JOSÉ MÁRIO NA GRADUAÇÃO – 4.
O qualificado corpo de leitores destes arrazoares
construídos a partir de elementos constantes na memória do seu escrevinhador,
tem diante de si para a sua reflexão, mais um rememorar de um caminhar acadêmico
vivenciado por José Mário enquanto cursava a licenciatura “plena” em História na
Faculdade de Formação de Professores de Alagoinhas, considerando os percalços e
as vicissitudes daqueles percursos acidentados e cheios de curvas sinuosas e íngremes,
muitas vezes mal ou nada sinalizadas, o que representara grande perigo, nem de longe suspeitado pelo incauto e despreparado
viajor. Incauto, porque não dispunha de meios para aferir o que se lhe
aguardava ao final de cada trecho da estrada, razão pela qual não se acautelara,
em momento algum – por vezes, em razão de puro e simples desconhecimento;
outras vezes, por sua natural ingenuidade, a partir da qual acreditara sempre
que as coisas se ajustariam, de alguma maneira – no sentido de não se lançar
para o próximo passo, sem antes estudar o tipo de terreno no qual precisaria
palmilhar. Despreparado, porque não dispunha de quaisquer ferramentais de
apoio, fossem eles tiflológicos, bibliográficos ou emocionais que lhe permitissem
apoiar os pés ou afirmar os braços em estruturas que lhe propiciassem resistir aos
solavancos que lhe sobreviriam ao longo de todo o tempo que se faria o trajeto.
Assim, noves fora alguns poucos amigos e colegas que vez por outra lhe davam
algum apoio – ao menos, conforme lhe dissera alguns anos depois o seu
orientador de mestrado “o apoio moral” –, em todo o seu caminhar acadêmico –
inclusive, quando da sua carreira docente –, ele sempre fora um viajor
solitário que buscava forças dentro do seu alforje pessoal, sempre com
pouquíssimo estoque delas.
Portanto, conforme se leu nos garatujares anteriores, para
José Mário, o segundo semestre letivo se lhe apresentara ineludivelmente mais
complicado, no que respeitava ao acesso ao material correspondente às leituras
inerentes à cada disciplina que precisaria cursar, uma vez que, além do volume
de tais leituras lhe parecerem ainda mais alentado, havia também o déficit
acumulado do semestre anterior que lhe obrigara a abandonar quatro das seis
disciplinas em que estivera matriculado, resultando em reprovação por falta. O
seu espírito, como que se inquietava e, como que dele cobrava sabe-se lá o que, na medida em que,
de si para consigo, ele entendia que fracassara, é certo, mas, não por inércia
de sua parte. No entanto, o seu interior pouco se consolava com aquela assertiva
dissuasória, com a qual procurava responder ao redarguir do seu temperamento
que cobrava, insistentemente uma ação mais efetiva, no sentido de fazer valer
uma das suas características que, para bem ou para mal, sempre lhe marcara os
passos: nunca parar; recuar, dependendo das circunstâncias e, se fosse para
avançar com mais força e determinação; voltar atrás, deixar de seguir: nunca...
Aquilo lhe moera os ânimos, logo ao se
confrontar com as dissonâncias que se apresentavam no que tange à interação entre
os professores e a turma e, depois, havendo tempo, a clássica e incômoda
pergunta: e com você, o que ou como faço? E, muitas vezes, a pergunta era feita
ao aluno invisível à percepção daquele professor acostumado a interagir com
aqueles que estavam no seu mesmo patamar de percepção visual, já quase ao final
do seu performar professoral, crendo mesmo que houvera desempenhado bem a
interpretação que fizera do seu saber e do seu conhecer da matéria, para
depois, bem depois, se lhe aperceber a presença
de um aluno que pouco ou nada absorvera da exuberância do seu desempenho e, então,
assim provocado no ponto para o qual jamais cogitara ser necessário estar
preparado, defendeu-se com perguntas – retóricas, saliente-se de passagem – que,
ao invés de ser ele mesmo quem respondesse, esperara que tal resposta viesse
daquele a quem ele deveria ter na conta de sua didática, de sua metodologia do
ensino da História, um aluno que não era o padrão considerado pelos teóricos e,
ainda menos, pelas teorias com as quais páginas e páginas dos assim chamados “conhecimentos
pedagógicos” foram impressas, ensinadas nos diversos seguimentos do ensino,
mundo a fora e, que certamente, aqueles professores conheciam – ou deveriam
conhecer -; escreveram trabalhos e forçaram os seus professores a ler o que
escreveram em suas avaliações.
