terça-feira, 28 de maio de 2024

Uma homenagem ao Apolinho

O Rádio ainda mais pobre: morre o “Apolinho”. Em escritos pretéritos, já se disse que este escrevedor teve o rádio como sua escola, sua revista, seu jornal, seu dicionário, sua gramática; que para ele o rádio atuava como professor de política, sociedade, economia, de comportamento; que funcionara enfim, como o meio que lhe forjara o modo de ler o mundo e, grande parte do seu modo de pensar. No rádio se aprendeu a gostar de música, a falar bem, a refletir a respeito das coisas à sua volta; também aprendera com o rádio o que viria a ser cultura, uma vez que o acesso aos livros e outros materiais de leitura lhe eram extremamente restritos, tanto do ponto de vista da possibilidade de os comprar, quanto do ponto de vista da possibilidade de os ler, de modo independente e autônomo. Pois bem. Ao longo dos sessenta e três anos até aqui vividos, ele ouviu grandes vozes, grandes locuções realizadas por repórteres, apresentadores de programas de entretenimento; noticiaristas e comentaristas que traziam o cotidiano do “Brasil e do Mundo” para os seus ouvintes. AS guerras, os conflitos, as crises sociais e econômicas eram dados ao conhecimento daqueles que, em grande medida, só o alcançariam mediante as audições de programas de rádio. Algumas daquelas emissoras em transmissões na faixa de “Amplitude Modulada (AM)” ou em ondas curtas, se fizeram memoráveis para este escrevente: rádio Jornal do Brasil – com “O Jornal do Brasil Informa”, que era ouvido por este radioescuta, nas edições das 18:30h e das 00:30h, com Maurício Figueiredo (1944-2011) e Márcio Seixas (1945-) -, rádio Globo 1220KHZ, Rádio Eldorado, rádio Tamoio, rádio Mundial, e rádio Tupi, entre outras, Rio de Janeiro; rádio Bandeirantes, rádio Cultura, rádio Capital, entre outras, São Paulo; programas como Haroldo de Andrade (1934-2008) – programa que contava com o seu “Bom-Dia”, com a sua “Pesquisa do Dia” e com os seus “Debates Populares”, onde se pôde ouvir grandes temas debatidos por gente como Artur da Távola (1936-2008, Carlos Bacelar (1944-2005), Lúcia Hipólito (1950-2023), João Pinheiro Neto (1928-2003), Edgar Flexa Ribeiro (1940-), entre outros -; aos domingos , logo depois do “Domingo Mobral”, a partir das onze e quinze da manhã, se poderia ouvir “Mário Luiz é uma parada”, vindo a seguir o “Enquanto a Bola não Rola”, apresentado no início da tarde, por importantes nomes da crônica esportiva carioca como Loureiro Neto, Eraldo Leite, Cleber Leite, Sergio Noronha, Washington Rodrigues, Gerson “Canhotinha de Ouro”, Francisco Horta, Luiz Mendes, entre outros -, O Seu Redator Chefe, as edições de “O Globo no Ar” e do “Correspondente Globo”, na rádio Globo Rio – que ainda contava com vozes marcantes como as de Edmo Zarife (1940-1999), o já mencionado Mário Luiz (1929-2009), Guilherme de Souza (1929-2019), Sérgio Nogueira (1947-2010), Roberto Figueiredo (1933-2021) -; na rádio Nacional do Rio de Janeiro, também era possível ouvir o “Tabuleiro do Brasil”, com Geraldo do Norte, o programa “Alô Daisy” na agradabilíssima apresentação de Daisy Lúcidi (Daisy Lopes Lúcidi Mendes 1929-2020) – uma das seções do programa era o “Agora que são Elas”, com excelentes debates mediados por ela, cuja mesa era formada apenas por mulheres; também havia aquele outro debate, desta vez, com uma mesa formada só por homens e, também mediado pela própria apresentadora -, programa MusiShow, com Cirilo Reis, programa Luiz Vieira- alientando-se que parte da programação da rádio Nacional do Rio de Janeiro só era possível ser captada a partir das suas ondas curtas de 31 metros -; o Pulo do Gato, com José Paulo de Andrade, Jornal Primeira Hora e Jornal da Bandeirantes Gente, na Rádio Bandeirantes, jornal Ouça com Heródoto Barbeiro na rádio Excelsior, foram basilares na construção cultural e na formação do linguajar deste que ora traça estes escritos de nostalgia. No entanto, o rádio – principalmente o rádio AM - nos últimos anos vem perdendo importância e protagonismo no campo da comunicação de massa, pelos motivos os mais diversos. Entre os tantos, este escrevente apontaria a baixa qualidade daqueles que passaram a compor a “ala moça” do setor, fazendo cair vertiginosamente o nível da linguagem, muitos deles demonstrando pouquíssima capacidade de fazer simples leituras de textos. Prenhes de técnicas comunicacionais, grande parte está vazia de domínio do vernáculo, se diria, semianalfabetos no que respeita ao uso daquela ferramenta tão essencial na tarefa de comunicar, não mais propiciando aos ouvintes uma firmeza no campo da articulação entre transmissão e recepção de mensagens. Além do desligamento daquela faixa de propagação que permitia o rádio ser ouvido a longa distância – submetendo os ouvintes às emissoras de frequência modulada (FM”, de menor qualidade e, felizmente, também de menor alcance -, desde a pandemia de Covid19 tem-se assistido a morte daqueles locutores mais bem formados e mais talhados para um rádio versátil e diverso. Alguns deles poderiam aqui ser mencionados, como foi o caso de José Paulo de Andrade (1942-2020), já aludido acima, que fora tragado pela Covid19; radialista esportivo Gilson Ricardo (1948-2023), que por muitos anos apresentou o seu “Panorama Esportivo” e, em 15 de maio de 2024, o rádio e a radiofonia brasileira perdem um dos seus maiores representantes, no que respeita à cultura, a elegância e ao trato com o vernáculo, âncoras tão necessárias para se fazer um bom rádio. Morre o “Apolinho” ou o “Velho Apolo”, Washington Rodrigues (1936-2024), homem de rádio por mais de sessenta anos. Primeiro como repórter esportivo, passando a comentarista – chegando a ser dirigente e treinador do seu clube esportivo de coração, o Flamengo -, o Apolinho foi ouvido por quem ora escreve estas páginas, desde sua tenra idade, ainda quando ele fazia dupla com Deni Meneses (1939-), formando a dupla que tornou célebre o jargão “Os Trepidantes”. Desde então, o ouviu nos diversos espaços que ocupou no rádio, inclusive o último deles, o de apresentador de programa de variedades e entretenimento – o Show do Apolinho na rádio Tupi por quase 25 anos -, sempre com competência e qualidade de locução e domínio das formas de falar. É assim que o tempo implacável e o câncer, um dos seus principais aliados, vai levando os grandes nomes que atuaram no rádio por todo o tempo de vida deste garatujador, deixando cada vez mais paupérrimo o meio de comunicação que sempre lhe foi por escola: o rádio. Fiquem com a emoção de Luiz Penido, ao anunciar a morte do companheiro e amigo, em plena transmissão do jogo do Flamengo, no Maracanã. https://youtu.be/2IcVH-J_Hjk?si=25p-SdTHguWES7s0 José Jorge Andrade Damasceno – professor Titular na Universidade do Estado da Bahia, lotado no colegiado de História, Campus II, Alagoinhas. E-mail: historiadorbaiano@gmail.com

