segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

SEIS DIGRESSÕES SOBRE UNS TEMPOS IDOS - PARTE III

Em desalinho com as “trocas simbólicas”

 

Deixe-se 1976 para trás e, adentre-se um pouco mais em 1977. Antes, porém, é preciso fazer uma pequena pausa, com o fito de considerar algumas observações feitas por leitor anônimo do último arrazoado – e se foi leitora, há que desculpar este escrevedor, pois, a condição de anonimato não lhe permite inferir o gênero -, nas quais algumas questões são levantadas, no sentido de provocar algumas reflexões. Em um primeiro comentário, a pessoa anônima assevera que “[...] José Mário é um dentre os milhares ou milhões de indivíduos sem conexão social. Indivíduos que procuram algo, mas não sabem o que é. Ávidas de experiências. Essas criaturas não conseguem atrair a atenção de outras para interações como bate papo ou troca de opiniões.”  O pressuposto não está de todo equivocado. No entanto, a pessoa anônima não considerou a possibilidade de não estar no querer do personagem, a sua condição de “desconectado social”; embora ele não seja o único, conforme  acertadamente asseverou, ele é parte de um grupo de indivíduos que, à sua época, não conhecia os códigos sociais sob os quais estava sendo esmagado, em sua instintiva busca de um “lugar social” para se fazer inserir. Eram escassas ou inexistentes as ferramentas de que precisava para manobrar adequadamente o cipoal de códigos, regras e normas sociais que, embora consuetudinários, estava ali para ser decifrado, cumprido ou mesmo infligido. Para tanto, era preciso que fosse conhecido e, José Mário não o conhecia; uma vez conhecido, era preciso ser compreendido, refletido e interpretado. Para fazer tão profundo exercício de exegese, seria preciso dispor de um ferramental intelectual, bibliográfico e/ou hemerográfico  que o ajudasse naquela empreitada e, ele não o possuía, nem podia aceder, ainda que em bibliotecas e/ou centros de pesquisa coletivos.

Em uma segunda observação, quiçá a mesma pessoa levanta uma questão, própria de quem tem algum conhecimento na área das ciências sociais, na medida em que salienta alguns elementos que acabam por intervir na busca por inserção social de José Mário, que certamente a pessoa anônima conhece, mas, prefere que haja respostas às suas ponderações, o que se procederá, crê-se, em formato de um pequeno diálogo entre escrevedor e comentarista.

- “Por que e em que medida as pessoas não enxergam José Mário?”

- Porque as pessoas como ele são socialmente invisíveis,  conforme o classificariam muitos estudiosos de diversas áreas das ciências humanas e sociais. O conceito de “invisibilidade social”, é entendido aqui como sendo o fenômeno que aponta para um processo de não se perceber o outro à sua volta, quando aquele outro destoa de alguns padrões elencados socialmente, fazendo com que seja ignorado por todos quantos cruzem por aquele ser, nos ires e vires de tantos quantos se entendam como parte socialmente ajustada.

- “Que tipo de relação social ele busca no grande tecido urbano?”

- Ele só buscava estabelecer no “grande tecido humano”, aquelas relações sociais que seriam inerentes às pessoas da sua idade, do seu local de convivência, que, ingenuamente, ele acreditava também estar ao seu alcance, visto que, conforme já se disse linhas atrás, ele ignorava haver algum tipo de codificação tácita e implícita, naquela sociedade em que vivia, que dissesse que não lhe era permitido estar aqui, ali ou alhures, no seu espaço de interação social, cultural, escolar ou afetiva.

Uma terceira observação feita sobre o escrito da postagem anterior, esta mais áspera, ácida e marcadamente psicologizante, a pessoa anônima afirma, peremptoriamente: “Acertadamente, José Mário é uma personagem que não se encontrou ainda no mundo. Precisa ter consciência de si mesmo antes de querer ou exigir relacionar-se com os outros. Ele parece ser puramente ingênuo.”

Não, caro anônimo e arguto leitor. Ele não era ingênuo. Ele vivia em um tempo em que o conhecimento e as informações não chegavam de modo equânime. Já foi dito em outro arrazoado, que o seu acesso aos livros, aos jornais, às revistas e à formação escolar eram precárias e frágeis. No entanto, há que se ponderar que, ainda que esteja correta a assertiva, não é justo que ele tenha sido lançado à própria sorte, no seu intento de se “encontrar”, já que se assevera ter ele aquela necessidade de o fazer, para poder querer se integrar ao tecido social que lhe era hostil, que o  invisibilizava, que sempre o impelia para às suas margens, onde quase sempre esteve  a deriva e suplantado pelos demais que se fizer incorporar àquela tessitura estrutural do construto social.

Para uma melhor compreensão dos pressupostos aqui apontados, é imperioso lembrar aos que dedicam um pouco do seu tempo para ler estes garatujes, que, mesmo para aqueles nascidos entre os fins dos anos 1950 e 1970, que possuíam um acesso menos restrito a informações, a leituras, bem como a outros meios de apreensão do mundo à sua volta, a tomada de decisões sobre o que fazer, o que não fazer, sobre o quando fazer, sobre o como fazer, era um exercício duro e, não raro, sujeito a pequenos ou grandes equívocos, algumas vezes  incontornáveis, quando fosse preciso rever um rumo a ser tomado, uma vez que eles estavam bem aquém daqueles outros, nascidos entre os 1980 e meados da década de 1990, no que tange ao conjunto de instrumentos, meios e capacidades de reunir uma ampla gama de informações, a partir das quais fariam as suas escolhas, tomariam as suas decisões, estabeleceriam – ou não -, tais ou quais relações, em tais ou quais medidas. Isto quer dizer que, ter completado ou estar por completar dezessete anos, era muito diferente, considerando-se todas essas fatias de tempo, de acordo com os níveis de desenvolvimento: tecnológico, intelectual, educacional, econômico e social, quer tenha sido da sociedade como um todo, quer tenha sido do indivíduo e/ou dos grupos de indivíduos, em particular, que formam e/ou formatam a tessitura social vigente e prevalente, em um tempo dado.

