07 de fevereiro de 1986 – O resultado–.
Diante do
arguto e paciente leitor destes garatujares, se encontra mais um arrazoado
fundamentado nos escavares de sedimentos de memória, armazenados há pelo menos
quarenta anos, em que se procurará trazer à tona, alguns fragmentos de um tempo
que, ainda que já vá um tanto longe, não o está fora do alcance de quem o viveu
e dele tem lembranças. A Alagoinhas apresentada como pano de fundo para contextualizar
o rememorar aqui proposto, era ainda um urbe quase pacata, de poucos
automóveis; a sua população se aproximava da centena de milhar, embora a sua
distribuição espacial fosse facilmente estruturada em bairros como o 2 de
Julho, Mangalô, Barreiro e Santa Terezinha como os que abrigava um maior número
de habitantes; enquanto o Jardim Pedro Braga, o Silva Jardim, a Praça Kenedy e
Alagoinhas Velha, experimentavam grande expansão com loteamentos, construções
de novas residências e a implantação de conjuntos residenciais. A Praça J. J.
Seabra e a praça Ruy Barbosa, eram de longe os maiores, os mais conhecidos e os
mais frequentados espaços públicos de então. Grande parte daqueles que cursavam
o ensino superior, o faziam fora do seu território, mormente em Salvador e
Feira de Santana. Este escrevedor tem muito nítido em sua memória tátil aqueles
espaços; suas travessas, suas ruas paralelas e perpendiculares, as conhecendo muito
bem, ao ponto de conseguir percebê-las, a cada ponto citado durante estes
escritos, como se neles estivesse passando enquanto escreve. É dentro deste
corolário de lembranças espaciais, sociais e vivenciais que se fundamentam as
memórias aqui esboçadas. Insiste-se em trazer como fundamento teórico e
metodológico da proposta largamente exposta no transcurso destes escritos, o
postulado de Paul Ricöeur, a respeito da memória, quando afirma ser ela a única
coisa que temos em que nos fiar de ter se dado alguma coisa, em algum momento.
Diz o filósofo francês já diversas vezes citado nesta série de rememorares, que
viveu entre os anos de 1913 e 2005 : [...] uma busca específica de verdade está implicada na visão da ”coisa”
passada, do que anteriormente visto, ouvido, experimentado, aprendido.
Essa busca de verdade especifica a memória como grandeza cognitiva. Mais
precisamente, é no momento do reconhecimento, em que culmina o esforço da
recordação, que essa busca de verdade se declara enquanto tal. Então, sentimos
e sabemos que alguma coisa se passou, que alguma coisa teve lugar, a qual nos
implicou como agentes, como pacientes, como testemunhas. [...] (RICÖEUR, 2007,
p. 70).
E, mais adiante, para o fim que
aqui interessa, ele arremata, que:
Será preciso, [...], não esquecer que tudo tem início
não nos arquivos, mas com o testemunho, e que, apesar da carência principial de
confiabilidade do testemunho, não temos nada melhor que o testemunho, em última
análise, para assegurar-nos de que algo aconteceu, a que alguém atesta ter
assistido pessoalmente, e que o principal, se não às vezes o único recurso,
além de outros tipos de documentação, continua a ser o confronto entre
testemunhos” (RICÖEUR, 2007, p. 156).
Enfim, chegava a metade do dia daquela terça-feira 28 de
janeiro, último dia das provas do vestibular que forneceria o passaporte para o
ingresso no ensino superior para quem nele fosse aprovado, dia que José Mário
quase não se dispusera a se dirigir ao local para onde convergira um bom número
de estudantes que pleiteavam as vagas disponibilizadas para os cursos de
licenciatura ofertados pela FFPA; dia em que ele não experimentara a mesma disposição
para o enfrentamento daqueles testes que, não só avaliavam o nível de
conhecimento propedêutico dos candidatos mas, também, ao que parecia, avaliava
a capacidade de resistência de um bom número deles. Certamente, aquele terceiro
e último dia de provas, já fora marcado pela abstenção de uma parte dos
avaliados, quer pelo cansaço físico e mental ou pela descoberta das
fragilidades dos conhecimentos testados até ali, quer pelo desânimo resultante
de tal descoberta. O certo é que José Mário, ao se dirigir ao “Estadual” para
encarar aquele último dia de provas, o fizera, muito mais pelo seu temperamento
que não admitia iniciar uma jornada e voltar do meio do caminho; mas, também e,
principalmente, porquê, para ele, não era só desistir; era, sobretudo, apresentar
uma justificativa fundamentada no terreno movediço de explicações que não se
sustentariam em pé, no momento em que fosse em busca de apoio daqueles que o
haviam emprestado, quando ele o buscara.