domingo, 24 de dezembro de 2023

Idos de Dezembro de 2004

Histórias e Memórias do último Dezembro que Mãe e filho Passaram Juntos Era dezembro de 2004 e, as coisas corriam com alguma normalidade, quando se trata de pessoas que não nutriam grandes expectativas natalinas, nem vãs esperanças de um novo ano, como propalavam os reclames comerciais do período. A rua ainda gozava de um relativo sossego e o abuso das músicas em alto volume, ainda não era um problema de respeito aos vizinhos. Embora sempre houvesse quem gostasse de tocar músicas em volumes extremos, isto ocorria em algumas ocasiões, sobretudo, no Natal e Ano Novo, ainda assim, poucos eram os sons tocados em carros, o que tornava um pouco mais suportável. Por volta dos meados do mês, este escrevedor acabara de chegar do Rio de Janeiro, trazendo na bagagem a aprovação par o ingresso do programa de Pós-Graduação da UFF, na turma de doutorado para o ano de 2005, aprovação que coroara de êxito os esforço envidados por este escrevedor, desde o ano de 2000, vendo adiar-se ano a ano, temendo o avanço da idade e a possibilidade nada improvável de lograr inserir-se naquele curso tão bem avaliado. Embora sua mãe pouco ou nada entendesse de todo aquele processo, de todo aquele ir e vir de seleção em seleção, se regozijara deveras com o resultado do filho; este, evidentemente, se regozijara bem mais do regozijo dela, do que do seu resultado, talvez, por ter consciência do que aquela aprovação representava para o curso do seu caminhar acadêmico, bem como da responsabilidade que assumira para si, tanto diante da universidade que o receberia, quanto daquela que o liberaria para realizar a pesquisa e defender a tese, sem os labores docentes em sala de aula. A bem da verdade, já estava no seu horizonte, o que precisaria providenciar para uma ausência de um semestre, pretendendo que aquele período de estada no Rio, não sobrecarregasse aquela senhora prestes a completar setenta anos, pois, sob os seus cuidados, ficariam as tarefas que eles sempre desempenharam juntos, um dividindo com o outro, o peso do farfalhar cotidiano. Isto, já o preocupava sobremaneira. Como já era um hábito, desde que voltou a morar em Alagoinhas, a então consorte era levada com as crianças para Salvador, a fim de passarem com a avó e tios, as festividades de fim de ano, já que, aqui, ele e sua mãe, nunca se importaram com tais festejos, ele por não entender haver qualquer sentido neles; ela por ter tido uma vida de perdas e com os seus parcos recursos financeiros, não pudera ou sequer fizera questão de comemorar tais veleidades comerciais. Logo, mãe e filho ficariam sós em casa, por ocasião dos feriados de final de ano. Com a casa assim esvaziada, mãe e filho se puseram a imaginar o que poderiam elaborar para aquele almoço em que só eles estariam à mesa – sem que ele pudesse nem de longe suspeitar, embora sempre temesse esta hipótese -, que aquele seria o último que passariam juntos aqui na vida terreal. Não eram exigentes; mas ela sabia fazer algumas coisas muitíssimo saborosas. Na sexta-feira, 24, como de costume, saíram por volta das oito da manhã para fazer a feira, onde comprariam o costumeiro feijão mulatinho, a indispensável farinha, algumas frutas e verduras, mangaba para o suco, ovos – que ela sempre comprava nas mãos de uma antiga vizinha -, bem como a galinha de postura, abatida na hora, que ambos, muito apreciavam; depois, entrariam no supermercado, onde comprariam o restante dos produtos e temperos para o preparo dos alimentos; além de café, açúcar, arroz, leite... enfim, o necessário para passar a semana, para além das festividades da ocasião. De volta ao espaço de residência, foi preparado e servido o almoço: talvez tenha sido um fígado, ou mesmo um peixe, que ela temperava com todo o seu esmero de q mãe solícita e cuidadosa. Veio a tarde e, com ela a solidão daqueles dois que não eram movidos por qualquer interesse natalino do modo como era apregoado, comemorado e, até mesmo, pregado pelas Igrejas protestantes, que aliás, embora tenha se separado da Igreja romana por divergências de interpretação das escrituras, não se desvencilhou de suas práticas dogmáticas e tradicionais de natais e coisas que tais; viria mais uma noite sem “Missa do Galo” na Matriz; ou sem “cantata de Natal” na primeira Igreja Batista, ou na Igreja Batista Belém; sem árvores artificiais; sem pisca-piscas; sem quaisquer enfeites nas paredes ou pendentes dos teto; sem quimeras “pais noéis”, nem mesmo para iludir as crianças; sem roupas nem sapatos novos para ostentar; nem presentes – só ausentes: os meninos! -; sem “reunião de família”, inútil e desnecessária, visto que durante todo o ano o que prevalece é a “desunião”; enfim: uma noite como as demais do ano; aliás, diferente, pois em casa eram só os dois – mãe e filho - que se encontravam presentes -; sem músicas alusivas a data – aliás, todas insossas, insípidas, inodoras, sem sentido, desgastadas e, porque não dizer: ineficazes! Portanto, felizmente, passara aquela noite desprovida de qualquer valia prática para a fé de quem quer que creia, pois, o “Natal” além de uma ser uma tradição europeia/ibérica sem o menor valor histórico e cultural para grande parte da população hispano/luso falante, também é um festejo de exclusão social, mediada pela fragilíssima condição econômica daqueles que são desprovidos dos recursos financeiros exigidos para que possa tomar parte dele. Também é cediço que o tal festejo natalino é lastreado no engano – cujo maior exemplo é o já insustentável mito do “Papai Noel”. Deve se salientar, outrossim, que o tal de “Natal”, traz ampla possiblidade da prática aberta e despudorada da mais estúpida hipocrisia. Mas, ela – a noite de 24 - passou e, veio o dia. O que seria pior: a noite de 24, ou todo o dia de 25? A resposta vai depender de quem responde: ou aquele que recebeu todo que pedira – porque, fique claro, havia que pudesse dar – ou daquele que nada recebera – igualmente, pelo motivo contrário: não teve que pudesse dar. E, veio o dia e, com ele, a hora do almoço. Um feijão caprichosamente temperado; uma porção de arroz com passas, temperado com o mesmo capricho e grande esmero; coxa e sobre coxa de uma galinha de postura, assada no forno; salada de verdura; farofa de cenoura: e dois pratos na mesa; apenas duas pessoas assentadas diante deles. Só ela e o seu filho, almoçaram naquele dia 25 de dezembro de 2004. No ano seguinte, só ele estivera àquela mesa, pois ela partira deste mundo, pouco menos de dois meses antes. Ele, até tentara repetir o prato: mas não logrou êxito; as abundantes lágrimas de saudade e de desalento, lhe fizeram companhia àquela cabeceira da mesa em que estivera na companhia dela, apenas um ano antes. Alagoinhas, 24 de dezembro de 2023 – dezenove anos depois dos fatos aqui rapidamente narrados. José Jorge Andrade Damasceno

