quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Histórias e Memórias de Alagoinhas, pelos escritos de Maria Feijó - XXII

 

Histórias e Memórias de Alagoinhas, pelos escritos de Maria Feijó – XXII – Tempo e espaço – algumas breves considerações.

 

Neste ponto da análise de “Pelos Caminhos da Vida de Uma Professora Primária”, obra publicada há quarenta e dois anos pela literata alagoinhense Maria Feijó de Souza Neves (1918-2001), é preciso analisar um aspecto daquela construção literária, dentre outros que já foram esquadrinhados por aqui ou em outros lugares. Faz-se necessário atentar para o estabelecimento da relação “tempo” e “espaço”, que pode ser apreendida em todo o transcorrer de uma leitura atenta e profunda da obra em exame.

Assim é que, ao desenvolver a sua escrita, Feijó se utiliza de elementos do presente para ressignificar o passado que pretende trazer ao conhecimento do seu leitor. O tempo presente é o tempo em que ela se insere, com suas nuances, suas ideias, suas expectativas e suas perspectivas, indicando que ela, em grande medida, sofre as influências dos elementos culturais dos quais está impregnado o seu modo de pensar. A partir dele, usando as técnicas de que dispõe naquele momento para criar, revisita um passado que viveu, mas que, como já se disse, não tem como o trazer para o presente, do mesmo modo como foi por ela vivido. De sorte que, para o seu trabalho de “rememorar” aquele passado, precisará lançar mão de fragmentos daquele passado que pretende reconstruir.

Assim, ao introduzir o trabalho narrativo que será desenvolvido por Marta, Feijó aponta para a ideia de tempo, na medida em que indica para Maria Clara que aquela exposição não será rápida. Aquele rememorar se fará em torno de algumas gerações de professoras, desde aquelas que atuaram na formação de Maria Luiza Peixoto, passando por aquelas outras que por ela mesma viessem a se formar, alcançando a própria Maria Clara, recém-inserida no jornalhar diário de professora. Não é sem razão a advertência de Marta à sua interlocutora: “É longa, mas não dá para ter sono, não, porque movimentada e cheia de variedade de cenários, apesar de ter sido quase toda ela passada no Interior[...]”. (FEIJÓ, 1978, p. 23).

Em todo o transcurso da narrativa, Feijó está envolta em “tempos” que se interpõem. Um tempo, está representado pelo “presente”, isto é, no momento mesmo em que ela escreve o seu texto, cria os seus personagens e elabora a trama no qual os movimentará. Aquele presente, talvez possa ser situado entre os anos de 1976 e 1977. Neles se pode encontrar alguns elementos constitutivos do pensamento cultural, filosófico e literário, que podem ter levado Maria Feijó a escrever o que escreveu e como escreveu.

O outro tempo que envolve Feijó, no sentido de construir os seus “rememorares”, é o “tempo passado”, que ela pretende “reconstruir”, sem que o possa fazer, conforme já se observou em outros arrazoados, na medida em que, por mais que tenha havido um grande esforço de sua parte, o “passado” como de fato ele foi vivido e até mesmo testemunhado, não poderia ser trazido integralmente para o presente. Os fragmentos daquele “passado” “recuperados” pela memória, já estão contaminados pelo “presente” e ressignificados por quem os torna públicos, quer em forma de um trabalho historiográfico, quer em forma de uma narrativa literária – como é o caso ora em exame.

Mas há um outro elemento que, em concomitância com o “tempo histórico”, de igual modo age sobre o processo criativo de Maria Feijó. Está se falando do “espaço”, aqui entendido como sendo o “[...] lugar que se estabelece na materialidade física, como campo que é gerado através das relações sociais, ou como realidade que se vê estabelecida imaginariamente em resposta aos dois fatores anteriores”. (BARROS, 2005, P. 96). Observe-se o que diz a narradora, continuando o seu introito, para convencer à sua interlocutora. Fala de “paisagens” que estão à vista das duas; mas fala também de “interior”, conceito um tanto abstrato para a jovem citadina. Marta prossegue:

“[...]. Olhando o mar, o céu, e o sol, lindos como estão, com certeza você me escutará a-ten-ci-o-sa-mente... Se for preciso — e bem provável é — iremos até nossa casa, o que só me dará prazer. Há muito isto não acontece. O dia é grande. Se necessários, teremos novos dias pela frente uma semana talvez. Suas férias aí estão e poderei compartilhá-las com você. Será mesmo interessante, porquanto emolduraremos esta história, de céu, e mar, e sol, e festa de luz, diariamente, em deliciosos banhos, para alegrar um pouco o panorama rústico do Interior onde ela, como disse, quase toda, aconteceu e, continua, talvez... indefinidamente, nas sucessivas gerações, acontecendo...” (FEIJÓ, 1978, p. 23).

 

Portanto, é de “espaço” que Marta está falando, ao reportar-se, tanto ao “lugar” onde entabulam a conversa e, caso precise, poderão continuar a fazê-lo, quanto ao “lugar” a respeito do qual falará, ao levar a bom termo a sua narrativa. Conforme assevera José D’Assunção Barros,

“As ações e transformações que afetam aquela vida humana que pode ser historicamente considerada dão-se em um espaço que muitas vezes é um espaço geográfico ou político, e que, sobretudo, sempre e necessariamente constituir-se-á em espaço social. Mas com a expansão dos domínios históricos que começou a se verificar no último século, este Espaço também pode ser perfeitamente um “espaço imaginário” (o espaço da imaginação, da iconografia, da literatura), e adivinha-se que em um momento que não deve estar muito distante os historiadores estarão também estudando o “espaço virtual”, produzido através da comunicação virtual ou da tecnologia artificial. [...]”. (BARROS, 2005, p. 95-96).

Ainda recorre-se a Barros, no sentido de compreender que “[...], a noção de espacialidade foi se alargando com o desenvolvimento da historiografia do século XX: do espaço físico ao espaço social, político e imaginário, e daí até a noção do espaço como “campo de forças” que pode inclusive reger a compreensão das práticas discursivas. [...]”. (BARROS, 2006, p. 464).

 

Ao iniciar a descrição da sua “amiga”, Marta faz uma rápida descrição dos “espaços” onde ela nascera, crescera, se desenvolvera e se tornara o agente ativo do seu narrar. Diz ela:

Perdida lá no interior da Bahia, na Cidade de Alagoinhas em meio às laranjeiras em flor e aos cajueiros frondosos de seu sítio querido, havia uma garota raquítica, pequenina, ”um pingo de gente”, que nem se sabia se chegaria mesmo a crescer, chamada Maria Luísa Peixoto de Moura. Luisinha na intimidade. Todos desprezavam o Maria. Era conhecida, familiarmente, por” Luisinha” e, fora do lar, desde a escola primária,” Peixoto”. Não se sabe por que isto, mas assim a tratavam. E pegou. [...]”. (FEIJÓ, 1978, p. 23).

Como se pôde perceber, uma diversidade de espaços aparece na descrição feita por Marta, conforme apontado por Barros na citação que fora transcrita antes. Os espaços físicos, sociais, políticos e culturais já estão delineados por ela, se configurando como sendo a “paisagem” que está construindo, no sentido de dotar o leitor de um vasto conjunto de elementos, com o fito de permitir ao leitor uma compreensão mais alargada da mensagem que pretende transmitir, ao desenvolver a tessitura da trama sócio-histórica que envolve o ser professora primária.

 

Professor Jorge Damasceno – 21 de outubro de 2020.

