quarta-feira, 17 de julho de 2024
Um "Diário Tardio" Parte II
Histórias e Memórias de um convite surpreendente: um diário tardio – segunda parte.
Sábado, 20 de maio de 2023 – Era por volta das dezessete horas, quando aquele recém chegado à capital sergipana, volta a estar ao lado daquela senhorita tão perfumada e encantadora, quanto especial, depois de algumas horas de deslocamento e de grande expectativa. Depois de se reencontrarem no portão do seu prédio, trocarem cumprimentos e se deixarem envolver por aquela atmosfera de um fim de tarde outonal, ela, confiante e resoluta, o acompanhara até o veículo que os aguardava há poucos metros, para nele se dirigirem ao local que ela sugerira que fossem, para sentarem e desfrutarem da companhia um do outro.
Distava poucos quarteirões do seu lugar de residência, o espaço que ela escolhera para efetivar aquele reencontro, onde poderia confortavelmente conversar e frente a frente, depois de longos anos que as conversas deles só se puderam desenvolver mediante aparatos tecnológicos. Foi assim que eles se fizeram conduzir à uma mesa situada um pouco mais reservada, para que pudessem vivenciar aquele momento tão ímpar, de modo a poderem permutar ideias e impressões de forma um tanto mais privativa.
Aquele desejo há muito alimentado por ele e, soube depois, também por ela, por fim se fazia concretizar, em meio à xícaras de café expresso, sorrisos e sentires que penetrava profundamente em seu ser. Aquele momento fora por ele vivido, como tendo sido uma parte de sua vida elevada à uma condição de uma espécie de “romance” já lido, porém, nunca escrito. A leitura era feita ali, no instante mesmo do seu desenrolar.
Sentados lado a lado, sentindo o aroma que vinha de sua agradável companhia, ele sequer se importava com a marcha do tempo que passava indiferente a eles; chovera torrencialmente, conforme a estação em que se encontravam; mas eles sequer se deram conta disto, a não ser quando foram arrancados de seu enlevo e precisaram interromper aquelas horas tão fulgurantes que ali passaram, abrigados que estavam naquele ambiente, guardados das intempéries do clima lá de fora.
Seria inútil tentar reproduzir em um diário assim, tão simplório e tardio, o que e o quanto eles conversaram. As palavras lhes fluíam; principalmente, aquelas que brotavam dos lábios dela, pois se sentia bem solta e descontraída, ao contrário do seu interlocutor, que ela até o percebera, estava tenso e procurava sorver cada sílaba que pronunciara, para não perder nenhuma das profusões de um tão mavioso falar.
Era de fato aquela menina que ele conhecera dez anos antes: desprendida, tranquila e segura do seu falar, fruto de um pensar rápido e comedido, embora firme e sensato. Era aquela “menininha”, que dez anos antes fugira dele, talvez para que pudesse amadurecer e fortalecer os seus pilares em bases sólidas, com cimentação robusta, de maneira que pudesse dar o passo que viesse a dar, em solo firme e bem compactado.
Ela fugira do alcance das mãos daquele homem maduro que pretendera lhe conquistar a cidadela bem fortificada, sem porém, sair da fortaleza que ele malgrado erguera com o objetivo de se resguardar dos assaltos de alguém que lhe quisesse expugnar as defesas contra o querer. Ela, embora lhe tenha fugido ao alcance, deixara porém, dentro dele, as suas marcas, as suas pegadas; vitoriosa por ter quebrado os escudos e neutralizado as defesas por ele interpostas, se vai fortalecer, no entanto, levando consigo as chaves que lhe arrebatara das mãos, sem que ele as pudesse recuperar a posse.
E, assim, ela se movimentara com a segurança de quem possuía o pleno domínio do terreno e, talvez por isto, guardou para si, a surpresa com a qual pretendia impactar o seu interlocutor naquela noite inesquecível e lugar aprazível.
Aproximava-se a hora em que teriam que se fazerem dirigir aos seus respectivos lugares de estada naquele dia, que fora tão maravilhoso. Era hora então de pensar o que fariam no dia seguinte; onde iriam, se encontrariam para almoçar, ou para jantar? E ela, como sempre, confiante e segura, arremata a conversa e, desfaz a incógnita:
- Amanhã a gente vai almoçar em algum lugar, depois, ficamos no apartamento; passaremos a tarde lá!
Que susto! Mas, ao mesmo tempo: que alegria foi receber daquela garota um tão claro gesto de confiança naquele a quem acabara de convidar para que ficassem juntos em seu espaço privativo. Ali se fez sentir o tamanho da responsabilidade que lhe era colocada sobre os ombros!
Mas, nunca foi tão leve uma noite que antecedera o receber tamanha confiança de uma pessoa tão sincera e especial quanto aquela “menininha” que ocupara um coração já quase sem querer que o fosse;. A alegria daquela maravilhosa dádiva, nem pode ser contida”
Alagoinhas – 17 de julho de 2024 – José Jorge Andrade Damasceno
sábado, 13 de julho de 2024
Um Diário Tardio - Parte I.
Histórias e Memórias de um convite surpreendente: um diário tardio – Primeira parte.
Sábado, 20 de maio: a noite foi de sono entrecortado; as horas custavam passar e a manhã demorava chegar; os pássaros pareciam não querer despertar para chilrear em uma manhã fria e chuvosa, afim de esperar os raios de sol que os aqueceria por todo o dia. Preguiçosamente a alvorada se fazia presente, com os seus aromas inconfundíveis às narinas de quem tão impacientemente a aguardava ansioso para se levantar e iniciar a viagem que o levaria ao reencontro daquela com quem há dez anos se encontrara pela primeira vez. Ele se levanta e prepara o seu café; o seu sentido estava inteiramente voltado para aquela garota que por todo aquele tempo, não mais encontrara pessoalmente; apenas se falaram por meio de diversas ferramentas comunicacionais que foram surgindo no transcurso daquela década.