sexta-feira, 24 de novembro de 2023

CARTA ABERTA - II

Carta aberta a excelentíssima senhora dona Solidão. Prezada senhora: não te desejo saúde, nem te saúdo com qualquer tipo de cumprimento. Para mim, a senhora nem merece o tempo que vou dispender para escrever este arrazoado. Mas, como é preciso falar algumas coisas, então, vamos lá. É certo que já nos conhecemos a um bom número de décadas; é igualmente certo, que já procurei obter da senhora o divórcio inúmeras vezes; e, claro, todas aquelas inúmeras vezes a senhora se recusou a descasar-se de mim. A senhora, é bom que se diga, se casou comigo, evidentemente contra a minha vontade, desde aquele dia que fui expulso do aconchegante ventre da minha mãe e, de lá para cá, venho envidando diversos esforços para me desvencilhar da relação abusiva e tóxica – como está na moda se dizer hoje em dia-, a que tenho sido submetido pela excelentíssima senhora , por todos estes sessenta e dois anos, já vividos até o presente instante. Diversas foram as tentativas feitas por mim para que a senhora me desse um pouco de sossego; para que a senhora desse um tempo e esquecesse de mim; para que a senhora se fosse para bem longe e, de lá nem pensasse em voltar. Procurei brincar de quase todas as brincadeiras que as minhas limitações permitiam: mas, a senhora estava lá, sobretudo, quando parte daquelas brincadeiras não eram compatíveis com os meus faróis intermitentemente apagados. Tentei conversar com as meninas; tentei trocar ideias com os meninos; tentei contar causos e piadas; tentei me enturmar entre os colegas das escolas por onde passei; procurei me envolver nos folguedos e nas festas dos que possuíam a mesma idade que eu; procurei fumar os cigarros badalados de então: - LS, Vila Rica, River, Hollywood, Continental, Callton Minister, Hilton -, para ver se era aceito e encontrava a minha turma, procurando me entrosar em alguma delas: nada feito, tudo em vão. Sempre a senhora se intrometia nos lugares aonde eu ia, frequentava...; Também cantei em bares; neles toquei violão; ali, tomei largos goles de cachaça; bebi cerveja, experimentei vinho; até “Cuba Libre” em um bar no centro da cidade, eu tomei: mas sempre só, em uma mesa que poderiam estar quatro pessoas assentadas, trocando figurinhas, jogando conversa fora e, claro, apreciando a mistura de Montilla com Coca cola e limão! Mas, quem era a minha companhia inseparável, quem não desgrudava de min, nem da minha vida? A senhora, dona Solidão. Muitas vezes fui a festas, visto que diziam: - Ora, você não sai de casa! Pois então: fui a festas; várias festas. Festas no Tênis Clube; festa no Vencedor, festa da Mocidade, Criação de Mário Boa Morte e Tibúrcio, realizada na Praça Maestro Santa Isabel; fui algumas vezes atrás do Trio Elétrico de Valnei; fui em duas micaretas; fui em festas de Natal, garbosamente realizada no largo da Matriz de Santo Antônio; também nas de passagem de ano, tempo em que se armava o parque Cacique. Mas, adivinha quem era a minha companheira constante, permanente, presente sempre em todas aquelas ocasiões? A senhora, dona Solidão. Amigos? Namoradas, que todos tinham em profusão, muitas vezes causando até mesmo confusão? Todos tinham mas, eu não. Bom. Aí, aí veio o tempo do “Segundo Grau” e o tempo da “Igreja”. Nem ali, dona Solidão, a senhora se afastou de mim. Tentei entrar nos grupos; nas patotas; nas “igrejinhas” já consolidadas.... Aí é que a coisa entornou de vez. Não se entra nestes espaços, sem que seja convidado por um de seus líderes; assim mesmo, um tempo de desconfiança e retração é invariavelmente vivido pelo novato, convidado; que dizer do noviço intruso? Mas, a senhora, mesmo não tendo sido convidada nem por mim, nem pelos demais participantes do meio onde se davam as celebrações cúlticas ou as atividades escolares, lá estavas, garbosa e ensimesmada, dona da situação, fazendo com que eu me sentisse ainda mais isolado do que o fio elétrico que, além de ser encapado para segurança dos usuários, corre dentro de dutos, escondidos nas paredes e lajes de um prédio qualquer. Ineludivelmente o tempo passava célere, a idade avançava indiferente a mim e ao teu assédio constante ao meu viver sem ninguém com quem pudesse contar, com até alguns poucos amigos, mas, eles, já tinham as suas obrigações laborais, as suas demandas conjugais, os seus compromissos profissionais que os ocupavam, que deles exigiam energias e atenção. Portanto, não dispondo de tempo para me ouvir as queixas, para me amenizar os temores, para me confortar as dores do celibato compulsório. Mas a senhora, dona Solidão, cá estava, pronta a me enredar em insônias, em mil tentativas de encontrar soluções, quase sempre as mais desencontradas. Nem é preciso dizer que tudo isto acabava fazendo com que eu me angustiasse com os dias velozes que passavam e a minha vida permanecia indefinida, sob todos os aspectos. E a senhora, o que dizia em meu apoio? Nada, pois a senhora nunca tem nada a dizer, para aqueles a quem a senhora se assenhora da vida, dos espaços, dos pensamentos, dos desejos... A sua tirania, dona Solidão, pode ser comparada àquela exercida sobre aqueles que são levados al cadafalso para ser submetido à guilhotina, sem que tenha quem o possa substituir, como o encontrara um dos personagens de Charles Dickens, ao “contar” um dos mais sangrentos momentos da Revolução Francesa. A tirania daquelas multidões enfurecidas e ávidas por sangue, que ansiavam por guilhotinar a tantos quantos pudessem e a tantos quantos classificassem como “traidores”, é a tirania que a senhora exerce sobre aqueles a quem a senhora aprisiona em tuas teias tecidas com os fios da incerteza, arrematando conosco de dúvidas quase insanáveis, de tristezas inconsoláveis, de angústias quase insuportáveis, distribuídos em várias partes da tessitura maldita. Pouco ou nada adiantou para este missivista o fato de ter alcançado alguns patamares na vida acadêmica e profissional, pois, como sempre fora, a senhora não o largara. Ao contrário. Acada vez que ele se encontrava rodeado de alunos, de colegas ou, de alguns poucos amigos.... a senhora lá estava, impávida, incólume, ereta e altiva, sem sequer fazer qualquer esforço para ele não perceber a tua presença incômoda. Só bastava ele ultrapassar o limiar da porta de saída do seu local de trabalho, para a senhora se lhe chegar aos ouvidos para dizer: - Oi, estou por aqui, viu? Mesmo neste Ônibus cheio de estudantes em algazarras juvenis. Quando você descer no ponto do Batalhão e atravessar o asfalto, tomando a direção de casa, o meu silêncio te acompanhará até lá. Fique tranquilo. Conte comigo! Não foi diferente nas minhas andanças por São Lázaro, pelo tempo que cursei o mestrado, pois foi a senhora a minha companhia; nem em Niterói, onde eu passei os mais duros dias do meu viver, onde a saudade dos meus filhos me feria os olhos e a tristeza de estar longe deles me cortava os ossos, era a senhora, dona Solidão que me acompanhava cada passo dado naquela cidade e, mesmo, no Campus do Gragoatá, para onde me dirigia ladeando a Baía de Guanabara para assistir as aulas; lá estava a senhora, andando comigo, falando comigo, dormindo comigo, acordando comigo, morando comigo, assistindo impassiva, quando eu chorava a falta dos meus filhos ainda tenros e frágeis... E o que dizer quando a morte tirou a minha mãe de mim, aliás, a única pessoa que fazia frente à tua insistência em estar sempre comigo? Foi a senhora que, de uma vez por todas, sem a menor cerimônia, sem nenhum pejo ou pudor de quaisquer ordem, se assenhoreou de mim e do meu ser, sem me deixar qualquer chance de te rechaçar, de te rejeitar, de te recusar a indesejada companhia. Agora que já estou velho, cansado de tua presença constante em minha vida, na minha cama, na minha mesa, no meu quarto, no meu almoço e no meu jantar; no meu café e na minha sala de estar, na minha cozinha; no meu escritório de trabalho; no meu escrever, no meu ler, no meu ouvir músicas; que até me impedes de fazer um café fresco para tomar no meio da tarde, já que ninguém há para me fazer companhia, com quem saborear aos goles em meio a uma boa conversa; depois de me teres feito chorar tantas lágrimas quantos anos eu já vivi; depois de me teres angustiado a não mais poder enumerar..., uma vez mais insisto que me quero divorciar da senhora, dona Solidão; quero da senhora, separação incondicional; quero que o destrato seja irrevogável; insisto que quero que a senhora se retire da minha vida e se vá para bem longe; insisto que me deixe viver o que resta dos meus dias, reaparecendo apenas, para me fazer companhia na sepultura, onde, aliás, dona Solidão, eres presença inevitável. Alagoinhas 24 de Novembro de 2023 José Jorge Andrade Damasceno historiadorbaiano@gmail.com

HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DE UM MININUTINHO DE ATENÇÃO

Histórias e Memórias De Um Minutinho de Atenção Já vai bem distante o tempo em que o estádio Antônio Carneiro fora palco de memoráveis eventos esportivos, envolvendo o Atlético de Alagoinhas em seus tempos de jovem equipe de futebol, que enfrentava de igual para igual as agremiações futebolísticas de Salvador, sobretudo, o Esporte Clube Bahia de Osório Vilas Boas e, o Esporte Clube Vitória de Raimundo Rocha Pires, que desde pelo menos a década de 1960, alternavam entre si as posições de campeões e vice-campeões baianos, quase todas as edições da competição no período referido, exceto duas ou três delas, que foram vencidas pelo Fluminense de Feira de Santana e pelo Leônico. De sorte que, tendo chegado à década de 1970 e o Atlético de Alagoinhas, ainda há pouco fundado, fazia frente aquelas duas equipes soteropolitanas, muitas vezes, derrotado, segundo se dizia, pela intervenção da arbitragem. Para este aprendiz de cronista, Um daqueles domingos , talvez de julho ou agosto de 1976, amanhecera como quase todos os outros dos meses anteriores e amanheceria como os que ainda viriam nos meses subsequentes. Levantara-se como de costume, mas, com o propósito de se dirigir ao Carneirão, pois ali se travaria uma partida decisiva para a classificação do Atlético para a disputa do título, caso fosse o vencedor da peleja contra um dos dois sempre campeões ou vice-campeões, como já se salientou. Após o almoço frugal de um filho de mulher do povo, que com o seu trabalho, mal conseguia prover a ração diária da sua prole já desfalcada do seu primogênito, aquele garoto, há pouco entrado nos quinze anos, passou a matutar em uma forma de entrar no estádio, visto que não possuía os recursos para a aquisição do ingresso, nem conhecidos entre aqueles que fariam a conferência dos bilhetes e dariam permissão ao acesso. Aquele rapaz lembrou-se de que poderia se apresentar na portaria da rádio Emissora de Alagoinhas e, junto aos locutores que iria fazer a transmissão da peleja futebolística, quem sabe, o faria ingressar junto com a equipe esportiva. Assim pensando, saiu d final do Dois de julho onde morava e, dirigiu-se até a Rua Dom Pedro II, 117, onde se situava a rádio em questão. Lá estava o pessoal quase de saída e, parando para dar atenção àquele inesperado ouvinte/torcedor, o senhor Celio Machado, então diretor da emissora, autorizou que ele fosse junto com a equipe, com a recomendação de não sair do perímetro das cabines de imprensa. Aquela equipe formada por Lourival de Andrade, Augusto Saraiva, J Batista e Belmiro Deusdete, com J Costa na técnica interna, em uma Chevrolet Veraneio, juntamente com os cabos e demais materiais que seriam utilizados na jornada, levou consigo aquele torcedor insólito, que apenas teria contato com aquela importante partida mediante à audição das transmissões radiofônicas. Porém, àquela altura, a ele isto pouco importava; o que queria era estar ali, no calor humano emanado pela presença daqueles torcedores atentos e aguerridos, incentivando e empurrando o seu time local para a vitória contra o gigante da capital e mais: perto, ao lado, lado a lado com os locutores que só podia ouvir de casa, em um aparelho de rádio. Ali, ele os ouviria, como se diria hoje, “em tempo real”. Mas, uma surpresa lhe estava reservada:: ao ser concluído o primeiro tempo de jogo, ele saiu bisbilhotando as demais cabines de rádio, aliás, todas ocupadas pelas emissoras de Salvador, que faziam transmissões esportivas: Rádio Cultura, Rádio Excelsior, rádio Cruzeiro da Bahia, talvez, já a rádio Clube – a mais nova dentre elas, inaugurada em 1975 – e, a mais conhecida e de maior audiência: a Rádio Sociedade da Bahia, então integrante dos famosos Diários Associados, do lendário Assis Chateaubriand. Naquela cabine em especial, se encontrava para transmitir aquele duelo futebolístico, um locutor que aquele rapazinho já ouvia pelas ondas da rádio Sociedade, espraiadas a partir de seus transmissores, ainda localizados em Água Comprida, nas proximidades de Simões Filho: Antônio Pondé, era aquele locutor, já conhecido dos alagoinhenses mais maduros, mas que este escrevedor só conhecera enquanto locutor esportivo, quando se transferiu para aquela emissora que se proclamava “a mais potente do norte e nordeste”. Como era o intervalo da partida e o microfone estava sendo ocupado por um dos comentaristas, talvez Edson Almeida, dono de uma voz forte, firme e bem empostada, Antônio Pondé, gentilmente, concedeu um minutinho de sua atenção para este escrevedor, apertando-lhe a mão, o que lhe causou uma tão profunda impressão, que, ao ler que a Câmara Municipal de Alagoinhas, inaugurara um comitê de imprensa, colocando nele o seu nome, imediatamente aquele aperto de mão tão breve, singelo e despropositado, veio à memória deste escrevedor.– José Jorge Andrade Damasceno – Alagoinhas – 24 de novembro de 2023. historiadorbaiano@gmail.com

