domingo, 28 de dezembro de 2025

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte XIII.

27 de janeiro de 1986 – as provas – IV.

 

Em mais um escavar de profundas camadas de memórias já pretéritas,  se pretende trazer à público, um outro feixe de sedimentos de um tempo em que eram envidados esforços para que José Mário se pudesse imiscuir em um processo formativo que o preparasse para a interação necessária com o viver cotidiano. Aquele era um tempo em que as assim chamadas “tecnologias assistivas” nem ao menos eram cogitadas – os primeiros cegos começavam a ser inseridos no processo de programação computacional de grande porte mas, ainda assim, sem autonomia –; o que se tinha e, mesmo assim, com grande defasagem no que tange à sua abrangência e ao alcance de tantos quantos delas viessem a necessitar, era a já velha e carcomida “tiflologia”, que, apesar do termo aparentemente pomposo, nada mais era do que o modo como as pessoas cegas podiam se acercar dos meios de escrita e leitura comuns, para que assim, conseguissem prosseguir no seu intento de se fazer formadas e, sobretudo, aptas para a inserção no mercado de trabalho, ao menos, em tese. Não custa salientar, portanto que, no tempo em que José Mário se esforçava por ingressar em um curso de nível superior, ele só contava com a sua Reglete e o seu Punção para a escrita em Braille – para o seu próprio uso –; com a sua bengala para realizar os deslocamentos; com uma máquina de datilografia comum, para a sua interação com professores e os demais com os quais precisasse se comunicar por escrito. Para José Mário tomar contato com aquilo que mais tardiamente veio a ser chamado “tecnologia assistiva”, bem como iniciar as relações com ela, em seus primeiros rudimentos bem primordiais, foi preciso esperar ainda uma década. É assim que, ao intentar trazer à lume fragmentos de memória prospectados em suas mais profundas camadas há muito encobertas pelo passar do tempo e pelo acúmulo de tantas outras que se sobrepunham àquelas, se pretende que, uma vez ressignificada e saída do silêncio em que estivera, possa então se tornar História, conforme postulam Le Goff (1992), Ricöeur (2007), Bosi (1994), Fernández (1996), Traverso (2012), já amplamente citados nestes arrazoados.

Conforme se escreveu quase ao final dos garatujares anteriores, José Mário, não obstante a sua necessidade de descansar daquela manhã puxada que fora o segundo dia de provas, fora superada pelo desejo de saber qual teria sido o seu desempenho nas provas do dia anterior, o que lhe obrigaria a apelar para os filhos do vizinho, a fim de que um deles se dispusesse a ler o gabarito que houvera sido publicado no jornal A Tarde daquela segunda feira. Assim pensando, pouco depois do almoço, tendo dado um tempo para que o “feijão” se ajustasse ao processo digestivo, tímida e cautelosamente, ele se dirigira à casa de Seu Augusto e, não sem fazer algum esforço – embora aqueles rapazes  fossem seus velhos conhecidos de conversas, brincadeiras no quintal e piadas “ao pé do poste” –, lhes indagara se o jornal A Tarde havia sido  visto ali, naquele dia. Diante da resposta afirmativa, ainda mais intimidado, indagou se alguém lhe poderia ler o gabarito das provas do vestibular, para que ele o pudesse copiar... Pronto. Desafortunadamente, estava entregue o segredo que ele tanto guardara e, que só por necessidade – para não dizer extrema curiosidade – acabara por dar a conhecer àqueles vizinhos de muitos anos e travessuras. Afinal, aquele fora um segredo que José Mário intentara ocultar, mesmo daqueles seus velhos companheiros de infância, de subidas em pés de manga e de jáca, de brincadeiras de “cowboy”, de assistências de “Viagem ao fundo do Mar”, de programas como os de “Chico City”, entre outros folguedos de tempos em que se brincava na rua e, muitos daqueles brincares só eram viabilizados coletivamente, e que  se assistia programas de televisão no mesmo espaço, na mesma sala e no mesmo aparelho, um “Colorado” em preto e branco, como era o que jazia naquela casa. Era um segredo que só fora dado a conhecer a aqueles de quem não era possível ocultar, pois, era uma empreitada que sozinho, ele não poderia enfrentar. Mas, não fora aquela necessidade de apoio para a sua consecução, nem os amigos mais próximos, nem a sua mãe e, ainda menos, os seus vizinhos mais achegados, ficariam sabendo de sua sorte: a menos que viesse a lhe ser favorável.

Assim, entre constrangimentos e mal disfarçadas surpresas, o gabarito foi lido por um deles – ou por uma delas, a esta altura, não há clareza no rememorar – tendo ele copiado as alternativas que deveriam ter sido marcadas para se configurar os acertos. Terminada que fora a leitura, ele se retirou daquele espaço, inegavelmente desapontado, para se mergulhar outra vez no seu refugiar costumeiro. Se recolhera para remoer o desapontamento que sentira ao perceber que não houvera alcançado o desempenho que acreditara teria tido. O número de alternativas acertadamente marcado, não lhe dera qualquer certeza de desempenho que redundasse em aprovação. Diversas vezes pensara em sequer se apresentar para o último dia de provas; se, naquela para a qual ele se acreditava mais preparado, houvera tido um desempenho tão abaixo do seu crivo, o que seria da segunda leva de provas, para a qual, efetivamente, ele não dispunha de qualquer preparo, ao menos para não “zerar”? Se não se saíra bem naquelas provas do primeiro dia, teria se saído ainda pior, naquelas que há poucas horas acabara de fazer.

Mergulhado naquele pensar, afogado naqueles cismares intermináveis e, embatendo-se em decisões que não se arredavam daquele cérebro em que cabriolavam, ora com força de afirmação do seu não comparecer para a realização da última leva de provas; ora, ao contrário, lhe gritava ser uma decisão covarde, o que lhe fazia rever o decidido minutos – para não dizer segundos – antes; fazendo e desfazendo a mesma decisão, conforme a força da tempestade que se abatia no seu interior, José Mário passara aquele resto de tarde entre avançar e recuar de uma caminhada que já fazia há alguns meses, que já ultrapassara alguns obstáculos, que já estava se encaminhando para os últimos metros do seu percurso.

Foi assim que aquela noite o encontrou. Não saíra do seu refúgio, a não ser para comer. Isto ele fizera cabisbaixo e sem se dispor a dizer para a sua mãe que não iria para o dia seguinte das provas. Depois, procurara conciliar o sono. Este, teimoso e resistente, custara a vir. E, se veio, o fizera de forma picotada; também trouxera consigo aqueles pesadelos de quem se faz acompanhar, quando o que o quer por perto se encontra agitado e embatendo-se consigo mesmo, quer, não quer e, ato contínuo, volta a querer. Mas, o que ele não recuperara mesmo, quer no seu ímpeto, quer em um misto de medo e resistência à ideia de recuo, foi o ânimo. Ele, ao que parecia ao insone e alquebrado vestibulando, arrefecera e, por isso mesmo, deixara de lhe servir de combustível para insistir em palmilhar aquele último pedaço de caminho que se lhe apresentaria para ser percorrido no dia seguinte àquela noite, muitíssimo mal dormida.

 

Alagoinhas – 28 de dezembro de 2025 – sexagésimo quinto verá brasileiro, vivido por quem traceja estes garatujes.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 21 de dezembro de 2025

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte XII.

27 de janeiro de 1986 – as provas – III.

 

Conforme se vem salientando ao longo dos arrazoados aqui propostos, a memória – tanto aquela ligada ao indivíduo, quanto a que se manifesta a partir do conjunto dos indivíduos –, quando ainda não monumentalizada, no dizer de Jacques Le Goff (1924-2014), está sujeita a ressignificações a partir do presente, sem, contudo, perder aquilo que mais interessa ao pesquisador, que é o fato de saber que, o que foi dito por aquele que se lembra, de fato aconteceu, conforme assegura Paul Ricöeur (1913-2005), quando diz que não se tem nada melhor para dar a conhecer um determinado evento, se não a memória do indivíduo que lembra.  É nesta perspectiva que se continua a buscar na trajetória de José Mário, a memória daquele passado em que ele estivera envolvido em seu esforço para dar continuidade ao processo formativo que, de acordo com o que pensava, dar-lhe-ia o ferramental de que necessitava para que, entre outras coisas, pudesse prover a si e aos que por ele viessem a ser arrimados. É assim que, ao desenvolver estes garatujares, se tem procurado realizar incursões nos sedimentos das diversas camadas da memória, sob as quais se encontra o passado que se tem procurado trazer ao crivo de tantos quantos tenham tido a paciência de os ler. Faz-se ainda mister ressaltar de passagem que, os rememorares que vem sendo trazidos nestas postagens, estão sustentados no princípio postulado por Le Goff, em obra de 1996, publicada no Brasil sob o título de “História e Memória”, originalmente publicada em formato de verbetes, quando ao final daquele em que discorre sobre a memória, crava uma espécie de resumo de todo o seu trabalho em fazer o leitor entender o que é e para que serve a memória, afirmando que: “A memória, onde cresce a história, que por sua vez a alimenta, procura salvar o passado para servir o presente e o futuro. [...].” (LE GOFF, 1996, p. 477). 

Naquela última segunda feira de janeiro de 1986, dia em que José Mário realizaria o segundo bloco de provas necessário para continuar a sua caminhada pelo vestibular, como o fizera no dia anterior, acordara ainda cedo, talvez dia já claro, mas, ainda não nascido de todo, erguendo-se e dirigindo-se ao banho e ao café, depois, vestindo-se e deixando a residência para alcançar o ônibus que, por ser uma segunda feira e, havendo grande movimentação de pessoas para a rodoviária, a fim de alcançarem o transporte que os levaria aos locais/lugares de trabalho, o coletivo urbano iniciava a circulação por volta das quatro da manhã – horário que, aliás, ele já conhecia bem –, sendo então provável que conseguisse embarcar naquele que iria para a rodoviária, o que permitiria desembarcar próximo do hospital Dantas Bião, de onde seguiria a pé em direção do Estadual, que não ficava longe dali e, chegaria em um horário compatível com o momento da abertura dos portões, quando todos ingressariam no espaço em que realizariam aquelas provas. Convém chamar a atenção de quem percorre estas linhas, que a Alagoinhas em que se passam os eventos aqui rememorados, era uma cidade que não oferecia muitas oportunidades de empregos formais aos seus munícipes, o que forçava a saída daqueles, em busca de outros centros urbanos – como Catu, Camaçari e Salvador –, onde pudessem encontrar as oportunidades de trabalho que por cá eram limitadas ao comércio varejista e ao setor de transportes  - urbano e rodoviário -, muitas vezes, incompatíveis e/ou insuficientes para atender à necessidade da grande maioria daqueles que estavam aptos para ingressar no mercado de trabalho. Isto explica, ao menos em parte, a grande pressão exercida sobre o sistema de transportes local, o que forçava o aumento da oferta de horários, tanto no setor urbano, quanto no rodoviário, que permitisse atender ao que era demandado por uma população que era obrigada a se deslocar do seu lugar de moradia, em busca de alcançar o sustento diário para si e para os seus.

Voltando a falar de José Mário em sua empreitada no intento de se fazer imiscuir no ensino superior, saliente-se de passagem que, não obstante a tensão vivida no primeiro dia e o cansaço decorrente do longo tempo que precisou empregar para completar todo o processo de leitura, reflexão, marcação das alternativas, além da escrita da redação, José Mário se mantivera firme na sala onde aqueles procedimentos foram realizados, aproveitando todo o tempo que lhe fora disponibilizado para tal e, só deixando o Estadual por volta do meio dia e meio, naquele segundo momento, por volta das sete horas da manhã seguinte, ele já lá se encontrava, pronto para enfrentar, mais aquela jornada de provas.

