segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

Um escrevedor volta a falar de memória musical XII

Um escrevedor volta a falar de memória musical XII: o começo da caminhada – primeiro

semestre de 1980 – A Primeira Igreja Batista de Alagoinhas – As músicas de conjunto e os Hinos Avulsos.

 

A memória coletiva é um terreno deveras fértil e variado, nela podendo ser encontrados muitos registros que um indivíduo dado não guardou e que um outro trás de volta ao rememorar. Considerando-se a postagem anterior, ocasião em que se trouxe alguns registros relacionados aos solos individuais de pelo menos três pessoas que integravam a Primeira Igreja Batista de Alagoinhas no período aqui aludido – Isauri, Maria Rita Borges e José Santana -, um leitor atento deste espaço, embora tenha preferido manter-se no anonimato, ele  chamou a atenção deste escrevedor com respeito ao dueto formado pela irmã Isauri Moreira e o seu esposo, o irmão Cassimiro – in memoriam -, pois muitas vezes eles tomaram parte no desenvolvimento do culto – sendo ele um dos músicos da igreja, executando o seu velho Harmônio.

Acredita-se pertinente salientar de passagem, que este garatujador algumas vezes também cantou solos à capela, embora não fosse comum. Quase sempre era chamado para o fazer sem aviso prévio – portanto, sem se fazer acompanhar do seu inseparável violão -, lançando mão então unicamente do recursos vocal . \Lembra-se ele de ter cantado várias vezes

“Oh quando o momento chegar/De eu ir com Jesus habitar; em paz eu verei meu Senhor/em todo o seu resplendor.

“Em Cristo há perfeito perdão/Há nele real salvação; há nele também esta paz/que agora me satisfaz;

- “paz, paz/Sim paz/ hei de gozar a final; quando eu com Jesus me encontrar/no Reino celestial”

Este hino foi aprendido a partir das audições do disco de Luiz de Carvalho “Obra Santa”, em uma cansada radiola, na casa da irmã Alzira Moreira, carinhosamente conhecida por todos como “Irmã Dinha”, já de saudosa memória.

Luiz de Carvalho – quando o Momento Chegar – gravação de 1969.

 

https://youtu.be/eY4HgTiTyyk

 

Um outro hino avulso que este escrevedor tivera contato no comecinho de sua caminhada Cristã, foi “O Mundo há de Saber”, então interpretado por um grupo de jovens paulistas denominado “Os Ligados”, mas que chegou aos ouvidos deste que ora escreve este arrazoado, a partir da interpretação do conjunto musical da Primeira Igreja, o “Som Celeste”, já aludido em postagens anteriores, sob a regência e liderança de Edileusa Fonseca da Silva.

 

Os Ligados – O Mundo há de Saber

 

https://youtu.be/llyDJUlcNWE

 

Foi ainda através das participações do “Som Celeste” que se pôde tomar contato com algumas das excelentes produções de “Vencedores por Cristo”, como o hino linkado abaixo. Convém salientar que este escrevedor não conhecia a origens dos hinos interpretados pelo grupo musical em apreço.

Vencedores por Cristo – Volte à Vida – gravação de 1973

 

https://youtu.be/-Y9eElsg40w

 

Conforme já se aludiu em outros arrazoados, tudo era novo para aquele recém-chegado na Primeira Igreja Batista de Alagoinhas. “Hinetos”, “corinhos” e “hinos avulsos” se lhe soava estranho aos ouvidos ainda não familiarizado com aqueles vocábulos que, em síntese, queria dizer simplesmente que eram as músicas cantadas no transcurso do culto, que não estavam inseridas no “Cantor Cristão”, uma espécie de “livrinho” com os “hinos congregacionais”, que deveriam ser executados e cantados por toda a Igreja. Os “avulsos”, eram aqueles que estavam surgindo e caindo no gosto dos jovens – sobretudo -, mas também da liderança, o que acabava por induzir o restante do público.

Naqueles inícios dos anos 1980, com as comunicações ainda pouco ágeis, se destacava o grupo “Vencedores por Cristo” – entre outros, como Jovens da Verdade, os Ligados -, no que respeita à produção musical moderna e brasileira, que viria a substituir pouco a pouco a hinódia tradicional norte-americana, sobretudo, do Sul dos Estados Unidos da América do Norte. Para tanto, os “hinetos” eram introduzidos paulatinamente na “ordem do culto” e cantados várias vezes e em vários momentos da liturgia, para que fosse aprendido e apreendido pelos crentes.

No curso de quase dois anos que este escrevente permaneceu como partícipe daquela igreja, foram diversos os hinos que foram pacientemente ensinados à congregação. Alguns deles eram entoados com grande entusiasmo, sobretudo, nas manhãs de domingo, no momento imediato à escola dominical, que antecedia o “sermão” do pastor da igreja. Entre eles, seguem alguns, ao menos aqueles que mais marcaram a caminhada hinológica de quem ora escreve.

O primeiro e talvez o mais vibrante deles, fora dos primeiros que ouvira nos seus primeiros passos de “fé cristã”; era uma espécie de apologia “à volta de Jesus”, pregação muito presente nos sermões e hinos daquele princípio de década. Aqui foram colocados links a duas das versões que este escrevedor mais aprecia do “hinetos” “O Rei Está Voltando”. A primeira é com Feliciano Amaral, a que mais se aproxima do modo como era cantado na Primeira Igreja; a segunda,  mais recente, é uma interpretação de Luiz de Carvalho, feita com um coro e uma orquestra primorosos.

O Rei Está Voltando – Feliciano Amaral – gravação de 1974.

 

 https://youtu.be/V9iL5d0pYpM

 

O Rei Está Voltando – Luiz de Carvalho - gravação de 2001

 

https://youtu.be/Vu1vZo80-kA

 

Para concluir estas considerações, segue uma série de links para alguns dos corinhos mais cantados e apreciados por todos quantos viveram aquele momento ímpar da fé Cristã, entre os Batistas alagoinhenses.

Vencedores Por Cristo – Meu Coração – gravação de 1975

 

https://youtu.be/UPjibJjd9ME

 

Vencedores por Cristo – Hosana – gravação de 1975

 

https://youtu.be/H8-WxiemJLI

 

Vencedores por Cristo – Exaltar-te-ei / Levantai ó portas – gravação de 1975

 

https://youtu.be/XY51TAxZoK0

 

Johmara – Vai Abalar – gravação de 1982

 

https://youtu.be/tosgSg4iXhA

 

Era contagiante o entusiasmo com que o Pastor Jessé conduzia a igreja na entoação destes e outros hinetos do tipo

 

José Jorge Andrade Damasceno

– 10 de janeiro de 2022 

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Um Escrevedor volta a falar de memória musical XI

Um escrevedor volta a falar de memória musical XI: o começo da caminhada – primeiro semestre de 1980 – A Primeira Igreja Batista de Alagoinhas – Os “solos” “à capela” de Maria Rita, Isauri Moreira e José Santana.

