O Intervalo – I.
Depois de escavar sedimentos de memórias que trouxeram à
lume as reações de José Mário ao saber que houvera saído o resultado do certame
a que se submetera com o fito de conquistar o acesso ao ensino superior, no
arrazoado que o paciente leitor ora tem
diante de si, pretende-se abordar mais alguns movimentos do protagonista, no
sentido de repercutir alguns dos desdobramentos relacionados àquela que fora
uma das maiores efemérides do seu caminhar até então. Evidentemente, é no feixe
de camadas de memória deste escrevente, que se vai buscar aqueles fragmentos a
partir do qual a narrativa será construída. Não é de mais salientar, que a
memória aqui trazida no processo de construção textual aqui desenvolvida, é evocada
e selecionada por quem lembra e, é uma representação do passado, a partir do
presente.
Passadas algumas horas após as peripécias feitas por José Mário
para saber se estaria ou não na lista dos aprovados que acabara de sair no
jornal A Tarde daquele dia 7 de fevereiro de 1986, pelo menos três sentimentos
contraditórios lhe perpassaram o espírito. O primeiro e mais imediato deles,
foi a euforia, desencadeada que fora pela surpresa de ter encontrado o seu nome
em uma lista de aprovados que não mais acreditava vir a constar, considerando as
conferências dos gabaritos publicados logo após a realização das provas.
Segundo a sua análise de resultados de tais conferências, a ele parecera que
não seria daquela vez que faria parte do seleto grupo de estudantes que
avançaria no percurso formativo, alcançando o acesso ao ensino superior. Impulsionado
por aquela euforia decorrente de tão agradável surpresa, ele passou alguns dias
inebriado pela sua classificação e, passara a visitar as pessoas que contribuíram
com ele, no alcançar daquele feito. Conforme se apontou no arrazoado anterior,
a primeira visita feita sob a égide da alegria que lhe explodira no peito, fora
feita ao Pastor Jessé da Silva (1948-2022), quando descera do ônibus em que
embarcara na rodoviária e se dirigira aquela casa, situada à Rua Benjamin
Constant, para ali, trocarem um abraço de grandes amigos que o eram, desde o
ano de 1980, quando tiveram os primeiros contatos pessoais. Já lá pelos meados
daquela mesma tarde, a professora Edna Garcia Batista (1945-2017), sua
professora de Língua e Gramática Portuguesa - já largamente citada nos escritos
anteriores –, o recebeu em sua casa para um longo “dedo de prosa” descontraído
e, livre das amarras das lições, das leituras e das explicações que marcaram os
encontros anteriores, porém, envolto pelo mesmo carinho e atenção que os dominara,
por pelo menos uns três meses. Nos oito ou dez dias seguintes, José Mário
prosseguira em seu visitar a outros amigos e demais que o incentivara com palavras
de apoio e, lhe propiciara alguma outra contribuição que lhe impulsionasse a
continuar a caminhar no rumo que houvera escolhido seguir. Portanto, aquela
euforia fora o combustível que mantivera aquela máquina de fazer visitas e implementar
longas e até animadas conversas, com as gentes mais diversas, tanto no ser,
quanto no ter.
No entanto, pouco a pouco, aquele combustível foi, por muito
gasto e sem a indispensável reposição, se tornando insuficiente para fornecer a
energia necessária para a movimentação física e mental de um estado de espírito
eufórico, dando lugar ao segundo dos sentimentos contraditórios que aquele
rapaz passara a experimentar, em relação à surpresa de ter encontrado o seu
nome na lista de aprovados no certame que o habilitaria a prosseguir no seu
processo formativo. Era a busca de respostas para as questões que se lhe
avultavam ao cérebro, que queria saber “o que fazer?” e “como fazer?”, que
fazia murchar a euforia dos primeiros dias, tomando de chofre o espírito
daquele moço, obrigando-o a voltar a atentar para a realidade social e econômica
em que ele vivia, desde a mais tenra idade. Aquela, por sua vez, lhe gritava na
cara e sem a menor discrição, que, apesar de ter ele subvertido em seu favor
uma parte da discrepância inerente à sua formação escolar, a outra parte,
aquela que envolvia a característica social em que ele se encaixava, embora não
o impedisse de tomar parte daquela nova jornada escolar para a qual ele fora
habilitado, no entanto, ele não estava social e economicamente equipado para
caminhar naquela estrada que se lhe abria, uma vez que, para nela jornalhar,
ele não dispunha do aparato exigido para tal. Os gritos que a realidade lhe
impusera ao espírito, acabara por atormentar a José Mário, nos dias que se
seguiram àqueles primeiros, marcados pela euforia do resultado que lhe fora
favorável.
