro, a cidade estava mergulhada no lixo, administrativamente afundada em dívidas, inclusive com os seus trabalhadores há vários meses sem os seus salários e, os demais setores vitais, inteiramente combalidos.

A eleição de 2008, repetida em 2012, apenas para refrescar a memória dos mais velhos e informar aos mais jovens, marcou o retrocesso no cuidado com a coisa pública. Os dois mandatos foram permeados por má administração e pouco transparente gestão dos recursos públicos, implicando em um trabalho pouco voltado para o benefício da população como um todo, ocasionando obras megalomaníacas e grandiloquentes, que só beneficiariam aquele espectro dos munícipes que sempre desfrutaram do melhor quinhão do conforto propiciado pela sua posição econômica e social e, do bem-estar da localização de suas moradias.

Portanto, é preciso salientar que o voto, embora seja um direito do cidadão é, sobretudo, um exercício que deve ser calcado na responsabilidade. O voto em branco não pode ser entendido como uma decisão sábia; tão pouco o voto anulado, significa um ato inteligente. Ambas as ações apontam para uma fuga daqueles que não querem assumir posições claras, no que tange às suas escolhas. Com tais atitudes, estão abrindo mão do direito à escolha, e, por via de consequência, recusando o direito ao “jus esperniandi”.

Por estas e ainda muitas outras razões, crê-se que as eleições para prefeitos e vereadores deveriam ser tratadas com muito mais atenção do que as demais. Elas são o instrumento de que os eleitores dispõem para dar à sua cidade a oportunidade de ajudar no processo de transformação e de desenvolvimento do seu local de moradia, onde moureja no dia a dia, no intento de construir uma urbe limpa, saneada, com boas escolas e com atendimento básico à saúde.

É assim que os eleitores ganham a cada quatro anos a chance de escolher o seu prefeito. Para aproveitar bem a oportunidade que é dada ao cidadão de fazer uma escolha que traga segurança aos munícipes de que se fará bom uso dela, cada eleitor deve aproveitar o ensejo para fazer as suas escolhas baseadas em sua consciência cidadã. as propostas dos candidatos devem ser colocadas de forma clara, e o eleitor deve:

- Julgar racionalmente aquilo que lhe é apresentado;

- Observar a postura do candidato propositor, considerando a seriedade com que se dirige em busca do voto;

- Avaliar, criteriosamente o discurso tanto do candidato que se dirige ao eleitor propondo intervenções urbanas, quanto a viabilidade delas;

- Questionar as propostas, considerando de modo equilibrado a sua capacidade de gerenciar os recursos financeiros de que disporá;

- Usar o seu voto para fazer a sua escolha, não como moeda de troca;

- Impedir que sejam eleitos candidatos que nada proponham de plausível – que aliás é o que faz a grande maioria deles -;

- Meditar friamente diante do que lhe for apresentado, para enfim, tomar a decisão.

Portanto, em 15 de novembro de 2020, é preciso sepultar de uma vez a carreira política daquele que esteve à frente da gestão municipal por oito anos. Ele deveria ser rejeitado nas urnas, não só pela péssima gestão da coisa pública quando governou com os seus amigos e para os seus amigos, como também pela sanha de querer voltar ao paço municipal, sabe-se lá porque e para quê!

 

Jorge Damasceno – 08 de novembro de 2020.

Alagoinhas em vésperas de eleições - 1988

 

Alagoinhas em Vésperas de eleições – 1988 – Nova Carta, velhos jogadores.

 

Na terceira de quatro crônicas em que o seu autor se propõe a fazer algumas incursões acerca de momentos “pré-eleitorais” em Alagoinhas, se procurará promover um rápido rememorar do ano em que o então prefeito Judélio de Souza Carmo(1945-2009) completaria o segundo mandato que lhe fora conferido pelo escrutínio realizado em 1982, que tivera a duração de seis anos e que fora iniciado exatamente dez anos após o tão conturbado primeiro exercício como alcaide, transcorrido entre 1973-1976. Naquele segundo governo, ele implementou algumas intervenções no processo urbanístico da urbe alagoinhense que ainda hoje podem ser percebidas, na medida em que estruturou a cidade para receber diversos equipamentos que ainda hoje conformam a paisagem urbanística do município.

O ano de 1988 chega para ser vivido sob a expectativa da conclusão dos trabalhos da assembleia Nacional Constituinte, que apresenta como parte dos longos debates havidos em todo o seu transcurso, a revogação da Censura – que prevaleceu por toda a vigência do Regime Militar sobre as artes e diversas atividades culturais e intelectuais -, da Tortura – ostensivamente praticada contra presos políticos e/ou suspeitos de “subversão” da “ordem e dos costumes” -, bem como o reestabelecimento da “liberdade” de imprensa, de expressão e de criação. Nas olimpíadas e no automobilismo, Aurélio Miguel e Ayrton Senna ganham medalha de ouro e se torna campeão mundial, respectivamente. É também naquele ano que a siderúrgica de Volta Redonda é invadida pelo exército brasileiro, com o objetivo de desalojar operários em greve, cujo resultado foi de 3 operários mortos e nove gravemente feridos. E no último dia de dezembro, um barco de turismo naufraga na Baía de Guanabara, deixando cinquenta e cinco mortos.