 

Neste ponto do rememorar, faz-se necessário salientar que, ao passar a fazer parte de um determinado grupo social, cuja base de sustentação está fincada em um sistema religioso - conjunto das instituições econômicas, morais, políticas de uma sociedade a que os indivíduos se subordinam - diferente daquele em que transitara até então, é preciso reconstruir uma parte do pensar/falar, desenvolver uma nova maneira de compreender palavras novas e/ou incorporar entendimento diverso daquele que se possuía do vocabulário de seu domínio, bem como de sua utilização. Outrossim, fazia-se premente apreender e compreender os elementos constitutivos do constructo filosófico embutido nas novas práticas, falas e formas de pensar que o compõe. Tal entendimento não se fez senão com o passar do tempo e  com o acúmulo das experiências vividas no contexto em que fora inserido, na medida em que as percepções eram apreendidas e as reflexões eram desenvolvidas. Os traços mais relevantes se consolidaram como impressões indeléveis que ficaram gravadas no espírito de quem lembra, marcados pelo processo de inscrição de signos do vivido, em um dado transcurso de tempo. Conforme o postulado de Maurice Halbwachs (1877-1945), ”[...]: a lembrança é em larga medida uma reconstrução do passado com a ajuda de dados emprestados do presente, e além disso, preparada por outras reconstruções feitas em épocas anteriores e de onde a imagem de outrora manifestou-se já bem alterada. [...]” (HALBWACHS, 1990, p. 71). Esta é a premissa que tem norteado este conjunto de textos quem vem sendo escritos com o fito de trazer à lume algumas das reminiscências de um viver já pretérito.

Aqui, em primeiro lugar, se quer destacar para fins ilustrativos, os usos da palavra “solo”, para além dos significados que o “novo convertido” conhecia até a sua inserção entre as pessoas que professavam a Cristo, em uma igreja Batista. A acepção primeva que este escrevedor conhecia, obviamente, era a relacionada ao lugar em que se pisa, se planta, se vive – “[...]      conjunto das acumulações de partículas sólidas que constituem a crosta terrestre, desde os profundos depósitos geológicos até as camadas de superfície [...]” -, além das acepções poéticas indicativas de “solo pátrio”, sem falar daquelas relacionadas à biologia e à geografia, que são ensinadas/aprendidas nos livros e nas escolas. Recorrendo ao dicionário, são encontradas outras acepções da palavra solo, desta feita,  no campo da música, por exemplo, algumas das quais também eram suas conhecidas, mas, sempre relacionadas à execução instrumental. Diz assim o dicionário Houaiss da língua portuguesa, trazendo uma acepção utilizada a partir de 1720:

“[...] passagem ou trecho musical para ser executado por um só instrumento ou uma só voz, com acompanhamento ou não, em conjunto coral ou orquestral”.

“[...]diz-se de instrumento musical ou cantor que se apresenta solando; solista.

“[...] realizado, desempenhado, tocado, executado etc. por uma pessoa apenas [...]”.

 

Como exemplos do postulado acima, se poderia elencar os solos que este escrevente escutara pela vez primeva naqueles já distantes anos de sua vivência na Primeira Igreja Batista de Alagoinhas, por meio de vozes como as de Maria Rita Borges, Isauri Moreira, dentre outras, que em geral, executavam os seus solos “à Capela”. Aliás, uma outra expressão que causou estranheza ao recém-chegado, pois para ele, a palavra “capela” tinha uma conotação diferente daquela empregada no linguajar musical que circulava no seio dos Batistas de então.

Abaixo o link para três hinos que ilustram bem o que acima fora postulado. Cabe salientar de passagem que, em geral, os “solos” eram executados “à capela” por algumas razões. Uma era que, quase sempre os jovens que tocavam os instrumentos que então eram heterodoxos na liturgia, ou não conheciam os hinos ou não gostavam dos tipos de hinos que as senhoras e os irmãos um pouco mais maduros gostavam de cantar, indicando uma certa má vontade com aquela geração que estava sendo sucedida por eles. Uma outra razão que se poderia apontar é que se tratava de músicas inseridas no Cantor Cristão e, que por conseguinte, deveriam ser executadas por musicistas que tocassem os instrumentos classicamente usados no espaço de culto. Talvez aqui se pudesse apontar mais uma razão para aquela geração, considerada em vias de sucessão pelos jovens instrumentistas, preferirem executar os seus “solos” “á capela”. Talvez se possa dizer que eles apresentavam uma resistência velada àqueles novos instrumentos que “invadiam” o espaço de culto, passando inexoravelmente a fazer parte da liturgia cúlticas. Daí talvez se poder inferir que, ao cantar os seus hinos preferidos sem quaisquer acompanhamentos instrumentais, pudessem se fazer entender melhor, evitando aqueles sons que lhes soavam mal aos ouvidos, cuja educação musical ainda era clássica e tradicional.

 

Compensa servir A Jesus – Arautos do Rei.

 

 

 

https://youtu.be/5hPeSJsjwq0

 

Mensagem real –

 

 https://youtu.be/cY_m7LPQ1Lg

 

Ao Meu Redor – Luiz de Carvalho

 

https://youtu.be/_7r_ESMvAeA

 

05 de janeiro de 2022.

José Jorge Andrade Damasceno

Alagoinhas - Bahia 

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Um escrevedor volta a falar de memória musical – X: o começo da caminhada – primeiro semestre de 1980 – A Primeira Igreja Batista de Alagoinhas e as primeiras músicas evangélicas – Parte III.

 

Conforme se tem arrazoado até aqui, os primeiros seis meses transcorridos daquele ano de 1980 descritos nas postagens anteriores, foram bastante movimentados em termos de fatos vivenciados e de lições aprendidas, bem como de experiências apreendidas, no sentido de pavimentar a estrada por onde se desenvolvera o  novo caminhar deste escrevente. Muitas daquelas experiências permaneceram em seu rememorar; algumas com bastante clareza; outras, com pequenos lampejos de indefinidas construções, dificultando a elaboração e/ou a reelaboração de alguns de seus elementos mais vívidos, que permitam uma reconstrução ressignificada, fique claro, por meio do “rememorar” aqui intentado, malgrado o esforço envidado para que aquelas indefinições se apresentassem com alguma congruência. É neste sentido que gostaria de inserir uma formulação feita Por Jacques Le Goff (1924-2014), que ajuda a compreender o trabalho da memória na elaboração de um rememorar que se pretende estabelecer como parâmetro para trazer à lume, algumas evidências de um passado vivido, em algum lugar dado. Diz o medievalista francês que “A memória, como propriedade de conservar certas informações, remete-nos em primeiro lugar a um conjunto de funções  psíquicas, graças às quais o homem pode atualizar impressões  ou informações passadas, ou que ele representa como passadas”. (LE GOFF, 1996, p. 423).

Portanto, é assim que a “memória” se apresenta, quando evocada por quem rememora alguma coisa, algum nome, alguma sensação, algum cheiro de infância, de livro novo, de disco, revista; ou de algum som pouco ou bem definido, alguma música, algum evento, visto que tal se apresenta como fragmentos de realidades vividas por quem lembra – ou é lembrado. Também, a lembrança pode se apresentar  sob o prisma do trauma, no caso em que a memória esteja ligada a situações extremas, como é o caso dos campos de concentração – relacionados aos regimes nazifascistas -, ou dos centros de torturas – relacionados aos regimes de exceção, vivenciados em diversos países da América Latina, sobretudo, a partir dos anos de 1960.

