domingo, 21 de dezembro de 2025

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte XII.

27 de janeiro de 1986 – as provas – III.

 

Conforme se vem salientando ao longo dos arrazoados aqui propostos, a memória – tanto aquela ligada ao indivíduo, quanto a que se manifesta a partir do conjunto dos indivíduos –, quando ainda não monumentalizada, no dizer de Jacques Le Goff (1924-2014), está sujeita a ressignificações a partir do presente, sem, contudo, perder aquilo que mais interessa ao pesquisador, que é o fato de saber que, o que foi dito por aquele que se lembra, de fato aconteceu, conforme assegura Paul Ricöeur (1913-2005), quando diz que não se tem nada melhor para dar a conhecer um determinado evento, se não a memória do indivíduo que lembra.  É nesta perspectiva que se continua a buscar na trajetória de José Mário, a memória daquele passado em que ele estivera envolvido em seu esforço para dar continuidade ao processo formativo que, de acordo com o que pensava, dar-lhe-ia o ferramental de que necessitava para que, entre outras coisas, pudesse prover a si e aos que por ele viessem a ser arrimados. É assim que, ao desenvolver estes garatujares, se tem procurado realizar incursões nos sedimentos das diversas camadas da memória, sob as quais se encontra o passado que se tem procurado trazer ao crivo de tantos quantos tenham tido a paciência de os ler. Faz-se ainda mister ressaltar de passagem que, os rememorares que vem sendo trazidos nestas postagens, estão sustentados no princípio postulado por Le Goff, em obra de 1996, publicada no Brasil sob o título de “História e Memória”, originalmente publicada em formato de verbetes, quando ao final daquele em que discorre sobre a memória, crava uma espécie de resumo de todo o seu trabalho em fazer o leitor entender o que é e para que serve a memória, afirmando que: “A memória, onde cresce a história, que por sua vez a alimenta, procura salvar o passado para servir o presente e o futuro. [...].” (LE GOFF, 1996, p. 477). 

Naquela última segunda feira de janeiro de 1986, dia em que José Mário realizaria o segundo bloco de provas necessário para continuar a sua caminhada pelo vestibular, como o fizera no dia anterior, acordara ainda cedo, talvez dia já claro, mas, ainda não nascido de todo, erguendo-se e dirigindo-se ao banho e ao café, depois, vestindo-se e deixando a residência para alcançar o ônibus que, por ser uma segunda feira e, havendo grande movimentação de pessoas para a rodoviária, a fim de alcançarem o transporte que os levaria aos locais/lugares de trabalho, o coletivo urbano iniciava a circulação por volta das quatro da manhã – horário que, aliás, ele já conhecia bem –, sendo então provável que conseguisse embarcar naquele que iria para a rodoviária, o que permitiria desembarcar próximo do hospital Dantas Bião, de onde seguiria a pé em direção do Estadual, que não ficava longe dali e, chegaria em um horário compatível com o momento da abertura dos portões, quando todos ingressariam no espaço em que realizariam aquelas provas. Convém chamar a atenção de quem percorre estas linhas, que a Alagoinhas em que se passam os eventos aqui rememorados, era uma cidade que não oferecia muitas oportunidades de empregos formais aos seus munícipes, o que forçava a saída daqueles, em busca de outros centros urbanos – como Catu, Camaçari e Salvador –, onde pudessem encontrar as oportunidades de trabalho que por cá eram limitadas ao comércio varejista e ao setor de transportes  - urbano e rodoviário -, muitas vezes, incompatíveis e/ou insuficientes para atender à necessidade da grande maioria daqueles que estavam aptos para ingressar no mercado de trabalho. Isto explica, ao menos em parte, a grande pressão exercida sobre o sistema de transportes local, o que forçava o aumento da oferta de horários, tanto no setor urbano, quanto no rodoviário, que permitisse atender ao que era demandado por uma população que era obrigada a se deslocar do seu lugar de moradia, em busca de alcançar o sustento diário para si e para os seus.

Voltando a falar de José Mário em sua empreitada no intento de se fazer imiscuir no ensino superior, saliente-se de passagem que, não obstante a tensão vivida no primeiro dia e o cansaço decorrente do longo tempo que precisou empregar para completar todo o processo de leitura, reflexão, marcação das alternativas, além da escrita da redação, José Mário se mantivera firme na sala onde aqueles procedimentos foram realizados, aproveitando todo o tempo que lhe fora disponibilizado para tal e, só deixando o Estadual por volta do meio dia e meio, naquele segundo momento, por volta das sete horas da manhã seguinte, ele já lá se encontrava, pronto para enfrentar, mais aquela jornada de provas.