Talvez, alguém pudesse objetar e, com razão, que o processo formativo de uma pessoa, não deva e nem possa reduzir-se à sua trajetória escolar formal, quer o ensino proveniente dela seja superficial, profundo; bancário ou reflexivo. No entanto, não se pode perder de vista a premissa de que, as bases elementares de um tal processo formativo, estão ou, deveriam estar lastreadas nos elementos propedêuticos infundidos no sistema cognitivo das pessoas que estejam inseridas no processo de escolarização, a partir do qual desenvolvem a sua caminhada rumo ao futuro. Alijar um indivíduo ou um grupo deles desta construção estrutural, levará o tal sujeito a envidar ainda maiores esforços para mitigar os prejuízos advindos de uma formação precária, do ponto de vista do acúmulo dos conhecimentos distribuídos por todo o processo de escolarização, caso ele queira ou precise se fazer catapultar  a patamares mais elevados no seu processo formativo como um todo.

No caso específico de José Mário  - além de alguns outros sujeitos que compartilhavam com ele as condições sociais, culturais, econômicas e sensoriais -, saliente-se de passagem que, precisou lidar com os inúmeros vácuos estruturais e experienciais no transcurso de grande parte daquele processo, retardando a integração dos elementos basilares que viessem a permitir a sedimentação dos fundamentos sobre os quais ele deveria assentar o seu saber, o seu conhecer, o seu entender, o seu compreender, o seu interpretar e, sobretudo, o seu agir diante da vida e das necessidades por ela impostas.

Portanto, considerando todas as perspectivas acima apresentadas em rápidas e simplificadas formulações, é em desalinho com as lógicas das “trocas simbólicas” que José Mário se apresenta ao ano de 1977, visto que, embora percebesse as desigualdades econômicas,, sociais e dos níveis de apreensão do conhecimento, até  por ele mesmo se relacionar diretamente com tais diferenças e, vivenciar em seu dia a dia de moço pobre e de residência distante do centro urbano, ele não as percebe como sendo fruto de uma construção social injusta, lastreada no sistema capitalista de produção e distribuição, mas sim, como algo dado em razão das diferenças oriundas dos processos formativos; dos esforços pessoais exitosos ou fracassados no  intuito de ser inserido no processo produtivo, conforme preconizam os meritocratas. Ele não conseguia perceber que as diferenças de local ou tipo de moradia, que as regularidade ou não das refeições, envolvendo qualidade, variedade e quantidade; que a posse ou não de uma indumentária adequada aos padrões vigentes; nem mesmo, que os espaços de socialização e a sua utilização, estavam diretamente relacionados com as formas de exploração da força de trabalho e ou, com as formas desiguais de apropriação dos bens produzidos e dos serviços prestados pelo conjunto da sociedade e, sobretudo, na sua distribuição desigual ou antes, na restrição ao acesso coletivo comum, senão, àquele grupo de indivíduos que pudesse fazê-lo, mediante a compra.

Em suma: embora tudo aquilo José Mário percebesse, vivenciasse e parcialmente o soubesse, não entendia que aquilo era um fenômeno socialmente construído e sustentado e, que havia um conjunto de códigos que regia o tal fenômeno. Talvez por isto, pensasse que tudo era previamente dado e, como tal, pouco propenso a reconfigurações. Faltava a ele o conhecimento histórico.

 

Alagoinhas, 27 de janeiro de 2025 – Professor Jorge Damasceno.

 

 - historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 19 de janeiro de 2025

Seis digressões sobre uns tempos idos Parte II

Ele estava só, mesmo em meio à multidão.

 

Conforme aludido na digressão anterior, José Mário, embora houvesse estado em todo o transcurso daquela sessão da câmara que impossara os seus treze edis, bem como o prfeito e vice-prefeito para o exercício de 1977 a 1981, depois ampliado até 1983, dali saíra, do mesmo modo como entrara: anônimo e invisível em relação a grande parte daquela gente que também ali estivera. Do mesmo modo, este escrevente também afirmara não ter conseguido atinar, sobre o que tivera levado José Mário a comparecer a dita reunião, visto não ser ele iniciado nas lides políticas locais; não dispor de credenciais sociais ou econômicas para estar ali; não fazer parte de quaisquer grupos inseridos no azáfama político da cidade, que quase sempre se encontravam nos poucos bares e restaurantes existentes àquela época, lugares por excelência das confabulações e das construções de compromissos, essencialmente estruturadas em torno e em favor das elites sociais dirigentes do município.

Concluída a cerimônia e realizados os cumprimentos de prache, a talvez centena de pessoas que ali se glutinara, rapidamente se dispersara, cada uma ou cada grupo delas, se dirigindo a outras festas, comemorações e/ou, como fora o caso de José Mário que, talvez houvesse circulado ali pelo entorno do prédio onde estavam instalados o gabinete do prefeito, que fazia as vezes de porta central, a câmara municipal, de onde acabavam de sair e o fórum da cidade.  Eles, talvez, tentassem encontrar algum conhecido ou mesmo, alguém, ainda que não conhecido, com quem pudesse vir a trocar algumas ideias, sendo alguns bem sucedidos naquela busca de dividir as impressões daquilo que presenciaram alguns minutos antes. Não ocorrendo o mesmo com aquele que ali se encontrava como se fora um forasteiro em seu próprio lugar de nascimento, fez com que ele se dirigisse à residência de algum parente ou, provavelmente, regressado à sua própria, com uma sensação de grande vazio, na medida em que, estivera agrupado em torno de mais ou menos uma centena de pessoas e, logo, logo, estaria absolutamente só, sem ter com quem dividir uma impressão que fosse, a respeito de tudo que houvera presenciado junto a toda àquela gente.

