27 de janeiro de 1986 – as provas – III.
Conforme se vem
salientando ao longo dos arrazoados aqui propostos, a memória – tanto aquela
ligada ao indivíduo, quanto a que se manifesta a partir do conjunto dos
indivíduos –, quando ainda não monumentalizada, no dizer de Jacques Le Goff (1924-2014),
está sujeita a ressignificações a partir do presente, sem, contudo, perder aquilo
que mais interessa ao pesquisador, que é o fato de saber que, o que foi dito
por aquele que se lembra, de fato aconteceu, conforme assegura Paul Ricöeur
(1913-2005), quando diz que não se tem nada melhor para dar a conhecer um
determinado evento, se não a memória do indivíduo que lembra. É nesta perspectiva que se continua a buscar
na trajetória de José Mário, a memória daquele passado em que ele estivera
envolvido em seu esforço para dar continuidade ao processo formativo que, de
acordo com o que pensava, dar-lhe-ia o ferramental de que necessitava para que,
entre outras coisas, pudesse prover a si e aos que por ele viessem a ser
arrimados. É assim que, ao desenvolver estes garatujares, se tem procurado
realizar incursões nos sedimentos das diversas camadas da memória, sob as quais
se encontra o passado que se tem procurado trazer ao crivo de tantos quantos
tenham tido a paciência de os ler. Faz-se ainda mister ressaltar de passagem
que, os rememorares que vem sendo trazidos nestas postagens, estão sustentados
no princípio postulado por Le Goff, em obra de 1996, publicada no Brasil sob o
título de “História e Memória”, originalmente publicada em formato de verbetes,
quando ao final daquele em que discorre sobre a memória, crava uma espécie de
resumo de todo o seu trabalho em fazer o leitor entender o que é e para que
serve a memória, afirmando que: “A memória, onde
cresce a história, que por sua vez a alimenta, procura salvar o passado para
servir o presente e o futuro. [...].” (LE GOFF, 1996, p. 477).
Naquela
última segunda feira de janeiro de 1986, dia em que José Mário realizaria o segundo
bloco de provas necessário para continuar a sua caminhada pelo vestibular, como
o fizera no dia anterior, acordara ainda cedo, talvez dia já claro, mas, ainda
não nascido de todo, erguendo-se e dirigindo-se ao banho e ao café, depois,
vestindo-se e deixando a residência para alcançar o ônibus que, por ser uma
segunda feira e, havendo grande movimentação de pessoas para a rodoviária, a
fim de alcançarem o transporte que os levaria aos locais/lugares de trabalho, o
coletivo urbano iniciava a circulação por volta das quatro da manhã – horário que,
aliás, ele já conhecia bem –, sendo então provável que conseguisse embarcar naquele
que iria para a rodoviária, o que permitiria desembarcar próximo do hospital
Dantas Bião, de onde seguiria a pé em direção do Estadual, que não ficava longe
dali e, chegaria em um horário compatível com o momento da abertura dos
portões, quando todos ingressariam no espaço em que realizariam aquelas provas.
Convém chamar a atenção de quem percorre estas linhas, que a Alagoinhas em que
se passam os eventos aqui rememorados, era uma cidade que não oferecia muitas
oportunidades de empregos formais aos seus munícipes, o que forçava a saída daqueles,
em busca de outros centros urbanos – como Catu, Camaçari e Salvador –, onde
pudessem encontrar as oportunidades de trabalho que por cá eram limitadas ao
comércio varejista e ao setor de transportes
- urbano e rodoviário -, muitas vezes, incompatíveis e/ou insuficientes
para atender à necessidade da grande maioria daqueles que estavam aptos para
ingressar no mercado de trabalho. Isto explica, ao menos em parte, a grande pressão
exercida sobre o sistema de transportes local, o que forçava o aumento da
oferta de horários, tanto no setor urbano, quanto no rodoviário, que permitisse
atender ao que era demandado por uma população que era obrigada a se deslocar
do seu lugar de moradia, em busca de alcançar o sustento diário para si e para
os seus.
Voltando
a falar de José Mário em sua empreitada no intento de se fazer imiscuir no
ensino superior, saliente-se de passagem que, não obstante a tensão vivida no
primeiro dia e o cansaço decorrente do longo tempo que precisou empregar para
completar todo o processo de leitura, reflexão, marcação das alternativas, além
da escrita da redação, José Mário se mantivera firme na sala onde aqueles
procedimentos foram realizados, aproveitando todo o tempo que lhe fora
disponibilizado para tal e, só deixando o Estadual por volta do meio dia e
meio, naquele segundo momento, por volta das sete horas da manhã seguinte, ele já
lá se encontrava, pronto para enfrentar, mais aquela jornada de provas.