Quando este garatujador remete a um passado que já vai um tanto distante e pensa nas suas primeiras leituras de material impresso em Braille, logo assoma-lhe ÁS narinas, como saídos de lugares muito recônditos onde se encontram armazenados, aqueles cheiros de papel novo, ainda não manuseado que formavam as revistas Relevo, publicada pela então Fundação para o Livro do Cego No Brasil e, a Revista Brasileira Para Cegos – ainda em circulação -, publicada pelo Instituto Benjamim Constante, com as quais ele começara a ter contato a partir do ano de 1972. Agrega-se àqueles cheiros outro conjunto de lembranças, tais como um que remete àquela tarde de chuva há pouco caída – ou prestes a cair -, em que pela primeira vez, fora convocado pelo carteiro, o senhor Delorme, a fim de receber a correspondência inesperada: os primeiros exemplares daquelas revistas. E assim, as lembranças vão se encadeando, de fragmento em fragmento, de vestígio em vestígio, até (re)construir um rememorar que pode permitir elucidar algumas informações desconexas existentes no indivíduo que lembra.

Crê-se pertinente, recorrer a alguns dos postulados do filósofo francês Paul Ricöeur (1913-2005), para assegurar que “[...]. Em última análise, o que justifica essa preferência pela memória ”certa” é a convicção de não termos outro recurso a respeito da referência  ao passado, senão a própria memória [...],” (RICÖEUR, 2007, p. 40). Ainda lastreado nas proposições encontradas em reflexões desenvolvidas por Ricöeur, é possível sustentar a ideia de que um passado pode ser trazido ao presente, mediante a evocação de seus elementos constitutivos, fazendo uso da “memória” como ferramenta para tornar possível aquela evocação. Não obstante, é recorrente a desconfiança generalizada em torno da memória, visto que, segundo aqueles que levantam tal objeção, ela é subjetiva e, como tal, pode “falsear” o passado, indicando que, não havendo quaisquer elementos que possam ser utilizados para “comprovar o tal passado”, a memória não poderia ser aceita como elemento digno de confiança no processo de (re)construção de um passado que se pretenda estudar. Ao que Paul Ricöeur refuta nos termos que se seguem:

 

“[...]. Se podemos acusar a memória de se mostrar pouco confiável, é precisamente porque ela é o nosso único recurso para significar o caráter passado daquilo de que declaramos nos lembrar. Ninguém pensaria em dirigir semelhante censura à imaginação, na medida em que esta tem como paradigma o irreal, o fictício, o possível e outros traços que podemos chamar de não posicionais. A ambição veritativa da memória tem títulos que merecem ser reconhecidos antes de considerarmos as deficiências patológicas e as fraquezas não patológicas da memória, [...]. Para falar sem rodeios, não temos nada melhor que a memória para significar que algo aconteceu, ocorreu, se passou antes que declarássemos nos lembrar dela. Os falsos testemunhos, [...], só podem ser desmascarados por uma instância crítica cujo único recurso é opor aos testemunhos tachados de suspeitos outros testemunhos reputados mais confiáveis. Ora, [...], o testemunho constitui a estrutura fundamental de transição entre a memória e a história” (RICÖEUR, 2007, p. 40-41).

Em tal perspectiva, tem se procurado trazer alguns dos momentos vividos em um passado situado há mais ou menos quarenta anos, tempo em que se experimentou dar os primeiros passos na caminhada cristã protestante, precisamente em um tempo em que os primeiros rudimentos da Fé estavam sendo recebidos, absorvidos e inculcados naquele rapaz, até então desprovido de quaisquer fundamentos sobre os quais pudesse assentar o seu novo viver. No dizer de Enzo Traverso, em texto que se encontra na obra “O passado modos de usar”, publicada em Portugal, no ano de 2012, a memória é um dos elementos por meio dos quais é possível não só (re)memorar um conjunto de eventos do passado, como também se pode compreender os usos que possam vir a ser feitos de um passado dado. Traverso postula que:

“Tirando a sua força da experiência vivida, a memória é eminentemente subjectiva. Fica ancorada aos factos a que assistimos, dos quais fomos testemunhas, ou mesmo actores, e às impressões que deixaram no nosso espírito. A memória é qualitativa, singular, pouco preocupada com comparações, com a contextualização, ou com generalizações. Quem a transporta não necessita de apresentar provas. O relato do passado prestado por  uma testemunha — sempre que não seja um mentiroso  consciente — será sempre a sua verdade, ou seja, a imagem do passado em si deposto. Pelo seu carácter subjectivo, a memória nunca é cristalizada; mais se parece com um estaleiro aberto, em contínua operação. Não é apenas, segundo a metáfora de Benjamin, «a tela de  Penélope» que se modifica todos os dias devido ao esquecimento que «ameaça» em permanência, para reaparecer mais tarde, por vezes muito mais tarde, tecida de uma forma diferente. Não é só o tempo a erodir e a enfraquecer a recordação. A memória é uma construção, sempre filtrada por conhecimentos adquiridos posteriormente, pela reflexão que se segue ao acontecimento, por experiências que se sobrepõem à primeira e modificam a recordação. [...]” (TRAVERSO, 2012, p. 22-23).

 

Assim, é fundamentado em tal postulado, que se pode apresentar ao leitor, a partir da memória do vivido, com as ressignificações e as reelaborações inerentes ao feito de lembrar, os fragmentos já muito tênues daquele princípio de caminhar, ainda relacionado à Primeira Igreja Batista de Alagoinhas. Tendo decidido fazer parte do daqueles que ali professavam a Fé em Cristo, sentiu-se a necessidade de tomar contato com as novas elaborações musicais que envolviam aquela relação estabelecida entre o “novo convertido” e o modo de viver e pensar ao qual se inseriria. E, como não poderia deixar de ter sido, o grande aliado nesta tarefa foi o rádio.

Portanto, antes de iniciar a sua caminhada, este escrevente conhecia – inclusive já se comentou em outro arrazoado – a programação especificamente produzida pelos protestantes, cujo objetivo, diziam eles, era alcançar os não-protestantes, através dos meios de comunicação. Embora reconheça a factibilidade daquele propósito, este garatujador sempre postulou que tais programas, talvez, devido ao modo como eram produzidos e difundidos, só interessavam e/ou alcançavam os próprios crentes. Assim, conforme entendia – e ainda entende -, eles falavam de si, para consigo mesmos. E, ele se apresenta como a prova real de tal postulado.

Neste sentido, cabe salientar de passagem que, antes de passar a fazer parte do público protestante, este escrevente nunca se interessara pelos programas em questão, embora soubesse de sua veiculação há já bastante tempo. Eram dois programas exibidos durante a semana – Cinco Minutos com Jesus (05h:55), Um Novo Dia Raiou (06h:00-06h:15) – e três programas exibidos aos domingos – A Voz Da Profecia (05h:30-05h:45), A Hora Luterana, A voz da Cruz (05h:45-06h:00) e Um Novo Dia Raiou (06h:00-06h:15). Nenhum deles interessava a aquele ouvinte da Rádio Sociedade da Bahia, muito pelo contrário. Apenas depois que passou a ser um entre os protestantes, é que tais programas passaram a despertar-lhe o interesse em acompanhar as suas exibições e, quando foram retirados do ar, pelo grupo acionário liderado por Pedro Irujo que comprara a emissora dos Diários Associados em profunda crise financeiro/administrativa, sentiu a falta deles, que já o ajudara no seu novo caminhar.