No entanto, para ele, aquele era o momento mais difícil do certame a que se propusera a enfrentar. Ali, José Mário estava diante de matérias cujos temas e proposições, ele pouco ou nada sabia – mais nada do que pouco, diga-se de passagem –, visto que, conforme já foi apontado em postagens anteriores, aquelas que eram as chamadas “ciências duras” – ou, como se diz hoje, “ciências Naturais e da Terra” –, quase não foi por ele aprendida, embora todas elas – ou quase todas – tenham sido regularmente cursadas. É de bom alvitre ressaltar que, em tais matérias, José Mário fora aluno de bons professores, tais como Antônio Fagundes, Zenildes  e Maria do Carmo, nas matemáticas; o professor Aristóteles, em física; o professor Benedito, em biologia; também era bom o professor de Química... Portanto, o nada ter aprendido de tais matérias, não se devera aos professores que ele tivera; mas, sim, a ele mesmo, que não possuía aptidão, disposição ou mesmo  interesse nelas. Para reforçar a inaptidão e o desinteresse, cumpre apontar o escasso acesso aos livros que delas tratavam, embora, alguns deles estivessem transcritos em Braille, como a Química de Antônio Lembo, a Física de Bonjorno, os professores mencionados acima, não os adotava como sendo o seu material de trabalho, o que dificultava ainda mais a feitura de qualquer esforço por parte daquele aluno, no sentido de melhor compreender ou, quando menos, apreender os rudimentos mais basilares daquelas ciências, ao menos, para não se dar tão mal em um certame como aquele, onde havendo classificação, tal se daria de acordo com a pontuação geral obtida.

Entretanto, ele ali precisaria estar para enfrentar aquelas questões que estavam sob os seus dedos, que, até mesmo os enunciados lhes eram pouco compreensíveis. O que precisaria fazer então, era evitar zerar qualquer uma daquelas provas, sob pena de desclassificação sumária do certame. Talvez, por isto mesmo, a tensão naquele segundo dia fosse ainda maior do que a do primeiro, exatamente porque, sequer saberia qual a resposta que não seria a correta, dentre as quatro possíveis, inseridas em cada questão proposta. Desta maneira, as provas seriam respondidas de modo alheio a qualquer processo de aprendizagem das matérias que estavam sendo apresentadas como sendo uma forma de aferir o que aquele aluno aprendera em todo o seu processo de escolarização. Era sim, um esforço para que nenhuma daquelas provas tivesse marcadas questões erradas em sua integridade, obtendo zero acertos, como já se disse, o que resultaria na perda de todo o certame!

Foi assim pensando que José Mário se dirigiu até a mesma sala onde estivera no dia anterior, para ali encarar aquela tarefa que lhe incumbia executar. Ao receber o material correspondente às provas que ele deveria responder naquele dia, procurara percorrer todas as suas páginas, no intuito de encontrar algum enunciado que para ele viesse a fazer algum sentido, visando alcançar o objetivo já acima indicado: não se fazer eliminar sumariamente daquele certame. Abrira sobre a mesa a tabela periódica que se encontrava anexa ao material; passeara com os seus dedos nas páginas e nos gráficos correspondentes à Física, não sendo, evidentemente, capaz de reconhecer ou responder quaisquer questões dali derivadas; talvez tenha encontrado na prova de biologia, alguma questão que pudesse tentar responder sem medo de  errar – embora não tivesse grande confiança naquilo – se demorando um pouco mais nelas, tomando-as enfim, como uma espécie de “tábua” de salvação, por meio da qual pudesse evitar o completo naufrágio. Tendo se debatido por algumas horas naquelas águas encapeladas, se deu por vencido e concluiu mais aquela cansativa jornada, finalizando o processo de marcação no gabarito, assinando a documentação que tivera de o fazer e, levantando-se e saindo para deixar o local, algo por volta das onze da manhã, chegando em casa na justa hora do almoço.

Mas, o desejo de descansar daquela manhã puxada, fora vencido pelo desejo de saber qual teria sido o seu desempenho nas provas do dia anterior, o que lhe obrigaria a apelar para os filhos do vizinho, a fim de que um deles se dispusesse a ler o gabarito que houvera sido publicado no jornal A Tarde. Grande era a sua timidez para realizar aquela operação e, ainda maior era o seu temor de se fazer saber vestibulando, na medida em que, até ali, só ele, a sua mãe e aqueles que lhe deram apoio, sabiam do seu intento.

 

Alagoinhas – 21 de dezembro de 2025 -  ainda primavera brasileira  (verão, daqui a três horas e quinze minutos).

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 14 de dezembro de 2025

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte XI.

26 de janeiro de 1986 – as provas – II.

 

Em conversa com um seu colega de ofício, este escrevente chamava à sua atenção para a desconfiança que aquele pesquisador, sempre manifesta em relação à “memória”, uma vez que, conforme ele assevera, a “memória” é inadvertidamente elevada à condição de verdade – claramente se trata de uma compreensão equivocada do nobre colega historiador -, visto ser ela passível de manipulações e inconsistências. Em contrapartida, ele eleva o “documento” à condição de maior confiabilidade, visto não estar mais sujeito aos interditos por ele anotados em relação à “Memória”. No entanto, Jacques Le Goff (1924-2014), ao indicar que um “documento” é como que uma “monumentalização” de um momento histórico dado, permite inferir que, como tal e para tal ele foi produzido. Isto aponta para a ideia de que, embora ao chegar na mesa de trabalho do historiador algum tempo depois de produzido, portanto, impossibilitando – ou dificultando – a sua manipulação, dando uma aparência de objetividade, ele fora produzido por alguém, preservado para alguma finalidade, arquivado para que pudesse “testemunhar” de uma dada realidade, aquela que o fizera o seu autor – ou autores  - e, sobre eles uma sociedade, uma circunstância ou uma instância dada, fizera pressão para que fosse produzido. Logo, não só é preciso desconfiar da “memória”, sujeita em última instância, a aquele que lembra; mas, de igual modo, se faz necessário desconfiar de qualquer “documento”, considerando-o permeado de subjetividades intrínsecas ou extrínsecas a ele. Há um monumento deste tipo, por exemplo, que conta a “conversão de Constantino” ao “cristianismo”, que indica tal haver se dado, após um “sonho com a cruz” e, a garantia de que “por aquela cruz”, ele venceria. Tal vitória teria se dado e, como “cumprimento” da promessa feita pelo imperador romano que, caso de fato vencesse a dita batalha, se tornaria um “cristão”, torna o dito cristianismo a “Religião” oficial e única do império. Ora: quem escreveu o tal relato? Para quem e por que o escreveu? Parece mais uma justificativa forjada para explicar a romanização do cristianismo até então perseguido pelo próprio Constantino; fica-se com a impressão que é um texto feito para aplacar qualquer questionamento a respeito do modo como se deu a “cristianização” do paganismo romano, sem que se fizesse qualquer exigência, tal como o “crer” e o “se arrepender”, o que proporcionaria o  “Novo Nascimento”, por exemplo, uma prerrogativa inerente à conversão. Tal prerrogativa, evidentemente, não é contemplada pelo decreto imperial. Ora: por que a “narrativa” documentada ou, no dizer de Le Goff “monumentalizada” pôde ser tomada como “verdade” ao longo dos séculos e, a “memória”, ainda que sujeita à falhas, inconsistências e/ou descontinuidades, não pode ser tomada, ao menos,  como parte de uma “verdade?

Conforme assevera Maurice Halbwachs (1877-1945), “[...]. A sucessão de lembranças, mesmo as mais pessoais, sempre se explica pelas mudanças que se produzem em nossas relações com os diversos ambientes coletivos, ou seja, em definitivo,  pelas transformações desses ambientes, cada um tomado em separado, e em seu conjunto” (HALBWACHS, 2003, P. 69). Isto quer dizer que a “memória” não é estática, portanto, passível de ressignificações, ao contrário do “documento” que é “monumentalizado”, em sentido estrito, não mais sujeito à manipulações, adequações e inserções, pois tal já fora feito, quando da sua produção e/ou arquivamento. Logo, ambos devem ser constantemente interrogados, pois, como já é cediço, não falam por si.

Assim sendo, é uma vez mais, através das lembranças levantadas de um tempo que já vai remontando a algumas dezenas de anos, que este garatujador tem procurado trazer aos seus fiéis leitores, algumas facetas do caminhar de José Mário. Nelas, o rapaz é percebido como quem precisa constantemente embater-se contra obstáculos os mais diversos, com o fito de empreender o seu processo de escolarização e, nos arrazoados que até aqui vem sendo desenvolvidos, ele aparece enfrentando as intempéries de se imiscuir no processo de formação superior.

Conforme já se apontou em páginas anteriores, tendo saído de casa por volta das seis da manhã e, tendo percorrido a pé todo o trajeto que o levaria ao seu já bem conhecido prédio do “Estadual”, José Mário chegara ao local das provas um pouco antes do horário da abertura dos portões. Ali, já se encontrava um bom número de outros vestibulandos, que, por certo, também estavam ansiosos pelo momento que ingressariam nas respectivas salas, receberiam o caderno com as questões que precisariam responder, no prazo pré-determinado de cerca de quatro horas, tempo em que, além das respostas às questões propostas, também precisariam desenvolver uma redação, por meio da qual discorreriam sobre um tema indicado e, que, por meio dela, precisariam demonstrar a coerência e a consistência da exposição de ideias, bem como, seriam avaliados em sua capacidade de realizar uma discussão através de  um texto com uma ordenação lógica e exposição escrita de um pensamento concatenado.

Quando enfim foram abertos os portões e autorizado o ingresso dos candidatos ao recinto onde tomariam parte do tão esperado primeiro dia do certame que poderia lhes abrir vagas para os cursos de licenciaturas ofertados na Faculdade de Formação de Professores de Alagoinhas, algumas centenas deles se dirigiram às salas onde estavam alocados. José Mário, enquanto se dispunha a fazer o mesmo, de posse do seu cartão de identificação, acabou por ter o seu caminhar interrompido por pessoas ligadas à organização do certame, que o conduziram a uma sala no prédio onde funcionava a direção e a biblioteca daquele estabelecimento de ensino, onde, segundo fora informado, ele ficaria para desenvolver a sua atividade avaliativa, uma vez que, ele utilizaria máquina de datilografia comum, o que poderia acarretar em desconforto para os demais avaliados, devido ao barulho da dita, que poderia dificultar a concentração dos demais. Além disto, pelo fato de o material estar impresso em Braille – o que aliás foi um ganho inestimável –, o mobiliário estudantil existente nas salas reservadas para a realização das provas, talvez dificultasse o manuseio do material.

Portanto, José Mário ficou alocado na sala da direção, acompanhado de uma funcionária para oferecer suporte, quando necessário. Ali, ele teve diante de si e sob os seus dedos, o caderno de questões propostas para a prova de língua portuguesa, de literatura, de língua estrangeira – por acaso e por presunção, o francês fora a língua por ele escolhida, visto possuir pequenos rudimentos adquiridos ainda na quinta e na sexta séries, cursadas ali mesmo –, bem como algumas questões que compunham a prova de redação, além do tema sobre o qual ele deveria dissertar.