Naquele mesmo ano de 1988, ainda como desdobramento dos trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte, a chamada “Constituição Cidadã” foi promulgada em 05 de outubro, fazendo com que as instituições do País passassem a ser regidas por aquele novo diploma legal, que nortearia as ações públicas perpetradas no âmbito do Estado de direito. Era uma nova “carta magna” que se destinava a reestruturar o ordenamento jurídico do País, esgarçado pelo regime de exceção que se impôs sobre o Brasil por vinte e um anos, indo um pouco mais além, já que a “Nova República” fora conduzida até então, sob a égide da Carta de 1967/69.

No entanto, a despeito da promulgação da “nova” Carta Magna, o jogo eleitoral de 1988 já estava em andamento e, os times alinhados em torno dos velhos jogadores que os formavam. Marcadas para o dia 15 de novembro de 1988, aquelas eleições transcorreriam pouco mais de quarenta dias após a promulgação do novo texto constitucional.

Assim, o embate pela sucessão de Judélio seria travado por velhos jogadores da cena política alagoinhense, alguns deles travestidos de novos contendores – ao menos, os principais dentre eles -, apresentando-se aos eleitores, como propositores de novos rumos para a cidade que pretendiam governar a partir de 1989.

O próprio então prefeito apresentara um candidato à sua sucessão, que, no entanto, fazia a sua campanha eleitoral, apresentando-se como “diferente” daquele que o apoiava.

Embora houvesse outros postulantes ao Paço municipal – para citar alguns exemplos, teve o candidato pelo PT, Péricles Magalhães, Antônio Carneiro, pelo PFL e a candidata Maria Risélia, cujo partido este autor não se lembra -, a refrega eleitoral foi travada, efetivamente, pelo bancário José Francisco dos Reis, pelo PSB, paradoxalmente apoiado pelo então ocupante da principal cadeira do executivo municipal.  O paradoxo está no fato de “Chico Reis”, como era conhecido na cidade, ter sido o algoz de Judélio Carmo, durante o seu primeiro mandato. Na condição de vereador pela Arena, ele requerera e obtivera o impeachment do cargo de prefeito, – o que trouxera grandes transtornos para Judélio se fazer reinvestir no cargo e concluir o mandato que lhe fora conferido nas urnas.

O outro contendor no embate eleitoral daquele ano, era o comerciante João Paulilo – que contara com o igualmente paradoxal apoio do PCdoB. Tal apoio foi articulado pela cúpula diretiva do “partidão”, formada por comunistas “históricos” como Antônio Fernando (Aranha”, Gavazza, além de Pedro Marcelino, que iniciava o seu ciclo como dirigente partidário.

Tendo recebido apoio de uma parcela significativa da sociedade alagoinhense; contando com o não menos expressivo prestígio relacionado à sua atuação como funcionário do banco do Brasil, concomitante com a sua participação no rádio esportivo local, Chico Reis fez-se eleger com uma grande margem de votos.

No entanto, sua eleição também deve ser creditada ao trabalho desenvolvido por Judélio, não só emprestando-lhe apoio como candidato à sua sucessão, mas, principalmente, com o seu desempenho à frente do governo municipal, durante todo o mandato. Este escrevente não tem memória de nenhum outro prefeito, que tenha governado a cidade nos últimos 50 anos, que tenha conseguido fazer o sucessor, direta ou mesmo indiretamente.

 

Jorge Damasceno – 08 de novembro de 2020.

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

Há quinze anos, em um dia como o de hoje - 06 de novembro de 2005.

 

Em meio a aspereza da vida de lavadeira, ela ainda encontrava pedaços de versos para cantar! - republicação

 

José Jorge Andrade Damasceno

professordamasceno@gmail.com

historiadorbaiano@gmail.com

 

 

Este texto foi escrito originalmente em 2012, em um dia de junho que se levantou um voluptuoso rio de saudades, que envolveu completamente este que ora escreve estas linhas. Ele será republicado em sua íntegra, acrescido dos links para as músicas comentadas e de um “Post scriptum”, com um pequeno comentário do seu autor.

 

 

Era um dia já distante, no segundo mês da Primavera de 1935. Lá para as bandas de Piritiba, ou mesmo de Andaraí, região de Jacobina, nascia Armanda, ou Amanda, como gostava de ser chamada e, nome que parece ter adotado para si. A primeira das três filhas de Vicente com Epifania, trazendo consigo esperanças. Esperanças que talvez seus pais nutrissem. Talvez não fossem grandes, grandiosas..., mas, esperanças. Ou quem sabe, para aquele lavrador, não seria um desgosto por ser uma filha e não um filho?

Cresce a menina e, ainda na infância, se lhe vai a mãe e, se lhe impõe uma madrasta. A nova mulher do seu pai, certamente não lhe tivera o amor que lhe teria sua finada mamãe. Corre o tempo; crescem as três, em meio a travessuras, brincadeiras, peraltices folguedos infantis;mas também em meio a intrigas, brigas; surras; queixas... Sem letras, sem cultura; só a cultura da luta pela sobrevivência, já se apresentava diante delas, visto não terem o apoio materno, o agrado paterno; nem mesmo a possibilidade de educarem-se para a vida.

Ah Amanda... Aos dezoito se desencaminha; como ela dizia dera o “passo errado”. Ganhara uma brutal reprimenda, o olho da rua e a separação de suas duas irmãs, como conseqüência da decisão de se dar a alguém que não fosse aquele que lhe faria esposa!

