domingo, 18 de janeiro de 2026

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte XVI.

 

O Intervalo – I.

 

Depois de escavar sedimentos de memórias que trouxeram à lume as reações de José Mário ao saber que houvera saído o resultado do certame a que se submetera com o fito de conquistar o acesso ao ensino superior, no arrazoado  que o paciente leitor ora tem diante de si, pretende-se abordar mais alguns movimentos do protagonista, no sentido de repercutir alguns dos desdobramentos relacionados àquela que fora uma das maiores efemérides do seu caminhar até então. Evidentemente, é no feixe de camadas de memória deste escrevente, que se vai buscar aqueles fragmentos a partir do qual a narrativa será construída. Não é de mais salientar, que a memória aqui trazida no processo de construção textual aqui desenvolvida, é evocada e selecionada por quem lembra e, é uma representação do passado, a partir do presente.

Passadas algumas horas após as peripécias feitas por José Mário para saber se estaria ou não na lista dos aprovados que acabara de sair no jornal A Tarde daquele dia 7 de fevereiro de 1986, pelo menos três sentimentos contraditórios lhe perpassaram o espírito. O primeiro e mais imediato deles, foi a euforia, desencadeada que fora pela surpresa de ter encontrado o seu nome em uma lista de aprovados que não mais acreditava vir a constar, considerando as conferências dos gabaritos publicados logo após a realização das provas. Segundo a sua análise de resultados de tais conferências, a ele parecera que não seria daquela vez que faria parte do seleto grupo de estudantes que avançaria no percurso formativo, alcançando o acesso ao ensino superior. Impulsionado por aquela euforia decorrente de tão agradável surpresa, ele passou alguns dias inebriado pela sua classificação e, passara a visitar as pessoas que contribuíram com ele, no alcançar daquele feito. Conforme se apontou no arrazoado anterior, a primeira visita feita sob a égide da alegria que lhe explodira no peito, fora feita ao Pastor Jessé da Silva (1948-2022), quando descera do ônibus em que embarcara na rodoviária e se dirigira aquela casa, situada à Rua Benjamin Constant, para ali, trocarem um abraço de grandes amigos que o eram, desde o ano de 1980, quando tiveram os primeiros contatos pessoais. Já lá pelos meados daquela mesma tarde, a professora Edna Garcia Batista (1945-2017), sua professora de Língua e Gramática Portuguesa - já largamente citada nos escritos anteriores –, o recebeu em sua casa para um longo “dedo de prosa” descontraído e, livre das amarras das lições, das leituras e das explicações que marcaram os encontros anteriores, porém, envolto pelo mesmo carinho e atenção que os dominara, por pelo menos uns três meses. Nos oito ou dez dias seguintes, José Mário prosseguira em seu visitar a outros amigos e demais que o incentivara com palavras de apoio e, lhe propiciara alguma outra contribuição que lhe impulsionasse a continuar a caminhar no rumo que houvera escolhido seguir. Portanto, aquela euforia fora o combustível que mantivera aquela máquina de fazer visitas e implementar longas e até animadas conversas, com as gentes mais diversas, tanto no ser, quanto no ter.

No entanto, pouco a pouco, aquele combustível foi, por muito gasto e sem a indispensável reposição,  se tornando insuficiente para fornecer a energia necessária para a movimentação física e mental de um estado de espírito eufórico, dando lugar ao segundo dos sentimentos contraditórios que aquele rapaz passara a experimentar, em relação à surpresa de ter encontrado o seu nome na lista de aprovados no certame que o habilitaria a prosseguir no seu processo formativo. Era a busca de respostas para as questões que se lhe avultavam ao cérebro, que queria saber “o que fazer?” e “como fazer?”, que fazia murchar a euforia dos primeiros dias, tomando de chofre o espírito daquele moço, obrigando-o a voltar a atentar para a realidade social e econômica em que ele vivia, desde a mais tenra idade. Aquela, por sua vez, lhe gritava na cara e sem a menor discrição, que, apesar de ter ele subvertido em seu favor uma parte da discrepância inerente à sua formação escolar, a outra parte, aquela que envolvia a característica social em que ele se encaixava, embora não o impedisse de tomar parte daquela nova jornada escolar para a qual ele fora habilitado, no entanto, ele não estava social e economicamente equipado para caminhar naquela estrada que se lhe abria, uma vez que, para nela jornalhar, ele não dispunha do aparato exigido para tal. Os gritos que a realidade lhe impusera ao espírito, acabara por atormentar a José Mário, nos dias que se seguiram àqueles primeiros, marcados pela euforia do resultado que lhe fora favorável.

