28 de janeiro de 1986 – as provas – V.
O arrazoado que se encontra diante de quem se disponha a
percorrer as suas linhas, começa a evocar a proposição desenvolvida pelo Historiador
francês Jacques Le Goff (1924-2014), com o fito de sustentar os elementos que
aqui serão evocados, no sentido de dar curso ao tema que há algumas semanas se
vem desenvolvendo. Em sua “História e Memória”, saída no Brasil em 1992, depois
de fazer um completo arrazoar sobre os diversos traços de que se constitui a
relação entre a “História” e a “Memória, Le Goff assevera que “A memória, onde
cresce a história, que por sua vez a alimenta, procura salvar o passado para
servir o presente e o futuro. [...]” (LE GOFF, 1992, p. 423). É em tal sentido
que, ao se levantar as já espessas camadas de sedimentos muito fragmentados de
quem rememora, tem sido evocada a memória de situações e circunstâncias vividas
em um tempo que já está assentado em um passado que ainda não passou de todo –
no dizer de Henry Rousso –, pois os seus diversos desdobramentos ainda são
sentidos por tantos quantos as atravessaram. No dizer de Paul Ricöeur
(1913-2005), “[...], sentimos e sabemos que alguma coisa se passou, que alguma
coisa teve lugar, a qual nos implicou como agentes, como pacientes, como
testemunhas. [...].” (RICÖEUR, 2007, p. 70).
É assim que, para reforçar a importância da memória para a
História, a ideia de “lugares de memória” é bem ilustrativa para melhor se
compreender aquilo que se vem arrazoando ao longo desta série de textos.
Conforme se vem salientando ao longo destes garatujares, os espaços onde se dá
um determinado evento individual ou coletivo, podem funcionar como
desencadeador de memórias; também, há “lugares” que, nem sempre são criados
para um tal fim – embora que outros, deliberadamente, podem sê-lo –, acabam por
se tornar um “lugar de memória”, na medida em que, ao voltar alguém a percorrer
salas, corredores e outros elementos concretos de um espaço dado, inúmeras lembranças
podem vir à tona, espontaneamente ou não, fazendo com que aquele que estando ali,
se lembra, possa refazer um circuito completo de acontecimentos, situações e/ou
circunstâncias vividas naquele “lugar”. Os exemplos são abundantes. Para ilustrar,
se pode citar as catedrais; as necrópoles; os diversos tipos monumentos aos
mortos, ao soldado desconhecido; os prédios onde eram praticadas as seções de
torturas – com a exceção dos “monumentos”, quase nenhum dos exemplos apontados,
foi construído com a finalidade de ser um “lugar” de memória. No entanto,
aqueles que foram vítimas das torturas perpetradas pelas forças da repressão,
acabam por constituí-los como tais. Exemplo similar é o espaço onde funcionou o
Centro Integrado Luíz Navarro de Brito, onde José Mário fez todo o seu processo
formativo. No entanto, para ele, é um “lugar de memória” por excelência. Ali,
no prédio onde estava instalada a direção, por sinal, ele realizara as provas
por meio das quais, intentava inserir-se em mais uma etapa daquele processo que
iniciara onze anos antes.
Portanto, conforme já é cediço através dos escritos
anteriores, há pelo menos quarenta anos, José Mário, na ânsia de desenvolver o
seu processo formativo, que teria o ingresso no ensino superior uma de suas
etapas, buscava se apropriar de elementos propedêuticos que o permitissem fazer
aquela transição, o que levaria a uma completa mudança de rumos do seu caminhar.
