domingo, 11 de janeiro de 2026

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte XV.

 

07 de fevereiro de 1986 – O resultado–.

 

Diante do arguto e paciente leitor destes garatujares, se encontra mais um arrazoado fundamentado nos escavares de sedimentos de memória, armazenados há pelo menos quarenta anos, em que se procurará trazer à tona, alguns fragmentos de um tempo que, ainda que já vá um tanto longe, não o está fora do alcance de quem o viveu e dele tem lembranças. A Alagoinhas apresentada como pano de fundo para contextualizar o rememorar aqui proposto, era ainda um urbe quase pacata, de poucos automóveis; a sua população se aproximava da centena de milhar, embora a sua distribuição espacial fosse facilmente estruturada em bairros como o 2 de Julho, Mangalô, Barreiro e Santa Terezinha como os que abrigava um maior número de habitantes; enquanto o Jardim Pedro Braga, o Silva Jardim, a Praça Kenedy e Alagoinhas Velha, experimentavam grande expansão com loteamentos, construções de novas residências e a implantação de conjuntos residenciais. A Praça J. J. Seabra e a praça Ruy Barbosa, eram de longe os maiores, os mais conhecidos e os mais frequentados espaços públicos de então. Grande parte daqueles que cursavam o ensino superior, o faziam fora do seu território, mormente em Salvador e Feira de Santana. Este escrevedor tem muito nítido em sua memória tátil aqueles espaços; suas travessas, suas ruas paralelas e perpendiculares, as conhecendo muito bem, ao ponto de conseguir percebê-las, a cada ponto citado durante estes escritos, como se neles estivesse passando enquanto escreve. É dentro deste corolário de lembranças espaciais, sociais e vivenciais que se fundamentam as memórias aqui esboçadas. Insiste-se em trazer como fundamento teórico e metodológico da proposta largamente exposta no transcurso destes escritos, o postulado de Paul Ricöeur, a respeito da memória, quando afirma ser ela a única coisa que temos em que nos fiar de ter se dado alguma coisa, em algum momento. Diz o filósofo francês já diversas vezes citado nesta série de rememorares, que viveu entre os anos de 1913 e 2005 : [...] uma busca específica de verdade está implicada na visão da ”coisa” passada, do que anteriormente visto, ouvido, experimentado, aprendido. Essa busca de verdade especifica a memória como grandeza cognitiva. Mais precisamente, é no momento do reconhecimento, em que culmina o esforço da recordação, que essa busca de verdade se declara enquanto tal. Então, sentimos e sabemos que alguma coisa se passou, que alguma coisa teve lugar, a qual nos implicou como agentes, como pacientes, como testemunhas. [...] (RICÖEUR, 2007, p. 70).

E, mais adiante, para o fim que aqui interessa, ele arremata, que:

Será preciso, [...], não esquecer que tudo tem início não nos arquivos, mas com o testemunho, e que, apesar da carência principial de confiabilidade do testemunho, não temos nada melhor que o testemunho, em última análise, para assegurar-nos de que algo aconteceu, a que alguém atesta ter assistido pessoalmente, e que o principal, se não às vezes o único recurso, além de outros tipos de documentação, continua a ser o confronto entre testemunhos” (RICÖEUR, 2007, p. 156).

 

Enfim, chegava a metade do dia daquela terça-feira 28 de janeiro, último dia das provas do vestibular que forneceria o passaporte para o ingresso no ensino superior para quem nele fosse aprovado, dia que José Mário quase não se dispusera a se dirigir ao local para onde convergira um bom número de estudantes que pleiteavam as vagas disponibilizadas para os cursos de licenciatura ofertados pela FFPA; dia em que ele não experimentara a mesma disposição para o enfrentamento daqueles testes que, não só avaliavam o nível de conhecimento propedêutico dos candidatos mas, também, ao que parecia, avaliava a capacidade de resistência de um bom número deles. Certamente, aquele terceiro e último dia de provas, já fora marcado pela abstenção de uma parte dos avaliados, quer pelo cansaço físico e mental ou pela descoberta das fragilidades dos conhecimentos testados até ali, quer pelo desânimo resultante de tal descoberta. O certo é que José Mário, ao se dirigir ao “Estadual” para encarar aquele último dia de provas, o fizera, muito mais pelo seu temperamento que não admitia iniciar uma jornada e voltar do meio do caminho; mas, também e, principalmente, porquê, para ele, não era só desistir; era, sobretudo, apresentar uma justificativa fundamentada no terreno movediço de explicações que não se sustentariam em pé, no momento em que fosse em busca de apoio daqueles que o haviam emprestado, quando ele o buscara.

Portanto, concluída aquela última etapa da empreitada levada à termo em três dias de sol pleno e de calor intenso; em três dias marcados por variações de ânimo vividas por aquele vestibulando, desencadeadas pelas diversas frustrações experimentadas a cada conferência de gabaritos; três dias marcados por uma perda gradativa de confiança em um resultado que viesse a coroar os esforços até ali envidados, dirigiu-se ele para a sua residência, mergulhando de volta ao seu estado de solidão latente, em elucubrações feitas de si para consigo, no sentido de intentar encontrar uma tábua de salvação daquele naufrágio do seu barco, que ele já sentia soçobrar. Fizera maquinalmente o trajeto de volta para casa; lá entrara, almoçara e, se dirigira ao seu espaço de dormir, para ali, recobrar o sono mal conciliado na noite anterior. E, adormecera; adormecera para repassar como em um “filme” imaginário, tudo que procurara fazer, bem como tudo que sucedera, desde o instante em que decidira trilhar aquele caminho em busca de avançar no seu processo formativo, daquela vez, não mais o escolar obrigatório e formal; mas, pensava ele, aquele seria um processo de formação para a vida laboral, igualmente formal mas, diferentemente do anterior, com uma ponta de validade, na medida em que, conforme pensava, ressalte-se, ele alcançaria uma titulação que o catapultaria, inexoravelmente, ao seleto grupo das pessoas capacitadas para o exercício de uma função social dada.

Entretanto, malgrado todo aquele reboliço desencadeado no seu cérebro, José Mário dormira profundamente por toda aquela tarde, não obstante o  forte calor do final de janeiro; apesar da inexistência de meios mecânicos para proporcionar um pouco de conforto enquanto procurava refazer o corpo e a mente, naquele quarto onde o telhado baixo e a quase inexistente ventilação aumentava ainda mais a sensação de calor, fazendo com que José Mário se debatesse e suasse profusamente, a tarde passara lenta e a noite chegara morna e, ao mesmo tempo que indiferente àquele rapaz ainda envolto em ideias que davam conta de sua pouca malícia e de sua quase total desconexão da realidade da vida efetivamente vivida; não passava pelos pensamentos daquele rapaz formado pela leitura romântica da vida, que o que ele quisesse obter, ainda que, eventualmente, capacitado para tal, teria que ser quase que tomado a força; teria que enfrentar a obstinada resistência da sociedade em permitir que ele pudesse exercer alguma coisa no campo da vida profissional, ainda que ele fosse – ou imaginasse ser –capacitado para o fazer. A sua ingenuidade não possibilitava compreender que a vida não lhe sorriria feliz por ser ele um “Licenciado”, um “graduado”; sequer passava pelos seus pensamentos a perspectiva de que, na realidade, o graduar-se ou o licenciar-se, seria uma arma para o combate; não o troféu do combate.