A escolha da roupa a usar; a seleção do perfume para a agradar; o barbear-se; tudo fora feito com o intuito de fazer uma apresentação a altura daquela garota, visto que ele desejava que o reencontro fosse mais do que um mero reunir de duas pessoas que há muito tempo não se tocavam as mãos; mas o seu profundo anseio era que aquele se tornasse o encontro de dois corações que guardava cada um, bem no recôndito de seu ser, um segredo e, quiçá, pudessem - ao menos ele - ter a oportunidade de o revelar.
Abordo de um Versa, dirigido por um seu amigo de tantas outras viagens, inclusive para aquela cidade praiana, por volta das nove da manhã, parte naquela direção. Noite longa, quase interminável, mal dormida, fora aquela que antecedera àquele início de trajeto. Um café trivial e os preparativos logísticos marcaram aquele início de manhã outonal. Sem o menor traquejo para arrumações e escolhas, guardou em uma valise o necessário para uma estada de duas noites e, na hora aprazada, saíra da cidade, sem mais poder esperar.
Já marcada há cerca de quinze dias, aquela viagem proporcionara a ele uma alegria indizível; uma ansiedade indescritível; um arroubo quase juvenil, apesar do viajante já haver passado a marca dos sessenta verões. À medida em que a estrada era percorrida e, enquanto os amigos trocavam ideias, conversavam os mais diversos assuntos, aquele viajante só pensava no quanto a queria perto de si; mas também, o que lhe diria que não fosse “clichê”, como ela mesma dizia; no que estaria ela pensando; o que ela estaria a esperar dele; qual gesto lhe poderia fazer, indicativo do seu querer, do seu sentimento há muito represado; qual seria a reação dela, se ele acidentalmente deixasse escapar alguma palavra que a fizesse perceber o quanto ele a queria para si, para ser parte de sua vida...
E ela, por outro lado, como se encontrava? O que se passaria naquele cérebro verdejante, pleno de capacidade cognitiva, veloz como os “pássaros de prata”, que singram os céus, em busca de vencer as distâncias e de alcançar os mais longínquos lugares? O que pensaria ela a respeito daquele sujeito que tanto persistia no desejo de que ela o recebesse e se sentasse ao seu lado, em algum lugar? Ah, isto ele sequer poderia cogitar. Ele talvez até desejasse que ela pensasse nele; mas, temia que ao menos suspeitasse dos seus desejos e afetos a ela inteiramente dedicados; que ela ao menos fizesse caso do seu coração, embora despedaçado pelas agruras vivenciais, a ela pertencia desde que nele se instalara. Isto era o que ele cogitava; mas, nenhuma certeza poderia ter de absolutamente nada. Ela não se deixava “ler” em suas “linhas”, escritas de si para consigo; ela não permitia que se penetrasse nos seus suspirares; sequer os externara!; sequer permitira saber se eles teriam existido!
Tudo isto desfilava em seu cérebro, tão veloz quanto se deslocava aquele veículo em que viajava; as vezes ele se confundia com os seus próprios pensamentos, conforme se desenrolavam dentro de si; por vezes ele temia o fato não ser efusivo e caloroso, deixar a impressão de indiferença; outras vezes, acreditava que se fosse excessivamente prolixo – característica sua, indisfarçável -, ela o pudesse interpretar como um galanteador desmedido e vulgar; ah, quantas eram as proposições que surgiam e, do mesmo modo, desapareciam em sua cabeça, já quase atordoada com tantas projeções... do que seria, do como seria...
E a viagem seguia o seu curso; as mensagens; a parada para o almoço; a chegada na cidade e o acomodar-se no hotel; o banho; a expectativa... Enfim, chegava o momento de outra vez trocarem abraços; de se tocarem as mãos; de ouvirem a voz um do outro, sem quaisquer outras mediações; o sentir os perfumes: ela trazia um aroma envolvente, um perfume que logo fizera aflorar todo o sentimento que nele estava retido, reprimido, guardado por todos aqueles anos; anos passados por outras vivências; vivências infrutuosas e desgastantes; agora, ela estava ali, ao seu lado; ao seu alcance; permitindo que o seu cheiro lhe assomasse o cérebro e lhe trouxesse tão deliciosa sensação de indizível alegria!
Ah, senhorita: como foi reconfortador ter sido por ti recebido naquela tarde chuvosa, à frente do teu prédio; sob aquelas árvores que gotejavam sobre nós aquela água por elas retidas, quiçá, para nos brindar por aquele momento! Não tens ideia do quanto aquele teu aceitar receber este viajante em tua cidade naquela tarde, lhe revigorou não só o espírito; não só o corpo já vergado pelo peso da idade e dos viveres; mas, lhe revigorou a capacidade de acreditar ainda haver gente que se comporta como gente; que fala como gente; que recebe como gente; que trata como gente aqueles que como tu, é feita de carne, osso , sentimento e sensibilidade – por vezes aflorada e exacerbada -; e não, conforme ele mesmo vivenciou em grande parte de sua vida , como máquinas de moer gente...
Alagoinhas 13 de julho de 2024 - José Jorge Andrade Damasceno
domingo, 23 de junho de 2024
Já passados cinquenta anos
Alagoinhas – junho 1974-2024 – Já se passaram 50 anos.
Em um 23 de junho como o de hoje, porém de 1974, uma senhora cruel, implacável e indiferente às dores e agonias de quem por ela fosse visitado, esteve nesta casa e, levou inexoravelmente Zé Carlos, arrancando-o furiosa e inapelavelmente dos braços da sua mãe, que ainda não houvera completado quarenta anos e, já recebia o golpe mais funesto e acabrunhador de toda a sua vida, o que fora perpetrado pela tal “senhora de preto”. A vida da genitora do rapaz, ainda moço, mal tendo completado a sua segunda década de existência, àquela altura, já sujeita a ser vivida sob avalanches e tempestades, ali em sua casa, recebera o vento frio da morte que lhe soprara desfavorável, levando para longe dos seus cuidados, aquele seu filho primogênito, que, até então, lhe fora arrimo para ajudar a criar outros dois.