Depois de ter procurado ler com atenção cada enunciado; depois de ter procurado responder as proposições de acordo com aquilo que entendera ter aprendido e apreendido acerca das matérias postas à prova; depois de se esforçar por interpretar os trechos de obras e autores inseridos como mote para as questões propostas; depois de procurar intercalar a sua compreensão com a elaboração de respostas plausíveis e, de pretender demonstrar a sua compreensão do que lera, por meio das aplicações feitas no formato de escolha de uma das sentenças dentre cinco delas, dispôs-se a discorrer sobre o tema que fora proposto para a elaboração de um texto dissertativo: “A Televisão como janela para o mundo”, proposição com a qual divergira por todo o escrito, talvez, influenciado pela sua condição de cegueira, que o fazia não entender que a “televisão” tivesse um tal papel, bem como, pelo seu pertencimento a uma instituição religiosa que “reprovava” a posse e a utilização daquele instrumento “perigoso” para a fé – ainda que apenas retoricamente –, que poderia desencaminhar aqueles que a tivessem como norteadora de modo de agir e de pensar.

De toda a sorte, ele estribara-se na perspectiva de que aquele meio de comunicação seria capaz de direcionar – para bem ou para mal –, a construção social de um pensamento hegemônico fundamentado quase que exclusivamente nas imagens – muitas vezes manipuladas para alcançar os objetivos de seus formuladores –, limitando a construção de um pensamento plural, tirando partido daquele modus operandi, com objetivos nem sempre consoantes à construção de um processo social baseado no equilíbrio e na equidade. É claro que ele temera muito por ter divergido daquilo que acreditava ser a forma dominante de pensar que o propositor do tema viesse a querer que fosse, por assim dizer, referendado, não obstante o seu receio – que posteriormente se mostraria infundado –,José Mário não recuou um único milímetro daquilo que se propusera a dissertar sobre o tema ali proposto.

 

Alagoinhas – 14 de dezembro de 2025 – primavera brasileira

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 7 de dezembro de 2025

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte X.

26 de janeiro de 1986 – as provas – I.

 

Em mais um arrazoado construído a partir de fragmentos de memórias de um tempo já pretérito que ainda não se fez passado já passado, uma vez que os seus sedimentos ainda podem ser escavados nas diversas camadas que compõem a memória, este escrevedor traz a tantos quantos se dignem a ler as linhas que se seguem, mais um tratado em que o caminhar de José Mário se faz reconstruir, ainda que fragmentariamente, apontando para o seu empreendimento no concurso de pavimentar o caminho que o leve a ingressar no ensino superior, com vistas a uma busca por implementar um processo formativo que lhe dê as ferramentas de trabalho no campo do ensino, bem como as condições de sua inserção econômica e social. Conforme assevera Paul Ricöeur (1913-2005), “[...] a memória continua sendo a capacidade de percorrer, de remontar no tempo, sem que nada, em princípio, proíba prosseguir esse movimento sem solução de continuidade. É principalmente na narrativa que se articulam as lembranças no plural e a memória no singular, a diferenciação e a continuidade. [...]” (RICÖEUR, 2007, p. 108). Este escrevedor procura desenvolver os tratados que constrói a partir da memória, tomando a proposição acima transcrita, como fundamento basilar em que se estriba.

Era chegado o domingo, dia em que José Mário estaria pela primeira vez, diante de um certame em que igual a um bom número de outras pessoas, faria um conjunto de provas por meio das quais, sendo aprovados, ingressaria em um curso superior, ministrado por uma entidade pública de ensino. Portanto, se aproximava a hora em que tudo aquilo que buscara aprender – ou revisar; ou ainda, reaprender – durante todo o tempo transcorrido entre o dia em que fizera a inscrição para se habilitar a participar do desafio que era, sobretudo para ele, o intento de se fazer imiscuir entre os aprovados e, o momento em que se daria o combate pelas quarenta vagas no curso de licenciatura em História, seria posto à prova.

A noite anterior àquele 26 de janeiro foi de sono agitado, iniciado ainda cedo, quiçá antes das vinte e uma horas; noite longa, quase interminável; madrugada que se fazia arisca e, não chegava; alvorada marcada pela algazarra alegre da passarada que parecia teimar em não se apresentar aos ouvidos atentos daquele quase insone rapaz; o cheiro do amanhecer que se fazia fugidio, esquivando-se do nariz que tanto esperava poder o aspirar e, finalmente, perceber que ali sim, era chegada a hora de se levantar. As horas que não dormira, foram marcadas pelos ruminares das últimas lições; foram inundadas por perguntas que não se conseguiria respostas: qual será o tema da redação: Qual será a modalidade da redação: será uma “dissertação”? Será uma “descrição”?... Assim pensava; mas também, procurava se esforçar por reconciliar o sono, visto que a manhã que tão ansiosamente esperava chegar, seria longa e, exigiria concentração, atenção e cuidado para melhor apreender a leitura das questões, compreender o que se cobrava do candidato a partir dos enunciados nelas propostos e, sobretudo, entabular as respostas com lógica e coerência.

Enfim chegada que fora aquela manhã, José Mário se pusera de pé; tomara sua ducha fria; se encaminhara para o café. Aquele, saliente-se, fora um tanto diferente do padrão de café, uma vez que, sua mãe, entendendo que ele teria que estar por toda a manhã envolto na tarefa de fazer as provas; e ambos, não dispondo de recursos que permitisse a aquisição de lanches ou frutas para enganar a fome, lhe pusera um apetitoso prato de feijão com mocotó que ela acabara de preparar ainda antes do nascer do sol, que ele, evidentemente, se deliciara com a iguaria, entendendo que aquilo seria, sim, suficiente para aguentar todo o tempo que teria de provas, visto, como se disse, não ter outra maneira de mitigar a fome, no caso de se apresentar antes que pudesse terminar a sua realização.

Desta forma, tendo terminado o “almoço antecipado”; tendo tomado a sua xícara de café, vestiu-se, apanhou os seus instrumentos de que se valia para execução daquele tipo de tarefa – máquina de escrever Olivetti; reglete e punção para escrita em Braille – e partira em direção ao local das provas, que seriam aplicadas no espaço do seu velho conhecido “Estadual”. Saíra pouco antes ou pouco depois das seis da manhã; solitário, como quase sempre o fizera, percorrera o caminho habitual que o levara para o Centro Integrado Luís Navarro de Brito por tantos anos; todos que ali cursara o primeiro e o segundo graus. Fizera o trajeto a pé, pois, por ser um domingo, temia não passar ônibus em um horário que lhe permitisse chegar por volta das sete, quando seriam abertos os portões, procurando assim, fugir de algum transtorno que o impedisse de ter acesso ao local das provas. Quase fardado e calçado no seu tênis do tipo Kichute, aquele mesmo  dos últimos anos do segundo grau, andara sempre seguro do que fazia e do porquê fazia aquele trajeto, que, embora seu já conhecido, nunca lhe parecera tão longo e o seu fim esperado, tão demorado de se completar.

Portanto, logo após se distanciar cerca de quatrocentos metros do seu espaço de moradia, atravessara a via férrea e depois, a precária ponte sobre o rio Catu, ali, ele andara sentindo todo o frescor daquela manhã de verão, quando o sol se apresentava mais condescendente com o viajor, sem contar com o aspirar dos muitos cheiros do longo caminho, até então, pouco transitado por automóveis; aquele Luís Viana quase interminável, ainda era um bairro residencial, que, em uma quase madrugada de domingo, se mostrava bem mais silencioso, permitindo que se pudesse ouvir os chilreares dos muitos pássaros que povoavam a grande diversidade de árvores que ali existia e os últimos zunidos daqueles bichinhos noturnos que se refugiavam nos arbustos que formavam a paisagem do caminho que José Mário percorrera confiante, ansioso e temeroso, a um só tempo. Assim, embevecido pelos cheiros diversos vindos das chácaras que floresciam aqui e ali, deixando exalar os seus aromas tão suaves em delicados fragores de verão, ao longo dos cerca de dois quilômetros que foram sendo percorridos, seguia ele, procurando relembrar os ensinos de língua e literatura que recebera até aquele instante que se aproximava o momento de testar o quanto ele os apreendera. Ele, saliente-se, estava longe de apreciar todo aquele conjunto sinfônico que aquela orquestra da natureza lhe oferecia enquanto caminhava mergulhado naquela preocupação que quase o fizera indiferente à tão assombrosa harmonia estacional que o Eterno generosa e graciosamente lhe propiciava.

Enfim, pouco antes das sete horas, ele já lá estava, juntamente com uma multidão de outros seus concorrentes, certamente de origens sociais, econômicas e culturais bem diversas, que aguardavam a abertura dos portões, para então, darem início à jornada para a qual se inscreveram e dispuseram a enfrentar. Talvez, alguns já se conhecessem de outras jornadas; outro tanto, se encontravam pela primeira vez; José Mário, por sua vez, não fora reconhecido nem encontrara ninguém que lhe fosse conhecido. Ao serem abertos os portões, todos, absolutamente todos se dirigiram aos seus respectivos locais de prova, sem qualquer atenção àquele que, tal qual eles, também procurava se dirigir à sala indicada no seu cartão de inscrição, para lá, tomar contato com as provas e buscar responder as questões nelas propostas.

 

Alagoinhas – 07 de dezembro de 2025 – verão brasileiro.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 30 de novembro de 2025

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte IX.

Janeiro 1986 – Às vésperas das provas – II.

 

Ainda uma vez, se apresenta mais um escrito fundamentado nas reminiscências do seu autor, para submeter ao crivo daqueles que se dignem a emprestar um pouco do seu tempo para percorrer as suas linhas. Conforme já se vem apontando há nove semanas, estes garatujares são frutos dos sedimentos arrancados das escarpas da memória de quem se lembra, para que ao trazer à tona os fragmentos deles derivados, se possa desenvolver os objetivos a que se propõe ao elaborar tais rememorares: construir um conjunto de escritos que deem testemunho de um tempo vivido. Conforme sustenta P. Ricöeur (1913-2005), “[...], o testemunho constitui a estrutura fundamental de transição entre a memória e a história” (RICÖEUR, 2007, p. 41). De tal testemunho se vem valendo este escrevedor para trazer à lume, algumas das facetas que envolveram o caminhar de José Mário em seu esforço para construir o seu jornalhar, quer enquanto estudante que se via necessitado de aprofundar o seu processo formativo escolar, quer enquanto cidadão que passara a entender ser indispensável ter uma formação concreta do ponto de vista profissional, se quisesse se fazer inserir no viver cotidiano do mundo à sua volta.

Em tal perspectiva, talvez se possa iniciar considerando que, o domingo que dera início à semana que antecedera àquela  em que José Mário se dirigiria ao seu velho conhecido “Estadual” para a realização do tão ansiosamente aguardado vestibular, marcara uma espécie de contagem regressiva em termos de finalização dos esforços envidados até ali, com o fito de buscar  desenvolver uma preparação para o enfrentamento de um certame para o qual, por conta das suas circunstâncias – algumas delas já apontadas em arrazoados anteriormente postados neste blog –, ele não estava em condições de o fazer. Conforme já se vem salientando, a sua defasagem propedêutica, nas diversas áreas do conhecimento que seriam demandadas no referido certame, era, em grande medida, notoriamente indisfarçável e,. cuja possibilidade de contornar, exigira dele, empenho, disciplina férrea e a busca de apoios daqueles com quem pudesse contar, tanto do ponto de vista material, quanto do ponto de vista intelectual e professoral, conforme se leu em escritos pretéritos.