Em busca de conhecer mais a respeito do Evangelho que acabara de abraçar, este escrevedor passa a procurar avidamente por alternativas radiofônicas que lhe viessem a auxiliar em um tal propósito. Assim, começa a ouvir emissoras como a Rádio Transmundial, HCJB (A Voz dos Andes), entre outras que foram sendo identificadas e incorporadas ao estreito leque de opções relacionadas a emissoras destinadas a transmitir uma programação especificamente elaborada e desenvolvida para aquele público, ainda tão diminuto, mas bastante necessitado de tais aportes. Dali em diante, passa a entender que, conforme apontou acima, aqueles programas que teoricamente eram feitos para “evangelizar”  as pessoas  - notadamente aquelas que desconheciam a Bíblia como sendo a “Palavra de Deus” e a sua mensagem, bem como o propósito do Eterno, ao enviar Jesus Cristo ao mundo -, acabavam por promover a “edificação” daqueles que já conheciam ou passavam a conhecer o evangelho. Portanto, logo na primeira semana após o dia 20 de janeiro, passou a ouvir os programas acima mencionados e, logo entendeu que a partir deles, poderia ouvir, agora com atenção e cuidado, aquelas músicas que, pouco tempo antes, ele dizia serem quase fúnebres.

Deste modo, um dos primeiros hinos que ouvira em tal ocasião e, que depois ficara em seu rememorar, a despeito do tempo que já se passara, foi cantada por José Geraldo, cujo título era “Consumação dos tempos”, cuja letra, muito o impressionara. A composição em causa, trazia expressões e personagens que lhe eram inteiramente desconhecidos. Pouco ou nada ele sabia a respeito daqueles nomes que o autor apresentava como heróis, nem daqueles eventos que dizia esperar acontecer, em breve. A expressão “consagrado Jó” Ficou gravada no rememorar deste aprendiz de escriba, desenvolvendo nele uma grande curiosidade para saber quem era aquele personagem; o que tivera ele feito ou vivido e quando, para ser tomado como um dos “expoentes” da fé. Mais tarde, ouvindo um pouco mais sobre “Jó” e não tendo acesso a uma Bíblia onde pudesse ler sobre aquele patriarca da antiguidade, desenvolveu um leque de equívocos sobre aquele homem que vivera no Oriente, há cerca de quatro mil anos, sobretudo, naquilo que é mais evocado em torno de sua vida: a “paciência de Jó”, no trato com os flagelos que lhe sobrevieram. Reforce-se, que no tempo em que este que ora digita estas linhas ouvira a música em questão, nada sabia sobre Jó, muito menos, sobre a sua vida repentinamente virada pelo avesso e, após manter-se fiel ao Deus Eterno, passou a ser, outra vez, o que fora antes.

 

https://youtu.be/2dC9HFvS6H8

 

José Jorge Andrade Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com

08 de outubro de 2021.

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Um escrevedor volta a falar de memória musical – IX: o começo da caminhada – primeiro semestre de 1980 – A Primeira Igreja Batista de Alagoinhas e as primeiras músicas evangélicas – Parte II.

 

Um escrevedor volta a falar de memória musical – IX: o começo da caminhada – primeiro semestre de 1980 – A Primeira Igreja Batista de Alagoinhas e as primeiras músicas evangélicas – Parte II.

 

Ao retomar o rememorar do começo da caminhada cristã, este escrevente prossegue falando dos primeiros contatos que tivera com a música evangélica, desta vez, considerando aquelas que ouvira pela primeira vez, por meio dos “solos”, bem como fará referência a outros momentos de sua trajetória na Primeira Igreja Batista de Alagoinhas, nos quais a música fora o elemento desencadeador.

O “solo” era um dos elementos constitutivos da liturgia, geralmente, nas celebrações que transcorriam aos domingos – manhã e noite -, quando algumas pessoas  tinham participação  individual no desenvolvimento das atividades melódicas, entre os cantos congregacionais e as leituras responsivas e, por vezes, as declamações. Aquela participação era previamente incorporada a ordem de  culto, mediante convite e/ou inscrição da pessoa interessada em fazer parte daquele momento solene. O solista,  por sua vez, escolhia o hino que seria cantado e, dependendo do caso, seria acompanhado pelos musicistas, pelo próprio solista ao violão ou, em solo “a capela”.

Este narrador lembra perfeitamente que a professora Maria Rita Borges e a irmã Isauri, eram aquelas que mais apresentavam os seus “solos” no formato “a capela”. Abaixo, duas das músicas que elas gostavam de cantar nas manhãs de domingo, na referida modalidade de interpretação musical.

Tem-se bem claro que “Junto a Jesus”, era magnificamente interpretado por Maria Rita Borges, provavelmente, a partir da audição de Feliciano Amaral, (1920-2018)–

 

https://youtu.be/jwOMwYO8miM

 

É igualmente claro no rememorar deste escriba, os solos da mesma Maria Rita Borges, do hino “Lindo País”, inserido no mesmo disco de Feliciano Amaral, em que se encontra o hino anterior.

 

https://youtu.be/OyncL5X6Lpw

 

Quanto a quem escreve estas linhas, um sujeito sempre apaixonado pela música, interessado em conhecer o mundo melódico construído, alimentado e alimentador do gosto musical do protestante em geral e do Batista em particular, estabelece os seus primeiros contatos com o tal mundo, a partir daquilo que se denominaria, talvez não muito adequadamente de “escola” de letristas como Edson Fernandes Coelho (1947-), Sérgio Pimenta (1954-1987), Jorge Camargo, Jorge Redher (1956-2009), Guilherme Kerr, Nelson Bomílcar, Edilson Botelho, Armando Filho, entre outros – cumpre salientar de passagem, que no momento aqui rememorado, este autor não tinha qualquer informação das atividades desenvolvidas por grande parte dos nomes citados, visto que os meios de informação eram bastante escassos e restritos à literatura especializada, à qual ele não tinha acesso -; de grupos como Vencedores por Cristo (fundado em 1968), Logos (1981), Elo (1974-1981), Som Maior (1976), e mais um outro tanto deles; e, naquele primeiro momento, principalmente o contato era com os trabalhos de intérpretes como Luiz de Carvalho (1925-2015), Feliciano Amaral (1920-2018), Denise Cardoso, Guiomar Victor, Elines, Jorge Araújo, entre tantos outros, que ouvia e, até arriscava cantar.

Neste sentido, uma das primeiras músicas que chamou a sua atenção e se tornou  sempre presente nos seus solfejares e assobiares, foi o hino cantado por Luiz de Carvalho, gravado no Long-play “Alvo Mais que a Neve” e lançado em 1978, cujo título apresentava-se para aquele momento, como se fora uma oração feita com vontade de ver respondida: Se Jesus Voltasse agora. É claro que a vontade ali manifesta e endossada por aquele rapaz novo na fé, tinha um que de receio de sucumbir com o passar do tempo e, talvez para tentar escapar de tal risco, pedisse e esperasse mesmo que “Jesus Voltasse” naquela hora, chamada “agora”.

 

https://youtu.be/m0ovFWzc8Q4

 

Outras duas interpretações de Luiz de Carvalho, gravadas em um disco mais pretérito também faziam parte da construção do novo repertório deste garatujador. Trata-se de  – Tocou-me

 

https://youtu.be/GlESufRuO1Q

 

E, “Quando Jesus Estendeu Sua Mão Para Mim”, inseridos no Long-Play intitulado “Obra Santa”, gravado em 1969.

 

https://youtu.be/QJ4Uo9dXzvI

 

Já se disse em outro arrazoado, que o pastor Jessé, com atitudes simples direcionadas a promover integração e/ou inserção do novo na fé nas atividades da Igreja que pastoreava, fora fundamental para o desenvolvimento deste que agora rememora aqueles dias, na medida em que muitas vezes, como um pastor de ovelhas, dirigiu-se até o fundo do vale e, trouxe aquela ovelha ainda tenra para junto de si, para melhor cuidar e alimentar.