Assim passaram-se os dias e as noites que se seguiram ao que se descreveu linhas acima. Aqueles pensares chegavam e saíam como as ondas do oceano, ora fortes e devastadores; ora suaves e percebidos apenas pelos sussurros dos seus movimentos; ora rebentando nas pedras, esmiuçando as quimeras e tornando em pó as formulações e os intentos que vicejavam por alguns minutos ou, quando muito, por algumas horas, para depois serem esfarelados como os barquinhos de papel engolidos pelas águas espumosas das quais não consegue escapar ou ainda, feitos nada, como os castelos de areia tão cuidadosamente construídos nos muitos instantes de solidão e nos remoeres dos anseios de se obter as ferramentas para a tão necessária inserção social. Eram dias que insistiam em não começar, entre noites que teimava em não terminar; as tardes quentes e lentas, como que arrastavam os pés, como aquele que não quer chegar, pelo menos, não quer chegar logo ao fim, para assim, vir a noite e com ela a insônia, aquela dama que insiste em não arredar dali, pelo menos, enquanto o dia seguinte não se aproximar. Aquele ciclo acabava por devastar os nervos, os ânimos, as vontades, as possibilidades... Mas, a teimosia, esta, também impertinente, não arredava do seu posto de observação; vigiava cada movimento; cada mudança de rumo ou de humor; tomava nota de cada pensar em desistir; marcava com cores vivas cada querer voltar atrás!... Ah, a teimosia... a teimosia... aquela velha senhora que parecia inquebrantável em seu propósito de não permitir recuos, nem mesmo aqueles recuos pretensamente estratégicos... Ela, ela não admitia nem ele, pois, via uma espécie de escusa para desistir..

Pois então, fora exatamente a teimosia quem insistira para que José Mário, mesmo não acreditando ter qualquer chance, de acordo com a leitura que fizera dos gabaritos que consultara, esperasse e ficasse atento à divulgação do resultado do vestibular e, claro, fosse conferir a lista dos aprovados, até para ter a certeza de que nela o seu nome não estaria elencado. Ouvinte de rádio desde a sua meninice, sendo aquele o único veículo a que tinha acesso, sabia que havia uma seção do “Balanço Geral”, então apresentado por Fernando José (1943-1998), na qual as manchetes dos principais jornais de Salvador eram destacadas, atentava a cada manhã, para aquela parte do programa, com o fito de saber quando sairia a manchete dando conta de que a Uneb divulgaria o resultado daquele vestibular em que ele era um dos postulantes; em anos anteriores, algumas rádios até divulgavam nominalmente as listas de aprovados, sobretudo, nos cursos socialmente mais importantes: Medicina, Odontologia, e Direito, para os quais o glamour tanto da mídia quanto das famílias dos aprovados era já de conhecimento público. Ele não esperava tanto, no que respeita à curso de licenciatura, da Universidade do Estado da Bahia e, ainda menos, da Faculdade de Formação de Professores de Alagoinhas. Mas, conseguir saber que aquele resultado saíra e, em qual jornal procurar, já seria um grande avanço, pois assim, saberia, se sim ou se não, se não ou se sim. E, assim foi.

Ao levantar de mais uma daquelas longas noites insones, Poucos antes das seis daquela manhã de sexta-feira que antecedera o carnaval de 1986, José Mário ligara o rádio e passara a ouvir o “Balanço Geral” programa diário veiculado pela Rádio Sociedade da Bahia (AM) – “ Balanço total, o que deu no Jornal” dizia a vinheta, gravada  com a inconfundível e belíssima voz de oton Carlos (1957-2020). Atentamente, ele escutava Fernando José lendo as manchetes do “Bahia Hoje”, do “Jornal da Bahia”, da “Tribuna da Bahia” e, por fim, anunciava “as manchetes do Jornal A Tarde”: “[...]. Sai o resultado do vestibular da Uneb [...]”... José Mário nada mais ouviu; engoliu o café e correu para a rodoviária, pensando encontrar ali um dos seus irmãos, que atuava como fiscal de transportes, para que lesse o jornal e visse a lista dos aprovados que ali estava publicado . Não o encontrando, criou coragem, procurou vencer a timidez – na verdade, era o medo de não se achar elencado naquela lista – se encaminhou para uma banca de jornais e, pediu ao jornaleiro que, por gentileza, lesse a lista dos aprovados em História...

- “Mas, olhe, não precisa ler tudo não... Basta ler aqueles aprovados com o nome iniciado pela letra J”...

José Mário engoliu o choro, ao ouvir o seu nome... Pediu que lesse outra vez.... De novo, engoliu o choro, agradeceu e saiu, procurando conter as lágrimas, que queriam lhe irromper das órbitas... Com o coração aos saltos, ele entra no ônibus e, desce na Praça Ruy Barbosa, para se dirigir até a rua Benjamin Constante, onde se situava a residência do Pastor Jessé, aquele que propiciou o recurso para que pudesse pagar a sua inscrição, para lhe dizer que... passou! Nunca ele choraria em público, daquele jeito, sem ... procurara estancar o pranto, antes de bater à porta que logo se lhe abrira e, largara a informação para o amigo, como se ... e veio o abraço... O abraço de quem se comprazia com aquela notícia e.... saindo de diante dele, deixou que rebentasse o ribeiro, sem receios ou vergonhas de quaisquer natureza. Era o extravasar de uma etapa percorrida e, mesmo contrariando o seu próprio diagnóstico, concluída com êxito.

 

Alagoinhas – 11 de janeiro de 2026 – verão brasileiro

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 4 de janeiro de 2026

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte XIV.

28 de janeiro de 1986 – as provas – V.

 

 

O arrazoado que se encontra diante de quem se disponha a percorrer as suas linhas, começa a evocar a proposição desenvolvida pelo Historiador francês Jacques Le Goff (1924-2014), com o fito de sustentar os elementos que aqui serão evocados, no sentido de dar curso ao tema que há algumas semanas se vem desenvolvendo. Em sua “História e Memória”, saída no Brasil em 1992, depois de fazer um completo arrazoar sobre os diversos traços de que se constitui a relação entre a “História” e a “Memória, Le Goff assevera que “A memória, onde cresce a história, que por sua vez a alimenta, procura salvar o passado para servir o presente e o futuro. [...]” (LE GOFF, 1992, p. 423). É em tal sentido que, ao se levantar as já espessas camadas de sedimentos muito fragmentados de quem rememora, tem sido evocada a memória de situações e circunstâncias vividas em um tempo que já está assentado em um passado que ainda não passou de todo – no dizer de Henry Rousso –, pois os seus diversos desdobramentos ainda são sentidos por tantos quantos as atravessaram. No dizer de Paul Ricöeur (1913-2005), “[...], sentimos e sabemos que alguma coisa se passou, que alguma coisa teve lugar, a qual nos implicou como agentes, como pacientes, como testemunhas. [...].” (RICÖEUR, 2007, p. 70).