Naquele terceiro domingo de janeiro, “comme d’habitude”, depois de se barbear, do banho e de tomar o seu café, José Mário deixa a sua residência, para dali se dirigir ao espaço onde passara a se reunir a “Assembléia de Deus”, cujo percurso talvez se compusesse de uns dois quilômetros, feito a pé. Após cerca de 50 minutos de caminhada no sol das oito e meia daquele levantar de verão, ali chegara para tomar parte da “Escola Dominical”, no entanto, sem estar ali, exceto o seu corpo, nem mesmo atentando para o que se dizia acerca da “lição”.

Ele, por certo, divagava em pensamentos irrequietos e, a cada momento mais distantes, quiçá, desejando imaginar o que se cobraria dele dali há mais um domingo, a respeito da Língua portuguesa e de sua gramática, dos autores, das obras e das “escolas”/estilos que compunham o vasto campo da Literatura brasileira; o que se lhe seria pedido para dissertar, descrever, criar, ou mesmo interpretar; como seria a prova de língua estrangeira? E as questões de História, Geografia, Ecologia... Ah!: e as de matemática, de física, química ou biologia, das quais ele pouco ou nada sabia? Fervilhavam no seu espírito, inúmeras perguntas para as quais ele sequer atinava haver respostas; e cabriolavam no seu cérebro situações e/ou circunstâncias para as quais ele imaginava rebentar diante de si, sem que houvesse como atinar para as resolver ou mesmo, remediar.

Como pode observar  o arguto leitor, José Mário se encontrava no interior daquele espaço de culto, ainda em processo de construção – ainda não havia piso: apenas o concreto; ainda não havia vitrais: apenas um grande espaço vazio nas suas janelas; até os bancos eram improvisados em madeira bruta, sem que houvesse como encostar – mas, os seus “sentidos” estavam dali distantes e, vagueavam bem longe dos ressoares das vozes que ecoavam naquele lugar, quer fossem as que cantavam, quer fossem as que proferiam confusas e uníssonas orações, ou, como já se indicou, nem mesmo aquelas que “ensinavam aquelas “lições””, como  que às apalpadelas. Pouco ou nada ele absorvera daquela atividade – mecanicamente desenvolvida, saliente-se, de passagem – tendo apenas concorrido para não se sentir “faltoso” ao culto, sem uma justificativa plausível. Dali saíra, conforme ali chegara; disperso, distante, reflexivo, sem qualquer “logro naquela empreitada matinal. Mas, o retorno para casa, sob o causticante sol do meio-dia, foi presidido pelo azorrague da fome. No entanto, o retorno à obrigação eclesiástica para o culto da noite, não foi diferente. Cumpriu-se o rito, até se imiscuiu na liturgia. Porém: dali estava distante, como na manhã descrita.

A manhã e todo o dia da segunda, do mesmo modo como transcorreu por toda aquela semana iniciada no domingo dezenove, foi de intensificação dos estudos, bem do mesmo modo que foi marcada pelo avultar da  ansiedade, pela realização das últimas leituras avulsas e solitárias, bem como, com as últimas lições de gramática e literatura. Nelas não era possível ir longe nas divagações – embora houvesse alguns lapsos de fuga dos pensamentos –, visto que a necessidade de melhorar o seu conhecimento das matérias, o obrigavam a voltar para o lugar onde a atenção lhe era cobrada pela excelente experiência da sua professora, que, por isto mesmo, conseguia perceber o quão distante e disperso se fizera o seu aluno.

Destarte, em tardes cada vez mais quentes, à medida que aquele janeiro avançava, José Mário se dirigia até aquela casa acolhedora da sua mestre, na qual passara todos aqueles quase três meses que se interpuseram entre a decisão de prestar o vestibular e a sua realização efetiva. Sob o intenso sol das treze horas, sem qualquer meio de transporte, lá se ia ele, percorrer aqueles quase dois quilômetros – a referida casa se localizava no mesmo bairro da igreja aludida acima, situando-se em uma rua paralela –, a fim de receber não só instruções e orientações relacionadas à matéria em causa, como também desfrutar de apoio e acolhida, elementos que foram primordiais para que José Mário levasse a empreitada até o seu final.

É preciso reiterar ainda uma vez que, não tendo economizado esforços e atenção para aquele vestibulando mergulhado no desejo de seguir adiante em seu périplo rumo ao patamar superior dos estudos, aquela professora de saudosa memória para este escrevedor, teve um papel preponderante no sentido de promover alguma confiança de que ele poderia vir a ter êxito naquela jornada, fazendo com que José Mário, embora estando com uma sensação de que naufragaria naquele navegar “impreciso”, se enchesse de ânimo e se dirigisse ao local de provas, para ali, procurar exercitar o que aprendera em todo aquele tempo de calor intenso e de muitas dúvidas sobre o seu devir.

 

Alagoinhas – 30 de novembro de 2025 – primavera brasileira.

 

Professor José Jorge Andrade Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 23 de novembro de 2025

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte VIII.

Janeiro 1986 – Às vésperas das provas – I.

 

Em mais uma investida no que respeita ao esforço por trazer à lume alguns fragmentos extraídos de um tempo já pretérito, a partir de elementos escavados nas camadas de sedimentos da memória, este garatujador chega a tantos quantos se dignem a ler estes rememorares, com mais um dos momentos que antecederam aos dias de realização da avaliação que faria José Mário, com vistas à sua pretensão de ingressar no curso de Licenciatura em História, da então Faculdade de Formação de Professores de Alagoinhas. Aqui, se pretende discorrer, ainda que brevemente, sobre um aspecto da “História vivida” pelo seu protagonista, a partir das escolhas feitas no presente, visto que, como já se vem salientando há algumas postagens, a memória está sujeita às ressignificações do presente, feitas por quem lembra. Assim, uma tal “história” vivida por quem lembra, se apresenta à memória, associada às reflexões realizadas por quem lembra, estimuladas pelo esforço de lembrar situações e/ou circunstâncias nas quais esteve envolvido. Conforme assevera Maurice Halbwachs (1877-1945), “[...], a história vivida se distingue da história escrita: ela tem tudo o que é necessário para constituir um panorama vivo e natural sobre o qual se possa basear um pensamento  para conservar e reencontrar a imagem de seu passado” (HALBWACHS, 2006, p. 90).

Deste modo, com estes elementos em mente, se quer aqui enfatizar a proposição que aponta para hipótese de que José Mário, embora não tivesse claro no momento em que vivera tais circunstâncias, estava intentando abrir um novo embate em busca de reposicionar para si, o ingresso em um espaço social para o qual não dispunha dos instrumentos adequados para tomar parte dele. Ele, inexoravelmente, vivia em uma constante incógnita sobre o que faria; sobre o que seria; sobre se teria; sobre se alcançaria; sobre se, por acaso alcançasse, conseguiria enfrentar os obstáculos que se lhe procuraria reter no lugar de onde sequer deveria intentar sair; ou antes: se teria algum êxito em se imiscuir em um espaço social que a ele não pertencia. Saliente-se que, ele, nem sequer atentava para aquelas dificuldades, pois, não as conhecia; não sabia, por exemplo, que a sua origem social e econômica, bem como a falta de prestígio e/ou conhecimento entre os “donos” da política e sociedade locais, era um fator preponderante para obstar qualquer mobilidade social; acreditava ele que, bastava obter uma colocação no mundo do trabalho, por meio de uma “Formação profissional”, para que a sua posição social se modificasse, como que naturalmente. Mas, o tempo acabou por demonstrar exatamente o contrário. No entanto, isto é tema para outras digressões. Por ora, permaneça-se “ás vésperas” do certame a que se submeteria dali há algumas semanas.

Logo depois daquela primeira quarta feira do ano de 1986 e, passadas as divagações que sempre se fazem presentes em tais ocasiões, o espírito de José Mário, ainda absorto em suas digressões relacionadas ao seu devir, procurava retomar os preparativos propedêuticos iniciados mais ou menos aos meados do novembro anterior, com vistas à realização daquelas provas que talvez lhes abrisse – ou mesmo fechasse – as portas para o ingresso no ensino superior. De tal ingresso ou não, para ele, dependia o que viria a ser o seu caminhar, no sentido de definir o que ele seria e/ou o que ele faria dali para adiante. Imerso nas incertezas quanto ao ser, ao ter e ao fazer, ele insistia em procurar amenizar as indiscutíveis lacunas do seu processo formativo, cuja evidência era avultada, à medida em que se esforçava por compreender determinados temas que, àquela altura da vida, já deveria dominar com alguma propriedade. A sua defasagem naqueles conteúdos específicos de cada matéria estudada, deixava nele a impressão que o seu navegar naufragaria, ao primeiro temporal que se lhe abatesse durante a travessia daquele oceano de temas e textos que precisaria vencer para conseguir chegar à outra margem e pisar em terra firme, para então poder prosseguir a caminhar.

Noves fora aquelas preocupações de ordem intelectual, materializada em sua percepção das dificuldades que precisaria enfrentar, José Mário, naquele mesmo primeiro dia do ano, acabara por enfrentar um revés sentimental, ao ser preterido por uma jovem, sob o pretexto de não saber como lidaria com uma pessoa assim, sensorialmente diferente dela. Embora hesitasse em fazer tal afirmação, não conseguiu ocultar por mais tempo, na medida em que, imediatamente após dizer o “não” ao insólito pedido de namoro que acabara de ouvir, ela indagou ao solicitante, quem lhe escolhia as roupas; quem lhe auxiliava na higiene... Depois das explicações dadas mecanicamente, o humilhado rapaz se retira da presença daquela sua pretendida, se perguntando se tais questões apontavam para um “desalinho” de sua indumentária, ou, pior, algum “traço” de sujeira que, quem sabe, lhe tivesse causado repulsa. Evidentemente que aquele não fora o primeiro malogro de José Mário no campo das investidas em busca de um relacionamento socioafetivo; mas, sem dúvida, um dos revezes mais evidentes e, significativamente mais claros de rejeição, por questões aliadas à posição econômica e, sobretudo,  à condição sensorial do pretendente incauto.

Virada aquela página amarga e desalentadora para um início de ano, já no dia seguinte, José Mário retomava as suas lições de Língua e Literatura com a sua devotada professora. Naquelas tardes quentes das primeiras semanas de janeiro, ele se dirigira até o bairro do Jardim Pedro Braga, na rua Alfredo Garcia, onde ficava aquela residência acolhedora, para ali, receber as instruções sobre morfologia, sintaxe e outras questões relacionadas à gramática; aulas agradáveis e relevantes relacionadas à produção literária, tanto envolvendo obras e autores brasileiros – seus estilos, suas escolas – quanto portugueses, mormente, aqueles cujas obras já eram canônicas e de repercussão. Não faltara, outrossim, aulas e orientações basilares para a produção de texto, momento em que a excelente preceptora  chamava a atenção do seu aluno, para as possibilidades de construção redacional que poderiam aparecer durante o certame. Uma redação descritiva; uma redação discursiva, na qual poderia expressar livremente o seu pensar, o seu conhecer acerca do requerido pelos avaliadores; uma análise de um texto inserido na prova, que deveria ser lido com toda a atenção.

Portanto, além de todo o cuidado em orientar aquele vestibulando tão atento quanto interessado em reduzir o seu quadro lacunar, naquela e ainda mais, nas outras áreas do conhecimento, aquela professora demonstrava ter não só apreço pelo seu pupilo de tão grandes fragilidades em alguns assuntos da língua e, ao mesmo tempo, com alguma acuidade em outros, como também parecia viver aquele momento como se fosse ela mesma a vestibulanda, ou ainda, como se orientasse as suas próprias filhas para o ingresso no ensino superior. Aquela era a atitude da professora Edna Garcia Batista (1945-2017).

