domingo, 4 de janeiro de 2026

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte XIV.

28 de janeiro de 1986 – as provas – V.

 

 

O arrazoado que se encontra diante de quem se disponha a percorrer as suas linhas, começa a evocar a proposição desenvolvida pelo Historiador francês Jacques Le Goff (1924-2014), com o fito de sustentar os elementos que aqui serão evocados, no sentido de dar curso ao tema que há algumas semanas se vem desenvolvendo. Em sua “História e Memória”, saída no Brasil em 1992, depois de fazer um completo arrazoar sobre os diversos traços de que se constitui a relação entre a “História” e a “Memória, Le Goff assevera que “A memória, onde cresce a história, que por sua vez a alimenta, procura salvar o passado para servir o presente e o futuro. [...]” (LE GOFF, 1992, p. 423). É em tal sentido que, ao se levantar as já espessas camadas de sedimentos muito fragmentados de quem rememora, tem sido evocada a memória de situações e circunstâncias vividas em um tempo que já está assentado em um passado que ainda não passou de todo – no dizer de Henry Rousso –, pois os seus diversos desdobramentos ainda são sentidos por tantos quantos as atravessaram. No dizer de Paul Ricöeur (1913-2005), “[...], sentimos e sabemos que alguma coisa se passou, que alguma coisa teve lugar, a qual nos implicou como agentes, como pacientes, como testemunhas. [...].” (RICÖEUR, 2007, p. 70).

É assim que, para reforçar a importância da memória para a História, a ideia de “lugares de memória” é bem ilustrativa para melhor se compreender aquilo que se vem arrazoando ao longo desta série de textos. Conforme se vem salientando ao longo destes garatujares, os espaços onde se dá um determinado evento individual ou coletivo, podem funcionar como desencadeador de memórias; também, há “lugares” que, nem sempre são criados para um tal fim – embora que outros, deliberadamente, podem sê-lo –, acabam por se tornar um “lugar de memória”, na medida em que, ao voltar alguém a percorrer salas, corredores e outros elementos concretos de um espaço dado, inúmeras lembranças podem vir à tona, espontaneamente ou não, fazendo com que aquele que estando ali, se lembra, possa refazer um circuito completo de acontecimentos, situações e/ou circunstâncias vividas naquele “lugar”. Os exemplos são abundantes. Para ilustrar, se pode citar as catedrais; as necrópoles; os diversos tipos monumentos aos mortos, ao soldado desconhecido; os prédios onde eram praticadas as seções de torturas – com a exceção dos “monumentos”, quase nenhum dos exemplos apontados, foi construído com a finalidade de ser um “lugar” de memória. No entanto, aqueles que foram vítimas das torturas perpetradas pelas forças da repressão, acabam por constituí-los como tais. Exemplo similar é o espaço onde funcionou o Centro Integrado Luíz Navarro de Brito, onde José Mário fez todo o seu processo formativo. No entanto, para ele, é um “lugar de memória” por excelência. Ali, no prédio onde estava instalada a direção, por sinal, ele realizara as provas por meio das quais, intentava inserir-se em mais uma etapa daquele processo que iniciara onze anos antes.

Portanto, conforme já é cediço através dos escritos anteriores, há pelo menos quarenta anos, José Mário, na ânsia de desenvolver o seu processo formativo, que teria o ingresso no ensino superior uma de suas etapas, buscava se apropriar de elementos propedêuticos que o permitissem fazer aquela transição, o que levaria a uma completa mudança de rumos do seu caminhar. Daí o estado de apreensão e ansiedade que vivenciara  naquela tarde em que, levado pela curiosidade e, mais do que isto, pelo desejo mesmo de saber qual teria sido o seu desempenho em relação aos conteúdos que julgara estar mais preparado, vindo a noite, o  encontrar desalentado, com o espírito tanto abatido, quanto reflexivo, sobre o continuar ou o recuar naquela caminhada que já lhe parecia perdida. E, com tantas interrogações a fervilhar naquele cérebro em ebulição, o sono teimava em não se apresentar; quando o fizera, não fora reparador; se fizera intermitente, arredio e, sobretudo, apenas o fizera mediante o cansaço do corpo que reclamava repouso.. Tendo enfim conciliado o sono, o fizera resoluto de não se dirigir ao local das provas, no terceiro dia de sua realização.

Assim, a manhã seguinte àquela tarde de conferência de gabaritos e à noite turbulenta e quase insone, o vestibulando despertara de um susto; em um raiar de dia que não ouvira o gorjear dos pássaros; nem aspirara os aromas matinais; despertara, porém sem o ímpeto dos dias anteriores, desfizera a resolução tomada antes de adormecer; levantara de um salto e se dirigira ao banho; tomara café e saíra. Na verdade, sem pressa; sua esperança era que não conseguisse chegar antes do fechamento dos portões; perderia, não por deliberação que beirava a covardia; mas, por não alcançar em tempo hábil o local das provas do último dia; aquelas que, dependendo do seu desempenho, o levaria a se fazer aprovar para o curso pretendido. Chegara. Talvez, houvesse sido o último a entrar no espaço das provas; tivera a impressão de ouvir o portão ser fechado logo após a sua entrada. Acreditara que, mais um minuto e, estaria fora do grupo que concorreria à vaga de História.

Mas, uma vez mais diante do material a ser lido e respondido, acomodado na sala da direção do “Estadual”, passara a se aplicar em interpretar os textos em Braille que estavam sob os seus dedos; atentara para a formulação das questões, temendo não as compreender corretamente e, por via de consequência, não as responder adequadamente. Ali, diga-se de passagem, ele tomara contato pela primeira vez, com questões de geografia que fugiam àquela que aprendera e que encontrara nos diversos livros que lera. Nada – ou quase nada – de relevo, hidrografia,, nem questões atinentes àquilo que depois veio a saber serem do campo da “Geografia física”. Questões como distribuição de renda; progressão aritmética ou geométrica de populações; densidade demográfica...; questões que, como foi dito em relação ao primeiro grupo, viera a saber se tratar de geografia econômica ou humana... Nem é preciso dizer que tudo aquilo era do seu inteiro desconhecimento; as respostas foram dadas por dedução – nem sempre lógica –, que o levara a perder pontos preciosos no computo geral do gabarito; era assim que lhe surgiam, a cada nova página lida, a cada questão que procurava resolver, novidades que lhe não foram apresentadas ao longo de todo o primeiro grau, nem mesmo no segundo.

Deste modo, ao final do turno de provas, José Mário se encontrava física e mentalmente exausto e, ao remoer as respostas que dera – como aliás, era do seu feitio, desde os tempos escolares –, ficara cada vez mais descrente de uma aprovação naquele certame. Nele, o bravo estudante descobrira, a cada linha lida daquele caderno de provas, o quanto estava desprovido de leituras e de conteúdos escolares, para fazer frente àqueles outros concorrentes, mais bem providos de acúmulo propedêutico e mais preparados para aquele tipo de enfrentamento. Talvez, aquele certame não tenha sido pior para ele, pelo fato de todo o material necessário para a sua realização ter sido transcrito em Braille e, ele não ter precisado lidar com ledores semianalfabetos ou analfabetos funcionais, o que dificultaria ainda mais a mobilização da sua já parca provisão de recursos intelectuais e a sua pequena quantidade de conteúdo para dar provisão àquela empreitada. Ah, como ele aguardara aquela tarde, como sendo o instante de dormir o sono reparador, aquele que não alcançara na noite anterior!

 

Alagoinhas – 04 de janeiro de 2026 – verão brasileiro.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

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