Aquele dia, como todos os demais transcorridos desde que Zé Carlos fora mandado para casa em alta hospitalar, se erguera sem sobressaltos; correra no seu passo marcado pelo levantar do sol, pela sua chegada ao meio dia e pelo seu caminhar para se pôr no horizonte, sem qualquer indicação de borrasca, exceto no coração de dona Amanda, que se lhe apertava diante de sonho a ela contado pelo filho convalescente – sonhara com lugar gramado em que chegara por um acesso aladeirado, lugar que a ela pareceu ser um cemitério -, que lhe despertara a suspeita de um desfecho que ela não queria imaginar, mas sabia que mais dia menos dia, seria aquele: o seu filho não sobreviveria àquela “doença ruim”, que pouco a pouco lhe tragava as forças e os sinais vitais. Talvez fosse a segunda quinzena de março, quando chegara em casa de volta do hospital – para morrer em casa, dissera dona Amanda tempos depois, que para isto fora alertada pelos médicos, que aliás, aos quais nunca perdoou -, na perspectiva de se recuperar de cirurgia para remoção de um tumor no intestino. Dali para a frente, era cercado de cuidados não só na ministração dos remédios – quase sempre para lhe mitigar as muitas dores -, como também na elaboração e administração de alimentação em horários e medidas bem definidas.
Este seu irmão que ora rememora um pouco daqueles dias, fora induzido a acreditar que logo o teria de volta para juntos irem para os lugares que costumavam ir – cortar o cabelo na “Boca do Corte”, para o Brasilino Viegas no quadro da sua bicicleta, cujo trajeto era feito pela rua Luiz Viana -; fazer as travessuras que juntos fizeram – a despeito dos seis anos que os separava -; ele acreditava que logo os dois voltariam a ouvir e a cantarolar as músicas que compartilhavam no rádio... Mas, por outro lado, recebia a advertência materna para que se comportasse e não brigasse tanto com a sua irmã – aliás, com quem nunca se dera bem, até o fim da vida dela -, para não entristecer o irmão maior e para não dificultar a sua recuperação...
Assim, todos aqueles dias foram vividos quase como os demais que lhe antecederam, marcados somente pela ansiedade de logo ter de volta à normalidade daquela casa e do jornalhar da sua mãe, que, na condição de lavadeira de ganho, não poderia deixar de desenvolver aquela atividade laboral, sob pena de não ter sequer como fazer frente às necessidades corriqueiras já estabelecidas, tanto pior, aquelas necessidades criadas pela convalescença daquele filho. Terminou o verão; veio o outono e com ele uma tristeza incompreensível para aquele adolescente que precisava continuar o seu ir e vir para a escola, sem poder ficar todo o tempo perto do seu irmão; e, de nada adiantando isto, visto que nada havia que ele pudesse fazer em favor do enfermo, a não ser, evitar os constantes atritos com a outra irmã, para não aumentar ainda mais a tristeza de dona Amada. Tristeza aliás, já notória e, que por mais que ela se esforçasse, já não conseguia disfarçar. Talvez, apenas o enfermo e o seu irmão menor, acreditassem em uma recuperação de sua saúde, o que forçava dona Amanda a procurar se manter “confiante”, embora já soubesse que aquilo não se daria, mesmo, evidentemente, ela desejando ardentemente que se desse o contrário: que o seu filho se recuperasse e retomasse o viver saudável e alcançar um “futuro”, mesmo sem saber o que de fato aquilo seria.
E os meses e as estações se arrastaram e passaram pesadas; os dias cada vez mais encobertos e as noites cheias de sobressaltos para quele menino que tinha medo de mortos; mas, ele não acreditava que o seu irmão, ainda tão moço, viesse a ser um dentre aqueles; dias, semanas e meses passavam...; já se não ouvia rádio; já se não cantava as músicas de sucessos que tocava no fim de tarde, como o fizera junto com aquele seu irmão, por pelo menos aqueles quatro anos; nem os jogos do campeonato; nem as corridas de formula 1; tudo era sombrio e frio; inclusive o clima, ainda mais denso e tenso, dentro da casa do que fora dela, em razão dos receios que envolviam aquela atmosfera outonal: maio, junho... e, com ele, chegara o inverno, aquela tão temida estação do fim “da vida”, do murchar das folhas que ainda se mantiveram nas árvores por todo o outono; aquela estação chuvosa que obriga o humano a vestir casacos, capotes, capas de chuva; a fechar as janelas para que os ventos e a umidade não deixem o ambiente ainda mais taciturno... nem se diga que a casa não possuía teto nem forro; a cobertura era de telha vã, o que quase neutralizava os esforços para se proteger das baixas temperaturas típicas de junho e dos meses subsequentes, até que chegue a Primavera... mas, para Zé Carlos, aquela primavera não chegou; sobre ele e sobre a sua vida, o inverno implacável prevaleceu e, por volta das seis da tarde, o seu corpo deixou de ter vida, não teve mais calor: um corpo frio se tornou e em um caixão foi deitado, para logo no dia seguinte ser sepultado...
Naquele domingo de inverno, fim de tarde fria, aquela casa contrastava com as demais casas em que os seus moradores e visitantes festejavam efusivamente o São João com comidas, bebidas, fogueiras, foguetes e folguedos; com licores, laranjas, milhos – assados ou cozidos - e amendoins; onde dançavam ao som de sanfonas, zabumbas, triângulos, ou de músicas tocadas em suas radiolas, a despeito das lágrimas de dor, tristeza e de saudade que rolavam quentes e abundantes pelos rostos da mãe e dos irmãos de Zé Carlos, cuja vida fora interrompida há apenas alguns minutos.
Hoje, cinquenta anos depois de ter vivido aquela experiência tão traumática, ousa-se concluir que tudo está rigorosamente igual: muitos dançam, cantam, bebem, folgam, sempre e como sempre, indiferentes a aqueles que, por alguma razão, de qualquer ordem, não tem o que comemorar, do que se alegrar, nem por que folgar. Ao mesmo tempo em que tudo isto se dá, há tantos que agora choram, sofrem; se angustiam; se entristecem e padecem suas dores – físicas ou psíquicas -, sem que ninguém se dê conta disto.