Portanto, concluída aquela última etapa da empreitada levada
à termo em três dias de sol pleno e de calor intenso; em três dias marcados por
variações de ânimo vividas por aquele vestibulando, desencadeadas pelas diversas
frustrações experimentadas a cada conferência de gabaritos; três dias marcados
por uma perda gradativa de confiança em um resultado que viesse a coroar os
esforços até ali envidados, dirigiu-se ele para a sua residência, mergulhando
de volta ao seu estado de solidão latente, em elucubrações feitas de si para
consigo, no sentido de intentar encontrar uma tábua de salvação daquele
naufrágio do seu barco, que ele já sentia soçobrar. Fizera maquinalmente o
trajeto de volta para casa; lá entrara, almoçara e, se dirigira ao seu espaço
de dormir, para ali, recobrar o sono mal conciliado na noite anterior. E,
adormecera; adormecera para repassar como em um “filme” imaginário, tudo que
procurara fazer, bem como tudo que sucedera, desde o instante em que decidira
trilhar aquele caminho em busca de avançar no seu processo formativo, daquela
vez, não mais o escolar obrigatório e formal; mas, pensava ele, aquele seria um
processo de formação para a vida laboral, igualmente formal mas, diferentemente
do anterior, com uma ponta de validade, na medida em que, conforme pensava,
ressalte-se, ele alcançaria uma titulação que o catapultaria, inexoravelmente,
ao seleto grupo das pessoas capacitadas para o exercício de uma função social
dada.
Entretanto, malgrado todo aquele reboliço desencadeado no
seu cérebro, José Mário dormira profundamente por toda aquela tarde, não
obstante o forte calor do final de
janeiro; apesar da inexistência de meios mecânicos para proporcionar um pouco
de conforto enquanto procurava refazer o corpo e a mente, naquele quarto onde o
telhado baixo e a quase inexistente ventilação aumentava ainda mais a sensação
de calor, fazendo com que José Mário se debatesse e suasse profusamente, a
tarde passara lenta e a noite chegara morna e, ao mesmo tempo que indiferente àquele
rapaz ainda envolto em ideias que davam conta de sua pouca malícia e de sua
quase total desconexão da realidade da vida efetivamente vivida; não passava
pelos pensamentos daquele rapaz formado pela leitura romântica da vida, que o
que ele quisesse obter, ainda que, eventualmente, capacitado para tal, teria que
ser quase que tomado a força; teria que enfrentar a obstinada resistência da
sociedade em permitir que ele pudesse exercer alguma coisa no campo da vida
profissional, ainda que ele fosse – ou imaginasse ser –capacitado para o fazer.
A sua ingenuidade não possibilitava compreender que a vida não lhe sorriria
feliz por ser ele um “Licenciado”, um “graduado”; sequer passava pelos seus
pensamentos a perspectiva de que, na realidade, o graduar-se ou o licenciar-se,
seria uma arma para o combate; não o troféu do combate.
Assim passaram-se os dias e as noites que se seguiram ao que
se descreveu linhas acima. Aqueles pensares chegavam e saíam como as ondas do
oceano, ora fortes e devastadores; ora suaves e percebidos apenas pelos sussurros
dos seus movimentos; ora rebentando nas pedras, esmiuçando as quimeras e
tornando em pó as formulações e os intentos que vicejavam por alguns minutos ou,
quando muito, por algumas horas, para depois serem esfarelados como os
barquinhos de papel engolidos pelas águas espumosas das quais não consegue
escapar ou ainda, feitos nada, como os castelos de areia tão cuidadosamente
construídos nos muitos instantes de solidão e nos remoeres dos anseios de se
obter as ferramentas para a tão necessária inserção social. Eram dias que
insistiam em não começar, entre noites que teimava em não terminar; as tardes
quentes e lentas, como que arrastavam os pés, como aquele que não quer chegar,
pelo menos, não quer chegar logo ao fim, para assim, vir a noite e com ela a
insônia, aquela dama que insiste em não arredar dali, pelo menos, enquanto o
dia seguinte não se aproximar. Aquele ciclo acabava por devastar os nervos, os
ânimos, as vontades, as possibilidades... Mas, a teimosia, esta, também impertinente,
não arredava do seu posto de observação; vigiava cada movimento; cada mudança
de rumo ou de humor; tomava nota de cada pensar em desistir; marcava com cores
vivas cada querer voltar atrás!... Ah, a teimosia... a teimosia... aquela velha
senhora que parecia inquebrantável em seu propósito de não permitir recuos, nem
mesmo aqueles recuos pretensamente estratégicos... Ela, ela não admitia nem
ele, pois, via uma espécie de escusa para desistir..