 

Alagoinhas – 23 de novembro de 2025 – primavera brasileira

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com

 

P.S.: esta é a postagem de número 200, neste blog. 

domingo, 16 de novembro de 2025

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte VII.

   Janeiro de 1986 – Ano “novo” que nada trazia de novo.

 

Em mais um esforço para trazer à lume alguns dos sedimentos de memória escavados no fundo de armazenamento de placas sobrepostas de memórias, este escrevedor chega com mais um arrazoado em que busca recuperar alguns momentos do caminhar de José Mário nas sendas do seu processo formativo, envolvendo alguns dos elementos com os quais ele fora pouco a pouco moldado, para que pudesse dar os próximos passos na consecução do seu intento de se tornar, enfim, um cidadão pleno e integralmente partícipe da vida econômica e da convivência social, que se afirmava ser indispensável para a saúde humana. Neste ponto, se faz necessário colocar em dúvida uma tal afirmativa, uma vez que, já passados quase quarenta anos em que se deram as coisas aqui rememoradas, embora tenha havido um avanço de José Mário no que tange à sua formação enquanto cidadão economicamente produtivo, a tal “convivência social” ou, como entende este escrevedor, a aceitação “social”, condicionada à inserção no processo produtivo, acabou por permanecer sempre e em todo o tempo, no campo da expectativa, expectativa, aliás, não plenamente correspondida, em consonância com a realidade vivida. Conforme já se vem salientando ao longo destes garatujares, é característica da memória de quem lembra, a propriedade de escolher o que lembra e, sobretudo, de silenciar, esquecer ou falar sobre o que lembra. Há vezes em que tais rememorares brotam aos borbotões, rebentando na memória de quem se lembra, como ribeiros caudalosos, que jorram em profusões diversas e díspares, forçando uma escolha daquilo que será dito, silenciado ou apagado por quem lembra.

O mês de dezembro se encaminhava para o ocaso dos seus longos e quase intermináveis trinta e um dias; dias que se tornavam mais quentes com a chegada do verão nos trópicos; a primavera se apressava em seu passo rumo aos ares temperados que dali há alguns meses ela alegraria com o seu despontar. Os pássaros, as cigarras e os galináceos, sequer se davam conta de tais alterações, afinal, aqueles seres estavam ajustados aos ires e vires das estações, sem sofrerem as tensões inerentes aos humanos, cujas preocupações eram moldadas pelo tempo do calendário; pelo tempo do relógio; pelo tempo do trabalho; pelo tempo dos sinos das catedrais e das sirenes das escolas. Tal, evidentemente, não se dava com as aves ou com os insetos, que nasciam, cresciam, se reproduziam, envelheciam e morriam, sem que aqueles contares de tempo lhes importassem ou moldassem o funcionamento dos seus equilíbrios biologicamente elaborados pelo Eterno que os criou. Com jácas e cajus em abundância, o verão chegava e, com ele, as festas de fim de ano que, saliente-se, que só o eram para tantos quantos tivessem os meios econômicos para bancar os seus elevados custos. Aqueles que socialmente estavam alijados de tais efemérides, quiçá, ficavam com as sobras e, em geral, sobras apenas emocionais, se “alegrando” com os refestelares alheios e distantes da realidade de grande parte dos terráqueos, entre os quais, José Mário que, por azar, em tal ocasião, completava o seu acréscimo de dias vividos.

Assim, foi mergulhado em tais reflexões que ele recebera a virada de mais uma página do calendário “gregoriano”, que indicara o ano de 1986, com a cabeça prenhe de interrogações sem respostas e, pior, sem quaisquer esboços de respostas. A tensão estava posta, por conta da aproximação da data de realização das provas do vestibular a que se submeteria, mais para o final daquele primeiro mês do ano que começara para José Mário, como o fora com os anteriores – e, diga-se de passagem, como vieram a ser os que se sucederam –, marcados pelas incertezas e incógnitas que sempre o cercaram em todo o tempo do seu viver. Não possuía nada por certeza; os dias eram vividos sem quaisquer garantias do que se teria, do que se seria, do que se daria... Um dia por vez, não por seu querer racional; um dia por vez, por força da impossibilidade de prever ou preparar o dia seguinte ou, ainda, sem sequer saber se haveria um dia seguinte.

Desta maneira, com todas aquelas dúvidas e questões fervilhando naquele cérebro pleno de ansiedades, José Mário se dirigiu ao espaço onde se reunia a igreja “Assembléia de Deus”, para ali participar do entediante e pouco alentador ritual de “passagem de ano” – que os líderes insistiam em chamar de “culto” –, cuja importância e eficácia – esta última, sobejamente entendida como inexistente - para ele já se reduzira bastante, desde que o começara a frequentar, sempre compulsoriamente, desde que lá ingressara e, mesmo antes, quando participara entre os Batistas. Em ambos os espaços, mas, principalmente no último deles, José Mário estivera com o fito de ocupar um tempo que para ele era lento em sua passagem, uma vez que era inútil tentar dormir nos horários costumeiros, em ocasião como aquela, em que os “alegres” e ruidosos vizinhos procuravam macaquear os ricos e abastados membros de uma elite social e econômica que celebravam com grande pompa o ano que para eles fora permeado de lucros e dividendos, frutos da exploração de tantos quantos ora estavam em grande euforia por terem sido os que trabalharam para que aqueles outros pudessem esbanjar em suas festas comemorativas de “virada de ano”.

Sempre avesso a todo tipo de formalidade, tanto religiosa quanto social , que por vezes, por pura conveniência, era catapultado ao nível da “gratidão”, José Mário fora muitas vezes criticado pela sua descrença em relação ao valor  efetivo das diversas práticas litúrgicas. Naquela mesma ocasião, fora confrontado por uma sua amiga, pelo fato de não ter participado de um “culto” em celebração à conclusão do segundo grau, como ela e outros o fizeram, inclusive, os filhos – principalmente as filhas –, dos figurões  da liderança eclesiástica. Calmamente e com a convicção que o seu ceticismo lhe conferia, retrucou que, para ele, aquela era apenas mais uma etapa do caminho percorrido e, que, de mais a mais, muitas outras haveria que percorrer; era sim, grato ao Eterno por mais aquele avançar; mas, não cria ser necessário uma manifestação celebrativa, apenas e tão somente para atender às expectativas de quem quer que fosse, sem contar que não possuía indumentária adequada ao tal “momento de gratidão”, nem teria como obter, visto não dispor de erário onde pudesse buscar fazer frente àquela necessidade extra de provimento.

Portanto, conforme ele mesmo esperava, saíra daquele ritual religioso, pretensamente em “agradecimento” pela passagem de mais um ano, tão entediado e com uma sensação de inutilidade, quanto saíra da sua casa para juntar-se àquela horda de gente que dizia exprimir gratidão mas, que, ao que lhe parecera, mais se esforçavam em dizer de si para consigo que estavam satisfeitos com o que fizeram e/ou com o que obtiveram, do que propriamente, reconhecerem o quanto estavam tristes e infelizes com a vida que levavam e com a pobreza que amargaram, na verdade e sem mascaramentos, naquele ano que terminava e, para ele, já terminava tarde e sem quase deixar saudade.

 

Alagoinhas – 16 de novembro de 2025 – primavera brasileira

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 9 de novembro de 2025

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte VI.

Ainda em Dezembro

 

Com o intento de discorrer ainda uma vez mais sobre algumas das facetas do caminhar de José Mário em seu processo formativo, aqui se pretende trazer à lume mais uma dentre elas, na medida em que ele se encaminha para o enfrentamento de mais uma de suas etapas. Sem deixar de reforçar o que há algumas páginas se vem afirmando, isto é, que estes garatujares são originados de rememorares escavados das camadas de tempo que estão sobrepostas em blocos mais ou menos espessos, mais ou menos profundos, demarcados por um passar de tempo que acaba por forjar um passado ainda não passado de todo, cujos vestígios ainda aparecem no presente, com mais ou menos nitidez para aquele que lembra e/ou se dispõe a lembrar. Assim, um tal passado emerge diante de quem lembra, embora com ressignificações impostas pelo presente, considerando-se os elementos que foram incorporados no curso da vida; considerando-se as camadas de outras experiências que acabaram por interpolar àqueles lembrares, formando um conjunto de elementos cada vez mais interrelacionados ao passado que se quer lembrar. É assim que, ao procurar exercitar o rememorar, aquele que lembra acaba selecionando aquilo que lembra; depois, escolhendo de acordo com as necessidades e/ou com as possibilidades, aquilo que vai dar a conhecer daquilo que lembrou, ou o que vai silenciar, de acordo com os interditos que se lhes sejam socialmente impostos. De sorte que, aquilo que é proposto por Michel de Certeau, ao explicar a “Operação historiográfica”, indicando que a sociedade e o seu conjunto de entidades cercam o historiador com os seus conjuntos de limites e de possibilidades na condução da sua pesquisa, também, com a devida vênia, pode-se aplicar ao processo de lembrar, esquecer, silenciar da memória.

É assim que, em um dos capítulos que integra a obra coletiva de 2012 – “Os Novos Domínios da História” –, organizada por Ciro Flamarion Santana Cardoso (1943-2013) e por Ronaldo Vainfas (1956-), Márcia Menendes Motta, ao falar sobre o binômio “história” e “Memória”, fundamentando-se em argumentação construída por autores franceses como Maurice Halbwachs (1877-1945) e Pierre Nora (1931-2025), sustenta o postulado segundo o qual

 

“[...] a memória e a história não são sinônimos, pois, diferentemente da primeira, a história aposta na descontinuidade, visto que ela é, ao mesmo tempo, registro, distanciamento, problematização, crítica e reflexão; ela é manejada, reconstruída a partir de outros interesses e em direção diversa, e, para se opor à memória, a história tem ainda o objetivo de denunciar e investigar os elementos que foram sublimados ou mesmo ignorados pela memória” (MOTTA, 2012, p. 25).

Já no parágrafo seguinte, Motta apresenta ao seu leitor o paradigma sobre o qual lastreia a sua compreensão daquilo que vem a se constituir na “memória, assegurando que

 

Quando falamos de memória, devemos levar em conta que ela constrói uma linha reta com o passado, alimentando-se de lembranças vagas, contraditórias e sem nenhuma crítica às fontes que, em tese, embasariam essa mesma memória. Ela é ainda, segundo Nora, ”um fenômeno sempre atual, um elo vivido no eterno presente”. (Nora, 1993, p. 9). [...]” (MOTTA, 2012, p. 25).

 

Ao citar Nora 1993, Motta reforça a proposição de que a “memória” se alimenta de fragmentos e, por meio deles, ela procura se ancorar naquele passado que evoca no presente. Motta conclui as proposições trazidas para este escrevinhar, assegurando que

 

“Se entendermos que a memória só se explica pelo presente, isso significa também afirmar que é deste presente que ela recebe incentivos para se consagrar enquanto um conjunto de lembranças de determinado grupo. São, assim, os apelos do presente que explicam por que a memória retira do passado apenas alguns dos elementos que possam lhe dar uma forma ordenada e coerente. [...].” (MOTTA, 2012, p. 25).