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Um Escrevedor Fala de Memória Musical - III

 

Um escrevedor fala de memória musical – III – Ainda 1969: um ano prenhe de histórias, memórias e músicas

 

Esta já é a terceira incursão que este escrevedor faz ao interior de sua memória musical, procurando revolver camadas de lembranças que se encontram em vários momentos vividos de seus já quase sexagésimo ano de existência. Grande parte daquelas camadas são levantadas por meio da audição de músicas que, ao lhe penetrar o âmago das reminiscências, traz outras memórias a elas relacionadas.

Para começar, pode se dizer que aquele ano de 1969, fora prenhe de histórias de conflitos bélicos por territórios e supremacia ideológica/tecnológica – corriam pelo mundo os efeitos da “Guerra Fria” impulsionada pela “corrida armamentista” e os horrores da Guerra do Vietnam” -, de  disputas por hegemonias políticas e sociais, bem como, marcado por lutas e confrontos existenciais – ainda se respiravam os ares das jornadas de maio de 1968 e se difundiam os paradigmas da “contracultura”. No Brasil, ele é marcado pelo endurecimento do regime instalado em 1964, com a criação de uma legislação de arbítrio, que levara aos porões dos “DOPS” e prisões das Forças Armadas, um grande número de artistas, diversos intelectuais e todos aqueles de quem se suspeitasse.

1969 também é pleno de memórias e narrativas daqueles que o viveram intensamente, quer como opositores do regime, quer como quem nele se engajou para dele receber as benesses – a grande imprensa brasileira é um exemplo deste último grupo. O interessado em tais memórias, pode encontrar uma profusão delas nos relatórios das várias Comissões da Verdade que funcionaram durante o governo de Dilma Rousseff; também há uma profusão de memórias (auto) biográficas de agentes públicos – civis ou militares – e de cidadãos comuns. Este vastíssimo material tem sido estudado em diversas universidades brasileiras e em grandes espaços de pesquisa no exterior; mas, se sabe que ainda há muito por fazer, por examinar, por escrever.

É naquele ano que Richard Nixon e Emílio Garrastazu Médici tomam posse na presidência dos seus respectivos países; no Brasil, em meio aos efeitos do regime militar instalado cinco anos antes, se dá o sequestro do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, logo trocado pela liberdade de presos políticos, até então, mantidos pelo regime dos generais. Aquele ato de grande risco, foi perpetrado como parte das ações de grupos que se opunham ao domínio do Estado ditatorial brasileiro, instaurado pelos militares; é também naquele ano que o ativista Carlos Marighela é emboscado e morto pelos comandados do delegado Fleury; ainda em 1969, o mundo assistia The Beatles realizarem o último show e lançarem o último disco; é também naquele ano que morre o segundo dos generais presidentes do Brasil.

Como se pode observar, trata-se de um ano bastante movimentado nos vários campos do viver humano, tanto no Brasil quanto fora dele.  Alguns exemplos: naquele ano, prossegue a profusão de “Atos Institucionais – os “AI”, entre eles o que instituiu a nova composição do “STF”, reduzindo de dezesseis para onze, o número de cadeiras a serem ocupadas naquele corpo jurídico; o Congresso Nacional é reaberto, depois de ter sido fechado pelos efeitos do AI5, em 13 de dezembro do ano anterior; é promulgada a Emenda Constitucional Número  1“, que praticamente reescreve a Constituição promulgada pelo governo do generalato em 1967, dentre outros fatos que movimentaram a política, a economia, a sociedade e a cultura  brasileira, no ano em que a TV Globo exibe pela primeira vez o seu “Jornal Nacional”, do nascimento da Embraer e no ano dos primeiros resultados de experimentos que levaram a criação da Internet.

É preciso salientar de passagem, que grande parte daquilo que foi exposto até aqui, no momento mesmo do seu desenrolar, não é parte da memória vivida por este escrevedor, evidentemente. As informações foram colhidas no transcurso do seu viver e fazem parte do rememorar coletivo, que é reforçado e solidificado pela escola, pelos livros, pelos filmes, pelos documentários, pelos arquivos – públicos ou privados -, pelas narrativas daqueles que vivenciaram os eventos incrustrados na construção coletiva da memória. Tal memória vai ganhando corpo com o passar do tempo e vai se incorporando à construção mental do indivíduo que se insere no processo histórico social. No dizer de Maurice Halbwach (1877-1945):

“[...]. Ao crescer, especialmente quando se torna adulta, a criança participa de modo mais distinto e mais refletido com relação à vida e ao pensamento desses grupos de que fazia parte, no início quase sem perceber. Como isso não modificaria a idéia que ela tem de seu passado? Como as novas noções que ela adquire, noções sobre fatos, reflexões e idéias, não reagiriam sobre suas lembranças? Já repetimos muitas vezes: em medida muito grande, a lembrança é uma reconstrução do passado com a ajuda de dados tomados de empréstimo ao presente e preparados por outras reconstruções feitas em épocas anteriores e de onde a imagem de outrora já saiu bastante alterada. Claro, se pela memória somos remetidos ao contato direto com alguma de nossas antigas impressões, por definição a lembrança se distinguiria dessas  idéias mais ou menos precisas que a nossa reflexão, auxiliada por  narrativas, testemunhos e confidências dos outros, nos permite fazer de como teria sido o nosso passado. Não obstante, ainda que seja possível evocar de maneira tão direta algumas lembranças, é impossível distinguir os casos em que assim procedemos e aqueles em que imaginamos o que teria acontecido. Assim, podemos chamar de lembranças muitas representações que, pelo menos parcialmente, se baseiam em testemunhos e deduções — mas então, a parte do social, digamos, do histórico na memória que temos de nosso próprio passado, é bem maior do que podemos imaginar. Isso, porque desde a infância, no contato com os adultos, adquirimos muitos meios de encontrar e reconhecer muitas lembranças que, sem isso, teríamos esquecido rapidamente, em sua totalidade ou em parte”. (HALBWACH, 2006, p. 91).

 

Dentro desta perspectiva, grande parte das melodias que foram lançadas ou bastante tocadas em 1969, só chegaram a este escrevedor algum tempo depois, construindo um outro feixe de lembranças que se ligam àquele tempo em que foram ouvidas. Isto é: nem sempre estão relacionadas ao momento do seu surgimento para o público em geral, mas sim, ao instante em que chegou pela primeira vez aos seus ouvidos, em tempos e circunstâncias diferentes.

Outrossim, um abundante número de narrativas sobre aquele ano, traz ao leitor uma memória coletiva bastante expressiva, no que tange ao mundo da produção musical. 1969 está em curso e, nele, algumas músicas e lembranças se destacam e se misturam. Naquele ano houve uma grande quantidade de lançamentos de “long. plays” que acabaram se tornando clássicos do universo discográfico brasileiro, para ficar só no campo nacional. Foi o caso, por exemplo,, da explosão de músicas como “Aquele Abraço”, de Gilberto Gil, “País Tropical”, Wilson Simonal, “Estrada de Santos”, Roberto Carlos, “Irene”, música que Caetano Veloso compôs na prisão por subversão, entre tantas outras, além do lançamento do primeiro disco de Antônio Marcos,  LP no qual foi gravada a música comentada no arrazoado anterior, mas que não foi a mais tocada dentre as suas doze faixas. Podem ser destacadas mais duas músicas daquele álbum, cujo título é “Antônio Marcos”: “Você pediu e eu já vou daqui”, canção que abre o disco;

https://youtu.be/bbsNPb-A1Po

e a música “Sou Eu”.

https://youtu.be/GcwfZdrTedE

A primeira delas, sempre foi tocada ao longo dos anos, também é facilmente encontrável nas produções que intitulam “20 melhores” do artista tal; a segunda, há muito já não era ouvida por quem escreve estas páginas, por ser pouco tocada nos programas de “flash Back”. Ao preparar o arrazoado anterior, o disco completo foi ouvido e, aos seus primeiros acordes, logo foi reconhecida, como tendo sido ouvida na época mesma de sua execução, talvez, na rádio Emissora de Alagoinhas – da qual já se falou em exposições pretéritas.