Quiçá assim pensando, um certo dia, talvez já pelo mês de março, ele atribuiu àquele rapaz, a tarefa de “cantar um solo” na manhã do domingo seguinte ao aviso. E mais: indicou como sugestão para o dito solo, uma música um tanto controversa, visto que este garatujador a conhecia em uma interpretação de Altemar Dutra. Nem é preciso dizer que se deu o primeiro de muitos outros nós no cérebro do rapaz. No entanto, o pastor lhe disse que era um hino cantado por Edgar Martins e, dera-lhe o disco para ouvir e extrair a música indicada para o solo, que levara a efeito, acompanhando-se ao violão, errando quase tudo no concernente aos acordes, mas, cumprindo a tarefa de que fora incumbido.

 

https://youtu.be/K7rnEh8QSTc

 

Mais adiante, o pastor Jessé fez outro gesto na direção de envolver aquela sua ovelha tímida e retraída, nas atividades da igreja que liderava. Aos domingos, a Rádio Emissora de Alagoinhas abria espaço para que a Primeira Igreja Batista de Alagoinhas pudesse  difundir o Evangelho para além do seu espaço de culto, na medida em que disponibilizava meia hora de sua programação para aquele fim. Com criatividade e desenvoltura, o pastor Jessé apresentava o programa “boas novas”, utilizando como prefixo musical o hino “Desperta Brasil”, cantado por Luiz de Carvalho, em gravação de 1978. Algum tempo depois, este narrador ouviria aquele hino como abertura do programa “A Voz do Brasil Para Cristo”, transmitido pela rádio Tupi de São Paulo, ouvido pelas ondas curtas, levado ao ar entre dez e meio-dia, apresentado pelo missionário Manuel de Mello (1929-1990).

 

https://youtu.be/Kgu5N4e-Wno

 

Foi assim que, mediante o convite daquele prelado, este escrevente tivera a oportunidade de participar daquele programa, cantando ao violão. Embora conhecesse bem o prédio e os estúdios da emissora através da qual o programa era levado ao ar, neles já tendo estado várias vezes, com vários de seus locutores, fora o apresentador de “Boas Novas” que dera a primeira chance de estar ali como parte efetiva daquela transmissão radiofônica. No entanto, não ficou na sua memória, nenhum vestígio que aponte para a música que foi cantada na ocasião. Porém, há uma memória bem viva de ter cantado em alguma noite de domingo, uma música que ouvira algumas vezes no rádio e conseguira gravar os seus versos e acordes , talvez, dada a simplicidade de sua construção melódica, não obstante a sua profundidade teológica, na medida em que afirmava a ação do Deus Eterno no processo de criação do mundo e tudo que nele há, conforme assevera o ensino  bíblico. Em um magnífico poema, Edson Coelho sintetiza esta profissão de fé e, Telma Coelho interpreta com maestria e talento, uma das músicas de construção filosófica mais profunda e de melodia tão bem harmonizada. O hino se intitula “Maior que tu, não há ninguém”.

 

https://youtu.be/KmYErrPmmz0

 

José Jorge Andrade Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com

30 de setembro de 2021.

terça-feira, 28 de setembro de 2021

Um escrevedor volta a falar de memória musical – VIII: o começo da caminhada – primeiro semestre de 1980 – A Primeira Igreja Batista de Alagoinhas e as primeiras músicas evangélicas – Parte I.

Um escrevedor volta a falar de memória musical – VIII: o começo da caminhada – primeiro semestre de 1980 – A Primeira Igreja Batista de Alagoinhas e as primeiras músicas evangélicas – Parte I.

 

Já vai longo o conjunto de arrazoados que se vem escrevendo neste espaço, apresentando alguns dos aspectos relacionados com o caminhar iniciado em janeiro de 1980, quando se deu um passo importante no sentido de promover algumas mudanças no que respeita a busca de definições para a vida daquele que completara 19 anos, ao findar dezembro. A partir do vigésimo dia daquele novo ano, este escrevedor passava a professar a Fé Cristã Protestante, inserindo-se na Primeira Igreja Batista de Alagoinhas, a partir de onde passaria a confessar a Cristo, publicamente, não só dizendo às pessoas, bem como, procurando viver de modo que tal Fé pudesse ser percebida no seu falar, no seu agir e no seu relacionar-se com a sociedade. Uma das mudanças práticas que precisava ser materializada, se referia ao hábito de fumar. Tal hábito fora adquirido aos quatorze anos, quando ingressara na quinta série e, fora reforçado quando retomara a sua liberdade ao voltar do instituto. Apesar de requerer alguma disciplina e persistência, como dissera a um amigo de farras pretéritas, o último cigarro fora fumado na manhã daquele domingo, pois já estava decidido a ingressar no meio Batista, a partir da noite daquele mesmo dia. E, assim foi.

E, prosseguindo no processo de mudanças inerentes ao novo caminho que resolvera começar a trilhar, era necessária a efetivação de uma reforma substancial no seu linguajar. Embora fosse dotado de um vocabulário vasto e rico, se habituara ao uso frequente de palavras prenhes de torpeza, indecência e que expressavam imoralidades, não apropriadas para serem usadas por quem pretendia se apresentar como tendo sido investido de “novidade de vida”. Aquele exercício fora um tanto de mais difícil execução, uma vez que o hábito de as proferir, exigia do rapaz constante cuidado, tanto mais que ele era constantemente provocado por aqueles que afirmavam não acreditar que houvesse mesmo “virado crente”. A sua dificuldade em estabelecer um novo padrão de linguagem, estava mais na superação de hábitos e não na ausência de um conjunto vocabular que lhe permitisse um falar agradável. Nisto, como em vários outros aspectos de sua vida, o rádio foi um grande colaborador, uma vez que as grandes emissoras de rádio que sempre ouvira, possuíam um grande cuidado na hora de escolher aqueles que se colocariam diante dos microfones, uma vez que a correção gramatical e a dicção foram a grande marca daqueles locutores que atuavam no rádio AM. Até mesmo as emissoras do interior possuíam o cuidado naquele campo.

Assim, dado o passo inicial no sentido de passar a fazer parte daqueles que congregavam naquela Igreja, logo procurou se instruir em relação aos dias e horários dos cultos; logo procurou apresentar-se disposto a enturmar-se com os demais integrantes daquele corpo eclesiástico, não obstante a sua imensa e quase insuperável dificuldade de interagir coletivamente. Tanto é assim que, ao que tudo faz crer, o líder daquela igreja se apercebeu de tal característica de uma das suas mais novas ovelhas e, partiu para a tarefa de envolvê-la nas atividades eclesiásticas e/ou extra eclesiásticas, o quanto estivesse ao seu alcance, sem, contudo, preterir esta ou aquela ovelha em dificuldades semelhantes. Prova disto é que algumas semanas mais tarde, já o levava como companhia nas suas viagens para visitar algumas congregações às quais prestava assistência, nomeadamente, uma que se localizava na cidade de Itapicuru, há cerca de cento e quinze quilômetros de Alagoinhas.