Uma música que bem ilustraria aquele e este momento, fora grande sucesso à época que acima se descreveu em rápidas linhas. Trata-se de “Por que chora a tarde”, de Antônio Marcos, que dá uma boa ideia do que se pode passar na vida de alguém, a despeito de muitos indiferentes, folgarem e festejarem, enquanto há rostos envoltos em chorares e, almas em desespero, muito gritarem. Mas, gritar? Para quem ouvir? Quem deixaria os seus festejares para acudir a quem grita por socorro, por ajuda?
https://youtu.be/7hajrnEvusQ?si=C6L-zkvv7W9UmGRM
José Jorge Andrade Damasceno – professor titular na Universidade do Estado da Bahia – Campus II, Alagoinhas.
23 de junho de 2024.
terça-feira, 28 de maio de 2024
Uma homenagem ao Apolinho
O Rádio ainda mais pobre: morre o “Apolinho”.
Em escritos pretéritos, já se disse que este escrevedor teve o rádio como sua escola, sua revista, seu jornal, seu dicionário, sua gramática; que para ele o rádio atuava como professor de política, sociedade, economia, de comportamento; que funcionara enfim, como o meio que lhe forjara o modo de ler o mundo e, grande parte do seu modo de pensar.
No rádio se aprendeu a gostar de música, a falar bem, a refletir a respeito das coisas à sua volta; também aprendera com o rádio o que viria a ser cultura, uma vez que o acesso aos livros e outros materiais de leitura lhe eram extremamente restritos, tanto do ponto de vista da possibilidade de os comprar, quanto do ponto de vista da possibilidade de os ler, de modo independente e autônomo.
Pois bem. Ao longo dos sessenta e três anos até aqui vividos, ele ouviu grandes vozes, grandes locuções realizadas por repórteres, apresentadores de programas de entretenimento; noticiaristas e comentaristas que traziam o cotidiano do “Brasil e do Mundo” para os seus ouvintes. AS guerras, os conflitos, as crises sociais e econômicas eram dados ao conhecimento daqueles que, em grande medida, só o alcançariam mediante as audições de programas de rádio.
Algumas daquelas emissoras em transmissões na faixa de “Amplitude Modulada (AM)” ou em ondas curtas, se fizeram memoráveis para este escrevente: rádio Jornal do Brasil – com “O Jornal do Brasil Informa”, que era ouvido por este radioescuta, nas edições das 18:30h e das 00:30h, com Maurício Figueiredo (1944-2011) e Márcio Seixas (1945-) -, rádio Globo 1220KHZ, Rádio Eldorado, rádio Tamoio, rádio Mundial, e rádio Tupi, entre outras, Rio de Janeiro; rádio Bandeirantes, rádio Cultura, rádio Capital, entre outras, São Paulo; programas como Haroldo de Andrade (1934-2008) – programa que contava com o seu “Bom-Dia”, com a sua “Pesquisa do Dia” e com os seus “Debates Populares”, onde se pôde ouvir grandes temas debatidos por gente como Artur da Távola (1936-2008, Carlos Bacelar (1944-2005), Lúcia Hipólito (1950-2023), João Pinheiro Neto (1928-2003), Edgar Flexa Ribeiro (1940-), entre outros -; aos domingos , logo depois do “Domingo Mobral”, a partir das onze e quinze da manhã, se poderia ouvir “Mário Luiz é uma parada”, vindo a seguir o “Enquanto a Bola não Rola”, apresentado no início da tarde, por importantes nomes da crônica esportiva carioca como Loureiro Neto, Eraldo Leite, Cleber Leite, Sergio Noronha, Washington Rodrigues, Gerson “Canhotinha de Ouro”, Francisco Horta, Luiz Mendes, entre outros -, O Seu Redator Chefe, as edições de “O Globo no Ar” e do “Correspondente Globo”, na rádio Globo Rio – que ainda contava com vozes marcantes como as de Edmo Zarife (1940-1999), o já mencionado Mário Luiz (1929-2009), Guilherme de Souza (1929-2019), Sérgio Nogueira (1947-2010), Roberto Figueiredo (1933-2021) -; na rádio Nacional do Rio de Janeiro, também era possível ouvir o “Tabuleiro do Brasil”, com Geraldo do Norte, o programa “Alô Daisy” na agradabilíssima apresentação de Daisy Lúcidi (Daisy Lopes Lúcidi Mendes 1929-2020) – uma das seções do programa era o “Agora que são Elas”, com excelentes debates mediados por ela, cuja mesa era formada apenas por mulheres; também havia aquele outro debate, desta vez, com uma mesa formada só por homens e, também mediado pela própria apresentadora -, programa MusiShow, com Cirilo Reis, programa Luiz Vieira- alientando-se que parte da programação da rádio Nacional do Rio de Janeiro só era possível ser captada a partir das suas ondas curtas de 31 metros -; o Pulo do Gato, com José Paulo de Andrade, Jornal Primeira Hora e Jornal da Bandeirantes Gente, na Rádio Bandeirantes, jornal Ouça com Heródoto Barbeiro na rádio Excelsior, foram basilares na construção cultural e na formação do linguajar deste que ora traça estes escritos de nostalgia.
No entanto, o rádio – principalmente o rádio AM - nos últimos anos vem perdendo importância e protagonismo no campo da comunicação de massa, pelos motivos os mais diversos. Entre os tantos, este escrevente apontaria a baixa qualidade daqueles que passaram a compor a “ala moça” do setor, fazendo cair vertiginosamente o nível da linguagem, muitos deles demonstrando pouquíssima capacidade de fazer simples leituras de textos. Prenhes de técnicas comunicacionais, grande parte está vazia de domínio do vernáculo, se diria, semianalfabetos no que respeita ao uso daquela ferramenta tão essencial na tarefa de comunicar, não mais propiciando aos ouvintes uma firmeza no campo da articulação entre transmissão e recepção de mensagens.