quarta-feira, 22 de novembro de 2023

Carta Aberta - I - Errata

Carta Aberta à Excelentíssima senhora dona Insegurança. Caríssima senhora: cumprimentos acabrunhados. Perdoe se este missivista não sabe ao certo, se a digna senhora é a filha primogênita da dúvida ou, se é a madrasta da incerteza. De qualquer sorte, esta carta aberta é dirigida à sua digníssima pessoa. Talvez tu até já saibas, mas há que se reforçar nesta carta, o fato de que tens sido a causa de inúmeras desgraças de tantos quantos são atormentados pela vossa constante presença em sua vida; qualquer uma das três de vossas senhorias, alimenta os ódios entre as pessoas e os povos, os medos, os temores erráticos ou reais, de maneira a provocar cismas, guerras fratricidas, rompimentos irremediáveis entre amigos, assassinatos de reputações e carreiras, suicídios, feminicídios, homicídios sem conta, devido à semeadura que vossas senhorias provocam e/ou alimentam, fazendo crescer o desejo de não mais abrir-se ao afeto/à fraternidade, à amizade, o medo do fim daquele amor há tanto tempo desejado/esperado, o temor de perdas irreparáveis de relações a tanto custo construídas, provocando o fechamento do coração para a crença nas pessoas. Em outro campo, as vossas presenças acabam oferecendo os álibis os mais diversos e as mais desatinadas desculpas/justificativas – sempre injustificáveis, saliente-se -, para o cometimento de inúmeros crimes hediondos. Doutra sorte, algumas vezes, as senhoras provocam abatimentos profundos e até fazem correr lágrimas quentes e sentidas, tão copiosas quanto dolorosas, uma vez que alguns elementos inerentes ao modo de ser de vossas senhorias, produzem na pessoa acometida pela vossa presença, um forte sentimento de perda – quase sempre infundado, mas que a pessoa atingido não tem “certeza” de o ser -, que o leva a pensar ter de fato perdido, sobretudo, a pessoa a quem ama. O resultado disto, senhoras, é um misto de tristeza e sensação de derrota iminente, quando não, já consumada, de suas pretensões de felicidade e paz. Muitas vezes, caras senhoras, uma palavra quase despropositada, um elogio inconsequente dirigido a outrem, desencadeia a tempestade emocional naquele sobre quem as senhoras insistem em atuar, ensejando um forte mal-estar, forçando ao que é atingido pela presença de vossas senhorias, a buscar forças onde quase não as tem, para evitar um abalo sísmico de grande potencial destruidor, ou para não sucumbir ao peso dos efeitos deletérios inerentes à tais situações. Isto posto, esta missiva dirigida a vossa senhoria, que certamente tem algum controle sobre as outras duas senhoras, vem solicitar que tenha a gentileza de se retirar da presença deste signatário, pois, os danos que a ele foram causados por toda a sua existência, não podem ser mensurados, visto que, como a senhora está farta de saber, ele viveu um sem-número de situações e circunstâncias provocadas pela insistente presença de vossas senhorias em sua vida, desde mesma a sua mais tenra idade. A senhora, dona Insegurança, sabe bem o mal que tem produzido ao longo do percurso deste missivista, razão pela qual ele te escreve esta epístola, solicitando retirada incondicional das trincheiras que a senhora e as tuas outras companheiras construíram e ocuparam altivamente por todo este tempo. Certo de que esta missiva será lida pela senhora e pelas vossas sequazes, que será tomada na devida conta e, que será acatada a solicitação acima exposta, subscreve-se, atenciosamente: Este E Todo Aquele Que Se Sinta Atingido Pela Altiva Presença da Excelentíssima Senhora.