Em um final de tarde de outono, este escriba estava assentado nos fundos do pavilhão Luiz Vianna, aguardando o próximo horário de aula, que se realizaria no Jairo Azi, quando é surpreendido pela escuta de uma voz que o chamava pelo nome. Aquela voz já lhe ficara familiar: era o pastor Jessé, que fora ali para convidar aquele rapaz para juntos irem a uma atividade que desenvolveria em Olindina/Itapicuru. Dada a distância e o estado de conservação da estrada, teriam que sair antes das seis daquela tarde, pois precisaria estar no local de destino, aproximadamente as sete e trinta. Tendo objetado que não houvera avisado a sua mãe que não chegaria em casa no horário de costume, Jessé veio com ele para informar a dona Manda que o seu filho iria com ele em uma viagem. Não a encontrando em casa, pediu a vizinha que desse o recado. Aproveitando a ocasião para trocar a camisa da farda por uma limpa e cheirosa, pastor e ovelha embarcaram para aquela que fora a primeira de muitas viagens que fizeram juntos, para aquele mesmo destino.

Eram já cerca de cinco e meia, quando pegaram a estrada BR110. Era um Volkswagen Brasília, já com alguma quilometragem, mas bastante robusto e conservado. Nele, havia sido instalado um equipamento já bastante difundido à época, um rádio-toca-fitas. Sempre ávido por músicas e, em tal ocasião, ávido por conhecer o que se ouvia entre os protestantes Batistas, apropriou-se do equipamento e passou a tocar as fitas que o motorista disponibilizara para que pusesse a rodar. E, de cara, a fita que inseriu em primeiro lugar, continha vários hinos cantados pela Missão Vencedores por Cristo, grande parte delas estava em uma série de discos chamada “Louvor”. Assim, Sempre que as ouvira, em qualquer lugar ou tempo, imediatamente a memória daquelas viagens, daquele batucar das pedras da estrada no assoalho do carro; daquele frio provocado pelo fato da vedação do veículo já não poder conter a passagem do vento – um ar condicionado natural -; daquele indisfarçável sono que quase tornava inútil a companhia para o motorista; da receptividade dos irmãos daquelas igrejas, tanto ao Pastor a quem amavam e respeitavam muito, quanto ao seu companheiro de viagem, que era tratado com fidalguia e desvelo; aquela coalhada saboreada em Olindina, na casa do pastor Luís e sua senhora, irmã Sulamita – a vergonha e o pejo de comer em companhia de pessoas estranhas ao seu convívio (será que estão reparando no desajeitado companheiro de viagem do pastor?) -, emerge viva e se faz presente, a despeito das camadas que a recobrem.

Abaixo, serão colocados os links para três daquelas músicas ouvidas por todo o trajeto de ir e voltar, a fim de que, quem já as conhece lembre; quem não as conhece, desfrute daquele momento de revolução na produção musical Cristã protestante, que se produzia a partir do início da década de 1970. Saliente-se, que este escrevedor não tinha qualquer conhecimento a tal respeito, no momento em que vivenciara aquela virada na hinologia cristã produzida e cantada no Brasil. Tal conhecimento por parte do autor destas linhas, é muito posterior ao novo curso que a adoração musical tomava.

 

A primeira das três músicas escolhidas para trazer aos ouvidos dos leitores é, “Minha Paz vos dou”: vencedores por Cristo, em gravação de 1975. Esta, talvez tenha sido aquela que permaneceu viva na memória por mais tempo, mesmo quando não estimulada por audições posteriores.

 

https://youtu.be/HPKlkjlFwFQ

 

Esta abre o disco e, claro, foi a primeira a aparecer na fita tocada. “Louva a Deus”: Vencedores por Cristo, em gravação de 1975.

 

https://youtu.be/orQo9rS_KQY

 

O hino que se ouvirá em seguida, deixou marcas profundas e duradouras em grande parte daqueles que a conheceram e cantaram. “Faz-me Chegar”: Vencedores por Cristo, em gravação de 1975.

 

https://youtu.be/-kccM79Wppo

 

Esta, por sua vez, ganhou muitas versões, para quem garatuja este arrazoado, a mais bela delas, está no segundo volume de “Luiz de Carvalho e Denise Juntos”. “Pai de Amor”: Vencedores por Cristo, em gravação de 1975.

 

https://youtu.be/Js0wBjWTKWc

 

Portanto, informado a respeito da programação da Igreja, passa a frequentar com regularidade, intentando familiarizar-se com a liturgia de culto, com as músicas e demais atividades cúlticas desenvolvidas ao longo da semana. Um dos primeiros com o qual se identificou imediatamente, era realizado todas as terças feiras, as cinco e trinta da manhã: o “culto matutino”. De baixa frequência, sobretudo por parte dos jovens, era ali que as pessoas contavam as suas dificuldades, pediam as orações dos irmãos. Mas, como não poderia deixar de ser, era ali que também nasciam os mal-entendidos e as especulações, principalmente, quando alguém dentre os que pediam orações aos presentes, não relatavam minunciosamente a situação vivenciada, motivava a necessidade de que se orasse. Mas isto é uma outra história.

No campo da música, era grande a riqueza; tudo era novidade; tudo era surpreendente. Contrariamente ao que se acostumara, em geral eram músicas com melodias agradáveis aos ouvidos, que possuíam uma teologia escriturística expressa em poesias coerentes, uma cristologia sólida, sóbria e biblicamente fundamentada. Para aquele recém-chegado, nem tudo era plenamente compreensível, o que só passaria a sê-lo com o passar do tempo e o amadurecimento na fé, além da ampliação do conhecimento do Evangelho.

Além do canto congregacional que envolvia toda a igreja na tarefa de entoar os hinos a partir do Cantor Cristão, que era hinário oficial da denominação, também se cantava os chamados “hinetos” ou corinhos, envolvendo músicas que não faziam parte da coletânea de hinos tradicionais inseridos no mencionado hinário - em tais ocasiões, pouco a pouco, eram introduzidas as novas filosofias melódicas que começavam a circular, primeiro entre os mais jovens. Mas, também havia um conjunto musical formado pelos jovens da igreja, encarregado de executar hinos outros, de origem autoral mais contemporânea. Era o “Som Celeste”, liderado e regido pela Educadora Cristã, Edileusa Silva. Este garatujador não conseguiu se engajar naquele conjunto vocal, por não se sentir à vontade para fazer parte de um grupo que já estava consolidado, sem falar de sua pouca inclinação para o desenvolvimento de atividades coletivas, que exigia ensaios, implicando em disciplina e mais deslocamentos para cumprir mais aquele compromisso.

Aqui vão três hinos que ficaram marcados no rememorar deste escrevedor. Ao ouvi-los, sempre ressurge de lá do fundo das camadas que cobrem e recobrem a memória, as vozes que magnificamente os cantavam, fique claro, após árduo trabalho de ensaios e regência de Edileusa. É interessante notar que, ao tocar os hinos cujos links se encontram abaixo, parece se estar a ouvir a voz de Edileusa imiscuída às vozes de todo o grupo. Ah, aí o tempo implacável age e age com toda a sua força. Mas, ainda não conseguiu apagar as lembranças que teimam em se esforçar por emergir do meio dos mais de quarenta anos que já decorreram até aqui.