Assim, noites pós noites de longas horas insones, tempo em que ele fora confrontado com perguntas que iam desde aquela que apontava para a sua indumentária escassa e pouco adequada ao novo ambiente que passaria a frequentar, até aos materiais tiflológicos que deveria utilizar ou, que deveria buscar aceder, junto à secretaria de educação do Estado, no seu setor de “educação especial”, é que se passara grande parte dos dias que antecederam o momento em que se daria a sua matrícula no curso e na Faculdade para os quais fora aprovado. Foi daqueles embates de si para consigo que, de súbito, se lhe ocorreu procurar aquelas dedicadas senhoras que atuavam no aludido setor, entendendo que seria dali que lhe viria o apoio de que precisaria para aquele momento em que, acreditava, estaria dando um salto gigantesco, no que tange à preparação de uma pessoa cega para que ela alcançasse o ápice de uma carreira, por meio da qual, entraria no mercado de trabalho, com uma profissão definida e com a autonomia pretendida.

Conforme era do seu temperamento, ato pensado, pensamento executado. Em algum dos primeiros dias de março de 1986, já sob os auspícios do recém nascido “Plano Cruzado”, depois de mais uma daquelas noites mal dormidas, José Mário se levanta por volta das cinco da manhã, disposto a se dirigir até a capital do Estado, com o intuito de encontrar aquelas “senhoras dedicadas”, já suas conhecidas, para lhes fazer saber a novidade e, claro, apelar pelo seu apoio, no que tange ao fornecimento de material tiflológico por meio do qual, ele pudesse – conforme cria – fazer frente às suas novas necessidades – que, na verdade, não eram novas mas, sim, mais prementes –, de modo a poder caminhar com alguma tranquilidade ou mesmo, com alguma desenvoltura naquela nova senda, onde as exigências, o desempenho e as cobranças certamente seriam maiores.  Entretanto, malgrado aquelas senhoras terem recebido a novidade com alguma simpatia – elas jamais esperariam nada daquele aluno rebelde, insubmisso e indisciplinado, conforme uma delas confessara alguns anos mais tarde –, o resultado daquela entrevista acabou por desencadear o terceiro sentimento controverso naquele espírito em que ainda restava um pouco de “crença” nas instituições e nas pessoas encarregadas de apoiar as iniciativas das pessoas cegas, no sentido de construir o seu caminho para alcançar a sua autonomia: a descrença absoluta em quaisquer delas.

Depois de terem ouvido atentamente o relato quase entusiasmado do seu interlocutor, uma delas proferiu uma sentença que José Mário nunca esquecera, que caiu sobre ele como se fora um balde com água recém extraída das geleiras siberianas:

- “Cursar História para quê José Mário? Para ensinar no Instituto de Cegos”?

Nem é preciso dizer que José Mário quase não conseguiu articular uma resposta. A única que lhe veio ao cérebro, ele a exprimiu, quase balbuciante:

- “E, quem disse que eu quero ensinar no Instituto de Cegos? Eu quero ensinar na escola comum”.

Assim, sem poder aquilatar o efeito daquelas suas palavras dirigidas àquelas “dedicadas senhoras” – talvez até tenham sido tomadas como insolentes e atrevidas –, José Mário voltara quase no mesmo rastro para Alagoinhas, com uma máquina de escrever Olivetti Letera32 e um gravador Philips nas mãos – e as fitas? E as pilhas para fazer o dito funcionar? E o papel? –, como tendo sido a única coisa que elas poderiam dar como incentivo àquele aluno, ali, já com a certeza de que não poderia contar com elas, pois, deixaram bem claro: “Nossa tarefa e responsabilidade é com o primeiro e o segundo graus. Quem entra no terceiro grau, precisa saber que não é aqui o ponto de apoio”. Ou seja: quer voar mais alto do que a sua realidade econômica e social permite? Então, se vire, como puder

 

Alagoinhas – 18 de janeiro de 2026 – verão brasileiro.

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

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