Assim, considerando os postulados apresentados nas passagens aqui transcritas, este escrevedor  traz para o seu leitor, mais alguns fragmentos dos rememorares a respeito do processo em que José Mário vivenciara quando procurava se apropriar dos conteúdos necessários ao alcance do seu intento de ingressar no ensino superior. Ainda era dezembro de 1985. Conforme é cediço, aquele era o tempo que demarcava a passagem de estação; era o mês de manhãs frescas e embaladas pelo trinar dos pássaros que, com sua diversidade de espécies e cantares, agradavam os ouvidos de quem atentasse para o seu chilrear; também, aquelas manhãs de fim de primavera e início de verão, traziam deliciosos aromas aos olfatos mais sensíveis, que se dissipavam com o avançar das horas matinais; manhãs enfim, que traziam os primeiros raios de um novo dia tão desejado quanto esperado. O meio do dia e o início da tarde, eram marcados por um aumento gradual da temperatura ambiente, tendo o seu ponto mais alto, o período das treze horas, declinando à medida em que avançava a tarde e principiava o pôr do sol. Com ele, uma vez mais o trinar dos pássaros, o cacarejar dos galináceos que procuravam se abrigar do anoitecer que se aproximava, bem como, os primeiros buzinares das cigarras, indicando por aquela sinfonia, a aproximação e o começo da noite, por vezes, mornam nas suas primeiras horas e, um pouco mais amenas, à medida em que se aproximava a madrugada seguinte. Assim eram os dezembros que permeavam a memória de José Mário que, precisamente naquele dezembro completaria o seu primeiro quartel de século, com as mesmas incertezas que o cercavam nos natalícios anteriores, sobretudo, aqueles vividos a partir do momento em que tomara consciência da vida.

Marcado por um cogitar constante em torno do seu vir a ser, José Mário era constantemente atormentado pela constatação de que nada se lhe apresentava no longínquo horizonte das possibilidades, uma vez que, àquela altura do seu caminhar, nada havia que lhe desse qualquer segurança de futuro. As questões sem respostas se acotovelavam no seu espírito, perturbando-o e dificultando a sua concentração nos estudos que precisava desenvolver com vistas ao vestibular que enfrentaria dali há alguns dias. Para ele, tudo era uma incógnita; nada se lhe parecia verossímil; nada se lhe apresentava como crível, fosse qual fosse a medida de prazo que interpusesse. Por mais que se esforçasse para obter alguma resposta plausível, ainda que provisória, temporária ou sujeita à condicionantes as mais diversas, era obstado pela percepção que possuía da sua realidade concreta e palpável. Eram os vinte e cinco anos que se aproximavam e, que dentro em pouco se completariam, que fazia com que os seus pensamentos se turvassem dentro de si; que diversos embates se travassem em seu espírito tão irrequieto quanto cético, na medida em que não atinava para nenhum porvir concretamente alcançável a partir do seu lugar social.

Portanto, para ele, o completar mais um ano, era entrar uma vez mais, no terreno das hipóteses não demonstradas; era ingressar no campo do talvez, quem sabe, pode ser que... Logo, não havia o que comemorar nem celebrar; era mais um ano que acabara de passar sem qualquer coisa de sua, sem qualquer vestígio de possibilidade de alguma coisa: um ano a mais completado de interrogações não respondidas; e, o que se iniciava, era um ano a mais para sofrer a mesma falta de respostas concretas, de realizações duradouras e passivas de render frutos reais e incorporáveis ao seu viver diário. Era apenas mais um virar de calendários; era mais um insano espoucar de fogos de artifício que a ele não dizia respeito; era mais um estourar de champagnes que estava longe do seu alcance, tanto no que respeita à capacidade financeira de aquisição, quanto na compreensão de um sentido que ele não encontrava em tais manifestações de júbilo, visto que, para ele, o tal júbilo não quisera passar no seu existir concreto e real.

 

Alagoinhas – 09 de novembro de 2025 – primavera brasileira.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 2 de novembro de 2025

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte V.

   O SUSTO

 

Em mais um desfolhar de lembranças de um garatujador que insiste em escavar as espessas camadas quase fossilizadas de memórias que cobrem um tempo já pretérito, aqui se pretende trazer mais uma das vicissitudes enfrentadas por José Mário, no seu intento de prosseguir o seu processo formativo, por meio do qual ele viesse a pleitear um lugar como cidadão socialmente ativo e, economicamente produtivo. Quando, retoricamente, Jean-Pierre Rioux pergunta se é possível “Fazer uma História do Presente”, depois de apontar as objeções enfrentadas por este tipo de “fazer histórico”, em seguida ele apresenta a resposta à indagação com a qual abre o seu postulado, afirmando que “Essa história, de fato, por ser feita com testemunhas vivas e fontes proteiformes, porque é levada a desconstruir o fato histórico sob a pressão dos meios de comunicação, porque globaliza e unifica sob o fogo das representações tanto quanto das ações, pode ajudar a distinguir talvez de forma mais útil do que nunca o verdadeiro do falso.”. E, logo adiante, Rioux arremata a resposta à formulação por ele proposta, asseverando que

 

“[...],se ela tem como missão, como toda história digna deste nome, mostrar a evidência científica das verdades materiais diante do esquecimento, da amnésia ou do delírio ideológico, (pensemos, por exemplo, nos que negam as câmaras de gás), ela sem dúvida está mais apta a explicar do que a verdade estatística da enumeração, da qual somos tão apreciadores; ela não evita ver em ação a verdade psicológica da intenção, a humilde verdade do plausível, a força da questão da memória sobre o curso do tempo” (RIOUX, 1999, pp. 48-49). 

 

É pensando neste construto teórico e metodológico acima apenas esboçado, que se vem elaborando estes arrazoados fincados nos rememorares que quem traceja as linhas que ora os leitores têm diante de si. Depois de ter superado as intercorrências que se apresentaram diante de si para dar início aos seus planos de preparação com o objetivo de estar apto para enfrentar o vestibular que o poderia levar ao principiar de um novo estradar da vida, José Mário se encontrara diante de um problema que poderia embargar o seu caminhar naquela direção e, sem que ele pudesse intentar qualquer ação para o resolver, poderia frustrar todo o esforço até ali despendido. Como um rastilho de pólvora, correra entre o professorado a notícia de que um movimento grevista poderia ser deflagrado, a qualquer momento, tendo em vista o fracasso de negociações salariais entre a categoria e o governo do Estado. Como fogo que ardia sob monturo, aquela probabilidade de interrupção do ano letivo, já quase próximo da sua conclusão, acabou por chegar aos ouvidos do alunado, provocando nele uma grande ansiedade, principalmente, naquele grupo de alunos que estava por concluir o terceiro ano do segundo grau, obstando-lhe, em caso de concretização da notícia que circulava, a obtenção dos certificados que faria daqueles alunos inseridos no referido grupo, prontos para os caminhares que escolhessem e/ou que pudessem prosseguir caminhando.

Era fim de novembro de 1985, quando ansiosos, José Mário e um bom número de outros secundaristas, se dirigiram ao “Estadual”, depois de terem realizado as últimas avaliações, para ali receberem os seus resultados e, saberem se houvera passado “direto” ou se ainda ficariam em regime de recuperação de alguma outra matéria. Ao saber que estava concluída a sua jornada escolar no âmbito do “Segundo grau”, José Mário voltara para casa, fazendo o trajeto a pé, a despeito do calor daquela manhã, para que, segundo imaginava, enquanto caminhasse, ele poderia ruminar aquele resultado, aquele aprovar que recebera, depois de um longo e cansativo ano escolar, que lhe impusera mais um grande feixe  de esforços, tanto físicos quanto mentais, para alcançar aquele tão esperado quanto desejado resultado. O tal ruminar se fazia necessário, para que ele pudesse se dar conta de que de fato, tudo estava terminado, tudo o que precisava cumprir naquela etapa do seu processo de escolarização estava, enfim, formal e plenamente cumprido, para que ele mesmo pudesse acreditar que sim, que estava mesmo concluído aquele longo e difícil processo.

Assim pensando, ele saíra dos portões escolares, cuja frente voltava-se para a rua Maria Feijó, seguira a esquerda em direção à Rua 21 de abril, tendo percorrido toda a sua extensão, até alcançar a rua Severino Vieira, virando a direita para alcançar a travessia da avenida Juracy Magalhães e, prosseguir na rua Severino Vieira, até alcançar a Rua Luís Viana, entrando a esquerda, para alcançar a Coronel Philadelpho Neves, na qual entraria à direita, percorrendo-a por todo o resto de sua extensão, para em seguida, atravessar a via férrea, por onde ainda circulavam uns poucos trens, situada na altura da rua 2 de Julho, entrando, em seguida, na segunda travessa 2 de Julho, que o levaria, enfim, ao seu espaço de residência, perfazendo assim, uma distância de mais ou menos três quilômetros. Naquele trajeto ora ainda calmo e de pouco movimento de automóveis e mesmo de pessoas, José Mário acabou por mergulhar em reflexões que o remetera aos primeiros anos de sua vida escolar, muitas vezes sendo uma parte daquele trajeto, no sentido que ele fazia, o mesmo que o seu irmão o levara pela mão ou no quadro de sua velha bicicleta, para que pudesse chegar ao Brasilino Viegas, onde então estudara por todo o “primário”; também lembrara das inúmeras vezes que, sozinho, fizera aquele mesmo trajeto, em manhãs agradavelmente aromatizadas por diversidades de cheiros que ele aspirava com alegria indizível, quando se dirigia àquele mesmo estadual de onde ora voltava mergulhado nos seus pensamentos retrospectivos. Ali, sob o sol das dez de uma manhã primaveril, José Mário não só pensara no que fora, mas, como é parte do seu interior, procurara imaginar o que poderia vir a ser dali adiante, sem atinar, no entanto, o que seria aquele “vir a ser”.

Portanto, ao dar largas aos seus imaginares, quase voou para um lugar onde ele nunca antes imaginara pudesse chegar, não obstante os obstáculos que, de antemão,  ele já sabia que teria de ultrapassar; pensara que, uma vez aprovado no vestibular que em breve realizaria e, uma vez desenvolvido o curso para o qual estava inscrito para concorrer, ele poderia vir a ser um professor..., sim, um professor, de alguma escola regular, trabalhando com alunos que, diferentemente dele, não teriam dificuldades com o acesso à leitura, à escrita, ao conjunto de saberes que precisariam acumular, do mesmo modo como ele acumulara; alunos que talvez o admirassem, o detestassem, o desprezassem, ou lhe fossem indiferentes. Aquilo em si, pouco lhe importara naquele momento de conjecturares fora de quaisquer razoabilidades. O que ali importava mesmo, fora o seu imaginar para além do caminho que ele já houvera palmilhado até o instante que se dirigia à sua casa, radiante por enfim, ter fechado aquele ciclo tão longo e cheio de percalços.

Entretanto, já tendo chegado dezembro de 1985 e, passado alguns dias após ele ter recebido os resultados finais relativos ao terceiro ano do “segundo grau”, vê-se confirmada a disposição dos professores em deflagrar o movimento paredista que, conforme se salientou, era corrente de boca em boca, primeiro entre os docentes, depois, entre os alunos, já nos dias finais do mês anterior à sua efetivação. José Mário acabou por assustar-se, pois, embora não mais o atingisse, no que respeitava à conclusão do ano letivo, visto não ter ficado em recuperação de qualquer matéria, não ficou claro para ele, se o prejuízo não se estenderia àqueles que viessem a precisar da certificação de concluintes. O impasse entre governo e grevistas logo foi solucionado. No entanto, a colação de grau – evento que ele se recusou a participar, por achar desnecessário e, ser meramente protocolar -, acabou por se dar nos primeiros dias de janeiro do ano subsequente, portanto, antes da realização das provas do vestibular, para as quais ele já se vinha preparando há pelo menos dois ou três meses.