É assim que, para reforçar a importância da memória para a História, a ideia de “lugares de memória” é bem ilustrativa para melhor se compreender aquilo que se vem arrazoando ao longo desta série de textos. Conforme se vem salientando ao longo destes garatujares, os espaços onde se dá um determinado evento individual ou coletivo, podem funcionar como desencadeador de memórias; também, há “lugares” que, nem sempre são criados para um tal fim – embora que outros, deliberadamente, podem sê-lo –, acabam por se tornar um “lugar de memória”, na medida em que, ao voltar alguém a percorrer salas, corredores e outros elementos concretos de um espaço dado, inúmeras lembranças podem vir à tona, espontaneamente ou não, fazendo com que aquele que estando ali, se lembra, possa refazer um circuito completo de acontecimentos, situações e/ou circunstâncias vividas naquele “lugar”. Os exemplos são abundantes. Para ilustrar, se pode citar as catedrais; as necrópoles; os diversos tipos monumentos aos mortos, ao soldado desconhecido; os prédios onde eram praticadas as seções de torturas – com a exceção dos “monumentos”, quase nenhum dos exemplos apontados, foi construído com a finalidade de ser um “lugar” de memória. No entanto, aqueles que foram vítimas das torturas perpetradas pelas forças da repressão, acabam por constituí-los como tais. Exemplo similar é o espaço onde funcionou o Centro Integrado Luíz Navarro de Brito, onde José Mário fez todo o seu processo formativo. No entanto, para ele, é um “lugar de memória” por excelência. Ali, no prédio onde estava instalada a direção, por sinal, ele realizara as provas por meio das quais, intentava inserir-se em mais uma etapa daquele processo que iniciara onze anos antes.

Portanto, conforme já é cediço através dos escritos anteriores, há pelo menos quarenta anos, José Mário, na ânsia de desenvolver o seu processo formativo, que teria o ingresso no ensino superior uma de suas etapas, buscava se apropriar de elementos propedêuticos que o permitissem fazer aquela transição, o que levaria a uma completa mudança de rumos do seu caminhar. Daí o estado de apreensão e ansiedade que vivenciara  naquela tarde em que, levado pela curiosidade e, mais do que isto, pelo desejo mesmo de saber qual teria sido o seu desempenho em relação aos conteúdos que julgara estar mais preparado, vindo a noite, o  encontrar desalentado, com o espírito tanto abatido, quanto reflexivo, sobre o continuar ou o recuar naquela caminhada que já lhe parecia perdida. E, com tantas interrogações a fervilhar naquele cérebro em ebulição, o sono teimava em não se apresentar; quando o fizera, não fora reparador; se fizera intermitente, arredio e, sobretudo, apenas o fizera mediante o cansaço do corpo que reclamava repouso.. Tendo enfim conciliado o sono, o fizera resoluto de não se dirigir ao local das provas, no terceiro dia de sua realização.

Assim, a manhã seguinte àquela tarde de conferência de gabaritos e à noite turbulenta e quase insone, o vestibulando despertara de um susto; em um raiar de dia que não ouvira o gorjear dos pássaros; nem aspirara os aromas matinais; despertara, porém sem o ímpeto dos dias anteriores, desfizera a resolução tomada antes de adormecer; levantara de um salto e se dirigira ao banho; tomara café e saíra. Na verdade, sem pressa; sua esperança era que não conseguisse chegar antes do fechamento dos portões; perderia, não por deliberação que beirava a covardia; mas, por não alcançar em tempo hábil o local das provas do último dia; aquelas que, dependendo do seu desempenho, o levaria a se fazer aprovar para o curso pretendido. Chegara. Talvez, houvesse sido o último a entrar no espaço das provas; tivera a impressão de ouvir o portão ser fechado logo após a sua entrada. Acreditara que, mais um minuto e, estaria fora do grupo que concorreria à vaga de História.

Mas, uma vez mais diante do material a ser lido e respondido, acomodado na sala da direção do “Estadual”, passara a se aplicar em interpretar os textos em Braille que estavam sob os seus dedos; atentara para a formulação das questões, temendo não as compreender corretamente e, por via de consequência, não as responder adequadamente. Ali, diga-se de passagem, ele tomara contato pela primeira vez, com questões de geografia que fugiam àquela que aprendera e que encontrara nos diversos livros que lera. Nada – ou quase nada – de relevo, hidrografia,, nem questões atinentes àquilo que depois veio a saber serem do campo da “Geografia física”. Questões como distribuição de renda; progressão aritmética ou geométrica de populações; densidade demográfica...; questões que, como foi dito em relação ao primeiro grupo, viera a saber se tratar de geografia econômica ou humana... Nem é preciso dizer que tudo aquilo era do seu inteiro desconhecimento; as respostas foram dadas por dedução – nem sempre lógica –, que o levara a perder pontos preciosos no computo geral do gabarito; era assim que lhe surgiam, a cada nova página lida, a cada questão que procurava resolver, novidades que lhe não foram apresentadas ao longo de todo o primeiro grau, nem mesmo no segundo.

Deste modo, ao final do turno de provas, José Mário se encontrava física e mentalmente exausto e, ao remoer as respostas que dera – como aliás, era do seu feitio, desde os tempos escolares –, ficara cada vez mais descrente de uma aprovação naquele certame. Nele, o bravo estudante descobrira, a cada linha lida daquele caderno de provas, o quanto estava desprovido de leituras e de conteúdos escolares, para fazer frente àqueles outros concorrentes, mais bem providos de acúmulo propedêutico e mais preparados para aquele tipo de enfrentamento. Talvez, aquele certame não tenha sido pior para ele, pelo fato de todo o material necessário para a sua realização ter sido transcrito em Braille e, ele não ter precisado lidar com ledores semianalfabetos ou analfabetos funcionais, o que dificultaria ainda mais a mobilização da sua já parca provisão de recursos intelectuais e a sua pequena quantidade de conteúdo para dar provisão àquela empreitada. Ah, como ele aguardara aquela tarde, como sendo o instante de dormir o sono reparador, aquele que não alcançara na noite anterior!

 

Alagoinhas – 04 de janeiro de 2026 – verão brasileiro.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 28 de dezembro de 2025

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte XIII.

27 de janeiro de 1986 – as provas – IV.

 

Em mais um escavar de profundas camadas de memórias já pretéritas,  se pretende trazer à público, um outro feixe de sedimentos de um tempo em que eram envidados esforços para que José Mário se pudesse imiscuir em um processo formativo que o preparasse para a interação necessária com o viver cotidiano. Aquele era um tempo em que as assim chamadas “tecnologias assistivas” nem ao menos eram cogitadas – os primeiros cegos começavam a ser inseridos no processo de programação computacional de grande porte mas, ainda assim, sem autonomia –; o que se tinha e, mesmo assim, com grande defasagem no que tange à sua abrangência e ao alcance de tantos quantos delas viessem a necessitar, era a já velha e carcomida “tiflologia”, que, apesar do termo aparentemente pomposo, nada mais era do que o modo como as pessoas cegas podiam se acercar dos meios de escrita e leitura comuns, para que assim, conseguissem prosseguir no seu intento de se fazer formadas e, sobretudo, aptas para a inserção no mercado de trabalho, ao menos, em tese. Não custa salientar, portanto que, no tempo em que José Mário se esforçava por ingressar em um curso de nível superior, ele só contava com a sua Reglete e o seu Punção para a escrita em Braille – para o seu próprio uso –; com a sua bengala para realizar os deslocamentos; com uma máquina de datilografia comum, para a sua interação com professores e os demais com os quais precisasse se comunicar por escrito. Para José Mário tomar contato com aquilo que mais tardiamente veio a ser chamado “tecnologia assistiva”, bem como iniciar as relações com ela, em seus primeiros rudimentos bem primordiais, foi preciso esperar ainda uma década. É assim que, ao intentar trazer à lume fragmentos de memória prospectados em suas mais profundas camadas há muito encobertas pelo passar do tempo e pelo acúmulo de tantas outras que se sobrepunham àquelas, se pretende que, uma vez ressignificada e saída do silêncio em que estivera, possa então se tornar História, conforme postulam Le Goff (1992), Ricöeur (2007), Bosi (1994), Fernández (1996), Traverso (2012), já amplamente citados nestes arrazoados.