 

A primeira delas é “Deus é Real” na interpretação de Vencedores Por Cristo, que integra o LP com o mesmo título, gravado em 1973

 

https://youtu.be/ElqtxrQyEYs

 

A segunda é “Nada Melhor, também com  Vencedores por Cristo e, do mesmo disco:

 

https://youtu.be/kQgtIkvWJL4

 

A terceira é “Aleluia”, no entender deste garatujador, a mais bela melodia, igualmente interpretada por– Vencedores por Cristo e, inserida naquele mesmo disco de 1973:

 

https://youtu.be/x4iqzlPYq7A

 

José Jorge Andrade Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com]

 

28 de setembro de 2021. 

domingo, 26 de setembro de 2021

Um escrevedor volta a falar de memória musical – VII: o começo da caminhada – primeiro semestre de 1980 – Ainda com o rádio ao pé do ouvido

Um escrevedor volta a falar de memória musical – VII: o começo da caminhada – primeiro semestre de 1980 – Ainda com o rádio ao pé do ouvido

 

Aquele início de ano de 1980, embora no momento em que estava sendo vivido não se tivesse noção clara, foi marcado de fato por um conjunto de mudanças em vários aspectos da vida deste escrevedor. Alguns deles já brevemente apontados em arrazoados anteriores, sobretudo, no que respeitara ao seu caminhar cotidiano, a partir de então, mediado pela sua guinada no campo da “profissão de fé”, que deixara de ser baseada em uma relação com um catolicismo apenas nominal e, passara a ser fundamentada naquilo que se convencionou denominar “Fé reformada” ou “protestante”, vivida na Primeira Igreja Batista de Alagoinhas.

Já se comentou em arrazoados anteriores, como se deu a reaproximação com a Fé Batista, inclusive, como o ato de ser cumprimentado pelo Pastor da Igreja, sendo o visitante um ilustre desconhecido para aquele prelado e, o impacto do seu gesto, visto ter se dado naquele dia em que o arisco cidadão, acanhado pelo inusitado lugar em que se encontrava, se recusara a se assentar junto – ou em lugar próximo – daquela família que ele já conhecia há algum tempo e que visitara naquele mesmo dia pela manhã, quando se já estava de saída para as atividades matutinas.

Este garatujador nunca soube se o Patriarca da referida família, falara ao pastor, a respeito da visita feita a ele naquela manhã, bem como do convite que fizera para assistir ao serviço religioso, O certo é que, ao se concluir a União de Treinamento e todos ingressarem no espaço onde se realizaria o culto, o Pastor Jessé dirigiu-se ao rapaz que estava assentado quase nos últimos bancos, dirigiu-lhe algumas palavras de boas-vindas, apresentou-lhe um cordial cumprimento de mãos e, disse que se sentisse a vontade naquele lugar.

Como igualmente já se escreveu, em um domingo de encerramento de série de conferências alusivas ao aniversário de organização da igreja, este narrador assumiu o compromisso público de passar a tomar parte daquela Igreja, recebendo por Fé, o perdão dos seus pecados, passando a confiar inteiramente na suficiência da Cruz de Cristo para ser recebido pelo Deus Eterno como seu filho por adoção.

É preciso deixar claro que não foi sem dificuldades aquele iniciar de caminhada, visto que o ingresso em uma igreja protestante tradicional, não era uma decisão que motivasse o aplauso das pessoas que circulavam no entorno do que assumia professar aquela nova confissão religiosa. Naqueles idos dos finais da década de 1970 e início da seguinte, ser “protestante” não era “glamoureuse”, como passou a ser nas décadas de 1990, sobretudo, quando tal decisão era tomada por alguma “celebridade televisiva” ou  por pessoas socialmente “bem-nascidas”. Mesmo assim, tal “glamour” era manifesto quando a “decisão” era feita nos círculos religiosos mediatizados e devidamente domesticados pelos meios de comunicação de massa.

Muitas foram as críticas, os sarcasmos, os deboches e os ares de desprezo que este escrevente precisou enfrentar, na medida em que se tornava notório que aquele “novo protestante” demonstrava um maior interesse em obter mais conhecimento dos ensinamentos inerentes à sua nova prática confessional. Pessoas que em tempos anteriores eram concordes com suas atitudes e ponderações, passaram a dirigir-lhe severas críticas e proferir palavras duras – quando não desrespeitosas -, no sentido de procurar induzi-lo a rever o seu novo caminhar e, claro, rejeitar como equivocados os posicionamentos tomados na direção do protestantismo.

Deste modo, pouco a pouco sendo inserido no novo ambiente de interação social e cultural, uma das primeiras coisas que se procurou fazer, foi reconstruir o seu acervo musical. Este que agora traça estas linhas, sempre entendeu como incompatível com o viver cristão protestante que ele então iniciava, a audição de músicas seculares, não por elas serem de origem “malignas” de per si. O que se considerava – e ainda se considera – era a motivação e o objetivo delas. Enquanto a chamada “música cristã protestante” era – não é mais – motivada pelo interesse em edificar, fortalecer a “fé”, bem como levar as boas novas do Evangelho para quem as ouvisse, também tinham – insiste-se, não tem mais – como objetivo a consolidação de ensinamentos bíblicos por meio de letras que, ao mesmo tempo, em primeiro lugar, demonstrariam ao Deus Eterno, a gratidão do poeta ou do intérprete, pelo fato de ter não só a chance de ter sido alcançado pelo “Evangelho que é Poder de Deus para todo o que crê”, ampliando para outros a possibilidade de também ser grato por receber “uma tão grande salvação”, sem mérito algum, sem necessidade de ato algum, pois foi dada “pela Graça”, por Deus “mediante a fé”. E, em segundo lugar, cuidaria que fossem fundamentadas nos ensinos encontrados na Bíblia, a Palavra de Deus, sem falseamentos, buscando desenvolver uma interpretação poética e musical das “Sagradas Letras”, sem perversões, distorções ou compreensões que provocassem descrédito, não só dos crentes, como também daqueles que ainda não estivessem inseridos no contexto eclesiástico.

Assim, pensando, este garatujador tratou de procurar conhecer, obter e aprender aquelas novas músicas, saber quem as cantava e, quando possível, quem as compunha. Nem é preciso dizer que o primeiro a ser procurado para um tal fim, foi o rádio. A programação radiofônica voltada para o público protestante era ainda muito escassa, levada ao ar em poucas emissoras de rádio, algumas de difícil sintonia, outras com programas exibidos em determinados horários, o que exigia do novato naquelas lides, uma varredura  pelas frequências e faixas do receptor  - não havia meios de pesquisa rápida -, fazendo com que o contato com os hinos cantados pelos protestantes só pudessem ser obtidos em doses muito diminutas. Entre as emissoras baianas, apenas a rádio Sociedade da Bahia – rádio de propriedade dos Diários Associados, então em profunda crise financeira – apresentava alguns programas direcionados ao público protestante. Eram veiculados durante a semana entre as seis e as seis e quinze da manhã; aos domingos tais programas eram exibidos entre as cinco e trinta e as seis e quinze, sem que houvesse quaisquer critérios doutrinários e/ou identitários para que fossem levados aos ouvintes – A Voz da Libertação, programa oficial da Igreja Deus É Amor, já possuía horários bastante extensos, durante as madrugadas.

Em tal busca, a primeira rádio especificamente pensada para atender o público protestante, embora o objetivo fosse alcançar aqueles que ainda não possuíam o conhecimento da obra salvífica de Jesus Cristo, tomava-se contato com programas como Através da Bíblia, Rádio Escola Boas Novas, Manancial da Vida, que eram levados ao ar em transmissões a partir de Bonnaire, nas Antilhas Holandesas, em ondas médias entre as quatro e meia e as seis da manhã, sendo possível a sintonia aqui na região, apenas até as cinco e trinta. Nela, teve-se contato com as primeiras músicas cristãs, sobretudo, aquelas que a própria rádio Trans mundial precisava produzir para atender às suas necessidades, visto os discos ainda serem escassos, embora já houvesse uma boa produção deles.