No entanto, não foi aquele o primeiro momento de sua vida em que aquele sentimento de solidão em meio à multidão, se lhe apresentou ao espírito. Alguns dias antes, por ocasião da celebração do Natal de 1976, ele até que tentou ir à Missa do Galo, como todos ou quase todos, foram. Ele acreditara estar vestido e calçado adequadamente para a ocasião, se perfumara e saíra, tomando a direção do centro da cidade, onde se localizava a Igreja Matriz e, igualmente, estava localizado o Parque de diversões, bem como as barracas onde comidas e bebidas eram vendidas, àqueles que dispusessem dos recursos monetários para a sua aquisição. O leitor deste arrazoado pode tranquilamente rir e caçoar de quem o escreve, considerando óbvia, a observação acima. No entanto, considere o impaciente leitor de agora, que, evidentemente José Mário sabia perfeitamente que, precisaria possuir recursos monetários para ter o direito de provar alguma daquelas iguarias. O que ele talvez não atinasse, quando faltavam três dias para ele  completar dezesseis dezembros, é que ali estava uma divisão social da religiosidade, formatada pelo ter ou não ter os meios para adquirir os bens produzidos pela sociedade. Tratava-se de uma festa religiosa; tratava-se de uma manifestação “Cristã”. Porém, nela, estava embutida a contradição a partir da qual, uns seriam mais “cristãos” do que outros; ali, ficava estampada a face perversa da pobreza – ou uma dentre elas -, em que, a despeito de estar se comemorando o “Natal” de Cristo, nem todos poderiam desfrutar de tudo aquilo que ali estava posto, como sendo parte daquela comemoração. Em suma: era preciso dispor de recursos monetários para ter participação plena naquelas comemorações, pretensamente cristãs. O “ganhar” ou o “dar” presentes, é uma das facetas de uma tão flagrante perversidade.

Mas, retome-se o caso da “Missa” do galo – que não é nem se remete ao conto de Machado de Assis. José Mário, vestido e perfumado, saíra da sua moradia modesta, decidido a participar ativamente daquela celebração que acreditava ser franqueada a tantos quantos dela quisesse, indistintamente, quer do ponto de vista social, quer do ponto divista econômico. Afinal, pensava, não se paga para entrar na Igreja e, nela, rezar, comungar, celebrar... Não sabia o neófito, que a missa do galo era uma prerrogativa da Igreja Matriz. Por isto, ele fora mais cedo a uma igreja que era situada perto do seu lugar de morada e, lá, fora informado que a celebração pela qual estava interessado, só seria realizada no centro da cidade, para onde ele acabara se dirigindo mais tarde.

Tendo enfim chegado ao recinto religioso, ele se imiscuíra ali, quase aos empurrões, dado ao espaço que acabara por se tornar exíguo, diante do afluxo de fiéis. Espremido e oprimido pelos demais que se acotovelavam a procura de lugar onde assentar-se, acabou por ficar em um lugar desconfortável, de onde sequer pudera ouvir a dita missa, por conta do enorme barulho que chegava, oriundo dos brinquedos oferecidos pelo Parque de diversões instalado ao largo da Igreja e no seu entorno, o que dificultava e, para dizer bem a verdade, impedia, aqueles que não tivessem conseguido assento mais à frente, acompanhar o desenrolar do ofício religioso ali produzido. Isto é: ali estivera; ali, fora cercado por um bom número de pessoas. No entanto, de nada adiantara ter estado ali; nada aproveitara: nem mesmo a companhia daqueles que estavam ali com ele, no mesmo espaço, com o mesmo objetivo e, quiçá, vivenciando a mesma frustração que ele estava vivenciando, naquele tempo e lugar. Não se poderia estar posto ali, mais um feixe de contradições? A resposta, deixa-se para a reflexão de quantos venha a ler este tratado.

Depois de circular um pouco entre a multidão que ocupava o espaço externo à Igreja, multidão que conversava, bebia, ria, desfrutava dos folguedos e das atrações oferecidas pelo Parque de diversões, José Mário tomou o caminho de volta para o seu lugar de residência e, ao longo do trajeto, observava que, a cada passo que dava, ele se distanciava do burburinho das pessoas aglomeradas nos espaços que ele acabava de deixar para trás e dos rumores da “Festa Magna da cristandade”, o que lhe fazia sentir que, mesmoquando estava ali, ele estava só; sem qualquer tipo de companhia, ainda que fosse para conversas banais. E, cada vez mais perto de chegar em sua casa, em uma rua apertada, empoeirada, sem qualquer tipo de tratamento urbano, teve a sensação de que, não teria feito qualquer diferença, se ele houvesse permanecido em casa, deitado em sua cama patente, dormindo profundamente. Quiçá, poderia ter pensado, tivesse sido até melhor não ter saído para ir tentar assistir a “Missa do Galo”; ao menos, não saberia que era só “mais um na multidão”, tanto dos fiéis, quanto dos que se divertiam no largo e no entorno da Matriz.

 

Professor José Jorge Andrade Damasceno – Alagoinhas, 20 de Janeiro de 2025 – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 12 de janeiro de 2025