Conforme se escreveu quase ao final dos garatujares anteriores, José Mário, não obstante a sua necessidade de descansar daquela manhã puxada que fora o segundo dia de provas, fora superada pelo desejo de saber qual teria sido o seu desempenho nas provas do dia anterior, o que lhe obrigaria a apelar para os filhos do vizinho, a fim de que um deles se dispusesse a ler o gabarito que houvera sido publicado no jornal A Tarde daquela segunda feira. Assim pensando, pouco depois do almoço, tendo dado um tempo para que o “feijão” se ajustasse ao processo digestivo, tímida e cautelosamente, ele se dirigira à casa de Seu Augusto e, não sem fazer algum esforço – embora aqueles rapazes  fossem seus velhos conhecidos de conversas, brincadeiras no quintal e piadas “ao pé do poste” –, lhes indagara se o jornal A Tarde havia sido  visto ali, naquele dia. Diante da resposta afirmativa, ainda mais intimidado, indagou se alguém lhe poderia ler o gabarito das provas do vestibular, para que ele o pudesse copiar... Pronto. Desafortunadamente, estava entregue o segredo que ele tanto guardara e, que só por necessidade – para não dizer extrema curiosidade – acabara por dar a conhecer àqueles vizinhos de muitos anos e travessuras. Afinal, aquele fora um segredo que José Mário intentara ocultar, mesmo daqueles seus velhos companheiros de infância, de subidas em pés de manga e de jáca, de brincadeiras de “cowboy”, de assistências de “Viagem ao fundo do Mar”, de programas como os de “Chico City”, entre outros folguedos de tempos em que se brincava na rua e, muitos daqueles brincares só eram viabilizados coletivamente, e que  se assistia programas de televisão no mesmo espaço, na mesma sala e no mesmo aparelho, um “Colorado” em preto e branco, como era o que jazia naquela casa. Era um segredo que só fora dado a conhecer a aqueles de quem não era possível ocultar, pois, era uma empreitada que sozinho, ele não poderia enfrentar. Mas, não fora aquela necessidade de apoio para a sua consecução, nem os amigos mais próximos, nem a sua mãe e, ainda menos, os seus vizinhos mais achegados, ficariam sabendo de sua sorte: a menos que viesse a lhe ser favorável.

Assim, entre constrangimentos e mal disfarçadas surpresas, o gabarito foi lido por um deles – ou por uma delas, a esta altura, não há clareza no rememorar – tendo ele copiado as alternativas que deveriam ter sido marcadas para se configurar os acertos. Terminada que fora a leitura, ele se retirou daquele espaço, inegavelmente desapontado, para se mergulhar outra vez no seu refugiar costumeiro. Se recolhera para remoer o desapontamento que sentira ao perceber que não houvera alcançado o desempenho que acreditara teria tido. O número de alternativas acertadamente marcado, não lhe dera qualquer certeza de desempenho que redundasse em aprovação. Diversas vezes pensara em sequer se apresentar para o último dia de provas; se, naquela para a qual ele se acreditava mais preparado, houvera tido um desempenho tão abaixo do seu crivo, o que seria da segunda leva de provas, para a qual, efetivamente, ele não dispunha de qualquer preparo, ao menos para não “zerar”? Se não se saíra bem naquelas provas do primeiro dia, teria se saído ainda pior, naquelas que há poucas horas acabara de fazer.

Mergulhado naquele pensar, afogado naqueles cismares intermináveis e, embatendo-se em decisões que não se arredavam daquele cérebro em que cabriolavam, ora com força de afirmação do seu não comparecer para a realização da última leva de provas; ora, ao contrário, lhe gritava ser uma decisão covarde, o que lhe fazia rever o decidido minutos – para não dizer segundos – antes; fazendo e desfazendo a mesma decisão, conforme a força da tempestade que se abatia no seu interior, José Mário passara aquele resto de tarde entre avançar e recuar de uma caminhada que já fazia há alguns meses, que já ultrapassara alguns obstáculos, que já estava se encaminhando para os últimos metros do seu percurso.

Foi assim que aquela noite o encontrou. Não saíra do seu refúgio, a não ser para comer. Isto ele fizera cabisbaixo e sem se dispor a dizer para a sua mãe que não iria para o dia seguinte das provas. Depois, procurara conciliar o sono. Este, teimoso e resistente, custara a vir. E, se veio, o fizera de forma picotada; também trouxera consigo aqueles pesadelos de quem se faz acompanhar, quando o que o quer por perto se encontra agitado e embatendo-se consigo mesmo, quer, não quer e, ato contínuo, volta a querer. Mas, o que ele não recuperara mesmo, quer no seu ímpeto, quer em um misto de medo e resistência à ideia de recuo, foi o ânimo. Ele, ao que parecia ao insone e alquebrado vestibulando, arrefecera e, por isso mesmo, deixara de lhe servir de combustível para insistir em palmilhar aquele último pedaço de caminho que se lhe apresentaria para ser percorrido no dia seguinte àquela noite, muitíssimo mal dormida.

 

Alagoinhas – 28 de dezembro de 2025 – sexagésimo quinto verá brasileiro, vivido por quem traceja estes garatujes.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 21 de dezembro de 2025

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte XII.

27 de janeiro de 1986 – as provas – III.

 

Conforme se vem salientando ao longo dos arrazoados aqui propostos, a memória – tanto aquela ligada ao indivíduo, quanto a que se manifesta a partir do conjunto dos indivíduos –, quando ainda não monumentalizada, no dizer de Jacques Le Goff (1924-2014), está sujeita a ressignificações a partir do presente, sem, contudo, perder aquilo que mais interessa ao pesquisador, que é o fato de saber que, o que foi dito por aquele que se lembra, de fato aconteceu, conforme assegura Paul Ricöeur (1913-2005), quando diz que não se tem nada melhor para dar a conhecer um determinado evento, se não a memória do indivíduo que lembra.  É nesta perspectiva que se continua a buscar na trajetória de José Mário, a memória daquele passado em que ele estivera envolvido em seu esforço para dar continuidade ao processo formativo que, de acordo com o que pensava, dar-lhe-ia o ferramental de que necessitava para que, entre outras coisas, pudesse prover a si e aos que por ele viessem a ser arrimados. É assim que, ao desenvolver estes garatujares, se tem procurado realizar incursões nos sedimentos das diversas camadas da memória, sob as quais se encontra o passado que se tem procurado trazer ao crivo de tantos quantos tenham tido a paciência de os ler. Faz-se ainda mister ressaltar de passagem que, os rememorares que vem sendo trazidos nestas postagens, estão sustentados no princípio postulado por Le Goff, em obra de 1996, publicada no Brasil sob o título de “História e Memória”, originalmente publicada em formato de verbetes, quando ao final daquele em que discorre sobre a memória, crava uma espécie de resumo de todo o seu trabalho em fazer o leitor entender o que é e para que serve a memória, afirmando que: “A memória, onde cresce a história, que por sua vez a alimenta, procura salvar o passado para servir o presente e o futuro. [...].” (LE GOFF, 1996, p. 477). 