 

Alagoinhas – 02 de novembro de 2025 – primavera brasileira.

 

Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 26 de outubro de 2025

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte IV.

 

A transição – IV.

 

Não obstante os arrazoados aqui postados se enquadrarem naquilo que se poderia denominar de “História do presente”, bem como a sua substância elementar estar situada na memória, o “Tempo presente” é o seu eixo monumental, indicando que as camadas que foram levantadas pelo indivíduo que lembra, o foram de modo aa atender ao estímulo produzido pelo pertencimento à sociedade que fornece o instrumental indispensável para que tais lembranças possam ser ativadas, permitindo ao ser que lembra, dispô-los de tal forma que seja possível reconstituir aquele passado no qual estavam mergulhadas situações, circunstâncias, sensações e movimentos que marcaram o seu transitar no cotidiano vivido em um tempo já há muito mergulhado na profundeza daquela história que se quer rememorar, ao menos, alguma faceta que dela emerge do esquecimento e/ou do silenciamento. “A memória introduz o passado no presente sem modificá-lo, mas  necessariamente atualizando-o; é preciso considerar atentamente que o  passado é por via de regra plural, um pulsar da descontinuidade. [...].” (SEIXAS, 2001, p. 50). Mobilizar  camadas do passado já cobertas por outras muitas que foram acumuladas ao longo do tempo e trazê-las para a superfície, implica em um exercício de estimulação daquelas lembranças que farão o construto de um rememorar expresso no falar e/ou no escrever. Conforme preconiza Bosi em sua “Memória e sociedade: lembranças de Velhos”: “Por muito que deva à memória coletiva, é o indivíduo que recorda. Ele é o memorizador e das camadas do passado a que tem acesso  pode reter objetos que são, para ele, e só para ele, significativos dentro  de um tesouro comum” (BOSI, 1994, p. 411).

É neste sentido que se pretende desenvolver mais este arrazoado que tem José Mário, uma vez mais como protagonista, quando se dispõe a percorrer o caminho que o poderá conduzir à Faculdade de Formação de Professores de Alagoinhas, para ali, desenvolver o processo que, concluído, fará dele um professor de História. Nele, se inscreve a sua busca por melhorar as suas condições de competitividade, na medida em que procurará meios e pessoas que o possam ajudar a percorrer mais esta etapa. Imbuído deste propósito, ele começa a imaginar por quais áreas  precisaria enfrentar as fragilidades formativas, no intento de abarcar ao menos os aspectos delas seria preciso atacar de imediato.

Portanto, vencidas as primeiras etapas daquela caminhada, era preciso seguir, indo  mais além, entendendo-se com aqueles professores que pudessem contribuir com ele, agora em um capo mais prático, visto que a sua defasagem era muito grande em todas as áreas do saber, mormente, naquelas em que envolviam as “Ciências duras”: matemática, química, física, biologia, visto serem os seus desempenhos bem fracos nelas e que, precisaria pontuar minimamente, para compensar naquelas outras em que ele tivera um aproveitamento melhor e, cujo peso – que ele sequer entendia o que seria aquilo – era maior, no momento da avaliação correspondente à área escolhida.

Não obstante José Mário conhecer alguns professores de boa qualidade e de boa índole que trabalhavam com as ciências exatas, ele não possuía relações de amizade com qualquer deles; ou, aquele poucos que se disporiam a emprestar-lhe tempo e suporte naquele campo, estavam impedidos de o fazer, dado aos seus afazeres profissionais e pessoais – além da distância entre os seus lugares de morada, bem como a falta de meios que propiciasse o deslocamento -, o que obstaculizavam o atendimento daquele aluno em sua necessidade objetiva de reduzir o fosso entre o que ele aprendera no transcurso regular do seu processo escolar e, aquilo que precisaria aprender e apreender, visando a feitura das provas vestibulares.

Quanto ao campo das ciências humanas, ele se propôs a realizar estudos/leituras solo, aproveitando uma razoável publicação de livros em Braille que abarcava minimamente a produção do conhecimento pertinente àquela área. História, geografia e afins, era possível de obter em Braille, mediante solicitação à Fundação para o Livro do Cego no Brasil. Para realizar aquele tipo de estudo, José Mário se obrigava a uma disciplina e a uma rotina, de modo a se manter constante no objetivo que se propôs a alcançar.

Entretanto, ele não se sentiu seguro em levar a cabo um estudo solo da língua portuguesa, da sua gramática e da sua literatura. Para aquela tarefa, ele pode contar com o préstimo valiosíssimo da sua professora no Estadual em algumas das suas fases de escolarização. Era a professora Edna Garcia Batista (1945-2017), que não só se prontificou a partilhar com José Mário os seus vastos e sólidos conhecimentos da matéria, como o recebera em sua casa para lhe proporcionar aquelas lições que foram tão úteis, não só para o vestibular, como também para a vida pessoal e acadêmica futura. Munido de uma gramática que possuía transcrita em Braille, nos dias aprazados e nas longas tardes quentes de dezembro de 1985 e de janeiro do ano seguinte, ele comparecia para as aulas da mestre que, evidentemente não estava limitada a uma única gramática como ele, mas apresentava os conteúdos com a leveza de quem dominava o idioma e a literatura que largamente o fazia compreender. Nem é preciso dizer que aquelas aulas foram de grande valia para aquele estudante frágil em seu acúmulo propedêutico, na medida em que possibilitou o seu bom desempenho nas provas relacionadas ao conteúdo cobrado nas questões de língua e literatura, quanto nas construção do texto redacional correspondente àquele certame.

Assim, entre bons goles de café e excelente pão fresco oriundo das mãos do senhor Lourival, seu marido, as aulas fluíam agradáveis, malgrado o calor quase sufocante que se procurava minimizar com ventiladores tão quentes quanto o ambiente. Seria interessante notar que não assoma à lembrança deste garatujador, a ocorrência daquelas chuvas quase devastadoras, comuns na Alagoinhas daquela época do ano. O que indica não ter havido qualquer intercorrência que exigisse a suspensão daquelas agradáveis tardes de excelente companhia e de grande aprendizagem.

 

Alagoinhas – 26 de outubro de 2025 – primavera brasileira.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 19 de outubro de 2025

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte III.

A transição – III.

 

Evocando a professora Ecléa Bosi (1936-2017),é possível asseverar que a memória trazida aqui para estes escritos está fincada naquilo que ela entende como sendo “[...], a lembrança pura”, pois ela aparece “[...] quando se atualiza na  imagem-lembrança” e, portanto, “[...], traz à tona da consciência um momento único, singular,. _não repetido, _irreversível, da vida. Daí, também, o caráter não  mecânico, mas evocativo, do seu aparecimento por via da memória. [...]. “[...]. A imagem-lembrança tem data certa:  refere-se a uma situação definida, individualizada, [...]”. (BOSI, 1994, p. 49). Este posicionamento de Bosi está fundamentado em Halbwachs (1877-1945), que em sua “Memória Coletiva” considera que “Para confirmar ou recordar uma lembrança, não são necessários testemunhos no sentido literal da palavra, ou seja, indivíduos presentes sob uma forma material e sensível.”. Algumas linhas abaixo ele reforça a proposição, indicando que “[...]. Uma ou muitas pessoas juntando suas lembranças conseguem descrever com muita exatidão fatos ou objetos que vimos ao mesmo tempo em que elas, e conseguem até reconstituir toda a seqüência de nossos atos e nossas palavras em circunstâncias definidas, sem que nos lembremos de nada de tudo isso. [...].” (HALBWACHS, 2006, P. 31). No entanto, ao trazer o passado para o presente, mediante a evocação daquelas lembranças que ainda se podem evocar, ainda que fragmentadas e, em parte reconstruídas por quem lembra, é possível elaborar um rememorar consistente de eventos e circunstâncias vividos naquele passado evocado, a partir de elementos do presente em que o texto é escrito.

É nesta perspectiva que se pretende continuar a discorrer sobre o processo de transição entre o então segundo grau e a busca de José Mário por ingressar no ensino superior, que se vem abordando há já um par de textos postados neste espaço virtual de leitura e reflexão. Neles, se procurou apresentar algumas das estreitas margens do seu viver que o limitava em suas tomadas de decisão a tal respeito. Também ali, se procurou demonstrar que, embora ele tivesse consciência dos limites que social e economicamente a vida lhe impunha, recebera de alguns dos seus poucos amigos a oferta de apoio, no sentido de lhe propiciar alguns meios para fazer face a elas, em caso de partir para o enfrentamento das condições postas, com vistas a fazer o percurso até o curso de licenciatura em História, que, uma vez integralizado, acabaria por o tornar professor.

Chegara outubro e com ele o espraiar dos ares primaveris. O farfalhar das folhas ao ventos, o chilrear dos muitos pássaros nas árvores já frutificando, os aromas da aurora enchendo os pulmões de frescor indizível, dava ao viajor os sinais de que o raiar do dia se fazia já em pleno desabrochar, convidando os operários, as que laboravam nos rios e os estudantes do matutino para que se levantassem e rumassem para os seus espaços de labutas diárias. Como não poderia deixar de ser, José Mário, acordado por volta das cinco da manhã de um daqueles dias de outubro de 1985, se dirigia para o “Estadual”, fazendo o trajeto da sua casa até o estabelecimento de ensino, caminhando pela rua 2 de julho, por vezes, recebia carona na carroceria de uma chevrolet C10, pertencente a um pai que levava as filhas para o mesmo local, seguindo pela Severino Vieira, atravessando a rua Luiz Vianna Filho e a rua Juracy Magalhães, para mais à frente virar a esquerda na rua 21 de abril, alcançando por fim o então debutante “Estadual”. Tendo ali chegado, ao descer do veículo, agradecia a gentileza do seu proprietário e ingressava no Centro Integrado Luiz Navarro de Brito, para participar das aulas e, após o seu término, dali sair para se dirigir até o prédio onde funcionava a Faculdade de Formação de Professores de Alagoinhas, espaço que algumas vezes visitara no intuito de fazer uso da biblioteca mas, que daquela vez, ali chegara para fazer a sua inscrição no vestibular, candidatando-se ao curso de Licenciatura Plena em História.

Tendo ali chegado e, se dirigido ao local onde se processavam os trabalhos de inscrição para o dito certame, José Mário teve que ser encaminhado para uma conversa com o professor José Sales– já seu conhecido por conta da sua efêmera passagem pela Primeira Igreja Batista de Alagoinhas –, professor da instituição, que presidia a comissão encarregada daquela tarefa, sem que, no entanto,  ele atinasse a razão ou a necessidade daquela entrevista, uma vez que, ao se apresentar como candidato, já levara a documentação exigida para tanto e, o recurso monetário com o qual ele pagaria a taxa referente ao seu pleito. Mal poderia imaginar que, aquela seria uma sinalização de que, em caso de aprovação, ele enfrentaria inúmeras turbulências durante o processo formativo para o qual pretendia percorrer.