Assim, noites pós noites de longas horas insones, tempo em
que ele fora confrontado com perguntas que iam desde aquela que apontava para a
sua indumentária escassa e pouco adequada ao novo ambiente que passaria a frequentar,
até aos materiais tiflológicos que deveria utilizar ou, que deveria buscar
aceder, junto à secretaria de educação do Estado, no seu setor de “educação
especial”, é que se passara grande parte dos dias que antecederam o momento em
que se daria a sua matrícula no curso e na Faculdade para os quais fora
aprovado. Foi daqueles embates de si para consigo que, de súbito, se lhe
ocorreu procurar aquelas dedicadas senhoras que atuavam no aludido setor,
entendendo que seria dali que lhe viria o apoio de que precisaria para aquele
momento em que, acreditava, estaria dando um salto gigantesco, no que tange à
preparação de uma pessoa cega para que ela alcançasse o ápice de uma carreira,
por meio da qual, entraria no mercado de trabalho, com uma profissão definida e
com a autonomia pretendida.
Conforme era do seu temperamento, ato pensado, pensamento
executado. Em algum dos primeiros dias de março de 1986, já sob os auspícios do
recém nascido “Plano Cruzado”, depois de mais uma daquelas noites mal dormidas,
José Mário se levanta por volta das cinco da manhã, disposto a se dirigir até a
capital do Estado, com o intuito de encontrar aquelas “senhoras dedicadas”, já
suas conhecidas, para lhes fazer saber a novidade e, claro, apelar pelo seu
apoio, no que tange ao fornecimento de material tiflológico por meio do qual,
ele pudesse – conforme cria – fazer frente às suas novas necessidades – que, na
verdade, não eram novas mas, sim, mais prementes –, de modo a poder caminhar com
alguma tranquilidade ou mesmo, com alguma desenvoltura naquela nova senda, onde
as exigências, o desempenho e as cobranças certamente seriam maiores. Entretanto, malgrado aquelas senhoras terem
recebido a novidade com alguma simpatia – elas jamais esperariam nada daquele
aluno rebelde, insubmisso e indisciplinado, conforme uma delas confessara
alguns anos mais tarde –, o resultado daquela entrevista acabou por desencadear
o terceiro sentimento controverso naquele espírito em que ainda restava um
pouco de “crença” nas instituições e nas pessoas encarregadas de apoiar as
iniciativas das pessoas cegas, no sentido de construir o seu caminho para
alcançar a sua autonomia: a descrença absoluta em quaisquer delas.
Depois de terem ouvido atentamente o relato quase
entusiasmado do seu interlocutor, uma delas proferiu uma sentença que José
Mário nunca esquecera, que caiu sobre ele como se fora um balde com água recém extraída
das geleiras siberianas:
- “Cursar História para quê José Mário? Para ensinar no Instituto
de Cegos”?
Nem é preciso dizer que José Mário quase não conseguiu
articular uma resposta. A única que lhe veio ao cérebro, ele a exprimiu, quase
balbuciante:
- “E, quem disse que eu quero ensinar no Instituto de Cegos?
Eu quero ensinar na escola comum”.
Assim, sem poder aquilatar o efeito daquelas suas palavras dirigidas
àquelas “dedicadas senhoras” – talvez até tenham sido tomadas como insolentes e
atrevidas –, José Mário voltara quase no mesmo rastro para Alagoinhas, com uma
máquina de escrever Olivetti Letera32 e um gravador Philips nas mãos – e as
fitas? E as pilhas para fazer o dito funcionar? E o papel? –, como tendo sido a
única coisa que elas poderiam dar como incentivo àquele aluno, ali, já com a
certeza de que não poderia contar com elas, pois, deixaram bem claro: “Nossa
tarefa e responsabilidade é com o primeiro e o segundo graus. Quem entra no
terceiro grau, precisa saber que não é aqui o ponto de apoio”. Ou seja: quer
voar mais alto do que a sua realidade econômica e social permite? Então, se
vire, como puder
Alagoinhas – 18 de janeiro de 2026 – verão brasileiro.
Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com
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