Naquela última segunda feira de janeiro de 1986, dia em que José Mário realizaria o segundo bloco de provas necessário para continuar a sua caminhada pelo vestibular, como o fizera no dia anterior, acordara ainda cedo, talvez dia já claro, mas, ainda não nascido de todo, erguendo-se e dirigindo-se ao banho e ao café, depois, vestindo-se e deixando a residência para alcançar o ônibus que, por ser uma segunda feira e, havendo grande movimentação de pessoas para a rodoviária, a fim de alcançarem o transporte que os levaria aos locais/lugares de trabalho, o coletivo urbano iniciava a circulação por volta das quatro da manhã – horário que, aliás, ele já conhecia bem –, sendo então provável que conseguisse embarcar naquele que iria para a rodoviária, o que permitiria desembarcar próximo do hospital Dantas Bião, de onde seguiria a pé em direção do Estadual, que não ficava longe dali e, chegaria em um horário compatível com o momento da abertura dos portões, quando todos ingressariam no espaço em que realizariam aquelas provas. Convém chamar a atenção de quem percorre estas linhas, que a Alagoinhas em que se passam os eventos aqui rememorados, era uma cidade que não oferecia muitas oportunidades de empregos formais aos seus munícipes, o que forçava a saída daqueles, em busca de outros centros urbanos – como Catu, Camaçari e Salvador –, onde pudessem encontrar as oportunidades de trabalho que por cá eram limitadas ao comércio varejista e ao setor de transportes  - urbano e rodoviário -, muitas vezes, incompatíveis e/ou insuficientes para atender à necessidade da grande maioria daqueles que estavam aptos para ingressar no mercado de trabalho. Isto explica, ao menos em parte, a grande pressão exercida sobre o sistema de transportes local, o que forçava o aumento da oferta de horários, tanto no setor urbano, quanto no rodoviário, que permitisse atender ao que era demandado por uma população que era obrigada a se deslocar do seu lugar de moradia, em busca de alcançar o sustento diário para si e para os seus.

Voltando a falar de José Mário em sua empreitada no intento de se fazer imiscuir no ensino superior, saliente-se de passagem que, não obstante a tensão vivida no primeiro dia e o cansaço decorrente do longo tempo que precisou empregar para completar todo o processo de leitura, reflexão, marcação das alternativas, além da escrita da redação, José Mário se mantivera firme na sala onde aqueles procedimentos foram realizados, aproveitando todo o tempo que lhe fora disponibilizado para tal e, só deixando o Estadual por volta do meio dia e meio, naquele segundo momento, por volta das sete horas da manhã seguinte, ele já lá se encontrava, pronto para enfrentar, mais aquela jornada de provas.

No entanto, para ele, aquele era o momento mais difícil do certame a que se propusera a enfrentar. Ali, José Mário estava diante de matérias cujos temas e proposições, ele pouco ou nada sabia – mais nada do que pouco, diga-se de passagem –, visto que, conforme já foi apontado em postagens anteriores, aquelas que eram as chamadas “ciências duras” – ou, como se diz hoje, “ciências Naturais e da Terra” –, quase não foi por ele aprendida, embora todas elas – ou quase todas – tenham sido regularmente cursadas. É de bom alvitre ressaltar que, em tais matérias, José Mário fora aluno de bons professores, tais como Antônio Fagundes, Zenildes  e Maria do Carmo, nas matemáticas; o professor Aristóteles, em física; o professor Benedito, em biologia; também era bom o professor de Química... Portanto, o nada ter aprendido de tais matérias, não se devera aos professores que ele tivera; mas, sim, a ele mesmo, que não possuía aptidão, disposição ou mesmo  interesse nelas. Para reforçar a inaptidão e o desinteresse, cumpre apontar o escasso acesso aos livros que delas tratavam, embora, alguns deles estivessem transcritos em Braille, como a Química de Antônio Lembo, a Física de Bonjorno, os professores mencionados acima, não os adotava como sendo o seu material de trabalho, o que dificultava ainda mais a feitura de qualquer esforço por parte daquele aluno, no sentido de melhor compreender ou, quando menos, apreender os rudimentos mais basilares daquelas ciências, ao menos, para não se dar tão mal em um certame como aquele, onde havendo classificação, tal se daria de acordo com a pontuação geral obtida.

Entretanto, ele ali precisaria estar para enfrentar aquelas questões que estavam sob os seus dedos, que, até mesmo os enunciados lhes eram pouco compreensíveis. O que precisaria fazer então, era evitar zerar qualquer uma daquelas provas, sob pena de desclassificação sumária do certame. Talvez, por isto mesmo, a tensão naquele segundo dia fosse ainda maior do que a do primeiro, exatamente porque, sequer saberia qual a resposta que não seria a correta, dentre as quatro possíveis, inseridas em cada questão proposta. Desta maneira, as provas seriam respondidas de modo alheio a qualquer processo de aprendizagem das matérias que estavam sendo apresentadas como sendo uma forma de aferir o que aquele aluno aprendera em todo o seu processo de escolarização. Era sim, um esforço para que nenhuma daquelas provas tivesse marcadas questões erradas em sua integridade, obtendo zero acertos, como já se disse, o que resultaria na perda de todo o certame!

Foi assim pensando que José Mário se dirigiu até a mesma sala onde estivera no dia anterior, para ali encarar aquela tarefa que lhe incumbia executar. Ao receber o material correspondente às provas que ele deveria responder naquele dia, procurara percorrer todas as suas páginas, no intuito de encontrar algum enunciado que para ele viesse a fazer algum sentido, visando alcançar o objetivo já acima indicado: não se fazer eliminar sumariamente daquele certame. Abrira sobre a mesa a tabela periódica que se encontrava anexa ao material; passeara com os seus dedos nas páginas e nos gráficos correspondentes à Física, não sendo, evidentemente, capaz de reconhecer ou responder quaisquer questões dali derivadas; talvez tenha encontrado na prova de biologia, alguma questão que pudesse tentar responder sem medo de  errar – embora não tivesse grande confiança naquilo – se demorando um pouco mais nelas, tomando-as enfim, como uma espécie de “tábua” de salvação, por meio da qual pudesse evitar o completo naufrágio. Tendo se debatido por algumas horas naquelas águas encapeladas, se deu por vencido e concluiu mais aquela cansativa jornada, finalizando o processo de marcação no gabarito, assinando a documentação que tivera de o fazer e, levantando-se e saindo para deixar o local, algo por volta das onze da manhã, chegando em casa na justa hora do almoço.

Mas, o desejo de descansar daquela manhã puxada, fora vencido pelo desejo de saber qual teria sido o seu desempenho nas provas do dia anterior, o que lhe obrigaria a apelar para os filhos do vizinho, a fim de que um deles se dispusesse a ler o gabarito que houvera sido publicado no jornal A Tarde. Grande era a sua timidez para realizar aquela operação e, ainda maior era o seu temor de se fazer saber vestibulando, na medida em que, até ali, só ele, a sua mãe e aqueles que lhe deram apoio, sabiam do seu intento.

 

Alagoinhas – 21 de dezembro de 2025 -  ainda primavera brasileira  (verão, daqui a três horas e quinze minutos).

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 14 de dezembro de 2025

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte XI.

26 de janeiro de 1986 – as provas – II.