Seis digressões sobre uns tempos idos – Parte I

Saiu tão anônimo quanto entrou. Naquele sábado, primeiro de janeiro de 1977, a Câmara municipal de Alagoinhas daria posse ao seu novo prefeito, eleito em 15 de novembro de 1976, o ex-vereador, comerciante de carnes e pecuarista da região, Miguel Santos Fontes, bem como o vice-prefeito Jeferson Vilanova. Antes, tomara posse a nova composição da Casa legislativa, formada por treze edis, que foram para a legislatura 1977-1983: José Ribeiro Libório (ARENA, João Cardoso da Cruz (ARENA), Nilton da Cruz Esteves (ARENA), José de Deus Oliveira (ARENA), Newton Andrade Pimentel Sampaio (ARENA), Antôn io Edson da Silva Costa (ARENA), Walter Altamirano Robatto Campos (ARENA), Jamim Nascimento Silva (ARENA), Hostilio Ubaldo Ribeiro Dias (ARENA), João Bosco de Farias Lins (MDB), Josaphat Paulino dos Santos (MDB), José Antônio dos Santos (MDB) e Genário Carvalho Damião (MDB). Para prestigiar o evento político mais importante de uma cidade, ali estaria reunida, além de uma grande assistência formada por populares de várias matizes políticas, econômicas, sociais e culturais, enfim, curiosos diversos, sem quaisquer distinções de cor, classe ou credo, além de autoridades civis, militares e eclesiásticas. Ainda bem cedo, José Mário levantara – talvez sequer tenha dormido -, tomara o seu café frugal e saíra para também tomar parte naquela efeméride, embora houvesse acabado de completar dezesseis anos, o que ainda não lhe conferia a faculdade de votar, logo, ainda não sendo considerado “cidadão”. Mas, indiferente a isto, lá fora ele para o centro da cidade, a fim de incorporar-se entre aqueles que se espremiam no espaço exíguo do prédio onde estava instalada a Câmara, aguardando, principalmente, os discursos que certamente seriam proferidos pelas autoridades e, sobretudo, pelos vereadores que ali seriam investidos da condição de legisladores municipais. Acreditando estar vestido com o que possuía de melhor em sua pouca variedade indumentária, talvez tenha sido olhado com desdém por uns, com desprezo por outros e, até mesmo com compaixão por outros tantos e, quiçá, considerado um palhaço por mais alguns poucos... De certo mesmo é que, José Mário estava ali, em meio ao grupo formado pelos curiosos que se acotovelavam naquele pequeno espaço onde funcionava a Câmara Municipal, com o fito de assistir àquela cerimônia que, para eles, se lhes afigurava como um espetáculo, como uma distração a ser prestigiada, em uma cidade ainda pequena e pacata como o era Alagoinhas, no que tange ao campo da diversão e/ou das novidades políticas e sociais. Mesmo já tendo transcorrido quarenta e oito anos desde aqueles eventos, até a digressão ora em curso, este escrevedor não é capaz de atinar o que motivara aquele rapaz, mal entrado na adolescência e já bastante atrasado no seu processsso de escolarização, a se interessar pelas disputas políticas locais, saliente-se, desde a campanha eleitoral, ocorrida meses antes, visto ter ele estado em diversos comícios, sobretudo aqueles realizados mais ao alcance de si, embora, sem demonstrar entusiasmo por qualquer um dos quatro candidatos que se apresentaram para a disputa eleitoral: Marco Antunes (MDB), Filadelpho Neto, Miguel Santos Fontes e Solon Barros, estes últimos, candidatos pela Arena – sob o instituto da sublegenda, razão pela qual, aliás, foi possível a vitória de um dos arenistas, por meio da soma da votação recebida pelos três, sufragando o mais votado dentre eles. Convem salientar que, para o eleitor mediano, aquilo não fazia o menor sentido, uma vez que, para aquele, o vitorioso deveria ter sido o candidato do MDB, que obtivera uma votação superior a aquela obtida pelo arenista que fora considerado o eleito. A dificuldade que este escrevedor possui em entender o que teria levado José Mário a se dirigir até o centro da cidade naquele dia Primeiro do ano, está no fato de que, aquele moço curioso que se imiscuíra na assistência daquela importante cerimônia político-administrativa, não possuía conhecimento e/ou consciência histórica; não possuía maturidade pessoal e/ou intelectual para fundamentar quaisquer preferências políticas – partidárias ou eleitorais -; sequer sabia ao certo de que se tratava, quando ouvia expressões como “ditadura militar”, “golpe militar”; sua formação histórica era precaríssima, visto que, além de não contar com acesso a leituras profundas sobre praticamente nada, era aluno de escola pública, forjado no mundo dos “Estudos sociais”, instruído por professores conservadores – ou vigiados, não sabia -, sequer lera ou ouvira sobre a existência de uma “repressão”, nem que vivia, estudava e caminhava, sob a vigência de um “Ato Institucional”, pois, a imprensa, em geral, o omitia; ou, quem sabe, talvez até falasse; mas ele, ele de nada quisesse saber, ou com nada daquilo se importasse, posto que, aquilo não dissesse respeito a ele, visto que, ele não era “subversivo”. Afinal de contas, aqueles seus professores apenas falavam de valores “Pátrios”, dos “símbolos Nacionais”, de datas, acontecimentos e pessoas “importantes”, que o fizera aceitar, abraçar e incorporar ao seu “construto histórico”, como sendo o “real” eo fizera absorver como factível, uma “História oficial”, que exaltava os feitos da “Revolução” e os “avanços” econômicos, políticos, tecnológicos e educacionais, promovidos pela sua implantação em 1964 e, pelos seus desdobramentos posteriores. Se há “uma repressão”, talvez dissessem, era sob os enquadramentos legais e, sobre aqueles que se opunham ao regime e se levantam contra a sua investida contra a corrupção e a subversão dos seus detratores. E em tudo isto, aquele moço acreditava, embora não fosse um entusiasta, saliente-se. Dir-se-ia qe José Mário possuía um elevado grau de dificuldade para ir além da superfície da compreensão de texto, pois, apesar de ler algumas das excelentes matérias publicadas pela revista Realidade – aquelas transcritas na revista Relevo (em Braille) -, não conseguia ir muito além do “significado das palavras”. A profundidade daquelas matérias era quase que impenetrável para ele. A sua formação escolar era quase sem livros, pois eles lhes eram inacessíveis, sobretudo, em transcrição Braille, embora a sua formação literária fosse mais ampla, pela mesma razão inversa, isto é, havia uma produção e uma distribuição de livros em Braille, que abrangia as diversas criações literárias, sobretudo, aquelas do século XIX. Malgrado o acesso a um largo número de obras e autores e, a voracidade com que ele percorria as páginas e as partes em que eram divididos os livros em Braille que lhe caíam nas mãos, aquela leitura era superficial, mecânica, emotiva e, quase sempre, acrítica, pouco ou nada reflexiva, o que significava não alcançar o objetivo esperado pelo contato com tão vasta e diversificada gama de autores e o seu modo de pensar, no que tange à construção de uma percepção e à uma leitura do mundo que o cercava. Em suma, José Mário, que naquele ano de 1977 entraria na sétima série do primeiro grau e completaria dezessete anos ao se findar mais aquele ciclo de trezentos e sessenta e cinco dias, embora fosse um leitor voraz, não conseguia ultrapassar a barreira da compreensão dos signos e das palavras, para aceder àquilo que se poderia chamar de interpretação além das letras e dos vocábulos por elas formadas. No seu processo formativo escolar e/ou literário, não foram incorporadas as ferramentas indispensáveis para desenvolver a capacidade crítica que lhe era inerente, mas, sem os instrumentos que lhe permitissem o seu exercício, no que tange à reconheceras diversas percepções de mundo que se lhe apresentavam, com o fito de poder, ele mesmo e de per si, fazer a sua própria leitura e apreender o mundo a sua volta,, alcançando a capacidade de o compreender. No entanto, a despeito de não dispor de tais ferramentas; apesar de pouco ou nada compreender daquilo que se passava naquele acanhado espaço do legislativo local, ali, ele permaneceu durante todo o transcorrer da cerimônia e dos seus desdobramentos. Porém, José Mário saiu dali, tão anônimo quanto entrou. Ninguém o chamou para um dedo de prosa; ninguém o inquiriu, sequer, o que fazia ali, visto não ser parente, nem mesmo conhecido dos empossados; não pertencia ao seleto contingente dos eleitores; não era ligado a qualquer movimento social; não tinha acento nas rodas de frequentadores dos bares e dos restaurantes da cidade. Não se deparou com qualquer dos seus colegas da já concluída sexta série... O que ele fazia então ali? O que queria ele ali? No que pensava poder obter, estando ali? Saliente-se de passagem que, embora ele se encontrasse no meio de um número considerável de pessoas, era como se José Mário Estivesse só; apesar de se ter apresentado para cumprimentar as autoridades que ali foram investidas em seus cargos, o fizera apenas conforme acreditava ser o modo correto de proceder. Era, portanto, só “mais um na multidão”. Talvez tenha sido por isto, que não tenha havido ninguém que lhe fizesse quaisquer daqueles questionamentos, ao menos, dirigindo-se a ele. Mas, certamente, aquelas indagações poderiam ter perpassado os cérebros daqueles que, eventualmente, o tivessem percebido imiscuído naquela plateia tão diversa, reunida naquele recinto onde se tomariam as decisões políticas mais relevantes para a cidade. Alagoinhas - 12 de janeiro de 2025 Professor José Jorge Andrade Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com

sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

Diagnóstico "depressivo"; Prognóstico "irrecuperável"; crime: "heresia social"; sentença: reclusão e segregação; risco: contaminação.

Considerações acerca de mim mesmo Eu não poderia ser considerado um admirador da obra de Raul Seixas; nem do seu modo de pensar; menos ainda, do seu modo de ser e viver. Mas, evidentemente, eu não pude escapar aos seus grandes "aforismos", que podiam ser ouvidos e cantados com toda a força dos pulmões. Em grande medida, as suas músicas eram ouvidas por meio das transmissões radiofônicas, visto que eram poucos aqueles que possuíam os equipamentos de execução de músicas em suas casas, sobretudo, nos anos 1970, quando Rausito entrou no nas paradas dos sucessos. Uma daquelas músicas que fora sucesso por todo o ano de 1974, ainda hoje muito executada nas plataformas agregadoras de músicas, era "Ouro de Tolo". É claro que não se vai aqui querer explicar uma letra tão complexa na variedade dos entendimentos que possa ter vindo a provocar. O que se quer dizer aqui, é que, alguns anos depois de tê-la ouvido incontáveis vezes, bem como de a ter cantado outras tantas, chegou-se a conclusão que uma das suas estrofes, acaba por falar da maneira de ser e de entender a vida que tem este que ora escreve. O trecho será transcrito aqui, porém, já intercalando um pouco de coisas a mais do que aquelas ditas em tão rápidas e certeiras sílabas: "Ah, que sujeito chato sou eu, que não acha nada engraçado" - não encontra sentido em nada; que não tem prazer em nada; que não aprecia nada - "Macaco, praia, carro, jornal, tobogã" cinema, viagens, comemorações, restaurantes, roupas, sociabilidades - "eu acho tudo isso um saco"! E, na estrofe seguinte, ele, mais contundente e devastador, segue adiante com a sua insatisfação com os ditames sociais e com as imposições de posições que tornam a vida insuportavelmente tediosa! Não se pode querer ficar no seu canto quieto; não se pode ficar circunspeto e calado em um ambiente de “festas” ou repleto de pessoas, coisas, sons, ..., que logo os psicólogos/terapeutas –modalidades em grande moda nos últimos anos e nas quais todos se sentem especialistas, entendidos, experts e, tem sempre a última palavra -, cravam os seus diagnósticos: está deprimido; é depressivo; precisa fazer terapia - aliás, eu acabei de fazer uma terapia de pratos, panelas, copos... A pia lá embaixo está limpíssima! A grande descoberta que agora se fez é que, quem escreve estas heresias sociais, é um sujeito tão inteligente, quanto ignorante! Ora, me façam uma garapa de limão, mas, por favor: sem açúcar.