Já vão longas as páginas destes rememorares e, é preciso falar que a música que se quer trazer à apreciação dos leitores, como já deve ter ficado claro, é do ano de 1969 e, a sua audição traz a este escrevedor, impressões olfativas, sensitivas, táteis e até auditivas  de um tempo em que toda esta área de sua residência e entornos, era um quase quadrado de uns trezentos metros a partir da estrada de ferro e uns mais ou menos duzentos e cinquenta metros, na direção do rio Aramari, cujos loteamentos eram oriundos de fazendas de plantação de fumo e mandioca, imensos coqueirais e laranjais, de ocupação ainda rarefeita.

É nítido o rememorar de espaços ainda sem casas, com vasta vegetação rasteira, algumas árvores frondosas e, sobretudo, aquelas partes dos novos loteamentos que são demarcadas com meio-fio, que serviam de estrada em momentos de alagamento, o que era bastante comum nos invernos vividos naqueles idos de 1969 e, que perdurou por bastante tempo, até que nos anos dois mil, o local  viesse a ser urbanizado.

Talvez fosse no rádio do caminhão do senhor Heupídio, residente em um daqueles novos loteamentos estabelecidos na antiga fazenda de Álvaro Dantas, ou mesmo na casa do senhor Teobaldo e de dona Janda, também residentes no local, que este escrevinhador ouvia os belíssimos acordes de um dos maiores êxitos de Erasmo Carlos, que, diga-se de passagem,  aquela música foi o seu divisor de águas, conforme entrevista do artista, concedida anos depois à imprensa.

Quem conhece esta história, sabe que a melodia em questão é: “Sentado à Beira do Caminho”, na inconfundível voz daquele que sempre assinou diversos sucessos de Roberto Carlos, mas que não conseguia emplacar o seu próprio.  

https://youtu.be/Q7jeJfIh7Mw

 

Professor Jorge Damasceno – 14 de outubro de 2020.

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Histórias e Memórias de Alagoinhas, pelos escritos de Maria Feijó - XXI

 

Histórias e memórias de Alagoinhas, pelos escritos de Maria Feijó – XXI –A literata prepara o monólogo de Marta.

 

Há largos e já bons sete anos, se tem procurado refletir sobre as Histórias e as Memórias de Alagoinhas, a partir da leitura dos escritos de Maria Feijó, sobretudo, aqueles produzidos em prosa – Alecrim do Tabuleiro (1972); Pelos Caminhos da Vida de uma Professora Primária (1978); Pensionato Paraíso das Moças & Outros Ensaios (1988) -, visto que a sua obra é bem mais vasta e composta majoritariamente de poesias. Era outubro de 2013, quando esta série começou a ser publicada no jornal eletrônico “Alagoinhas Hoje”, em um espaço chamado “Histórias e Memórias”, que foi gentilmente reservado para este escrevedor, pelo seu editor, um amigo de largas décadas, o licenciado em história e jornalista, feito nas redações de diversos jornais alagoinhenses e soteropolitanos, Maurílio Fontes.

Até maio de 2015, foram publicados  dezesseis arrazoados naquele periódico, tendo os quatro primeiros deles, já sido revistos e publicados como um dos capítulos do livro “Alagoinhas: histórias e historiografia”, organizado pela professora Eliana Batista; alguns outros tiveram partes inseridas em artigo publicado na revista eletrônica “Veredas da História”, além de outros daqueles textos, que ganharam forma de artigos e se encontram ainda inéditos. Depois de alguns anos, tem sido retomada aquela análise, com a publicação do arrazoado de número 16, revisto e ampliado, que ensejou o desenvolvimento dos escritos trazidos ao público leitor deste blog.

Como se tem salientado desde então, “Pelos Caminhos da Vida de uma Professora Primária”, é uma obra a partir da qual se pode fazer várias leituras, pode se ter várias compreensões no que tange ao conjunto de sua composição e, a partir dela construir uma gama variadíssima de interpretações, evidentemente, dependendo do ponto de observação escolhido por quem se disponha a esquadrinhá-la e examiná-la.

Assim é que, ao escrever no arrazoado publicado na já mencionada obra organizada por Batista em 2015, postulou-se a assertiva de que “[...], em toda sua obra, pode-se perceber a prevalência  dos ”elementos constitutivos da memória”, mediante os quais, Feijó  tece as suas narrativas, apontando ao pesquisador, inúmeras pistas, a  partir das quais deverá desenvolver suas investigações, no sentido de  escrever sobre a história por ela contada, de modo a confrontar as memórias construídas sobre um tempo, um lugar, um fato ou um sujeito  dado”. (DAMASCENO, 2015, p. 127).

Ao que parece, Feijó procura construir aquilo que se chamaria de “romance histórico”, entendido como sendo uma obra literária estruturada em pesquisa realizada em fontes históricas como periódicos, obras de referência – no caso em exame, em sua própria memória, considerando-se os limites já apontados – e, lançando mão da imaginação para suprir a falta de “elementos históricos comprováveis”. Seria interessante fazer-se um estudo acerca daquilo que foi lido por Maria Feijó, talvez com base na composição de sua biblioteca. Vale ressaltar que, por ter sido bibliotecária por várias décadas, ela poderia ter tido acesso a uma vasta gama de obras e autores e, deles ter extraído a seiva que permitiu fazer a planta crescer, se desenvolver, florescer  e brotar em forma de uma tão alentada prosa, como é “Pelos Caminhos da Vida de uma Professora Primária”.

Enfim, não se pode perder de vista que está se tratando com uma obra de alguém que era classificado como “intelectual”, pois integrava academias literárias e nelas, tivera ocupado cadeiras de alguma relevância. Naqueles espaços, ela bem poderia ter apreendido muitos dos paradigmas que norteavam a construção literária, fazendo uso deles na composição da obra ora em exame.

Mas, dê-se-lhe a palavra, para que ela finalmente permita a Marta protagonizar o monólogo por meio do qual conduzirá o percurso que a levará até Luísa Peixoto. Quando Maria Clara objetara as palavras de conforto ditas por Marta, argumentando que, para além dos minguados salários de professora, havia a necessidade de levar para casa uma parte do seu trabalho e, questionar se, em tais e quais condições “dava para se manter otimista”, Clara talvez apontasse para um excesso daquilo que se convencionou denominar “síndrome de Poliana”.

Pode ser que Feijó tenha incutido tal comportamento em Marta, talvez, com o objetivo de prover as condições narrativas que Marta precisaria ter, a fim de mais profundamente fincar os seus pés na “história” que lhe deu a contar.

Ao lançar lhe de chofre a pergunta, a jovem professora acabou por paralisar a amiga, como que dizendo que não haveria mais o que falar, diante da situação de desalento em que se encontrava com a profissão escolhida e tão ardentemente desejada por ela, mas, escolha não recebida de bom grado pelos seus familiares.

Assim, Feijó ainda no seu posto de comando da narração, escreve:

 

Marta silencia um pouco. Nada responde. Tem pena da ingenuidade de Clarinha. Olha-a com ternura, respira fundo e pensa descobrir um jeito para amenizar aquele desânimo. Tão nova, tão cheia de vida e de ideal e, paradoxalmente, tão decepcionada, desanimada, aflita dessa maneira e não com muita razão. Reerguer aquele ânimo, precocemente abatido, pensa, mas... como? Como fazê-lo?” (FEIJÓ, 1978, p. 21-22).