Além do desligamento daquela faixa de propagação que permitia o rádio ser ouvido a longa distância – submetendo os ouvintes às emissoras de frequência modulada (FM”, de menor qualidade e, felizmente, também de menor alcance -, desde a pandemia de Covid19 tem-se assistido a morte daqueles locutores mais bem formados e mais talhados para um rádio versátil e diverso.
Alguns deles poderiam aqui ser mencionados, como foi o caso de José Paulo de Andrade (1942-2020), já aludido acima, que fora tragado pela Covid19; radialista esportivo Gilson Ricardo (1948-2023), que por muitos anos apresentou o seu “Panorama Esportivo” e, em 15 de maio de 2024, o rádio e a radiofonia brasileira perdem um dos seus maiores representantes, no que respeita à cultura, a elegância e ao trato com o vernáculo, âncoras tão necessárias para se fazer um bom rádio. Morre o “Apolinho” ou o “Velho Apolo”, Washington Rodrigues (1936-2024), homem de rádio por mais de sessenta anos. Primeiro como repórter esportivo, passando a comentarista – chegando a ser dirigente e treinador do seu clube esportivo de coração, o Flamengo -, o Apolinho foi ouvido por quem ora escreve estas páginas, desde sua tenra idade, ainda quando ele fazia dupla com Deni Meneses (1939-), formando a dupla que tornou célebre o jargão “Os Trepidantes”. Desde então, o ouviu nos diversos espaços que ocupou no rádio, inclusive o último deles, o de apresentador de programa de variedades e entretenimento – o Show do Apolinho na rádio Tupi por quase 25 anos -, sempre com competência e qualidade de locução e domínio das formas de falar.
É assim que o tempo implacável e o câncer, um dos seus principais aliados, vai levando os grandes nomes que atuaram no rádio por todo o tempo de vida deste garatujador, deixando cada vez mais paupérrimo o meio de comunicação que sempre lhe foi por escola: o rádio.
Fiquem com a emoção de Luiz Penido, ao anunciar a morte do companheiro e amigo, em plena transmissão do jogo do Flamengo, no Maracanã.
https://youtu.be/2IcVH-J_Hjk?si=25p-SdTHguWES7s0
José Jorge Andrade Damasceno – professor Titular na Universidade do Estado da Bahia, lotado no colegiado de História, Campus II, Alagoinhas.
E-mail: historiadorbaiano@gmail.com
domingo, 24 de dezembro de 2023
Idos de Dezembro de 2004
Histórias e Memórias do último Dezembro que Mãe e filho Passaram Juntos
Era dezembro de 2004 e, as coisas corriam com alguma normalidade, quando se trata de pessoas que não nutriam grandes expectativas natalinas, nem vãs esperanças de um novo ano, como propalavam os reclames comerciais do período. A rua ainda gozava de um relativo sossego e o abuso das músicas em alto volume, ainda não era um problema de respeito aos vizinhos. Embora sempre houvesse quem gostasse de tocar músicas em volumes extremos, isto ocorria em algumas ocasiões, sobretudo, no Natal e Ano Novo, ainda assim, poucos eram os sons tocados em carros, o que tornava um pouco mais suportável.
Por volta dos meados do mês, este escrevedor acabara de chegar do Rio de Janeiro, trazendo na bagagem a aprovação par o ingresso do programa de Pós-Graduação da UFF, na turma de doutorado para o ano de 2005, aprovação que coroara de êxito os esforço envidados por este escrevedor, desde o ano de 2000, vendo adiar-se ano a ano, temendo o avanço da idade e a possibilidade nada improvável de lograr inserir-se naquele curso tão bem avaliado. Embora sua mãe pouco ou nada entendesse de todo aquele processo, de todo aquele ir e vir de seleção em seleção, se regozijara deveras com o resultado do filho; este, evidentemente, se regozijara bem mais do regozijo dela, do que do seu resultado, talvez, por ter consciência do que aquela aprovação representava para o curso do seu caminhar acadêmico, bem como da responsabilidade que assumira para si, tanto diante da universidade que o receberia, quanto daquela que o liberaria para realizar a pesquisa e defender a tese, sem os labores docentes em sala de aula.
A bem da verdade, já estava no seu horizonte, o que precisaria providenciar para uma ausência de um semestre, pretendendo que aquele período de estada no Rio, não sobrecarregasse aquela senhora prestes a completar setenta anos, pois, sob os seus cuidados, ficariam as tarefas que eles sempre desempenharam juntos, um dividindo com o outro, o peso do farfalhar cotidiano. Isto, já o preocupava sobremaneira.
Como já era um hábito, desde que voltou a morar em Alagoinhas, a então consorte era levada com as crianças para Salvador, a fim de passarem com a avó e tios, as festividades de fim de ano, já que, aqui, ele e sua mãe, nunca se importaram com tais festejos, ele por não entender haver qualquer sentido neles; ela por ter tido uma vida de perdas e com os seus parcos recursos financeiros, não pudera ou sequer fizera questão de comemorar tais veleidades comerciais. Logo, mãe e filho ficariam sós em casa, por ocasião dos feriados de final de ano.
Com a casa assim esvaziada, mãe e filho se puseram a imaginar o que poderiam elaborar para aquele almoço em que só eles estariam à mesa – sem que ele pudesse nem de longe suspeitar, embora sempre temesse esta hipótese -, que aquele seria o último que passariam juntos aqui na vida terreal.
Não eram exigentes; mas ela sabia fazer algumas coisas muitíssimo saborosas. Na sexta-feira, 24, como de costume, saíram por volta das oito da manhã para fazer a feira, onde comprariam o costumeiro feijão mulatinho, a indispensável farinha, algumas frutas e verduras, mangaba para o suco, ovos – que ela sempre comprava nas mãos de uma antiga vizinha -, bem como a galinha de postura, abatida na hora, que ambos, muito apreciavam; depois, entrariam no supermercado, onde comprariam o restante dos produtos e temperos para o preparo dos alimentos; além de café, açúcar, arroz, leite... enfim, o necessário para passar a semana, para além das festividades da ocasião.