Daí o estado de apreensão e ansiedade que vivenciara naquela tarde em que, levado pela curiosidade
e, mais do que isto, pelo desejo mesmo de saber qual teria sido o seu desempenho
em relação aos conteúdos que julgara estar mais preparado, vindo a noite, o encontrar desalentado, com o espírito tanto
abatido, quanto reflexivo, sobre o continuar ou o recuar naquela caminhada que
já lhe parecia perdida. E, com tantas interrogações a fervilhar naquele cérebro
em ebulição, o sono teimava em não se apresentar; quando o fizera, não fora
reparador; se fizera intermitente, arredio e, sobretudo, apenas o fizera
mediante o cansaço do corpo que reclamava repouso.. Tendo enfim conciliado o
sono, o fizera resoluto de não se dirigir ao local das provas, no terceiro dia
de sua realização.
Assim, a manhã seguinte àquela tarde de conferência de gabaritos
e à noite turbulenta e quase insone, o vestibulando despertara de um susto; em
um raiar de dia que não ouvira o gorjear dos pássaros; nem aspirara os aromas
matinais; despertara, porém sem o ímpeto dos dias anteriores, desfizera a
resolução tomada antes de adormecer; levantara de um salto e se dirigira ao banho;
tomara café e saíra. Na verdade, sem pressa; sua esperança era que não
conseguisse chegar antes do fechamento dos portões; perderia, não por
deliberação que beirava a covardia; mas, por não alcançar em tempo hábil o
local das provas do último dia; aquelas que, dependendo do seu desempenho, o
levaria a se fazer aprovar para o curso pretendido. Chegara. Talvez, houvesse
sido o último a entrar no espaço das provas; tivera a impressão de ouvir o
portão ser fechado logo após a sua entrada. Acreditara que, mais um minuto e,
estaria fora do grupo que concorreria à vaga de História.
Mas, uma vez mais diante do material a ser lido e respondido,
acomodado na sala da direção do “Estadual”, passara a se aplicar em interpretar
os textos em Braille que estavam sob os seus dedos; atentara para a formulação
das questões, temendo não as compreender corretamente e, por via de
consequência, não as responder adequadamente. Ali, diga-se de passagem, ele
tomara contato pela primeira vez, com questões de geografia que fugiam àquela
que aprendera e que encontrara nos diversos livros que lera. Nada – ou quase
nada – de relevo, hidrografia,, nem questões atinentes àquilo que depois veio a
saber serem do campo da “Geografia física”. Questões como distribuição de
renda; progressão aritmética ou geométrica de populações; densidade
demográfica...; questões que, como foi dito em relação ao primeiro grupo, viera
a saber se tratar de geografia econômica ou humana... Nem é preciso dizer que
tudo aquilo era do seu inteiro desconhecimento; as respostas foram dadas por
dedução – nem sempre lógica –, que o levara a perder pontos preciosos no
computo geral do gabarito; era assim que lhe surgiam, a cada nova página lida,
a cada questão que procurava resolver, novidades que lhe não foram apresentadas
ao longo de todo o primeiro grau, nem mesmo no segundo.
Deste modo, ao final do turno de provas, José Mário se
encontrava física e mentalmente exausto e, ao remoer as respostas que dera –
como aliás, era do seu feitio, desde os tempos escolares –, ficara cada vez
mais descrente de uma aprovação naquele certame. Nele, o bravo estudante descobrira,
a cada linha lida daquele caderno de provas, o quanto estava desprovido de
leituras e de conteúdos escolares, para fazer frente àqueles outros
concorrentes, mais bem providos de acúmulo propedêutico e mais preparados para
aquele tipo de enfrentamento. Talvez, aquele certame não tenha sido pior para
ele, pelo fato de todo o material necessário para a sua realização ter sido transcrito
em Braille e, ele não ter precisado lidar com ledores semianalfabetos ou analfabetos
funcionais, o que dificultaria ainda mais a mobilização da sua já parca provisão
de recursos intelectuais e a sua pequena quantidade de conteúdo para dar
provisão àquela empreitada. Ah, como ele aguardara aquela tarde, como sendo o
instante de dormir o sono reparador, aquele que não alcançara na noite
anterior!
Alagoinhas – 04 de janeiro de 2026 – verão brasileiro.
Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com
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