Carta Aberta - I

Carta Aberta à Excelentíssima senhora dona Insegurança. CISTÓRIAS E MEMÓRIAS DE UMA AMIZADE – Parte II – Repentinamente: um hóspede. Transcorria normalmente u uma já distante tarde de dezembro do último ano do século XX. Como de costume, em um início de dezembro, dormia-se tranquilamente o sono vespertino, quando se ouve a voz de alguém anunciando correspondência. Tendo levantado para atender ao carteiro, recebe-se um pacote que havia sido encaminhado para atender ao edital de seleção para ingresso no programa de Pós-graduação, cujo prazo para aquele tipo de envio fora rigorosamente cumprido pelo candidato. , Entre aturdido e incrédulo com o que se lhe apresentava naquele instante, aquele senhor, que ainda mal acabara de acordar, recebera o pacote na condição de devolução, sem atentar para o que houvera feito de errado no processo de subscrição da encomenda, para que, ao invés de ser entregue ao destinatário na cidade de Niterói, estivesse ali, em suas mãos, o que implicaria na perda do prazo para a concretização da inscrição, se tentasse efetivar um reenvio. Sem atinar bem no que poderia fazer para reverter aquela situação, afigurou-se lhe uma ideia, que, em princípio pareceu despropositada, visto que implicaria em pedir apoio a uma pessoa residente no Rio de Janeiro, com a qual já trocava algumas correspondências e ideias, mas, sem ainda ter havido quaisquer contatos de ordem real entre eles. Tratava-se de Maurício Zeni, de quem este escrevedor já havia lido e apreciado o projeto recentemente aprovado para ingresso no curso doutoral; com quem já permutava correspondências eletrônicas com alguma frequência; com quem discutira um pouco, o seu próprio projeto que inscreveria para a seleção daquele ano e, que agora tinha de volta em suas mãos. Depois de alguma ponderação de si para consigo, pegara o telefone e, logo às primeiras palavras com as quais explicara o motivo daquela ligação, Maurício, sem qualquer hesitação, aceita receber aquele desconhecido em sua residência, para que ele não perdesse a oportunidade de ao menos, submeter aquele projeto ao crivo da banca examinadora. Ato contínuo, fez-se a compra da passagem para o Rio de Janeiro, para o dia seguinte, prazo final da inscrição presencial ,e igualmente foram tomadas as providências que permitissem chegar ao aeroporto de Salvador, a fim de embarcar pela Vasp, com o fito de realizar aquela viagem emergencial. O taxista que faria o transporte terrestre era Seu Nadinho, um fervoroso torcedor do Bahia, que com o seu Ford Del Rei, passou na residência do cliente as três horas da madrugada e o deixara as cinco no Balcão de embarque. Este escrevente tendo partido direto do aeroporto rumo a Universidade Federal Fluminense, campus do Gragoatá, em Niterói, levando consigo o pacote devolvido no dia anterior, pode realizar a sua inscrição em tempo hábil, entrando assim, no grupo daqueles que teriam as suas propostas avaliadas. Mas, aquele candidato, por razoes de logística, precisaria permanecer no Rio de Janeiro, até, pelo menos, obter o resultado da primeira parte da avaliação, o que se daria dali a pouco mais ou menos dez dias. Desta forma, o casal Maurício Zeni e Sônia Lucas, acabariam por receber em seu espaço de convivência conjugal, um hospede inesperado para uma estada não programada. Ao concluir o procedimento de inscrição e entrega do material, foi pedido que entrasse em contato com os anfitriões que, muito rápida e solicitamente, atenderam e se dispuseram a encontrar aquele forasteiro em Niterói e o conduzir até a residência em que viviam, na Tijuca. Lá, entre muitas conversas, aprendizados e largas gargalhadas, este escrevente aguardou a desclassificação de sua proposta de pesquisa, que, ainda assim, não ofuscou os excelentes momentos passados com aquele casal que acabara de conhecer pessoalmente. E, será que tem música? Claro! Por que não haveria? E, serão duas. Como todo bom cego, há sempre um rádio em suas mãos ou no pé dos seus ouvidos. Como não poderia deixar de ser, quando não estava em conversas com o casal, o rádio era o companheiro inseparável. Foi em uma daquelas audições radiofônicas, que este ouvinte teve o primeiro contato com a música de Zeca Pagodinho, Caviar, que o impressionara bastante. https://youtu.be/eFQCPE9uDy0?si=1q8pYbromrbNTQr4 Naquela mesma época, o filme Titanic fora exibido na televisão e, este hóspede inesperado, fora convidado pelo casal para acompanhar aquela exibição juntos. É verdade que o hóspede dormira quase todo o tempo de duração do filme..., mas, estava ali, com o casal, que assistira, aliás, atentamente. A sua música tema tocava em quase todas as emissoras FM, cujo seguimento era voltado para músicas “românticas”. https://youtu.be/F2RnxZnubCM?si=KcxwlELH2aeRaPBf Embora este escrevente tenha retornado triste pela reprovação de sua proposta de pesquisa para ingresso no programa de Pós-Graduação da UFF, naquele ano – e em mais três subsequentes, até ingressar na edição de 2005 -, a alegria de ter estado com Maurício Zeni, que se tornaria um grande amigo com quem este tagarela contaria outras muitas vezes, ficou como o grande ganho daquela primeira viagem ao Rio de Janeiro, depois de dez anos, quando ali esteve para conhecer uma jovem da região do vale do Aço, de que já se falou neste mesmo espaço. José Jorge Andrade Damasceno – 17 de novembro de 2023 historiadorbaiano@gmail.com Carta Aberta à Excelentíssima senhora dona Insegurança. Caríssima senhora: cumprimentos acabrunhados. Perdoe se este missivista não sabe ao certo, se a digna senhora é a filha primogênita da dúvida ou, se é a madrasta da incerteza. De qualquer sorte, esta carta aberta é dirigida à sua digníssima pessoa. Talvez tu até já saibas, mas há que se reforçar nesta carta, o fato de que tens sido a causa de inúmeras desgraças de tantos quantos são atormentados pela vossa constante presença em sua vida; qualquer uma das três de vossas senhorias, alimenta os ódios entre as pessoas e os povos, os medos, os temores erráticos ou reais, de maneira a provocar cismas, guerras fratricidas, rompimentos irremediáveis entre amigos, assassinatos de reputações e carreiras, suicídios, feminicídios, homicídios sem conta, devido à semeadura que vossas senhorias provocam e/ou alimentam, fazendo crescer o desejo de não mais abrir-se ao afeto/à fraternidade, à amizade, o medo do fim daquele amor há tanto tempo desejado/esperado, o temor de perdas irreparáveis de relações a tanto custo construídas, provocando o fechamento do coração para a crença nas pessoas. Em outro campo, as vossas presenças acabam oferecendo os álibis os mais diversos e as mais desatinadas desculpas/justificativas – sempre injustificáveis, saliente-se -, para o cometimento de inúmeros crimes hediondos. Doutra sorte, algumas vezes, as senhoras provocam abatimentos profundos e até fazem correr lágrimas quentes e sentidas, tão copiosas quanto dolorosas, uma vez que alguns elementos inerentes ao modo de ser de vossas senhorias, produzem na pessoa acometida pela vossa presença, um forte sentimento de perda – quase sempre infundado, mas que a pessoa atingido não tem “certeza” de o ser -, que o leva a pensar ter de fato perdido, sobretudo, a pessoa a quem ama. O resultado disto, senhoras, é um misto de tristeza e sensação de derrota iminente, quando não, já consumada, de suas pretensões de felicidade e paz. Muitas vezes, caras senhoras, uma palavra quase despropositada, um elogio inconsequente dirigido a outrem, desencadeia a tempestade emocional naquele sobre quem as senhoras insistem em atuar, ensejando um forte mal-estar, forçando ao que é atingido pela presença de vossas senhorias, a buscar forças onde quase não as tem, para evitar um abalo sísmico de grande potencial destruidor, ou para não sucumbir ao peso dos efeitos deletérios inerentes à tais situações. Isto posto, esta missiva dirigida a vossa senhoria, que certamente tem algum controle sobre as outras duas senhoras, vem solicitar que tenha a gentileza de se retirar da presença deste signatário, pois, os danos que a ele foram causados por toda a sua existência, não podem ser mensurados, visto que, como a senhora está farta de saber, ele viveu um sem-número de situações e circunstâncias provocadas pela insistente presença de vossas senhorias em sua vida, desde mesma a sua mais tenra idade. A senhora, dona Insegurança, sabe bem o mal que tem produzido ao longo do percurso deste missivista, razão pela qual ele te escreve esta epístola, solicitando retirada incondicional das trincheiras que a senhora e as tuas outras companheiras construíram e ocuparam altivamente por todo este tempo. Certo de que esta missiva será lida pela senhora e pelas vossas sequazes, que será tomada na devida conta e, que será acatada a solicitação acima exposta, subscreve-se, atenciosamente: Este E Todo Aquele Que Se Sinta Atingido Pela Altiva Presença da Excelentíssima Senhora. historiadorbaiano@gmail.com