quarta-feira, 17 de julho de 2024

Um "Diário Tardio" Parte II

Histórias e Memórias de um convite surpreendente: um diário tardio – segunda parte. Sábado, 20 de maio de 2023 – Era por volta das dezessete horas, quando aquele recém chegado à capital sergipana, volta a estar ao lado daquela senhorita tão perfumada e encantadora, quanto especial, depois de algumas horas de deslocamento e de grande expectativa. Depois de se reencontrarem no portão do seu prédio, trocarem cumprimentos e se deixarem envolver por aquela atmosfera de um fim de tarde outonal, ela, confiante e resoluta, o acompanhara até o veículo que os aguardava há poucos metros, para nele se dirigirem ao local que ela sugerira que fossem, para sentarem e desfrutarem da companhia um do outro. Distava poucos quarteirões do seu lugar de residência, o espaço que ela escolhera para efetivar aquele reencontro, onde poderia confortavelmente conversar e frente a frente, depois de longos anos que as conversas deles só se puderam desenvolver mediante aparatos tecnológicos. Foi assim que eles se fizeram conduzir à uma mesa situada um pouco mais reservada, para que pudessem vivenciar aquele momento tão ímpar, de modo a poderem permutar ideias e impressões de forma um tanto mais privativa. Aquele desejo há muito alimentado por ele e, soube depois, também por ela, por fim se fazia concretizar, em meio à xícaras de café expresso, sorrisos e sentires que penetrava profundamente em seu ser. Aquele momento fora por ele vivido, como tendo sido uma parte de sua vida elevada à uma condição de uma espécie de “romance” já lido, porém, nunca escrito. A leitura era feita ali, no instante mesmo do seu desenrolar. Sentados lado a lado, sentindo o aroma que vinha de sua agradável companhia, ele sequer se importava com a marcha do tempo que passava indiferente a eles; chovera torrencialmente, conforme a estação em que se encontravam; mas eles sequer se deram conta disto, a não ser quando foram arrancados de seu enlevo e precisaram interromper aquelas horas tão fulgurantes que ali passaram, abrigados que estavam naquele ambiente, guardados das intempéries do clima lá de fora. Seria inútil tentar reproduzir em um diário assim, tão simplório e tardio, o que e o quanto eles conversaram. As palavras lhes fluíam; principalmente, aquelas que brotavam dos lábios dela, pois se sentia bem solta e descontraída, ao contrário do seu interlocutor, que ela até o percebera, estava tenso e procurava sorver cada sílaba que pronunciara, para não perder nenhuma das profusões de um tão mavioso falar. Era de fato aquela menina que ele conhecera dez anos antes: desprendida, tranquila e segura do seu falar, fruto de um pensar rápido e comedido, embora firme e sensato. Era aquela “menininha”, que dez anos antes fugira dele, talvez para que pudesse amadurecer e fortalecer os seus pilares em bases sólidas, com cimentação robusta, de maneira que pudesse dar o passo que viesse a dar, em solo firme e bem compactado. Ela fugira do alcance das mãos daquele homem maduro que pretendera lhe conquistar a cidadela bem fortificada, sem porém, sair da fortaleza que ele malgrado erguera com o objetivo de se resguardar dos assaltos de alguém que lhe quisesse expugnar as defesas contra o querer. Ela, embora lhe tenha fugido ao alcance, deixara porém, dentro dele, as suas marcas, as suas pegadas; vitoriosa por ter quebrado os escudos e neutralizado as defesas por ele interpostas, se vai fortalecer, no entanto, levando consigo as chaves que lhe arrebatara das mãos, sem que ele as pudesse recuperar a posse. E, assim, ela se movimentara com a segurança de quem possuía o pleno domínio do terreno e, talvez por isto, guardou para si, a surpresa com a qual pretendia impactar o seu interlocutor naquela noite inesquecível e lugar aprazível. Aproximava-se a hora em que teriam que se fazerem dirigir aos seus respectivos lugares de estada naquele dia, que fora tão maravilhoso. Era hora então de pensar o que fariam no dia seguinte; onde iriam, se encontrariam para almoçar, ou para jantar? E ela, como sempre, confiante e segura, arremata a conversa e, desfaz a incógnita: - Amanhã a gente vai almoçar em algum lugar, depois, ficamos no apartamento; passaremos a tarde lá! Que susto! Mas, ao mesmo tempo: que alegria foi receber daquela garota um tão claro gesto de confiança naquele a quem acabara de convidar para que ficassem juntos em seu espaço privativo. Ali se fez sentir o tamanho da responsabilidade que lhe era colocada sobre os ombros! Mas, nunca foi tão leve uma noite que antecedera o receber tamanha confiança de uma pessoa tão sincera e especial quanto aquela “menininha” que ocupara um coração já quase sem querer que o fosse;. A alegria daquela maravilhosa dádiva, nem pode ser contida” Alagoinhas – 17 de julho de 2024 – José Jorge Andrade Damasceno

sábado, 13 de julho de 2024

Um Diário Tardio - Parte I.