E daí para frente, só sofrer; só tentar quantas soluções e alternativas lhe aparecessem, muito poucas, para aquela que sequer sabia “garatujar” seu nome! Não se sabe como, chegara em Salvador, onde fora doméstica; do mesmo modo não sabido, acabara em Alagoinhas, onde se envolvera com homens que vieram a ser pais dos três filhos que vingaram!

E para os abrigar, alimentar, vestir, calçar, instruir? A única profissão que se lhe apresentou desempenhar foi a de “lavadeira de ganho”, que apenas requeria a força dos jovens braços e o cuidado com as peças que lhes fossem confiadas para lavar, passar, engomar e entregar, de casa em casa, a cada uma de suas ”patroas”.

Tinha vinte e cinco anos completos, quando lhe nasceu o terceiro dos cinco filhos que tivera. Quase dois anos depois, aquele se tornara o que lhe demandaria mais preocupações, desvelos e esforços, pois ficara cego e, seria mais um encargo que viria sobre ela, pois, tão cedo, não poderia ajudar-lhe na faina pelo pão, pelo abrigo e demais necessidades que a sobrevivência imporia a ela.

Vencida mais aquela desdita em sua vida, dona Amanda se tornava hábil em desempenhar as atividades braçais que se lhe apresentara como forma de bastar a si e aos seus: tinha já sua freguesia; empunhava o ferro de brasas, com esmero e competência, propiciando-lhe demanda por seu serviço.

E nas mornas tardes de quinta e sexta-feira, quando passava as roupas lavadas entre a segunda e a quarta, embatia-se no trabalho de passar e engomar, tarde a fora, noite a dentro, entre soprares de ferro, reposição de carvões e brasas... Quase sempre em pé, sentando-se só para as parcas e rápidas refeições, dividida entre os afazeres do ganho e o cuidado com os filhos, ia dona Amanda, de semana em semana, de mês em mês, de anos em anos, enfrentando sua lida, quem sabe, esperando que algum dia, pudesse vir a ver algo melhor na vida.

Mas, a ela não faltou a melodia; os versos do cancioneiro, talvez aquelas músicas ouvidas quando ainda menina-moça, em meio às angústias de órfã de mãe.

E, a despeito das exigências que a vida e o trabalho que lhe esgotava as forças físicas, em seus lábios desfilavam pedaços de versos, ou mesmo trechos inteiros, que eram cantados em voz que exprimia sofrimento e, quem sabe, esperança de melhor sorte.

Boleros que exprimiam tristezas, desilusões e desventuras de amores, talvez exprimissem mesmo o seu viver de mulher que nunca tivera “sorte” no amar. Na memória de quem escreve estas linhas, a lembrança viva de sua voz cantando uma música que parecia ser ela própria a autora, cheia de dor e dolência, talvez pelas marcas das feridas que já marcavam aquela alma ainda tão moça, mas já esmagada pelo peso do viver quase errante, de quem fora lançada ao mundo, ainda tão precocemente, obrigada que fora a enfrentar a vida, sem o preparo para entender as suas armadilhas e, preencher as suas exigências:

“Vem o cigana bonita,

 ler o meu destino,

 que mistérios tem;

“Tu com estes olhos de quem vê o amor da gente;

 põe nas minhas mãos, o teu olhar ardente;

 E, procura desvendar o meu segredo;

a dor, cigana, do meu amor;

“Mas, nunca digas oh Zíngara,

que ilusão me espera

qual o meu futuro!”

Só aquela por quem vou vivendo assim à toa;

 tu dirás se a sorte será má ou boa;

Para que ela venha consolar-me um dia;

 a dor, cigana, do meu amor

https://youtu.be/v8JAsBiBGWs

Se lhe fosse perguntado, ela pouco ou nada saberia sobre os intérpretes e compositores das melodias que cantarolava; ainda menos conhecia as circunstâncias e contextos nos quais foram escritas aquelas letras, que encontravam em seu espírito não alcançado pelos laivos de cultura e letramento, terreno fértil no qual espalhavam suas significações. Nunca tivera lido nada sobre quaisquer movimentos culturais, artísticos, visto seu total analfabetismo. Seu primeiro contato com livros, só acontece quando contava mais ou menos trinta e cinco anos, por meio do “Movimento Brasileiro de Alfabetização”, o (MOBRAL).

Como que se embalasse pelas lembranças e estas a ajudasse a encarar sua faina com um pouco mais de resignação, diante dos percalços que se lhe oferecia a vida difícil de uma trabalhadora braçal, entoava esta de Lupicínio Rodrigues (1914-1974), que talvez ela conhecesse pela imortal interpretação de Linda Batista (1919-1988):

https://youtu.be/7xi9hi1NnBA

“Eu gostei tanto,

Tanto quando me contaram;

Que te encontraram chorando e bebendo na mesa de um bar.

É que quando os amigos do peito pormim,

Perguntaram;

Um soluço cortou sua voz e não lhe deixou falar;

“Mas eu gostei tanto, tanto quando me contaram,

Que tive mesmo,

De fazer um esforço

Pra ninguém notar.