 

Em conversa com um seu colega de ofício, este escrevente chamava à sua atenção para a desconfiança que aquele pesquisador, sempre manifesta em relação à “memória”, uma vez que, conforme ele assevera, a “memória” é inadvertidamente elevada à condição de verdade – claramente se trata de uma compreensão equivocada do nobre colega historiador -, visto ser ela passível de manipulações e inconsistências. Em contrapartida, ele eleva o “documento” à condição de maior confiabilidade, visto não estar mais sujeito aos interditos por ele anotados em relação à “Memória”. No entanto, Jacques Le Goff (1924-2014), ao indicar que um “documento” é como que uma “monumentalização” de um momento histórico dado, permite inferir que, como tal e para tal ele foi produzido. Isto aponta para a ideia de que, embora ao chegar na mesa de trabalho do historiador algum tempo depois de produzido, portanto, impossibilitando – ou dificultando – a sua manipulação, dando uma aparência de objetividade, ele fora produzido por alguém, preservado para alguma finalidade, arquivado para que pudesse “testemunhar” de uma dada realidade, aquela que o fizera o seu autor – ou autores  - e, sobre eles uma sociedade, uma circunstância ou uma instância dada, fizera pressão para que fosse produzido. Logo, não só é preciso desconfiar da “memória”, sujeita em última instância, a aquele que lembra; mas, de igual modo, se faz necessário desconfiar de qualquer “documento”, considerando-o permeado de subjetividades intrínsecas ou extrínsecas a ele. Há um monumento deste tipo, por exemplo, que conta a “conversão de Constantino” ao “cristianismo”, que indica tal haver se dado, após um “sonho com a cruz” e, a garantia de que “por aquela cruz”, ele venceria. Tal vitória teria se dado e, como “cumprimento” da promessa feita pelo imperador romano que, caso de fato vencesse a dita batalha, se tornaria um “cristão”, torna o dito cristianismo a “Religião” oficial e única do império. Ora: quem escreveu o tal relato? Para quem e por que o escreveu? Parece mais uma justificativa forjada para explicar a romanização do cristianismo até então perseguido pelo próprio Constantino; fica-se com a impressão que é um texto feito para aplacar qualquer questionamento a respeito do modo como se deu a “cristianização” do paganismo romano, sem que se fizesse qualquer exigência, tal como o “crer” e o “se arrepender”, o que proporcionaria o  “Novo Nascimento”, por exemplo, uma prerrogativa inerente à conversão. Tal prerrogativa, evidentemente, não é contemplada pelo decreto imperial. Ora: por que a “narrativa” documentada ou, no dizer de Le Goff “monumentalizada” pôde ser tomada como “verdade” ao longo dos séculos e, a “memória”, ainda que sujeita à falhas, inconsistências e/ou descontinuidades, não pode ser tomada, ao menos,  como parte de uma “verdade?

Conforme assevera Maurice Halbwachs (1877-1945), “[...]. A sucessão de lembranças, mesmo as mais pessoais, sempre se explica pelas mudanças que se produzem em nossas relações com os diversos ambientes coletivos, ou seja, em definitivo,  pelas transformações desses ambientes, cada um tomado em separado, e em seu conjunto” (HALBWACHS, 2003, P. 69). Isto quer dizer que a “memória” não é estática, portanto, passível de ressignificações, ao contrário do “documento” que é “monumentalizado”, em sentido estrito, não mais sujeito à manipulações, adequações e inserções, pois tal já fora feito, quando da sua produção e/ou arquivamento. Logo, ambos devem ser constantemente interrogados, pois, como já é cediço, não falam por si.

Assim sendo, é uma vez mais, através das lembranças levantadas de um tempo que já vai remontando a algumas dezenas de anos, que este garatujador tem procurado trazer aos seus fiéis leitores, algumas facetas do caminhar de José Mário. Nelas, o rapaz é percebido como quem precisa constantemente embater-se contra obstáculos os mais diversos, com o fito de empreender o seu processo de escolarização e, nos arrazoados que até aqui vem sendo desenvolvidos, ele aparece enfrentando as intempéries de se imiscuir no processo de formação superior.

Conforme já se apontou em páginas anteriores, tendo saído de casa por volta das seis da manhã e, tendo percorrido a pé todo o trajeto que o levaria ao seu já bem conhecido prédio do “Estadual”, José Mário chegara ao local das provas um pouco antes do horário da abertura dos portões. Ali, já se encontrava um bom número de outros vestibulandos, que, por certo, também estavam ansiosos pelo momento que ingressariam nas respectivas salas, receberiam o caderno com as questões que precisariam responder, no prazo pré-determinado de cerca de quatro horas, tempo em que, além das respostas às questões propostas, também precisariam desenvolver uma redação, por meio da qual discorreriam sobre um tema indicado e, que, por meio dela, precisariam demonstrar a coerência e a consistência da exposição de ideias, bem como, seriam avaliados em sua capacidade de realizar uma discussão através de  um texto com uma ordenação lógica e exposição escrita de um pensamento concatenado.

Quando enfim foram abertos os portões e autorizado o ingresso dos candidatos ao recinto onde tomariam parte do tão esperado primeiro dia do certame que poderia lhes abrir vagas para os cursos de licenciaturas ofertados na Faculdade de Formação de Professores de Alagoinhas, algumas centenas deles se dirigiram às salas onde estavam alocados. José Mário, enquanto se dispunha a fazer o mesmo, de posse do seu cartão de identificação, acabou por ter o seu caminhar interrompido por pessoas ligadas à organização do certame, que o conduziram a uma sala no prédio onde funcionava a direção e a biblioteca daquele estabelecimento de ensino, onde, segundo fora informado, ele ficaria para desenvolver a sua atividade avaliativa, uma vez que, ele utilizaria máquina de datilografia comum, o que poderia acarretar em desconforto para os demais avaliados, devido ao barulho da dita, que poderia dificultar a concentração dos demais. Além disto, pelo fato de o material estar impresso em Braille – o que aliás foi um ganho inestimável –, o mobiliário estudantil existente nas salas reservadas para a realização das provas, talvez dificultasse o manuseio do material.

Portanto, José Mário ficou alocado na sala da direção, acompanhado de uma funcionária para oferecer suporte, quando necessário. Ali, ele teve diante de si e sob os seus dedos, o caderno de questões propostas para a prova de língua portuguesa, de literatura, de língua estrangeira – por acaso e por presunção, o francês fora a língua por ele escolhida, visto possuir pequenos rudimentos adquiridos ainda na quinta e na sexta séries, cursadas ali mesmo –, bem como algumas questões que compunham a prova de redação, além do tema sobre o qual ele deveria dissertar.

Depois de ter procurado ler com atenção cada enunciado; depois de ter procurado responder as proposições de acordo com aquilo que entendera ter aprendido e apreendido acerca das matérias postas à prova; depois de se esforçar por interpretar os trechos de obras e autores inseridos como mote para as questões propostas; depois de procurar intercalar a sua compreensão com a elaboração de respostas plausíveis e, de pretender demonstrar a sua compreensão do que lera, por meio das aplicações feitas no formato de escolha de uma das sentenças dentre cinco delas, dispôs-se a discorrer sobre o tema que fora proposto para a elaboração de um texto dissertativo: “A Televisão como janela para o mundo”, proposição com a qual divergira por todo o escrito, talvez, influenciado pela sua condição de cegueira, que o fazia não entender que a “televisão” tivesse um tal papel, bem como, pelo seu pertencimento a uma instituição religiosa que “reprovava” a posse e a utilização daquele instrumento “perigoso” para a fé – ainda que apenas retoricamente –, que poderia desencaminhar aqueles que a tivessem como norteadora de modo de agir e de pensar.

De toda a sorte, ele estribara-se na perspectiva de que aquele meio de comunicação seria capaz de direcionar – para bem ou para mal –, a construção social de um pensamento hegemônico fundamentado quase que exclusivamente nas imagens – muitas vezes manipuladas para alcançar os objetivos de seus formuladores –, limitando a construção de um pensamento plural, tirando partido daquele modus operandi, com objetivos nem sempre consoantes à construção de um processo social baseado no equilíbrio e na equidade. É claro que ele temera muito por ter divergido daquilo que acreditava ser a forma dominante de pensar que o propositor do tema viesse a querer que fosse, por assim dizer, referendado, não obstante o seu receio – que posteriormente se mostraria infundado –,José Mário não recuou um único milímetro daquilo que se propusera a dissertar sobre o tema ali proposto.

