27 de janeiro de 1986 – as provas – IV.
Em mais um escavar de profundas camadas de memórias já
pretéritas, se pretende trazer à
público, um outro feixe de sedimentos de um tempo em que eram envidados
esforços para que José Mário se pudesse imiscuir em um processo formativo que o
preparasse para a interação necessária com o viver cotidiano. Aquele era um
tempo em que as assim chamadas “tecnologias assistivas” nem ao menos eram
cogitadas – os primeiros cegos começavam a ser inseridos no processo de
programação computacional de grande porte mas, ainda assim, sem autonomia –; o
que se tinha e, mesmo assim, com grande defasagem no que tange à sua
abrangência e ao alcance de tantos quantos delas viessem a necessitar, era a já
velha e carcomida “tiflologia”, que, apesar do termo aparentemente pomposo,
nada mais era do que o modo como as pessoas cegas podiam se acercar dos meios
de escrita e leitura comuns, para que assim, conseguissem prosseguir no seu
intento de se fazer formadas e, sobretudo, aptas para a inserção no mercado de
trabalho, ao menos, em tese. Não custa salientar, portanto que, no tempo em que
José Mário se esforçava por ingressar em um curso de nível superior, ele só
contava com a sua Reglete e o seu Punção para a escrita em Braille – para o seu
próprio uso –; com a sua bengala para realizar os deslocamentos; com uma
máquina de datilografia comum, para a sua interação com professores e os demais
com os quais precisasse se comunicar por escrito. Para José Mário tomar contato
com aquilo que mais tardiamente veio a ser chamado “tecnologia assistiva”, bem
como iniciar as relações com ela, em seus primeiros rudimentos bem primordiais,
foi preciso esperar ainda uma década. É assim que, ao intentar trazer à lume fragmentos
de memória prospectados em suas mais profundas camadas há muito encobertas pelo
passar do tempo e pelo acúmulo de tantas outras que se sobrepunham àquelas, se
pretende que, uma vez ressignificada e saída do silêncio em que estivera, possa
então se tornar História, conforme postulam Le Goff (1992), Ricöeur (2007),
Bosi (1994), Fernández (1996), Traverso (2012), já amplamente citados nestes
arrazoados.
Conforme se escreveu quase ao final dos garatujares
anteriores, José Mário, não obstante a sua necessidade de descansar daquela
manhã puxada que fora o segundo dia de provas, fora superada pelo desejo de
saber qual teria sido o seu desempenho nas provas do dia anterior, o que lhe
obrigaria a apelar para os filhos do vizinho, a fim de que um deles se
dispusesse a ler o gabarito que houvera sido publicado no jornal A Tarde
daquela segunda feira. Assim pensando, pouco depois do almoço, tendo dado um
tempo para que o “feijão” se ajustasse ao processo digestivo, tímida e cautelosamente,
ele se dirigira à casa de Seu Augusto e, não sem fazer algum esforço – embora aqueles
rapazes fossem seus velhos conhecidos de
conversas, brincadeiras no quintal e piadas “ao pé do poste” –, lhes indagara
se o jornal A Tarde havia sido visto ali,
naquele dia. Diante da resposta afirmativa, ainda mais intimidado, indagou se alguém
lhe poderia ler o gabarito das provas do vestibular, para que ele o pudesse
copiar... Pronto. Desafortunadamente, estava entregue o segredo que ele tanto
guardara e, que só por necessidade – para não dizer extrema curiosidade –
acabara por dar a conhecer àqueles vizinhos de muitos anos e travessuras. Afinal,
aquele fora um segredo que José Mário intentara ocultar, mesmo daqueles seus
velhos companheiros de infância, de subidas em pés de manga e de jáca, de
brincadeiras de “cowboy”, de assistências de “Viagem ao fundo do Mar”, de
programas como os de “Chico City”, entre outros folguedos de tempos em que se
brincava na rua e, muitos daqueles brincares só eram viabilizados coletivamente,
e que se assistia programas de televisão
no mesmo espaço, na mesma sala e no mesmo aparelho, um “Colorado” em preto e
branco, como era o que jazia naquela casa. Era um segredo que só fora dado a conhecer
a aqueles de quem não era possível ocultar, pois, era uma empreitada que sozinho,
ele não poderia enfrentar. Mas, não fora aquela necessidade de apoio para a sua
consecução, nem os amigos mais próximos, nem a sua mãe e, ainda menos, os seus
vizinhos mais achegados, ficariam sabendo de sua sorte: a menos que viesse a
lhe ser favorável.
Assim, entre constrangimentos e mal disfarçadas surpresas, o
gabarito foi lido por um deles – ou por uma delas, a esta altura, não há
clareza no rememorar – tendo ele copiado as alternativas que deveriam ter sido
marcadas para se configurar os acertos. Terminada que fora a leitura, ele se retirou
daquele espaço, inegavelmente desapontado, para se mergulhar outra vez no seu
refugiar costumeiro. Se recolhera para remoer o desapontamento que sentira ao
perceber que não houvera alcançado o desempenho que acreditara teria tido. O
número de alternativas acertadamente marcado, não lhe dera qualquer certeza de
desempenho que redundasse em aprovação. Diversas vezes pensara em sequer se
apresentar para o último dia de provas; se, naquela para a qual ele se
acreditava mais preparado, houvera tido um desempenho tão abaixo do seu crivo,
o que seria da segunda leva de provas, para a qual, efetivamente, ele não
dispunha de qualquer preparo, ao menos para não “zerar”? Se não se saíra bem
naquelas provas do primeiro dia, teria se saído ainda pior, naquelas que há poucas
horas acabara de fazer.
Mergulhado naquele pensar, afogado naqueles cismares
intermináveis e, embatendo-se em decisões que não se arredavam daquele cérebro
em que cabriolavam, ora com força de afirmação do seu não comparecer para a
realização da última leva de provas; ora, ao contrário, lhe gritava ser uma
decisão covarde, o que lhe fazia rever o decidido minutos – para não dizer
segundos – antes; fazendo e desfazendo a mesma decisão, conforme a força da
tempestade que se abatia no seu interior, José Mário passara aquele resto de
tarde entre avançar e recuar de uma caminhada que já fazia há alguns meses, que
já ultrapassara alguns obstáculos, que já estava se encaminhando para os
últimos metros do seu percurso.
Foi assim que aquela noite o encontrou. Não saíra do seu
refúgio, a não ser para comer. Isto ele fizera cabisbaixo e sem se dispor a
dizer para a sua mãe que não iria para o dia seguinte das provas. Depois,
procurara conciliar o sono. Este, teimoso e resistente, custara a vir. E, se
veio, o fizera de forma picotada; também trouxera consigo aqueles pesadelos de
quem se faz acompanhar, quando o que o quer por perto se encontra agitado e
embatendo-se consigo mesmo, quer, não quer e, ato contínuo, volta a querer.
Mas, o que ele não recuperara mesmo, quer no seu ímpeto, quer em um misto de
medo e resistência à ideia de recuo, foi o ânimo. Ele, ao que parecia ao insone
e alquebrado vestibulando, arrefecera e, por isso mesmo, deixara de lhe servir
de combustível para insistir em palmilhar aquele último pedaço de caminho que
se lhe apresentaria para ser percorrido no dia seguinte àquela noite, muitíssimo
mal dormida.
Alagoinhas – 28 de dezembro de 2025 – sexagésimo quinto verá
brasileiro, vivido por quem traceja estes garatujes.
Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com