No entanto, para ele, aquele era o momento mais difícil do certame a que se propusera a enfrentar. Ali, José Mário estava diante de matérias cujos temas e proposições, ele pouco ou nada sabia – mais nada do que pouco, diga-se de passagem –, visto que, conforme já foi apontado em postagens anteriores, aquelas que eram as chamadas “ciências duras” – ou, como se diz hoje, “ciências Naturais e da Terra” –, quase não foi por ele aprendida, embora todas elas – ou quase todas – tenham sido regularmente cursadas. É de bom alvitre ressaltar que, em tais matérias, José Mário fora aluno de bons professores, tais como Antônio Fagundes, Zenildes  e Maria do Carmo, nas matemáticas; o professor Aristóteles, em física; o professor Benedito, em biologia; também era bom o professor de Química... Portanto, o nada ter aprendido de tais matérias, não se devera aos professores que ele tivera; mas, sim, a ele mesmo, que não possuía aptidão, disposição ou mesmo  interesse nelas. Para reforçar a inaptidão e o desinteresse, cumpre apontar o escasso acesso aos livros que delas tratavam, embora, alguns deles estivessem transcritos em Braille, como a Química de Antônio Lembo, a Física de Bonjorno, os professores mencionados acima, não os adotava como sendo o seu material de trabalho, o que dificultava ainda mais a feitura de qualquer esforço por parte daquele aluno, no sentido de melhor compreender ou, quando menos, apreender os rudimentos mais basilares daquelas ciências, ao menos, para não se dar tão mal em um certame como aquele, onde havendo classificação, tal se daria de acordo com a pontuação geral obtida.

Entretanto, ele ali precisaria estar para enfrentar aquelas questões que estavam sob os seus dedos, que, até mesmo os enunciados lhes eram pouco compreensíveis. O que precisaria fazer então, era evitar zerar qualquer uma daquelas provas, sob pena de desclassificação sumária do certame. Talvez, por isto mesmo, a tensão naquele segundo dia fosse ainda maior do que a do primeiro, exatamente porque, sequer saberia qual a resposta que não seria a correta, dentre as quatro possíveis, inseridas em cada questão proposta. Desta maneira, as provas seriam respondidas de modo alheio a qualquer processo de aprendizagem das matérias que estavam sendo apresentadas como sendo uma forma de aferir o que aquele aluno aprendera em todo o seu processo de escolarização. Era sim, um esforço para que nenhuma daquelas provas tivesse marcadas questões erradas em sua integridade, obtendo zero acertos, como já se disse, o que resultaria na perda de todo o certame!

Foi assim pensando que José Mário se dirigiu até a mesma sala onde estivera no dia anterior, para ali encarar aquela tarefa que lhe incumbia executar. Ao receber o material correspondente às provas que ele deveria responder naquele dia, procurara percorrer todas as suas páginas, no intuito de encontrar algum enunciado que para ele viesse a fazer algum sentido, visando alcançar o objetivo já acima indicado: não se fazer eliminar sumariamente daquele certame. Abrira sobre a mesa a tabela periódica que se encontrava anexa ao material; passeara com os seus dedos nas páginas e nos gráficos correspondentes à Física, não sendo, evidentemente, capaz de reconhecer ou responder quaisquer questões dali derivadas; talvez tenha encontrado na prova de biologia, alguma questão que pudesse tentar responder sem medo de  errar – embora não tivesse grande confiança naquilo – se demorando um pouco mais nelas, tomando-as enfim, como uma espécie de “tábua” de salvação, por meio da qual pudesse evitar o completo naufrágio. Tendo se debatido por algumas horas naquelas águas encapeladas, se deu por vencido e concluiu mais aquela cansativa jornada, finalizando o processo de marcação no gabarito, assinando a documentação que tivera de o fazer e, levantando-se e saindo para deixar o local, algo por volta das onze da manhã, chegando em casa na justa hora do almoço.

Mas, o desejo de descansar daquela manhã puxada, fora vencido pelo desejo de saber qual teria sido o seu desempenho nas provas do dia anterior, o que lhe obrigaria a apelar para os filhos do vizinho, a fim de que um deles se dispusesse a ler o gabarito que houvera sido publicado no jornal A Tarde. Grande era a sua timidez para realizar aquela operação e, ainda maior era o seu temor de se fazer saber vestibulando, na medida em que, até ali, só ele, a sua mãe e aqueles que lhe deram apoio, sabiam do seu intento.

 

Alagoinhas – 21 de dezembro de 2025 -  ainda primavera brasileira  (verão, daqui a três horas e quinze minutos).

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

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