 

Alagoinhas – 14 de dezembro de 2025 – primavera brasileira

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 7 de dezembro de 2025

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte X.

26 de janeiro de 1986 – as provas – I.

 

Em mais um arrazoado construído a partir de fragmentos de memórias de um tempo já pretérito que ainda não se fez passado já passado, uma vez que os seus sedimentos ainda podem ser escavados nas diversas camadas que compõem a memória, este escrevedor traz a tantos quantos se dignem a ler as linhas que se seguem, mais um tratado em que o caminhar de José Mário se faz reconstruir, ainda que fragmentariamente, apontando para o seu empreendimento no concurso de pavimentar o caminho que o leve a ingressar no ensino superior, com vistas a uma busca por implementar um processo formativo que lhe dê as ferramentas de trabalho no campo do ensino, bem como as condições de sua inserção econômica e social. Conforme assevera Paul Ricöeur (1913-2005), “[...] a memória continua sendo a capacidade de percorrer, de remontar no tempo, sem que nada, em princípio, proíba prosseguir esse movimento sem solução de continuidade. É principalmente na narrativa que se articulam as lembranças no plural e a memória no singular, a diferenciação e a continuidade. [...]” (RICÖEUR, 2007, p. 108). Este escrevedor procura desenvolver os tratados que constrói a partir da memória, tomando a proposição acima transcrita, como fundamento basilar em que se estriba.

Era chegado o domingo, dia em que José Mário estaria pela primeira vez, diante de um certame em que igual a um bom número de outras pessoas, faria um conjunto de provas por meio das quais, sendo aprovados, ingressaria em um curso superior, ministrado por uma entidade pública de ensino. Portanto, se aproximava a hora em que tudo aquilo que buscara aprender – ou revisar; ou ainda, reaprender – durante todo o tempo transcorrido entre o dia em que fizera a inscrição para se habilitar a participar do desafio que era, sobretudo para ele, o intento de se fazer imiscuir entre os aprovados e, o momento em que se daria o combate pelas quarenta vagas no curso de licenciatura em História, seria posto à prova.

A noite anterior àquele 26 de janeiro foi de sono agitado, iniciado ainda cedo, quiçá antes das vinte e uma horas; noite longa, quase interminável; madrugada que se fazia arisca e, não chegava; alvorada marcada pela algazarra alegre da passarada que parecia teimar em não se apresentar aos ouvidos atentos daquele quase insone rapaz; o cheiro do amanhecer que se fazia fugidio, esquivando-se do nariz que tanto esperava poder o aspirar e, finalmente, perceber que ali sim, era chegada a hora de se levantar. As horas que não dormira, foram marcadas pelos ruminares das últimas lições; foram inundadas por perguntas que não se conseguiria respostas: qual será o tema da redação: Qual será a modalidade da redação: será uma “dissertação”? Será uma “descrição”?... Assim pensava; mas também, procurava se esforçar por reconciliar o sono, visto que a manhã que tão ansiosamente esperava chegar, seria longa e, exigiria concentração, atenção e cuidado para melhor apreender a leitura das questões, compreender o que se cobrava do candidato a partir dos enunciados nelas propostos e, sobretudo, entabular as respostas com lógica e coerência.

Enfim chegada que fora aquela manhã, José Mário se pusera de pé; tomara sua ducha fria; se encaminhara para o café. Aquele, saliente-se, fora um tanto diferente do padrão de café, uma vez que, sua mãe, entendendo que ele teria que estar por toda a manhã envolto na tarefa de fazer as provas; e ambos, não dispondo de recursos que permitisse a aquisição de lanches ou frutas para enganar a fome, lhe pusera um apetitoso prato de feijão com mocotó que ela acabara de preparar ainda antes do nascer do sol, que ele, evidentemente, se deliciara com a iguaria, entendendo que aquilo seria, sim, suficiente para aguentar todo o tempo que teria de provas, visto, como se disse, não ter outra maneira de mitigar a fome, no caso de se apresentar antes que pudesse terminar a sua realização.

Desta forma, tendo terminado o “almoço antecipado”; tendo tomado a sua xícara de café, vestiu-se, apanhou os seus instrumentos de que se valia para execução daquele tipo de tarefa – máquina de escrever Olivetti; reglete e punção para escrita em Braille – e partira em direção ao local das provas, que seriam aplicadas no espaço do seu velho conhecido “Estadual”. Saíra pouco antes ou pouco depois das seis da manhã; solitário, como quase sempre o fizera, percorrera o caminho habitual que o levara para o Centro Integrado Luís Navarro de Brito por tantos anos; todos que ali cursara o primeiro e o segundo graus. Fizera o trajeto a pé, pois, por ser um domingo, temia não passar ônibus em um horário que lhe permitisse chegar por volta das sete, quando seriam abertos os portões, procurando assim, fugir de algum transtorno que o impedisse de ter acesso ao local das provas. Quase fardado e calçado no seu tênis do tipo Kichute, aquele mesmo  dos últimos anos do segundo grau, andara sempre seguro do que fazia e do porquê fazia aquele trajeto, que, embora seu já conhecido, nunca lhe parecera tão longo e o seu fim esperado, tão demorado de se completar.

Portanto, logo após se distanciar cerca de quatrocentos metros do seu espaço de moradia, atravessara a via férrea e depois, a precária ponte sobre o rio Catu, ali, ele andara sentindo todo o frescor daquela manhã de verão, quando o sol se apresentava mais condescendente com o viajor, sem contar com o aspirar dos muitos cheiros do longo caminho, até então, pouco transitado por automóveis; aquele Luís Viana quase interminável, ainda era um bairro residencial, que, em uma quase madrugada de domingo, se mostrava bem mais silencioso, permitindo que se pudesse ouvir os chilreares dos muitos pássaros que povoavam a grande diversidade de árvores que ali existia e os últimos zunidos daqueles bichinhos noturnos que se refugiavam nos arbustos que formavam a paisagem do caminho que José Mário percorrera confiante, ansioso e temeroso, a um só tempo. Assim, embevecido pelos cheiros diversos vindos das chácaras que floresciam aqui e ali, deixando exalar os seus aromas tão suaves em delicados fragores de verão, ao longo dos cerca de dois quilômetros que foram sendo percorridos, seguia ele, procurando relembrar os ensinos de língua e literatura que recebera até aquele instante que se aproximava o momento de testar o quanto ele os apreendera. Ele, saliente-se, estava longe de apreciar todo aquele conjunto sinfônico que aquela orquestra da natureza lhe oferecia enquanto caminhava mergulhado naquela preocupação que quase o fizera indiferente à tão assombrosa harmonia estacional que o Eterno generosa e graciosamente lhe propiciava.

Enfim, pouco antes das sete horas, ele já lá estava, juntamente com uma multidão de outros seus concorrentes, certamente de origens sociais, econômicas e culturais bem diversas, que aguardavam a abertura dos portões, para então, darem início à jornada para a qual se inscreveram e dispuseram a enfrentar. Talvez, alguns já se conhecessem de outras jornadas; outro tanto, se encontravam pela primeira vez; José Mário, por sua vez, não fora reconhecido nem encontrara ninguém que lhe fosse conhecido. Ao serem abertos os portões, todos, absolutamente todos se dirigiram aos seus respectivos locais de prova, sem qualquer atenção àquele que, tal qual eles, também procurava se dirigir à sala indicada no seu cartão de inscrição, para lá, tomar contato com as provas e buscar responder as questões nelas propostas.