Aqui, a literata alagoinhense indica aos seus leitores, qual o meio de que se vai servir para dar fluência ao seu rememorar. Diz ela acerca de Marta, ainda quase paralisada pelo efeito que lhe causara a “decepção”, o “desânimo”, para ela, ainda precoce e a “aflição” que a atribuía a ingenuidade e/ou a pouca idade de “Clarinha”:

“Transporta-se para outras plagas muito conhecidas suas onde outras jovens iguaizinhas a ela, Clarinha, em tempos remotos, e nestes ainda, tinham (e têm), no magistério, vida bastante diferente, e quanto! Pensa... Pensa durante segundos. Vindo do passado, um estalo descobre-lhe o roteiro, esclarecendo o nome do remédio para a cura ou, ao menos, paliativo para o” grande mal.” (FEIJÓ, 1978, p. 22).

Neste ponto, cabe uma observação do leitor. Parece que Feijó tem alguma dificuldade de sair de cena, na medida em que ela conduz os personagens, de modo a deixá-los sob o seu controle – talvez, isto não seja uma dificuldade, mas, sim, uma técnica literária. Seja como for, a proposta de criar uma personagem para conduzir a narrativa monologamente é dela própria. Logo, por que tanta dificuldade em deixar que a própria narradora seja aquela que conduzirá o processo narrativo? Isto pode levar o leitor a inferir que, de fato, Feijó não quer e não pode deixar a personagem conduzir sozinha o seu narrar, exatamente porque é ela mesma, Feijó, a narradora.

Feijó devolve a palavra para Marta, que se dirige a sua interlocutora:

“Escute, Clarinha, não é a título de consolo que lhe vou dizer uma coisa, porque você não precisa. E sim é para você mesma, inteligente, otimista e cheia de ideal como sempre foi procurar buscar no âmago do seu eu, as reservas nele guardadas, utilizá-las quando necessário e... tirar suas próprias conclusões. Certo?” (FEIJÓ, 1978, p. 22).

Aqui, ela retoma o fio condutor da narrativa, talvez, só para reforçar a observação feita acima, para fazer uma descrição que, bem poderia ter deixado a própria Marta fazer. Diz ela que Maria Clara, diante da proposta da amiga, ficara “Parada, limitando-se a balançar, afirmativamente, a cabeça, Clarinha dispõe-se a ouvi-la”. E prossegue com sua descrição, desta vez de Marta, que, começa a assenhorear-se da situação. Diz Feijó:

 

“Marta, sutilmente, fica a matutar, matutar, antes de dar início àquela” talvez miraculosa” — sim, vamos dizer assim — cura, buscando palavras para sua conversa. Com bastante calma, inicia-a” (FEIJÓ, 1978, p. 22).

Ao iniciar a sua fala, Marta procura levar até a jovem amiga, as credenciais que poderão dar um aspecto de força e veracidade ao que passará a narrar, dali há algumas linhas. Diz ela:

“— Você sabe, perfeitamente, que não sou daqui. Sou baiana, vindo para esta Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, há alguns anos e... Professora Primária formada por uma Escola Normal do interior do Estado da Bahia. E o sou com muito orgulho, porque, uma base bem alicerçada foi o que lá obtive para tudo quanto tenho tentado na vida e, por mais incrível que possa parecer, às vezes, até penso haver chegado, primeiramente, às minhas mãos, o diploma de uma Faculdade, antes mesmo de tê-la cursado. Muito bem! Lá deixei muitas amigas — oh! e como são boas e sinceras! —, colegas de turma a quem visito, amiúde, pois todo ano vou — e Deus me livre não o fazer sempre! — à Bahia.” (FEIJÓ, 1978, p. 22).

Segue ela, agora apresentando a pessoa de quem pretende contar a saga, esperando com isto, que a sua interlocutora se refaça do desânimo e da decepção. Talvez esteja embutida aquela ideia que diria: “há quem sofra mais do que eu”, logo: “eu não tenho razão para reclamar, para parar, para desanimar”. Para este escrevente, tratar-se-ia de uma “ideologia” do otimismo, que, entende-se, tanto mal faz àqueles que a adotam. E, assim diz Marta:

“E é a história de uma delas, daquela que é mais minha amiga que lhe vou contar, simbolizando a de todas as Professoras Primárias do interior do Estado da Bahia, cujas vidas são iguais ou. talvez, piores do que a dela. Frisando que, tal desenrolar de fatos no concernente à vida de Professora propriamente dita com efetivo exercício, deve ser transportado para umas duas décadas e meia, mais ou menos, distantes. (Que é isso, minha amiga? Não se espante tanto assim, não, com esse olhar surpreso!... Quase nada difere das que hoje ainda lá integram o próprio magistério, vivendo a sua idade, no mesmo Interior. Os problemas, se não são iguais, são muito parecidos, apesar da era das comunicações e dos jatos.) Minha verdadeira opinião sobre essa moça, abstenho-me de dizer-lha. Sou suspeita para tanto pela amizade que nos une. Apenas, contar-lhe-ei o seu drama, idêntico em todas as vidas de suas colegas (poucas nuances diferentes) e você, por você mesma vai constatá-la!” (FEIJÓ, 1978, p. 22).

 

Feijó, outra vez interfere na narrativa para informar ao leitor que “Clarinha só faz olhar a amiga com olhar descrente e sorriso, idem. Enquanto Marta continua”.

E, com esta passagem, fica patente a ideia de um monólogo, o que parece não preocupar a autora, pois não faz qualquer reparo ou pedido de desculpas aos leitores. E é Marta quem propõe: “— ... faça o favor de me ouvir quietinha, caladinha, aqui no refúgio de nossa barraca, só opinando quando eu terminar”.

 

Como se pode perceber, a trajetória da professora primária que Marta se proporá a descrever, seria uma espécie de percurso comum a todas as pessoas que exerceram e/ou exercem o magistério, sobretudo, o primário. Dar a conhecer a vida deste tipo de profissional, talvez pensasse Maria Feijó, seria uma forma de chamar a atenção da sociedade, para o modo como estes profissionais são por ela tratados, como paga, talvez, do seu trabalho de formação, inclusive, daqueles que deles não gostam e desdenham.

 

Professor Jorge Damasceno – 12 de outubro de 2020.

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

A segunda investida na "memória musical".

 

Um escrevedor fala de memória musical II.

Nesta segunda incursão no recanto da memória deste escrevedor, coletivamente construída, se fará um mergulho no tempo até o ano da graça de 1969. Aquele fora um ano bastante movimentado, em vários campos do viver cotidiano dos habitantes do mundo ocidental que vivia o auge da chamada “Guerra Fria”, com o foco no esforço norte-americano no sentido de dobrar o “Vietnam” ao julgo do capitalismo que queriam impor por suas armas; os terráqueos assistiam estupefatos o pouso da Apolo 11 na lua, mediante grande espetacularização do feito, que também era parte do esforço norte-americano pela hegemonia na corrida espacial, que travava com a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas; os brasileiros viviam os seus “anos de chumbo”, sob o signo do Ato Institucional N.o 5; também viviam o tempo dos grandes festivais de música popular; apreciava-se o movimento da “jovem guarda”, com as versões de Rossini Pinto (1937-1985),que fizera de sucessos executados no norte da América e na Europa, cujas melodias eram de músicas originalmente gravadas em inglês, francês, italiano entre outras, que ganhavam letras em português, com temáticas variadas, sobretudo, relacionadas aos amores vividos, perdidos, desejados, algumas traziam temas relacionados aos movimentos capitaneados pela juventude burguesa – majoritariamente europeia e norte-americana -, que se convencionou denominar de “Contra cultura”, trazidas à interpretação de gente como Wilson Simonal, Wanderléa, Vanusa, Jerry Adriani, Wanderley Cardoso, Roberto Carlos, os Incríveis, The Fevers, entre tantos outros.