José Mário saiu da tal entrevista com a sensação de que aquele lugar não seria para ele, nem para pessoas outras que causassem algum mal-estar na condução de processo de aprendizagem, provocando uma espécie de “quebra de paradigma”, no que respeita ao modo de funcionamento da engrenagem há tempos consolidada. Talvez, o “mal-estar”, não tenha sido provocado necessariamente pela sua condição econômica, tampouco pela sua origem social. Mas sim, a sua condição de cegueira, acabara pôr os assustar, por assim dizer, uma vez que, imaginavam – embora nunca tenham dito –, não estariam prontos para o receber enquanto aluno. Afinal, a escola, independentemente do nível de ensino em que esteja inserida, é um espaço de exclusão de tantos quantos não vejam, não ouçam/falem, não tenham o pleno desfrute dos movimentos ou, não tenham um ritmo cognitivo compatível com o que se considera “normal” ao ser humano. Como já é cediço – ou deveria sê-lo –, tanto na sua compleição orgânica, quanto no seu modo de funcionamento, a escola não foi feita para estes tipos acima apontados – basta prestar a devida atenção aos elementos constitutivos inerentes à escola: professora escrevendo no quadro para alunos copiarem em cadernos; ou falando para alunos ouvirem; leituras passivas e/ou ativas; respostas pedidas e recebidas em um tempo breve; aferições de aprendizagem alinhadas a determinados padrões de raciocínio e compreensão do ensinado, tudo isto em um ritmo estipulado. Ao contrário: ela foi feita para quem goza do funcionamento “normal” e pleno de todos os sentidos, para aqueles que não possuem restrições de mobilidade e, para quem pensa, raciocina e racionaliza, dentro de uma “caixa” inscrita no campo da “normalidade”. Logo, aquele candidato a aluno já chega causando preocupações àqueles que eram os responsáveis por solicitar ao órgão elaborador das provas e do material a ser utilizado no processo de execução do certame seletivo, visto não terem a menor ideia de como proceder. Aliás, fora está a motivação alegada para a tal conversa em separado com a comissão, o que lhe causara espécie, uma vez que, em sua cabeça não passava a ideia de que aqueles professores, alocados no ensino superior, trouxesse aquele vácuo de conhecimento do modo como deveria conduzir atividade docência, independentemente do aluno naquele que ingressasse naquele nível de formação.

Enfim, ultrapassado este primeiro obstáculo – ainda que à época não tenha sido percebido como tal –, a candidatura foi devidamente registrada e, José Mário, a partir daquela data, haveria que empreender esforços para alcançar uma preparação, ainda que mínima e precária, que não viesse a frustrar, não só a sua própria expectativa mas, também, a daquelas pessoas que depositaram crédito em sua capacidade de luta e de esforço para encarar mais aquele desafio. Era, portanto, o tempo de procurar encontrar pessoas que lhe pudessem auxiliar na redução de danos, quais sejam: ao falta dos rudimentos mais elementares que deveriam ter sido estabelecidos no transcurso do Segundo Grau e, que, para ele, estava bem aquém daquilo que ele precisava para obter o desempenho, ao menos suficiente para se fazer aprovar naquela empreitada em que ele já chegava com uma grande defasagem em relação a uma boa parte dos candidatos.

 

Alagoinhas, 19 de outubro  de 2025 – primavera brasileira.

José Jorge Andrade Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 12 de outubro de 2025

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte II.

A transição – II.

 

Retomando a escrita iniciada há alguns dias, quando se discorreu sobre o primeiro momento em que se iniciava uma transição marcada pelos lapsos de ideias que se afiguravam no cérebro do protagonista destes garatujares, em que se cogitava um novo caminhar que partiria da conclusão do ensino médio para se fazer ingressar no ensino superior, aqui se procurará dar continuidade ao arrazoado que deu início à série que o paciente leitor ora tem diante de si, na qual o seu autor se disporá a discorrer sobre o tempo em que José Mário passava a conjecturar sobre qual seria a maneira por meio da qual se prepararia  para o processo seletivo, a partir do qual se imiscuiria no processo de formação superior, que o faria preparado para se tornar professor – ao menos, era este o propósito de um curso de licenciatura -, fornecendo a ele – bem como aos demais discentes –,  as ferramentas para a inserção no labor escolar. Era um “tempo” de decisões que repercutiriam por toda a sua vida, ensejando aquilo que para José Mário seria uma “virada de chave” – como se diz – para o caminhar sinuoso que vinha se delineando, o que o obrigaria procurar fazer daquele decidir, um momento definitivo de afirmação, tanto enquanto cidadão do mundo, como enquanto alguém que buscava se preparar para construir e desenvolver uma vida profissional.

Em conformidade com o postulado de Jacques Le Goff, (1924-2014), ao desenvolver verbete para a enciclopédia Einaudi, publicado no Brasil em  forma de livro pela editora da Unicamp, no qual assevera que “A memória, como propriedade de conservar certas informações, remete-nos em primeiro lugar a um conjunto de funções psíquicas, graças às quais o homem pode atualizar impressões ou informações passadas, ou que ele representa como passadas” (LE GOFF, 1996, p. 423), é que este escrevente procurará levantar algumas camadas já bastante espessas acumuladas há um bom já passar de tempos, intentando trazer alguns fragmentos de lembranças com os quais possa revisitar aquele passado que aqui se pretende evocar.

No arrazoado anterior, José Mário foi deixado ao sabor dos seus pensamentos, quando cogitava sobre o que fazer após concluir aquele excessivamente longo ciclo formativo, quando as ideias e as hipóteses bailavam em seu cérebro, assim como a maneira como tal ou qual possibilidade se encaminharia. O terceiro ano do segundo grau se desenrolava sem grandes tropeços ou percalços e o seu desfecho acabara por se dar em conformidade com o que seria recomendável, noves fora um pequeno susto causado por uma greve professoral deflagrada quase no fim do ano letivo, cuja consequência para o alunado foi a postergação da colação de grau por alguns dias e, consequente adiamento da entrega dos certificados comprobatórios da conclusão de curso. Fora este pequeno incidente de ordem institucional, nada mais houve que viesse a obstar aquele fim de processo.

Mas, fora deste transcorrer de caminhada escolar formal, havia que se encetar gestões no sentido de dar largas aos novos pensamentos que lhe brotaram com o intuito de viabilizar a preparação para as outras etapas do seu processo formativo. Neste sentido, convinha encontrar as pessoas e os meios para que ele pudesse fazer frente ao novo caminhar.

Portanto, era preciso considerar que, àquela altura do seu caminhar processual,  a José Mário faltava tudo: as bases elementares para o enfrentamento de um vestibular, em condições mínimas de aprovação – rudimentos matemáticos, de física, de química, de biologia, conhecimentos em diversas outras áreas que, ao concluir o segundo grau, ele já deveria possuir, entre outras deficiências formativas –; de sorte que a sua investida não fosse vã e frustrante, uma vez que, como se já salientou, a sua idade já se fazia avançar, no sentido de iniciar e concluir mais uma etapa de preparação para o mercado de trabalho – os dispositivos legais em vigor naquele instante de sua vida, indicavam que a realização de concurso público só seria possível até os trinta anos completos –, o que insidia em mais pressão sobre aquele rapaz que em breve, entraria no início do seu segundo quartel de existência. Também, a ele faltavam os recursos financeiros que lhe permitissem ingressar em algum curso pré-vestibular; que lhe permitisse uma eventual contratação de professor para uma ou duas matérias específicas; recursos tiflológicos que lhe permitissem  aceder às matérias por meio do sistema Braille, no sentido de lhe propiciar uma maior e melhor apreensão dos conteúdos propedêuticos necessários à obtenção de êxito naquela empreitada – sem falar que não possuía nem mesmo a grana para a inscrição no dito cujo. Mas, ele também não dispunha de um espaço adequado para a realização de leituras/estudos dos livros e matérias propostas, o que dificultava um pouquinho mais a sua preparação. Era, pois, um tempo de escassez de quase tudo; até mesmo dos meios para a sua manutenção cotidiana, o que obrigava a reduzir ao factível as possíveis ambições; o que limitava até mesmo os sonhares, na medida em que, apesar de sonhar não haver custo, ele estava sujeito à possibilidade de se fazer frente ao custo de sua realização. Talvez, seja preciso lembrar ao arguto leitor que, tudo isto atuava como elemento limitador e, mesmo, inibidor para qualquer intento de ser isto, fazer aquilo..., enfim, se fazer “homem”, conforme entendia a sua genitora: ter com que se manter.

Conforme o leitor pode perceber, aquele pretenso vestibulando estava fadado ao fracasso ou à desistência, devido à falta das condições normais de pressão e temperatura, no tempo em que estava inserido o seu caminhar terráqueo. Mas, ao que parece, a palavra “desistência” não era de emprego comum para aquele sujeito teimoso, nem o verbo “desistir” era facilmente conjugado por ele, embora esta parte da gramática ele dominasse bem. Acredita-se que precisaria mesmo conjugar o verbo “insistir”, pois, outra conjugação, saliente-se, não seria do seu feitio, visto ser aquele conjugar uma necessidade presente e constante no seu trilhar da vida formativa. Assim pensando, estava ele assim fazendo. enquanto o ano de 1985 corria célere, ele entabulava conversas com os seus poucos amigos, que logo se dispuseram a caminhar com ele aquela jornada. Um deles, garantira-lhe o recurso necessário para a feitura da inscrição e outra, dedicara-lhe tempo e paciência para que ele pudesse dirimir dúvidas e aprender o que desconhecia sobre a língua portuguesa e a literatura, campo em que, embora fosse excelente e profuso leitor –de acordo com o que já se arrazoou em escritos pretéritos –, carecia de conhecimentos teóricos que lhe fizessem compreender os elementos formadores e norteadores do fazer literário: escolas, formatos, modos de composição, entre outras características que, certamente, seriam cobradas em forma de questões e, que ele, não saberia responder adequada e corretamente. De sorte que, enquanto se empenhava em concluir o segundo grau, paralelamente, ele se esforçava por obter uma preparação, ainda que mínima, para se submeter à seleção que, sendo aprovado, o levaria  ingressar em um curso de grau superior.

Para concluir estes garatujares, cabe salientar que algum vento também lhe soprara a favor, na medida em que a oferta dos cursos a serem disputados naquele próximo exame, trouxera uma boníssima novidade. No arrazoado anterior, foi comentado que o curso que lhe era possível postular em sua cidade, o que não demandaria custos extraorçamentários para o seu acompanhamento, era o de Licenciatura Curta em Estudos Sociais, o que lhe provocara alguma resistência em se candidatar, visto ser aquele, um curso inventado/imposto pela Ditadura Militar que se impusera ao País, mediante golpe perpetrado em abril de 1964 e, que para ele, soava como incongruente, na medida em que o seu objetivo era impedir que a História, a Filosofia e a Sociologia – pretensamente embutidas  naquela matéria draconiana –, viesse a criar um espírito crítico nos estudantes – ou amortecer a criticidade naquele que eventualmente já a possuísse. No entanto, começara a correr entre os concluintes do segundo grau e, claro, chegara até ele, o boato que, na verdade, aquele curso de Estudos sociais, em forma de licenciatura curta – com uma duração de dois anos e meio, provocando a necessidade de uma complementação, o que só se daria em Feira de Santana –, seria substituído pelo curso de História, com duração plena. Imediatamente, José Mário correu para se certificar da novidade e, tendo sido informado da procedência da informação, mais ainda se interessou por se preparar para enfrentar aquele certame, por meio do qual, buscaria fazer parte daquela que seria a primeira turma de História que se formaria com o preenchimento das quarenta vagas que foram disponibilizadas para aqueles que se habilitassem a concorrer a uma delas.

 

Alagoinhas – 12 de outubro de 2025 – primavera brasileira

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com

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