domingo, 11 de janeiro de 2026

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte XV.

 

07 de fevereiro de 1986 – O resultado–.

 

Diante do arguto e paciente leitor destes garatujares, se encontra mais um arrazoado fundamentado nos escavares de sedimentos de memória, armazenados há pelo menos quarenta anos, em que se procurará trazer à tona, alguns fragmentos de um tempo que, ainda que já vá um tanto longe, não o está fora do alcance de quem o viveu e dele tem lembranças. A Alagoinhas apresentada como pano de fundo para contextualizar o rememorar aqui proposto, era ainda um urbe quase pacata, de poucos automóveis; a sua população se aproximava da centena de milhar, embora a sua distribuição espacial fosse facilmente estruturada em bairros como o 2 de Julho, Mangalô, Barreiro e Santa Terezinha como os que abrigava um maior número de habitantes; enquanto o Jardim Pedro Braga, o Silva Jardim, a Praça Kenedy e Alagoinhas Velha, experimentavam grande expansão com loteamentos, construções de novas residências e a implantação de conjuntos residenciais. A Praça J. J. Seabra e a praça Ruy Barbosa, eram de longe os maiores, os mais conhecidos e os mais frequentados espaços públicos de então. Grande parte daqueles que cursavam o ensino superior, o faziam fora do seu território, mormente em Salvador e Feira de Santana. Este escrevedor tem muito nítido em sua memória tátil aqueles espaços; suas travessas, suas ruas paralelas e perpendiculares, as conhecendo muito bem, ao ponto de conseguir percebê-las, a cada ponto citado durante estes escritos, como se neles estivesse passando enquanto escreve. É dentro deste corolário de lembranças espaciais, sociais e vivenciais que se fundamentam as memórias aqui esboçadas. Insiste-se em trazer como fundamento teórico e metodológico da proposta largamente exposta no transcurso destes escritos, o postulado de Paul Ricöeur, a respeito da memória, quando afirma ser ela a única coisa que temos em que nos fiar de ter se dado alguma coisa, em algum momento. Diz o filósofo francês já diversas vezes citado nesta série de rememorares, que viveu entre os anos de 1913 e 2005 : [...] uma busca específica de verdade está implicada na visão da ”coisa” passada, do que anteriormente visto, ouvido, experimentado, aprendido. Essa busca de verdade especifica a memória como grandeza cognitiva. Mais precisamente, é no momento do reconhecimento, em que culmina o esforço da recordação, que essa busca de verdade se declara enquanto tal. Então, sentimos e sabemos que alguma coisa se passou, que alguma coisa teve lugar, a qual nos implicou como agentes, como pacientes, como testemunhas. [...] (RICÖEUR, 2007, p. 70).

E, mais adiante, para o fim que aqui interessa, ele arremata, que:

Será preciso, [...], não esquecer que tudo tem início não nos arquivos, mas com o testemunho, e que, apesar da carência principial de confiabilidade do testemunho, não temos nada melhor que o testemunho, em última análise, para assegurar-nos de que algo aconteceu, a que alguém atesta ter assistido pessoalmente, e que o principal, se não às vezes o único recurso, além de outros tipos de documentação, continua a ser o confronto entre testemunhos” (RICÖEUR, 2007, p. 156).

 

Enfim, chegava a metade do dia daquela terça-feira 28 de janeiro, último dia das provas do vestibular que forneceria o passaporte para o ingresso no ensino superior para quem nele fosse aprovado, dia que José Mário quase não se dispusera a se dirigir ao local para onde convergira um bom número de estudantes que pleiteavam as vagas disponibilizadas para os cursos de licenciatura ofertados pela FFPA; dia em que ele não experimentara a mesma disposição para o enfrentamento daqueles testes que, não só avaliavam o nível de conhecimento propedêutico dos candidatos mas, também, ao que parecia, avaliava a capacidade de resistência de um bom número deles. Certamente, aquele terceiro e último dia de provas, já fora marcado pela abstenção de uma parte dos avaliados, quer pelo cansaço físico e mental ou pela descoberta das fragilidades dos conhecimentos testados até ali, quer pelo desânimo resultante de tal descoberta. O certo é que José Mário, ao se dirigir ao “Estadual” para encarar aquele último dia de provas, o fizera, muito mais pelo seu temperamento que não admitia iniciar uma jornada e voltar do meio do caminho; mas, também e, principalmente, porquê, para ele, não era só desistir; era, sobretudo, apresentar uma justificativa fundamentada no terreno movediço de explicações que não se sustentariam em pé, no momento em que fosse em busca de apoio daqueles que o haviam emprestado, quando ele o buscara.