Em Alagoinhas, 1969 se inicia com este escrevedor sendo levado pela primeira vez ao Grupo Escolar Brasilino Viegas, para ali começar a sua vida estudantil; também naquele ano, chegava à energia elétrica em sua casa. Devido à expansão daquele serviço público aos novos espaços de residência de pessoas de baixa renda, acabou por propiciar a instalação da novidade na modesta casa onde viviam mãe e três filhos.

E, a energia elétrica em casa, significava ouvir rádio e, nele, ouvir músicas em profusão, visto ele não possuir meios de audição de discos. É cediço que o rádio tem uma importância crucial na formação deste escrevente, uma vez que por grande parte de sua vida, o rádio foi o seu livro, o seu jornal, o seu formador de vocabulário, o seu construtor de consciência política, a sua companhia nas horas insones, tão comum a ele e, parece que igualmente comum aos que não enxergam, conforme se foi constatando à medida que tomava contato com outros cegos e tomava conhecimento deste fenômeno que  sempre acreditou ser um evento somente seu.

Como já foi dito na crônica anterior, a memória musical deste que garatuja estas linhas, é plena de reminiscências de melodias, algumas completas, outras, em grande parte, fragmentadas, que vez por outra surgem nos seus pensamentos, quase sempre trazendo outros elementos consigo, que permitem sentir cheiros não mais existentes, paladares muito distantes no tempo e, até mesmo sensações táteis de espaços já não mais visitados e superfícies há muito não mais tocadas.

Assim, ao trazer à superfície da memória algum fragmento de melodias que ouvira há já um bom tempo – ou mesmo há não tanto tempo assim -, uma gama de lembranças assoma ao pensamento e desencadeia um turbilhão de sensações, que, saliente-se, demora o tempo apenas suficiente para que o rememorar se configure e o rememorante se assegure de não estar em uma realidade sólida, mas sim, em uma realidade que já se configurou em passado.

O ano de 1969 foi pleno de músicas que ficaram na memória deste escrevedor e, a que hoje vos será apresentada, ficou por muito tempo como fragmentos de melodia e letra, visto que com o passar dos anos, ela foi esquecida pelos produtores de programas de “flash back” das emissoras de rádio brasileiras, ou, pelo menos, aquelas que eram ouvidas com regularidade. Mas, as lembranças de seus fragmentos traziam consigo as demais lembranças acima aludidas, o que açulava a vontade de ouvir de novo aqueles acordes, pois, por eles, vinha a saudade de um tempo que fora vivido, mas que a ele não mais se poderia voltar.

Chega a era dos computadores e da internet e, com eles, o desejo de encontrar tais músicas. Para tanto, se fez várias incursões com o fito de encontrar: se sabia o nome do intérprete – Antônio Marcos (1945-1992). Mas, não se sabia o nome da música, embora a sua melodia estivesse nítida na “memória auditiva” de quem a procurava.

Depois de algum esforço para juntar os fragmentos da letra que ainda estavam na memória, se conseguiu um trecho mais ou menos coerente da letra, que dizia: “... eu preciso encontrar alguém que viva só; eu preciso achar alguém que sofra como eu também; se então, alguém souber de quem não teve amor: mande este alguém falar comigo, por favor....”.

É interessante notar que, foi feita uma busca em alguns sites que listam um grande número de cantores e as suas músicas mais executadas – o dicionário Cravo Albin, inclusive. Antônio Marcos aparece, em quase todas as listas. No entanto, a música que se procurava, não apareceu em nenhuma delas.

Assim, ao pesquisar no Google usando o trecho acima, finalmente se chegou à música tão desejada de ser encontrada e ouvida... “Eu preciso Encontrar Urgentemente”, este é o seu título.

Ao penetrar o som daquela melodia nos ouvidos deste escrevedor, vieram as lembranças do tempo em que se contava oito, nove ou dez anos, com vários cheiros e sensações táteis vindo ao rememorar.

Evidentemente que para esta memória, a letra não estava relacionada a um “amor” não tido ou perdido. Mas, estava relacionada com a solidão que já se fazia marca indelével do viver deste lembrador, uma vez que os seus amigos eram poucos, pouquíssimos, se diria; os seus colegas de escola, moravam longe e não se podiam encontrar, quer para estudarem juntos; quer para fazerem estripulias de meninos; os seus irmãos eram mais velhos e já possuíam uma rotina diferente da dele...

Então caríssimos leitores, aí está o link daquela música que não se ouviu por largos anos, mas que permaneceu sob profundas camadas de memórias, apenas esperando ser convocada à superfície, mediante os primeiros acordes de sua composição melódica, quando viessem a ser ouvidos. Está inserida no primeiro disco daquela carreira que fora interrompida pelo álcool, associado a outros problemas existenciais de Antônio Marcos, cuja vida fora consumada tão precocemente.

 

https://youtu.be/Yqs0HWRDQDg


Professor José Jorge Andrade Damasceno - 08 de outubro de 2020.

sábado, 3 de outubro de 2020

HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DE ALAGOINHAS, PELOS ESCRITOS DE MARIA FEIJÓ - XX.

 

Histórias e memórias de Alagoinhas, pelos escritos de Maria Feijó XX - Marta e Maria Clara: entre as queixas e as palavras de ânimo.

 

Caros e pacientes leitores, esta já é a vigésima vez que este título é trazido ao vosso crivo.  Desde outubro de 2013 que uma parte dos escritos de Maria Feijó tem sido considerada com o objetivo de encontrar as “histórias e Memórias de Alagoinhas”, em um exercício quase exegético no sentido de pensar o papel daquela literata em dar a conhecer o seu rememorar, a partir de uma produção literária que, como já se salientou outras vezes, tem a cidade de Alagoinhas onde nascera e crescera como o seu “lugar de memória” privilegiado. Até o ano de 2012, quando tomou contato com as três prosas de Feijó que tem sido alvo das análises construídas e publicadas em grande parte no jornal “Alagoinhas Hoje”, este autor não tivera contato com a produção de Feijó, embora o seu nome lhe fosse já conhecido, sobretudo, a partir de estudiosos da produção cultural e literária da urbe famosa pelas suas laranjas. Ao se interessar pelo estudo da história da cidade é que de fato se aproximou de Feijó, sobretudo para esquadrinhar a sua prosa, no sentido de encontrar os vestígios de memória que permitisse a ampliação da pesquisa acerca da história de Alagoinhas, apenas iniciada. Ao pensar a história da cidade como um objeto de estudo extremamente valioso, também se faz necessário pensar na diversidade de formas de sua apreensão. Particularizando uma tal reflexão e, estreitando o objeto no sentido de imiscuir-se em uma investigação sobre a cidade de Alagoinhas, é forçoso pensar nas inúmeras dificuldades em encontrar elementos que permitam ao pesquisador a construção de seu corpus documental, a partir do qual desenvolverá as investigações e análises que sustentarão a escrita da história da cidade, que, em última instância, deverá ser o resultado final do seu esforço.

Embora a urbe alagoinhense já tenha percorrido um bom punhado de anos em seus ires e vires, é consenso que há um grande hiato entre aquilo que está escrito sobre a cidade e aquilo que é preciso estudar e escrever sobre a sua história. Muito agarrada à obra de Salomão Antônio Barros (1899-1986),, tão vazia do ponto de vista teórico, quanto frágil do ponto de vista metodológico, parte das pesquisas envolvendo a história de Alagoinhas se tornava cada vez mais estéril, visto que a obra “Vultos e Feitos do Município de Alagoinhas” não atendia às necessidades de um mergulho profundo e seguro no rico manancial de possibilidades que se prenuncia ao pesquisador, na medida em que muitas são as lacunas encontradas na referida obra. Prova disto é o número de trabalhos monográficos e dissertativos que vem sendo produzidos na Universidade e fora dela, sobretudo, a partir dos anos 2000. Até então, a  construção memorialística da cidade, estava restrita a uma produção dispersa, feita a partir de iniciativas de pessoas interessadas em sustentar uma história lastreada em formas de perceber o mundo baseada em um romantismo épico, cujos elementos humanos são sempre harmoniosos entre si, não havendo quaisquer divergências entre as pessoas, os modos de crer, de viver, de morar, de saber, de conhecer o passado, que não aqueles baseados no culto aos “Vultos e Feitos”, levados aos “lugares de memória”, como se nunca houvesse havido quaisquer discórdias, quaisquer contradições nos avanços e recuos da economia, da sociedade e da cultura, quaisquer disputas de poder, ou qualquer tipo de expropriação dos trabalhadores por parte dos proprietários dos meios de produção.