sexta-feira, 17 de novembro de 2023

HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DE UMA AMIZADE - PARTE II

HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DE UMA AMIZADE – Parte II – HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DE UMA AMIZADE – Parte II – Repentinamente: um hóspede. Transcorria normalmente u uma já distante tarde de dezembro do último ano do século XX. Como de costume, em um início de dezembro, dormia-se tranquilamente o sono vespertino, quando se ouve a voz de alguém anunciando correspondência. Tendo levantado para atender ao carteiro, recebe-se um pacote que havia sido encaminhado para atender ao edital de seleção para ingresso no programa de Pós-graduação, cujo prazo para aquele tipo de envio fora rigorosamente cumprido pelo candidato. , Entre aturdido e incrédulo com o que se lhe apresentava naquele instante, aquele senhor, que ainda mal acabara de acordar, recebera o pacote na condição de devolução, sem atentar para o que houvera feito de errado no processo de subscrição da encomenda, para que, ao invés de ser entregue ao destinatário na cidade de Niterói, estivesse ali, em suas mãos, o que implicaria na perda do prazo para a concretização da inscrição, se tentasse efetivar um reenvio. Sem atinar bem no que poderia fazer para reverter aquela situação, afigurou-se lhe uma ideia, que, em princípio pareceu despropositada, visto que implicaria em pedir apoio a uma pessoa residente no Rio de Janeiro, com a qual já trocava algumas correspondências e ideias, mas, sem ainda ter havido quaisquer contatos de ordem real entre eles. Tratava-se de Maurício Zeni, de quem este escrevedor já havia lido e apreciado o projeto recentemente aprovado para ingresso no curso doutoral; com quem já permutava correspondências eletrônicas com alguma frequência; com quem discutira um pouco, o seu próprio projeto que inscreveria para a seleção daquele ano e, que agora tinha de volta em suas mãos. Depois de alguma ponderação de si para consigo, pegara o telefone e, logo às primeiras palavras com as quais explicara o motivo daquela ligação, Maurício, sem qualquer hesitação, aceita receber aquele desconhecido em sua residência, para que ele não perdesse a oportunidade de ao menos, submeter aquele projeto ao crivo da banca examinadora. Ato contínuo, fez-se a compra da passagem para o Rio de Janeiro, para o dia seguinte, prazo final da inscrição presencial ,e igualmente foram tomadas as providências que permitissem chegar ao aeroporto de Salvador, a fim de embarcar pela Vasp, com o fito de realizar aquela viagem emergencial. O taxista que faria o transporte terrestre era Seu Nadinho, um fervoroso torcedor do Bahia, que com o seu Ford Del Rei, passou na residência do cliente as três horas da madrugada e o deixara as cinco no Balcão de embarque. Este escrevente tendo partido direto do aeroporto rumo a Universidade Federal Fluminense, campus do Gragoatá, em Niterói, levando consigo o pacote devolvido no dia anterior, pode realizar a sua inscrição em tempo hábil, entrando assim, no grupo daqueles que teriam as suas propostas avaliadas. Mas, aquele candidato, por razoes de logística, precisaria permanecer no Rio de Janeiro, até, pelo menos, obter o resultado da primeira parte da avaliação, o que se daria dali a pouco mais ou menos dez dias. Desta forma, o casal Maurício Zeni e Sônia Lucas, acabariam por receber em seu espaço de convivência conjugal, um hospede inesperado para uma estada não programada. Ao concluir o procedimento de inscrição e entrega do material, foi pedido que entrasse em contato com os anfitriões que, muito rápida e solicitamente, atenderam e se dispuseram a encontrar aquele forasteiro em Niterói e o conduzir até a residência em que viviam, na Tijuca. Lá, entre muitas conversas, aprendizados e largas gargalhadas, este escrevente aguardou a desclassificação de sua proposta de pesquisa, que, ainda assim, não ofuscou os excelentes momentos passados com aquele casal que acabara de conhecer pessoalmente. E, será que tem música? Claro! Por que não haveria? E, serão duas. Como todo bom cego, há sempre um rádio em suas mãos ou no pé dos seus ouvidos. Como não poderia deixar de ser, quando não estava em conversas com o casal, o rádio era o companheiro inseparável. Foi em uma daquelas audições radiofônicas, que este ouvinte teve o primeiro contato com a música de Zeca Pagodinho, Caviar, que o impressionara bastante. https://youtu.be/eFQCPE9uDy0?si=1q8pYbromrbNTQr4 Naquela mesma época, o filme Titanic fora exibido na televisão e, este hóspede inesperado, fora convidado pelo casal para acompanhar aquela exibição juntos. É verdade que o hóspede dormira quase todo o tempo de duração do filme..., mas, estava ali, com o casal, que assistira, aliás, atentamente. A sua música tema tocava em quase todas as emissoras FM, cujo seguimento era voltado para músicas “românticas”. https://youtu.be/F2RnxZnubCM?si=KcxwlELH2aeRaPBf Embora este escrevente tenha retornado triste pela reprovação de sua proposta de pesquisa para ingresso no programa de Pós-Graduação da UFF, naquele ano – e em mais três subsequentes, até ingressar na edição de 2005 -, a alegria de ter estado com Maurício Zeni, que se tornaria um grande amigo com quem este tagarela contaria outras muitas vezes, ficou como o grande ganho daquela primeira viagem ao Rio de Janeiro, depois de dez anos, quando ali esteve para conhecer uma jovem da região do vale do Aço, de que já se falou neste mesmo espaço. José Jorge Andrade Damasceno – 17 de novembro de 2023 historiadorbaiano@gmail.com Repentinamente: um hóspede.