Pois então, fora exatamente a teimosia quem insistira para
que José Mário, mesmo não acreditando ter qualquer chance, de acordo com a
leitura que fizera dos gabaritos que consultara, esperasse e ficasse atento à
divulgação do resultado do vestibular e, claro, fosse conferir a lista dos
aprovados, até para ter a certeza de que nela o seu nome não estaria elencado.
Ouvinte de rádio desde a sua meninice, sendo aquele o único veículo a que tinha
acesso, sabia que havia uma seção do “Balanço Geral”, então apresentado por
Fernando José (1943-1998), na qual as manchetes dos principais jornais de
Salvador eram destacadas, atentava a cada manhã, para aquela parte do programa,
com o fito de saber quando sairia a manchete dando conta de que a Uneb
divulgaria o resultado daquele vestibular em que ele era um dos postulantes; em
anos anteriores, algumas rádios até divulgavam nominalmente as listas de
aprovados, sobretudo, nos cursos socialmente mais importantes: Medicina,
Odontologia, e Direito, para os quais o glamour tanto da mídia quanto das
famílias dos aprovados era já de conhecimento público. Ele não esperava tanto,
no que respeita à curso de licenciatura, da Universidade do Estado da Bahia e,
ainda menos, da Faculdade de Formação de Professores de Alagoinhas. Mas,
conseguir saber que aquele resultado saíra e, em qual jornal procurar, já seria
um grande avanço, pois assim, saberia, se sim ou se não, se não ou se sim. E,
assim foi.
Ao levantar de mais uma daquelas longas noites insones,
Poucos antes das seis daquela manhã de sexta-feira que antecedera o carnaval de
1986, José Mário ligara o rádio e passara a ouvir o “Balanço Geral” programa
diário veiculado pela Rádio Sociedade da Bahia (AM) – “ Balanço total, o que
deu no Jornal” dizia a vinheta, gravada com a inconfundível e belíssima voz de oton
Carlos (1957-2020). Atentamente, ele escutava Fernando José lendo as manchetes
do “Bahia Hoje”, do “Jornal da Bahia”, da “Tribuna da Bahia” e, por fim,
anunciava “as manchetes do Jornal A Tarde”: “[...]. Sai o resultado do
vestibular da Uneb [...]”... José Mário nada mais ouviu; engoliu o café e
correu para a rodoviária, pensando encontrar ali um dos seus irmãos, que atuava
como fiscal de transportes, para que lesse o jornal e visse a lista dos
aprovados que ali estava publicado . Não o encontrando, criou coragem, procurou
vencer a timidez – na verdade, era o medo de não se achar elencado naquela
lista – se encaminhou para uma banca de jornais e, pediu ao jornaleiro que, por
gentileza, lesse a lista dos aprovados em História...
- “Mas, olhe, não precisa ler tudo não... Basta ler aqueles
aprovados com o nome iniciado pela letra J”...
José Mário engoliu o choro, ao ouvir o seu nome... Pediu que
lesse outra vez.... De novo, engoliu o choro, agradeceu e saiu, procurando
conter as lágrimas, que queriam lhe irromper das órbitas... Com o coração aos
saltos, ele entra no ônibus e, desce na Praça Ruy Barbosa, para se dirigir até a
rua Benjamin Constante, onde se situava a residência do Pastor Jessé, aquele
que propiciou o recurso para que pudesse pagar a sua inscrição, para lhe dizer
que... passou! Nunca ele choraria em público, daquele jeito, sem ... procurara
estancar o pranto, antes de bater à porta que logo se lhe abrira e, largara a
informação para o amigo, como se ... e veio o abraço... O abraço de quem se comprazia
com aquela notícia e.... saindo de diante dele, deixou que rebentasse o ribeiro,
sem receios ou vergonhas de quaisquer natureza. Era o extravasar de uma etapa percorrida
e, mesmo contrariando o seu próprio diagnóstico, concluída com êxito.
Alagoinhas – 11 de janeiro de 2026 – verão brasileiro
Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com
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