De volta ao espaço de residência, foi preparado e servido o almoço: talvez tenha sido um fígado, ou mesmo um peixe, que ela temperava com todo o seu esmero de q mãe solícita e cuidadosa.
Veio a tarde e, com ela a solidão daqueles dois que não eram movidos por qualquer interesse natalino do modo como era apregoado, comemorado e, até mesmo, pregado pelas Igrejas protestantes, que aliás, embora tenha se separado da Igreja romana por divergências de interpretação das escrituras, não se desvencilhou de suas práticas dogmáticas e tradicionais de natais e coisas que tais; viria mais uma noite sem “Missa do Galo” na Matriz; ou sem “cantata de Natal” na primeira Igreja Batista, ou na Igreja Batista Belém; sem árvores artificiais; sem pisca-piscas; sem quaisquer enfeites nas paredes ou pendentes dos teto; sem quimeras “pais noéis”, nem mesmo para iludir as crianças; sem roupas nem sapatos novos para ostentar; nem presentes – só ausentes: os meninos! -; sem “reunião de família”, inútil e desnecessária, visto que durante todo o ano o que prevalece é a “desunião”; enfim: uma noite como as demais do ano; aliás, diferente, pois em casa eram só os dois – mãe e filho - que se encontravam presentes -; sem músicas alusivas a data – aliás, todas insossas, insípidas, inodoras, sem sentido, desgastadas e, porque não dizer: ineficazes!
Portanto, felizmente, passara aquela noite desprovida de qualquer valia prática para a fé de quem quer que creia, pois, o “Natal” além de uma ser uma tradição europeia/ibérica sem o menor valor histórico e cultural para grande parte da população hispano/luso falante, também é um festejo de exclusão social, mediada pela fragilíssima condição econômica daqueles que são desprovidos dos recursos financeiros exigidos para que possa tomar parte dele.
Também é cediço que o tal festejo natalino é lastreado no engano – cujo maior exemplo é o já insustentável mito do “Papai Noel”. Deve se salientar, outrossim, que o tal de “Natal”, traz ampla possiblidade da prática aberta e despudorada da mais estúpida hipocrisia.
Mas, ela – a noite de 24 - passou e, veio o dia. O que seria pior: a noite de 24, ou todo o dia de 25? A resposta vai depender de quem responde: ou aquele que recebeu todo que pedira – porque, fique claro, havia que pudesse dar – ou daquele que nada recebera – igualmente, pelo motivo contrário: não teve que pudesse dar.
E, veio o dia e, com ele, a hora do almoço. Um feijão caprichosamente temperado; uma porção de arroz com passas, temperado com o mesmo capricho e grande esmero; coxa e sobre coxa de uma galinha de postura, assada no forno; salada de verdura; farofa de cenoura: e dois pratos na mesa; apenas duas pessoas assentadas diante deles.
Só ela e o seu filho, almoçaram naquele dia 25 de dezembro de 2004. No ano seguinte, só ele estivera àquela mesa, pois ela partira deste mundo, pouco menos de dois meses antes. Ele, até tentara repetir o prato: mas não logrou êxito; as abundantes lágrimas de saudade e de desalento, lhe fizeram companhia àquela cabeceira da mesa em que estivera na companhia dela, apenas um ano antes.
Alagoinhas, 24 de dezembro de 2023 – dezenove anos depois dos fatos aqui rapidamente narrados.
José Jorge Andrade Damasceno
sexta-feira, 24 de novembro de 2023
CARTA ABERTA - II
Carta aberta a excelentíssima senhora dona Solidão.
Prezada senhora: não te desejo saúde, nem te saúdo com qualquer tipo de cumprimento.
Para mim, a senhora nem merece o tempo que vou dispender para escrever este arrazoado. Mas, como é preciso falar algumas coisas, então, vamos lá.
É certo que já nos conhecemos a um bom número de décadas; é igualmente certo, que já procurei obter da senhora o divórcio inúmeras vezes; e, claro, todas aquelas inúmeras vezes a senhora se recusou a descasar-se de mim.
A senhora, é bom que se diga, se casou comigo, evidentemente contra a minha vontade, desde aquele dia que fui expulso do aconchegante ventre da minha mãe e, de lá para cá, venho envidando diversos esforços para me desvencilhar da relação abusiva e tóxica – como está na moda se dizer hoje em dia-, a que tenho sido submetido pela excelentíssima senhora , por todos estes sessenta e dois anos, já vividos até o presente instante.
Diversas foram as tentativas feitas por mim para que a senhora me desse um pouco de sossego; para que a senhora desse um tempo e esquecesse de mim; para que a senhora se fosse para bem longe e, de lá nem pensasse em voltar.
Procurei brincar de quase todas as brincadeiras que as minhas limitações permitiam: mas, a senhora estava lá, sobretudo, quando parte daquelas brincadeiras não eram compatíveis com os meus faróis intermitentemente apagados.
Tentei conversar com as meninas; tentei trocar ideias com os meninos; tentei contar causos e piadas; tentei me enturmar entre os colegas das escolas por onde passei; procurei me envolver nos folguedos e nas festas dos que possuíam a mesma idade que eu; procurei fumar os cigarros badalados de então: - LS, Vila Rica, River, Hollywood, Continental, Callton Minister, Hilton -, para ver se era aceito e encontrava a minha turma, procurando me entrosar em alguma delas: nada feito, tudo em vão. Sempre a senhora se intrometia nos lugares aonde eu ia, frequentava...;
Também cantei em bares; neles toquei violão; ali, tomei largos goles de cachaça; bebi cerveja, experimentei vinho; até “Cuba Libre” em um bar no centro da cidade, eu tomei: mas sempre só, em uma mesa que poderiam estar quatro pessoas assentadas, trocando figurinhas, jogando conversa fora e, claro, apreciando a mistura de Montilla com Coca cola e limão! Mas, quem era a minha companhia inseparável, quem não desgrudava de min, nem da minha vida? A senhora, dona Solidão.