 

Transcorria normalmente u uma já distante tarde de dezembro do último ano do século XX. Como de costume, em um início de dezembro, dormia-se tranquilamente o sono vespertino, quando se ouve a voz de alguém anunciando correspondência. Tendo levantado para atender ao carteiro, recebe-se um pacote que havia sido encaminhado para atender ao edital de seleção para ingresso no programa de Pós-graduação, cujo prazo para aquele tipo de envio fora rigorosamente cumprido pelo candidato. , Entre aturdido e incrédulo com o que se lhe apresentava naquele instante, aquele senhor, que ainda mal acabara de acordar, recebera o pacote na condição de devolução, sem atentar para o que houvera feito de errado no processo de subscrição da encomenda, para que, ao invés de ser entregue ao destinatário na cidade de Niterói, estivesse ali, em suas mãos, o que implicaria na perda do prazo para a concretização da inscrição, se tentasse efetivar um reenvio.

Sem atinar bem no que poderia fazer para reverter aquela situação, afigurou-se lhe  uma ideia, que, em princípio pareceu despropositada, visto que implicaria em pedir apoio a uma pessoa residente no Rio de Janeiro, com a qual já trocava algumas correspondências e ideias, mas, sem ainda ter havido quaisquer contatos de ordem real entre eles. Tratava-se de Maurício Zeni, de quem este escrevedor já havia lido e apreciado o projeto recentemente aprovado para ingresso no curso doutoral; com quem já permutava correspondências eletrônicas com alguma frequência; com quem discutira um pouco, o seu próprio projeto que inscreveria para a seleção daquele ano e, que agora tinha de volta em suas mãos.

Depois de alguma ponderação de si para consigo, pegara o telefone e, logo às primeiras palavras com as quais explicara o motivo daquela ligação, Maurício, sem qualquer hesitação, aceita receber aquele desconhecido em sua residência, para que ele não perdesse a oportunidade de ao menos, submeter aquele projeto ao crivo da banca examinadora.

Ato contínuo, fez-se a compra da passagem para o Rio de Janeiro, para o dia seguinte, prazo final da inscrição presencial ,e igualmente foram tomadas as providências que permitissem chegar ao aeroporto de Salvador, a fim de embarcar pela Vasp, com o fito de realizar aquela viagem emergencial. O taxista que faria o transporte terrestre era Seu Nadinho, um fervoroso torcedor do Bahia, que com o seu Ford Del Rei, passou na residência do cliente as três horas da madrugada e o deixara as cinco no Balcão de embarque.

Este escrevente tendo partido direto do aeroporto rumo para a Universidade Federal Fluminense, campus do Gragoatá, em  Niterói, levando consigo o pacote devolvido no dia anterior, pode realizar a sua inscrição em tempo hábil, entrando assim, no grupo daqueles que teriam as suas propostas avaliadas.

Mas, aquele candidato, por razoes de logística, precisaria permanecer no Rio de Janeiro, até, pelo menos, obter o resultado da primeira parte da avaliação, o que se daria dali a pouco mais ou menos dez dias. Desta forma, o casal Maurício Zeni e Sônia Lucas, acabariam por receber em seu espaço de convivência conjugal, um hospede inesperado para uma estada não programada.

Ao concluir o procedimento de inscrição e entrega do material, foi pedido que entrasse em contato com os anfitriões que, muito rápida e solicitamente, atenderam e se dispuseram a encontrar aquele forasteiro em Niterói e o conduzir até a residência em que viviam, na Tijuca.

Lá, entre muitas conversas, aprendizados e largas gargalhadas, este escrevente aguardou a desclassificação de sua proposta de pesquisa, que, ainda assim, não ofuscou os excelentes momentos passados com aquele casal que acabara de conhecer pessoalmente.

E, será que tem música? Claro! Por que não haveria? E, serão duas. Como todo bom cego, há sempre um rádio em suas mãos ou no pé dos seus ouvidos. Como não poderia deixar de ser, quando não estava em conversas com o casal, o rádio era o companheiro inseparável. Foi em uma daquelas audições radiofônicas, que este ouvinte teve o primeiro contato com a música de Zeca Pagodinho, Caviar, que o impressionara bastante.

https://youtu.be/eFQCPE9uDy0?si=1q8pYbromrbNTQr4

 

Naquela mesma época, o filme Titanic fora exibido na televisão e, este hóspede inesperado, fora convidado pelo casal para acompanhar aquela exibição juntos. É verdade que o hóspede dormira quase todo o tempo de duração do filme..., mas, estava ali, com o casal, que assistira, aliás, atentamente. A sua música tema tocava em quase todas as emissoras FM, cujo seguimento era voltado para músicas “românticas”.

 

https://youtu.be/F2RnxZnubCM?si=KcxwlELH2aeRaPBf

 

Embora este escrevente tenha retornado triste pela reprovação de sua proposta de pesquisa para ingresso no programa de Pós-Graduação da UFF, naquele ano – e em mais três subsequentes, até ingressar na edição de 2005 -, a alegria de ter estado com Maurício Zeni, que se tornaria um grande amigo  com quem este tagarela contaria outras muitas vezes, ficou como o grande ganho daquela primeira viagem ao Rio de Janeiro, depois de dez anos, quando ali esteve para conhecer uma jovem da região do vale do Aço, de que já se falou neste mesmo espaço.

 

José Jorge Andrade Damasceno – 17 de novembro de 2023

 

historiadorbaiano@gmail.com