“O remorso talvez seja a causa do seu desespero;

Você deve estar bem consciente do que praticou;

Em me fazer passar essa vergonha, como um o companheiro

E a vergonha, é a herança maior, que meu pai me deixou;

“Mas enquanto houver voz em meu peito eu não quero mais nada,

Só vingança, vingança, vingança, aos santos clamar”

E você há de rolar como as pedras,

Que rolam na estrada;

Sem ter nunca, um cantinho de seu,

Pra poder descansar”.

 

Talvez nos dias em que alguma saudade lhe explodisse no peito, cantarolava este bolero de Waldick Soriano (1933-2008), típico cantor de amores frustrados:

https://youtu.be/eK3D2jLHNVw

“Hoje que a noite está calma, e que a minha alma esperava por ti...

Apareceste afinal, torturando este ser que te adora

Volta, fique comigo só mais uma noite;

Quero viver junto a ti,

 volta meu amor,

fique comigo,

 não me desprezes,

a noite é nossa

e o meu amor pertence a ti;

Hoje eu quero paz, quero ternura, em nossas vidas; quero viver por toda vida, pensando em ti.

 

E dona Amanda, sempre de posse de seu ferro de brasas, pouco depois substituído pelo elétrico, mais prático e, que dispensava os assopros e usos de abanos para voltar a esquentar satisfatoriamente, ainda arriscava um samba, como este de Benedito Lacerda (1903-1958) e David Nasser (1917-1980), imortalizado na clássica voz de Nelson Gonçalves (1919-1998):

https://youtu.be/41gdJzBDPrA

“Vestida de azul e branco,

  Trazendo um sorriso franco

Num rostinho encantador;

Rapidamente conquista meu coração sem amor;

Eu que trazia fechado,

Dentro do peito guardado

Meu coração sofredor;

Estou Bastante inclinado

A entregá-lo ao cuidado,

Daquele brotinho em flor

“Mas a Normalista linda, não pode casar ainda, só depois de se formar;

Eu estou apaixonado, o pai da moça é zangado, o remédio é esperar”.

 

Era a partir daquelas músicas que lhe saltavam as lembranças, que ela contava aos filhos, algumas passagens de sua vida; momentos de sua infância cheia de desditas familiares,que explodiam em sua memória, trazendo à tona, as recordações do lugar onde nascera e vivera, toda infância e pequena parte da juventude, se não esplendorosa, ao menos ao lado dos que eram seus.

Desde que expulsa de casa, nunca mais teve com quem contar em quem se ancorar, onde se abrigar, a não ser patrões, estranhos; amores momentâneos e ilusórios...

Era tudo isto evocado do fundo do seu silêncio, a partir daquelas músicas que, em meio as asperezas da vida de lavadeira de ganho, ela podia cantarolar, em um misto de alegria, nostalgia e melancolia, ao cair da tarde das quintas ou sextas-feiras.

Mas, pouco antes de completar trinta e nove anos, naquele junho de 1974, em uma noite fria de inverno, a morte do seu primogênito, ainda moço, aquele que a ajudava no arrimo familiar, fê-la calar de vez sua voz para o canto, dando lugar ao pranto,que nunca mais pôde enxugar.

 

Post scriptum:

 

Há já quinze anos, aquela voz foi calada para sempre. Aos seis dias de novembro de 2005, não mais falou, não mais cantou, não mais mourejou aquela mulher que mal completara setenta de existência, ingressou na eternidade, separando-se deste que hora escreve estas linhas prenhes de saudade. Era ela a razão de tanto esforço que este escrevedor fizera para alcançar os títulos de mestre e doutor, embora para a sua compreensão fosse algo difícil, mas enxia aquela criatura de orgulho pelo seu filho que, não obstante tenha lhe causado tanta aflição, pudera promover ‘lhe a tranquilidade de morrer, sabendo que aquele filho “disoficiente visual” não ficaria à mercê da irmã mais velha e/ou à mercê da caridade pública, o que daria no mesmo!

Durante todo aquele ano de 2005, parte dele passado cursando o doutorado em Niterói, este filho de dona Amanda ouvira  uma belíssima música cristã, genuína, que acabou sendo a sua música de consolo, enquanto chorava a saudade, sofria a dor da separação definitiva e lamentava a perda daquela que fora a única mulher que a ele amou e que por ele foi amada: a sua mãe. Parecia que o seu espírito estava sendo preparado para suportar o que se avizinhava. Uma rádio de Curitiba, escutada através da internet, executava aquele belíssimo hino, em várias ocasiões durante o dia; e, a vontade de chorar ao ouvi-lo, parecia indicar estar próxima alguma coisas que traria grande tristeza àquele ouvinte virtual da BBNRádio.

O então nonagenário cantor evangélico, Feliciano Amaral (1920-2019), com sua magistral interpretação e inconfundível voz, interpretava “Não há melhor Amigo”, que soava como um bálsamo colocado sobre o coração que sangrava. Ainda hoje, ao ouvir aquela maviosa melodia, parece estar vivendo aqueles dias de pranto e tristeza.

 

- Não há melhor amigo,

- Do que Cristo meu Senhor,

-Nos transes que passei

- Foi o meu consolador;

- Tranquilo e paciente

- Muitas dores enfrentei

- Mas, ele me ajudou

- E a dor passou.

- Na hora do sofrer,

- É que a gente vê o amigo;

- E no meu padecer,

- Jesus caminhou comigo!

-Riquezas, ambições

- Do mundo nada me seduz:

- Enquanto meu amigo for Jesus,

- Enquanto meu amigo for Jesus.

https://youtu.be/01JTi8VxM5I

 

José Jorge andrade Damasceno – 06 de novembro de 2020.