Muitas vezes fui a festas, visto que diziam:
- Ora, você não sai de casa!
Pois então: fui a festas; várias festas. Festas no Tênis Clube; festa no Vencedor, festa da Mocidade, Criação de Mário Boa Morte e Tibúrcio, realizada na Praça Maestro Santa Isabel; fui algumas vezes atrás do Trio Elétrico de Valnei; fui em duas micaretas; fui em festas de Natal, garbosamente realizada no largo da Matriz de Santo Antônio; também nas de passagem de ano, tempo em que se armava o parque Cacique. Mas, adivinha quem era a minha companheira constante, permanente, presente sempre em todas aquelas ocasiões? A senhora, dona Solidão.
Amigos? Namoradas, que todos tinham em profusão, muitas vezes causando até mesmo confusão? Todos tinham mas, eu não.
Bom. Aí, aí veio o tempo do “Segundo Grau” e o tempo da “Igreja”. Nem ali, dona Solidão, a senhora se afastou de mim. Tentei entrar nos grupos; nas patotas; nas “igrejinhas” já consolidadas.... Aí é que a coisa entornou de vez. Não se entra nestes espaços, sem que seja convidado por um de seus líderes; assim mesmo, um tempo de desconfiança e retração é invariavelmente vivido pelo novato, convidado; que dizer do noviço intruso?
Mas, a senhora, mesmo não tendo sido convidada nem por mim, nem pelos demais participantes do meio onde se davam as celebrações cúlticas ou as atividades escolares, lá estavas, garbosa e ensimesmada, dona da situação, fazendo com que eu me sentisse ainda mais isolado do que o fio elétrico que, além de ser encapado para segurança dos usuários, corre dentro de dutos, escondidos nas paredes e lajes de um prédio qualquer.
Ineludivelmente o tempo passava célere, a idade avançava indiferente a mim e ao teu assédio constante ao meu viver sem ninguém com quem pudesse contar, com até alguns poucos amigos, mas, eles, já tinham as suas obrigações laborais, as suas demandas conjugais, os seus compromissos profissionais que os ocupavam, que deles exigiam energias e atenção. Portanto, não dispondo de tempo para me ouvir as queixas, para me amenizar os temores, para me confortar as dores do celibato compulsório. Mas a senhora, dona Solidão, cá estava, pronta a me enredar em insônias, em mil tentativas de encontrar soluções, quase sempre as mais desencontradas.
Nem é preciso dizer que tudo isto acabava fazendo com que eu me angustiasse com os dias velozes que passavam e a minha vida permanecia indefinida, sob todos os aspectos. E a senhora, o que dizia em meu apoio? Nada, pois a senhora nunca tem nada a dizer, para aqueles a quem a senhora se assenhora da vida, dos espaços, dos pensamentos, dos desejos... A sua tirania, dona Solidão, pode ser comparada àquela exercida sobre aqueles que são levados al cadafalso para ser submetido à guilhotina, sem que tenha quem o possa substituir, como o encontrara um dos personagens de Charles Dickens, ao “contar” um dos mais sangrentos momentos da Revolução Francesa. A tirania daquelas multidões enfurecidas e ávidas por sangue, que ansiavam por guilhotinar a tantos quantos pudessem e a tantos quantos classificassem como “traidores”, é a tirania que a senhora exerce sobre aqueles a quem a senhora aprisiona em tuas teias tecidas com os fios da incerteza, arrematando conosco de dúvidas quase insanáveis, de tristezas inconsoláveis, de angústias quase insuportáveis, distribuídos em várias partes da tessitura maldita.
Pouco ou nada adiantou para este missivista o fato de ter alcançado alguns patamares na vida acadêmica e profissional, pois, como sempre fora, a senhora não o largara. Ao contrário. Acada vez que ele se encontrava rodeado de alunos, de colegas ou, de alguns poucos amigos.... a senhora lá estava, impávida, incólume, ereta e altiva, sem sequer fazer qualquer esforço para ele não perceber a tua presença incômoda.
Só bastava ele ultrapassar o limiar da porta de saída do seu local de trabalho, para a senhora se lhe chegar aos ouvidos para dizer:
- Oi, estou por aqui, viu? Mesmo neste Ônibus cheio de estudantes em algazarras juvenis. Quando você descer no ponto do Batalhão e atravessar o asfalto, tomando a direção de casa, o meu silêncio te acompanhará até lá. Fique tranquilo. Conte comigo!
Não foi diferente nas minhas andanças por São Lázaro, pelo tempo que cursei o mestrado, pois foi a senhora a minha companhia; nem em Niterói, onde eu passei os mais duros dias do meu viver, onde a saudade dos meus filhos me feria os olhos e a tristeza de estar longe deles me cortava os ossos, era a senhora, dona Solidão que me acompanhava cada passo dado naquela cidade e, mesmo, no Campus do Gragoatá, para onde me dirigia ladeando a Baía de Guanabara para assistir as aulas; lá estava a senhora, andando comigo, falando comigo, dormindo comigo, acordando comigo, morando comigo, assistindo impassiva, quando eu chorava a falta dos meus filhos ainda tenros e frágeis...
E o que dizer quando a morte tirou a minha mãe de mim, aliás, a única pessoa que fazia frente à tua insistência em estar sempre comigo? Foi a senhora que, de uma vez por todas, sem a menor cerimônia, sem nenhum pejo ou pudor de quaisquer ordem, se assenhoreou de mim e do meu ser, sem me deixar qualquer chance de te rechaçar, de te rejeitar, de te recusar a indesejada companhia.