Portanto, concluída aquela última etapa da empreitada levada à termo em três dias de sol pleno e de calor intenso; em três dias marcados por variações de ânimo vividas por aquele vestibulando, desencadeadas pelas diversas frustrações experimentadas a cada conferência de gabaritos; três dias marcados por uma perda gradativa de confiança em um resultado que viesse a coroar os esforços até ali envidados, dirigiu-se ele para a sua residência, mergulhando de volta ao seu estado de solidão latente, em elucubrações feitas de si para consigo, no sentido de intentar encontrar uma tábua de salvação daquele naufrágio do seu barco, que ele já sentia soçobrar. Fizera maquinalmente o trajeto de volta para casa; lá entrara, almoçara e, se dirigira ao seu espaço de dormir, para ali, recobrar o sono mal conciliado na noite anterior. E, adormecera; adormecera para repassar como em um “filme” imaginário, tudo que procurara fazer, bem como tudo que sucedera, desde o instante em que decidira trilhar aquele caminho em busca de avançar no seu processo formativo, daquela vez, não mais o escolar obrigatório e formal; mas, pensava ele, aquele seria um processo de formação para a vida laboral, igualmente formal mas, diferentemente do anterior, com uma ponta de validade, na medida em que, conforme pensava, ressalte-se, ele alcançaria uma titulação que o catapultaria, inexoravelmente, ao seleto grupo das pessoas capacitadas para o exercício de uma função social dada.

Entretanto, malgrado todo aquele reboliço desencadeado no seu cérebro, José Mário dormira profundamente por toda aquela tarde, não obstante o  forte calor do final de janeiro; apesar da inexistência de meios mecânicos para proporcionar um pouco de conforto enquanto procurava refazer o corpo e a mente, naquele quarto onde o telhado baixo e a quase inexistente ventilação aumentava ainda mais a sensação de calor, fazendo com que José Mário se debatesse e suasse profusamente, a tarde passara lenta e a noite chegara morna e, ao mesmo tempo que indiferente àquele rapaz ainda envolto em ideias que davam conta de sua pouca malícia e de sua quase total desconexão da realidade da vida efetivamente vivida; não passava pelos pensamentos daquele rapaz formado pela leitura romântica da vida, que o que ele quisesse obter, ainda que, eventualmente, capacitado para tal, teria que ser quase que tomado a força; teria que enfrentar a obstinada resistência da sociedade em permitir que ele pudesse exercer alguma coisa no campo da vida profissional, ainda que ele fosse – ou imaginasse ser –capacitado para o fazer. A sua ingenuidade não possibilitava compreender que a vida não lhe sorriria feliz por ser ele um “Licenciado”, um “graduado”; sequer passava pelos seus pensamentos a perspectiva de que, na realidade, o graduar-se ou o licenciar-se, seria uma arma para o combate; não o troféu do combate.

Assim passaram-se os dias e as noites que se seguiram ao que se descreveu linhas acima. Aqueles pensares chegavam e saíam como as ondas do oceano, ora fortes e devastadores; ora suaves e percebidos apenas pelos sussurros dos seus movimentos; ora rebentando nas pedras, esmiuçando as quimeras e tornando em pó as formulações e os intentos que vicejavam por alguns minutos ou, quando muito, por algumas horas, para depois serem esfarelados como os barquinhos de papel engolidos pelas águas espumosas das quais não consegue escapar ou ainda, feitos nada, como os castelos de areia tão cuidadosamente construídos nos muitos instantes de solidão e nos remoeres dos anseios de se obter as ferramentas para a tão necessária inserção social. Eram dias que insistiam em não começar, entre noites que teimava em não terminar; as tardes quentes e lentas, como que arrastavam os pés, como aquele que não quer chegar, pelo menos, não quer chegar logo ao fim, para assim, vir a noite e com ela a insônia, aquela dama que insiste em não arredar dali, pelo menos, enquanto o dia seguinte não se aproximar. Aquele ciclo acabava por devastar os nervos, os ânimos, as vontades, as possibilidades... Mas, a teimosia, esta, também impertinente, não arredava do seu posto de observação; vigiava cada movimento; cada mudança de rumo ou de humor; tomava nota de cada pensar em desistir; marcava com cores vivas cada querer voltar atrás!... Ah, a teimosia... a teimosia... aquela velha senhora que parecia inquebrantável em seu propósito de não permitir recuos, nem mesmo aqueles recuos pretensamente estratégicos... Ela, ela não admitia nem ele, pois, via uma espécie de escusa para desistir..