E o grande marco desta história quase paradisíaca, sem conflitos, sem disputas de quaisquer ordem, sem querelas, sem pobres, sem escravos, sem esmolantes, sem pessoas destoantes no modo de conceber o mundo à sua volta, é aquela obra que por vários anos se tornou a única referência para escolares e professores recorrerem, quando houvesse necessidade de saber alguma coisa sobre a “história” de Alagoinhas. Aliás, a obra “Vultos e Feitos do Município de Alagoinhas foi catapultada a um patamar que sequer o seu autor intentou alcançar. Ao concluir o seu desfile de “eventos” e “heróis” que considera importantes “vultos” para a construção da trajetória social e econômica da cidade, nas últimas páginas do seu tratado que prioriza nomes datas e fatos da sua inteira escolha, Barros assevera que: Este Documentário histórico já poderia ter sido lançado  a público, mas, por circunstâncias especiais, sua conclusão  esteve sem continuidade por um espaço de tempo”. (BARROS, 1979, p. 344).

Note-se que, Barros diz ter havido “circunstâncias especiais” que de algum modo postergaram o seu propósito de tornar público o seu “documentário”. Quais teriam sido as ditas “circunstâncias especiais” que forçaram o autor a retardar a publicação do seu trabalho? Eis uma pergunta que mereceria uma investigação no sentido de encontrar pistas que levasse a respostas, pois, certamente elas podem ser várias. Convém salientar de passagem, o significado da palavra “documentário”. O dicionário Houaiss indica ser uma palavra de uso recente – 1913 -, com duas acepções. A primeira é um adjetivo “que tem valor ou caráter de documento” e, o segundo é um substantivo empregado no sentido de produção didática em formato de filme. Como é fácil depreender, a acepção utilizada por Barros é a do valor documental. Logo, aquela obra deveria ter sido sempre tratada como o que de fato ela é: uma fonte histórica. E, como tal, deveria ser utilizada na pesquisa histórica, com todos os cuidados e/ou desconfianças que deve nortear o pesquisador diante de toda e qualquer fonte.

 

Mas, é preciso voltar aos escritos de Maria Feijó. Como se disse, este escrevedor toma contato com três das suas obras e logo que inicia a leitura, começa a perceber o caráter memorialístico da produção da literata Alagoinhense, chegando mesmo a suspeitar – evidentemente que outros pesquisadores que se interessaram por sua obra tiveram a mesma impressão – que o livro “Pelos caminhos da vida de uma professora primária” possa ser lido como uma obra autobiográfica. Depois de ter percorrido o alentado volume em suas oitocentas páginas, pelo menos uma conclusão se pôde tirar: aquela obra é muito mais memorialística do que a que foi escrita por Salomão Antônio Barros, apesar dos limites temporais apresentados.

Ao discorrer sobre “O Tempo vivo da Memória”, Ecléa Bosi (1936-2017), assevera que “a memória se enraíza no concreto, no espaço; gesto, imagem e objeto. A história se liga apenas às continuidades temporais, às evoluções e às relações entre as coisas”. (BOSI, 2003, p. 16).

 

Depreende-se, portanto, que o esforço de Feijó em construir uma narrativa que apresentasse o cotidiano de “uma professora primária”, está assentado em elementos espaciais que são objetificados e presentificados nas diversas descrições que faz dos lugares, das coisas e das pessoas, fundamentando em tais descrições, o edifício memorialístico de um tempo vivido, de um lugar a partir do qual se dá o desenrolar do “enredo”. É desta maneira que faz as escolhas do que lembrar, do que esquecer e do que silenciar. Neste sentido, pode ser trazido ao presente, aquele passado que a literata constrói de acordo com o seu propósito de pensar a vida, a trajetória e as vicissitudes de uma professora primária, quase sempre idealizada, embora a base seja a sua própria experiência profissional e pessoal. Tal construção memorialística não a distancia muito do objetivo não explicitado de uma espécie de acerto de contas em torno da sua própria história de vida. Ali, é a sua memória que intervém no processo criativo, estruturando a narrativa de modo a estabelecer os nexos entre o narrado e o vivido. Ainda uma vez se recorre a E. Bosi, em uma passagem onde ela assevera que:

 

“A memória opera com grande liberdade escolhendo acontecimentos no espaço e no tempo, não arbitrariamente, mas porque se relacionam através de índices comuns. São configurações mais intensas quando sobre elas incide o brilho de um significado coletivo.  É tarefa do cientista social procurar esses vínculos de afinidades eletivas entre fenômenos distanciados no tempo”. (BOSI, p. 31).

 

Então, pois, retome-se o diálogo entre as duas amigas professoras, ainda sob a mediação da escritora alagoinhense. No arrazoado anterior, a conversa foi interrompida quando Marta atalha a amiga para demonstrar a sua surpresa em vê-la tão desanimada, embora ainda fosse jovem e estivesse há muito pouco tempo no exercício da docência no curso primário. Entrementes, tal fora o desencanto da amiga, que Marta começara a matutar em uma maneira de realentar lhe a disposição para continuar em seu ofício e, ao mesmo tempo, procurava atinar no que faria para que a amiga recuperasse o  “amor” que a ajudaria no enfrentamento das intempéries inerentes ao exercício do magistério que, ela queria fazer com que Maria Clara soubesse, não era apenas no Rio de Janeiro, lugar  onde então viviam e trocavam aquelas palavras, mas em todo o Brasil, mormente no interior da Bahia, sua terra.

 

Maria Feijó informa ao leitor que, ao retomar a palavra, Maria Clara se dirige à sua interlocutora, apresentando-lhe com mais vagar, o motivo de estar tão decepcionada com a profissão que escolhera:

 

“— Sabe, Marta, ando muito desanimada. Lá em casa, quando desejei ingressar no Instituto de Educação, ninguém queria. Todos achavam” uma profissão muito espinhosa, incompreendida e sem nenhum proveito monetário”. Sempre mais práticos e objetivos do que eu. Minhas irmãs enveredaram por outros caminhos e se encontram em ótima situação. As três casadas só se preocupam com os afazeres domésticos; e das quatro restantes, quem menos persebe sou eu e é a que mais estudou, estuda e trabalha, vê?” (FEIJÓ, 1978, P. 19-20).

 

Clara é, portanto, a única dentre as suas irmãs que escolhe ser professora e, segunda a sua avaliação, a que, embora ainda jovem e em pouco tempo de labor, não está “feliz”, não se sente realizada. Feijó, por meio de Marta, argumenta de maneira um tanto ingênua, talvez na tentativa de pavimentar o caminho por onde trilhará no seu percurso memorialístico. “Mas, Clarinha, aqui no Rio o magistério é muito bem olhado e Professora bastante remunerada. O Governo, de vez em quando, bem que melhora a situação de vocês.  Pelo menos é o que me consta.” FEIJÓ, 1978, p. 20).