 

Alagoinhas – 07 de dezembro de 2025 – verão brasileiro.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 30 de novembro de 2025

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte IX.

Janeiro 1986 – Às vésperas das provas – II.

 

Ainda uma vez, se apresenta mais um escrito fundamentado nas reminiscências do seu autor, para submeter ao crivo daqueles que se dignem a emprestar um pouco do seu tempo para percorrer as suas linhas. Conforme já se vem apontando há nove semanas, estes garatujares são frutos dos sedimentos arrancados das escarpas da memória de quem se lembra, para que ao trazer à tona os fragmentos deles derivados, se possa desenvolver os objetivos a que se propõe ao elaborar tais rememorares: construir um conjunto de escritos que deem testemunho de um tempo vivido. Conforme sustenta P. Ricöeur (1913-2005), “[...], o testemunho constitui a estrutura fundamental de transição entre a memória e a história” (RICÖEUR, 2007, p. 41). De tal testemunho se vem valendo este escrevedor para trazer à lume, algumas das facetas que envolveram o caminhar de José Mário em seu esforço para construir o seu jornalhar, quer enquanto estudante que se via necessitado de aprofundar o seu processo formativo escolar, quer enquanto cidadão que passara a entender ser indispensável ter uma formação concreta do ponto de vista profissional, se quisesse se fazer inserir no viver cotidiano do mundo à sua volta.

Em tal perspectiva, talvez se possa iniciar considerando que, o domingo que dera início à semana que antecedera àquela  em que José Mário se dirigiria ao seu velho conhecido “Estadual” para a realização do tão ansiosamente aguardado vestibular, marcara uma espécie de contagem regressiva em termos de finalização dos esforços envidados até ali, com o fito de buscar  desenvolver uma preparação para o enfrentamento de um certame para o qual, por conta das suas circunstâncias – algumas delas já apontadas em arrazoados anteriormente postados neste blog –, ele não estava em condições de o fazer. Conforme já se vem salientando, a sua defasagem propedêutica, nas diversas áreas do conhecimento que seriam demandadas no referido certame, era, em grande medida, notoriamente indisfarçável e,. cuja possibilidade de contornar, exigira dele, empenho, disciplina férrea e a busca de apoios daqueles com quem pudesse contar, tanto do ponto de vista material, quanto do ponto de vista intelectual e professoral, conforme se leu em escritos pretéritos.

Naquele terceiro domingo de janeiro, “comme d’habitude”, depois de se barbear, do banho e de tomar o seu café, José Mário deixa a sua residência, para dali se dirigir ao espaço onde passara a se reunir a “Assembléia de Deus”, cujo percurso talvez se compusesse de uns dois quilômetros, feito a pé. Após cerca de 50 minutos de caminhada no sol das oito e meia daquele levantar de verão, ali chegara para tomar parte da “Escola Dominical”, no entanto, sem estar ali, exceto o seu corpo, nem mesmo atentando para o que se dizia acerca da “lição”.

Ele, por certo, divagava em pensamentos irrequietos e, a cada momento mais distantes, quiçá, desejando imaginar o que se cobraria dele dali há mais um domingo, a respeito da Língua portuguesa e de sua gramática, dos autores, das obras e das “escolas”/estilos que compunham o vasto campo da Literatura brasileira; o que se lhe seria pedido para dissertar, descrever, criar, ou mesmo interpretar; como seria a prova de língua estrangeira? E as questões de História, Geografia, Ecologia... Ah!: e as de matemática, de física, química ou biologia, das quais ele pouco ou nada sabia? Fervilhavam no seu espírito, inúmeras perguntas para as quais ele sequer atinava haver respostas; e cabriolavam no seu cérebro situações e/ou circunstâncias para as quais ele imaginava rebentar diante de si, sem que houvesse como atinar para as resolver ou mesmo, remediar.

Como pode observar  o arguto leitor, José Mário se encontrava no interior daquele espaço de culto, ainda em processo de construção – ainda não havia piso: apenas o concreto; ainda não havia vitrais: apenas um grande espaço vazio nas suas janelas; até os bancos eram improvisados em madeira bruta, sem que houvesse como encostar – mas, os seus “sentidos” estavam dali distantes e, vagueavam bem longe dos ressoares das vozes que ecoavam naquele lugar, quer fossem as que cantavam, quer fossem as que proferiam confusas e uníssonas orações, ou, como já se indicou, nem mesmo aquelas que “ensinavam aquelas “lições””, como  que às apalpadelas. Pouco ou nada ele absorvera daquela atividade – mecanicamente desenvolvida, saliente-se, de passagem – tendo apenas concorrido para não se sentir “faltoso” ao culto, sem uma justificativa plausível. Dali saíra, conforme ali chegara; disperso, distante, reflexivo, sem qualquer “logro naquela empreitada matinal. Mas, o retorno para casa, sob o causticante sol do meio-dia, foi presidido pelo azorrague da fome. No entanto, o retorno à obrigação eclesiástica para o culto da noite, não foi diferente. Cumpriu-se o rito, até se imiscuiu na liturgia. Porém: dali estava distante, como na manhã descrita.

A manhã e todo o dia da segunda, do mesmo modo como transcorreu por toda aquela semana iniciada no domingo dezenove, foi de intensificação dos estudos, bem do mesmo modo que foi marcada pelo avultar da  ansiedade, pela realização das últimas leituras avulsas e solitárias, bem como, com as últimas lições de gramática e literatura. Nelas não era possível ir longe nas divagações – embora houvesse alguns lapsos de fuga dos pensamentos –, visto que a necessidade de melhorar o seu conhecimento das matérias, o obrigavam a voltar para o lugar onde a atenção lhe era cobrada pela excelente experiência da sua professora, que, por isto mesmo, conseguia perceber o quão distante e disperso se fizera o seu aluno.

Destarte, em tardes cada vez mais quentes, à medida que aquele janeiro avançava, José Mário se dirigia até aquela casa acolhedora da sua mestre, na qual passara todos aqueles quase três meses que se interpuseram entre a decisão de prestar o vestibular e a sua realização efetiva. Sob o intenso sol das treze horas, sem qualquer meio de transporte, lá se ia ele, percorrer aqueles quase dois quilômetros – a referida casa se localizava no mesmo bairro da igreja aludida acima, situando-se em uma rua paralela –, a fim de receber não só instruções e orientações relacionadas à matéria em causa, como também desfrutar de apoio e acolhida, elementos que foram primordiais para que José Mário levasse a empreitada até o seu final.

É preciso reiterar ainda uma vez que, não tendo economizado esforços e atenção para aquele vestibulando mergulhado no desejo de seguir adiante em seu périplo rumo ao patamar superior dos estudos, aquela professora de saudosa memória para este escrevedor, teve um papel preponderante no sentido de promover alguma confiança de que ele poderia vir a ter êxito naquela jornada, fazendo com que José Mário, embora estando com uma sensação de que naufragaria naquele navegar “impreciso”, se enchesse de ânimo e se dirigisse ao local de provas, para ali, procurar exercitar o que aprendera em todo aquele tempo de calor intenso e de muitas dúvidas sobre o seu devir.

 

Alagoinhas – 30 de novembro de 2025 – primavera brasileira.

 

Professor José Jorge Andrade Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com