Pois então, fora exatamente a teimosia quem insistira para que José Mário, mesmo não acreditando ter qualquer chance, de acordo com a leitura que fizera dos gabaritos que consultara, esperasse e ficasse atento à divulgação do resultado do vestibular e, claro, fosse conferir a lista dos aprovados, até para ter a certeza de que nela o seu nome não estaria elencado. Ouvinte de rádio desde a sua meninice, sendo aquele o único veículo a que tinha acesso, sabia que havia uma seção do “Balanço Geral”, então apresentado por Fernando José (1943-1998), na qual as manchetes dos principais jornais de Salvador eram destacadas, atentava a cada manhã, para aquela parte do programa, com o fito de saber quando sairia a manchete dando conta de que a Uneb divulgaria o resultado daquele vestibular em que ele era um dos postulantes; em anos anteriores, algumas rádios até divulgavam nominalmente as listas de aprovados, sobretudo, nos cursos socialmente mais importantes: Medicina, Odontologia, e Direito, para os quais o glamour tanto da mídia quanto das famílias dos aprovados era já de conhecimento público. Ele não esperava tanto, no que respeita à curso de licenciatura, da Universidade do Estado da Bahia e, ainda menos, da Faculdade de Formação de Professores de Alagoinhas. Mas, conseguir saber que aquele resultado saíra e, em qual jornal procurar, já seria um grande avanço, pois assim, saberia, se sim ou se não, se não ou se sim. E, assim foi.

Ao levantar de mais uma daquelas longas noites insones, Poucos antes das seis daquela manhã de sexta-feira que antecedera o carnaval de 1986, José Mário ligara o rádio e passara a ouvir o “Balanço Geral” programa diário veiculado pela Rádio Sociedade da Bahia (AM) – “ Balanço total, o que deu no Jornal” dizia a vinheta, gravada  com a inconfundível e belíssima voz de oton Carlos (1957-2020). Atentamente, ele escutava Fernando José lendo as manchetes do “Bahia Hoje”, do “Jornal da Bahia”, da “Tribuna da Bahia” e, por fim, anunciava “as manchetes do Jornal A Tarde”: “[...]. Sai o resultado do vestibular da Uneb [...]”... José Mário nada mais ouviu; engoliu o café e correu para a rodoviária, pensando encontrar ali um dos seus irmãos, que atuava como fiscal de transportes, para que lesse o jornal e visse a lista dos aprovados que ali estava publicado . Não o encontrando, criou coragem, procurou vencer a timidez – na verdade, era o medo de não se achar elencado naquela lista – se encaminhou para uma banca de jornais e, pediu ao jornaleiro que, por gentileza, lesse a lista dos aprovados em História...

- “Mas, olhe, não precisa ler tudo não... Basta ler aqueles aprovados com o nome iniciado pela letra J”...

José Mário engoliu o choro, ao ouvir o seu nome... Pediu que lesse outra vez.... De novo, engoliu o choro, agradeceu e saiu, procurando conter as lágrimas, que queriam lhe irromper das órbitas... Com o coração aos saltos, ele entra no ônibus e, desce na Praça Ruy Barbosa, para se dirigir até a rua Benjamin Constante, onde se situava a residência do Pastor Jessé, aquele que propiciou o recurso para que pudesse pagar a sua inscrição, para lhe dizer que... passou! Nunca ele choraria em público, daquele jeito, sem ... procurara estancar o pranto, antes de bater à porta que logo se lhe abrira e, largara a informação para o amigo, como se ... e veio o abraço... O abraço de quem se comprazia com aquela notícia e.... saindo de diante dele, deixou que rebentasse o ribeiro, sem receios ou vergonhas de quaisquer natureza. Era o extravasar de uma etapa percorrida e, mesmo contrariando o seu próprio diagnóstico, concluída com êxito.

 

Alagoinhas – 11 de janeiro de 2026 – verão brasileiro

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

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