 

Maria Clara retoma a palavra. Na sua fala fica patente o discurso de Feijó, que reaparece na boca e na prática de Luísa Peixoto, sua professora protagonista da história que será contada por Marta, com o fito de convencer a amiga e colega de profissão, a enfrentar o que lhe está proposto vivenciar como professora primária. Diz a jovem:

 

“— Não é só isso, menina! Você sabe: se se tem no íntimo o germe de um ideal, seja ele qual for, é caso perdido. Vai roendo, roendo, mesmo que traça e, quando a gente abre os olhos, é tarde. A obsessão cresce tanto que se luta por ele até o fim. Então, não é somente de dinheiro que se trata. Se fosse por esta parte material, talvez eu já tivesse abandonado tudo, porque, para atenuar a situação, meu pessoal continua pior, achando que estou, deveras, perdendo tempo e mocidade cada vez mais, sendo Professora, quando bem podia ter enveredado por outras áreas, noutros misteres, tantos são os que existem por aí..”. (FEIJÓ, 1978, p. 20).

 

Ao atalhar de Marta que lhe indaga o que tem afligido a amiga, visto não ser, necessariamente, segundo o que dissera, a baixa remuneração do seu laborar, Clara retruca incisivamente. “— Ah! minha querida, e o desconforto, a luta insana, o sofrimento enorme, imenso, que parece não ter fim?...” (FEIJÓ, 1978, Idem).

 

Marta volta a ponderar, uma vez que diz não entender por que o desânimo abate alguém tão plena de vida:

 

“— Mas você, nova, bonita como está, queimada pelo sol de Copacabana, anseio de todas as moças de sua idade, cheia de saúde e vida, disposta e bem tratada, com esse aspecto saudável, tão esportivo, aparência ótima?!  Não, minha filha, o seu todo nada revela” desconforto, sofrimento imenso, sem fim, luta insana”. Você constantemente vem à praia. Infelizmente eu é que não a tenho visto.  Pouco chego até aqui, apesar de morar pertíssimo.  Cadê tempo?” (FEIJÓ, 1978, Idem).

 

Observe-se que, pouco a pouco, Feijó vai construindo os elementos discursivos com os quais precisará trabalhar para enfrentar a tarefa a que se propôs, qual seja: ao de desenvolver uma narrativa por meio da qual possa inserir tanto a sua memória da Alagoinhas que pretende retratar, quanto uma parte da sua vivência pessoal e/ou profissional. É assim que ela ainda se conserva na condução da narrativa, a fim de preparar o terreno no qual fincará os fundamentos argumentativos sobre os quais assentará a sua narrativa.

Assim, Maria Clara continua o seu “desfile de penas”, em resposta às ponderações de Marta:

 

“Sim, — [...] — você tem razão e me ajuda até, - por tudo Isso e mais. Agora estou de férias. Durante o período letivo, tenho um dia de folga por semana. Como adoro o mar, fujo sempre que posso para nele me entreter e recuperar energias perdidas. Razão do...” aspecto saudável...”.” (FEIJÓ, 1978, Idem).

 

Prossegue Maria Clara, atendendo a uma abordagem de Marta que dizia ainda não entender o porquê daquelas queixas.

 

“Logo me entenderá. Escute, Marta: você me ajudou até demais, falando em mocidade, saúde, beleza, vida, inteligência, ar esportivo, jovialidade... Já pensou, entretanto, na distância que, diariamente, transponho da Rua Mariz e Barros até Marechal Hermes — onde leciono —, um fim de mundo, no subúrbio, num trem  da Central (ou mesmo de ônibus), verdadeiro formigueiro humano, inverno ou verão, saindo de casa às 6 da manhã e só regressando às 16 horas? Já pensou nisto, Marta? E... se não fossem estas folgas, como eu iria respirar? Compreendeu agora?” (FEIJÓ, 1978, Idem).

 

Maria Feijó intervém mais uma vez no diálogo das duas amigas professoras, com o propósito de informar ao seu leitor que, após Maria Clara proferir aquelas palavras cheias de “ais”, um “sorriso meio triste, desalentador, cobre-lhe o semblante, olhando a companheira com um gracioso olhar enviesado...”( Ao que, ainda conforme Feijó, Marta retruca assegurando que  ”[...], minha amiga, não é um mal sem remédio. Ainda há isso. Nem tudo na vida é completo como todos nós, ardentemente, desejamos, e sonhamos, e nem está perdido tudo assim [...]”. FEIJÓ, 1978, Idem).

Mas, Maria Clara não se vai deixar convencer, assim, tão fácil. Em mais uma argumentação diante da tentativa feita pela amiga, ela ainda se mostra quase descrente, embora admita haver alguma esperança de uma diminuição de “sofrimento”, ao menos no que tange à distância entre a sua casa e o seu espaço laboral. Diz ela que:

“— É! Há uma esperança, embora remota, de conseguir transferência para mais perto, conforme os pontos obtidos. Felizmente tenho alcançado boa classificação. Entretanto... já imaginou o enorme número de candidatas? A maioria, jovem como eu, aspirando os mesmos ideais, tendo os mesmos sonhos e as vagas sendo pouquíssimas, quando vou chegar até uma delas?...” (FEIJÓ, 1978, p. 21).

 

Marta, uma vez mais, procura animar a amiga com um assomo de confiança. À indagação feita por Maria Clara, ela atalha com a seguinte construção retórica: “[...]. Mas... há essa esperança. Que seria de nós sem ela, hein? É a bússola que conduz todo viageiro no imenso barco da vida, visando a meta final...”. Ainda uma vez o argumento de Marta não anula as dúvidas de sua amiga, que, de bom grado lhe contrapõe o retorno ao duro viver do cotidiano:” [...], lindo esse trecho poético do romance! Lembre-se, contudo, minha amiga, que estávamos ou estamos, na dura realidade da vida, enfrentando uma condução com destino a Marechal Hermes...”. Pedindo que a deixe terminar a sua argumentação, Marta prossegue o discurso, asseverando que “[...]. Você só tem dois anos, dois aninhos só, de profissão! Está com todas as forças vitais para lutar e ir ao encontro de seu ideal. Paciência, confiança em si mesma e espere mais um pouco. Além do que, Clarinha, você não precisa desse ordenado” tão suado e difícil” para manter-se, graças a Deus, nem sustentar marido e filhos...”. Mas, insistindo em interromper lhe a fala, Clara procura talvez, demonstrar que não se deixará vencer facilmente pelo argumentar da interlocutora. A respeito do “ordenado suado”, ela acrescenta que “— ... ele serve, apenas —[...] - para os alfinetes, digamos assim, tão pouco é...”. E, sem permitir a retomada do esforço feito por Marta para que Maria Clara se reanime a prosseguir em sua faina professoral, arremata o diálogo só principiado, apontando para uma situação que, ainda quando se escreve estas linhas, é vivenciada por todos aqueles profissionais que atuam como docentes, em todo e qualquer dos seus níveis. Diz a jovem professora:

 

“— e ainda: os deveres escolares vêm para dentro de casa. É o jeito, senão nem dou conta. E as aulas para preparar? O pessoal fica furioso, porque não descanso. Comprei até um mimeógrafo e com ele, além dos meus, passo trabalho das outras colegas que não o possuem. E me lamento, tanto, tanto, que minhas irmãs têm pena e colaboram comigo, ajudando-me sempre que preciso. O papai e a mamãe olham só e balançam, negativamente, a cabeça. Nada dizem, pois. acham ser meu gosto. Francamente, Marta, toda a vida acalentei este grande sonho, porém, pensei que fosse menos árdua a sua realidade. Não agüento mais. Às vezes, quando chego a casa, já as meninas saíram, foram ao cinema, a um passeio compras ou alguma visita. É verdade que não sou muito disto, não, mas lá um dia, tenho vontade, e até necessidade, de também ser jovem. Porém, creia-me, cadê coragem? Nem para ler, que foi sempre do que mais gostei. A estante vive abarrotada de livros novos. Olho-os só e pronto. Cansaço, desânimo, decepção é o que sinto hoje, pelo magistério... — E, com olhos tristes e inquiridores, encara a amiga: — Você acha ainda que devo ser otimista?” (FEIJÓ, 1978,P. 21).