No
entanto, para ele, aquele era o momento mais difícil do certame a que se propusera
a enfrentar. Ali, José Mário estava diante de matérias cujos temas e
proposições, ele pouco ou nada sabia – mais nada do que pouco, diga-se de
passagem –, visto que, conforme já foi apontado em postagens anteriores,
aquelas que eram as chamadas “ciências duras” – ou, como se diz hoje, “ciências
Naturais e da Terra” –, quase não foi por ele aprendida, embora todas elas – ou
quase todas – tenham sido regularmente cursadas. É de bom alvitre ressaltar
que, em tais matérias, José Mário fora aluno de bons professores, tais como
Antônio Fagundes, Zenildes e Maria do
Carmo, nas matemáticas; o professor Aristóteles, em física; o professor
Benedito, em biologia; também era bom o professor de Química... Portanto, o
nada ter aprendido de tais matérias, não se devera aos professores que ele
tivera; mas, sim, a ele mesmo, que não possuía aptidão, disposição ou
mesmo interesse nelas. Para reforçar a
inaptidão e o desinteresse, cumpre apontar o escasso acesso aos livros que
delas tratavam, embora, alguns deles estivessem transcritos em Braille, como a
Química de Antônio Lembo, a Física de Bonjorno, os professores mencionados acima,
não os adotava como sendo o seu material de trabalho, o que dificultava ainda
mais a feitura de qualquer esforço por parte daquele aluno, no sentido de
melhor compreender ou, quando menos, apreender os rudimentos mais basilares
daquelas ciências, ao menos, para não se dar tão mal em um certame como aquele,
onde havendo classificação, tal se daria de acordo com a pontuação geral
obtida.
Entretanto,
ele ali precisaria estar para enfrentar aquelas questões que estavam sob os
seus dedos, que, até mesmo os enunciados lhes eram pouco compreensíveis. O que precisaria
fazer então, era evitar zerar qualquer uma daquelas provas, sob pena de
desclassificação sumária do certame. Talvez, por isto mesmo, a tensão naquele
segundo dia fosse ainda maior do que a do primeiro, exatamente porque, sequer
saberia qual a resposta que não seria a correta, dentre as quatro possíveis,
inseridas em cada questão proposta. Desta maneira, as provas seriam respondidas
de modo alheio a qualquer processo de aprendizagem das matérias que estavam
sendo apresentadas como sendo uma forma de aferir o que aquele aluno aprendera
em todo o seu processo de escolarização. Era sim, um esforço para que nenhuma
daquelas provas tivesse marcadas questões erradas em sua integridade, obtendo
zero acertos, como já se disse, o que resultaria na perda de todo o certame!
Foi assim pensando que José Mário se dirigiu até a mesma
sala onde estivera no dia anterior, para ali encarar aquela tarefa que lhe
incumbia executar. Ao receber o material correspondente às provas que ele
deveria responder naquele dia, procurara percorrer todas as suas páginas, no
intuito de encontrar algum enunciado que para ele viesse a fazer algum sentido,
visando alcançar o objetivo já acima indicado: não se fazer eliminar
sumariamente daquele certame. Abrira sobre a mesa a tabela periódica que se
encontrava anexa ao material; passeara com os seus dedos nas páginas e nos
gráficos correspondentes à Física, não sendo, evidentemente, capaz de
reconhecer ou responder quaisquer questões dali derivadas; talvez tenha
encontrado na prova de biologia, alguma questão que pudesse tentar responder
sem medo de errar – embora não tivesse
grande confiança naquilo – se demorando um pouco mais nelas, tomando-as enfim,
como uma espécie de “tábua” de salvação, por meio da qual pudesse evitar o
completo naufrágio. Tendo se debatido por algumas horas naquelas águas
encapeladas, se deu por vencido e concluiu mais aquela cansativa jornada,
finalizando o processo de marcação no gabarito, assinando a documentação que
tivera de o fazer e, levantando-se e saindo para deixar o local, algo por volta
das onze da manhã, chegando em casa na justa hora do almoço.
Mas, o desejo de descansar daquela manhã puxada, fora vencido
pelo desejo de saber qual teria sido o seu desempenho nas provas do dia
anterior, o que lhe obrigaria a apelar para os filhos do vizinho, a fim de que
um deles se dispusesse a ler o gabarito que houvera sido publicado no jornal A
Tarde. Grande era a sua timidez para realizar aquela operação e, ainda maior
era o seu temor de se fazer saber vestibulando, na medida em que, até ali, só
ele, a sua mãe e aqueles que lhe deram apoio, sabiam do seu intento.
Alagoinhas – 21 de dezembro de 2025 - ainda primavera brasileira (verão, daqui a três horas e quinze minutos).
Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com
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