Vários daqueles hinos ainda estão na lembrança de quem escreve estas linhas. No entanto, ainda não foi possível localizar muitos que tocam fundo na alma e, de algum modo, ainda se espera encontrar para ouvir e experimentar a alegria de lembrar aqueles tempos já longevos. Mais para agora, é possível trazer duas daquelas primeiras músicas que, em meio a ruídos e interferências; entre idas e vindas do sinal, variação provocada pela propagação das ondas hertzianas, que ainda remetem àqueles primeiros meses do ano de 1980, sempre despertando lembranças há muito adormecidas; memórias há muito imersas nas muitas camadas superpostas pelo tempo.

A primeira delas, era trilha quase obrigatória na programação feita com o intuito de alcançar o público jovem. Seu ritmo e forma de interpretação apontam bem para aquele objetivo. Era cantada por um conjunto chamado “Os Ligados. A música era “Achei Razão Pra Cantar, gravação de  1973.

 

https://youtu.be/l6_bqy4HiGM

 

A segunda, quase sempre era tocada no início da programação da emissora de Bonnaire, mesmo assim, a variação do sinal se fazia presente, o que não impediu que ela permanecesse viva na lembrança – embora tal lembrança tenha sido reavivada há pouco tempo, quando um amigo de bate-papo disponibilizou para que pudesse guardar nos suportes eletrônicos de armazenamento moderno. Trata-se da interpretação de Waldemar Fomin, da música, Que Maravilha É

 

https://youtu.be/mffFnJi6zf8

 

José Jorge Andrade Damasceno - historiadorbaiano@gmail.com

26 de setembro de 2021 – Ontem foi o “dia do Rádio”. 

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Um escrevedor volta a falar de memória musical – VI: com o rádio no pé do ouvido – primeiro semestre de 1980 – O Amigo Mário

Um escrevedor volta a falar de memória musical – VI: com o rádio no pé do ouvido – primeiro semestre de 1980 – O Amigo Mário

 

Embora pouco polido, com gestos desajeitados e bruscos, de falar rude, duro e sêco, este escrevedor conseguira atrair para si algumas pessoas que arriscaram a aproximação e, ignorando os coices e refugos, acabaram por construir  sólidas e duradouras amizades, embora escassas, diga-se de passagem.

Como resultado do pedido feito a Seu Faustino, nos princípios outonais de março de 1980, era retomada a caminhada na senda dos estudos. A sétima série, sempre desafiadora e complexa, fora encarada por este escrevente em nova e decisiva etapa de sua vida. Já prestes a completar vinte anos, não teria sentido pensar em uma vida “nova”, agora pautada na leitura, estudo e apreensão de novos ensinos para se afirmar como crente, sem, contudo, conseguir se desvencilhar do primeiro grau.

Os seus colegas que cursaram a sétima série nas vezes anteriores, estavam já iniciando o segundo grau, embora alguns deles fossem mais novos. No entanto, ele estava ali, empacado na mesma série que estivera três anos antes. Àquela altura, a distância já se fizera grande e, o que lhe restava era procurar prosseguir a caminhada. Em uma corrida de qualquer modalidade, equivaleria a ser um retardatário, correndo sim, mas há algumas voltas dos primeiros colocados.

Mas, ali estava ele, em meio a meninos e meninas ainda muito jovens e com muito mais energias, procurando acompanhar as aulas e atividades, sobretudo, as relacionadas aos cálculos matemáticos que tanto travavam no seu cérebro pouco afeito àqueles exercícios que não compreendia e não atinava para a sua serventia. Tendo lançado mão de livros transcritos em Braille, como os de Benedito Castrucci – que, saliente-se, não era o mesmo adotado pela professora Maria do Carmo para a turma, embora ela o conhecesse -, se esforçara e muito, para apreender aqueles conteúdos e os expressar oralmente para a professora, conseguira ao menos, caminhar aceitavelmente, unidade a unidade, até chegar ao final da jornada.

É assim que, certa vez, circulando pelo estadual, talvez fosse no prédio administrativo, ouvira uma voz moça, que lhe chamara pelo nome. Voltando-se para tentar identificar de onde vinha a voz até então desconhecida, o rapaz  lhe dissera:

- Quero lhe ver!

Ao que respondera com sua habitual rudeza e secura, embora acreditasse estar sendo irreverente:

- Está com os olhos vencidos? Procure um oculista!

Mas, o moço não se deu por vencido e insistiu, já travando a sua passagem:

- Estou querendo dizer que quero falar com você...

Sem ter mais como recusar a prosa, este garatujador e o rapaz, iniciaram um a conversa bem agradável que evoluiu para uma amizade lastreada no respeito e na empatia entre aqueles dois moços, tão diferentes, de origens sociais tão díspares, embora ambos tendo algumas coisas em comum, tanto no que diz respeito ao ser e pensar, quanto no que respeita a princípios e predileções.

Era Mário, assim se apresentara e assim passou a ser tratado por colegas e amigos, embora seus familiares o tratassem pelo segundo nome - Cézar. Ele já cursava o segundo grau – no Estadual e no Ginásio Alagoinhas -; era católico ativo nos grupos de jovens diocesanos e, polido, educado, inteligente, de conversa agradável, cobiçado pelas meninas – aliás, disputado literalmente aos tapas – Mas, sobretudo, muito Cortez, sempre se aproximara das pessoas, com o intuito mesmo de as ter como irmãs, em uma acepção bem ampla do termo.

Este garatujador não sabe como Mário descobriu que o seu novo amigo arranhava as cordas de um violão. O certo é que o moço cismou que aquele poderia ensinar-lhe a manejar aquele instrumento. Ali nascera a primeira divergência entre os novos amigos. Ele, queria aprender tocar músicas românticas – principalmente as de Roberto Carlos. O outro, já se imiscuindo em outro tipo de música, retrucava que não se aprendia violão para tocar determinada música; mas, se aprendia violão, para tocar qualquer música.

Na condição de católico e partícipe dos encontros diocesanos, o rapazinho estava enamorado por uma estudante do colégio São Francisco e, queria cantar para ela, impressionando-a ainda mais, ao cantar e tocar ele mesmo.

Ponderou-se que, para tanto, ele precisaria aprender o instrumento, de modo que pudesse tocar e cantar qualquer coisa que quisesse e, quiçá, que a garota pedisse. E, foi grande a altercação entre os dois. Porém, o respeito e a admiração mútua, fortaleceu-se em tal circunstância.

A querela acabou tendo uma solução quase salomônica. O pretenso professor propôs que o aprendiz fosse disciplinado na aprendizagem e, duas músicas seriam ensinadas. O aluno topou a proposta e, logo ele aprendeu Feliz Serás, música que ambos aprenderam a gostar, tendo ouvido a interpretação de Denise Cardoso – então ainda uma criança. A referida música, saliente-se, passou a ser conhecida por este narrador, a partir de sua inserção na Igreja Batista.

 

https://youtu.be/DWjz6r7FxoU

 

A segunda das duas músicas, foi aquela que o rapaz queria cantar para a menina que ele então escolhera para se enamorar. Dizia ele que aquela canção retratava bem a jovem e, que ouvindo o fazia lembrar de seu traço mais marcante: sempre trazer os cabelos em tranças. Era, nada mais nada menos do que Antônio Marcos com a belíssima interpretação da não menos magnífica: Menina de trança, que já era conhecida deste escrevinhador, claro, por meio das audições de rádio.

 

https://youtu.be/W5XS1NMhO4A

 

José Jorge Andrade Damasceno 

23 de setembro de 2021 - Primavera!