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

UM ESCREVEDOR FALA DE MEMÓRIA MUSICAL - V.

 

Um Escrevedor Fala de Memória Musical – V - O que tocava no rádio – 1972.

 

Esta é já a quinta incursão na memória musical daquele que escreve estas linhas. O ano de 1972 era o ano em que completaria 12 anos; naquele ano ele fora reprovado sem ter sido avaliado; também fora naquele ano que tivera o primeiro contato com a fé protestante, ao ser levado para ouvir uma “conferência evangelística”, realizada na antiga Primeira Igreja Batista de Alagoinhas, então presidida pelo pastor Jamim Nascimento. Tal conferência fora proferida pelo pastor Edivaldo Santiago – salvo engano da grafia do seu nome -, em data que não é possível precisar, sabendo-se apenas tratar-se de período escolar. Daquele ano brotam da memória deste garatujador, inúmeras reminiscências, algumas delas confusas e desconexas. Mas há algumas que são impressionantemente claras, consistindo em cheiros, paladares e, claro: sons.

O Brasil vivia o seu oitavo ano de “Regime Militar” e discutia com o mundo ocidental, questões relacionadas ao uso do “Espaço Marítimo”, não só para a pesca, como também para a prospecção de petróleo. Fincava pé no que chamava direito às “200 milhas” das “águas territoriais”, que se limitava às “100 milhas”. Com o “ame-o ou deixe-o” do governo Médici, também o ufanismo de uma parte da elite brasileira, resultou em campanhas nos jornais e revistas de grande circulação nacional – devidamente chancelada pela “censura federal” -, encetada no sentido de obter êxito no pleito às tais “100 milhas marítimas” adicionais. Como grande parte da população permanecia analfabeta, o rádio e a música seriam convocadas para entrar naquela querela, que, saliente-se, nada ou pouco traria de benefício à população como um todo, pois, ao que parece, tratava de disputa levada a termo, com base em interesses militares.

Para tanto, Eliana Pittman interpretou uma música com o título bem sugestivo de “Das 200 para lá”, rebatizada de “Este Mar é Meu”. Em um ano eleitoral em que o “regime dos generais” intentava manter sob seu máximo controle o espectro político nacional, aquela campanha serviria – acreditavam – para levantar o “patriotismo” dos eleitores que, como consequência, elegeriam os candidatos preferidos pelo generalato, às prefeituras e às câmaras municipais.

 

https://youtu.be/45J4efcUUe

 

Aquele também era um tempo em que a teledramaturgia começava a moldar o modo de agir e de pensar de grande parte dos brasileiros que, antes tivera o rádio como formador de uma certa “opinião pública”, sobretudo, aquela que possuía pouca ou nenhuma escolaridade. Desde então, passava a contar com a televisão e com a sua programação, para o processo de construção da maneira de perceber e conceber o mundo, daquilo que se conheceria como “brasileiro médio”. A influência da televisão naquele processo de criação de um outro conjunto de elementos formadores de uma dada “opinião pública”, se dera tanto através do seu jornalismo enviesado, quanto através da produção e exibição de dramaturgias romanescas, marcadamente no tocante ao gosto musical que passava a ser determinado a partir das músicas tocadas nas novelas, majoritariamente, as músicas ligadas aos personagens mais “amados” pelos telespectadores. Estas, por sua vez, em grande medida, eram compostas e interpretadas por artistas e/ou grupos musicais internacionais.

O grande sucesso da televisão brasileira de 1972, que acabava de ganhar a sua versão “a cores”, fora “Selva de Pedra”, escrita pela dramaturga Janete Clair, que, no seu bojo, ao menos duas músicas de sua trilha internacional, estiveram entre as cem mais tocadas naquele ano. Aqui, o link para elas.

 

https://youtu.be/2TKCJjGwTac

 

https://youtu.be/4KSLfhx_10M

 

Enquanto o mundo de então se encantava com o poema interpretado por John Lennon, que apontava para o desejo de um mundo de utopias e anseios de paz e harmonia entre os terráqueos – https://youtu.be/5MV_x5Y3zzk - , a televisão brasileira continuava o seu processo de despolitização do povo, negando-lhes informações importantes do seu cotidiano marcado pelas torturas e desaparições  daqueles que ousaram não se submeter à sanguinolência dos que mandavam e desmandavam no país, deixando de municiar a população de elementos que a fizessem pensar no voto que depositariam nas urnas em 15 de novembro, como sendo instrumento de transformação da história, e não com maneira de reforçar  a letargia social e política em que estava mergulhada a sociedade civil, regida por um “anticomunismo” estéril e histérico que levara o o regime a endurecer-se ainda mais contra estudantes, professores, advogados, alguns jornalistas, como bem demonstraria mais tarde o assassinato de Vladimir Herzog (1937-1975).

Mas, o rádio ainda era a maior força da comunicação no Brasil daqueles “anos de chumbo”. Por ele era levado aos brasileiros a “música”, o “esporte” e a “notícia”, conforme bordão brandido por muitos anos pela rádio Globo do Rio de Janeiro. Não obstante a televisão interferir de modo cada vez mais profundamente no gosto estético e artístico das pessoas, o rádio AM tinha a versatilidade e a maior capacidade de penetração nos estratos sociais mais diversos da população, sem falar no fato de que poderia ser ouvido em espaços urbanos e rurais mais longínquos do território nacional. Portanto, é no rádio que a música “esperanças Perdidas”, interpretada pelos “originais do Samba”, chega a um público ouvinte politicamente inserido no contexto construído pelos versos de sua composição.