 

Marta se vê obrigada a silenciar. Percebe que o discurso retoricamente proferido aos ouvidos pouco dispostos a escutá-los, demonstraram-se inócuos, na medida em que precisará empregar outras formas discursivas para alcançar o propósito de ver a sua interlocutora recobrada em seu ânimo e desejo de continuar a exercer a profissão que escolheu e para a qual se capacitou.

Professor Jorge Damasceno – 04 de outubro de 2020.

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Um escrevedor fala de memória musical - I.

 

Um escrevedor fala de memória musical - I.

 

Com o título acima, tem início uma nova série de escritos, desta vez com um tema muito caro ao seu propositor, uma vez que os acordes melódicos e os diversos instrumentos que os executa, funcionam como um bálsamo regenerador do seu corpo e da sua alma. A memória musical deste escrevedor é bastante vasta, consistindo em um grande e variado acervo melódico, construído e alimentado desde sua tenra idade. Ao longo de mais de 50 anos, inúmeras músicas foram ouvidas, apreciadas e armazenadas em um rememorar constante, parte delas muitas vezes realimentadas por audições frequentes; outra parte, permanecera quase esquecida, mas nunca de todo apagada, sendo reavivada quer por raríssimas escutas em transmissões radiofônicas, quer por fragmentos que, vez por outra, ressurgem dispersos e desconexos em alguns assomos de lembranças vagas e/ou confusas, perdidas no tempo cada vez mais afastado.

É assim que, semanalmente, se pretende publicar crônicas alusivas a músicas que entraram nos ouvidos frágeis deste garatujador e, de lá nunca mais saíram, pois se arraigaram na sua excelente memória melódica.

Para a estreia desta série, se trará a música que inspirou a ideia destas crônicas, ligando músicas ao seu rememorar, ligando-o a pessoas, lugares e tempos históricos bem definidos.

Nas longas e quase intermináveis tardes de sua solidão, lá pelos idos de 1978, talvez estudasse a noite, este escrevedor munia-se de fichas telefônicas e se dirigia até a praça Maestro Santa Isabel, com o objetivo de utilizar um dos telefones públicos recém instalados na cidade, como parte da expansão da Telebahia, a fim de ligar para a rádio Clube de Salvador e falar com o locutor da tarde, Armando Mariane e, pedir que tocasse a sua música preferida. Isto feito, subia até o fim da praça, sentava-se à sombra da Igreja ali existente e, aguardava que o seu pedido fosse atendido.

A música era em inglês, o que implicava em desconhecer completamente o que dizia a letra que era cantada. Então, o que tanto atraía o moço, para querer ouvir aquela música, tantas vezes quantas pudesse? Uma música aparentemente simples em sua construção melódica era profundamente tocante aos sentidos do seu apreciador, dando a ele uma sensação de indescritível emoção ao ouvir o seu pedido atendido, mesmo quando o locutor não conseguia pronunciar satisfatoriamente, ou o nome de quem pediu, ou a cidade de onde lhe chegou o pedido.

Não vinha ao caso. O que importava é que o locutor lhe atendera o pedido musical e ele poderia ouvir e guardar aqueles sons em sua memória.

O que explicaria tamanha alegria sentida ao ouvir aquela música, apertando o rádio ao ouvido e, acabado aquele momento de raro enlevo, a sensação de vazio, levando ao desejo de ouvir outra vez, de novo, outra vez e, ainda mais uma vez? Um tal sentimento, fazia com que ele voltasse no dia seguinte ao mesmo lugar, a pedir a mesma música e a voltar a sentar-se à mesma sombra da Igreja, para esperar que sua música fosse outra vez tocada.

Certamente os psicólogos, pedagogos e outros ilustres estudiosos do sentir humano, já desenvolveram várias respostas para as indagações formuladas acima. Mas, cá entre nós, para este escrevedor, nenhuma delas faz qualquer sentido lógico ou fenomenológico.

E, afinal, qual era a música? Quem a interpretava?

Curiosos? Calma! Já se dirá. Ou antes: já se saberá, ao clicar no link.

https://youtu.be/jZEPIpTpoPs

 

Professor José Jorge Andrade Damasceno – 01 de outubro de 2020.

Texto da Professora Iraci Gama

30 de setembro - dia de Alagoinhas Ferroviária!

Nessa rua ferroviária, pelos trilhos, pelas Oficinas, pela Estação do trem, pela Caixa D'água, em forma de taça, pelo Guindaste histórico, de uso para duas bitolas diferentes, de dois prédios importantes para a energia elétrica em nosso Município. Dentro da Oficina São Francisco duas peças simbólicas : uma pela representação da "Maria Fumaça" de saudosa memória; a outra, pela marca forte, do tempo em que os operários dessa Oficina, reparavam as locomotivas que puxavam os nossos trens. Mas precisavam olha-las, por baixo. Ah! Meu Deus! Ficar em baixo de toneladas de ferro! Somente um processo permite isso: colocar a Maria Fumaça na rotunda! Aqui na Oficina São Francisco isso acontecia, sempre, e esse local continua  inalterado, podendo ser admirado, pelos visitantes que tenham o privilégio de entrar no recinto. Recinto quase sagrado de quase cem anos, pois que é de 1930, onde centenas de pessoas gastaram suas energias, realizando sonhos de produção e de sobrevivência. Levas e levas de operários que interligavam sentimentos e costuravam emoções de transformar chapas inteiras de ferro, em delicadas peças de passar água e vapor, de passar o som anunciador da chegada , na curva da rua com apito identificador, ou de produzir sinos grandes e possantes, capazes de receber as batidas fortes do badalo para dizer : saí; já vou; fique em paz; vou em paz; até a próxima; adeus; quantas mensagens , no apito ou no bater do sino? Diferentes sentidos para diferentes pessoas, para diferentes situações, para diferentes momentos, para diferentes realidades...para diferentes operários - da produção à utilização. Em todos, porém, o toque do prazer, indescritível prazer de trabalhar na "Leste", de fazer a máquina deslizar sobre os trilhos, de ver o trem chegar e sair da Estação, levando e trazendo gente, mercadorias, comerciantes, passeadores, amantes com seus sonhos e encantamentos. Ah! Meu Deus! O trem! Que saudade! Corre menino! Corre menina! Corre pai! Corre mãe! Corram todos! É o trem que vem. Vamos saudá-lo! Vamos dar adeus ao trem! Como esse adeus está demorando! Trinta anos! As crianças ficaram adultas e fizeram várias crianças, mas não têm o gosto de seu tempo de criança; não podem dizer: corram crianças, venham dar adeus ao trem. E eu que já cheguei além dos adultos e estou no caminho da velhice, pergunto a Deus, sem perder a esperança: será que ainda vejo o trem correndo por essas nossas linhas? Não vale o trem do forró! É um alento, um substitutivo confortador! Um afago para meu coração! Mas quero e desejo ardentemente, o trem de passageiros, de novo, com as pessoas em pé, junto às janelas, para acenar, com gosto, respondendo ao aceno da minha e de outras portas, para que eu sonhe com muitas viagens, com muitas vantagens, incontáveis encontros e alegrias, de apertos de mão, de abraços, de aconchegos e entregas.

Que venha o TREM! Que volte o TREM! ALAGOINHAS AMA O TREM! ALAGOINHAS  QUER O TREM!!!