Foi assim que José Mário vivera todo o restante daquele ano
de 1986 que, depois da euforia produzida pela aprovação e ingresso no curso de
História, se envolveu em um sem-número de incertezas e, com uma sensação de
prejuízo irreparável, após a difícil decisão de trancamento do curso, na medida
em que tivera que desembarcar do “trem”, sendo necessário esperar que outro
viesse para prosseguir a viagem. Os meses que se seguiram à efetivação do
processo de interrupção do trajeto ainda na “segunda estação”, acabaram por consolidar
uma certeza que ele insistia em não querer ter: o mundo era sim, talhado para
os mais fortes e completos em sua funcionalidade física, no sentido de que
aqueles cujos cinco elementos sensoriais estivessem em sua plenitude,
fatalmente seria exitoso – exceto, no caso de quem de fato quisesse, por
decisão sua e, quase sempre, só sua, resolvesse não querer prosseguir –, na medida
em que, apenas a vontade de querer continuar, não era suficiente para poder
fazê-lo. Ou seja: não bastava a vontade de seguir, nem mesmo a “força” do
espírito em se por a caminhar. Instrumentos e ferramentas diversas se faziam
necessários para levar adiante quaisquer processos intentados construir e/ou
desenvolver e, tais ferramentas e quais instrumentos, José Mário não possuía.
Por exemplo, o recurso financeiro, ao menos em tese, minimizaria o seu déficit
no campo do material bibliográfico a ser utilizado durante o cursar das
disciplinas. No entanto, além de não os possuir, também há um outro elemento
que não poderia deixar de ser tomado na devida conta. A exposição professoral
se dava mediante projeções, escritas em quadro, gesticulações..., o que efetivamente
acabava por alijar o aluno cujo sentido da visão não poderia abarcar aquele conjunto
de movimentos e instrumentos que, apesar de se dizer que eram “ferramentas
auxiliares”, na prática, eram os principais elementos de interação
professor/turma. Nem é preciso apontar o tamanho do prejuízo daquele outro e único aluno, que não poderia ser considerado
em tal tipo de interação.
Mas, o excelente leitor poderia objetar que já haveria um grupo
de pessoas dispostas a “emprestar” os seus olhos e tempo àquele tipo de aluno,
com o fito de tornar o acesso ao material a ser empregado pelos professores,
pelo menos, aqueles registrados em livros e/ou capítulos de livros, o que,
indubitavelmente, ajudaria a reduzir a distância abissal interposta entre os
elos da cadeia formativa. E, quem disse que José Mário não procurou lançar mão
deste tipo de apoio? Sim, caro leitor. Ele procurou o que à época se denominava
“Grupo de Copistas Voluntárias”, sediado em Salvador, para que elas lhes
transcrevessem o material que ele precisaria para tentar desempenhar
razoavelmente os seus estudos. No entanto, a primeira objeção feita por uma
delas, referiu-se ao tamanho e à quantidade do material demandado por ele.
Afinal, ele era só mais um dentre aqueles que precisavam do serviço, que,
salientou bem a caridosa criatura que recebera a solicitação:
- “somos voluntárias”; “faremos na medida do possível”; “Quando
for possível”...
Ou seja: se der, quando der... Observe-se que, a necessidade
do demandante é deixada de lado, o tempo da academia, sequer é considerado –
este escrevedor já se posicionou em um texto mais longo sobre o tema do “voluntarismo”,
do “Filantropismo” (DAMASCENO, José Jorge Andrade. A cuia e a bengala : histórias, memórias e trajetórias de pessoas
cegas em Salvador, em busca de inserção
econômica e autodeterminação social
(1963-1993). Salvador: Edufba 2022).
Só para se ter uma ideia da seriedade que fora aquele demandar de material a
ser transcrito em Braille, os textos que José Mário levou para as egrégias senhoras
daquele “Grupo de Copistas” nos meados de agosto de 1986, para fazer face às
disciplinas que cursaria até dezembro daquele mesmo ano, apenas em abril do ano
seguinte, é que ele começou a receber de volta, o que, nem é preciso dizer, já
estava o semestre devidamente trancado, por falta de “cara-de-pau” do aluno, para
pedir “paciência” aos seus professores. Afinal, havia que se realizar as
avaliações; havia que se concluir o semestre e, seguir adiante, rumo aos
próximos.
Alagoinhas – 22 de março de 2026 – outono brasileiro
Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com