 

https://youtu.be/pG2BXpFAqbI

 

Mesmo a composição de Vinícius de Morais e interpretada por ele e Toquinho, cheia de suubliminaridades e de conteúdo fortemente marcado pela genialidade do seu autor, conseguira chegar aos rincões mais remotos do Brasil, pela força do rádio.

 

https://youtu.be/gUsgVqu8XfQ

 

E o que dizer da letra excepcionalmente construída de forma a fazer brotar uma poesia erudita, da lavra de Antônio Carlos Jobim, magistralmente interpretada por Elis Regina “Águas de março”? Pois é: o rádio levou aos ouvidos de indistintos ouvintes pelo chão do Brasil a fora.

 

https://youtu.be/WEuDVcXnElc

 

Em um disco bastante executado nos rádios de grande parte dos brasileiros, Roberto Carlos, deixando a “jovem guarda” cada vez no passado, interpretando uma bela composição de Antônio Marcos – que mais tarde também a interpretara -, pergunta:

 

https://youtu.be/jH2xaxibpmM

 

E por fim, naquele mesmo ano de 1972, já quase no seu término, este escrevedor e o seu irmão mais velho, “In Memoriam” (1954-1974), caindo a tarde e principiando a noite, ouviam a rádio Globo do Rio de Janeiro, que executava as músicas mais pedidas durante a programação da emissora. Aquelas audições eram aguardadas com ansiedade pelos dois irmãos, visto que as músicas ali tocadas muito aguçavam o gosto melódico de ambos. Duas delas marcaram indelevelmente a memória deste escrevedor, pois naquele ano Antônio Carlos completara dezoito anos e, cumprira o seu dever e exercera o seu direito de votar. As músicas nunca saíram da lembrança deste que vos escreve, uma vez que ainda hoje são executadas nas rádios e, ao ser ouvida, ainda desperta as mesmas lembranças e as muitas saudades daquele ano. Não se imaginava que menos de um ano e meio depois, não o tinha mais como companhia para ouvir as “mais pedidas”, que tanto marcaram a programação do rádio, por mais alguns anos.

 

https://youtu.be/YnbcTCBB_M4

 

https://youtu.be/tykNOKKsZAc

 

Professor Jorge Damasceno – 28 de outubro de 2020.

 

 

domingo, 25 de outubro de 2020

Especial para o Alagoinhas Hoje - I.

 

Alagoinhas em vésperas de Eleições – 1972: a “Zebra”.

 

Professor Jorge Damasceno – Especial para o Alagoinhas Hoje.

 

Estava-se no oitavo ano de vigência do Regime Militar instaurado na madrugada do primeiro dia de abril de 1964. Salvo algumas prisões, cassações de mandatos, fechamento do Congresso, alguma “censura” à cultura e às artes, imposição de alguns Atos Institucionais, interdição de eleições diretas para presidentes, governadores e prefeitos das capitais – bem como de algumas cidades classificadas como de “segurança Nacional” -, o verniz de democracia se mantinha quase sem arranhões.

Logo após às comemorações do sesquicentenário da Independência” em 07 de setembro, se realizaria o pleito para as prefeituras e as câmaras municipais, com a disputa se dando entre os dois únicos partidos políticos autorizados pelo “Regime dos Generais”.

Com a realização das convenções partidárias, ficara definida dupla de candidatos ao Paço Municipal. José Libório, pela ARENA e Judélio Carmo, pelo MDB, travariam a luta pela preferência dos 25 mil cidadãos “aptos a votar” no escrutínio que se daria em 15 de novembro. A partir de então, eram organizados os comitês dos candidatos e, neles as pessoas se articulavam no sentido de organizar as campanhas; os eleitores se acotovelavam para deles receber brindes, material eleitoral para distribuição; inúmeros outros se apresentavam com os mais diversos pleitos, que iam desde o pagamento de contas, aviamentos de diversas ordens – como receitas, construções e/ou reformas de suas casas -, dentre outros numerosos pedidos de ajuda financeira. O atendimento ou não a tais subvenções, teriam a retribuição na cabine de votação.

Entre o princípio do inverno e meados da primavera, os dois grupos políticos se movimentaram pelos principais logradouros da quase adormecida Alagoinhas de 1972, montando e desmontando os palanques em que realizariam os comícios, verdadeiros teatros por onde desfilavam pequenos atores e atrizes, mostrando os seus talentos ao cantar, declamar, improvisar motes favoráveis ao seu candidato ou, desfavoráveis ao candidato adversário. Naqueles palcos itinerantes armados cada dia em um bairro populoso da cidade, eram as plataformas a partir das quais eram emanados os discursos dos candidatos, antecedidos pelas manifestações de apoio e apreço  ao candidato que, após discursar, como ápice do comício, era levado nos braços dos seus correligionários, como se fora a procissão do seu ”Santo” de devoção.