Histórias e Memórias de um convite surpreendente: um diário tardio – Primeira parte. Sábado, 20 de maio: a noite foi de sono entrecortado; as horas custavam passar e a manhã demorava chegar; os pássaros pareciam não querer despertar para chilrear em uma manhã fria e chuvosa, afim de esperar os raios de sol que os aqueceria por todo o dia. Preguiçosamente a alvorada se fazia presente, com os seus aromas inconfundíveis às narinas de quem tão impacientemente a aguardava ansioso para se levantar e iniciar a viagem que o levaria ao reencontro daquela com quem há dez anos se encontrara pela primeira vez. Ele se levanta e prepara o seu café; o seu sentido estava inteiramente voltado para aquela garota que por todo aquele tempo, não mais encontrara pessoalmente; apenas se falaram por meio de diversas ferramentas comunicacionais que foram surgindo no transcurso daquela década. A escolha da roupa a usar; a seleção do perfume para a agradar; o barbear-se; tudo fora feito com o intuito de fazer uma apresentação a altura daquela garota, visto que ele desejava que o reencontro fosse mais do que um mero reunir de duas pessoas que há muito tempo não se tocavam as mãos; mas o seu profundo anseio era que aquele se tornasse o encontro de dois corações que guardava cada um, bem no recôndito de seu ser, um segredo e, quiçá, pudessem - ao menos ele - ter a oportunidade de o revelar. Abordo de um Versa, dirigido por um seu amigo de tantas outras viagens, inclusive para aquela cidade praiana, por volta das nove da manhã, parte naquela direção. Noite longa, quase interminável, mal dormida, fora aquela que antecedera àquele início de trajeto. Um café trivial e os preparativos logísticos marcaram aquele início de manhã outonal. Sem o menor traquejo para arrumações e escolhas, guardou em uma valise o necessário para uma estada de duas noites e, na hora aprazada, saíra da cidade, sem mais poder esperar. Já marcada há cerca de quinze dias, aquela viagem proporcionara a ele uma alegria indizível; uma ansiedade indescritível; um arroubo quase juvenil, apesar do viajante já haver passado a marca dos sessenta verões. À medida em que a estrada era percorrida e, enquanto os amigos trocavam ideias, conversavam os mais diversos assuntos, aquele viajante só pensava no quanto a queria perto de si; mas também, o que lhe diria que não fosse “clichê”, como ela mesma dizia; no que estaria ela pensando; o que ela estaria a esperar dele; qual gesto lhe poderia fazer, indicativo do seu querer, do seu sentimento há muito represado; qual seria a reação dela, se ele acidentalmente deixasse escapar alguma palavra que a fizesse perceber o quanto ele a queria para si, para ser parte de sua vida... E ela, por outro lado, como se encontrava? O que se passaria naquele cérebro verdejante, pleno de capacidade cognitiva, veloz como os “pássaros de prata”, que singram os céus, em busca de vencer as distâncias e de alcançar os mais longínquos lugares? O que pensaria ela a respeito daquele sujeito que tanto persistia no desejo de que ela o recebesse e se sentasse ao seu lado, em algum lugar? Ah, isto ele sequer poderia cogitar. Ele talvez até desejasse que ela pensasse nele; mas, temia que ao menos suspeitasse dos seus desejos e afetos a ela inteiramente dedicados; que ela ao menos fizesse caso do seu coração, embora despedaçado pelas agruras vivenciais, a ela pertencia desde que nele se instalara. Isto era o que ele cogitava; mas, nenhuma certeza poderia ter de absolutamente nada. Ela não se deixava “ler” em suas “linhas”, escritas de si para consigo; ela não permitia que se penetrasse nos seus suspirares; sequer os externara!; sequer permitira saber se eles teriam existido! Tudo isto desfilava em seu cérebro, tão veloz quanto se deslocava aquele veículo em que viajava; as vezes ele se confundia com os seus próprios pensamentos, conforme se desenrolavam dentro de si; por vezes ele temia o fato não ser efusivo e caloroso, deixar a impressão de indiferença; outras vezes, acreditava que se fosse excessivamente prolixo – característica sua, indisfarçável -, ela o pudesse interpretar como um galanteador desmedido e vulgar; ah, quantas eram as proposições que surgiam e, do mesmo modo, desapareciam em sua cabeça, já quase atordoada com tantas projeções... do que seria, do como seria... E a viagem seguia o seu curso; as mensagens; a parada para o almoço; a chegada na cidade e o acomodar-se no hotel; o banho; a expectativa... Enfim, chegava o momento de outra vez trocarem abraços; de se tocarem as mãos; de ouvirem a voz um do outro, sem quaisquer outras mediações; o sentir os perfumes: ela trazia um aroma envolvente, um perfume que logo fizera aflorar todo o sentimento que nele estava retido, reprimido, guardado por todos aqueles anos; anos passados por outras vivências; vivências infrutuosas e desgastantes; agora, ela estava ali, ao seu lado; ao seu alcance; permitindo que o seu cheiro lhe assomasse o cérebro e lhe trouxesse tão deliciosa sensação de indizível alegria! Ah, senhorita: como foi reconfortador ter sido por ti recebido naquela tarde chuvosa, à frente do teu prédio; sob aquelas árvores que gotejavam sobre nós aquela água por elas retidas, quiçá, para nos brindar por aquele momento! Não tens ideia do quanto aquele teu aceitar receber este viajante em tua cidade naquela tarde, lhe revigorou não só o espírito; não só o corpo já vergado pelo peso da idade e dos viveres; mas, lhe revigorou a capacidade de acreditar ainda haver gente que se comporta como gente; que fala como gente; que recebe como gente; que trata como gente aqueles que como tu, é feita de carne, osso , sentimento e sensibilidade – por vezes aflorada e exacerbada -; e não, conforme ele mesmo vivenciou em grande parte de sua vida , como máquinas de moer gente... Alagoinhas 13 de julho de 2024 - José Jorge Andrade Damasceno