Agora que já estou velho, cansado de tua presença constante em minha vida, na minha cama, na minha mesa, no meu quarto, no meu almoço e no meu jantar; no meu café e na minha sala de estar, na minha cozinha; no meu escritório de trabalho; no meu escrever, no meu ler, no meu ouvir músicas; que até me impedes de fazer um café fresco para tomar no meio da tarde, já que ninguém há para me fazer companhia, com quem saborear aos goles em meio a uma boa conversa; depois de me teres feito chorar tantas lágrimas quantos anos eu já vivi; depois de me teres angustiado a não mais poder enumerar..., uma vez mais insisto que me quero divorciar da senhora, dona Solidão; quero da senhora, separação incondicional; quero que o destrato seja irrevogável; insisto que quero que a senhora se retire da minha vida e se vá para bem longe; insisto que me deixe viver o que resta dos meus dias, reaparecendo apenas, para me fazer companhia na sepultura, onde, aliás, dona Solidão, eres presença inevitável.
Alagoinhas 24 de Novembro de 2023
José Jorge Andrade Damasceno
historiadorbaiano@gmail.com
HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DE UM MININUTINHO DE ATENÇÃO
Histórias e Memórias De Um Minutinho de Atenção
Já vai bem distante o tempo em que o estádio Antônio Carneiro fora palco de memoráveis eventos esportivos, envolvendo o Atlético de Alagoinhas em seus tempos de jovem equipe de futebol, que enfrentava de igual para igual as agremiações futebolísticas de Salvador, sobretudo, o Esporte Clube Bahia de Osório Vilas Boas e, o Esporte Clube Vitória de Raimundo Rocha Pires, que desde pelo menos a década de 1960, alternavam entre si as posições de campeões e vice-campeões baianos, quase todas as edições da competição no período referido, exceto duas ou três delas, que foram vencidas pelo Fluminense de Feira de Santana e pelo Leônico.
De sorte que, tendo chegado à década de 1970 e o Atlético de Alagoinhas, ainda há pouco fundado, fazia frente aquelas duas equipes soteropolitanas, muitas vezes, derrotado, segundo se dizia, pela intervenção da arbitragem.
Para este aprendiz de cronista, Um daqueles domingos , talvez de julho ou agosto de 1976, amanhecera como quase todos os outros dos meses anteriores e amanheceria como os que ainda viriam nos meses subsequentes. Levantara-se como de costume, mas, com o propósito de se dirigir ao Carneirão, pois ali se travaria uma partida decisiva para a classificação do Atlético para a disputa do título, caso fosse o vencedor da peleja contra um dos dois sempre campeões ou vice-campeões, como já se salientou.
Após o almoço frugal de um filho de mulher do povo, que com o seu trabalho, mal conseguia prover a ração diária da sua prole já desfalcada do seu primogênito, aquele garoto, há pouco entrado nos quinze anos, passou a matutar em uma forma de entrar no estádio, visto que não possuía os recursos para a aquisição do ingresso, nem conhecidos entre aqueles que fariam a conferência dos bilhetes e dariam permissão ao acesso.
Aquele rapaz lembrou-se de que poderia se apresentar na portaria da rádio Emissora de Alagoinhas e, junto aos locutores que iria fazer a transmissão da peleja futebolística, quem sabe, o faria ingressar junto com a equipe esportiva.
Assim pensando, saiu d final do Dois de julho onde morava e, dirigiu-se até a Rua Dom Pedro II, 117, onde se situava a rádio em questão. Lá estava o pessoal quase de saída e, parando para dar atenção àquele inesperado ouvinte/torcedor, o senhor Celio Machado, então diretor da emissora, autorizou que ele fosse junto com a equipe, com a recomendação de não sair do perímetro das cabines de imprensa.
Aquela equipe formada por Lourival de Andrade, Augusto Saraiva, J Batista e Belmiro Deusdete, com J Costa na técnica interna, em uma Chevrolet Veraneio, juntamente com os cabos e demais materiais que seriam utilizados na jornada, levou consigo aquele torcedor insólito, que apenas teria contato com aquela importante partida mediante à audição das transmissões radiofônicas.
Porém, àquela altura, a ele isto pouco importava; o que queria era estar ali, no calor humano emanado pela presença daqueles torcedores atentos e aguerridos, incentivando e empurrando o seu time local para a vitória contra o gigante da capital e mais: perto, ao lado, lado a lado com os locutores que só podia ouvir de casa, em um aparelho de rádio. Ali, ele os ouviria, como se diria hoje, “em tempo real”.
Mas, uma surpresa lhe estava reservada:: ao ser concluído o primeiro tempo de jogo, ele saiu bisbilhotando as demais cabines de rádio, aliás, todas ocupadas pelas emissoras de Salvador, que faziam transmissões esportivas: Rádio Cultura, Rádio Excelsior, rádio Cruzeiro da Bahia, talvez, já a rádio Clube – a mais nova dentre elas, inaugurada em 1975 – e, a mais conhecida e de maior audiência: a Rádio Sociedade da Bahia, então integrante dos famosos Diários Associados, do lendário Assis Chateaubriand.
Naquela cabine em especial, se encontrava para transmitir aquele duelo futebolístico, um locutor que aquele rapazinho já ouvia pelas ondas da rádio Sociedade, espraiadas a partir de seus transmissores, ainda localizados em Água Comprida, nas proximidades de Simões Filho: Antônio Pondé, era aquele locutor, já conhecido dos alagoinhenses mais maduros, mas que este escrevedor só conhecera enquanto locutor esportivo, quando se transferiu para aquela emissora que se proclamava “a mais potente do norte e nordeste”.
Como era o intervalo da partida e o microfone estava sendo ocupado por um dos comentaristas, talvez Edson Almeida, dono de uma voz forte, firme e bem empostada, Antônio Pondé, gentilmente, concedeu um minutinho de sua atenção para este escrevedor, apertando-lhe a mão, o que lhe causou uma tão profunda impressão, que, ao ler que a Câmara Municipal de Alagoinhas, inaugurara um comitê de imprensa, colocando nele o seu nome, imediatamente aquele aperto de mão tão breve, singelo e despropositado, veio à memória deste escrevedor.–
José Jorge Andrade Damasceno – Alagoinhas – 24 de novembro de 2023.
historiadorbaiano@gmail.com
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