Mas, naquele ano em especial, a disputa se travaria entre um candidato que representava a tradição político-eleitoral da cidade, contando com o apoio das velhas estruturas de mando encrustada na cidade há já alguns pares de anos e, uma liderança que surgia do desejo de construir um novo espaço político-administrativo para o município, sem contudo, contar com o apoio dos velhos líderes locais, já consumidos pela implacável passagem do tempo e, sobretudo, pelas mudanças que o cenário nacional indicava estar em curso.

Cabe chamar a atenção do paciente leitor, para o nome e o significado do partido que dava sustentação da candidatura abraçada pela velha elite política local. Apesar de conter em sua sigla a expressão “Renovadora”, representava na verdade a persistência das velhas práticas eleitorais, com o fito de manter as coisas como sempre foram trabalhando para que continuassem como eram.

No entanto, a candidatura de um jovem ex-vereador na legislatura 1967-1971, abrigada no “Movimento Democrático Brasileiro (MDB)”, se colocava como propositora de uma mudança de rumos da política na urbe alagoinhense, apresentando uma zebra como símbolo de sua campanha, tal era a dificuldade que antevia em obter êxito na refrega pelo sufrágio de 15 de novembro. Aquele símbolo era bem conhecido das pessoas em geral, uma vez que se referia a um resultado não esperad            o e pouco marcado na “loteria esportiva”, jogo praticado por uma parcela considerável dos brasileiros. Ainda mais, quando se tratava de uma campanha eleitoral, polarizada entre um “arenista” sustentado pelas elites políticas tradicionais da cidade – além de apoiado por autoridades governamentais do País e do Estado –                         e um “emedebista” que, ao contrário, não possuía apoio das lideranças políticas locais, além de estar em rota de colisão com os interesses das autoridades municipais, estaduais e nacionais.

Portanto, em Alagoinhas, foi em uma atmosfera de forte tensão, ansiedade e sangue, que se dera a disputa pela preferência dos 18 mil eleitores que, deixariam as suas casas em direção às suas seções eleitorais, em uma quarta-feira – feriado nacional -, onde votariam no pleito de 15 de novembro de 1972.

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

UM ESCREVEDOR FALA DE MEMÓRIA MUSICAL - IV.

 

Um escrevedor fala de Memória Musical -IV – 1989: do agreste baiano ao sul fluminense.

 

Em mais uma investida no campo da memória musical, o recuo será até o ano de 1989, marcado por diversos eventos políticos e sociais pelo mundo inteiro, sobretudo o maior deles no campo da política brasileira: finalmente a população recuperava o direito de eleger o seu presidente, direito que lhe fora tomado pela força de um golpe, o de 1964. A imprensa, a escola e, afinal de contas, toda a “sociedade civil”, respirara aquela eleição presidencial. Foi também naquele ano que o mundo ocidental viu quase estupefato, o desencadear de uma “revolução” silenciosa, que levou a “queda do muro de Berlim”, como símbolo que fora dos regimes totalitários, que fracassara no seu intento de propiciar alternativas ao capitalismo selvagem que se impunha com toda a força – da persuasão ou das armas -, sobre a maior parte dos habitantes do mundo. Como um efeito cascata, caíra, uma a uma das chamadas “Repúblicas democráticas socialistas”” implantadas no leste europeu após 1945, culminando com o esfacelamento da maior e mais antiga dentre elas – em 1991 -, a “União das Repúblicas Socialistas Soviéticas”. Talvez, em outro arrazoado, este tema seja mais largamente abordado. O que aqui interessa é contextualizar o episódio que se quer comentar.

Ainda ao principiar daquele ano, Alagoinhas e demais cidades do seu porte, dera posse a novos prefeitos e vereadores, eleitos no ano anterior. Naquele mesmo tempo, Sullivan e Massadas garantia sucesso de suas composições, através de uma diversidade de intérpretes, ritmos e estilos musicais, que tocavam nos milhares de emissoras de rádio – AM e FM – espalhadas por todo o Brasil.

Em meio ao seu processo de formação acadêmica, este autor ainda encontrava um tempo para o rádio e a música, que para ele, funcionava como um repositório das forças que precisava para seguir a sua jornada. Entre as muitas músicas por ele ouvidas, se encontra a de Agnetha Faltskog & Ola Hakansson – The Way You Are -, que, embora em língua inglesa, era muito agradável de se ouvir, mormente pelo conjunto melódico apresentado naquela gravação. O link abaixo é da versão de 1985.

https://youtu.be/wjkQpqFQfN0

Devido às suas condições físicas, econômicas e, por certo, pelas suas características psicossociais, este escrevente experimentou grandes dificuldades no que tange à “arte da conquista”, quando se tratava de quebrar as resistências, ou despertar o interesse das jovens senhoritas, com o fito de ter uma dentre elas como sua namorada. Para tentar driblar algumas daquelas dificuldades, sempre precisou fazer uso de instrumentos que o permitissem ao menos, chegar até a pretendida e, expor a sua perspectiva relacional.

Para tanto, o instrumento mais eficiente que ele tivera à mão e fez uso com algum êxito, foi a sua inseparável máquina de escrever portátil – Olivetti Letera 32. Nela eram datilografados os trabalhos escolares, as atividades avaliativas e seletivas. Também nela eram escritas as cartas. Em tempos em que os Correios gozavam de ampla confiança dos seus usuários, o escrevedor de cartas aguardava com grande ansiedade, a chegada das cartas por ele enviadas até as suas destinatárias e, claro, a volta delas em forma de respostas. O inconveniente estava no fato de que, uma vez vencidas as resistências da jovem cortejada, o namoro, em grande parte, continuava do mesmo modo como foi iniciado: sujeito aos vais-e-vens dos carteiros. Mas, o que fazer, se do modo convencional ele não fora exitoso em qualquer de suas desajeitadas tentativas?