domingo, 23 de junho de 2024

Já passados cinquenta anos

Alagoinhas – junho 1974-2024 – Já se passaram 50 anos. Em um 23 de junho como o de hoje, porém de 1974, uma senhora cruel, implacável e indiferente às dores e agonias de quem por ela fosse visitado, esteve nesta casa e, levou inexoravelmente Zé Carlos, arrancando-o furiosa e inapelavelmente dos braços da sua mãe, que ainda não houvera completado quarenta anos e, já recebia o golpe mais funesto e acabrunhador de toda a sua vida, o que fora perpetrado pela tal “senhora de preto”. A vida da genitora do rapaz, ainda moço, mal tendo completado a sua segunda década de existência, àquela altura, já sujeita a ser vivida sob avalanches e tempestades, ali em sua casa, recebera o vento frio da morte que lhe soprara desfavorável, levando para longe dos seus cuidados, aquele seu filho primogênito, que, até então, lhe fora arrimo para ajudar a criar outros dois. Aquele dia, como todos os demais transcorridos desde que Zé Carlos fora mandado para casa em alta hospitalar, se erguera sem sobressaltos; correra no seu passo marcado pelo levantar do sol, pela sua chegada ao meio dia e pelo seu caminhar para se pôr no horizonte, sem qualquer indicação de borrasca, exceto no coração de dona Amanda, que se lhe apertava diante de sonho a ela contado pelo filho convalescente – sonhara com lugar gramado em que chegara por um acesso aladeirado, lugar que a ela pareceu ser um cemitério -, que lhe despertara a suspeita de um desfecho que ela não queria imaginar, mas sabia que mais dia menos dia, seria aquele: o seu filho não sobreviveria àquela “doença ruim”, que pouco a pouco lhe tragava as forças e os sinais vitais. Talvez fosse a segunda quinzena de março, quando chegara em casa de volta do hospital – para morrer em casa, dissera dona Amanda tempos depois, que para isto fora alertada pelos médicos, que aliás, aos quais nunca perdoou -, na perspectiva de se recuperar de cirurgia para remoção de um tumor no intestino. Dali para a frente, era cercado de cuidados não só na ministração dos remédios – quase sempre para lhe mitigar as muitas dores -, como também na elaboração e administração de alimentação em horários e medidas bem definidas. Este seu irmão que ora rememora um pouco daqueles dias, fora induzido a acreditar que logo o teria de volta para juntos irem para os lugares que costumavam ir – cortar o cabelo na “Boca do Corte”, para o Brasilino Viegas no quadro da sua bicicleta, cujo trajeto era feito pela rua Luiz Viana -; fazer as travessuras que juntos fizeram – a despeito dos seis anos que os separava -; ele acreditava que logo os dois voltariam a ouvir e a cantarolar as músicas que compartilhavam no rádio... Mas, por outro lado, recebia a advertência materna para que se comportasse e não brigasse tanto com a sua irmã – aliás, com quem nunca se dera bem, até o fim da vida dela -, para não entristecer o irmão maior e para não dificultar a sua recuperação... Assim, todos aqueles dias foram vividos quase como os demais que lhe antecederam, marcados somente pela ansiedade de logo ter de volta à normalidade daquela casa e do jornalhar da sua mãe, que, na condição de lavadeira de ganho, não poderia deixar de desenvolver aquela atividade laboral, sob pena de não ter sequer como fazer frente às necessidades corriqueiras já estabelecidas, tanto pior, aquelas necessidades criadas pela convalescença daquele filho. Terminou o verão; veio o outono e com ele uma tristeza incompreensível para aquele adolescente que precisava continuar o seu ir e vir para a escola, sem poder ficar todo o tempo perto do seu irmão; e, de nada adiantando isto, visto que nada havia que ele pudesse fazer em favor do enfermo, a não ser, evitar os constantes atritos com a outra irmã, para não aumentar ainda mais a tristeza de dona Amada. Tristeza aliás, já notória e, que por mais que ela se esforçasse, já não conseguia disfarçar. Talvez, apenas o enfermo e o seu irmão menor, acreditassem em uma recuperação de sua saúde, o que forçava dona Amanda a procurar se manter “confiante”, embora já soubesse que aquilo não se daria, mesmo, evidentemente, ela desejando ardentemente que se desse o contrário: que o seu filho se recuperasse e retomasse o viver saudável e alcançar um “futuro”, mesmo sem saber o que de fato aquilo seria. E os meses e as estações se arrastaram e passaram pesadas; os dias cada vez mais encobertos e as noites cheias de sobressaltos para quele menino que tinha medo de mortos; mas, ele não acreditava que o seu irmão, ainda tão moço, viesse a ser um dentre aqueles; dias, semanas e meses passavam...; já se não ouvia rádio; já se não cantava as músicas de sucessos que tocava no fim de tarde, como o fizera junto com aquele seu irmão, por pelo menos aqueles quatro anos; nem os jogos do campeonato; nem as corridas de formula 1; tudo era sombrio e frio; inclusive o clima, ainda mais denso e tenso, dentro da casa do que fora dela, em razão dos receios que envolviam aquela atmosfera outonal: maio, junho... e, com ele, chegara o inverno, aquela tão temida estação do fim “da vida”, do murchar das folhas que ainda se mantiveram nas árvores por todo o outono; aquela estação chuvosa que obriga o humano a vestir casacos, capotes, capas de chuva; a fechar as janelas para que os ventos e a umidade não deixem o ambiente ainda mais taciturno... nem se diga que a casa não possuía teto nem forro; a cobertura era de telha vã, o que quase neutralizava os esforços para se proteger das baixas temperaturas típicas de junho e dos meses subsequentes, até que chegue a Primavera... mas, para Zé Carlos, aquela primavera não chegou; sobre ele e sobre a sua vida, o inverno implacável prevaleceu e, por volta das seis da tarde, o seu corpo deixou de ter vida, não teve mais calor: um corpo frio se tornou e em um caixão foi deitado, para logo no dia seguinte ser sepultado... Naquele domingo de inverno, fim de tarde fria, aquela casa contrastava com as demais casas em que os seus moradores e visitantes festejavam efusivamente o São João com comidas, bebidas, fogueiras, foguetes e folguedos; com licores, laranjas, milhos – assados ou cozidos - e amendoins; onde dançavam ao som de sanfonas, zabumbas, triângulos, ou de músicas tocadas em suas radiolas, a despeito das lágrimas de dor, tristeza e de saudade que rolavam quentes e abundantes pelos rostos da mãe e dos irmãos de Zé Carlos, cuja vida fora interrompida há apenas alguns minutos. Hoje, cinquenta anos depois de ter vivido aquela experiência tão traumática, ousa-se concluir que tudo está rigorosamente igual: muitos dançam, cantam, bebem, folgam, sempre e como sempre, indiferentes a aqueles que, por alguma razão, de qualquer ordem, não tem o que comemorar, do que se alegrar, nem por que folgar. Ao mesmo tempo em que tudo isto se dá, há tantos que agora choram, sofrem; se angustiam; se entristecem e padecem suas dores – físicas ou psíquicas -, sem que ninguém se dê conta disto. Uma música que bem ilustraria aquele e este momento, fora grande sucesso à época que acima se descreveu em rápidas linhas. Trata-se de “Por que chora a tarde”, de Antônio Marcos, que dá uma boa ideia do que se pode passar na vida de alguém, a despeito de muitos indiferentes, folgarem e festejarem, enquanto há rostos envoltos em chorares e, almas em desespero, muito gritarem. Mas, gritar? Para quem ouvir? Quem deixaria os seus festejares para acudir a quem grita por socorro, por ajuda? https://youtu.be/7hajrnEvusQ?si=C6L-zkvv7W9UmGRM José Jorge Andrade Damasceno – professor titular na Universidade do Estado da Bahia – Campus II, Alagoinhas. 23 de junho de 2024.