Pois então, só restava procurar ampliar o leque de circulação das missivas, apelando para que lhe escrevessem, partindo para seções de correspondências, comuns em diversos periódicos. É preciso salientar de passagem, que aquelas primeiras jovens contactadas por meio das correspondências, de algum modo, já eram suas conhecidas, com quem já houvera entabulado algum diálogo presencial, sem ter conseguido avançar ao ponto de uma exposição dos motivos que o levara a principiar o papo.

Portanto, a partir do momento em que enviou cartas à seção de “leitores” da revista “Jovem Cristão”, editada pela Casa Publicadora das Assembléias de Deus (CPAD), as respostas passariam a vir-lhe ao encontro, mediante a intermediação da revista, que, por sua vez, apresentava à futura correspondente, apenas a pessoa descrita por ela mesma, sem maiores detalhes imagéticos.

Assim, como resultado do envio de uma carta para a referida seção, no primeiro trimestre do ano de 1989, uma avalanche de correspondências chegou ao endereço deste garatujador, procedente de todas as partes do Brasil, por onde circulou a já mencionada revista, cuja capilaridade era bastante complexa, na medida em que podia chegar às mãos de senhoritas assembleianas residentes nos mais distantes pontos cardiais do território, bastando haver ali uma Igreja Assembleia de Deus e, nela, alguém que soubesse e gostasse de ler o periódico editado para o público jovem da denominação, mas, não exclusivamente, é claro. Sistemática e atenciosamente, foram lidas todas as cartas recebidas e, todas elas foram respondidas. Na medida que as conversas se desenrolavam, as afinidades se aproximavam ou distanciavam, promovendo a continuação ou não das conversas; o aprofundamento ou não das trocas missivísticas. Por fim, chegando ao ponto de haver uma redução na circulação das cartas, até ao ponto de se tornar uma correspondência mais assídua, mais amiudada e, mais especial.

Desta maneira, se chegou a uma dentre as correspondentes, que se fez eleger como aquela a quem se dedicaria mais tempo e atenção. Talvez, na mesma medida, a missivista passara a dispensar mais atenção e cuidado no escrever, no decorar, no perfumar as cartas que enviava, de tal modo que passava a ser esperada com mais ansiedade e maior expectativa, a sua resposta, à carta que lhe fora dirigida. Neste vai-e-vem de cartas, fez-se comum o interesse relacional, em um trocar de falas e impressões, abrindo pouco a pouco a possibilidade de um encontro presencial entre aqueles dois jovens, ainda desconhecidos um do outro do ponto de vista pessoal mas, que já se sentiam ligados por meio dos escritos entre eles trocados.

Chega dezembro de 1989 e, com ele, a concretização de um plano arquitetado durante todo o transcurso dos meses a partir dos quais a correspondência tomou outros rumos, que não mais a mera consolidação de uma amizade. Era, pois, o momento de tornar real uma troca de afetos, não mais intermediados pelos Correios, mas, sim, mediante o deslocamento até o Estado do Rio de Janeiro, onde residia a correspondente. Da capital fluminense até a cidade de Resende, localizada no sul do Estado, mais de cem quilômetros ainda precisavam ser percorridos. Tendo lá chegado quase ao fim da noite, ele se acomodou em um hotel, que mais parecia casa de uma antiga elite, talvez de uns 50 anos antes, considerando-se os tempos de prosperidade da região, aos tempos do que se poderia denominar “ciclo do aço”.

Era o último dia do ano, manhã fresca de domingo, sob uma temperatura amena naquele quarto de hotel quase rústico, este escrevente acordara cedo, ainda perguntando a si mesmo, se de fato ali estava, na realidade ou, se não era uma fantasia engendrada pelo seu cérebro. Mas, pensava em contraponto, os ônibus em que viajara até ali, seria também uma invenção fantasiosa do cérebro? Certamente não, dizia, de si para consigo.

Levantara-se e, ao respirar o ar daquela cidade, se enchera de coragem e saíra com o fito de se dirigir ao bairro de Santo Amaro, onde se localizava a igreja frequentada pela jovem e seus pais e irmãos. Ao descer do ônibus e percorrer o trecho que faltava para alcançar o templo da assembleia de Deus, uma música tocava nas casas do seu entorno. Impressionava a este garatujador, o fato de lhe parecer ouvir aquela música pela primeira vez, quando na verdade, o que pode ter ocorrido, é ele ter prestado atenção nela, pela primeira vez, dado ao inusitado do momento que ora vivia: encontrar alguém, com quem ainda não o tivera visto, como de fato ele era, apesar de já lhe ter visto em fotografias.

Naquele dia 31, bem como durante toda a sua estada naquela cidade, a música de Gloria Stefan chegava aos ouvidos daquele forasteiro; parecia que era deliberado. Quer fosse em receptores de rádio que houvesse por perto, quer por outros meios sobre os quais ele não possuía qualquer controle, a música tocava, tocava, tocava...

https://youtu.be/J1x1WGtePSE

 

Professor Jorge Damasceno – 22 de outubro de 2020.